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sexta-feira, 21 de julho de 2017

O Ídolo Contemporâneo - Parte II

Por
Rev. Padre Jacques-Marie-Louis Monsabré

Diz-se aí, senhores, que as palavras Deus, Providência e Imortalidade são velhas e intoleráveis; nada mais verdadeiro. O ídolo contemporâneo, submetido à pressão das ideias e dos atos que por um lado nos representam a Deus, e por outro lado a alma humana, cai por terra, quebra-se, esmigalha-se, e protesta contra as temerárias pretensões dos seus fabricadores. Antes de vos dar os pormenores desta consoladora catástrofe, não vos impressionou, como a mim, este fato singular, a saber: que temos a ideia precisa de seres, essencialmente diferentes da matéria, a ideia de forças superiores à matéria? Seja qual for a origem desta ideia, como a poderíamos alcançar, se nada existiu e nada existe além da natureza? É-me absolutamente impossível admitir, que um ser possa nunca formar ideia do que não existe, ideia que, na hipótese de se formar, deveria por fim ser rejeitada quando a inteligência fosse esclarecida pela verdade. E, pois, que nos dizem que somos o ludibrio de uma ilusão, afirmo que a ilusão é improdutível, e que é absolutamente impossível que possamos formar ideia de coisas, cujos elementos não existiram, não existem, não existirão nunca. Estudai as quimeras que o espírito humano concebe, e vereis que se compõem de elementos realmente existentes na natureza: mas na hipótese de que a matéria é o único ser atual e possível, como poderia eu conceber as quimeras, Deus e a alma, se a essência que lhes atribuo está fora de tudo que existe ou pode existir? Não sei, senhores, se vos apresento bem esta dificuldade que o senso comum desde logo opõe ao materialismo; mas eu vejo-a, compreendo-a, e sinto que dissipa completamente do meu espírito todas as dúvidas. Analisemo-la, porém, e deste modo compreendereis melhor a sua força. Deus representa para nós o necessário, o infinito, a suprema perfeição, o motor de todos os mundos, o ordenador inteligente de todos os mundos, o Criador e Senhor da nossa vida. Se Deus não existe, é absolutamente necessário que a matéria corresponda a todas estas ideias, porque é impossível suprimi-las sem dar um desmentido ao espírito humano e sem cair no mais espantoso caos. Não é este o intento dos fabricadores e dos pontífices do grande ídolo; sentem, já vo-lo disse, a fatalidade que atribui à matéria tudo o que se nega a Deus. Logo, a matéria deve ser necessária, infinita, a perfeição suprema, a onipotência inteligente. O peso destas perfeições esmaga e aniquila a matéria. Como seria necessário o ser tantas vezes divisível e diviso, suscetível de aumento e diminuição, incessantemente mutável, o ser que posso imaginar como não existindo, ou existindo de um modo diferente, aumentar, diminuir, mudar, consoante apraz ao meu pensamento? Dominado pela minha potência avassaladora, só por meio dela é que esse ser lograria a ter consciência de si. É um ser necessário! E não possui meio algum de manifestar a sua necessidade, e não a conhece senão sob uma forma contingente e mediante fenômenos contingentes! Estranho ser necessário! Como seria infinito? O infinito não se concebe senão suprimindo simultaneamente o limite e o número. Ora, a matéria está sujeita aos números. Na matéria não só se multiplicam seres distintos, mas cada ser e cada parte do ser se resolve numa inumerável quantidade de seres que escapam à observação experimental. A soma de todas estas quantidades finitas, não produz senão um número finito. Repugna à inteligência um número atualmente infinito, composto de unidades sucessivas. Afirmar a possibilidade de tal número seria o mesmo que destruir os fatos, porque um número infinito na matéria produziria o pleno absoluto, o pleno no seu máximo de densidade; e nesta hipótese o vácuo seria um absurdo, o espaço uma quimera, as formas confundir-se-iam, os movimentos estacionariam, o mundo não seria mais do que uma grande massa informe, uma noite, um repouso imenso. As mesmas dificuldades com referência à perfeição. É impossível admitir a perfeição suprema no ser do qual posso afirmar o mais e o menos, no ser onde não vejo senão mudanças contínuas; e o meu espírito busca um ser no qual, segundo a expressão da Escritura, não há nem sombra nem vicissitude. Dir-me-ão: a matéria está sempre em ação; seja. Mas por mais que atue, nunca logrará elevar-se às regiões sublimes onde o meu espírito contempla a suprema perfeição. À medida que a matéria for aperfeiçoando, o meu espírito subirá mais acima; e, se eu mesmo não sou mais do que matéria, lançar-me-ei, em nome dum ser impossível, a uma luta perpétua. Como admitir perfeição suprema num ser essencialmente contraditório? Se ainda não vedes claramente, senhores, como são profundos os golpes que estas grandes ideias abrem no ídolo, descei das esferas da metafísica às humildes regiões do senso comum, e ponde a matéria em presença do movimento universal, da imensa variedade dos seres e da ordem do mundo. Se Deus não existe, é forçoso que seja a matéria a causa de todas estas maravilhas, e, todavia, a matéria, segundo a confissão dos seus adoradores, é originariamente indiferente e cega. Quando “por um esforço inato, a matéria organiza os seus elementos dispersos, e adquire propriedades e perfeições que não tinha” , escrava de leis fatais que a impelem a progredir, sofre a tirania de todas as circunstâncias fortuitas que determinarão as suas formas. “Singular causa, diz com razão um crítico moderno, que viola todas as leis da lógica, e que está em perpétua contradição consigo mesma: ininteligente, produz uma obra que revela inteligência; cega, realiza a harmonia; imprevidente, a tudo prevê; fortuita, cria a ordem; inconsciente, restabelece a solidariedade; fatal, opera como se fora dotada de vontade própria; inanimada, produz a alma e a vida; privada de razão, de entranhas e de sentimentos, opera prodígios de gênio e de amor”. A matéria é tudo, a matéria pode tudo, a matéria faz tudo; eis aqui, senhores, as proposições mais incompreensíveis que se podem conceber, se não é que as explicações com que pretendem justificá-las não são ainda mais incompreensíveis. Como é que a matéria move o universo? Nada mais simples: o movimento, dizem, é essencial à matéria. Quer dizer, senhores, afirma-se, sem provas, o contrário do que o espírito naturalmente concebe quando une estes dois elementos: matéria e movimento; o contrário precisamente do que a experiência ensina e comprova. Naturalmente concebemos que a matéria é movida; experimentalmente apenas observamos séries de movimentos, cujo princípio escapa à ação dos sentidos. Nestes movimentos observamos uma diminuição contínua em proveito da estabilidade dos corpos, de onde se segue que, se nos é lícito determinar a essência da matéria, apoiados na observação das suas tendências, nunca devemos dizer: o movimento é essencial à matéria, mas sim: o estado estático é essencial à matéria. Sobre este ponto os melhores físicos estão de acordo com a tendência natural do nosso espírito a admitir na matéria um movimento adquirido. Segundo eles, a inércia da matéria é o resultado principal da experiência e o fundamento da mecânica: a física deve sempre fazer entrar nos seus cálculos a matéria como coeficiente da inércia” . E de mais, senhores, já vistes, quando desenvolvíamos as provas da existência de Deus, como era absurda a consequência logicamente deduzida do movimento essencial da matéria: cada átomo deveria possuir, como primeiro motor, o plano harmônico de todas as evoluções do movimento; o infinitamente pequeno tornar-se-ia, por esta vasta concepção do todo, num infinitamente grande . Quereis unir a força e a matéria? Pois bem: o que é a força? É uma série de movimentos produzidos por outros movimentos? É a mesma questão. É uma qualidade inerente à matéria? Mas na matéria há uma qualidade que tende ao repouso e que é a negação daquela. É o calor, a eletricidade, o magnetismo? Estes fenômenos são efeitos do movimento e não causas. É um axioma, uma fórmula, uma abstração? Isto não significa nada . É um ser distinto da matéria? De duas uma: este ser ou é múltiplo como os elementos, ou é único. Se é múltiplo, é forçoso que seria determinado e ordenado ao movimento do todo por uma força superior; se é único, é simples, imenso, inteligente, onipotente; o materialismo não o pode admitir sem se contradizer, sem renegar o seu ídolo. Logo, a inércia é essencial à origem de todo o movimento: primeiro mistério. A indiferença e a uniformidade produziram a imensa variedade dos seres: segundo mistério. Diz-se, senhores, que tudo começou por um período atômico e que a mecânica presidiu à origem das coisas. Abster-me-ei de perguntar ao átomo primitivo e à mecânica original de onde procedem: esta pergunta poderia embaraça-los. Estudemos, pois, aqueles seres tais como nos são propostos. Os átomos constitucionais são