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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Livro inédito no Brasil: A Verdade Sobre o Papado - Rafael Merry del Val

Finalmente este livro que traduzi foi publicado. Ele pode ser encontrado aqui: http://www.editoraloreto.com/produto/a-verdade-sobre-o-papado/

É um dos melhores livros já publicados no Brasil sobre este tema.

O que você irá aprender com este livro:
  • Antes de tudo, o conteúdo deste livro é uma verdadeira aula de como tratar seriamente determinado assunto;
  • As provas de que Jesus organizou sua Igreja sob a autoridade de São Pedro e de seus sucessores;
  • Que São Pedro esteve sim em Roma, e foi lá que ele morreu;
  • Textos patrísticos que comprovam que esta foi a crença ininterrupta dos primeiros cristãos;
  • Que as mentiras protestantes a respeito do Papado são completamente refutadas com uma análise séria das Escrituras e dos textos Patrísticos;
  • Que Pedro é, sem qualquer sombra de dúvidas, a Rocha sobre a qual a Igreja foi construída.




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A unidade do Sacrifício cristão

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Quase todos sabem que a censura principal do protestantismo contra a doutrina católica do sacrifício eucarístico é este: a Igreja Católica, ao ensinar a necessidade de um segundo sacrifício, nega virtualmente a suficiência total do sacrifício do Calvário. Entretanto, a Igreja nunca cessou de proclamar por todos os meios ao seu alcance que seu sacrifício eucarístico não constitui de forma alguma uma abolição do sacrifício natural de Cristo na Cruz, mas é, pelo contrário, uma tributada à grande ação redentora de Cristo. O sacrifício do altar cristão e do Calvário são um mesmo sacrifício, ensina a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, a Igreja sustenta que o sacrifício eucarístico o é, em toda extensão da palavra, um ato que se renova diariamente, mesmo que seja o antigo sacrifício. Se unem de forma particular, portanto, nesta matéria divina, a unidade e a dualidade. Opino que, se não nos segurarmos fortemente no conceito sacramental do sacrifício eucarístico, será impossível refutarmos o argumento protestante. Mas, uma vez que fizemos alusão do verdadeiro sentido do sacramento, a dificuldade proposta se desvanece e ressalta a unidade fundamental do sacrifício cristão.

Se o sacrifício eucarístico fosse, de alguma maneira, natural, seria impossível evitarmos o fato de que haveria dois sacrifícios diferentes, o que levaria à pergunta de “por que dois sacrifícios?” de forma absolutamente lógica. A circunstancia de que o segundo sacrifício se realiza em condições totalmente distintas não nos permitiria evitar esta conclusão; se o sacrifício é in natura, por mais encoberto que seja, é, de fato, outro sacrifício e não o mesmo.

Mas se, por sua vez, o sacrifício é um sacramento em todo sentido do termo, não pode ser um novo holocausto, e se transforma na representação pura e simples do sacrifício histórico ou natural.

Se no sacrifício eucarístico houvesse uma imolação, uma morte, ou um ato heróico de qualquer tipo que não formasse parte do sacrifício da Cruz, se converteria imediatamente num segundo sacrifício, pois em tal caso ocorreria no mundo da graça algo novo, algo que não se realizou na Cruz.

O que constitui o prodígio e natureza própria do sacramento cristão é, precisamente, ser um ato que pode repetir-se de forma indefinida, mesmo que seu conteúdo (ou objeto) permaneça imutável.

Tal é o papel representativo do sacramento cristão. Coisa semelhante não pode acontecer fora da esfera sacramental: o sacramento não é, por acaso, este mistério da incessante repetição ou representação de uma coisa imutável em si mesma? Se Cristo se apresentasse aos nossos olhos em seu estado natural e nessas condições fosse oferecido ao Pai, esta nova vinda e nova oferenda seriam feitos históricos e formariam novas etapas na existência do Filho de Deus. A presença sacramental e a oferenda sacramental não são acontecimentos históricos na vida de Cristo; não constituem capítulos diferentes no livro de Sua existência, mesmo que, naturalmente, o ato pelo qual instituiu a Eucaristia, oferecendo-se pela primeira vez, é um fato fundamental em sua trajetória histórica. Ser oferecido sacramentalmente não forma parte da existência histórica do Filho de Deus. Se existe repetição nos atos, não a efetua Cristo, mas a Igreja militante na terra. “Assim como o que oferecemos em diversos lugares é um só Corpo e não muitos Corpos, do mesmo modo é um único sacrifício”. Sicut enim quod ubique offertur unum est corpus et non multa corpora, ita et unum sacrificium (III, Q. LXXXIII, art. I ad 1m.)

