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sexta-feira, 21 de julho de 2017

O Ídolo Contemporâneo - Parte II

Por
Rev. Padre Jacques-Marie-Louis Monsabré

Diz-se aí, senhores, que as palavras Deus, Providência e Imortalidade são velhas e intoleráveis; nada mais verdadeiro. O ídolo contemporâneo, submetido à pressão das ideias e dos atos que por um lado nos representam a Deus, e por outro lado a alma humana, cai por terra, quebra-se, esmigalha-se, e protesta contra as temerárias pretensões dos seus fabricadores. Antes de vos dar os pormenores desta consoladora catástrofe, não vos impressionou, como a mim, este fato singular, a saber: que temos a ideia precisa de seres, essencialmente diferentes da matéria, a ideia de forças superiores à matéria? Seja qual for a origem desta ideia, como a poderíamos alcançar, se nada existiu e nada existe além da natureza? É-me absolutamente impossível admitir, que um ser possa nunca formar ideia do que não existe, ideia que, na hipótese de se formar, deveria por fim ser rejeitada quando a inteligência fosse esclarecida pela verdade. E, pois, que nos dizem que somos o ludibrio de uma ilusão, afirmo que a ilusão é improdutível, e que é absolutamente impossível que possamos formar ideia de coisas, cujos elementos não existiram, não existem, não existirão nunca. Estudai as quimeras que o espírito humano concebe, e vereis que se compõem de elementos realmente existentes na natureza: mas na hipótese de que a matéria é o único ser atual e possível, como poderia eu conceber as quimeras, Deus e a alma, se a essência que lhes atribuo está fora de tudo que existe ou pode existir? Não sei, senhores, se vos apresento bem esta dificuldade que o senso comum desde logo opõe ao materialismo; mas eu vejo-a, compreendo-a, e sinto que dissipa completamente do meu espírito todas as dúvidas. Analisemo-la, porém, e deste modo compreendereis melhor a sua força. Deus representa para nós o necessário, o infinito, a suprema perfeição, o motor de todos os mundos, o ordenador inteligente de todos os mundos, o Criador e Senhor da nossa vida. Se Deus não existe, é absolutamente necessário que a matéria corresponda a todas estas ideias, porque é impossível suprimi-las sem dar um desmentido ao espírito humano e sem cair no mais espantoso caos. Não é este o intento dos fabricadores e dos pontífices do grande ídolo; sentem, já vo-lo disse, a fatalidade que atribui à matéria tudo o que se nega a Deus. Logo, a matéria deve ser necessária, infinita, a perfeição suprema, a onipotência inteligente. O peso destas perfeições esmaga e aniquila a matéria. Como seria necessário o ser tantas vezes divisível e diviso, suscetível de aumento e diminuição, incessantemente mutável, o ser que posso imaginar como não existindo, ou existindo de um modo diferente, aumentar, diminuir, mudar, consoante apraz ao meu pensamento? Dominado pela minha potência avassaladora, só por meio dela é que esse ser lograria a ter consciência de si. É um ser necessário! E não possui meio algum de manifestar a sua necessidade, e não a conhece senão sob uma forma contingente e mediante fenômenos contingentes! Estranho ser necessário! Como seria infinito? O infinito não se concebe senão suprimindo simultaneamente o limite e o número. Ora, a matéria está sujeita aos números. Na matéria não só se multiplicam seres distintos, mas cada ser e cada parte do ser se resolve numa inumerável quantidade de seres que escapam à observação experimental. A soma de todas estas quantidades finitas, não produz senão um número finito. Repugna à inteligência um número atualmente infinito, composto de unidades sucessivas. Afirmar a possibilidade de tal número seria o mesmo que destruir os fatos, porque um número infinito na matéria produziria o pleno absoluto, o pleno no seu máximo de densidade; e nesta hipótese o vácuo seria um absurdo, o espaço uma quimera, as formas confundir-se-iam, os movimentos estacionariam, o mundo não seria mais do que uma grande massa informe, uma noite, um repouso imenso. As mesmas dificuldades com referência à perfeição. É impossível admitir a perfeição suprema no ser do qual posso afirmar o mais e o menos, no ser onde não vejo senão mudanças contínuas; e o meu espírito busca um ser no qual, segundo a expressão da Escritura, não há nem sombra nem vicissitude. Dir-me-ão: a matéria está sempre em ação; seja. Mas por mais que atue, nunca logrará elevar-se às regiões sublimes onde o meu espírito contempla a suprema perfeição. À medida que a matéria for aperfeiçoando, o meu espírito subirá mais acima; e, se eu mesmo não sou mais do que matéria, lançar-me-ei, em nome dum ser impossível, a uma luta perpétua. Como admitir perfeição suprema num ser essencialmente contraditório? Se ainda não vedes claramente, senhores, como são profundos os golpes que estas grandes ideias abrem no ídolo, descei das esferas da metafísica às humildes regiões do senso comum, e ponde a matéria em presença do movimento universal, da imensa variedade dos seres e da ordem do mundo. Se Deus não existe, é forçoso que seja a matéria a causa de todas estas maravilhas, e, todavia, a matéria, segundo a confissão dos seus adoradores, é originariamente indiferente e cega. Quando “por um esforço inato, a matéria organiza os seus elementos dispersos, e adquire propriedades e perfeições que não tinha” , escrava de leis fatais que a impelem a progredir, sofre a tirania de todas as circunstâncias fortuitas que determinarão as suas formas. “Singular causa, diz com razão um crítico moderno, que viola todas as leis da lógica, e que está em perpétua contradição consigo mesma: ininteligente, produz uma obra que revela inteligência; cega, realiza a harmonia; imprevidente, a tudo prevê; fortuita, cria a ordem; inconsciente, restabelece a solidariedade; fatal, opera como se fora dotada de vontade própria; inanimada, produz a alma e a vida; privada de razão, de entranhas e de sentimentos, opera prodígios de gênio e de amor”. A matéria é tudo, a matéria pode tudo, a matéria faz tudo; eis aqui, senhores, as proposições mais incompreensíveis que se podem conceber, se não é que as explicações com que pretendem justificá-las não são ainda mais incompreensíveis. Como é que a matéria move o universo? Nada mais simples: o movimento, dizem, é essencial à matéria. Quer dizer, senhores, afirma-se, sem provas, o contrário do que o espírito naturalmente concebe quando une estes dois elementos: matéria e movimento; o contrário precisamente do que a experiência ensina e comprova. Naturalmente concebemos que a matéria é movida; experimentalmente apenas observamos séries de movimentos, cujo princípio escapa à ação dos sentidos. Nestes movimentos observamos uma diminuição contínua em proveito da estabilidade dos corpos, de onde se segue que, se nos é lícito determinar a essência da matéria, apoiados na observação das suas tendências, nunca devemos dizer: o movimento é essencial à matéria, mas sim: o estado estático é essencial à matéria. Sobre este ponto os melhores físicos estão de acordo com a tendência natural do nosso espírito a admitir na matéria um movimento adquirido. Segundo eles, a inércia da matéria é o resultado principal da experiência e o fundamento da mecânica: a física deve sempre fazer entrar nos seus cálculos a matéria como coeficiente da inércia” . E de mais, senhores, já vistes, quando desenvolvíamos as provas da existência de Deus, como era absurda a consequência logicamente deduzida do movimento essencial da matéria: cada átomo deveria possuir, como primeiro motor, o plano harmônico de todas as evoluções do movimento; o infinitamente pequeno tornar-se-ia, por esta vasta concepção do todo, num infinitamente grande . Quereis unir a força e a matéria? Pois bem: o que é a força? É uma série de movimentos produzidos por outros movimentos? É a mesma questão. É uma qualidade inerente à matéria? Mas na matéria há uma qualidade que tende ao repouso e que é a negação daquela. É o calor, a eletricidade, o magnetismo? Estes fenômenos são efeitos do movimento e não causas. É um axioma, uma fórmula, uma abstração? Isto não significa nada . É um ser distinto da matéria? De duas uma: este ser ou é múltiplo como os elementos, ou é único. Se é múltiplo, é forçoso que seria determinado e ordenado ao movimento do todo por uma força superior; se é único, é simples, imenso, inteligente, onipotente; o materialismo não o pode admitir sem se contradizer, sem renegar o seu ídolo. Logo, a inércia é essencial à origem de todo o movimento: primeiro mistério. A indiferença e a uniformidade produziram a imensa variedade dos seres: segundo mistério. Diz-se, senhores, que tudo começou por um período atômico e que a mecânica presidiu à origem das coisas. Abster-me-ei de perguntar ao átomo primitivo e à mecânica original de onde procedem: esta pergunta poderia embaraça-los. Estudemos, pois, aqueles seres tais como nos são propostos. Os átomos constitucionais são idênticos e indiferentes à mecânica indeterminada. Pergunto: a conclusão natural que o senso comum deduz destes princípios não é porventura que devem produzir seres perfeitamente semelhantes, na hipótese de que alguma coisa produziram?E digo, na hipótese de produzirem alguma coisa, porque a afinidade eletiva que se supõe nos átomos, está em manifesta contradição com a semelhança completa e indiferença que se lhes atribui. Não tem ao menos o mérito dos átomos de Epicuro, com os quais se pode conceber uma certa variedade nos seres. De mais, a indeterminação original da mecânica não se pode converter por si em determinação. Ponhamos, porém, de parte esta dificuldade. Admitamos que as causas primordiais, cuja apresentação acabo de fazer-vos, produzem todos os seres orgânicos. Eis a vida; essas causas não vão mais longe. “Não há nada semelhante à vida, senão a mesma vida” . Nasce sempre, e por toda a parte, de m gérmen vivo que se alimenta de um blastema, gerado também por um ser vivo. Para o seu desenvolvimento, a vida necessita ainda de princípios orgânicos que possa assimilar; as substâncias inorgânicas, elementares no estado de indiferença química, não a podem sustentar . Diz alguém “que uma garrafa com carbonato de amoníaco, cloreto de potássio, fosfato de soda, de cal, de magnésio, de ferro, de ácido sulfúrico e sílica é, de um modo ideal, o princípio vital completo” . Desafio a quem quer que seja a que faça passar esse ideal à realidade. Mas as gerações espontâneas? Não as estudei de perto, senhores, mas apelo para as experiências decisivas que enterram para sempre aquela hipótese ; apelo para o testemunho de sábios conscienciosos que me afirmam “que a matéria sem espontaneidade nada pode gerar” , “que a geração espontânea é impossível” , “que todas as experiências rejeitam tal hipótese” , que as forças físico-químicas estão condenadas a uma esterilidade absoluta; “que é necessário admitir, em todo o ser vivo, uma ideia que se desenvolve e manifesta pela organização” . Há mais, senhores; não só todo o gérmen protesta contra o átomo primitivo e contra a mecânica primordial, mas os próprios gérmens protestam contra os gérmens. Com efeito, estes gérmens são todos determinados em espécies distintas que nunca se confundem . Ideou-se, bem o sei, um romance científico, abundante em hipóteses, onde a luta pela existência e a seleção natural exercem um papel extravagante, e onde se infere a possibilidade das variedades nas espécies, a possibilidade das suas transformações sucessivas e, da possibilidade das transformações de uma espécie em outra, a possibilidade das transformações de um reino em outro . Mas a experiência bem longe de justificar estas afirmações audaciosas, pelo contrário, desmente-as. Na verdade, diz-nos a experiência que a seleção artificial só produz variedades; que os esforços livres, inteligentes e calculados do homem para um fim indeterminado desfazem-se constantemente contra a imutabilidade da espécie; que a natureza caprichosa reconduz sempre ao primitivo tipo os produtos da arte humana, desde que a arte humana os abandona. Daqui concluímos, com a experiência, que a seleção natural, resultado de circunstâncias fortuitas, não pode operar nenhuma transformação radical, que os tipos são irreformáveis, que o “plano da organização é invariável na determinação dos limites da espécie, que a espécie não sai da espécie” , numa palavra, que o poder soberano dos átomos idênticos e da mecânica indeterminada são contos que servem para conciliar o sono. Estamos, senhores, na presença de um terceiro mistério de onipotência não menos ininteligível e repugnante que os precedentes: o mistério da harmonia produzida pela ininteligência. Não negamos que a matéria possa tornar-se inteligente; isto seria negar o homem e as suas obras; mas para isto é necessário que a matéria se eleve, por uma longa série de transformações, até ao cérebro humano, produtor do pensamento. Antes de examinar o proceder deste órgão maravilhoso, pergunto ao materialismo se as obras do homem não são precedidas de uma obra inteligente, se não existe uma harmonia preexistente aos nossos atos intelectuais. Não, responde-me o materialismo pela boca dos seus mais conspícuos doutores; a natureza procede cegamente, sem desígnio e sem ordem; ao lado das coisas que parecem manifestar um plano, há as exceções e as monstruosidades; “a harmonia é um ideal do homem que aplica ao universo o seu modo de ver as coisas” . É fácil