idênticos e indiferentes à mecânica indeterminada. Pergunto: a conclusão natural que o senso comum deduz destes princípios não é porventura que devem produzir seres perfeitamente semelhantes, na hipótese de que alguma coisa produziram?E digo, na hipótese de produzirem alguma coisa, porque a afinidade eletiva que se supõe nos átomos, está em manifesta contradição com a semelhança completa e indiferença que se lhes atribui. Não tem ao menos o mérito dos átomos de Epicuro, com os quais se pode conceber uma certa variedade nos seres. De mais, a indeterminação original da mecânica não se pode converter por si em determinação. Ponhamos, porém, de parte esta dificuldade. Admitamos que as causas primordiais, cuja apresentação acabo de fazer-vos, produzem todos os seres orgânicos. Eis a vida; essas causas não vão mais longe. “Não há nada semelhante à vida, senão a mesma vida” . Nasce sempre, e por toda a parte, de m gérmen vivo que se alimenta de um blastema, gerado também por um ser vivo. Para o seu desenvolvimento, a vida necessita ainda de princípios orgânicos que possa assimilar; as substâncias inorgânicas, elementares no estado de indiferença química, não a podem sustentar . Diz alguém “que uma garrafa com carbonato de amoníaco, cloreto de potássio, fosfato de soda, de cal, de magnésio, de ferro, de ácido sulfúrico e sílica é, de um modo ideal, o princípio vital completo” . Desafio a quem quer que seja a que faça passar esse ideal à realidade. Mas as gerações espontâneas? Não as estudei de perto, senhores, mas apelo para as experiências decisivas que enterram para sempre aquela hipótese ; apelo para o testemunho de sábios conscienciosos que me afirmam “que a matéria sem espontaneidade nada pode gerar” , “que a geração espontânea é impossível” , “que todas as experiências rejeitam tal hipótese” , que as forças físico-químicas estão condenadas a uma esterilidade absoluta; “que é necessário admitir, em todo o ser vivo, uma ideia que se desenvolve e manifesta pela organização” . Há mais, senhores; não só todo o gérmen protesta contra o átomo primitivo e contra a mecânica primordial, mas os próprios gérmens protestam contra os gérmens. Com efeito, estes gérmens são todos determinados em espécies distintas que nunca se confundem . Ideou-se, bem o sei, um romance científico, abundante em hipóteses, onde a luta pela existência e a seleção natural exercem um papel extravagante, e onde se infere a possibilidade das variedades nas espécies, a possibilidade das suas transformações sucessivas e, da possibilidade das transformações de uma espécie em outra, a possibilidade das transformações de um reino em outro . Mas a experiência bem longe de justificar estas afirmações audaciosas, pelo contrário, desmente-as. Na verdade, diz-nos a experiência que a seleção artificial só produz variedades; que os esforços livres, inteligentes e calculados do homem para um fim indeterminado desfazem-se constantemente contra a imutabilidade da espécie; que a natureza caprichosa reconduz sempre ao primitivo tipo os produtos da arte humana, desde que a arte humana os abandona. Daqui concluímos, com a experiência, que a seleção natural, resultado de circunstâncias fortuitas, não pode operar nenhuma transformação radical, que os tipos são irreformáveis, que o “plano da organização é invariável na determinação dos limites da espécie, que a espécie não sai da espécie” , numa palavra, que o poder soberano dos átomos idênticos e da mecânica indeterminada são contos que servem para conciliar o sono. Estamos, senhores, na presença de um terceiro mistério de onipotência não menos ininteligível e repugnante que os precedentes: o mistério da harmonia produzida pela ininteligência. Não negamos que a matéria possa tornar-se inteligente; isto seria negar o homem e as suas obras; mas para isto é necessário que a matéria se eleve, por uma longa série de transformações, até ao cérebro humano, produtor do pensamento. Antes de examinar o proceder deste órgão maravilhoso, pergunto ao materialismo se as obras do homem não são precedidas de uma obra inteligente, se não existe uma harmonia preexistente aos nossos atos intelectuais. Não, responde-me o materialismo pela boca dos seus mais conspícuos doutores; a natureza procede cegamente, sem desígnio e sem ordem; ao lado das coisas que parecem manifestar um plano, há as exceções e as monstruosidades; “a harmonia é um ideal do homem que aplica ao universo o seu modo de ver as coisas” . É fácil responder a estas afirmações mais que audaciosas. Se há exceções e monstruosidades na natureza são evidentemente desprovidas de valor em comparação dos fatos precisos e determinados nos quais se manifesta um desígnio meditado; quando muito, aquelas exceções provam o limitado alcance do nosso espírito que não pode explica-las. Aos olhos do verdadeiro sábio, a exceção confirma a lei; a monstruosidade faz sobressair os esplendores da ordem pelo poder do contraste. Quanto ao dizer-se que nos enganamos afirmando a inteligência onde vemos a ordem, é impossível, porque somos obrigados, não pela imaginação, mas pela força analógica do senso comum a reconhecer uma inteligência onde quer que vejamos a harmonia e a ordem. É escusado repetir aqui, senhores, o que já ponderei acerca da harmonia do mundo e dos desígnios superiores que ela nos revela. É necessário fechar os olhos de propósito, para não ver coisas tão evidentes, e para não compreender que, se trabalhamos a fim de que as nossas obras sejam realizadas com número, peso e medida, nada mais fazemos do que imitar essa obra admirável na presença da qual todo o homem reto e sincero tem o sentimento do seu nada. “Analisai a molécula. É um modelo de simetria que apresenta um tipo geométrico; os corpos simples para que formem os compostos não se podem combinar senão em números proporcionais determinados e invariáveis” . Uma potência matemática preside a toda a combinação , o sábio descobre-a no infinitamente pequeno, o povo contempla-a no infinitamente grande. E nos seres vivos “um plano de admirável harmonia dispõe as partes de modo que se adaptam perfeitamente ao fim para o qual o todo existe . Que maravilhosa arte nos tecidos! Só no homem há trinta, e nos seus admiráveis enlaçamentos cada molécula ocupa seguramente o lugar que lhe é devido. Que sábia previdência na lei das uniões e na lei do amor, convergindo não somente à propagação da espécie, mas ainda à conservação, à proteção, a educação de seres frágeis que se preparam para as lutas da vida! Os materialistas invocam a fixidez das leis , a federação dos elementos atômicos, o consensus necessário das suas tendências invencíveis , como se todas estas coisas não supusessem uma inteligência que fez a lei, organizou a federação dos elementos e regula as suas tendências. Agrada-me sobremaneira aquele sábio, quando exclama: “Foi a lei, isto é, a inteligência, a ideia, o espírito, o amor que formou o mundo” , e aquele outro que, no seu arrebatamento, esquece as áridas fórmulas da ciência e canta, como se fora poeta, os gloriosos hinos dos elementos e o espírito divino que os fecunda . Bem vedes, senhores, que há inteligência antes do cérebro humano. Se a matéria não pensa senão por meio deste órgão, é forçoso aceitar este absurdo enorme: a ininteligência é mãe da harmonia. Ó divindade miserável! Ídolo falaz do materialismo, eis-te esmagado pelo universo inteiro. O movimento, a variedade dos seres, a vida, a harmonia, tudo pesa sobre ti e te reduz a pó; quero, porém, descarregar os derradeiros golpes sobre a tua teoria do cérebro humano de que te glorias como se fora a tua obra prima. Não é agora, senhores, ocasião oportuna de fazer uma longa demonstração da espiritualidade da alma: esta questão tratar-se-á a seu tempo. Também não me deterei em refutar esses sofismas vulgares com que os materialistas obstinadamente nos apresentam, como causas das nossas operações intelectuais e morais, as condições orgânicas e as funções concomitantes. Limitar-me-ei a consignar os fatos perante os quais é forçoso admitir, ainda uma vez mais, a impotência absoluta da matéria. Em todos os nossos atos, ainda nos mais nobres e levantados, temos a consciência de que somos limitados, e, por conseguinte, dependentes. E se apenas dependemos da matéria, é à matéria que devemos atribuir a consciência do nosso eu, as nossas ideias, os nossos juízos, os nossos raciocínios, a nossa vontade, o sentimento do dever, isto é, devemos derivar, contra os princípios da razão, o imutável do variável, o uno do divisível, o livre do fatal, o meritório do irresponsável. O ser vivo, incessantemente movido pelo princípio que o anima, perde e adquire, algo desaparece e renova-se a ponto de que, da matéria que possuía no começo de um período matematicamente medido pela ciência, não lhe resta a mínima molécula logo que aquele período termina. Por mais nobre que seja a massa de que é formado o cérebro humano, é certo que a cada momento se