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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

SEDE HOMENS!

Note o que ele já fala daquela época!

***

* Estas linhas foram escritas a pedido dos jovens bacharéis para o elegante álbum que mandaram imprimir, comemorativo de sua formatura.

SEDE HOMENS!


Perdoai-me. Mas começo esta minha singela oração – se oração se pode chamar – pecando contra a modéstia que aconselham os preceitos da retórica, se bem que não me pareça pecar contra a modéstia que nos aconselha a ascese cristã. É que, senhores, começo falando de mim mesmo, falando até de um fato íntimo de família: não mo leveis a mal.

Quando fui levado à pia batismal, meu pai, profundamente cristão, querendo, sem dúvida, manifestar a Deus N. S. a sua gratidão por ver aumentada a descendência, e querendo, também, atrair sobre ela as bênçãos do alto, fez o voto de que, para o novo filho, ele havia de escolher um padrinho, não entre seus amigos e conhecidos, pessoas, talvez, de nome, talvez de posição, mas, sim, entre pessoas humildes do povo, um pobre qualquer que a divina Providência lhe deparasse. Chegou, assim, o dia do batismo e fomos à igreja sem padrinho. E foi ali, do meio da turba dos pobrezinhos que recebiam o pão da esmola – era uma terça-feira dedicada a Santo Antônio – que meu pai escolheu aquele de quem fiquei sendo afilhado. Era um homem pobre, de cor até, mas um homem honesto.

Este belo gesto de meu pai – por que não o louvar? – me veio à mente, em toda a grandeza da sua significação, quando, semanas atrás, recebi, lá em Petrópolis, cheio de admiração, o vosso honroso convite, senhores bacharéis, para vir ser seu vosso paraninfo, o vosso padrinho nesta solenidade, em que, qual outro batismo, recebeis a túnica branca, a toga viril, com a qual entrais, jubilosos, na efebia da vossa existência. Sim, distintos jovens, quisestes externar a Deus n. S. a vossa gratidão pelos muitos benefícios recebidos neste primeiro percurso da vossa vida que hoje terminais; quisestes, de certo, atrair as bênçãos do alto sobre a nova fase da vossa existência que iniciais agora e, por isso, este gesto, aliás incompreensível, de, deixando de escolher o vosso paraninfo de entre todos conterrâneos vossos, filhos ilustres deste glorioso Estado, ricos pelos seus merecimentos, ricos pelas suas virtudes, ricos pelo seu saber de posição, fostes buscar, lá ao longe, um pobre de saber, um pobre de virtudes, um pobre sem nome algum, um mendigo de Cristo, um pobre filho do poverelo de Assim.

Gestos assim, tão cheios de nobreza, tão cheios de elevação e generosidade, só os pode ter ou a crença sincera – como meu pai – ou a juventude não corrompida, a juventude radiosa – como vós.

Meus parabéns, queridos afilhados. E nesse vosso gesto eu vejo, esperançoso, uma garantia para a vossa vida futura.

É que entrais nela, não deslumbrados pela grandeza das exterioridades, mas, selando este dia da vossa vitória e do vosso triunfo, com a nota simpática da renúncia, da modéstia e da humildade. Parabéns!

Eis por que, sem vacilar, aceitei o vosso convite que tanto me desvanece: não quisera privar-vos de tão grande merecimento.

E deixai-me que continue na mesma analogia. Assim como eu me contentava com os presentinhos humildes de meu padrinho, feitos por suas próprias mãos, na oficina do seu trabalho, de certo vos contentareis também com o humilde presente que vos trago, feito por minhas próprias mãos, na minha pobre cela, tenda também do meu labutar cotidiano. Eu me contentava, sim, com a insignificâncias daquelas dádivas, porque as via feitas com sinceridade, com boa vontade, com amor. Oh! Isso, meus afilhados caríssimos, deveis, por força, reconhecer também na pequenez do meu presente: a boa vontade, a sinceridade, o amor, com que vo-lo dou. Recebei, pois, guardai nas vossas almas boas, o presente que da minh’alma sai, o desejo grande, o desejo imenso, o desejo infinito, quase, que sinto de concorrer para a vossa verdadeira felicidade, desejo vazado na singeleza desta oração, que é vossa, porque meditada para vós, para vós escrita, em horas que para vós roubei dos meus outros não poucos trabalhos.

E para que este desejo se converta em esplêndida realidade, eis um conselho – pois, sem dúvida, esperais um conselho do vosso paraninfo – eis um conselho, um só, para que o graveis, profundamente, nas vossas almas moças, e nelas possais medir, com coragem e ânimo, as suas exigências fortes e suaves, e, para que não haja desfalecimentos, as suas conseqüências e seus frutos ubérrimos também.

Afilhados da minh’alma, ouvi-me:

SEDE HOMENS!

***

Quando o jovem romano deixava solenemente a toga pretesta, orlada de púrpura, e envergava – cheio de si – a veste inteiramente cândida, a toga viril – que hoje recebeis – dizia-se, então: é homem!

Não serei eu, vosso paraninfo, paraninfo sincero, quem fomente a vossa possível vaidade, própria dos vossos anos, dizendo-vos: sois homens!

Não, queridos afilhados, perdoai-me, não sois homens ainda. Hoje é que começais a tornar-vos homens.

É verdade, o trabalho da vossa educação propriamente dita hoje se conclui. A educação que recebestes, quer na tranqüilidade suavíssima do lar, de uma mãe extremosa, de um pai vigilante, quer no convívio mais agitado do ginásio, dos vossos superiores e mestres capacíssimos, recebe, neste momento, a sua coroa.

Permiti-me, por isso, um parêntesis: Pais e mães que me ouvis – e que aos ausentes chegue a minha voz – superiores e mestres, receei os meus parabéns por este vosso trabalho importantíssimo que hoje findais. Recebei também os meus agradecimentos, pois à educação forte e suave que soubestes dar aos vossos folhos e discípulos é que devo esta brilhante turma de afilhados, que é, hoje, o meu orgulho.

E continuemos. Mas começa agora – digo começa, não porque só agora deva ter o seu início, mas, porque, isolada, vem mais à luz a sua importância – começa, agora, repito, outra educação muito mais valiosa, porque só de vós depende, a educação que vós deveis dar a vós mesmos. Sim, é esta auto-educação, da qual, infelizmente, se fala tão pouco à mocidade que entra na vida, que vos levará, afilhados queridos, à plenitude da virilidade.

E eu tremo! Não mo leveis a mal, meus afilhados, é um sinal de que vos quero bem. Eu tremo! Pois em que meio há de se realizar essa auto-educação? Eu tremo. Perdoai-me a minha fraqueza, se fraqueza é. Pois eu tremo, como treme o agricultor, que transplanta do viveiro recatado para o campo aberto o jovem cedro, que ficará ali exposto a chuvas demasiadas, capazes de lhe apodrecer as raízes; exposto aos raios inclementes do sol, que o podem ressecar; exposto à violência dos vendavais, que o podem abater. Entretanto o agricultor sabe a riqueza de seiva que se esconde no cedrozinho; sabe que ali está, em potência, um cedro gigantesco que pode afrontar, vitorioso, uma existência de séculos, e abrigar, sob sua opulenta fronte, gerações e gerações de homens.