responder a estas afirmações mais que audaciosas. Se há exceções e monstruosidades na natureza são evidentemente desprovidas de valor em comparação dos fatos precisos e determinados nos quais se manifesta um desígnio meditado; quando muito, aquelas exceções provam o limitado alcance do nosso espírito que não pode explica-las. Aos olhos do verdadeiro sábio, a exceção confirma a lei; a monstruosidade faz sobressair os esplendores da ordem pelo poder do contraste. Quanto ao dizer-se que nos enganamos afirmando a inteligência onde vemos a ordem, é impossível, porque somos obrigados, não pela imaginação, mas pela força analógica do senso comum a reconhecer uma inteligência onde quer que vejamos a harmonia e a ordem. É escusado repetir aqui, senhores, o que já ponderei acerca da harmonia do mundo e dos desígnios superiores que ela nos revela. É necessário fechar os olhos de propósito, para não ver coisas tão evidentes, e para não compreender que, se trabalhamos a fim de que as nossas obras sejam realizadas com número, peso e medida, nada mais fazemos do que imitar essa obra admirável na presença da qual todo o homem reto e sincero tem o sentimento do seu nada. “Analisai a molécula. É um modelo de simetria que apresenta um tipo geométrico; os corpos simples para que formem os compostos não se podem combinar senão em números proporcionais determinados e invariáveis” . Uma potência matemática preside a toda a combinação , o sábio descobre-a no infinitamente pequeno, o povo contempla-a no infinitamente grande. E nos seres vivos “um plano de admirável harmonia dispõe as partes de modo que se adaptam perfeitamente ao fim para o qual o todo existe . Que maravilhosa arte nos tecidos! Só no homem há trinta, e nos seus admiráveis enlaçamentos cada molécula ocupa seguramente o lugar que lhe é devido. Que sábia previdência na lei das uniões e na lei do amor, convergindo não somente à propagação da espécie, mas ainda à conservação, à proteção, a educação de seres frágeis que se preparam para as lutas da vida! Os materialistas invocam a fixidez das leis , a federação dos elementos atômicos, o consensus necessário das suas tendências invencíveis , como se todas estas coisas não supusessem uma inteligência que fez a lei, organizou a federação dos elementos e regula as suas tendências. Agrada-me sobremaneira aquele sábio, quando exclama: “Foi a lei, isto é, a inteligência, a ideia, o espírito, o amor que formou o mundo” , e aquele outro que, no seu arrebatamento, esquece as áridas fórmulas da ciência e canta, como se fora poeta, os gloriosos hinos dos elementos e o espírito divino que os fecunda . Bem vedes, senhores, que há inteligência antes do cérebro humano. Se a matéria não pensa senão por meio deste órgão, é forçoso aceitar este absurdo enorme: a ininteligência é mãe da harmonia. Ó divindade miserável! Ídolo falaz do materialismo, eis-te esmagado pelo universo inteiro. O movimento, a variedade dos seres, a vida, a harmonia, tudo pesa sobre ti e te reduz a pó; quero, porém, descarregar os derradeiros golpes sobre a tua teoria do cérebro humano de que te glorias como se fora a tua obra prima. Não é agora, senhores, ocasião oportuna de fazer uma longa demonstração da espiritualidade da alma: esta questão tratar-se-á a seu tempo. Também não me deterei em refutar esses sofismas vulgares com que os materialistas obstinadamente nos apresentam, como causas das nossas operações intelectuais e morais, as condições orgânicas e as funções concomitantes. Limitar-me-ei a consignar os fatos perante os quais é forçoso admitir, ainda uma vez mais, a impotência absoluta da matéria. Em todos os nossos atos, ainda nos mais nobres e levantados, temos a consciência de que somos limitados, e, por conseguinte, dependentes. E se apenas dependemos da matéria, é à matéria que devemos atribuir a consciência do nosso eu, as nossas ideias, os nossos juízos, os nossos raciocínios, a nossa vontade, o sentimento do dever, isto é, devemos derivar, contra os princípios da razão, o imutável do variável, o uno do divisível, o livre do fatal, o meritório do irresponsável. O ser vivo, incessantemente movido pelo princípio que o anima, perde e adquire, algo desaparece e renova-se a ponto de que, da matéria que possuía no começo de um período matematicamente medido pela ciência, não lhe resta a mínima molécula logo que aquele período termina. Por mais nobre que seja a massa de que é formado o cérebro humano, é certo que a cada momento se transforma. E sendo assim, deveríamos, sob a impressão constante de um trabalho que remova o nosso cérebro, modificar constantemente a afirmação da nossa existência. E não é assim. A afirmação da nossa existência é sempre a mesma. Há vinte, quarenta, sessenta anos, e mais ainda talvez, que nós dizemos: eu. Eu imputável que subsiste através da incessante mutabilidade do nosso organismo. Como explicar isto, senhores? Havemos de dizer que cada átomo antes de se ausentar teve o cuidado de dizer adeus e fazer as suas confidências ao átomo que o vem substituir? Seria uma loucura afirmar tal. O eu subsiste e afirma-se precisamente, porque há em nós uma substância simples e imutável que une as fases mutáveis da nossa existência, e a matéria sempre transformada e sempre substituída, não pode ser aquela substância. Do mesmo modo, senhores, a matéria divisível não pode ser a substância que vê em nós as ideias e realiza a unidade dos nossos juízos e raciocínios. A preciosa massa cerebral, por muito impressionável que seja, não pode receber senão as imagens que lhes são apresentadas e, supondo que as conserva, tais imagens nunca nos representariam senão seres particulares, indivíduos determinados. Se em mim há apenas impressões cerebrais, verei, quiçá, tal árvore, tal animal, tal homem, mas ser-me-á absolutamente impossível, exprimindo por uma só palavra um gênero, uma espécie na sua totalidade, ver a árvore, o animal, o homem em geral, e por maioria de razão se se tratar de coisas material e atualmente irrepresentáveis, com o necessário, o possível, o infinito, o absoluto, o futuro e outras. Não é o divisível, mas o uno que forma as ideias e sobe tudo o que as enlaça em nossos juízos e raciocínios. Quando dizemos: este homem é justo, onde é que se realiza o laço desta proposição? Quando afirmamos que tal conclusão está contida em tais e tais premissas, onde é que se pronuncia esta afirmação? É em cada molécula da substância cerebral? Mas como, se não há mais do que um juízo e raciocínio? Quem opera a intelecção de uma substância tão divisível e divisa, senão a unidade que a governa, a unidade que aquela massa não é, nem pode ser. Dizem: a matéria está sujeita a leis inflexíveis. Que seja. Mas, não obstante, eu sou livre. Se determino marchar para a direita e não para a esquerda, marcho; levantar o braço e não tê-lo imóvel, levanto-o; abrir os olhos, e não tê-los fechados, abro-os; realizar um dado pensamento e não outro, realizo-o. Em todos estes atos eu tenho a consciência de que é a minha vontade que se cumpre. E se eu fosse apenas matéria seria tão escravo da necessidade que não somente não poderia praticar atos livres, mas, o que é mais, nunca poderia saber o que significa a palavra liberdade. Ora, se a fatalidade da matéria repugna à liberdade, a consequência necessária é, que a irresponsabilidade repugna à ideia de mérito ou demérito. Entretanto, senhores, é incontestável que existe em nós a noção e o sentimento daquelas duas coisas, porque temos a noção e o sentimento do dever. Domina a nossa vida, regula, dirige e qualifica os nossos atos, uma lei de que não somos autor e que por isso mesmo não podemos alterar. Se ajustamos as nossas ações com esta lei, praticamos o bem, merecemos; se a transgredimos, praticamos o mal, desmerecemos. Ora, com que direito afirmamos das nossas ações que “esta é meritória e aquela é má” se acima de nós nada há, se depois de nós só há matéria? Não nos dizem porventura que a matéria é o joguete duma inflexível necessidade? Como posso eu adquirir mérito ou demérito se estou sujeito a violências tais de que não posso escapar? O respeito, o amor, a liberalidade, a caridade e a dedicação outros tantos efeitos são da lei fata; o desprezo, o ódio, o assassinato, o egoísmo, não são crimes, não, mas produtos da necessidade. Isto é, decerto, uma inaudita monstruosidade, mas tão criminosa como a existência de um nó no tronco de uma árvore, ou de um tumor no músculo de um animal. Se o materialismo quiser ser consequente, deve admitir que o vício e a virtude são produtos como o vitriolo e o açúcar, que é tão contrário à moral o ser perverso como o ser zarolho ou corcovado . Mas o materialismo revolta-se algumas vezes contra estas consequências, e acusa-nos, quando lhas lançamos em rosto, que lhe movemos uma guerra desleal e que fugimos, por medo, das refutações científicas. Sois testemunhas, senhores, de que eu também fugi destas refutações. Se para esmagar o ídolo contemporâneo não tivera mais argumentos do que o deduzido da ideia do dever, ainda assim não sairia do terreno científico. Os dados do senso íntimo serão porventura tão científicos como os da experiência física? A ciência, a verdadeira ciência, não consistirá acaso em conhecer os princípios e ver neles as conclusões? Se nos princípios do materialismo vejo a destruição de toda a moral, terei ainda a necessidade de procurar novos argumentos? Não tenho o direito de dizer, que quando um princípio destrói o que deve ser, é um princípio falso, visto como os princípios são regras de ser? É por isto, senhores, que os materialistas se veem obrigado a capitular, ainda que contra a vontade. Conhecendo a sua flagrante contradição com a consciência do gênero humano, o materialismo deserta do erro e admite a ideia do dever. Há mais de sessenta séculos que a consciência do gênero humano fala, e nos diz que é necessário cumprir o dever ainda mesmo com detrimento da matéria. Ouvistes? Ainda mesmo com detrimento da matéria! Pois bem, nada mais atroz e insensato do que esse axioma universal da moral, se a matéria é o nosso único criador e senhor. A sabedoria, a justiça, o dever exige que a respeitemos, que lhe prestemos culto, que sigamos docilmente os seus movimentos. E, todavia, nada mais baixo e vil! “Não há inteligência, não há faculdades superiores; tudo é sensibilidade, tudo embrutecimento, tudo terreno”, segundo a enérgica e bela expressão de Bossuet. Bem pelo contrário, foi sempre glorioso, e sê-lo-á sempre, o elevar-se o homem acima da matéria, resistir ao ardor do seu sangue e à violência dos seus instintos em obséquio à justiça, sofrer pela justiça, morrer pela justiça, desprezar a matéria tanto quanto é necessário para manifestar uma grande dedicação. Quando a miséria solta os seus gemidos, quem é mais belo, mais amável, mais digno de louvor, o epicurista que fica indiferente, e que, fiel à máxima egoísta dos pagãos, não sente dor nem piedade em presença do desgraçado, ou o homem generoso que liberaliza o seu dinheiro, emprega o seu tempo, as suas forças e arrisca a sua vida para salvar a vida de um dos seus irmãos? Quando a pátria invadida solta o grito de alarme e chama os seus filhos, qual é o herói, cujos feitos gloriosos mais tarde cantará? É o covarde que, pro amor da sua querida matéria, vai escondê-la e procura ele mesmo subtrair-se às balas e aos golpes do inimigo, ou o homem valente que voa para se alistar nas fileiras dos bravos, e se expõe às fadigas de uma campanha sangrenta e oferece impávido e o seu peito generoso ao fogo do inimigo? Ó matéria, ídolo bestial e frágil, a minha grandeza será tanto maior quanto mais entranhado for o desprezo que te votar. Não só me roubas a honra se te sirvo, mas ainda se em teus braços procuro a felicidade, ela me foge com obstinada ironia . Assim, pois, ó matéria, se tu não podes satisfazer as aspirações da minha alma, como posso eu suportar o jugo da tua divindade? Vai, vai! Eu não tenho necessidade de ti, basta-me o meu grande Deus. Ó Deus! Se tu não existiras, que profundo e espantoso abismo não se abriria para engolir o que há de mais nobre, e grande, e respeitável sobre a terra! Que valor teriam as orações dos santos? De que serviriam as sublimes contemplações das almas absorvidas no ideal? De que serviria o sangue dos mártires do dever? De que serviriam os gemidos e a derradeira esperança da justiça oprimida? De que serviriam as lágrimas dos abandonados? O nada, o nada seria o termo de tudo isto! O nada!... em quanto os perversos estimulados pela irresponsabilidade dos seus crimes devastariam o mundo! Que horror! Não, não, meu grande Deus, nós não queremos ser órfãos. Só tu podes sustentar o universo de que és Pai. Vinde a nós, e repeti-nos a grande palavra do deserto: Eu Sou o que Sou: Ego Sum qui Sum. Sim, força infinita, causa universal, existência necessária, perfeição suprema, inteligência soberana, criador e ordenador do mundo, senhor da nossa vida, tu és o que és, e a matéria é o que não é, porque sem ti seria nada. Vede, Senhor: eis-me aqui, de joelhos, com os olhos e mãos levantadas ao céu: contigo n´so calcamos aos pés os membros rotos do ídolo da falsa ciência, e em lugar da cega multidão que a toda hora exclama: Não há Deus, Non est Deus! Nós, teus filhos, cantamos com o coração transportado e com a alma comovida: Creio em Deus: Credo in Deum.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Ídolo Contemporâneo - Parte I