transforma. E sendo assim, deveríamos, sob a impressão constante de um trabalho que remova o nosso cérebro, modificar constantemente a afirmação da nossa existência. E não é assim. A afirmação da nossa existência é sempre a mesma. Há vinte, quarenta, sessenta anos, e mais ainda talvez, que nós dizemos: eu. Eu imputável que subsiste através da incessante mutabilidade do nosso organismo. Como explicar isto, senhores? Havemos de dizer que cada átomo antes de se ausentar teve o cuidado de dizer adeus e fazer as suas confidências ao átomo que o vem substituir? Seria uma loucura afirmar tal. O eu subsiste e afirma-se precisamente, porque há em nós uma substância simples e imutável que une as fases mutáveis da nossa existência, e a matéria sempre transformada e sempre substituída, não pode ser aquela substância. Do mesmo modo, senhores, a matéria divisível não pode ser a substância que vê em nós as ideias e realiza a unidade dos nossos juízos e raciocínios. A preciosa massa cerebral, por muito impressionável que seja, não pode receber senão as imagens que lhes são apresentadas e, supondo que as conserva, tais imagens nunca nos representariam senão seres particulares, indivíduos determinados. Se em mim há apenas impressões cerebrais, verei, quiçá, tal árvore, tal animal, tal homem, mas ser-me-á absolutamente impossível, exprimindo por uma só palavra um gênero, uma espécie na sua totalidade, ver a árvore, o animal, o homem em geral, e por maioria de razão se se tratar de coisas material e atualmente irrepresentáveis, com o necessário, o possível, o infinito, o absoluto, o futuro e outras. Não é o divisível, mas o uno que forma as ideias e sobe tudo o que as enlaça em nossos juízos e raciocínios. Quando dizemos: este homem é justo, onde é que se realiza o laço desta proposição? Quando afirmamos que tal conclusão está contida em tais e tais premissas, onde é que se pronuncia esta afirmação? É em cada molécula da substância cerebral? Mas como, se não há mais do que um juízo e raciocínio? Quem opera a intelecção de uma substância tão divisível e divisa, senão a unidade que a governa, a unidade que aquela massa não é, nem pode ser. Dizem: a matéria está sujeita a leis inflexíveis. Que seja. Mas, não obstante, eu sou livre. Se determino marchar para a direita e não para a esquerda, marcho; levantar o braço e não tê-lo imóvel, levanto-o; abrir os olhos, e não tê-los fechados, abro-os; realizar um dado pensamento e não outro, realizo-o. Em todos estes atos eu tenho a consciência de que é a minha vontade que se cumpre. E se eu fosse apenas matéria seria tão escravo da necessidade que não somente não poderia praticar atos livres, mas, o que é mais, nunca poderia saber o que significa a palavra liberdade. Ora, se a fatalidade da matéria repugna à liberdade, a consequência necessária é, que a irresponsabilidade repugna à ideia de mérito ou demérito. Entretanto, senhores, é incontestável que existe em nós a noção e o sentimento daquelas duas coisas, porque temos a noção e o sentimento do dever. Domina a nossa vida, regula, dirige e qualifica os nossos atos, uma lei de que não somos autor e que por isso mesmo não podemos alterar. Se ajustamos as nossas ações com esta lei, praticamos o bem, merecemos; se a transgredimos, praticamos o mal, desmerecemos. Ora, com que direito afirmamos das nossas ações que “esta é meritória e aquela é má” se acima de nós nada há, se depois de nós só há matéria? Não nos dizem porventura que a matéria é o joguete duma inflexível necessidade? Como posso eu adquirir mérito ou demérito se estou sujeito a violências tais de que não posso escapar? O respeito, o amor, a liberalidade, a caridade e a dedicação outros tantos efeitos são da lei fata; o desprezo, o ódio, o assassinato, o egoísmo, não são crimes, não, mas produtos da necessidade. Isto é, decerto, uma inaudita monstruosidade, mas tão criminosa como a existência de um nó no tronco de uma árvore, ou de um tumor no músculo de um animal. Se o materialismo quiser ser consequente, deve admitir que o vício e a virtude são produtos como o vitriolo e o açúcar, que é tão contrário à moral o ser perverso como o ser zarolho ou corcovado . Mas o materialismo revolta-se algumas vezes contra estas consequências, e acusa-nos, quando lhas lançamos em rosto, que lhe movemos uma guerra desleal e que fugimos, por medo, das refutações científicas. Sois testemunhas, senhores, de que eu também fugi destas refutações. Se para esmagar o ídolo contemporâneo não tivera mais argumentos do que o deduzido da ideia do dever, ainda assim não sairia do terreno científico. Os dados do senso íntimo serão porventura tão científicos como os da experiência física? A ciência, a verdadeira ciência, não consistirá acaso em conhecer os princípios e ver neles as conclusões? Se nos princípios do materialismo vejo a destruição de toda a moral, terei ainda a necessidade de procurar novos argumentos? Não tenho o direito de dizer, que quando um princípio destrói o que deve ser, é um princípio falso, visto como os princípios são regras de ser? É por isto, senhores, que os materialistas se veem obrigado a capitular, ainda que contra a vontade. Conhecendo a sua flagrante contradição com a consciência do gênero humano, o materialismo deserta do erro e admite a ideia do dever. Há mais de sessenta séculos que a consciência do gênero humano fala, e nos diz que é necessário cumprir o dever ainda mesmo com detrimento da matéria. Ouvistes? Ainda mesmo com detrimento da matéria! Pois bem, nada mais atroz e insensato do que esse axioma universal da moral, se a matéria é o nosso único criador e senhor. A sabedoria, a justiça, o dever exige que a respeitemos, que lhe prestemos culto, que sigamos docilmente os seus movimentos. E, todavia, nada mais baixo e vil! “Não há inteligência, não há faculdades superiores; tudo é sensibilidade, tudo embrutecimento, tudo terreno”, segundo a enérgica e bela expressão de Bossuet. Bem pelo contrário, foi sempre glorioso, e sê-lo-á sempre, o elevar-se o homem acima da matéria, resistir ao ardor do seu sangue e à violência dos seus instintos em obséquio à justiça, sofrer pela justiça, morrer pela justiça, desprezar a matéria tanto quanto é necessário para manifestar uma grande dedicação. Quando a miséria solta os seus gemidos, quem é mais belo, mais amável, mais digno de louvor, o epicurista que fica indiferente, e que, fiel à máxima egoísta dos pagãos, não sente dor nem piedade em presença do desgraçado, ou o homem generoso que liberaliza o seu dinheiro, emprega o seu tempo, as suas forças e arrisca a sua vida para salvar a vida de um dos seus irmãos? Quando a pátria invadida solta o grito de alarme e chama os seus filhos, qual é o herói, cujos feitos gloriosos mais tarde cantará? É o covarde que, pro amor da sua querida matéria, vai escondê-la e procura ele mesmo subtrair-se às balas e aos golpes do inimigo, ou o homem valente que voa para se alistar nas fileiras dos bravos, e se expõe às fadigas de uma campanha sangrenta e oferece impávido e o seu peito generoso ao fogo do inimigo? Ó matéria, ídolo bestial e frágil, a minha grandeza será tanto maior quanto mais entranhado for o desprezo que te votar. Não só me roubas a honra se te sirvo, mas ainda se em teus braços procuro a felicidade, ela me foge com obstinada ironia . Assim, pois, ó matéria, se tu não podes satisfazer as aspirações da minha alma, como posso eu suportar o jugo da tua divindade? Vai, vai! Eu não tenho necessidade de ti, basta-me o meu grande Deus. Ó Deus! Se tu não existiras, que profundo e espantoso abismo não se abriria para engolir o que há de mais nobre, e grande, e respeitável sobre a terra! Que valor teriam as orações dos santos? De que serviriam as sublimes contemplações das almas absorvidas no ideal? De que serviria o sangue dos mártires do dever? De que serviriam os gemidos e a derradeira esperança da justiça oprimida? De que serviriam as lágrimas dos abandonados? O nada, o nada seria o termo de tudo isto! O nada!... em quanto os perversos estimulados pela irresponsabilidade dos seus crimes devastariam o mundo! Que horror! Não, não, meu grande Deus, nós não queremos ser órfãos. Só tu podes sustentar o universo de que és Pai. Vinde a nós, e repeti-nos a grande palavra do deserto: Eu Sou o que Sou: Ego Sum qui Sum. Sim, força infinita, causa universal, existência necessária, perfeição suprema, inteligência soberana, criador e ordenador do mundo, senhor da nossa vida, tu és o que és, e a matéria é o que não é, porque sem ti seria nada. Vede, Senhor: eis-me aqui, de joelhos, com os olhos e mãos levantadas ao céu: contigo n´so calcamos aos pés os membros rotos do ídolo da falsa ciência, e em lugar da cega multidão que a toda hora exclama: Não há Deus, Non est Deus! Nós, teus filhos, cantamos com o coração transportado e com a alma comovida: Creio em Deus: Credo in Deum.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Ídolo Contemporâneo - Parte I