É curioso observar como um erro de princípio nestas altas disciplinas pode conduzir a divergências profundas de pensamento e, até mesmo, a apresentações perigosas da verdade católica. Para salvaguardar a unidade do sacrifício cristão, foi formulado em nossos dias a estranha hipótese de que o sacrifício eucarístico, mas que uma representação do sacrifício da Cruz, é uma parte integrante dele. Se considera a ambos os sacrifícios, o atual e o da Última Ceia, como outras etapas do grande sacrifício total que culminou sobre a Cruz.

Não me proponho criticar as diversas opiniões teológicas. Entretanto, é algo certo que considerar o sacrifício eucarístico como parte integrante do sacrifício universal equivale a deformar e alterar o papel que a tradição atribui ao sacramento. Por mais importante que seja o drama, o sacramento não forma parte dele; é, por sua própria essência, a representação do drama já terminado. O drama histórico deve encontrar-se completo antes que possam existir sacramentos, já que eles são memoriais do fato realizado, e não prólogos nem epílogos de grandes acontecimentos históricos. Se o sacrifício eucarístico fosse, de alguma forma, parte de um sacrifício universal, se representaria unicamente a si mesmo; conteria somente a si mesmo; não aplicaria outra graça além da que lhe corresponde como parte; não conteria outra imolação além da justificada por seu caráter limitado dentro de uma realidade superior. Entretanto, o sacramento cristão e, principalmente, o sacramento-sacrifício,, é uma representação, uma aplicação, uma imolação e uma plenitude de toda a imensidão do sacrifício universal. Se desejamos salvar a integridade essencial de nossa Missa, devemos vê-la como algo que existe por si mesmo, e nunca como o começo ou o fim de outra realidade, por mais divina e poderosa que seja.

Compreendo bem a tentação intelectual de quem abandonou o ponto de vista sacramental em termos gerais e, especialmente, a visão sacramental do sacrifício eucarístico. Se encontra diante de uma dualidade desconcertante, e crê vencê-la fazendo da Missa uma parte do sacrifício cristão. Crê, assim, no que poderíamos chamar de unidade orgânica, se é que podemos considerar “uno” aos diversos membros de um mesmo corpo. Na teoria que acabamos de mencionar, a Missa se converte em um membro, não no corpo inteiro. No conceito tradicional, pelo contrário, a Missa é o todo; contém Cristo totalmente, com todo o tipo de integridade que descrevemos no capítulo anterior. Não é, por acaso, um dos princípios básicos do sacrifício eucarístico a plenitude e o caráter definitivo do holocausto da Cruz? Se a Missa acrescentasse algo à Cruz, deixaria de ser sacramento, deixaria de representar. A Missa é a recordação, o memorial, da Paixão de Cristo. Que outra coisa representa o monumento se não for a vitória completa, o ato heróico,
o triunfo definitivo? Não erguemos monumentos aos fracassos, nem aos projetos não concluídos. Remover algo da plenitude do sacrifício da Cruz, por um lado, e da plenitude do sacrifício da Missa, por outro, não é uni-los em um único organismo, mas destruir os dois. É impossível aqui fazer um todo com duas metades, pois o sacramento e a realidade natural são coisas totalmente diferentes. Se unificam por meio dessa mesma diversidade, como já disse, pois um é a representação completa da totalidade da outra. A visão tradicional da Igreja, como provarei adiante, é que o sacrifício do Calvário foi completo e perfeito dentro do gênero “sacrifício”; a Eucaristia não pode acrescentar-lhe nada, pois ela é de fato “o resplendor de sua glória e figura de sua substância”.

Voltando ao argumento protestante, podemos ainda responder que essa posição é compreensível se é negado todo o sistema sacramental, raízes e ramos, convertendo a fé em um único caminho até Cristo; mas caso se admita algum sacramento-regeneração, há de admitir-se o sacramento-sacrifício; falo aqui do Batismo e da Eucaristia.

Em ambos os casos não existe mais que uma representação – no sentido técnico do termo – da Morte de Cristo, e sua aplicação à alma em particular. Se o Batismo não é uma abolição do sacrifício de Cristo sobre o Gólgota mas, pelo contrário, é o sinal da vitória do Senhor, por que a Eucaristia seria uma abolição? Em ambos os casos não tratamos com outros modos de contato entre as almas e o Cristo histórico? O sacrifício eucarístico poderá ser um contato mais vivo, mais ardente, caso prefira, mais cheio de virtude ativa que de passividade, já que contém uma substância divina; mas, apesar de tudo, não existe diferença radical, em termos rigorosamente teológicos, entre Batismo e Eucaristia, considerando esta última em sua verdadeira função sacramental de sacrifício e alimento espiritual.