Por
Rev. Padre Jacques-Marie-Louis Monsabré

Senhores:

Há um progresso descendente oriundo do erro, como há um progresso ascendente oriundo da verdade. Confessar a existência real e pessoal de um ser superior e invisível, o mesmo é que aceitar, em princípio, todas as verdades que se relacionam com esta existência, por mais profundas e incompreensíveis que sejam. Mas quando o espírito humano empreende suprimir os mistérios que não pode explicar, não abandona a sua empresa senão depois que se persuade ter destruído a própria raiz daqueles mistérios. A negação pura e simples de Deus devia suceder às imensas complicações dos sistemas panteístas, nos quais reaparecem, sob formas de difícil compreensão, e, conseguintemente, inaceitáveis, as ideias de causa primária e de finalidade, das quais o panteísmo quereria prescindir. A unidade primordial que se destrói por si mesma divide-se e converte-se numa multiplicidade infinita, sem deixar de ser uma; a substância da qual emanam os seus atributos que produzem por sua vez inumeráveis atributos; o ser puro, indeterminado que se determina; o ser nada que se torna algo; este ser que adquire a consciência de si mesmo e que se torna universo; a ideia que não se desenvolve senão para tornar a si depois do exílio, da dispersão e da fuga de si mesma: eis o que o panteísta deve crer. É duro, confessemo-lo. A inteligência fatiga-se analisando estes profundos desvarios; e os esforços do idealismo para regularizar entre nós a situação do panteísmo não têm logrado salvar este erro do descrédito universal. A Alemanha, depois de ter chamado ao panteísmo a filosofia do futuro, lança-lhe em rosto estas desdenhosas palavras: “Aquilo a que, ordinariamente, chamam profundidade do espírito alemão, mais se pode dizer confusão de ideias do que profundidade de espírito... Nada há que mais repugne do que ver essa filosofia aparentar uma profunda erudição, e ensoberbecer-se das suas teorias ocas e nebulosas”. Do desdém passou-se à grosseria. “Os nossos filósofos modernos gostam muito de nos dar, requentados, velhos legumes, pondo-lhes nomes novos, para no-los servirem como últimas invenções da cozinha filosófica” .

Numa palavra, já não presta o eu igual ao eu, o eu absorvido pelo não-eu, a ideia pura e os seus três momentos; tudo isto passou para dar lugar à santa natureza, à matéria fecunda, existente por si mesma, às condições físicas e aos seus resultados. Mas uma inexorável fatalidade persegue o espírito humano ainda em seus mais profundos desvarios. O materialismo, negando Deus, não pode prescindir das ideias que este nome augusto representa, bom ou mau grado seu refere-as ao ser impotente cuja existência única e suprema proclama. Aqui, realmente, não há mais do que uma substituição, e Leibniz disse com justiça: “Uma natureza universal deve, necessariamente, tornar-se um ídolo”.

Bem o sabeis, senhores, este ídolo é a vergonha do nosso tempo. Ensina-se à mocidade que deve prestar culto ao deus-matéria, prometeu-se ao povo os favores deste ídolo. Na presença de tal escândalo, já não é bastante repetir aquela palavra enérgica proferida do alto desta cadeira por um dos meus predecessores contra o materialismo ; é necessário entrar a todo custo na oficina científica onde se fabrica o ídolo contemporâneo, ver como os obreiros trabalham no seu artefato, estudar os processos do fabrico, notar os defeitos do produto que pretendem impor às adorações do gênero humano, esmigalhar o ídolo, para a glória do nosso grande Deus e honra da consciência pública.

I

Reduzem-se a três classes os obreiros ocupados na fabricação do deus-matéria: os tímidos limitam-se a circunscrever os limites das ciências naturais; proclamam a soberania da experiência para determinar os fatos da ordem física, e a necessidade de prescindir, no estudo dos fenômenos, das suas condições e leis, de toda a preocupação sistemática.  Nisto não os censuramos. As concepções a priori podem extraviar a observação que investiga as leis da natureza. Seja-nos, porém, lícito lamentar que homens que se dizem sábios restrinjam o domínio da ciência, evitando, de propósito, com referência às causas primeiras e às forças imateriais, certas conclusões que naturalmente se apresentam, no fim de toda a experiência bem feita; conclusões que ilustres sábios idos aceitaram sem hesitação, porque satisfazem a imperiosa necessidade que a razão experimenta, depois de analisar os fenômenos, de se elevar a conhecimentos mais altos e de saciar, por meio de legítimas especulações, as suas naturais tendências para a perfeição, preenchendo as lacunas da experiência.  Seja-nos permitido ainda observar que há, na ordem puramente intelectual como na moral, fatos sobre os quais a experiência, sem mais instrumentos do que os olhos e a razão, pode pronunciar-se com tanta segurança como na ordem física, e que é injusto, por conseguinte, enfeudar a experiência em proveito exclusivo das ciências chamadas positivas.

Os tímidos confessam certamente que “a aplicação do discurso experimental aos fatos, a teoria, constitui a ciência; que a teoria não é mais do que a ideia científica comprovada pela experiência; que o raciocínio não serve senão para dar uma forma às nossas ideias, de modo que tudo se reduz primitiva e finalmente à ideia; que a ideia é que constitui o ponto de partida, ou o primum movens, de todo o raciocínio científico; que ela é igualmente o ideal das aspirações para o desconhecido”.  Desejaríamos, porém, que se explicassem melhores e mais claramente sobre a natureza, origem, sede e alcance desta ideia a pripri. É certo que se inclinam respeitosamente diante da filosofia desligada da experiência. “A Filosofia, dizem, representa a aspiração eterna da razão humana para o desconhecido; comunica ao pensamento humano um movimento que o vivifica e enobrece, incitando-o constantemente à solução inesgotável de grandes problemas; entretém aquele fogo sagrado da investigação que no sábio nunca se deve apagar”.  Tudo isto está bem; mas é ainda pouco esta homenagem. Quereríamos uma confissão mais franca das realidades que chamam indeterminadas: Deus, a providência, a espiritualidade da alma, as funções vitais; quereríamos uma confissão explícita da possibilidade de unir estes dois mundo que não podem ser estranhos um ao outro: o mundo físico e o mundo metafísico; uma homenagem prestada à grande e verdadeira ciência, à ciência que reduz a princípios mais elevados e mais universais o conjunto dos conhecimentos humanos. Finalmente, é certo que os tímidos, no estudo dos fenômenos da vida, na biologia, confessam que o como do organismo não se pode explicar senão pela palavra criação, que “a ideia criadora é, para falar com propriedade, a que regula a evolução vital”, mas, por que não saúdam abertamente o criador da vida, como Newton saudara o motor do universo?

É funesta e, direi mesmo, culpável toda a hesitação nesta matéria, numa corrente que arrasta os espíritos a não verem nada acima das grosseiras realidades da matéria. Arquivemos, entretanto, as confissões e as concessões do determinismo, e pois que ele deixa à nossa disposição o mundo filosófico, aproveitemo-nos dele.

Os solapados não são tão condescendentes, chamam-se positivistas. O positivismo é empírico no mais elevado ponto. Nunca o levareis a admitir que o espírito humano possui uma força íntima e original que, pelas suas intuições e raciocínios, governa, dirige e regula a experiência. “Fatos, e nada mais do que fatos, analisados e coordenados, eis o que basta. O resto nada vale”. Do mesmo modo suprime autoritariamente toda a ordem de ideias que não assente sobre a experimentação dos fenômenos. As causas e os fins são contrassensos para o positivismo. Se algum espírito delicado e escrupuloso tenta escapar aos rigores positivistas saudando de longe a metafísica como ciência estranha que não deve ser desprezada, e Deus como inteligência suprema e reguladora no qual se pode crer sem prejuízo da causa diretamente determinativa de cada fenômeno , o positivismo exclama: “Não se julgue que, tratando-se de causas segundas, seja livre a cada um pensar sobre as causas primeiras que lhe aprouver. Não. Sobre este ponto não há liberdade: a minha determinação é precisa e categórica: declaro que as causas primeiras são desconhecidas” . Tudo que não entra na esfera dos fatos é inacessível à razão. Não trateis já a psicologia como se fora uma ciência especial , porque sereis censurados e pronunciarão contra vós esta sentença: “Assim como o físico reconhece que a matéria pesa, assim também o psicologista afirma que a substância nervosa pensa sem que nem um nem outro pretendam explicar por que é que aquela pesa e este pensa” . “É evidente, diz um professor distinto, que a neutralidade diplomática dos positivistas oculta um tratado secreto de aliança contra o inimigo comum, o espiritualismo; e talvez que não lhes falte certa ingenuidade imaginando que, na grande confusão de doutrinas, os seus desejos sejam duvidosos.

Razão tinha eu, senhores; os positivistas são operários solapados. Não podem, por mais que se esforcem, ocultar-nos as suas manobras, descobertas, demais, pelos seus companheiros de oficina. “Note-se bem, diz um deles, se os serviços do positivismo nos obrigam a fechar os olhos às suas debilidades, não podemos ignorá-las apesar das suas reticências. As suas afirmações e as suas negações não nos iludem, nem a respeito do seu valor próprio, nem a respeito da sua extensão. A escola positivista é uma seita, oriunda do materialismo; não vale mais e não tem mais alcance do que o materialismo”

Eis o que é claro, senhores: o positivismo presta serviços. Prepara sorrateiramente a obra dos operários francos e resolvidos que se chamam sem vergonha materialistas. Vede como se agitam em roda da imensa fornalha onde se derrete o bronze do grande ídolo, com que atividade preparam o molde que deve lhe dar as suas formas definitivas e para sempre adoradas. Quereis saber que processos empregam na realização da obra? Ei-los: importarem-se pouco com as contradições, afirmar com audácia, vangloriarem-se impudentemente.

A primeira contradição dos positivistas, a mais palpável e característica, é a que eu chamarei contradição de método. Consiste em estabelecer como princípio, por uma parte, que o empirismo é norma soberana de toda a afirmação científica, que nada se deve admitir que não seja demonstrado pela experiência, e, por outra parte, estabelecer e seguir um dogmatismo desenfreado, cujas proposições escapam toda a disciplina e toda a verificação experimental.

A nossa vista, auxiliada de instrumentos aperfeiçoadíssimos, não atua senão sobre um espaço limitado. Não podendo abarcar a imensidade da extensão, parece que, pelo menos, deveríamos guardar silêncio sobre um tão elevado mistério, desde o momento em que a metafísica não no-lo pode explicar. Mas não é assim. O materialismo pronuncia-se e declara que a matéria é infinita. A experiência só nos subministra fatos. Analisem-se, coordenem-se, interpretem-se, é o que desejo; mas respeite-se a sua essência, pois que ninguém a pode observar. Mas, não, o materialismo entra violentamente neste arcano, e proclama que o movimento é essencial à matéria. Nunca se demonstrou que a matéria mudasse as espécies ou as produzisse; e, apesar disto, o materialismo ousa afirmar que a matéria tem produzido sempre o que nunca produziu, e que é onipotente. Tudo começa, tudo se sucede, tudo acaba: seres, formas, movimentos, revoluções. Nós não logramos, no curto espaço de tempo que se chama vida, mais que possíveis e contingentes; e não obstante isto, o materialismo afirma que a matéria é necessária e eterna. Da mesma confissão da sua ignorância acerca das causas, deduz bruscamente monstruosas conclusões nas quais manifesta sem pudor o seu desprezo de toda a lógica. Convém-lhe ignorar a causa que produz as operações intelectuais, as ideias, os juízos, os raciocínios, os sentimentos, as volições, as determinações; e conclui imediatamente: todos estes fenômenos são movimentos da matéria”. A que vêm os elogios dos materialistas a um método que a todos os momentos atraiçoam? Não é evidente que os fatos de que o materialismo se aproveita com tanta avidez só o interessam, como alguém observou com razão, “na hipótese de uma total conformidade, esperada ou pressentida, entre aqueles fatos e uma doutrina previamente estabelecida” ? Não é manifesto que esta doutrina intenta um fim ao qual deseja chegar por faz ou por nefas, e não uma conclusão legítima da ciência experimental?