Por
Rev. Padre Jacques-Marie-Louis Monsabré

Senhores:

Há um progresso descendente oriundo do erro, como há um progresso ascendente oriundo da verdade. Confessar a existência real e pessoal de um ser superior e invisível, o mesmo é que aceitar, em princípio, todas as verdades que se relacionam com esta existência, por mais profundas e incompreensíveis que sejam. Mas quando o espírito humano empreende suprimir os mistérios que não pode explicar, não abandona a sua empresa senão depois que se persuade ter destruído a própria raiz daqueles mistérios. A negação pura e simples de Deus devia suceder às imensas complicações dos sistemas panteístas, nos quais reaparecem, sob formas de difícil compreensão, e, conseguintemente, inaceitáveis, as ideias de causa primária e de finalidade, das quais o panteísmo quereria prescindir. A unidade primordial que se destrói por si mesma divide-se e converte-se numa multiplicidade infinita, sem deixar de ser uma; a substância da qual emanam os seus atributos que produzem por sua vez inumeráveis atributos; o ser puro, indeterminado que se determina; o ser nada que se torna algo; este ser que adquire a consciência de si mesmo e que se torna universo; a ideia que não se desenvolve senão para tornar a si depois do exílio, da dispersão e da fuga de si mesma: eis o que o panteísta deve crer. É duro, confessemo-lo. A inteligência fatiga-se analisando estes profundos desvarios; e os esforços do idealismo para regularizar entre nós a situação do panteísmo não têm logrado salvar este erro do descrédito universal. A Alemanha, depois de ter chamado ao panteísmo a filosofia do futuro, lança-lhe em rosto estas desdenhosas palavras: “Aquilo a que, ordinariamente, chamam profundidade do espírito alemão, mais se pode dizer confusão de ideias do que profundidade de espírito... Nada há que mais repugne do que ver essa filosofia aparentar uma profunda erudição, e ensoberbecer-se das suas teorias ocas e nebulosas”. Do desdém passou-se à grosseria. “Os nossos filósofos modernos gostam muito de nos dar, requentados, velhos legumes, pondo-lhes nomes novos, para no-los servirem como últimas invenções da cozinha filosófica” .

Numa palavra, já não presta o eu igual ao eu, o eu absorvido pelo não-eu, a ideia pura e os seus três momentos; tudo isto passou para dar lugar à santa natureza, à matéria fecunda, existente por si mesma, às condições físicas e aos seus resultados. Mas uma inexorável fatalidade persegue o espírito humano ainda em seus mais profundos desvarios. O materialismo, negando Deus, não pode prescindir das ideias que este nome augusto representa, bom ou mau grado seu refere-as ao ser impotente cuja existência única e suprema proclama. Aqui, realmente, não há mais do que uma substituição, e Leibniz disse com justiça: “Uma natureza universal deve, necessariamente, tornar-se um ídolo”.

Bem o sabeis, senhores, este ídolo é a vergonha do nosso tempo. Ensina-se à mocidade que deve prestar culto ao deus-matéria, prometeu-se ao povo os favores deste ídolo. Na presença de tal escândalo, já não é bastante repetir aquela palavra enérgica proferida do alto desta cadeira por um dos meus predecessores contra o materialismo ; é necessário entrar a todo custo na oficina científica onde se fabrica o ídolo contemporâneo, ver como os obreiros trabalham no seu artefato, estudar os processos do fabrico, notar os defeitos do produto que pretendem impor às adorações do gênero humano, esmigalhar o ídolo, para a glória do nosso grande Deus e honra da consciência pública.

I

Reduzem-se a três classes os obreiros ocupados na fabricação do deus-matéria: os tímidos limitam-se a circunscrever os limites das ciências naturais; proclamam a soberania da experiência para determinar os fatos da ordem física, e a necessidade de prescindir, no estudo dos fenômenos, das suas condições e leis, de toda a preocupação sistemática.  Nisto não os censuramos. As concepções a priori podem extraviar a observação que investiga as leis da natureza. Seja-nos, porém, lícito lamentar que homens que se dizem sábios restrinjam o domínio da ciência, evitando, de propósito, com referência às causas primeiras e às forças imateriais, certas conclusões que naturalmente se apresentam, no fim de toda a experiência bem feita; conclusões que ilustres sábios idos aceitaram sem hesitação, porque satisfazem a imperiosa necessidade que a razão experimenta, depois de analisar os fenômenos, de se elevar a conhecimentos mais altos e de saciar, por meio de legítimas especulações, as suas naturais tendências para a perfeição, preenchendo as lacunas da experiência.  Seja-nos permitido ainda observar que há, na ordem puramente intelectual como na moral, fatos sobre os quais a experiência, sem mais instrumentos do que os olhos e a razão, pode pronunciar-se com tanta segurança como na ordem física, e que é injusto, por conseguinte, enfeudar a experiência em proveito exclusivo das ciências chamadas positivas.

Os tímidos confessam certamente que “a aplicação do discurso experimental aos fatos, a teoria, constitui a ciência; que a teoria não é mais do que a ideia científica comprovada pela experiência; que o raciocínio não serve senão para dar uma forma às nossas ideias, de modo que tudo se reduz primitiva e finalmente à ideia; que a ideia é que constitui o ponto de partida, ou o primum movens, de todo o raciocínio científico; que ela é igualmente o ideal das aspirações para o desconhecido”.  Desejaríamos, porém, que se explicassem melhores e mais claramente sobre a natureza, origem, sede e alcance desta ideia a pripri. É certo que se inclinam respeitosamente diante da filosofia desligada da experiência. “A Filosofia, dizem, representa a aspiração eterna da razão humana para o desconhecido; comunica ao pensamento humano um movimento que o vivifica e enobrece, incitando-o constantemente à solução inesgotável de grandes problemas; entretém aquele fogo sagrado da investigação que no sábio nunca se deve apagar”.  Tudo isto está bem; mas é ainda pouco esta homenagem. Quereríamos uma confissão mais franca das realidades que chamam indeterminadas: Deus, a providência, a espiritualidade da alma, as funções vitais; quereríamos uma confissão explícita da possibilidade de unir estes dois mundo que não podem ser estranhos um ao outro: o mundo físico e o mundo metafísico; uma homenagem prestada à grande e verdadeira ciência, à ciência que reduz a princípios mais elevados e mais universais o conjunto dos conhecimentos humanos. Finalmente, é certo que os tímidos, no estudo dos fenômenos da vida, na biologia, confessam que o como do organismo não se pode explicar senão pela palavra criação, que “a ideia criadora é, para falar com propriedade, a que regula a evolução vital”, mas, por que não saúdam abertamente o criador da vida, como Newton saudara o motor do universo?