Eu também sei, afilhados meus amigos, que riqueza de seiva forte, de seiva vigorosa em vós se oculta. Eu também sei que em vós existe latente o homem completo, capaz de afrontar, vitorioso, os vendavais da vida, capaz de abrigar sob a ramaria de seus préstimos e de suas realizações, boas porções da humanidade.

Eu sei tudo isso, e, entretanto, eu tremo, porque sei também que, jovens cedros, sois transplantados para o campo aberto da vida, nas grandes cidades, com os seus perigos e seduções; nas academias, cujo ambiente, em geral, não será favorável ao vosso desenvolvimento. Pois ali encontrareis – por que não o dizer e o dizer francamente? – ao lado de muito mestre competente, de muito mestre digno, de muito mestre mestre, o mestre mercenário, o mestre indigno, o mestre satã, cujo maior prazer será roubar ou perturbar, ao menos, a vossa fé; destruir ou abalar, ao menos, os vossos princípios sobre a moral, sobre a justiça, sobre a liberdade, sobre a família, e que, em troca, com um riso diabólico de uma vitória fácil e inglória, vos entregará ao vosso próprio e deplorável atrofiamento. E como se não bastasse, encontrareis ainda no campo aberto onde deveis medrar e crescer – salvo honrosas exceções, que, seja dito a bem a verdade, são cada vez mais numerosas – a turba multa de colegas sem escrúpulos que vos hão de empurrar, se não pela estrada larga da perdição completa, ao menos pela estrada batida e, por isso, estéril, em que se anda uma vida fôrra de qualquer obrigação, fôrra de qualquer responsabilidade, como se esta existência fosse uma pândega perene.

Encontrareis ainda o perigo dos livros que a vossa opinião, já então abalada da liberdade, vos dará licença de os ler todos; assim como o louco que julgasse ter liberdade de examinar, por própria experiência, numa drogaria, todas as poções, para ver quais as salutares, quais as venenosas. Encontrareis o cinema e o teatro modernos, na sua missão corruptora. Eis o campo aberto em que deveis medrar e crescer. E eu tremo!

É preciso que um sol benéfico, que um sol amigo ilumine o vosso transplantio e então vós, queridos afilhados, hoje, jovens cedros, sereis amanhã os cedros gigantescos, os homens completos que eu em vós desejo ver.

E este sol amigo, este sol desenvolvedor de energias, realizador de esperanças, é o IDEAL que deve iluminar a vossa vida.

Levantai a vossa fronte, na qual se vê estampada a grandeza da vossa raça, a grandeza dos vossos destinos; levantai-a para um ideal digno de vós, e haveis de vencer, haveis de vos desenvolver, haveis de vos tornar homens completos que eu para vós sonho, afilhados da minh’alma.

“Uma mocidade sem ideal é uma mocidade morta”, já escreveu alguém. Sede idealistas, no sentido sadio da palavra. “O ideal – o pensamento é de um escritor castelhano – é uma terra de promissão, com que se sonha através do deserto da vida. Como o sol, ele ilumina os nossos passos e infunde, com seu fogo, calor à existência. O homem sem ideal é um autômato, que se move e fala no cenário da vida, mas sem alma. O ideal pode às vezes enganar, mas estimula sempre. A apatia não corre risco de fracasso, por ser uma árvore sem frutos. Mas Jesus, ao se lhe deparar uma figueira sem figos, amaldiçoou-a. O homem sem ideal é também uma planta estéril. Quem corre atrás de um ideal há de lutar a cada passo, porém a luta é sinal de vida. A indiferença, inimiga de qualquer cometimento, sempre diz: Basta! O ideal, móvel de todo o progresso, sempre diz: Avante! E, por isso, a ciência é o ideal que engendra os sábios; a beleza, o ideal que faz surgir os artistas; a pátria, o ideal que forja os heróis; a religião, o ideal que inspira os Santos”. E o grande Pasteur dizia: “Feliz o homem que, tendo um ideal, consegue dedicar-se-lhe inteiramente”.

Saí, meus amigos, para o deserto da vida, guiados pela coluna luminosa de um ideal, ela vos há de guiar, com segurança, à Canaã suspirada da vossa felicidade.

E o vosso ideal, já vo-lo disse, é serdes homens. Ideal amplo, não há dúvida, que abrange em si todas as vossas nobres possibilidades, todas as vossas aspirações dignificantes.

Sede homens!

***

E se não levais a mal que eu analise convosco este ideal sublime que é, por assim dizer, o fim mesmo da nossa missão cá na terra, eu vos direi:

SEDE HOMENS DE CORAÇÃO!  - Homens que não conhecem somente a força, a dureza, o despotismo, mas que sabem exercer a brandura, a amabilidade, o amor, contudo sem sentimentalismo. Oh! se os homens experimentassem a força prodigiosa que se esconde na, assim chamada, fraqueza de coração! Quão diversas seriam as relações da sociedade. Educai o vosso coração! Não permitais que a brutalidade lhe abafe as vozes e as exigências. Sabei, sempre, amar com ternura, com carinho, vossos pais, irmãos, e todos os que vos rodeiam. Não vos envergonheis nunca de acariciar a criancinha, o pobre, de estender a mão ao mendigo; e, se preciso for, de abraçar o vosso empregado, o vosso operário. A isto não se chama descer, mas subir. Sede o esteio da fraqueza da mulher, o bastão da velhice. Amais os homens como irmãos, segundo o preceito de Cristo, e passai por este mundo, semeando o bem. Educai o vosso coração, ou, melhor, não sofrais que ele se perverta, pois eu sei que ele é bom. Interessai-vos pelas classes pobres, pelas classes que trabalham. Tratai-as, desde já, com simpatia, com amor, para que elas não procurem, revoltadas, fazer justiça pelas suas próprias mãos. Diversidade de classes, havê-la-á sempre, mas o que não é preciso haver é esta inimizade e ódio que as separam. Afilhados meus, talvez não avaliais bastante a importância deste conselho, entretanto, se houvesse mais homens de influência que fossem homens de coração, estariam resolvidos muitos dos problemas sociais que preocupam os que pensam. Lembrai-vos de um Ozanam, revolucionando pelo seu grande coração, cheio de caridade, os meios universitários de Paris.

Mas o vosso dever sobretudo, afilhados caríssimos, SEDE HOMENS DO DEVER! Por ele sacrificai as vossas comodidades, os vossos interesses, o vosso egoísmo. Para ele educai-vos com generosidade. O cumprimento do dever perpasse como um fio de aço que não conhece ruptura, por toda a vossa existência, quer estejais sós, quer na família, quer na sociedade. O dever que custa, que mortifica, que aborrece, que martiriza e que mata até, deveis abraçá-lo sem hesitação. Nunca, meus amigos, brincar com o dever. Oxalá ressoe sempre, aos vossos ouvidos, no momento da dificuldade, a voz providencial de um outro Barroso: “A família, a pátria, Deus n. S., esperam que cada um cumpra o seu dever!” A obediência a esta voz nos levará, com certeza, a um outro Riachuelo humilde,  desconhecido, como o afluente do Paraná – pois é o dever que mais custa o que por ninguém é observado – onde alcançareis a ivtória gloriosa. Oxalá nunca transijais com este imperativo das vossas consciências bem formadas, para que, na hora suprema, possais exclamar em verdade como o heróis de Trafalgar: “Louvado seja Deus! Cumpri sempre o meu dever!”.