Para evitar o opróbrio das suas contradições, o materialismo procura um subterfúgio. Pretende que “os materiais da experiência, se não podem resolver de um modo positivo certas questões, são suficientes para resolver de um modo negativo” . Isto é demasiado ingênuo, senhores; uma criança por certo que não se deixaria colher no laço. Há, bem o sabeis, negações que equivalem a uma afirmação. Quando alguém me diz: “eu não sou um homem de mau procedimento”, entendo por isto que esse alguém é um homem probo. Do mesmo modo, quando me dizem que a matéria não tem limite, entendo por isto que é infinita; quando me dizem “não se podem conceber outras causas além da matéria”, entendo, por isto, que a matéria é onipotente; quando, enfim, me dizem que a matéria não foi criada, entendo que existe de si, que é eterna. Apesar dos protestos do materialismo, é forçoso que renuncie ou ao seu método, ou ao seu dogmatismo.

A contradição fundamental de método, senhores, leva-nos necessariamente a admitir, acerca da causa, natureza e finalidade das coisas, muitas proposições inconciliáveis e contraditórias num mesmo sistema. Seja exemplo: o materialismo, depois de ter estabelecido que não existe outro princípio além da matéria, não julgou inconveniente opor-lhe a força sob uma forma simples que a exclui . Afirma que o homem não é de natureza diferente do mais vil átomo, e todavia gloria-se de se elevar cada vez mais sobre a matéria, dominada pela ciência e pelo trabalho de cada dia . A vida ora procede do acaso, ora se forma como os cristais sob a ação do sol, e, por isso, sob a influência de leis matemáticas, ora procede de um ser vivente .

Umas vezes a matéria é inconsciente e cega , outras vezes é um artista criador . Umas vezes opera sem intenção, sem plano na sua organização; outras vezes manifesta vestígios evidentes de apropriação a certos fins . Todas estas contradições se agrupam, avolumam, e misturam e confundem, mas nem por isso o materialismo deixa de apresentar-se cada vez mais arrogante.

Vede, senhores, a audácia admirável com que dogmatiza. Para ele a metafísica não é ciência. Em vez de procurar conciliar as intuições e as induções transcendentes do espírito humano com os dados da experiência, afirma que há antinomia entre os princípios da física e os da metafísica. Tem a audácia de afirmar que Deus e a alma são hipóteses absurdas, mas não se dá ao incômodo de nos provar que estas hipóteses envolvem contradição. Acusa-nos de falarmos da criação, como se houvéramos sido testemunhas dela , e atreve-se a falar do infinito, da eternidade, da onipotência da matéria como se tivera visto sair das suas retortas o infinito, o eterno, a onipotência. Incapaz de esmagar os espiritualistas sob o peso de sólidos argumentos, apela para a injúria: chama-lhes sonhadores ignorantes, pensadores invencioneiros e hipócritas. O materialismo apresenta-nos este argumento triunfante: tudo o que é possível realiza-se; mas o universo é possível e isto pasta para que exista. Para não admitir conclusões inevitáveis, eleva-se este cavalheiro do positivismo e da experiência até um misticismo transcendental, cuja fórmula eu vos suplico que noteis atentamente. “É verdade que não sabemos como as coisas se passaram no princípio; seja, porém, qual for a nossa ignorância, devemos dizer com certeza, que a criação orgânica pôde e deveu realizar-se sem a intervenção de uma força externa”. Eis o mais maravilhoso ainda: “Nós temos a certeza subjetiva do nascimento espontâneo dos seres orgânicos” . Senhores, se o ridículo poderá ter os foros do sublime, estaríamos, certamente, em pleno sublime.

Todavia as afirmações da escola materialista parecem-me menos repugnantes do que a audácia das suas pretensões. Esquecida do passado, ousa impudentemente chamar-se a ideia nova. A ideia nova! Mas pondo de parte as falsas interpretações de certos fatos, apoiados em recentes descobrimentos, não há uma só, dentre as proposições materialistas, que não fosse há muito proclamada. Poderíamos formar, com paciência, um quadro sinótico das afirmações contemporâneas e das do século passado, para nos convencermos de que os materialistas do século XVIII pensaram exatamente como os do século XIV. A mesma exageração e o mesmo abuso do método experimental, a mesma tendência para divinizar a natureza, as mesmas propriedades atribuídas à matéria, a mesma repulsão de toda a substância simples, a mesma doutrina acerca da geração espontânea, da circulação da vida, das transformações sucessivas e da identidade dos seres, o mesmo horror às causas finais, a mesma adoração da lei e da fatalidade; há apenas diferença no estilo, os antigos empregavam uma linguagem mais castigada.  Um apologista que os refutou, não admite neles boa-fé ; mas prova o seu parentesco com Lucrécio, Epicuro, Demócrito, que tiveram por ascendentes aqueles materialistas que, segundo o livro da Sabedoria, falam assim: “Nascemos do nada e ao nada voltaremos... o nosso corpo converter-se-á em pó, o nosso espírito dissipar-se-á como ligeiro fumo... tudo acaba com a vida... eia, gozemos os bens presentes; depressa, que a juventude passa rápida; embriaguemo-nos com o vinho e com os perfumes. Aproveitemo-nos na flor do tempo, coroemo-nos de rosas antes que murchem, que não haja campo em que não pasce a nossa voluptuosidade” . Eis aqui, senhores, as velhas ideias perfeitamente concordes com as do nosso tempo.

O materialismo não é a ideia nova, não é a ciência. Glorie-se muito embora e diga solenemente: “A ciência despediu-se de Deus acompanhando-o até às suas fronteiras para lhe agradecer os seus serviços provisórios; presentemente não precisa d’Ele para nada. A ciência afirma isto, a ciência nega aquilo, a ciência pronuncia, a ciência decreta, a ciência ordena”. Isto não vos deve desconcertar, nem ao menos comover, porque ainda que carecêsseis de toda a ciência, podíeis invocar com nobre orgulho os nomes respeitáveis duma falange de homens ilustres que diziam: parece-me, submeto ao vosso juízo estas reflexões, e que, sob esta forma simples e reservada, pronunciaram oráculos que ainda não foram reformados; os nomes dos Kepler, dos Copérnico que agradeciam a Deus com ternura as luzes que se dignou derramar sobre o mundo; os nomes dos Newton e os Lineu que seguiam os vestígios de um poder e de uma sabedoria infinita, através dos espaços e do firmamento e dos reinos da natureza ; e, entre nós, os nomes sábios e distintos, cuja modéstia não quero ferir, mas a quem publicamente agradeço o seu zelo e perseverança em contradizer com a indiscutível autoridade dos seus trabalhos, a obra dos fabricadores do ídolo-matéria. Sábios por sábios, prefiro os modestos aos imprudentes; os que procuram persuadir-me para me elevar, aos que se me impõe para me aviltar.

Já sabeis, senhores, quais são os processos da escola materialista. Pelo simples exame destes processos é fácil determinar o resultado dos seus trabalhos; mas eu prometi-vos uma vistoria a fim de que ficassem patentes os defeitos de fabricação do ídolo com que pretendem substituir o verdadeiro Deus. Vou cumprir a promessa.

Continua...

sábado, 2 de junho de 2012

Debate: Ateísmo vs. Cristianismo.

Observação: minhas posições sobre a existência de Deus e sobre a ressurreição de Jesus ainda permanecem as mesmas, embora bem mais aprofundadas, mas os argumentos sobre a existência de Deus foram melhorando com o tempo, conforme passei a estudar mais filosofia, principalmente o Tomismo. Se Deus permitir, em breve voltarei a fazer postagens sobre estes assuntos. (01/09/2016)

***


Esse foi um debate que tive com um amigo ateu que decidi aceitar para ver o que preciso refletir e pesquisar mais. Eu pessoalmente gostei muito, principalmente porque o Carlos é um grande amigo, e porque geralmente os debates entre ateus e teístas na internet não têm sido muito produtivos e civilizados.

Espero que tirem algum proveito:




JONADABE RIOS - INTRODUÇÃO

Bom, aceitei esse debate pois estou muito desatualizado nessas questões, e como não tenho estudado muito o ateísmo nem assistido ou lido certos debates, esse aqui vai servir como um impulso a tomar vergonha na cara.

Nunca antes tentei num debate dar argumentos positivos em relação ao cristianismo na forma que Carlos propôs. Meus textos em meu blog e debates geralmente são para responder questões específicas propostas por algumas pessoas, ou fazer comentários de minhas leituras.

Passei um bom tempo pensando como escrever uma argumentação que não seja na forma que geralmente fazem, mas não consegui pensar em algo muito bom. Para não pensar demais e o tempo passar, resolvi improvisar e ver o que vai acontecer.

Então irei apresentar as principais razões que pessoalmente considero boas para concluir que o cristianismo é uma posição mais coerente que o ateísmo e depois comentá-las.

Os principais motivos são:

1 - O cristianismo é uma crença que não contradiz a si mesma e responde satisfatoriamente a questão de sabermos ou não a verdade a respeito da realidade através dos nossos sentidos.

2 - Os argumentos a favor da existência de Deus fornecem razões para concluir que é uma crença baseada em evidências reais, enquanto no ateísmo, além de se partir de pressuposições auto-contraditórias, não são apresentados argumentos positivos.

3 - O próprio surgimento do cristianismo oferece razões para concluir que é mais razoável crer na ressurreição de Jesus como um acontecimento histórico verídico do que crer no contrário. Se Jesus ressuscitou, então o cristianismo é verdadeiro. Se não ressuscitou, é vã a fé cristã. Argumentarei a favor da ressurreição.

Essas são três questões que considero respondidas de forma satisfatória pelo cristianismo e não pelo ateísmo. Talvez existam outras, mas como o debate é limitado, resolvi apresentar apenas essas. Tentarei nas próximas postagens apresentar algo razoável, apesar do limite de escrita.

1)      Nossos sentidos e a realidade.

O primeiro ponto que me faz considerar é a pressuposição de que há uma realidade, e que se pode saber a verdade sobre essa realidade através de nossos sentidos.

Isso vem principalmente em relação ao darwinismo: se o "objetivo" da evolução é a sobrevivência e adaptação, não há nada que garanta, dentro do próprio ateísmo, que nossos sentidos podem nos mostrar algo de acordo com a realidade, em vez de apenas sua sobrevivência. Como o Craig certa vez:

"se o naturalismo é verdadeiro, então nossas faculdades cognitivas são produto de um processo evolutivo, o qual não conduz para a produção de crenças que sejam verdadeiras, mas, em vez disso, conduz para crenças que o ajudem a sobreviver. Nossas faculdades cognitivas são escolhidas pelo seu valor para sobrevivência, não pela sua capacidade de perceber a verdade.

[...]

Mas se isso é verdadeiro, então sua própria conclusão de que o naturalismo é verdadeiro é duvidosa, pois ela não é resultado de mecanismos que formam crenças que conduzem à verdade, mas apenas à habilidade de sobreviver.

Então, o próprio naturalismo não pode ser afirmado! Pois, o naturalista está preso aqui em um tipo de ciclo que derrota a si mesmo:

Ele crê no naturalismo com base nas faculdades que, segundo o próprio naturalismo, não podem ser confiadas a produzirem crenças que sejam necessariamente verdadeiras."

Caso isso seja verdade, nem os que são teístas estariam de fora. Mas estamos falando dessas pressuposições materialistas.

Por outro lado, os cristãos acreditam com base em evidências que a Realidade Ultima teria se revelado por meio de Jesus Cristo e ressuscitado dos mortos comprovando que falava a verdade. Penso que isso é uma boa garantia para que confiemos em nossos sentidos, pois segundo a cosmovisão cristã, nossos sentidos não são somente para a sobrevivência, mas para produzir ou captar crenças verdadeiras. O que não contradiz a si mesmo, e o ateísmo ainda não respondeu satisfatoriamente, principalmente com argumentos positivos.