É funesta e, direi mesmo, culpável toda a hesitação nesta matéria, numa corrente que arrasta os espíritos a não verem nada acima das grosseiras realidades da matéria. Arquivemos, entretanto, as confissões e as concessões do determinismo, e pois que ele deixa à nossa disposição o mundo filosófico, aproveitemo-nos dele.

Os solapados não são tão condescendentes, chamam-se positivistas. O positivismo é empírico no mais elevado ponto. Nunca o levareis a admitir que o espírito humano possui uma força íntima e original que, pelas suas intuições e raciocínios, governa, dirige e regula a experiência. “Fatos, e nada mais do que fatos, analisados e coordenados, eis o que basta. O resto nada vale”. Do mesmo modo suprime autoritariamente toda a ordem de ideias que não assente sobre a experimentação dos fenômenos. As causas e os fins são contrassensos para o positivismo. Se algum espírito delicado e escrupuloso tenta escapar aos rigores positivistas saudando de longe a metafísica como ciência estranha que não deve ser desprezada, e Deus como inteligência suprema e reguladora no qual se pode crer sem prejuízo da causa diretamente determinativa de cada fenômeno , o positivismo exclama: “Não se julgue que, tratando-se de causas segundas, seja livre a cada um pensar sobre as causas primeiras que lhe aprouver. Não. Sobre este ponto não há liberdade: a minha determinação é precisa e categórica: declaro que as causas primeiras são desconhecidas” . Tudo que não entra na esfera dos fatos é inacessível à razão. Não trateis já a psicologia como se fora uma ciência especial , porque sereis censurados e pronunciarão contra vós esta sentença: “Assim como o físico reconhece que a matéria pesa, assim também o psicologista afirma que a substância nervosa pensa sem que nem um nem outro pretendam explicar por que é que aquela pesa e este pensa” . “É evidente, diz um professor distinto, que a neutralidade diplomática dos positivistas oculta um tratado secreto de aliança contra o inimigo comum, o espiritualismo; e talvez que não lhes falte certa ingenuidade imaginando que, na grande confusão de doutrinas, os seus desejos sejam duvidosos.

Razão tinha eu, senhores; os positivistas são operários solapados. Não podem, por mais que se esforcem, ocultar-nos as suas manobras, descobertas, demais, pelos seus companheiros de oficina. “Note-se bem, diz um deles, se os serviços do positivismo nos obrigam a fechar os olhos às suas debilidades, não podemos ignorá-las apesar das suas reticências. As suas afirmações e as suas negações não nos iludem, nem a respeito do seu valor próprio, nem a respeito da sua extensão. A escola positivista é uma seita, oriunda do materialismo; não vale mais e não tem mais alcance do que o materialismo”

Eis o que é claro, senhores: o positivismo presta serviços. Prepara sorrateiramente a obra dos operários francos e resolvidos que se chamam sem vergonha materialistas. Vede como se agitam em roda da imensa fornalha onde se derrete o bronze do grande ídolo, com que atividade preparam o molde que deve lhe dar as suas formas definitivas e para sempre adoradas. Quereis saber que processos empregam na realização da obra? Ei-los: importarem-se pouco com as contradições, afirmar com audácia, vangloriarem-se impudentemente.

A primeira contradição dos positivistas, a mais palpável e característica, é a que eu chamarei contradição de método. Consiste em estabelecer como princípio, por uma parte, que o empirismo é norma soberana de toda a afirmação científica, que nada se deve admitir que não seja demonstrado pela experiência, e, por outra parte, estabelecer e seguir um dogmatismo desenfreado, cujas proposições escapam toda a disciplina e toda a verificação experimental.

A nossa vista, auxiliada de instrumentos aperfeiçoadíssimos, não atua senão sobre um espaço limitado. Não podendo abarcar a imensidade da extensão, parece que, pelo menos, deveríamos guardar silêncio sobre um tão elevado mistério, desde o momento em que a metafísica não no-lo pode explicar. Mas não é assim. O materialismo pronuncia-se e declara que a matéria é infinita. A experiência só nos subministra fatos. Analisem-se, coordenem-se, interpretem-se, é o que desejo; mas respeite-se a sua essência, pois que ninguém a pode observar. Mas, não, o materialismo entra violentamente neste arcano, e proclama que o movimento é essencial à matéria. Nunca se demonstrou que a matéria mudasse as espécies ou as produzisse; e, apesar disto, o materialismo ousa afirmar que a matéria tem produzido sempre o que nunca produziu, e que é onipotente. Tudo começa, tudo se sucede, tudo acaba: seres, formas, movimentos, revoluções. Nós não logramos, no curto espaço de tempo que se chama vida, mais que possíveis e contingentes; e não obstante isto, o materialismo afirma que a matéria é necessária e eterna. Da mesma confissão da sua ignorância acerca das causas, deduz bruscamente monstruosas conclusões nas quais manifesta sem pudor o seu desprezo de toda a lógica. Convém-lhe ignorar a causa que produz as operações intelectuais, as ideias, os juízos, os raciocínios, os sentimentos, as volições, as determinações; e conclui imediatamente: todos estes fenômenos são movimentos da matéria”. A que vêm os elogios dos materialistas a um método que a todos os momentos atraiçoam? Não é evidente que os fatos de que o materialismo se aproveita com tanta avidez só o interessam, como alguém observou com razão, “na hipótese de uma total conformidade, esperada ou pressentida, entre aqueles fatos e uma doutrina previamente estabelecida” ? Não é manifesto que esta doutrina intenta um fim ao qual deseja chegar por faz ou por nefas, e não uma conclusão legítima da ciência experimental?

Para evitar o opróbrio das suas contradições, o materialismo procura um subterfúgio. Pretende que “os materiais da experiência, se não podem resolver de um modo positivo certas questões, são suficientes para resolver de um modo negativo” . Isto é demasiado ingênuo, senhores; uma criança por certo que não se deixaria colher no laço. Há, bem o sabeis, negações que equivalem a uma afirmação. Quando alguém me diz: “eu não sou um homem de mau procedimento”, entendo por isto que esse alguém é um homem probo. Do mesmo modo, quando me dizem que a matéria não tem limite, entendo por isto que é infinita; quando me dizem “não se podem conceber outras causas além da matéria”, entendo, por isto, que a matéria é onipotente; quando, enfim, me dizem que a matéria não foi criada, entendo que existe de si, que é eterna. Apesar dos protestos do materialismo, é forçoso que renuncie ou ao seu método, ou ao seu dogmatismo.

A contradição fundamental de método, senhores, leva-nos necessariamente a admitir, acerca da causa, natureza e finalidade das coisas, muitas proposições inconciliáveis e contraditórias num mesmo sistema. Seja exemplo: o materialismo, depois de ter estabelecido que não existe outro princípio além da matéria, não julgou inconveniente opor-lhe a força sob uma forma simples que a exclui . Afirma que o homem não é de natureza diferente do mais vil átomo, e todavia gloria-se de se elevar cada vez mais sobre a matéria, dominada pela ciência e pelo trabalho de cada dia . A vida ora procede do acaso, ora se forma como os cristais sob a ação do sol, e, por isso, sob a influência de leis matemáticas, ora procede de um ser vivente .

Umas vezes a matéria é inconsciente e cega , outras vezes é um artista criador . Umas vezes opera sem intenção, sem plano na sua organização; outras vezes manifesta vestígios evidentes de apropriação a certos fins . Todas estas contradições se agrupam, avolumam, e misturam e confundem, mas nem por isso o materialismo deixa de apresentar-se cada vez mais arrogante.