Em última análise, meus amigos, é a voz da consciência que toma partido pelo dever. Mesmo quando por ignorância ou fraqueza ela se cala e somos admoestados pela voz de um superior ou de um amigo, é a consciência ainda que nos diz da legitimidade desta admoestação. Pois bem, a voz da consciência pode soar em vão, por poderosa que seja, quando falta ao homem uma vontade enérgica, decidida. Eis por que vos digo: SEDE HOMENS DE VONTADE! Sede homens de energia! Com ela, sereis um forte, um onipotente quase! Educai a vossa vontade, este presente régio com que Deus vos enriqueceu liberalmente. Fortificai-a cada vez mais: ela será capaz de milagres. Que não conseguiam os grandes homens à força de uma vontade férrea? Um Francisco de Sales de temperamento colérico que, pela energia em se vencer e dominar, chega a parecer o homem mais pacato do mundo. Um Elihu Burrit, aprendiz de ferreiro, que, aos 16 anos, resolveu realizar um milagre de força de vontade, consagrando ao estudo das línguas todo o minuto livre que lhe dava a forja ou a bigorna. E, assim, conseguiu aprender 18 línguas e mais de 30 dialetos. – Não foi a força de vontade que transformou Abraam Lincoln de carpinteiro e moleiro, que fora, até aos 20 anos, no grande presidente que pacificou o país e libertou do jugo da escravidão mais de 4 milhões de homens? Lede a vida do nosso grande Mauá; é uma escola de vontade, de energia. Abri o hagiológio cristão: cada página vos prega energia, cada página vos prega força de vontade.

E vendo-vos, cheios de vontade decidida e enérgica, necessário é que eu ponha em movimento esse moinho maravilhoso e vos diga também: SEDE HOMENS DE AÇÃO.

Ação! Ação! Eis o grito moderno levado até ao exagero pela filosofia de Nietzsche, em contraposição ao nirvana do pessimismo de Shopenhauer. Ação! Ação! Trabalho, atividade, também vos digo eu, meus afilhados, mas no sentido razoável da palavra. “Já é hora de surgir do sono” exclamar-vos-ei com São Paulo, principalmente hoje, quando todas as potências do mal estão em plena atividade, procurando subverter os últimos fundamentos da sociedade bem formada. Trabalhai em todas as modalidades possíveis do bem.

Não digamos com o budista “que todo o mal vem da ação”; digamos, antes, que todo o mal vem da indolência, da inércia, e acrescentemos com Cristo: “Meu Pai celeste sempre opera e eu não cesso de operar!”

O poeta árabe Imuru, querendo ouvir a pinião do ídolo Tebala, sobre certo empreendimento, tirou, diante dele, três vezes, a sorte, mas por três vezes ouviu a resposta: nada faças, descansa! – indignado o poeta, que se lhe aconselhasse a inércia quando ele queria operar, segurou os dados e os arremessou brutalmente na cara do ídolo. Não há perigo, meus afilhados, de que os nossos deuses aconselhem a indolência, quando tudo nos clama pela ação. Aí está a ação católica – para falar de uma só modalidade – alastrando-se por todo o mundo, já com frutos prometedores. Fazei vossas as palavras daquele admirável aviador francês J. D’Armoux, cuja vida é um exemplo para a mocidade moderna: “quero – escrevia ele, paralítico em uma cama – dois ritmos na vida: a suprema intensidade no trabalho e o ardor contínuo, mas sereno, a todas as horas do dia.” Fazei vossa a oração deste jovem herói: “Meu Deus, dai-me horror aos minutos perdidos!”

Mas para que a vossa atividade, a vossa ação sejam proveitosas, devo dizer-vos também:

SEDE HOMENS DE CONCENTRAÇÃO. – Sem a concentração e a reflexão que lhe é afim, o vosso trabalho seria prejuízo, e vós dispersaríeis forças de vossa alma que, unidas, operam maravilhas. Sede homens de concentração, homens de pensamento, nesta época dissipada, superficial e frívola em que vivemos. Esta concentração dos antigos resumiam naquela frase concisa: Age quod agis – Faze bem e inteiramente o que estás fazendo. E com esta consideração é que compreendemos como na idade média, apesar de faltarem todos estes meios sem número que auxiliam os que se dedicam à atividade intelectual nos nossos dias, havia, contudo, homens da envergadura de um Alberto Magno, de um Boaventura, de um Aquino, espíritos gigantes, cujo saber provoca admiração até dos sábios modernos. É que – como escreve Krier – o silêncio, a solidão, a união com Deus e uma vida ilibada davam-lhes ao espírito forças e asas para se levantarem dos seus manuais, poucos e deficientes, às regiões elevadas do saber. – Quem está concentrado, reflete. E Rui Barbosa dizia que o estudo é útil, somente, quando, pela reflexão, se assimila a matéria, quando ela se transforma em propriedade nossa. – Fazei como Balmes, o grande filósofo espanhol, que, durante o estudo, envolvia sua cabeça na ampla capa e, assim velado, ficava largos intervalos, a meditar sobre o que lera. Depois descobria-se e, como de um outro mundo de idéias, voltava para a atividade da vida. Meus afilhados, sede homens de pensamento, homens de concentração – em qualquer carreira que seguirdes – e vereis que de revelações, que de forças novas haveis de perceber nas vossas almas, e como vos sentireis com animo de vos aproveitar delas.

E mostrando-vos um ideal tão elevado do homem completo, nem me sinto com a coragem de vos chamar a atenção para uma faceta desta integridade a que aspirais.

Não, não vos direi – por me parecer desnecessário – que deveis ser HOMENS DE MORAL IRREPREENSÍVEL. Não vos direis que deveis detestar o vício que mata a felicidade, dando em troca um gozo baixo e passageiro. Não vos direi que deveis detestar o vício que destrói a energia, degrada a virilidade e a robustez do homem, e, por conseguinte, das nações. Não vo-lo direi – porque já o sabeis – que é justamente neste ponto que se mostra o verdadeiro homem, o homem de energia, que tem força para vencer as suas paixões e apetites inconfessáveis.

Sabeis muito bem – não é necessário que eu vo-lo lembre – que pertenceis ao sexto forte, e que deveis mostrar a vossa força respeitando o fraco.

O homem que se dix do sexo forte, mas que se deixa escravizar pelas seduções – quando criminosas – do sexo fraco, a que sexo pertencerá?!