2)     Existência do Sobrenatural.

Quanto aos argumentos para a existência de Deus, citarei apenas um, para ter espaço para os outros argumentos, que você já deve conhecer, por isso só irei citar de relance. Caso tenha alguma critica especifica a esse argumento, tento responder depois.

O argumento da causalidade, onde se busca deduzir algumas características da causa do universo. O que se discute aqui não é se o universo teve uma causa, mas quais as características dela. Se essa causa é pessoal ou não.

Penso que esse argumento não leve necessariamente a conclusão de que foi criado por um ser pessoal (segundo os que defendem isso, só um ser Eterno Pessoal pode escolher transformar um estado de nulidade em algo - o universo). Pode fazer certo sentido, mas não quero tratar desse pondo.

O ponto principal é que se a Matéria, o Espaço e o Tempo tiveram um inicio, então a causa deve ser Imaterial e Atemporal. A não ser que o que causou o universo teve também uma causa (e assim por diante). Como não é possível que exista um passado infinito, pois se existisse não haveria o presente, então necessariamente deve existir uma Causa Ultima, e essa Causa possui essas características citadas.

Ora, essas são as características do que chamamos de Sobrenatural. O que abre a possibilidade de que essa Causa Sobrenatural possa agir na Matéria-Espaço-Tempo.

Essa possibilidade é o principal empecilho filosófico da maioria dos ateus em relação a ressurreição de Jesus (o ponto principal onde quero chegar). Até o momento, a maioria dos ateus com que tratei do assunto tem ficado sem explicações, apenas negando a possibilidade de Milagres. Se milagres são impossíveis, ora, então é claro que Jesus não ressuscitou. Mas se são possíveis, o que não há nada que contradiga essas possibilidades, então o ateu deve explicar satisfatoriamente certos fatos que ocorreram com alguns judeus no primeiro século. Fatos que irei mencionar agora.

Por outro lado, como disse, o ateísmo não tem desenvolvido argumentos positivos para o materialismo.


3)     Ressurreição de Jesus.

É um assunto muito grande, mas tentarei resumir. O que irei colocar é basicamente a argumentação de N. T. Wright, então caso tenha alguma critica a algo que deixei passar em branco, mas que ele menciona, é só dizer que tentarei responder também.

Wright apresenta alguns pontos que, pelo que penso, só podem ser respondidos com a ressurreição de Jesus.

Os discípulos tiveram uma experiência totalmente diferente do que se imaginava no seu tempo, tanto para os judeus quanto para os pagãos. E essa experiência trouxe uma mudança de atitude, foi aí que eles começaram a entender e a pregar o que os evangelhos chamam de Reino de Deus.

Para o autor, e para mim também, a experiência que eles tiveram foi da ressurreição física e real de Jesus, e não dos ensinamentos em seus corações, e essa é a melhor explicação para o surgimento do cristianismo.

O primeiro, e principal, é basicamente que o povo pagão era cético em relação a uma ressurreição da carne, da forma que os judeus acreditavam. Para eles, poderia existir a reencarnação, ou uma volta a vida de qualquer outra forma (em outra vida, por exemplo), mas não uma volta a carne, principalmente para nunca mais morrer.

Por outro lado, os judeus acreditavam que isso só iria ocorrer no ultimo dia, onde todos os seres humanos iriam ressuscitar. Não um sozinho, como foi o caso de Jesus.

Após a morte de Jesus, os discípulos tiveram essas experiências. Como Wright diz: "Diante da desolação, as pessoas recuam para a segurança daquilo que ouviram ou aprenderam no passado. No entanto, os cristãos primitivos organizaram uma crença totalmente nova, de sete maneiras diferentes."

Irei tentar resumir essas sete novas crenças, em alguns momentos irei simplesmente copiar certos trechos.

1) A crença diferente na vida após a morte e a ressurreição, diferente dos moldes pagãos e judaicos além da importância da ressurreição dada pelos cristãos, totalmente diferente do judaísmo.

2) Eles passaram a acreditar que a ressurreição teve inicio com Jesus, e será completada no futuro. "Se Jesus, o Messias, era o próprio 'fim' e o futuro de Deus manifestado no presente, então aqueles que pertenciam a ele, que eram seus discípulos, capacitados pelo seu Espírito, deveriam transformar o presente, à luz do futuro."

3) Alguns judeus consideravam a ressurreição também como uma renovação de Israel, enquanto os discípulos de Jesus passaram a considerá-la como da humanidade. "todos esses significados só poderiam ser compreendidos no contexto judaico; nenhum pagão poderia sequer imaginar algo parecido com isso. Porém, antes do surgimento do cristianismo, nenhum judeu havia enveredado por esse caminho. Estamos diante de uma notável mudança posterior, vinda de dentro."

4) A associação da ressurreição com o messianismo. Segundo Wright, ninguém esperava que o Messias fosse morrer, por tanto não esperavam a ressurreição. "Nenhum judeu com alguma noção das idéias messiânicas teria imaginado, após a crucificação, que Jesus de Nazaré seria de fato o ungido do Senhor. No entanto, desde o começo, de acordo com fragmentos de antigos credos pré-paulinos, os cristãos declaravam que Jesus era de fato o Messias, exatamente por ele ter ressuscitado”.

Essas características, dentre outras, não podem ser explicadas sem a ressurreição. Para quem não entendeu, é só imaginar essa cena feita por ele:

Agora, imagine um encontro desses revolucionários judeus, três dias ou três semanas depois. Um deles diz:

- Sabe, acho que Simão era, de fato, o Messias. Acho que ainda é!
Os outros ficam confusos e dizem:
- É claro que ele não era; os romanos o mataram, como de costume. Se você queria um Messias, é melhor procurar outro.
- Ah, - diz o primeiro – mas eu acredito que ele ressuscitou dentre os mortos.
- O que você está dizendo? – pergunta os outros – Ele está morto e sepultado. – Não! – responde o primeiro. – Eu creio que ele foi elevado ao céu.
Os outros parecem confusos.

- Os justos estão com Deus, todo mundo sabe disso; suas almas estão nas mãos de Deus; isso não quer dizer que eles já ressuscitaram dos mortos. Seja como for, todos nós ressuscitaremos no final dos tempos, mas ninguém ressuscita no meio da história.
- Não – responde o primeiro. – Vocês não compreendem, eu me senti cercado pelo amor de Deus. Senti Deus me perdoando, perdoando a nós todos. Senti meu coração estranhamente aquecido. Além disso, eu vi Sião, ele estava ali comigo...
Os outros o interrompem, agora irados.
- Todos nós podemos ter visões. Muitas pessoas sonham com amigos mortos recentemente. Às vezes esses sonhos são muito reais. Isso não significa que eles ressuscitaram dentre os mortos. E certamente não quer dizer que um deles é o Messias. Se o seu coração está aquecido, então cante um salmo, mas não faça afirmações absurdas sobre Simão.

Isso é o que qualquer judeu da época diria, caso não tivesse tido experiências reais. Esse diálogo também faz perceber como é impossível explicar, não só a crença na ressurreição de Jesus, mas o surgimento de crenças novas em um grupo que havia acabado de sofrer o que em qualquer outro seria "o mal cortado pela raiz". Não foi só um judeu, mas vários discípulos que tiveram essas experiências, boa parte delas são isoladas.

Não é algo obscuro, não são crenças infundadas. É algo objetivo que pode ser verificado através de métodos históricos.

Só alguém com a crença obstinada de que não pode existir milagres irá rejeitar a qualquer custo essas evidências. No máximo poderá dizer que não sabe explicar, mas não vejo como considerar que há alguma outra explicação para esses fatos além da ressurreição.

Isso foi só um resumo do que penso sobre o assunto. Não acho que aqui poderemos ter uma conclusão de fato, também não acho que provei a veracidade do cristianismo. No entanto considero que o cristianismo responde muito melhor essas perguntas do que o ateísmo.

CARLOS WILKER – INTRODUÇÃO

Apresentarei três argumentos em favor do ateísmo. Em seguida objetarei contra os argumentos colocados pelo Jonadabe.

Chamarei meus argumentos de:
1) A ideia de deus 
2) O problema do sofrimento
3) Argumento contra o cristianismo

1. A Ideia de Deus

Um dos motivos que parece ser mais coerente adotar o ateísmo como posição mais racional do que o cristianismo, é que a própria ideia do deus dos cristãos é confusa, vazia, contraditória, repleta de lacunas.
Vejamos alguns atributos do deus cristão. O deus cristão é um ser pessoal, imaterial e atemporal. Permitam-me deixa isso mais claro: ele não ocupa lugar no espaço, não encerra sobre si nenhuma partícula de matéria, não tem corpo, não tem cérebro, não emite som, não tem imagem, não pode ser detectado, não pode ser testado, não pode ser observado, não teve começo, não tem fim. Mesmo que nosso conhecimento filosófico e científico avance milhões de anos, não avançaríamos nenhum degrau na compreensão desse deus. Um determinado argumento teísta, coloca deus como a única causa plausível pra tudo existir. Porém, olhando os atributos do deus cristão, eu pergunto: é com um ser assim que querem explicar algo? É com um algo assim que vamos explicar as complexidades do universo? Na verdade, Deus não explica, complica.
Deus não tem corpo e nem cérebro, mas pensa, ama, tem planos. Deus é imaterial, não ocupa lugar no espaço, mas ele já existia quando não havia nada, e do nada criou tudo e agora interage com o mundo físico. Alguém pode nos fornecer uma explicação pra o que isso significa?

Eu costumo perguntar aos cristãos: o que é deus? Nunca ouvi uma resposta satisfatória. Ouço respostas e explicações sem sentido, que demonstram claramente que nem mesmo eles entendem e conhecem o deus que acreditam. 
Penso que devemos rejeitar a ideia de deus por ser algo semelhante a um círculo quadrado. O que me leva a pensar que o deus cristão não existe.

2. O Problema do Sofrimento

O deus cristão, segundo afirmam, é poderoso e amoroso. Mediante ao sofrimento em escala alarmante, mediante ao que inocentes e indefesos sofrem, acho implausível que exista mesmo um deus poderoso e amoroso.
Quero deixar bem claro que não estou culpando o deus cristão pelo sofrimento. Isso seria contraditório, já que não acredito que ele exista. A questão é: se existe um deus poderoso e amoroso, por que inocentes e indefesos são torturados, morrem de fome, sofrem injustiças e morrem de forma cruel?

Vejamos alguns exemplos: milhões de crianças morreram de fome; inúmeras são estupradas e mortas; inúmeras foram despedaçadas por tiros e bombas; inúmeras são vítimas de doenças que as devoram lentamente; 
Por que um deus amoroso fica olhando isso acontecer e não faz nada?
Alguns dizem que é culpa do ser humano, e eu concordo. O culpado de tanto sofrimento no mundo, é mesmo os seres humanos. Mas não podemos generalizar! Que culpa essas crianças tiveram? Que culpa uma criança de 3 anos tem de ter sido estuprada e morta? Que culpa milhões de crianças tem de terem morrido de fome ou doentes? Em muitos casos, a culpa é de outras pessoas. Como um deus amoroso fica olhando inocentes pagando pelo erro dos outros? Tumores cerebrais, paralisias... Alguns dizem que é culpa dos pais. Devemos ter cuidado com essa afirmação. Culpa é quando se tem a intenção ou se age de forma irresponsável. Será que todos os casos ocorridos é por culpa dos pais? Quem queria que seu filho nascesse com paralisia cerebral? Ninguém! Mas se nascer, podemos culpar os pais? Claro que não! 

Alguns defendem que essas coisas acontecem por que é plano de deus. Estranho que um ser amoroso tenha em seus planos, tanto sofrimento, dor, medo, desespero, doenças, estupros, guerras, torturas, racismo, mortes e mais mortes.
Alguns defendem que deus tem uma felicidade eterna pra essas crianças. Ou seja, todo esse sofrimento foi apenas uma pegadinha. Se deus queria que essas crianças fossem salvas, ele não poderia ter evitado tanto sofrimento?