Conviria solucionar agora uma dificuldade que pode desconcertar aos pensadores mais minuciosos, aos analistas mais finos de questões teológicas. O sacrifício eucarístico foi oferecido pela primeira vez na Última Ceia, antes que tivesse lugar o sacrifício natural da Cruz. Isso não indica que o sacrifício da Eucaristia constitui, de certa forma, o inicio de todo o processus da imolação cristológica? Cristo por acaso não realizou, ao oferecer-se em sacrifício no cenáculo, o primeiro ato desse sacerdócio que culminou no Calvário? Repito aqui o que seria extremamente difícil, se não impossível, localizar a Última Ceia no quadro da redenção, se damos ao sacrifício eucarístico o sentido e o valor de um sacrifício natural. Se o fosse, seriamos obrigados a aceitar a conclusão de que o mundo foi redimido antes que Cristo derramasse sua primeira gota de sangue, uma vez que a Última Ceia possuiria, por direito próprio, valor infinito de sacrifício.

A outra alternativa naturalmente seria a que alguns teólogos modernos adotam, cujas opiniões já citei; eles consideram a Última Ceia como o primeiro ato de um sacrifício universal, fazendo com que a realidade natural e sacramental se apóiem mutuamente. Apesar disso, se admitimos desde o princípio a visão sacramental do sacrifício eucarístico, toda dificuldade desaparece. Uma vez que o sacramento é, por essência, uma representação, Cristo poderia instituí-lo em qualquer momento, desde que exista corporalmente na realidade da Encarnação, e não somente na esperança dos crentes.

Essa realidade imensa, Cristo imolado na Cruz, poderia ser representada antes ou depois do Calvário, e mesmo que o sacramento derive toda sua verdade e eficácia da Morte de Cristo, sua instituição, celebração e até mesmo seu uso podem preceder a essa morte. A celebração do sacrifício que Cristo realizou não substituiu a finalidade da Cruz, como também não a substituiu a primeira fração de pão efetuada na Igreja cristã depois da vinda do Espírito Santo. Somente os sacramentos estão sublimados de tal forma acima dos acontecimentos históricos.

Falando do Batismo, São Tomás nos apresenta sucintamente a teologia dessas maravilhosas “antecipações” de Nosso Senhor. Considerando como coisa certa que os homens poderiam ter recebido o batismo antes mesmo da morte de Cristo na Cruz, ele afirma: “Mesmo antes da Paixão de Cristo, o Batismo recebia sua eficácia dessa Paixão, uma vez que a prefigurava, mas a figurava de forma diferente dos sacramentos da Lei Antiga, que eram exclusivamente figuras, enquanto que o Batismo, antes da Morte de Cristo, recebia o poder de justificar desse mesmo Cristo, cuja virtude a Paixão havia de transforma-se em fonte de salvação”. Etiam ante passionem Christi baptismus habebat efficaciam a Christi passione, in quantum eam praefigurabat: aliter tamen, quam sacramenta veteris legis, nam illa erant figurae tantum; baptismus autem ab ipso Christo virtutem habebat justificandi, per cujus virtutem ipsa etiam passio salutifera fuit (III. Q. LXVI, art. II ad 1m).

Aplicando esta doutrina ao sacrifício eucarístico da Última Ceia, podemos dizer que ele prefigurava o sacrifício da Cruz; o Cristo que logo daria sua a própria Carne e Sangue naturais o poder de redimir a humanidade, deu ao pão e vinho a virtude de representar sacramentalmente essa mesma Carne e Sangue. Não é preciso considerar, como certos pregadores gostam de fazer, o sacrifício eucarístico da Última Ceia como um voto final do Filho de Deus, comprometendo-se a morrer na Cruz. O conceito tradicional sobre a Última Ceia é de teor sacramental: Cristo, perto de abandonar este mundo, nos deixou o memorial (ou monumento) de Si mesmo; nada intrínseco à natureza desse monumento o obrigava a instituí-lo depois do próprio feito. O monumento é de natureza tal que pode ser erguido antes, uma vez que é um sacramento. A instituição do sacramento eucarístico da Última Ceia não foi somente o voto de Cristo oferecendo-se para morrer, mas o triunfo antecipado de Cristo sobre a morte.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A superioridade de Cristo

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Censuram com frequência a cristologia católica tradicional, dizendo que há um elemento irreal no Cristo da teologia clássica. O Jesus dos Evangelhos e da piedade católica (dizem os adversários) é representado como tendo dado uma terrível batalha moral, sofrendo e morrendo; mas tendo absoluta certeza de que o final da luta seria esplêndido, além de toda a compreensão, e que nenhum poder do mundo poderia impedir ou retardar o triunfo da sua Pessoa e da sua causa. Nenhum herói – dizem – foi tão privilegiado. Era preciso que ele se lançasse no combate sem ter recebido a certeza do triunfo final. Não é verdade que o heroísmo puramente humano parece mais verdadeiro pela carência dessa visão certa de vitória?