Cercai de veneração a mulher, caros afilhados, para que um dia possais encontrar uma mulher digna de vós. Lembrai-vos de que tendes uma irmã, uma mãe, para as quais exigis, com razão, o respeito dos outros. E se não puderdes cercar de respeito a toda e qualquer mulher, cercai-a, ao menos, de compaixão. Não vos esqueçais do protótipo da mulher, a Imaculada, sob cujo manto fostes educados. Com estes princípios firmes, sereis vós colunas inabaláveis da nossa querida família brasileira, que na hora presente ameaça ruir.

E hoje se fala tanto em patriotismo, que pareceria uma falta, se eu não vos dissesse também:

SEDE HOMENS DA PÁTRIA! – Sim, caros afilhados, sede brasileiros e sereis lídimos patriotas, patriotas, daqueles que servem a pátria e não daqueles – infelizmente legiões – que são por elas servidos; patriotas dos que enriquecem a pátria e não dos que, às multidões, são enriquecidos por ela. Sede patriotas dos que sabem defender os interesses da pátria e não dos que, sob o manto do patriotismo, defendem os próprios interesses. Sacrificai-vos pela pátria, mas não sofrais que ela seja por vós sacrificada.

Sede patriotas! Mas o patriotismo, em vossa idade, consiste, como já disse d. Aquino Correia, principalmente em valorizardes a porção do Brasil que sois vós mesmos. Sabei ser brasileiros, sabei ser grandes, para que não desmereçais a grandeza do Brasil.

***

E eu, no meu justo desvanecimento de padrinho que vos ama, já me transporto ao futuro, onde vos vejo – engenheiros, médicos, advogados, militares e que sei mais? – cumprindo galhardamente, como homens completos, a vossa missão.

Mas, não vos comparei ao cedro? E o cedro secular e o cedro gigantesco não conhece, enfim, o seu declínio? Falta-lhe seiva, falta-lhe força e, um dia, o gigante tomba na estrada, ficando apenas o atestado de uma grandeza que passou. Será este o vosso destino? Oh! não – exclamareis com o poeta pagão, na consciência da vossa grandeza – “non omnis moriar!” eu não morrerei inteiramente. Emudecerá a minha vós, meus ouvidos fechar-se-ão, meus olhos deixarão de brilhar, minhas mãos se tornarão intertes, meu coração já não pulsará e eu tombarei sobre a estrada da vida. Contudo, non omnis moriar! Não morrerei inteiramente! Alguma coisa que em mim pensa, que em mim reflete, que em mim quer, que em mim sente, que em mim odeia, que em mim ama, há de se desprender de mim e, alçando o vôo, voltar para a sua origem divina donde saiu.

É por isso que eu vos digo, afilhados meus, em último lugar: SEDE HOMENS DE FÉ! De fé luminosa, de fé esclarecida, de fé racional, de fé operosa. Vivei esta fé integralmente – sem desânimo, sem respeito humano – na vossa vida particular, na vossa vida pública. Eu quisera neste instante (e é a primeira vez que me vem este desejo) despir, por momentos, este meu hábito que tanto me orgulho, para não parecer sermão este meu conselho. Falo-vos como homem que raciocina, que reflete.

Deus é a maior realidade, diante da qual não se pode passar indiferente, dizia há pouco, diante da assembléia ilustre, o nosso ilustre  amigo Tristão de Ataíde, o grande apóstolo leigo da nossa terra. Para com este Deus, quer queiramos, quer não, nós temos as nossas obrigações, das quais devemos prestar contas, um dia. Procurar conhecê-las e realizá-las, eis a tarefa do homem. Que só o pode elevar e enobrecer. Não vos esqueçais – gravai profundamente nas vossas almas grandes – que a religião é, em primeiro lugar, uma exigência da razão e não do coração, como, com desprezo, se diz. Tirai daí as conseqüências.

Afilhados da minh’alma. Afilhados que eu estimo, que eu desejo inteiramente felizes, quando a luz da ciência, a luz da amizade, a luz da glória, a luz da fama, a luz do prazer começarem a perder o brilho diante do vosso olhar baço, oh, então brilhe mais radiosa ainda a luz da vossa fé, conservada e vivida generosamente, durante toda a vossa vida, iluminando naquele momento supremo a senda da felicidade eterna.

Sem esta fé, podereis, talvez, ser grandes homens, mas de uma grandeza perecedora; nunca, porém, homens completos, cuja grandeza não pode perecer.

***

E se quereis, por fim, o vosso modelo, o vosso guia, eu repetirei a frase lapidar e inspirada do governador romano Pôncio Pilatos, frase cujo sentido profundo ele mesmo, no seu apoucamento, não podia compreender:

ECCE HOMO! – Eis o Homem por excelência, o Homem perfeito, o protótipo de todo homem: Jesus Cristo, nosso Senhor! O Homem de coração divino; o Homem do dever e da vontade até ao sacrifício supremo; o Homem que realizou o maior trabalho neste mundo, reformando-o; o Homem de pensamento criador de maravilhas; o Homem, contra cuja vida pura nunca puderam dizer coisa alguma os seus próprios inimigos; o Homem que soube, sem alardes, amar a sua pátria, que soube amar a Deus n. S., seu Pai. – ECCE HOMO! Eis o Homem! – Segui-o, afilhados meus, e atingireis a idade do homem perfeito, do homem completo de que fala o grande apóstolo São Paulo.

***

E termino, como comecei.

Quando eu recebia os presentes pobres de meu padrinho pobre – um carrinho de madeira, um cavalinho de pau, um banco, ou qualquer outra bagatela – ficava esquecido, horas inteiras, a brincar com eles, a examiná-los, tirando dali proveito para minha idade infantil.

Meus afilhados, eu não me iludo: o presente que vos dou – esta minha pobre oração – é bem humilde e modesto. É um presente pobre de um padrinho pobre.

Mas não vos esqueçais do amor e da sinceridade com que vo-lo dou. Por isso mais tarde, nas horas de lazer, em meio de vossa vida agitada de acadêmicos, tomais nas vossas mãos – assim como eu fazia em pequeno – o presente do vosso padrinho, que é um pedaço do seu coração, examinai-o e, talvez, com a experiência que então vos tiver dado a vida e com a vossa boa vontade, achareis nele algum estimulo que ajudar vos possa a conseguir, sem desfalecimentos, o vosso sublime ideal.

E, então – é de novo o meu justo orgulho de paraninfo que fala (pois a minha missão não termina com estas palavras, antes começa: levarei os vossos nomes, um por um, no breviário de minhas orações, onde, cotidianamente, vos recomendarei a Deus n. S., seguindo, com interesse todos os passos, lutas e triunfos da vossa vida) – e, então, repito, quando novos Diógenes, de lanterna em mão, procurarem pelo Brasil a fora, homens, homens completos dos quais a família, a pátria e a religião precisam, 37, com toda a certeza – a minha confiança e esperança em vós mo dizem – ao menos 37 homens completos, da nova geração, se hão de encontrar, que sois vós, distintos bacharéis de 1932, do Ginásio de Santo Antônio, de S. João Del-Rei, vós, minha alegria, vós, meu orgulho, vós, minha coroa.

Afilhados da minh’alma, ouvi-me:

SEDE HOMENS!