Vede, senhores, a audácia admirável com que dogmatiza. Para ele a metafísica não é ciência. Em vez de procurar conciliar as intuições e as induções transcendentes do espírito humano com os dados da experiência, afirma que há antinomia entre os princípios da física e os da metafísica. Tem a audácia de afirmar que Deus e a alma são hipóteses absurdas, mas não se dá ao incômodo de nos provar que estas hipóteses envolvem contradição. Acusa-nos de falarmos da criação, como se houvéramos sido testemunhas dela , e atreve-se a falar do infinito, da eternidade, da onipotência da matéria como se tivera visto sair das suas retortas o infinito, o eterno, a onipotência. Incapaz de esmagar os espiritualistas sob o peso de sólidos argumentos, apela para a injúria: chama-lhes sonhadores ignorantes, pensadores invencioneiros e hipócritas. O materialismo apresenta-nos este argumento triunfante: tudo o que é possível realiza-se; mas o universo é possível e isto pasta para que exista. Para não admitir conclusões inevitáveis, eleva-se este cavalheiro do positivismo e da experiência até um misticismo transcendental, cuja fórmula eu vos suplico que noteis atentamente. “É verdade que não sabemos como as coisas se passaram no princípio; seja, porém, qual for a nossa ignorância, devemos dizer com certeza, que a criação orgânica pôde e deveu realizar-se sem a intervenção de uma força externa”. Eis o mais maravilhoso ainda: “Nós temos a certeza subjetiva do nascimento espontâneo dos seres orgânicos” . Senhores, se o ridículo poderá ter os foros do sublime, estaríamos, certamente, em pleno sublime.

Todavia as afirmações da escola materialista parecem-me menos repugnantes do que a audácia das suas pretensões. Esquecida do passado, ousa impudentemente chamar-se a ideia nova. A ideia nova! Mas pondo de parte as falsas interpretações de certos fatos, apoiados em recentes descobrimentos, não há uma só, dentre as proposições materialistas, que não fosse há muito proclamada. Poderíamos formar, com paciência, um quadro sinótico das afirmações contemporâneas e das do século passado, para nos convencermos de que os materialistas do século XVIII pensaram exatamente como os do século XIV. A mesma exageração e o mesmo abuso do método experimental, a mesma tendência para divinizar a natureza, as mesmas propriedades atribuídas à matéria, a mesma repulsão de toda a substância simples, a mesma doutrina acerca da geração espontânea, da circulação da vida, das transformações sucessivas e da identidade dos seres, o mesmo horror às causas finais, a mesma adoração da lei e da fatalidade; há apenas diferença no estilo, os antigos empregavam uma linguagem mais castigada.  Um apologista que os refutou, não admite neles boa-fé ; mas prova o seu parentesco com Lucrécio, Epicuro, Demócrito, que tiveram por ascendentes aqueles materialistas que, segundo o livro da Sabedoria, falam assim: “Nascemos do nada e ao nada voltaremos... o nosso corpo converter-se-á em pó, o nosso espírito dissipar-se-á como ligeiro fumo... tudo acaba com a vida... eia, gozemos os bens presentes; depressa, que a juventude passa rápida; embriaguemo-nos com o vinho e com os perfumes. Aproveitemo-nos na flor do tempo, coroemo-nos de rosas antes que murchem, que não haja campo em que não pasce a nossa voluptuosidade” . Eis aqui, senhores, as velhas ideias perfeitamente concordes com as do nosso tempo.

O materialismo não é a ideia nova, não é a ciência. Glorie-se muito embora e diga solenemente: “A ciência despediu-se de Deus acompanhando-o até às suas fronteiras para lhe agradecer os seus serviços provisórios; presentemente não precisa d’Ele para nada. A ciência afirma isto, a ciência nega aquilo, a ciência pronuncia, a ciência decreta, a ciência ordena”. Isto não vos deve desconcertar, nem ao menos comover, porque ainda que carecêsseis de toda a ciência, podíeis invocar com nobre orgulho os nomes respeitáveis duma falange de homens ilustres que diziam: parece-me, submeto ao vosso juízo estas reflexões, e que, sob esta forma simples e reservada, pronunciaram oráculos que ainda não foram reformados; os nomes dos Kepler, dos Copérnico que agradeciam a Deus com ternura as luzes que se dignou derramar sobre o mundo; os nomes dos Newton e os Lineu que seguiam os vestígios de um poder e de uma sabedoria infinita, através dos espaços e do firmamento e dos reinos da natureza ; e, entre nós, os nomes sábios e distintos, cuja modéstia não quero ferir, mas a quem publicamente agradeço o seu zelo e perseverança em contradizer com a indiscutível autoridade dos seus trabalhos, a obra dos fabricadores do ídolo-matéria. Sábios por sábios, prefiro os modestos aos imprudentes; os que procuram persuadir-me para me elevar, aos que se me impõe para me aviltar.

Já sabeis, senhores, quais são os processos da escola materialista. Pelo simples exame destes processos é fácil determinar o resultado dos seus trabalhos; mas eu prometi-vos uma vistoria a fim de que ficassem patentes os defeitos de fabricação do ídolo com que pretendem substituir o verdadeiro Deus. Vou cumprir a promessa.

Continua...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Qual é a causa da morte?

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A morte possui, em relação ao homem, vastas implicações filosóficas e teológicas. Podemos conceder ao fisiologista tudo o que ele deseja e reivindica; ele não é inimigo da fé cristã, uma vez que permanece em seu domínio dos acontecimentos fisiológicos e materiais. Podemos deixar que ele explique-nos como a morte ocorre. Não há dúvidas de que os cientistas notem o quanto é difícil definir a morte em termos biológicos quanto os teólogos e filósofos encontram dificuldade para responder a todos os questionamentos levantados pelo materialista e o incrédulo. Como exemplo de tal tentativa da ciência para indicar as causas da morte em termos que possuem algum significado, posso citar a da Encyclopaedia Britannica, sobre a palavra Biologia: “Investigações recentes chegaram à conclusão de que a causa imediata da detenção da vitalidade, no primeiro momento, e sua destruição, no segundo, é a coagulação de certas substâncias no protoplasma, e que a última contém várias matérias coaguláveis, que solidificam em temperaturas diferentes, dependem da destruição de sua substância fundamental neste calor, e até o ponto  em que a morte é provocada pela coagulação de compostos meramente acessórios”. Desta passagem nós vemos a hesitação dos mais recentes investigadores quando tentam definir a morte de outra forma, através sinais acidentais que mostram que isto ocorreu. Os teólogos e filósofos católicos são convidados a dar maior esclarecimento das causas deste terrível fenômeno.

Como cristãos, temos nossos próprios problemas na questão da morte, alguns que podem ser atribuídos ao teólogo e outros ao filósofo. O teólogo pergunta porquê a humanidade, em geral, considera a morte como uma pena. A questão do filósofo é diferente: ele pergunta como o fenômeno está relacionado com a maldade da alma espiritual.