***

Temos, pois, que defender a doutrina das certezas de Cristo, não só contra os racionalistas, mas também contra devotos bem intencionados. Cristo teria sido menos digno de amor se não tivesse certeza da sua vitória final. Toda espécie de dúvida, de receio, tê-lo-ia tornado menos atraente para a contemplação cristã. Não teria sido, finalmente, um herói. O que devemos, no entanto, conceder é que esta certeza de Cristo, no momento mesmo do triunfo dos seus inimigos, encerra um maravilhoso e excepcional problema: É esta a vossa hora, e do poder das trevas (S. Lc XXII, 53).

Temo aqui, verdadeiramente, um fenômeno mental único, e podemos dizer sem exagero que toda a mentalidade do cristianismo depende desta questão: se Cristo nas suas humilhações teve ou não teve completa e inabalável certeza da glória que lhe estava destinada. Pois, se Jesus teve tal certeza, é evidente que os males que o acabrunhavam eram, essencialmente, passageiros; portanto, não foram forças terríveis, e sim provações. A conclusão que os cristãos de todos os tempos devem tirar disto é que, reconhecendo passageiras as aflições da vida presente, devem suportá-las sem o medo e terror que inspira um mal sem fim.

Nosso Senhor teve plena certeza de que nada lhe podia, afinal, causar dano. Sentia-se, pelas leis e riquezas vitais da sua admirável Personalidade, imune dos ataques de seus inimigos: Porque vem o príncipe deste mundo, e ele não tem em mim coisa alguma (S. João, XIV, 30). O Filho de Deus possuía o senso perfeito das proporções, o qual lhe permitia apreciar os males da vida presente no seu justo valor. Se o qualificativo de filósofo pode aplicar-se, com razão, àquele que se não deixa dominar intelectualmente pelas misérias deste mundo, Cristo deve ser proclamado o filósofo por excelência. Tudo nele o faz superior à tirania que o sofrimento e a morte exercem sobre a imaginação humana e fazem que esses males terríveis apareçam como verdadeiros senhores do nosso destino. Entretanto, havia em Cristo mais do que a simples superioridade de conhecimento: tinha o poder de vencer e abater todos esses monstros sinistros.

Devemos absolutamente admitir como única doutrina ortodoxa que Cristo foi em todo o tempo senhor incontestável da morte e de tudo o que se relaciona com a morte. Tanto os males físicos como a malícia dos homens eram impotentes contra ele, desde que ele quisesse mostrar a sua superioridade.

O encanto desse herói, Cristo Senhor Nosso, está em que ele se submeteu a esses males para o bem dos que viera remir, afim de lhes mostrar que esses males não podem realmente ferir o que é essencial no homem. Tomou-os sobre si mesmo com a intensão expressa – diz S. Paulo – de destruir o terror que nos causa a morte, e de tirar a Satanás, que tiraniza o homem com esse especto lúgubre, a sua arma mais poderosa que é o caráter aparentemente irrevogável da morte: Por isso, visto que os filhos participam da carne e do sangue, ele também participou igualmente das mesmas coisas; afim de destruir pela sua morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio; e para livrar aqueles que, pelo temor da morte, estavam em escravidão toda a vida (Hb. II, 14 e 15).

Assim, está também infinitamente mais em harmonia com o plano da nossa libertação que Cristo fosse, como sempre a teologia católica o tem representado, inter mortos liber, um homem livre entre os mortos, capaz de se mover nos lugares sombrios da existência humana, circundado pela luz da divindade. Um homem que não conheceu o pecado e que se experimentou a morte foi para sepultá-la na abundância de sua própria vida. Assim, Cristo jamais falou das suas próprias humilhações sem mencionar a subsequente glorificação.

A ressurreição ao terceiro dia tornou-se para ele, podemos dizer, uma fórmula ritual: Em seguida tomou Jesus à parte os doze e lhes disse: Eis que vamos para Jerusalém, e será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas relativo ao Filho do homem. Porque ele será entregue aos gentios, e será escarnecido, e açoitado e cuspido; e, depois de o açoitarem, o matarão, e ressuscitará ao terceiro dia. (S. Lc XVIII, 31-33).

O historiador da vida de Cristo que não levar em consideração esse aspecto do Evangelho faltará ao seu dever. Cristo insiste sobre a sua completa imunidade de pecado e da tirania desse mundo perverso. Basta esse fato para colocá-lo à parte e distingui-lo de todos os outros homens registrados na história. Não foi só aos cristãos das gerações futuras que Cristo deixou o cuidado de descobrir o grau da sua liberdade. Ele mesmo se servia de toda oportunidade para proclamar a sua incontestável independência e o poder de desfazer tudo que se lhe opusesse.