Meus afilhados

Exigis do padrinho pobre, que tanta coisa já vos disse no dia do vosso batismo glorioso, algumas linhas ainda, algum pensamento, algum conselho para vosso “Álbum”. Não posso dizer que não a afilhados que tanto estimo e dos quais me orgulho tanto.

Mas que conselho vos darei ainda?

Pois bem, afilhados meus amigos – é quase um corolário de tudo o que vos disse – conservai sempre a vossa liberdade. Longe de vós qualquer escravidão que avilta o homem que o degrada sempre.

Mas, entendei bem – eu vo-lo peço – em que consiste a liberdade verdadeira.

Nunca a confundais com a liberdade – se liberdade se pode chamar – que gozam as feras nas florestas ou os loucos pelas estradas.

Sede livres, mas da liberdade que gozam os verdadeiros filhos de Deus, que não são escravos da carne nem do orgulho, que não são escravos da ira ou da indolência, que não são escravos da adulação, que não são escravos do dinheiro, nem de um partido, nem do respeito humano, mas que só se submetem, e livremente, à razão, à autoridade, a Deus n. S., certos de que é essa tríplice sujeição que lhes dará a verdadeira liberdade que eleva o homem e que o dignifica também.

Sede livres, afilhados de minh’alma, para que possais voar, como a águia, às alturas maravilhosas da felicidade, que eu tão deveras vos desejo.

Mas se algum dia, desgraçadamente – o que não espero, nem posso imaginar – algum de vós, por fraqueza ou por descuido, cair num aduar de modernos muros, ficai sabendo todos que o vosso padrinho, como aqueles frades brancos das Mercês, não poupará canseiras, nem orações, nem sacrifícios, nem a própria vida, para comprar ao cativo a sua carta de alforria.

Crede, queridos afilhados, na amizade sincera de vosso padrinho.

Frei Henrique G. Trindade, O. F. M.
Petrópolis, 28/11/1932.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

SEDE CASTOS!

Texto retirado de uma das publicações da "Raio de Sol", uma folha de propaganda católica da década de 30. É interessante notar como as coisas eram naquela época e como pioraram, mas como os remédios são os mesmos. Espero que seja útil tanto para quem quer começar a luta, quanto para quem quer lutar e, além disso, para quem ainda não caiu na real.



Sede castos, porque se o não fordes, sereis desgraçados. É numero o tropel dos vícios, mas a desonestidade é o pior de todos eles. Todos os pecados são impuros, mas a desonestidade é a própria impureza. Todos os vícios estragam alguma parte do espírito ou do corpo; a desonestidade porém estraga todo o homem, todas as suas potências e todos os seus sentidos. Todos os vícios levam à condenação eterna, mas a desonestidade é de todos os vícios o que maior número de almas arrasta para o inferno. Todos os pecados acarretam desgraças; mais e maiores desgraças porém causa aquele que muitas vezes é castigo de todos eles. É tão abominável este pecado, que São Paulo desejava que nem se lhe soubesse o nome, se fosse possível; e é este o motivo por quê na cristandade se fala dele com tamanho resguardo.

À desonestidade deram-se os mais hediondos nomes, e esses nomes com que se designa, bem como os diversos vícios que compreende, não se podem proferir na presença de pessoas que se respeitam. A linguagem impudica só a conhecem os homens infames, de má nota, os patifes, os impudentes, os desavergonhados e libertinos.

Este vício faz pecar em todo tempo. O infeliz que se deixa dominar e escravizar por ele está pecando em todas as ocasiões; o que vai lendo, o que vê, o que ouve, tudo o encaminha a satisfazer as suas próprias paixões. No estudo, no jogo, no passeio, nos divertimentos, à mesa, nas horas em que está acordado durante a noite, no meio dos seus trabalhos durante o dia, na solidão, na sociedade, até na igreja, ao pé dos altares, está o homem desonesto, pelo menos a pensar no seu pecado. Que horror!

Este vício arrasta a todos os vícios. Para pecar com mais facilidade e desembaraço precisa de dinheiro, e este também acaba por se esgotar. Portanto, depois de esbanjar o que é seu, o escravo da desonestidade há de por todos os meios cavar outro, e então recorre à fraude, à rapina, ao roubo, à injustiça, e às vezes até... ao assassínio! A insolência e o orgulho são filhos legítimos da desonestidade: o jovem perde a sua sinceridade, a virgem despoja-se do seu candor e da modéstia: falta de vergonha, imodéstia, despejo e impudência são sinônimos de impureza. Entre todas as heresias, livres pensamentos e ateísmo, haverá um que não tenha nascido no charco da desonestidade. As confissões e comunhões sacrílegas devem-se, na maior parte, à desonestidade.

Este vício torna o homem infiel a todos. Os desonestos atraiçoam os amigos, as amigas, o marido, a mulher, os noivos, as noivas, o pai, o protetor de toda a vida... Amizade, honra, juramentos, religião, família... a tudo espezinha, rompe, desmantela e quebra a desonestidade. A maior parte das tragédias, das traições, dos escândalos e das infamantes vergonhas têm a sua origem neste vício nefando. O curso da impureza vai traçado por rios de sangue e de lama.

Para se entregar a ela, o desonesto usa e abusa de todos os meios, até dos mais iníquos e repugnantes. Que linguagem que gíria de bordel, que expressões equivocas, que indiretas, que gracejos, que orgias e que dissolução de costumes! Que canções e músicas! Que bailes e danças! Que versos e novelas! Que quadros e pinturas! Que vestidos, que gestos e trejeitos! Que reuniões e diversões! Que teatros e espetáculos! Quantas indústrias, tramoias, ardis e abomináveis segredos! Que dias e que noites! Ó vício nefando este, de que nem se pode falar! E que naturalmente degrada o homem, o avilta e arruína; que o corrompe, corrói e devora até a medula dos ossos...

Faz perder ao desonesto a ideia da sua dignidade, a ideia de quão repugnante é o seu pecado e, sobretudo, o conhecimento do seu Deus. Esse desgraçado escarnece descaradamente do que há mais respeitável, a honra, da justiça, da religião, da lei, da autoridade, da amizade, da continência, da virtude, dos Santos e do mesmo Deus! É o homem mais inconsiderado, atrevido e desrespeitador que há no mundo, capaz dos maiores excessos, capaz de postergar e sacrificar tudo à sua paixão desenfreada.

Faz perder o sossego da consciência, porque não há vício nem pecado que provoque mais negros remorsos que a impureza, nem aversão e enjoo mais repugnante e vergonhoso a toda a vida.

Faz perder a liberdade, porque o homem impuro é escravo dos prazeres sensuais e nem sabe como se há de libertar dos seus grilhões. Fortemente peado pelos numerosos laços que o prendem aos seres mais vis e abjetos do mundo, enreda-se e se emaranha em mil compromissos espantosos e baixezas incríveis.

Faz perder a fé, pois a mente desse infeliz se embota e é incapaz de penetrar as verdades espirituais.

Faz perder a esperança, porque é vício que se agarra à sua vítima, que arrasta e não larga o desonesto, nem deixa desvencilhar-se, porque de dia para dia lhe cresce o frenesi. A maioria desses impudicos não apetecem o céu.