3. Argumento Contra o Cristianismo

O cristianismo nos diz que existe um céu e um inferno nos esperando.
Afirma que anjos apareceram a Maria, anunciado que ela daria a luz a um filho concebido pelo espírito santo. Nasce Jesus. Durante sua vida, Jesus prega o evangelho da salvação, faz milagres como transformar água em vinho, andar sobre as águas, ressuscitar e curar pessoas. Jesus também expulsou demônios e foi tentado pelo diabo. Após ser morto, ressuscitou ao terceiro dia e ascendeu aos céus. Há os que entendem estas coisas como metáforas, outros entendem literalmente. Também há os que flertam entre as duas visões. Espero pra ver qual a visão de meu caro Jonadabe.
Permitam-me colocar dois pontos sobre essas coisas:

1) Quando se fala em céu e inferno, estamos falando diretamente sobre vida após a morte e imortalidade. Agora eu pergunto: temos boas razões pra pensar que existe mesmo tais coisas? Se líderes e pregadores afirmam e ensinam tais coisas, eles devem nos fornecer algo satisfatório. Em tempo, desconheço qualquer reivindicação que justifique o cristianismo a afirmar que tais coisas realmente existam. Sendo que existem outras religiões que ensinam coisas semelhantes, o cristianismo deve nos convencer que há mesmo vida após a morte e que existam mesmo um céu reservado aos fiéis a Jesus e um inferno a incrédulos como eu.

2) Anjos, demônios e diabo, pra mim são tão reais como o lobisomem, as fadas e os duendes. Vejam que a bíblia está repleta de seres espirituais, e muitas vezes desempenhando papéis importantes. Há mesmo um ser maligno agindo no mundo, o qual conhecemos por diabo? Haverá mesmo uma batalha cósmica entre as forças do bem e do mal? Há cristãos que entendem essas coisas como metáforas ou mitos. No entanto, a imensa maior parte do cristianismo nos ensina isso de forma bem diferente.

O cristianismo se apóia em coisas muito duvidosas, em coisas que são (ou se assemelham muito) mitologias, crenças recheadas de imaginação, fantasias que em nada se diferenciam de outras religiões.

Nossos Sentidos e a Realidade / Milagres

Admito que não entendi bem o que o Jonadabe colocou. No final, ele incluiu a ressureição de Jesus e isso me confundiu um pouco. Caso eu cometa a falácia do espantalho, espero que me entendam.

Parafraseando uma frase, digo que o naturalismo não explica tudo, (ou pelo menos ainda), mas o sobrenaturalismo não explica nada. Penso que o naturalismo é a posição mais coerente a se tomar por que até o presente momento tem sido a mais adequada. O que o sobrenaturalismo explica, se nem sabemos se existe mesmo o sobrenatural? O psicólogo Michael Shermer disse: “Pra mim existe o natural e aquilo que não sabemos explicar.” Em resumo, recorrer ao sobrenatural, quando nem sabemos se ele existe, é apelo à ignorância, é querer preencher lacunas do nosso conhecimento com coisas muito duvidosas.

Milagres

Sobre os milagres, quero dizer que não nego possibilidades. Apenas acho a explicação que ficaria no último dos últimos lugares em uma lista de explicações mais prováveis. O geneticista Jerry Coyne disse: “Se tem uma coisa que a história da ciência nos mostra é que não vamos a lugar nenhum chamando nossa ignorância de deus”.
Outra coisa que acontece com frequência é que muitos esquecem os milagres defendidos por outras religiões. Se os milagres de outras religiões são verídicos, devemos concluir o quê? Que há inúmeras divindades agindo? Ou eles são todos farsas ou enganos? Isso não é argumento em favor do ateísmo, admito. Mas traz problemas ao cristianismo.

Existência do Sobrenatural

Jonadabe pensa que esse argumento não leva necessariamente a conclusão que tudo foi criado por um ser pessoal. Bem, reconhecendo isso, ele não poderá usar esse argumento em favor da existência do deus cristão, que é um ser pessoal.

Quando ele diz que a matéria, o espaço e o tempo tiveram início, ele está se referindo a Teoria do Big Bang. Caso eu esteja errado, peço que ele me corrija.
Aqui é importante colocarmos dois pontos:

Primeiro. Segundo Bryan Greene, professor de Física e Matemática da Columbia University, A Teoria do Big Bang não fala nada sobre a origem de TUDO. Na verdade, seria mais correto dizer que ela fala sobre o “desenvolvimento” do UNIVERSO. 
Vejam que essa teoria alega que o universo veio de uma ínfimo ponto condensado. Ora, isso é algo! A Teoria do Big Bang não diz que o universo veio do nada, como alguns pensam. Claro, não estou alegando que o Jonadabe pense isso. Portanto, essa teoria não exclui a possibilidade de tudo ter sempre existido. E não podemos esquecer que há outras teorias. E pra mim, são mais plausíveis que um ser pessoal (dotado de pensamentos e sentimentos), imaterial e atemporal.
Sem dúvida há inúmeras questões sem resposta em relação a origem de tudo (se é que teve). Meu primeiro argumento coloca problemas a esse argumento colocado pelo Jonadabe.

Jonadabe falou em abrir uma possibilidade. O problema é que o cristianismo não abre uma possibilidade, ele afirma e ensina. Se trabalharmos com possibilidades, teremos muitas opções. Por exemplo: Jesus pode não ter existido; a bíblia pode ser apenas um livro como o de outras religiões; toda essa história de vida após a morte, céu e inferno, pode ser apenas crendice. São possibilidades, não?

Ressureição de Jesus

Os quatro pontos colocados pelo Jonadabe, não são fatos com muitos pensam. Há um intenso debate e muitas discordâncias entre os estudiosos sobre eles. Não são apenas estudiosos céticos ou ateus que discordam deles. Se for pesquisar, verá que há muitas discordâncias sobre esses pontos entre grandes estudiosos cristãos. Portanto, usá-los como premissas é um tanto quanto questionável. Craig coloca esses pontos em seus debates e “obriga” seu oponente a admitir que a ressureição é a melhor explicação. Mas se quer há concordância sobre eles! Quem rejeita a ressureição de Jesus não implica diretamente que seja um materialista.
Outra coisa que me faz não acreditar na ressureição de Jesus, é que esse argumento é um emaranhado de História, Filosofia, Teologia e até Mitologia.

Vejamos:
A existência de Jesus, sua crucificação e seu impacto. História.
Jesus fez muitos milagres ( transformou água em vinho, andou sobre as águas, expulsou demônios, curou enfermos, ressuscitou pessoas), deus o ressuscitou dos mortos, ele ascendeu aos céus e está “vivo”. História? Não.
Muitos apresentam esse argumento como histórico. Na verdade deveria se chamar o Argumento Histórico Filosófico Teológico Mitológico Pra Ressureição de Jesus. 

O ateísmo parece ser mais coerente do que o cristianismo. Temos bons motivos pra pensar que não há nenhum ser pessoal, sobrenatural, criador de tudo e que nos ama. Enquanto o cristianismo se apoía em coisas no mínimo  muito duvidosas.

JONADABE RIOS – RÉPLICA

Essa minha réplica não está organizada na ordem que você postou. Coloquei desse modo para tentar responder o que colocou de forma mais resumida.

Primeiro chamo atenção a seu “Argumento Contra o Cristianismo” que na verdade não é um argumento positivo contra o cristianismo, apenas a afirmação de ausência de evidências, mas nada que diga que o ateísmo é uma posição mais razoável que o cristianismo. Alguém poderia dizer que o ateísmo não oferece evidências suficientes para suas afirmações, para o surgimento da vida de forma espontânea, dentre outros aspectos do ateísmo, mas nem de longe isso é um argumento que demonstre positivamente algo contra o ateísmo.

Como são algumas razões tenho pretendido mostrar, não responderei a essa postagem em específico e sim tentarei responder as suas objeções e colocar algo mais no que tenho dito.

A idéia de Deus

Essa crítica é basicamente ao conceito, portanto não tentarei evidenciar o conceito cristão, apenas explicar de forma bem resumida, pois não é algo que caiba em pequenas postagens como essa.

As características de Deus que podem ser entendidas melhor que as outras possuem exatamente as mesmas características que se deduz dos argumentos geralmente apresentados pelos teístas para a existência de uma Causa para o universo: Eterno, Sobrenatural, Todo-Poderoso e Inteligente. Ao passar disso, sinto em dizer, não posso explicar as demais características atribuídas a Deus exatamente por Ele ser Eterno e Além da matéria. Se temos dificuldades de explicar o natural, imagine o que é além do natural? Penso que essa questão só é resolvida se deixarmos de tratar a Deus como um mero objeto que pode ser decifrado, não podemos fazer isso pela limitada razão humana que nem mesmo consegue explicar direito o que é material. Por isso, não me arriscarei nessas pequenas postagens explicar Aquele que, segundo nós cristãos, é Insondável.

No entanto mostrar que é difícil compreender as características divinas é fácil, o problema é que não foi mostrado o porquê de ser insensato acreditar em algo que é difícil de explicar. Os ateus dão diversas explicações para a origem do universo tão difíceis de entender quanto a idéia de Deus, como o que citou sobre a situação anterior ao “Big Bang” em que se poderia fazer perguntas parecidas.

A existência do Sobrenatural

Bom, sendo o “Big Bang” uma teoria sobre esse desenvolvimento não muda muita coisa sobre o que eu afirmei sobre a Causa do universo (o que impulsionou esse desenvolvimento?). Ao que se sabe, “antes” (se é que pode dizer antes, sendo que não havia tempo) não havia matéria, espaço nem o tempo, independente do que se possa dizer de “massa condensada”, o que, de qualquer forma, exige uma causa, que, como falei, por ser anterior ao próprio tempo e a própria matéria, é “Além da Matéria”. Se existem outras teorias que dão conta tanto quanto essa, deveria então mostrá-las, principalmente demonstrando de que forma isso tornaria o ateísmo mais coerente que o cristianismo.

O assunto da existência do sobrenatural está intimamente ligado com dos milagres. Como não nega a possibilidade, não há muito o que dizer. Apenas que a natureza dos milagres citados pelos cristãos (principalmente o mais notável deles, que é a ressurreição de Jesus) é diferente do que á maioria das religiões citam, e irei me ater a tratar sobre esse.

O ateísmo e os limites da razão

 O que falei sobre o ateísmo e os sentidos é que ele não dá nenhuma garantia de que o que nossos sentidos captam algo relativo à verdade, principalmente porque, segundo o próprio naturalismo, o objetivo dos nossos órgãos é para nossa adaptação e sobrevivência, e não para captar a verdade sobre a realidade. Se é assim, entro em um argumento parecido com o que você fez no inicio: o ateísmo carece por não demonstrar uma coerência interna entre as limitações de nossos sentidos, e a possibilidade de captar a verdade sobre a realidade, em vez de apenas serem meros instrumentos para a sobrevivência. Então, quais seriam as bases do ateísmo para confiarmos em nossas capacidades cognitivas? A fé?

A ressurreição de Jesus. Creio que você confundiu as quatro crenças surgidas após as experiências do Jesus ressurreto, com os quatro pontos que W. L. Craig geralmente cita. O que coloquei são elementos que, pelo menos até agora, não há muito o que se discutir, pois são características das origens cristãs, diferente dos pontos que Craig cita (como o túmulo vazio, que não tem muita importância na argumentação que estou a fazer, apesar do surgimento da crença na ressurreição da forma que citei seja uma evidência para o túmulo vazio).

Mas, caso eu tenha me enganado e você não se confundiu, então gostaria que demonstrasse aqui o porquê dessas crenças não fazerem parte das origens cristãs, todas essas novas crenças surgidas após as experiências com o que consideravam ser Jesus ressuscitado (e essa também é uma dessas novas crenças), tanto que Gerd Theissen no livro “Jesus Histórico, um manual” diz que “é infundado duvidar da autenticidade subjetiva das aparições” (p. 135). O que o argumento faz é tentar demonstrar a natureza dessas aparições a partir dos elementos que apresentei (existem outros, mas não caberia aqui).

O problema do sofrimento

 Deixei-o no final, pois apesar de não ser algo incompatível com a existência de um Deus amoroso e todo poderoso, é algo que nos atinge emocionalmente.

Sinto em dizer que segundo o cristianismo, enquanto estivermos nessa terra, o sofrimento sempre existirá, e mais: na maioria das vezes é algo para o nosso próprio bem. Ponto. Mais que isso não poderei responder, pois o argumento para conciliar a existência de um Deus de amor com o mau é exatamente que não podemos saber o bem maior que esse mau permitido por um curto período de tempo irá nos proporcionar.

Quanto ao que você levantou sobre o assunto, por que acha que é estranho que um Deus amoroso permita tais coisas que você citou? As explicações que geralmente dão são incompatíveis filosoficamente, ou você apenas não consegue concordar que esse poderia ser o melhor meio? Se as explicações que passam (que penso que não preciso citá-las) explicam que é possível [conciliar] a crença em um Deus amoroso com a existência do sofrimento, o que há mais que dizer do que o fato de apenas não consegue concordar emocionalmente, e não que ambos são incompatíveis?