Ainda há outro aspecto da passagem  de Cristo por este mundo que nos mostra a superioridade que acabamos de descrever: é a sobriedade no uso do seu poder ao propagar o reino de Deus que ele veio estabelecer entre os homens. Tem sido isto o tema predileto dos pregadores cristãos de todos os tempos. Não é o fato de ser a Encarnação um locus communis que vá diminuir a sua grande importância e máximo interesse. Cristo tinha a sua hora e o seu modo de proceder na obra para a qual foi mandado pelo Pai, e nenhuma força seria capaz de o demover do seu caminho, ou de o induzir a adiantar o momento que havia escolhido: Estava próxima a festa dos Judeus, chamada dos Tabernáculos. Disseram-lhe, pois, seus irmãos: sai daqui e vai para a Judéia afim de que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém que deseja ser conhecido em público, faz coisa alguma em segredo; já que fazes estas coisas, faze-te conhecer do mundo. Porque nem mesmo os seus irmãos criam nele. Disse-lhes, pois, Jesus: ainda não chego
u o meu tempo; mas para vós é sempre tempo. O mundo não vos pode odiar, mas odeia-me a mim, porque faço ver que as suas obras são más. Ide vós para a esta festa; eu não vou a esta festa, porque não está ainda completo o meu tempo. (S. Jo, VII, 2-8).

Haverá, porventura, em parte alguma, narração semelhante à do Evangelho, quando se considera precisamente a grande cópia de testemunhos que provam ter esse herói, Cristo, a sua sorte nas próprias mãos, e que ninguém lhe pode tirar a vida, a não ser que ele mesmo o consinta? A atmosfera em que Jesus se move, tornou-se, como já o dissemos, a atmosfera do espírito cristão. Porquanto, assegurando a seus discípulos nada lhes poder realmente ser nocivo, entendia Jesus que esta certeza devia ser a norma permanente de vida de todos aqueles que adoram ao Pai: Disse-vos estas coisas para que tenhais paz em mim. Haveis de ter aflições no mundo; mas tende confiança, eu venci o mundo (S. João, XVI, 33).

Do papa S. Leão poder-se-ia dizer que não dava tréguas aos seus ouvintes em lhes anunciar a liberdade que tinha Cristo de escolher o seu próprio modo de vida e a sua morte.

Haviam as heresias de Nestório e Eutíquio perturbado as consciências dos cristãos. Ara muitos, era problema inquietante o modo de encarar a tragédia de Cristo. Jesus foi condenado a uma terrível morte sem uma palavra de protesto. Não seria, pois, mais razoável não dar importância aos sofrimentos do Filho de Deus, tais como são descritos nos Evangelhos, e pensar que toda a Paixão teve apenas aparência exterior como pretendiam os Docetistas, próximos afins dos Eutiquianos?

O santo doutor lembra ao seu auditório romano que as humilhações de Cristo são o fruto do seu poder, pois ele quis ser fraco por nosso amor: “Há duas naturezas em Cristo – diz ele – mas uma só Pessoa. Há um só Senhor, o Filho de Deus, que é ao mesmo tempo Filho do homem. Ele tomou sobre si a forma servil por amor, sem estar sujeito a isto por nenhuma lei ou necessidade; visto que por ato do seu poder, se humilhou; por ato do seu poder, se tornou passível; por ato do seu poder, se tornou mortal. Afim de destruir a soberania do pecado e da morte, fez que a sua natureza humana fosse capaz de sofrer, sem que a sua natureza divina perdesse nada da sua glória”. (Serm. LXVI).

Não é pois faltar ao respeito chamar de suave mistério do humor cristão esse sentimento inato de superioridade a tudo que procura assustar o homem: A vós, pois, meus amigos, vos digo: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois nada mais podem fazer. Mas eu vos mostrarei a quem haveis de temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno; sim, eu vos digo, temei este. Não se vendem cinco passarinhos por dois asses, e todavia nem um só deles está em esquecimento diante de Deus? E até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais pois; vós valeis mais que muitos passarinhos (S. Lc XII, 4-7).

Esta frase “meus amigos” justifica a nossa ousadia em empregar o termo humor. Está Cristo cercado por grande multidão de pessoas que podem desprezar a tribulação; não teria, porventura, aflorado aos lábios de Jesus um sorriso quando disse a seus discípulos, homens grandes e fortes, que valiam mais que muitos passarinhos?

(Retirado de uma tradução antiga em português. Já estamos providenciando uma nova tradução para publicação)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Jesus é o Messias? - Parte 3

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Retirado de The Life and Times of Jesus the Messiah (1883), escrito por (1825-1889; convertido do Judaismo ao Anglicanismo)

Edersheim estudou de forma intensiva as doutrinas, práticas e formas do judaísmo nos séculos anteriores e posteriores ao inicio da era cristã. (Para mais informações sobre ele: http://en.wikipedia.org/wiki/Alfred_Edersheim )

Lista das passagens messiânicas do Antigo Testamento vistos em antigos escritos rabínicos.