Faz perder principalmente a caridade, o amor de Deus e do próximo. Neste mundo sublunar não há egoístas que se possam comparar às pessoas desonestas, que são as mais estupidamente egoístas.

Faz perder a honra, pois este vício, de um modo ou de outro, há de furar até chegar às vistas do público e enxovalhar a honra de quem, em má hora, se deixou subjugar por ele.

Faz perder a fortuna, porque a satisfação prolongada dos prazeres sensuais é um sorvedouro, em que se abismam rios de dinheiro, e de ordinário a desonestidade leva à ruína e à pobreza.

Faz perder a saúde, visto como este vício enerva a natureza, esgota as energias e engendra enfermidades vergonhosas, repugnantes e incuráveis. Se fossemos reunir todos aqueles que morreram devorados pelas doenças da impureza, formaríamos um monte que topetaria na lua.

A desonestidade é o mais seguro caminho da condenação, pois é o mais pegajoso dos vícios e o mais difícil de largar; muitas vezes até arrasta ao suicídio.

Jovens, que sôfrega e incautamente correis atrás dos prazeres desonestos, prestai-me ouvidos e crede-me: se quiserdes teimar em seguir esse caminho escabroso, haveis de chorar muitas lágrimas e padecer horrivelmente. Não vos metais por aí. Suspendei os passos enquanto é tempo. Sede castos! Sede castos! E não me venhas retrucar que é impossível.

É muito possível, pelo contrário, e eu vos prometo a vitória, se vos empenhardes com ânimo e perseverança em pôr em prática os quatro meios infalíveis que vos quero apontar.

Primeiro meio: escolhei um bom confessor e abri-lhe frequentemente a vossa consciência e o vosso coração, manifestando-lhe, como a médico e pai que ele é, todas as vossas fraquezas.

Segundo meio: comungai frequentemente, ao menos cada semana e ainda mais amiúde, todos os dias até, caso vos seja isto possível. Consultai a este respeito o vosso confessor.

Terceiro meio: uma terna e filial devoção à Virgem Santíssima protetora da castidade.

Quarto meio: orar e pedir continuamente a castidade a Deus e à Virgem Imaculada. Sem a graça divina, ninguém se engrandeça de guardar a castidade: mas esta graça se há de alcançar pela oração.

Condição necessária, sem a qual baldarão todos estes meios, é viverdes afastados das ocasiões de pecar e dos espetáculos perigosos. As diversões, os teatros, os malditos cinemas, e revistas, as estampas e pinturas, os contos, novelas e romances obscenos, certas palestras, os bailes, as amizades e, para abreviar, todos os incentivos da sensualidade de que está cheio o mundo, são outros tantos perniciosos veículos, que vão difundindo por todas as partes os imundos gérmens da lepra e o cancro da desonestidade.

É tão preciosa a castidade, que bem merece algum sacrifício da vossa parte e, por amor deste tesouro, não será muito que vos resolvais a cortar de vez e resolutamente uns tantos passatempos, certas diversões e leituras que conheceis muito bem e só vos podem causar dano.




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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Vícios - A preguiça


Acabei de ler esse texto em meu e-mail. É muito bom, e por isso decidi postá-lo aqui.

***

O preguiçoso, conforme o senso comum, é aquele indivíduo avesso a atividades que mobilizem esforço físico ou mental. De modo que lhe é conveniente direcionar a sua vida a fins que não envolvam maiores esforços.

A Preguiça é definida como aversão ao trabalho, negligência. Este sentimento faz com que as pessoas desqualifiquem os problemas e a possibilidade de solução destes. A preguiça não se resume na preguiça física, mas também na preguiça de pensar, sentir e agir. A crença básica da preguiça é "Não necessito aprender nada", levando a um movimento freador das idéias e ações dentro das organizações que, no cotidiano, é traduzido pelo "deixa para depois".

“Paciência não é preguiça nem indolência, é a tranquilidade de saber esperar o momento oportuno, mas sem deixar de ser ativo!”

**A preguiça fecha os nossos olhos para as possibilidades.**


DICAS PARA VENCER A PREGUIÇA

Preguiça é a inimigo número 01 da produtividade, compromete seu tempo e saúde, e tornam-se facilmente uma
barreira para conquistar metas de longo prazo, aquelas realmente importantes.
Entenda a preguiça como uma batalha psicológica entre você e a inércia e, se quiser crescer, vai ter que vencer a
preguiça. Aqui vão algumas dicas úteis para esta caminhada.
1. Exercite-se
Você pode se sentir preguiçoso se não tiver energia suficiente para seu dia a dia. Uma rotina de exercícios físicos
deixa o corpo disposto e alerta, menos propenso a 'baixas' energéticas.
2. Durma
Como você pode se sentir motivado e entusiástico se não dorme o suficiente? Problemas de sono muitas vezes
decorrem de maus hábitos.
3. Determine um prazo curto para começar
A parte mais difícil de muitas tarefas é começar. Determine um prazo curto (5 a 15 minutos) para começar, de
qualquer maneira. Se precisar refazer o início depois, o tempo necessário certamente será menor que a eterna
protelação.
4. Visualize os benefícios
A preguiça se alimenta também da nossa visão do problema, e ver só as dificuldades da sua execução torna mais
difícil começar a resolvê-lo. Imagine todos os benefícios que terá ao concluir seu dever, e será bem mais fácil
colocar mãos a obra.
5. Estabeleça prêmios
Estabeleça para si mesmo um prazo para cumprimento da tarefa e um prêmio pela sua consecução. Entra como um
bônus no pacote de benefícios.
6. Pense nas conseqüências do não cumprimento
Outro motivador para se vencer a preguiça é visualizar as conseqüências negativas de se entregar à inércia. Se os
benefícios não são o suficiente para motivá-lo, pense no prejuízo financeiro, profissional ou emocional que vai ter se
não fizer o que deve.
7. Encontre parceiros.
Todos nós temos baixas em nossa motivação, e pessoas com interesses em comum podem ser o melhor apoio
quando a vontade própria não é o suficiente.
8. Divida a tarefa em partes administráveis
Às vezes, a visão obscura que temos de um problema nos impede de definir por onde começar. Se estiver diante
de uma questão complexa ou trabalhosa, divida o processo em etapas menores, administráveis, com prazos para
início e conclusão para cada uma.
9. Faça uma coisa de cada vez
Não é da nossa natureza (embora esteja se tornando de nossa cultura) ser multitarefa. Organize seu pensamento e
dedique-se a uma tarefa de cada vez. A concentração beneficia enormemente a criatividade e nosso potencial para
resultados.
10. Descreva seu processo
Você se sentirá mais motivado se perceber com clareza como sua produtividade varia de acordo com a freqüência
com que se entrega à preguiça. Uma maneira de visualizar este processo é registrar seu progresso diariamente,
anotando quantas metas se propôs, quantas atingiu e como foi seu estado energético e emocional neste dia.
11. Lembre-se do que realmente interessa.
A preguiça se alimenta de desculpas que damos a nós mesmos: 'é muito cedo', 'é muito tarde', 'estou muito
cansado', 'eu mereço esta folga'. Ás vezes realmente é verdade, e precisamos relaxar e descansar o corpo. Mas há
uma voz interna, auto-crítica e ciente de nossos estados emocionais, que nos diz se estamos realmente cansados
ou nos entregando à preguiça.
Nas horas críticas, esta voz é a nossa mais sábia conselheira.
Baseado no texto: 16 powerful tips to overcome laziness.
Pronto entao é isso.