A fé católica, que é o local adequado do teólogo, ensina que a morte do homem é uma punição: “Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram” [1]. A fé católica não considera a morte dos animais em qualquer modo ou sentido de pena, mas, para a morte do homem, é deliberadamente afirmado que ela é o resultado do pecado. Como teve origem essa interpretação do fenômeno da morte? Por que é considerada uma medida punitiva, quando todas as aparências disso tem a inevitabilidade de uma lei de natureza similar que governa a morte dos animais? Como um evento de ordem natural pode tornar-se um castigo? A resposta é encontrada na força de uma pressuposição. A fé pressupõe algo que pode ser conhecido sozinho: ela pressupõe que Deus fez a estrutura física do homem imortal por meio de um presente especial, um presente adicionado à natureza humana, mesmo que separável dele. Deus projetou toda humanidade de modo a possuir um dom extra: o dom da imortalidade. O homem a perdeu através de seu pecado, por causa da culpa de seu ato. Assim – mesmo pressupondo este dom adicional – é perfeitamente exato dizer que a morte é uma punição, não um acontecimento normal. Os teólogos comumente admitem que sem este dom o homem não é, e de fato não poderia ser, imortal corporalmente. Não pretendemos saber ou dizer que não seria possível ao Criador fazer um organismo corporal vivo que dure para sempre em virtude suas características naturais intrínsecas. O mais provável é que não é acima do poder do Criador produzir um organismo desse tipo; a teologia não se preocupa com essa hipótese. Nossas especulações estão confinadas com aquele organismo que conhecemos e que é dito no livro de Gênesis que foi formado do barro. A respeito de tal organismo o teólogo diz que, embora deixado a si mesmo cedo ou tarde caia, tal queda não esteve de acordo com intenções iniciais de Deus. Mas que ele planejou evitar que decaia por um dom adicional de característica inteiramente sobrenatural. A retirada deste dom através do ato do pecado pode ser verdadeiramente considerado como a causa da morte, neste sentido, relativo a este pressuposto. Seria precipitado negar a Deus o poder de fazer um organismo que pudesse ser naturalmente imortal. Se assim tivesse feito o homem, o pecado não seria penalizado pela morte, uma vez que ele nunca destrói o que está de acordo com sua natureza. Não foi assim, contudo, a forma que Deus criou o homem. Ele não fez um homem naturalmente imortal em sua estrutura corpórea; pelo contrário, ele o fez naturalmente mortal, mas adicionou à mortalidade o dom da imortalidade sobrenatural. Assim, o que é sobrenatural – exceto, de fato, o estado de Visão Beatífica, pode sempre ser perdido ou retirado. Essa insistência terrível de Deus a respeito da mortalidade fundamental do homem é a chave para o capítulo da Queda no Gênesis: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar” [2]. O dom da imortalidade dado por Deus ao homem foi inteiramente gratuito e sobrenatural em sua qualidade. É realmente impossível para nós dizer ou imaginar em que isso consistiu. Isso foi mais que um estado externo, guardando o homem de todas as possíveis forças que poderiam ter causado a morte; foi uma qualidade inerente e intrínseca, embora pudesse ser perdida, como a graça também pode ser perdida. Estava no homem o poder para viver, mas também estava nele o poder para morrer, se ele escolhesse demonstrar-se infiel ao pacto de Deus com ele: “mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente.“ [3].

A morte, então, era conhecida pelo homem como uma contingência possível mesmo nos dias de sua inocência; Adão não conheceu o mal; ele não sabia que estava nu; mas ele sabia, mesmo no estado de total ignorância, que poderia morrer; o significado da palavra morte era claro para ele: “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais. Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis” [4].

Esta clara apreciação do significado da morte pelo homem, quando ainda não conhecia nenhum mau, traz à tona a gratuidade, alguém poderia até dizer precariedade, natural do dom da possível imortalidade que foi concedido a ele.

É evidente, portanto, que a tradição católica que considera a morte como uma pena tão sabiamente não interfere nas investigações físicas sobre as causas da morte. Não é a verdadeira essência do pensamento católico neste assunto assumir que a punição do homem encontra-se neste aspecto particular, que seu corpo deveria ser deixado à sua fraqueza congênita, a sua deterioração natural, quando a interrupção ou remédio de qualidade sobrenatural da imortalidade é dado? Resumamos estas considerações nas concisas palavras de São Tomás: “A morte é natural por conta das condições da matéria, mas é penal por conta da perda do dom divino que tem o poder de preservar da morte” [5].

Mas o teólogo não é a única autoridade a ser atacada pela explicação exclusivamente secular da morte. O filósofo católico, especialmente o filósofo escolástico, é chamado a explicar como, com a doutrina que ele mantém a respeito da alma humana, ele pretende deixar a morte às causalidades meramente físicas. Se uma essência espiritual, uma alma imortal, anima o corpo, se é, na terminologia escolástica, a forma do corpo, não se deve assumir que a morte ocorre somente – pode ocorrer somente – quando aquela alma sai do corpo? Assim, uma vez que a alma é alegada como o princípio e fonte de vida do corpo, desde que esteja no corpo, o organismo deve estar vivo. Agora, diz o fisiologista, o fenômeno da morte pertence inteiramente ao plano material das coisas; em nenhum momento, em nenhum estágio da decadência corporal algo é retirado ou modificado por alguma ação mística chamada “alma”. Não tem sido considerado necessário definir a morte como a partida da alma; a morte é suficientemente explicada e amplamente descrita, diz, não somente o materialista, mas o vitalista, através de causas que não transcendem a ordem dos dados observáveis. O fisiologista está, de fato, correto em sua opinião da natureza física dos fatores que causam a morte no homem; mas ele está errado em supor, como constantemente faz, pelo menos por implicação, que se houvesse realmente uma alma imortal nas coisas humanas, um rumo diferente seria tomado. A insinuação é, obviamente, que não há alma; que uma alma humana não poderia morrer, tal é a conclusão não mencionada do adversário da filosofia espiritualista. É, portanto, a própria natureza da presença permanente da alma no homem ser de tal tipo que o fenômeno da morte não destina a ser interrompido pela alma em qualquer tempo ou sob quaisquer circunstâncias, nem ser interferido por ela; a filosofia católica nunca considerou a alma como tendo este dever ou função. Nós dizemos que a presença de uma alma imortal do homem pode ser vagamente ou estritamente, de acordo com a escola que os pensadores cristãos pertencem. A vaga visão é mais imaginativa, mas fenomenalista; é vista sobre a alma espiritual como sobre uma substância extramundana habitando em um corpo material. Para estes pensadores poetas, bastantes filosóficos, que apoiam tais visões a morte seria a destruição da casa da alma, uma destruição provocada por operações materiais. A casa estando destruída, a alma cria asas, vai para o mundo puramente espiritual, bom ou mal. Tal poesia seria suficiente para visualizar a morte como um fato inteiramente terrestre.

A tarefa do rigoroso escolástico, que é também o pensador católico mais exato, vai, portanto, ser mais difícil. Para ele a alma espiritual no homem é a “forma” do corpo, o princípio de unicidade na vida e personalidade do homem. A alma, na ortodoxa filosofia católica, é mais que uma habitante no corpo; é para o corpo a causa que o faz ser o que é. Pode o escolástico, que também é um católico, serenamente ignorar a alma no fenômeno da morte, quando toda sua filosofia o faz sustentar que a união entre a alma e o corpo no homem é a maior e mais intima de todas as ligações? A resposta é que o estudioso, como os modernos fisiologistas, olham para as ações inteiramente materiais como causas da morte no homem. Para o escolástico, a morte não é uma separação entre a alma e o corpo; é a quebra, a “dissolução” do corpo. A alma parte, se diz, pois a morte ocorreu, pois o organismo está morto, e não vice-versa: o homem não morre pela saída da alma do corpo, mas a alma sai porque ele morreu. Tudo isso está em conformidade com o modo especial da função que nossos filósofos atribuem à alma. A alma é a causa formal do corpo, não a causa eficiente: esta distinção é a raiz desta peça importante da realidade criada. Um espírito como a alma pode somente ser a “forma” de um corpo se certas disposições materiais e predisposições forem providas para sua recepção. Estas predisposições muito importantes são produzidas por causas eficientes, como a geração dos pais, e muitos outros fatores. Agora, outras causas eficientes podem debilitar estas disposições indispensáveis, ou melhor: podem destruí-las completamente. Chamamos esta ação de morte. Sem estas disposições, a alma não pode mais ser a “forma” do corpo: a própria definição de “forma” contrariaria esta continuação. Não estamos aqui preocupados com a sobrevivência da alma após a morte ou o destino e futuro da alma quando ela cessa de “informar” o corpo; estes pontos serão tratados inteiramente aos poucos. Nossa tarefa agora é tornar claro que, de acordo com os próprios princípios de nossa filosofia espiritualista, nossa fé na presença de uma alma no homem não obriga-nos explicar a morte de outra forma além de uma corrente de causas exclusivamente de ordem material.