A lista a seguir contém as passagens do Velho Testamento aplicadas ao Messias ou aos tempos messiânicos nos mais antigos escritos judaicos... As obras rabínicas mencionadas são o Targumim, os dois Talmudes e os Midrashim mais antigos, em vez do Zohar (que a data de sua composição é debatida), trabalhos cabalísticos ou os Midrashim mais recentes, além, é claro, dos escritos rabinos posteriores. Tenho citado frequentemente o Yakut, obra bem conhecida, pois, embora seja uma obra relativamente tardia, é, como o próprio nome indica, uma seleção e compilação de mais de cinqüenta escritos antigos e confiáveis, e nos apresenta passagens que de outra forma não seriam acessíveis. Tenho aproveitado muito dele, além de ter sido forçado, de forma relutante, à conclusão de que o Midrashim que nós temos foi adulterado em algumas ocasiões controversas.

Isaias 52, 3 é aplicado de forma messiânica no Talmud (Sanh. 97 b), enquanto a última cláusula do versículo 2 é uma das passagens citadas no Midrash sobre Lamentações (Ver Is 11, 12). A declaração evangélica de Isaias 52, 7 é comentada dessa forma em Yalkut (vol. II. P. 53 c):

Na hora em que O Santo (Bendito seja Seu Nome) redimir Israel, 3 dias antes da vinda do Messias virá Elias, e permanecerá diante das montanhas de Israel, e chorará e lamentará por eles, e dirá a eles: "Olhai (para a) Terra de Israel, por quanto tempo você ficará numa região seca e desolada?" E a sua voz será ouvida de canto a canto do mundo, e depois de tudo será dito a eles: "A Paz chegou ao mundo, a Paz chegou ao mundo, como está dito: "Quão belo (por sobre / acima) as montanhas!" E quando os (malignos? pecadores?) ouvirem isso, regozijarão, e então dirão uns aos outros: "A Paz chegou até nós". No segundo dia, ele (Elias?) permanecerá diante das montanhas de Israel, e dirá: "O Bem virá a este mundo, o bem virá a este mundo, como está escrito: 'que trará boas novas do bem' ". No terceiro dia, ele (Elias?) virá e permanecerá diante das montanhas de Israel, e dirá: "A Salvação chegou ao mundo, a Salvação chegou ao mundo, como está escrito: que promulgará/espalhará a Salvação' ".

Do mesmo modo, essa passagem é citada em Yalkut sobre Salmos 122:1. Veja também as observações sobre Cânticos 2:13.

O versículo 8 é uma das passagens que o Midrash se refere acima sobre as Lamentações, e é frequentemente usado em outros lugares como messiânicas.

O versículo 12 é aplicado de forma messiânica em Shemoth R. 15 e 19.

O versículo 13 é aplicado expressamente aplicado no Targum para o Messias. Sobre as palavras “Ele será exaltado e enaltecido”, lemos em Yalkut II. (Par. 338, p. 53 c): Ele deve ser superior a Abraão, a quem se aplica Genesis 14: 22; maior que Moisés, como fala Números 11:12; superior aos anjos, como diz Ezequiel 1:18. Mas a Ele isso não se aplica em Zech. IV. 7: “Quem és tu, ó grande monte?” “E Ele foi ferido pelas nossas transgressões, moído pelas nossas iniqüidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. R. Huma diz, em nome de R. Acha: Todos os sofrimentos são divididos em três partes: uma parte vai para Davi e os Patriarcas, outra para a geração rebelde (Israel rebelde), e o terceiro para o Rei Messias, como está escrito (Sl 2:7), “Tenho estabelecido o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião”. Segue, então, uma citação curiosa do Midrash sobre Samuel, em que o Messias indica que sua morada é no monte Sião, e que a culpa está relacionada com a destruição de suas paredes.

Em relação a Isaias 53, recordamos que o nome messiânico de “leproso” (Sanh. 98 b) é expressamente baseado nele. No Targum, Isaias 53:10 é aplicado para o Reino do Messias. O versículo 5 é interpretado de forma messiânica referente a Samuel (Ed. Lemberg, p. 45), onde é dito que todos os sofrimentos são divididos em três, um dos quais é do Messias – uma observação que é conectada com Rute 2:44.

domingo, 8 de abril de 2012

João Batista é Elias reencarnado?