CONSEQUÊNCIAS DA PREGUIÇA

Uma das formas mais comuns da preguiça é justamente a repugnância pelas alturas espirituais e morais. Quer-se é viver bem, mas sem exageros de esforço nem loucuras de idealismo. Ser bom, ser um “cristão médio”, com a "sua"  medida de religião, vá lá. Mas levar o cristianismo a sério e em plena coerência com a fé, isso considera-se fanatismo! Tirando as inúmeras desculpinhas que os preguiçosos podem tirar manipulando o próprio Evangelho a seu gosto.

É muito interessante verificar que a sabedoria dos antigos, já desde os primeiros séculos do cristianismo, ao enfocar a preguiça, contemplava quase que exclusivamente o seguinte conteúdo: a resistência a atingir a altura espiritual e moral própria de um filho de Deus, de um cristão.

Na linguagem clássica cristã, o vício capital da preguiça era designado com o nome de acédia (ou acídia). A acédia é fundamentalmente uma tristeza, uma tristeza ácida e fria – daí o nome –, que invade a alma ao pensar nos bens espirituais – na virtude, na bondade, no amor a Deus e ao próximo –, precisamente porque não são fáceis de alcançar nem de conservar. Exigem esforço, renúncia, sacrifício. E o egoísmo e o egoísta se defendem.

A repugnância que sente por tudo quanto é abnegação e doação generosa vai criando depósitos azedos no coração, e acaba transferindo para Deus e para os próprios bens árduos que Deus pede uma fria antipatia, que pode terminar em aversão: “um tédio que acabrunha”, diz Santo Tomás de Aquino. Esta aversão primeiramente contra o esforço que é carregar verdadeiramente a Cruz, avança contra o esforço que é buscar as virtudes, indo de encontro contra o próprio Deus e todos seus filhos que desejam ser virtuosos.

A preguiça detesta o que o amor abraça, entristece-se com o que alegra o amor.

Observa Santo Tomás que os pecados carnais são mais vergonhosos que os espirituais porque nos rebaixam ao nível do animal; contudo, os espirituais, os únicos que se compartilham com o demônio, são mais graves, porque vão diretamente contra Deus e nos afastam Dele.

Conseqüências da Preguiça Espiritual


- Desistência das tarefas religiosas necessárias para a nossa salvação e santificação. 
- As más tendências tendem a aumentar pouco a pouco, manifestando-se por numerosos pecados veniais que nos dispõem a cometer graves faltas.
- Busca de consolações materiais, prazeres inferiores com a finalidade de fugir da tristeza e desgosto, pela privação da alegria espiritual através da sua própria negligência e preguiça.
- Tristeza maligna que oprime a alma, dela nascem a malícia, o rancor sobre o seu próximo, desencorajamento, torpor espiritual mesmo pelo esquecimento de preceitos e, finalmente, procura de coisas proibidas, que levam à curiosidade, loquacidade, inquietude, instabilidade e agitação infrutífera. Desta forma a pessoa chega a uma cegueira espiritual e a um progressivo enfraquecimento da vontade.

Todo pecado capital será vencido pelos constantes exercícios espirituais, penitências, mortificações e óbvio constante busca dos Sacramentos da Penitência (Confissão) e da Eucaristia. Também gostaria e reforçar que contra todos os pecados capitais temos um grande trunfo, o Santo Rosário!

UM MAIS QUE EXCELENTE ARTIGO SOBRE OS PECADOS CAPITAIS

Como ensina São Gregório Magno e, depois dele, Santo Tomás, os pecados capitais de vanglória ou vaidade, preguiça, inveja, ira, gula e luxúria não são os mais graves de todos, pois maiores são os de heresia, apostasia, desesperação e de ódio a Deus; mas são os primeiros a que se inclina nosso coração, levando-nos a nos afastar de Deus e a cometer outras faltas ainda mais graves. O homem não chega à perversão absoluta de uma vez, mas pouco a pouco. Examinemos primeiro, em si mesma, a raiz dos sete pecados capitais. Todos eles se originam no amor desordenado de si mesmo ou egoísmo, que nos impede de amar a Deus sobre todas as coisas e inclina a nos apartarmos dele. É evidente que pecamos, i. e., que nos desviamos de Deus e nos afastamos dele cada vez que tendemos para um bem criado, indo contra a vontade divina.

Isto é a conseqüência fatal de um amor desordenado de nós mesmos, que vem a ser a fonte de todo pecado. Por conseguinte, não só é necessário moderar esse amor desordenado ou egoísmo, mas também é preciso mortificá-lo, para que o amor ordenado ocupe seu lugar. Enquanto o pecador em estado de pecado mortal se ama a si sobre todas as coisas, praticamente antepondo-se a Deus, o justo ama a Deus mais que a si e deve, além disso, amar-se em Deus e por Deus; amar seu corpo de tal maneira que sirva à alma, não lhe obstando a vida superior; amar a alma convidando-a a participar eternamente da vida divina; amar sua inteligência e vontade, de modo que participem mais e mais da luz e do amor de Deus. Este é o sentido profundo da mortificação do egoísmo, do amor e da vontade próprios, opostos à vontade de Deus. Além disso, não deve permitir que a vida descenda, mas, pelo contrário, que ascenda em direção daquele que é fonte de todo o bem e de toda a beatitude.

O amor desordenado de nós mesmos leva à morte, como diz o Senhor: “O que ama (desordenadamente) a sua vida perdê-la-á; e quem aborrece (ou mortifica) a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna” (João 12, 25). Desse desordenado amor, raiz de todos os pecados, nascem as três concupiscências de que fala São João (I João 2, 16) quando diz: “Porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e soberba da vida; e isto não vem do Pai, mas do mundo”.