Sim, as emoções ou as nossas limitações podem atrapalhar e impedir de concordar. Isso é semelhante a um aluno que não concorda que os exercícios passados por seu professor dará algum proveito no futuro. O professor nesse caso sabe que isso será proveitoso, e “sofrer” fazendo certas atividades vai proporcionar algo bom, mas muitos alunos, enquanto fazem, não conseguem ver alguma serventia.

Você também citou a resposta que dão para a causa do mau, que é a liberdade humana. Não há nenhum erro nessa afirmação. O mal só não poderia ser uma possibilidade num mundo em que não existissem pessoas livres. Tendo em vista que o sofrimento é uma conseqüência do mau uso do livre arbítrio, seria LÓGICAMENTE possível criar um mundo livre, onde as pessoas tenham livre escolha, sem a possibilidade de escolher o mal?

Enfim, essa é uma questão muito grande que não dá para ser tratada de maneira satisfatória por aqui. Mas você apenas descreveu parte do sofrimento, disse que é algo estranho se for pensado junto com a existência de um Deus amoroso, mas não mostrou os motivos. Por isso só posso responder caso demonstre porque é estranho, e caso mostre a impossibilidade lógica de existir um Deus amoroso junto som o sofrimento.

No mais, o sofrimento não atinge o nosso raciocínio da mesma forma que atinge nossas emoções. A resposta mais importante pro sofrimento seria realmente algo filosófico? Ou algo que restaure as emoções dessa pessoa? Não falo de uma ilusão confortadora, mas algo real e que várias pessoas afirmam passar.

Talvez por isso que Jesus não nos deu uma resposta filosófica, pelo contrário, ele nos deu a si mesmo. Ele disse que qualquer pessoa cansada, sobrecarregada ou oprimida fosse a ele, pois só Ele tem o alivio para a nossa alma, e só Ele é esse alivio.

Filosoficamente se pode conciliar a existência de um Deus amoroso com o sofrimento, mostrando a possibilidade lógica dessa convivência. Mas o que as pessoas realmente querem quando estão sofrendo?

Diante do sofrimento, o que você prefere: Uma resposta filosófica ou a cura para a dor? Pode acreditar, quando estamos sofrendo, o que menos queremos é saber o porquê da dor. Jesus, segundo os cristãos, trouxe a solução para o sofrimento, e não é uma solução meramente filosófica, é uma cura. E isso, segundo dizem, Jesus faz muito bem. Mas é uma cura que visa o eterno, não o que é temporal.


CALOS WILKER – RÉPLICA

Argumento contra o cristianismo / A ideia de deus

Jonadabe disse que meu argumento contra o cristianismo não é um argumento em favor do ateísmo. Ora, eu mesmo reconheci isso quando o coloquei. No entanto, caso não exista vida após a morte e imortalidade, o cristianismo sofreria um duro golpe. E penso eu, que poderia ser descartado como uma posição racional. Vejamos algo semelhante: caso soubéssemos que Deus existe, o ateísmo estaria liquidado. Porém, o cristianismo ainda não poderia ser tida como a posição mais racional, já que não se sustenta apenas na existência de um criador. Agora eu pergunto: que fortes razões podem nos fazer afirmar e ensinar, assim como fazem os cristãos, que existe vida após a morte, imortalidade, céu e inferno?


A ideia de deus

O Jonadabe apenas confirmou o que eu disse. Na verdade, ele apenas repetiu. Continuamos sem nem mesmo saber o que é esse Deus ao qual os cristãos amam, adoram, entregam suas vidas a ele.
Talvez nossa razão humana não consiga mesmo explicar o que é material. Mas falar isso é atirar no próprio pé, já que os cristãos ao afirmarem que Deus é um ser pessoal, inteligente, todo-poderoso e que nos ama, estão tentando explicar o que é sobrenatural, que nem sabemos se existe! Se você diz que nossa razão não explica o material, que sabemos existir, como vocês falam sobre um ser pessoal e sobrenatural?

Outro ponto que deve ser colocado é que não são os ateus que dão diversas explicações para a origem do universo. Quem faz isso são cientistas de diversas crenças e filosofias, inclusive ateus e cristãos. E isso se trata de questões físicas, científicas. São coisas abertas a testes, observações, novos dados, novas teorias. Algo bem diferente de Deus!


Existência do sobrenatural / Milagres

O Jonadabe disse que o “desenvolvimento” não muda muita coisa sobre o que ele afirmou sobre causa. Quando coloquei isso quis dizer que o Big Bang não aborda a origem de TUDO. 
Ele perguntou o que impulsionou esse desenvolvimento. Penso que ninguém sabe. Caso ele sugira que foi Deus, deve nos dar uma explicação coerente, já que pelo que sabemos seres pessoas agem no tempo-espaço. Claro, ele primeiro deveria dar conta do meu argumento sobre a Ideia de Deus. Caso contrário, seria colocar mistério em cima de mistério, o que não resolve nada.
Em que outras teorias tornam o ateísmo mais coerente? Num ponto de vista de um ateísmo negativo, na ausência de evidência que há um ser pessoal imaterial, atemporal, mas que no entanto é inteligente e que age fora (?) do tempo-espaço, o ateísmo é sim mais coerente. Essas outras teorias se baseiam em coisas como a Química e a Física. São independentes de posições filosóficas ou religiosas. Não estou AFIRMANDO que não há evidências. Sabemos que ausência de evidência não é evidência de ausência. Estou apenas colocando que enquanto tivemos explicações mais acessíveis, Deus fica no fim da fila.

MILAGRES

Eu não nego a possibilidade de milagres, no entanto não acho plausível que os mesmos existam. Possibilidades são bem diferentes de realidades. Você disse que a natureza dos milagres dos cristãos é diferente das demais religiões. Não sei porque. Se você partir de pressupostos, podem até ser.

A ressureição de Jesus

Você citou quatro pontos e disse que a melhor explicação seria a ressureição de Jesus. Penso que não confundi nada. Eu disse que você se apóia em pontos (os quatro pontos citado por você) duvidosos e para os quais há muitas discordâncias, até mesmo entre estudiosos cristãos. Você disse:

“Wright apresenta alguns pontos que, pelo que penso, só podem ser respondidos com a ressurreição de Jesus”

Um exemplo: sobre a ressureição física há discordâncias. Exemplos: John Dominic Crossam e Marcus Bjorg. Sei que você poderá citar outros discordam, o que confirmará o que tenho dito.

O PROBLEMA DO SOFRIMENTO

O Jonadabe disse que o sofrimento é maioria das vezes para o nosso bem. Só faltou demonstrar isso. AIDS, câncer, estupros, fome. Que bem isso nos traz?
Ele diz que não sabemos que bem maior isso irá nos proporcionar. Eu diria que não sabemos se há esse bem maior. Ele já está partindo do pressuposto que há algo nos esperando após a morte. Mas isso é extremamente duvidoso!

Quanto ao que você levantou sobre o assunto, por que acha que é estranho que um Deus amoroso permita tais coisas que você citou? As explicações que geralmente dão são incompatíveis filosoficamente, ou você apenas não consegue concordar que esse poderia ser o melhor meio? Se as explicações que passam (que penso que não preciso citá-las) explicam que é possível [conciliar] a crença em um Deus amoroso com a existência do sofrimento, o que há mais que dizer do que o fato de apenas não consegue concordar emocionalmente, e não que ambos são incompatíveis?

Enquanto as explicações, penso que elas são insatisfatórias por vários motivos. Primeiro: parte de pressupostos duvidosos, como que há vida após a morte, imortalidade e, que portanto, não sabemos que recompensa teremos. Ou seja, o que bem que teremos será infinitamente maior que o sofrimento que passamos. Segundo: como conciliar um Deus poderoso e que nos ama incondicionalmente, mas que fica olhando uma pessoa indefesa e inocente sendo humilhada e torturada até a morte? Não é apenas uma questão emocional, é algo contraditório. Pra resolver isso, terá que recorrer novamente aos pressupostos duvidosos que eu falei.

Quando você o exemplo do professor, já parte do pressuposto que há um “professor”, que seria Deus. E que há um proveito futuro: uma recompensa após a morte.

Seria LÓGICAMENTE possível criar um mundo livre, onde as pessoas tenham livre escolha, sem a possibilidade de escolher o mal? Sim, seria. No céu, seremos livres ou seremos robôs? Pelo que sei, seremos livres, mas lá não existirá o mal. Outro ponto é que eu não sugeria a ausência do sofrimento. Precisamos sofrer pra aprender e crescer. O que eu abordo é o sofrimento em excesso, sem sentido. Uma coisa é uma criança machucar ao sair correndo, outra coisa é ela ter um tumor maligno no cérebro. Uma coisa é ter que batalhar duro pra conseguir o pão, outra coisa é milhões de crianças morrerem de fome. Minha principal crítica é que Deus não faz nada em relação a isso. Isso é estranho!

Pra que possamos pensar que o cristianismo é uma posição mais racional que o ateísmo, o Jonadabe deve nos dar uma boa definição do que é Deus, nos mostrar que ele existe, nos fornecer razões boas pra afirmação que há mesmo vida após a morte, imortalidade, céu e inferno. Enquanto isso, o ateísmo é mais coerente que o cristianismo.

Obrigado.

JONADABE RIOS – TRÉPLICA

Sobre o argumento contra o cristianismo

Bom, como estamos de acordo que seu argumento contra o cristianismo não é algo a favor do ateísmo (o que significa que ainda não apresentou nenhum argumento positivo), irei me ater a comentar as outras colocações. Mas é bom que quero deixar claro, mais uma vez, que não pretendo provar a veracidade do cristianismo com esses pequenas postagens, e sim fazer, vamos dizer... um resumo do que pode ser usado como defesa do cristianismo.

A ideia de Deus.

Como concordamos que não podemos nem mesmo saber de muita coisa sobre o que é finito, e é mais improvável ainda com o que é infinito, mas gostaria de fazer apenas alguns comentários.

Primeiro, é bom notar que eu não disse que é impossível explicar qualquer coisa sobre Deus. Pelo contrário, afirmei que algumas coisas podem ser conhecidas através da razão, e que isso é mostrado em alguns argumentos para a existência de Deus, tais como as que citei: Eternidade, Imaterialidade, Poder e Inteligência.

As outras características que apresentamos, teriam nos sido dadas por meio da revelação. O que não significa necessariamente que poderíamos conciliar ou explicar tudo, principalmente pelo fato de que até mesmo essa revelação utilizou de antropomorfismos (a própria impressão verbal, seja escritos ou auditivos, são tipos de antropomorfismos).

Por fim, o fato de algo ser difícil de explicar não implica sua falsidade. Algo pode ser real e ainda assim não termos explicação. Por isso para continuar a negar que se pode acreditar em algo inexplicável, nesse caso Deus, você primeiro deveria mostrar o porquê de ser insensato em acreditar em algo assim por ser além da nossa razão.

Quanto a coisas relativas a origem do universo abertas a observação, gostaria que me desse um exemplo.

A existência do sobrenatural

Quanto ao que colocou sobre isso, confesso que não entendi muita coisa, se puder me explicar melhor o que quis dizer.
No mais, gostaria de fazer uma pergunta: Se a ausência da evidência não é a evidência da ausência, como você mesmo disse, como pode dizer que a ausência de evidências sobre o sobrenatural torna o ateísmo mais coerente?
Quanto aos milagres, não disse que são todos diferentes, mas a maioria, e citei explicitamente a ressurreição de Jesus, na qual irei me focar.

- A ressurreição

Bom, primeiro, gostaria que você então rebatesse o que coloquei, pois citar assim pesquisadores não traz muita evolução no debate, pois impossibilita que eu e você debatamos (não eu e os demais pesquisadores, que com certeza possuem mais conhecimento que eu). Seria um problema para que trocássemos idéias se eu simplesmente citasse nas suas outras afirmações que alguns cientistas discordam de suas colocações e outros não, e que por isso não haveria muito o que dizer.

Quanto aos pontos que coloquei, penso que não são de modo algum sem sentido, pois o que postei foram apenas crenças inteiramente novas que surgiram após a morte de Jesus devido às supostas aparições (que não são negadas, embora se discuta a natureza delas).

Não sei se ainda vai dar tempo que discuta os pontos que postei, nem que eu poste algo relevante sobre o assunto, mas gostaria que fizesse comentários sobre eles, e não fizesse apenas referência que alguns discordam ou concordam.

- O problema do sofrimento.