Notas:
[1] Romanos V, 12;
[2] Genesis III, 19;
[3] Genesis II, 17;
[4] Genesis III, 4.
[5] Suma, II-II, Q. CLXIV, art I.

sábado, 25 de maio de 2013

Galileu Galilei à luz da história

"[...] O interesse que levantou a condenação eclesiástica do físico e astrônomo pisano Galileu Galilei, o famoso "Caso Galilei", é manifestado pela literatura que provocou e ainda suscita em todas as línguas culturais. Quando, no século passado, a cúria romana franqueou as atas dos processos de 1616 e 1632, quase imediatamente e no mesmo ano de 1877, os documentos principais foram publicados em três línguas: alemã, francesa e italiana. Desde então propriamente não se pode mais falar de "Questão Galilei", pois todos os fatos estão à luz do dia. Sem falar dos inúmeros ataques à Igreja Católica, onde domina a má fé, podem-se apontar numerosos estudos bem documentados, que levam ao público o conhecimento do caso. [...] Quem não ouviu falar de Galileu Galilei? O grande sábio, o gênio turbulento, matemático, físico, astrônomo, observador e pensador, lutador vitorioso e derrotado, promovendo a ciência e sucumbindo a erros, entregue a altas contemplações e inclinado aos prazeres da vida, admirado e louvado, criticado e acusado, elevado aos fastígios da glória e humilhado como réu e criminoso. Como sua vida está cheia de estranhos contrastes e contradições, também o é sua memória na história. Seus admiradores o exaltam, seus adversários o condenam. Boa e má fé se misturam, como também os fatos históricos se entremeiam com lendas. O que devemos pensar deste homem enigmático? A esta pergunta não é possível responder em poucas palavras. O presente trabalho procura elucidar o "Caso Galilei", expondo e ponderando os fatos históricos, tirados de documentos originais e transmitidos por testemunhas fidedignas. Ouvindo as próprias palavras de Galilei e dos mais atores da tragédia, ser-nos-á possível separar a lenda da verdade e formar um juízo seguro e justo. [...]"

Você pode baixar no Alexandria Católica: http://alexandriacatolica.blogspot.com.br/2013/05/colecao-vozes-em-defesa-da-fe-caderno.html

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Criação versus evolução – A ciência contradiz a Bíblia?


Peter Kreft e Ronald K. Tacelli

Antes de compararmos essas duas idéias, devemos distinguir três significados que a evolução pode ter:

1 – Evolução pode significar uma teoria sobre o que aconteceu para que espécies mais complexas aparecessem na terra e quando isto se deu, analisando os registros fósseis.

2 – Evolução pode significar uma teoria sobre como isso aconteceu pela seleção natural, pela sobrevivência do mais forte, mais apto.

3 – Evolução pode significar a ausência de um projeto divino para a criação, suprimindo Deus do processo de seleção natural. Esse terceiro sentido não é absolutamente científico, mas filosófico e teológico.

Podemos aceitar a evolução no sentido 1, mas não totalmente no sentido 2. Contudo, não podemos aceitar de modo algum uma evolução no sentido 3, porque existe uma contradição clara entre a Bíblia e a proposição 3, pois esta implicaria que Deus não é o Senhor da Criação. Mas vale lembrar que a evolução no sentido 3 não é de modo algum científica.

Também há sérios problemas quanto à evolução no sentido 2 e até no sentido 1, mas estes não chegam a contradizer a Bíblia. Os principais problemas científicos das proposições 1 e 2 incluem: a ausência de formas de transição no registro fóssil, a rapidez do aparecimento da nova espécie; a total ausência de qualquer evidência empírica para a herança de característica adquirida do ambiente, exceto dentro de uma espécie (por ex., os tentilhões de Darwin). Em outras palavras, não existe evidência empírica convincente de uma única espécie se desenvolvendo em [ou a partir de] outra. Mas, se houvesse, isto não implicaria uma contradição entre a teoria da evolução e a da criação.

Aqueles que crêem que existem tais contradições geralmente apontam para as duas seguintes questões: (1) As outras espécies foram criadas sobrenaturalmente por Deus ou evoluíram naturalmente pela seleção natural? (2) E nós? Somos feitos à imagem do King Kong ou de Deus? Adão foi filho de um macaco ou filho de Deus?

Vejamos resumidamente esses dois “pontos de atrito” para a controvérsia entre criação e evolução.

Com relação à primeira questão, não existe contradição lógica entre a afirmação na Bíblia de que no principio Deus criou os céus e a terra (Gn 1.1) e a afirmação de que a variedade de espécies teriam se desenvolvido pela seleção natural. A ciência é como o estudo da ecologia interna de um aquário. A Bíblia é como uma carta da pessoa que criou o aquário. Muito longe de serem logicamente exclusivas, as duas idéias da criação e da evolução facilmente complementam uma à outra ou, pelo menos, uma sugere a outra.

Não é dito na Bíblia que Deus criou (verbo bará) cada espécie por um ato separado, mas sim que Ele disse: Produza a terra seres vivos (Gn 1.24). Por outro lado, uma teoria da evolução que se confina à ciência empírica não pretende saber se existe ou não um Criador divino por trás das forças naturais. Mas certamente sugere fortemente um Criador cósmico.

Com relação À segunda questão, também não existe contradição lógica entre a afirmação da Bíblia de que a alma humana foi feita à “imagem de Deus”, foi “assoprada” (feita espírito) em nós a partir de Deus, e a afirmação da evolução de que nosso corpo teria evoluído de formas inferiores. Gênesis 2.7 permitiria tal origem dupla.

A atual controvérsia na biologia entre os “criacionistas” e os “evolucionistas” não representa real ameaça aos teólogos. Mas tem gerado um duplo mal-entendido. De um lado, muitos teólogos tem usado mal a Bíblia para tentar estabelecer ou desestabilizar uma teoria científica da maneira menos científica possível. Por outro lado, muitos cientistas têm usado  mal uma teoria da ciência para tentar tirar a credibilidade da Bíblia, da maneira menos filosófica possível. Ambos se agarraram às suas teorias extraterritoriais com tenacidade fanática. Muitos evolucionistas são tão “zelosos” e fundamentalistas quanto qualquer fundamentalista religioso. Leia Darwin on Trial [Darwin em julgamento], de Phillip Johnson.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Expelled - A inteligência não é permitida?





Há um tempo ouvi falar desse documentário que fala da falta de liberdade academica quando se trata do darwinismo.

Eu só tinha visto uns trailers e comentarios, bons e ruins.

Depois que assisti vi que o filme não é nada do que estavam falando de ruim dele em algumas páginas de darwinistas, mas também o que falavam de bom do filme nem sempre era verdade.

Não vou dizer o que o documentário fala, apenas o que não fala:

- Não tenta provar que o evolucionismo em si é falso.
- Não tenta dizer que o Design Inteligente está provado cientificamente.
- Não tira frases de seus entrevistados do contexto, como acusaram.
- Não é criacionismo disfarçado.


Como disse antes, fala sobre cientistas que tiveram sua carreira comprometida por questionar o darwinismo.

Tambem fala da relação entre o darwinismo e o nazismo, "O darvinismo não é uma condição suficiente para um fenômeno como o nazismo, mas penso que é certamente uma condição necessária.".

Deve haver um debate honesto entre darwinistas e quem não é darwinista.

Entre os entrevistados estão:

Richard Dawkins (com algumas afirmaçoes bem interessantes)
Michael Shermer - diretor da sociedade de Cépticos.
Dr. Peter W. Atkins
John Lennox
Alister McGrath
Stephen C. Meyer
Bruce Chapman - Presidente do Discovery Institute
David Berlinski - Ph. D. em Filosofia pela universidade de Princeton
Jonathan Wells - Biólogo Molecular


Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=rNk7PVDFh7U
Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=V7wNUeBe2nA
Parte 3 - http://www.youtube.com/watch?v=VQKrkqbJiU4
Parte 4 - http://www.youtube.com/watch?v=L_XcwfntkkY
Parte 5 - http://www.youtube.com/watch?v=8cYENH9-G2E
Parte 6 - http://www.youtube.com/watch?v=wYgsc-mLLys
Parte 7 - http://www.youtube.com/watch?v=d22jjPj93kw
Parte 8 - http://www.youtube.com/watch?v=OSB5WWJ3rfc
Parte 9 - http://www.youtube.com/watch?v=4iCofIl7dAA
Parte 10 - http://www.youtube.com/watch?v=3dJzbD-XfjI