Observa Santo Tomás que os pecados carnais são mais vergonhosos que os espirituais porque nos rebaixam ao nível do animal; contudo, os espirituais, os únicos que se compartilham com o demônio, são mais graves, porque vão diretamente contra Deus e nos afastam dele. A concupiscência da carne é o desejo desordenado do que é ou parece útil à conservação do indivíduo ou da espécie, e deste amor sensual provêm a gula e a luxúria. A concupiscência dos olhos é o desejo desordenado do que agrada a vista, o luxo, as riquezas, o dinheiro que nos proporciona os bens terrenos; dela nasce a avareza. A soberba da vida é o desordenado amor da própria excelência e de tudo aquilo que pode ressaltá-la; quem se deixa levar pela soberba, erige-se a si em seu próprio deus, a exemplo de Lúcifer. Daí se vê a importância da humildade, que é virtude capital, tanto quanto o orgulho é fonte de todo pecado. São Gregório e Santo Tomás ensinam que a soberba é mais que um pecado capital: é a raiz da qual procedem mormente quatro pecados capitais: vaidade, preguiça espiritual, inveja e ira. A vaidade é o amor desordenado de louvores e de honras; a preguiça espiritual se entristece pensando no trabalho requerido para santificar-se; a ira, quando não é uma indignação justificada e sim um pecado, é um movimento desordenado da alma que nos inclina a rechaçar violentamente o que nos desagrada, de onde se seguem as disputas, injúrias e vociferações. Estes pecados capitais, sobretudo a preguiça espiritual, a inveja e a ira, engendram tristezas amargas que afligem a alma e são totalmente contrários à paz espiritual e ao contentamento, ambos frutos da caridade. Não deve o homem apenas contentar-se em moderar tais germes de morte, senão também mortificá-los. A prática generosa da mortificação dispõe a alma para outra purificação mais profunda que Deus mesmo realiza, com o fim de destruir completamente os germes de morte que ainda subsistam em nossa sensibilidade e faculdades superiores.

Mas não basta considerar as raízes dos sete pecados capitais; é preciso analisar suas conseqüências. Como conseqüências do pecado se entendem geralmente as más inclinações que os pecados deixam em nosso temperamento, mesmo depois de apagados pela absolvição. Entretanto, também pode entender-se como conseqüências dos pecados capitais os demais pecados que têm sua origem neles. Os pecados capitais assim se chamam porque são um como princípio de muitos outros; temos, em primeiro, inclinação para eles e depois, por meio deles, para outras faltas às vezes mais graves.

É dessa forma que a vanglória gera desobediência, jactância, hipocrisia, disputas, discórdia, afã de novidades, pertinácia. A preguiça espiritual conduz ao desgosto das coisas espirituais e do trabalho de santificação, em razão do esforço que exige, engendrando a malícia, o rancor ou a amargura contra o próximo, a pusilanimidade ante o dever, o desalento, a cegueira espiritual, o esquecimento dos preceitos, a busca do proibido. Igualmente, a inveja ou desagrado voluntário do bem alheio, bem que temos como mal nosso, engendra o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria do mal alheio e a tristeza por seus triunfos.

Por sua vez, a gula e a sensualidade geram outros vícios e podem conduzir à cegueira espiritual, ao endurecimento do coração, ao apego à vida presente até à perda da esperança da vida eterna, ao amor de si mesmo até ao ódio de Deus e à impenitência final.

Freqüentemente, os pecados capitais são mortais. Podem existir de uma maneira muito vulgar e baixa, como em muitas almas em pecado mortal, ou bem podem também existir, nota São João da Cruz, em uma alma em estado de graça, como outros tantos desvios da vida espiritual. Por isso se fala às vezes da soberba espiritual, da gula espiritual, da sensualidade e da preguiça espiritual. A soberba espiritual inclina, por exemplo, a fugir daqueles que nos dirigem reprimendas, ainda quando tenham autoridade para isso e no-las dirijam justamente; também pode levar-nos a guardar-lhes certo rancor em nosso coração. Quanto à gula espiritual, poderia fazer-nos desejar consolos sensíveis na piedade, até o ponto de buscarmos nela mais a nós mesmos que a Deus. É o orgulho espiritual a origem do falso misticismo. Felizmente, diferentemente das virtudes, estes vícios não são conexos, ou seja, pode-se possuir uns sem os outros, e muitos são até contrários entre si: assim, não é possível ser avaro e pródigo ao mesmo tempo.

A enumeração de todos estes tristes frutos do exagerado amor de si deve levar-nos a um sério exame de consciência e nos ensina, ademais, que o terreno da mortificação é muito extenso, se quisermos viver uma vida cristã profunda.

O exame de consciência, longe de apartar-nos do pensamento de Deus, aponta-nos para ele. Deve-se inclusive pedir-lhe luz para enxergar um pouco a alma como o próprio Deus a vê, para enxergar o dia ou a semana que passaram como se os víssemos escritos no livro da vida, à maneira de como os veremos no dia do Juízo Final. Por isto temos de repassar cada noite, com humildade e contrição, as faltas cometidas de pensamento, palavra, ação e omissão. No exame deve-se evitar a minuciosa investigação das menores faltas, tomadas em sua materialidade, pois semelhante esforço poderia fazer-nos cair em escrúpulos e esquecer coisas mais importantes. Trata-se menos de uma completa enumeração das faltas veniais que da investigação e acusação sinceras do princípio de onde geralmente procedem.

A alma não deve se deter em demasia na consideração de si mesma, deixando de olhar para Deus. Pelo contrário há de se perguntar, tendo os olhos fitos em Deus: como julgará Deus este dia ou semana que agora termina? Foi este dia meu ou de Deus? Busquei a ele ou a mim? Desse modo, sem turbação, a alma julgar-se-á desde um plano elevado, à luz dos preceitos divinos, tal como se julgará no último dia. Mas, como diz Santa Catarina de Sena, não separemos a consideração de nossas faltas do pensamento da infinita misericórdia. Olhemos nossa fragilidade e miséria ao lume da infinita bondade de Deus que nos alevanta. O exame, feito deste modo, longe de desalentar-nos, aumentará nossa confiança em Deus.

Por contraste, a visão de nossos pecados nos esclarece o valor da virtude. O que melhor nos revela o valor da justiça é a dor que a injustiça produz. A imagem da injustiça que cometemos e o pesar de tê-la cometido devem nos despertar a “fome e sede de justiça”. Por contraste, é necessário que a fealdade da sensualidade nos revele a beleza da pureza; que a desordem da ira e da inveja nos faça compreender o alto valor da mansidão e da caridade; que as aberrações da soberba nos ilustrem acerca da elevada sabedoria da humildade.

Peçamos a Deus inspirar-nos um santo aborrecimento do pecado, que nos separa da divina bondade, da qual tantos benefícios recebemos e esperamos para o porvir. Esse santo ódio do pecado não é, de certa forma, senão o outro lado do amor de Deus. É impossível amar profundamente a verdade sem detestar a mentira, amar de coração ao bem, e o soberano Bem que é Deus, sem que por sua vez detestemos o que nos separa de Deus.

A maneira de evitar a soberba é pensar com freqüência nas humilhações do Salvador e pedir a Deus a virtude da humildade. Para reprimir a inveja, temos de rogar pelo próximo, desejando-lhe o mesmo bem que para nós desejamos. Aprendamos igualmente a reprimir os movimentos da ira, afastando-nos dos objetos que a provocam, trabalhando e falando com doçura. Esta mortificação é absolutamente indispensável. Pensemos que temos que salvar nossa alma e que ao nosso redor há muito bem a se fazer, sobretudo na ordem espiritual. Não esqueçamos que devemos trabalhar pelo bem eterno dos demais e empregar, para consegui-lo, os meios que o Salvador nos ensinou: a morte progressiva do pecado, mediante o progresso nas virtudes e principalmente no amor de Deus.



Fonte: Trecho do livro "As três idades da vida interior"; tradução: Permanência