Não tenho muito o que dizer, pois quando comecei a tratar do assunto deixei claro que não quero provar que é necessariamente verdadeiro, apenas explicar como conciliar o sofrimento com a existência de um Deus amoroso (especialmente o Deus que os cristãos afirmam ter se revelado). Dito isso, seria óbvio o uso de pressupostos.

Por isso repito o que havia dito: Filosoficamente se pode conciliar a existência de um Deus amoroso com o sofrimento, mostrando a possibilidade lógica dessa convivência.

Se pretendo mostrar como é possível a existência do sofrimento com o Deus que teria se revelado por Jesus, é mais do que natural que eu use suas pressuposições.

Conciliar, não provar. E você ainda não demonstrou como essa conciliação, dentro de suas próprias pressuposições, não faz sentido.

Em resumo, você ainda não deu um argumento positivo ao ateísmo, não mostrou porque não devemos acreditar em algo por ser inacessível por completo a nossa razão. Também sobre a razão, não mostrou como pode conciliar as afirmações materialistas com o uso da razão, tal como mencionei no inicio do texto, além de não ter demonstrado nenhum argumento relevante contra a ressurreição de Jesus fazendo referência apenas que há pesquisadores que concordam e discordam dos pontos apresentados.

Por fim, também não mostrou como a idéia de Deus é incompatível com o mal, apenas fez alusão ao uso de pressuposições que seriam naturais que eu usasse para fazer uma conciliação, até porque, no próprio problema do sofrimento há duas pressuposições que os teístas têm se esforçado para conciliar: (1) Deus e (2) o sofrimento como algo ruim.

CARLOS WILKER – TRÉPLICA

Argumento contra o cristianismo

Meu argumento contra o cristianismo levanta questões cruciais como vida após a morte, imortalidade, céu e inferno. No entanto, Jonadabe até agora não nos apresentou nada pra defender tais pontos. Se ele está aqui argumentando em favor do cristianismo, não pode ficar apenas defendendo a existência de Deus. Mesmo que ele nos mostre bons motivos pra acreditar que Deus existe, ignorando esse argumento, ele nos levará, no máximo, a pensar que o deísmo é mais plausível. Ele disse que não apresentei nenhum argumento em favor do ateísmo. Não é verdade! Apresentei a ideia de Deus, no qual defendo que a ideia de um Deus criador e pessoal é contraditória, sem sentido. Também apresentei o problema do sofrimento. E coloquei o argumento contra o cristianismo, que ele parece ignorar. Pra derrubar esse argumento, ele deve começar nos fornecendo evidências que nossa consciência (ou mente) sobrevive à destruição do nosso cérebro. Não precisamos aderir ao materialismo reducionista, mas tudo indica que nossa consciência cessa de existir após a morte do cérebro. Isso é um forte argumento contra o cristianismo. Assim como não deixa de ser um argumento pra o ateísmo também, já que é dito que Deus é um ser pessoal, mesmo sendo incorpóreo. Mas isso eu já coloquei em meu argumento A Ideia de Deus.

A Ideia de Deus

Jonadabe disse que podemos conhecer algumas sobre Deus através da razão. Ele só não nos mostrou como. Ele nem ao menos nos apresentou uma definição coerente do que é esse deus imaterial atemporal e pessoal ao qual os cristãos adoram. 
Eu não disse que Deus é difícil de explicar. Na verdade, eu disse que a ideia de Deus é contraditória e vazia. Jonadabe disse:

“...continuar a negar que se pode acreditar em algo inexplicável, nesse caso Deus, você primeiro deveria mostrar o porquê de ser insensato em acreditar em algo assim por ser além da nossa razão...”

Devemos adorar, amar e entregar nossas vidas a algo inexplicável?
Devemos pregar ao mundo uma mensagem que se diz a única verdade, mas que é inexplicável?
Claro que isso não implica que Deus não existe propriamente. Mas o torna muito implausível e nos dar um bom motivo pra pensar que essa mente cósmica que nos ama, não exista. Ele pedia um exemplo em relação às origens do universo. Isso é totalmente diferente. Essas coisas, sim, são difíceis de explicar. Eu não vivo conversando com as origens do universo! Muito menos conheço alguma religião que seu deus pessoal é aquilo que os físicos e cosmólogos não sabem explicar.


Existência do Sobrenatural

Jonadabe disse:

“Se a ausência da evidência não é a evidência da ausência, como você mesmo disse, como pode dizer que a ausência de evidências sobre o sobrenatural torna o ateísmo mais coerente?”

Primeiro, até o presente momento o sobrenatural (se é que existe) não tem sido útil pra esclarecer nada. 
Segundo, tudo que conhecemos é o natural. A existência do sobrenatural, é no máximo, uma especulação.
Terceiro, ausência de evidência não é evidência de ausência. Porém, cada ser humano em sã consciência age guiado pelo mais evidente. Se pra você não houvesse evidência que Jesus existiu, você acreditaria que ele existiu?

A ressureição de Jesus

Quando falei que até mesmo estudiosos cristãos discordam dos pontos que você colocou, quis demonstrar que você se apoiou em coisas duvidosas. Ou seja, suas premissas não são tão fortes como você deseja, e até mesmo cristãos como você, discordam veementemente.

Quando um cristão defende que Jesus ressuscitou, ele está dizendo que Deus ressuscitou Jesus dos mortos.

1º) Já se parte do pressuposto que Deus existe. Se o Jonadabe nem mostrou que Deus existe, como pode afirmar que Deus fez algo?;

2º) As supostas aparições de Jesus podem ser entendidas como simbólicas (como defende Crossam e Bjorg) ou como ilusões, como defende o teólogo cético alemão Gerd Lüdemam;

3º) Jonadabe disse que naquela época as crenças pagãs e judias era contrárias a ressureição física. O que nos leva e pensar que isso surgiu muito posteriormente. Muitos estudiosos defendem que a ressureição de Jesus não foi física.

4º) A história da ressureição é algo nitidamente mitológico. Envolve Deus ressuscitando Jesus dos mortos, inferno, demônios, salvação, etc.

Afirmar que Jesus ressuscitou dos mortos traz consigo muitos pressupostos. Dizer que é a melhor explicação não resolve nada.

O problema do sofrimento

O Jonadabe parece dizer que não apresentei nenhuma contradição lógica entre Deus existir e existir o sofrimento. Realmente não há nenhuma contradição. No entanto, se estivermos falando do Deus cristão (como é o caso) a coisa muda. Ora, o Deus cristão é amoroso e misericordioso! Como conciliar o fato de existirem inúmeras pessoas inocentes e indefesas que sofrem cruelmente até à morte, se existe um Deus que as ama incondicionalmente? Ele poderá alegar que após a morte essas pessoas gozarão de uma felicidade imensamente maior. Bem, nesse caso ele estará afirmando existir vida após a morte, imortalidade e felicidade eterna. Enquanto ele não nos der bons motivos pra acreditar nisso, isso não passará de uma fuga. Pra resolver o problema do sofrimento, Jonadabe deve nos apresentar boas razões pra acreditarmos que existe um Deus criador e, além disso nos apresentar algo em favor de uma recompensa além túmulo. Até agora, ele não fez isso!

A ideia de Deus é contraditória. Tudo indica que nossa consciência cessa de existir após a morte. Não há uma justificativa pra tanto sofrimento, caso o deus dos cristãos exista. Isso é um forte caso em favor do ateísmo.

JONADABE RIOS – CONCLUSÃO

Como disse outras vezes, seu principal argumento contra o cristianismo não é um argumento positivo. Está simplesmente pedindo para que eu demonstre a veracidade dele, mas isso não é argumentar, é pedir argumento.

Quanto à ideia de Deus, insisto em dizer que apesar de algumas coisas poderem ser descobertas pela razão (e alguns desses atributos podem ser vistos no inicio da postagem) outros são inacessíveis, e são aceitos pela fé. Da mesma forma que fiz antes, não vou me arriscar em querer explicar o que está acima da razão.

Mas devemos nos entregar a algo que não podemos explicar? Penso que se tivermos evidências (que procurei apresentar algo ao falar da ressurreição de Jesus), sim. Uma pessoa que ama outra se entrega mesmo sem conhecê-la completamente. Veja que estou falando de relações humanas. Se já é impossível conhecer e entender completamente o próprio ser humano, não passa de pretensão e arrogância querer entender o que transcende a nós.

Sobre o sobrenatural, tenho que discordar que não tem sido útil para esclarecer nada, mas não terei aqui como falar sobre. Basta dizer que mesmo que não fosse útil não significa necessariamente que não exista. Segundo, há várias especulações sobre o próprio mundo natural, se for para desconsiderar o que afirmam conhecer do sobrenatural por isso, deveria desconsiderar muito do que afirmam sobre o mundo natural. Aliás, como eu disse sobre a questão da razão, a própria fé de que podemos conhecer algo do mundo natural

Quanto ao item 1 sobre a ressurreição, quem sabe ele tenha sido ressuscitado por um ET? (Risos). Sobre o segundo, sim, existem pesquisadores que defendem uma ressurreição simbólica, mas o fato que citei sobre às crenças sobre a ressurreição no judaísmo e paganismo do primeiro século são um forte indício contra essa tese. Talvez você não tenha avaliado direito as consequências disso. Sobre o 3, as afirmações das aparições da ressurreição são bem antigas, o que, sendo simbólicas ou não, impossibilitam que tenha surgido muito posteriormente. No quarto item só foram feitas afirmações gratuitas.

Assim, dizer que é a melhor explicação explica muita coisa, o que não explica nada (nem responde) é dizer que alguém discorda de alguns dados como históricos.

Sobre o sofrimento, fico satisfeito em ter concordado que não é contraditório com a existência de um Deus. Esse é o objetivo do argumento. Não pretendi provar a existência de Deus com ele, apenas mostrar que não é contraditório.

No mais, gostei dessa forma de debate com tempo limitado. Espero conversar melhor com você sobre outros assuntos, principalmente sobre a ressurreição.

CARLOS WILKER – CONCLUSÃO

O Jonadabe ignorou meu argumento contra o cristianismo. Isso me pareceu um erro de sua parte. Meu argumento coloca em questão a vida após a morte, a imortalidade. Eu falei que há isso em outras religiões, que o cristianismo é apenas mais uma que defende isso. O Jonadabe não apresentou nada pra nos mostrar que tais coisas realmente existem e não são apenas mitos, lendas. Eu não pedi argumento, pedi uma justificativa pra pensarmos que existe mesmo umcéu e um inferno nos esperando, como afirma o cristianismo. Ele não mostrou nada!

No meu argumento sobre a ideia de Deus, demonstrei que a própria ideia de um Deus, como o cristão, é vazia, contraditória, sem sentido. O Jonadabe apenas admitiu que não consegue explicar. Ou seja, quando pergunto o que é Deus, ele admite que não sabe. Estranho que ele creia e viva em nome de algo que ele nem mesmo entenda!

Ele diz que é impossível conhecer e entender o ser humano. Sabemos muitas coisas sobre o ser humano, estamos avançando aos poucos em relação a isso. Porém, nem se quer saber o que é o Deus no qual se crê fortemente, é absurdo!

Quando digo que o sobrenatural tem sido inútil, quero dizer que sempre que recorremos ao sobrenatural pra tentar explicar algo, isso fracassou. O sobrenatural tem sido invocado pra explicar o que não sabemos explicar. O fato dele não explicar nada, não significa que não exista, claro. Porém, qual será outro meio pra tentar defender que ele existe?

Sobre a ressureição, o Jonadabe falou que as crenças no judaísmo e no paganismo seriam contrária a uma ressureição como teria sido a de Jesus, não há consenso sobre isso. O historiador Richard Carrier em seu livro “O cristianismo foi muito improvável pra ser falso?” argumenta muito bem contra isso. No mais, penso que a suposta ressureição de Jesus está repleta de alegações mitológicas.
Pra se crê na ressureição, não basta história, deve-se acreditar em diversas coisas, no mínimo, extremamente duvidosas.

Concordo que o sofrimento não é contraditório com a existência de um deus. No entanto, o que eu defendi é que é contraditório com a existência do deus dos cristãos. Eu mostrei que há uma séria contradição entre existir um deus todo-poderoso e amoroso, enquanto existem inocentes e indefesos sofrendo de diversas formas. O Jonadabe não esclareceu isso.
  
Agradeço imensamente ao meu amigo Jonadabe pelo debate. Foi uma honra pra mim. Nunca tínhamos debatido nesse formato e somos muito ocupados, o que explica o fato do debate não ter sido proveitoso e aprofundado, como gostaríamos.

Obrigado.


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