Muitos espiritas ao tentarem mostrar que os Evangelhos apoiam a reencarnação tentam, de forma desesperada, mencionar o caso de Elias. Por isso resolvi escrever alguns motivos porque essa interpretação não é possível:

Primeiro, mesmo que pensassem que era o mesmo profeta em pessoa chamado de Elias não significa necessariamente que eles acreditavam que era reencarnação, pode significar que acreditavam que ele simplesmente veio assim como foi levado aos céus sem morrer. Alguém que não conhece o seu nascimento nem suas circunstâncias, principalmente porque ele passou a ficar no deserto, poderia muito bem supor isso (isso porque, essa confusão aconteceu até com Jesus). Ou seja, toda essa sua conclusão passa desse pressuposto, em vez de uma possível volta de Elias no mesmo corpo que teria sido arrebatado. Todo o texto mostra que as pessoas viam certo mistério em João, esse mistério, junto com seu ministério no deserto, pode ter feito as pessoas perguntarem isso. Só isso exclui uma interpretação reencarnacionista como necessária.

Veja que alguns diziam que Jesus era João Batista! Impossível pela idade deles estarem falando em uma reencarnação. No caso de João Batista estavam falando de alguém que, segundo a tradição judaica, não teria morrido.

Então temos que buscar mais pistas sobre o que eles acreditavam, em vez de simplesmente pressupor a qualquer custo que (1) Elias havia morrido depois de ter sido arrebatado e (2) eles estavam se referindo a uma reencarnação.

Segundo, Lucas, que foi contemporâneo dos apóstolos, aprendeu diretamente com eles e escreveu uma biografia de Jesus antes que estes morressem (o que significa que eles tiveram um bom tempo para autorizar a utilização dela) diz algo que pode ajudar na compreensão sobre o que eles acreditavam:

-> Herodes pensou que Jesus era João que tinha ressuscitado, ou Elias que tinha aparecido. 9, 7; Outros, (v. 8) um profeta antigo que tinha ressuscitado.
-> Quando perguntaram sobre quem Jesus era, eles responderam: "João o Batista (impossível, como disse, que pensassem que era reencarnação nesse caso, por causa da idade de ambos); outros, Elias, e outros que um dos antigos profetas ressuscitou." Lc 9, 19. Se com os outros profetas, que estavam mortos, eles acreditavam que teriam ressuscitado, imagine Elias, que foi arrebatado vivo?
-> João Batista já estava morto, mas Jesus ao conversar na transfiguração, conversou com Moisés e Elias. Ora, se eles acreditassem mesmo que João Batista era a reencarnação de Elias, é mais lógico supor que eles citariam o nome de "João" não "Elias".

Ou seja, nesses casos não há nenhuma referência a reencarnação, pelo contrário, há varias citações que argumentam de forma positiva para que ou eles pensavam que ou Elias tinha ressuscitado (caso acreditassem que ele tivesse morrido, o que é improvável) ou que Elias apareceu, tal como havia sumido, ou uma terceira opção, que citarei no final.

Isso é o que as pessoas diziam sobre Elias. Que ou havia aparecido, ou era algum dos profetas ressurretos.

E o que Jesus disse? "E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias" 1, 17.

Nesse caso temos duas opções: espírito reencarnado, ou uma linguagem familiar da tradição judaica para outra coisa.

Quanto isso, além de ser um indicativo contrário o fato de todos os outros falarem de uma "aparição" ou "ressurreição", nas Escrituras do AT, familiar a Jesus e aos judeus que ele se dirigia, ao falar de Elias, também não apoia a reencarnação. É só recordar que Eliseu, ao fazer um pedido a Elias, pediu a porção dobrada de seu espírito. Como Elias não morreu naquele momento, seria uma prova de desespero supor que seria algo como uma incorporação (o máximo que se pode chegar). Quando Eliseu voltou, as pessoas reconheceram que o espírito de Elias, que não tinha morrido, repousava sobre Eliseu.

Assim, uma vez que é impossível pelo texto uma reencarnação ou incorporação de Elias em Eliseu, fica óbvio que se refere ao espírito de profecia em Eliseu.

Juntando os textos que mostram que eles faziam referência a uma aparição e ressurreição, com o fato de que o texto nas Escrituras que falam de Elias se referem uma significação diferente para "espírito", então fica difícil não concluir que Jesus disse que João Batista iria no espírito e na virtude de Elias não no sentido de que era a reencarnação dele (até porque diz que "vai no espírito" não que "é o espírito"), mas que tinha, assim como Eliseu, o mesmo espírito profético.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Jesus do "Código da Vinci" - Por H. Wayne House


Esse já é um assunto batido, mas sempre tem gente pousando de conhecedor depois que leu livros como o Código da Vinci. Eu lembro da tempestade em copo d'água que foi feito, inclusive de um professor meu que estava jogando na cara dos seus alunos o quanto a Bíblia é falsa, como "prova" o Código da Vinci. Por muitas das afirmações falsas que estão no livro ainda serem divulgadas e cridas (nem todos passaram a acreditar por meio desse livro, mas é o mais comum), resolvi postar esse comentário. Bom proveito:

Em 2003, o escritor Dan Brown publicou seu quarto livro, O Código da Vinci. O livro é um romance, embora Brown afirme: “Todas as descrições de ilustrações, arquitetura, documentos e rituais secretos desse romance são exatos”, declaração que provocou alvoroço na comunidade cristã. As asserções de Brown a respeito de Jesus foram tão radicais quanto falsas. Os erros bem documentados em O código da Vinci levaram Sandra Miesel, da revista Crisis, a gracejar: “o Livro O código da Vinci está tão cheio de erros que o leitor instruído, na verdade,aplaude as raras ocasiões que Brown tropeça (sem querer) na verdade”. [1] Até mesmo Bart Ehrman, que discutiremos mais adiante neste capítulo, tem palavras depreciativas para a falta de exatidão histórica de Brown e sua pesquisa descuidada. [2]

Infelizmente, talvez muitas pessoas não tenham o discernimento de separar a verdade da ficção na obra de Brown. Embora o alvoroço em relação ao romance tenha se aquietado, alguns dos argumentos apresentados no livro continuam a reverberar em toda a sociedade. A popularidade do livro O código da Vinci levou a um aumento da aceitação pública pela busca de alternativas à percepção ortodoxa de Jesus. Todavia, muitas afirmações feitas por Brown são simplesmente recontagens exageradas dos debates dos estudiosos da atualidade. Limitaremos nossa crítica às afirmações de Brown a respeito de Jesus, especialmente em relação à divindade dele, e às interpretações errôneas de Brown das versões gnósticas de Jesus.

O Jesus humano de Dan Brown

Jesus foi feito Deus no Concílio de Niceia. A certa altura do romance, um dos personagens de Brown está instruindo outro a respeito do Jesus “real”. Ele diz: “Nessa reunião [Concilio de Nicéia], muitos aspectos do cristianismo foram debatidos e votados – a data da Páscoa, o papel dos bispos, a administração dos sacramentos e, claro, a divindade de Jesus”. Mais adiante, esse personagem, Teabing, em um diálogo, diz a outro:

- Meu caro, até esse momento da história, Jesus foi visto por seus seguidores como um profeta mortal, [...] um grande e poderoso homem, mas apenas um homem. Um mortal.- Não como o Filho de Deus?- Isso mesmo, o estabelecimento de Jesus como “o Filho de Deus” foi oficialmente proposto e votado no Concílio de Nicéia.

Brown continua e, ainda por intermédio desse personagem, declara que a votação foi secreta, e que era Constantino quem desejava se tornar o Jesus divino. Ele diz que a igreja roubou Jesus de seus seguidores primitivos, “seqüestrando a mensagem humana dele, envolvendo-a em um impenetrável manto de divindade e usando-a para expandir o poder dela mesma”. Ele alega que os “evangelhos” que enfatizavam a humanidade de Jesus foram reunidos e queimados por Constantino, mas alguns escaparam da destruição. Aqueles que usavam esses evangelhos eram chamados de “heréticos”, embora usassem os evangelhos “originais”. Entre esses “evangelhos heréticos”, diz Brown, estavam os pergaminhos do Mar morto e os “pergaminhos cópticos” encontrados em Nag Hammadi. [3] Brown argumenta que esses documentos “falam do ministério de Cristo em termos bem humanos”.

Resposta à alegação de Brown

O suporte bíblico para a divindade de Jesus. Essa bizarra declaração a respeito de Jesus simplesmente é falsa, e isso é fácil de provar. Primeiro, os próprios evangelhos testificam a divindade de Jesus. João 1.1,2 diz “No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”. João 8:58 afirma: “Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Mesmo se aceitarmos a erudição mais liberal de que o Evangelho de João foi escrito mais de dois séculos antes do Concílio de Nicéia. O apóstolo Paulo, na epístola aos Romanos, escrita em 55 e 57 d.C., pouco mais de vinte anos após a crucificação de Jesus, indica claramente que Jesus era divino: “O Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém” (Rm 9:5).

A divindade de Jesus na igreja pós-apostólica. A doutrina da divindade de Jesus foi defendida e ensinada logo no início da igreja. O pai apostólico Inácio acreditava na divindade de Jesus e, por volta de 105 d.C., escreveu: “Deus mesmo sendo manifestado na forma humana para a renovação da vida eterna”. [4]

Justino Mártir escreveu na primeira metade do éculo II: “O Pai do universo tem um Filho, que sendo também o primogênito Verbo de Deus, é mesmo Deus” [5]

Clemente, por volta de 150 d.C., defendeu a divindade de Jesus e a Trindade ao dizer: “Se esse é seu desejo, seja também você iniciado; e você se juntará ao coro com os anjos em torno do não gerado, indestrutível e único verdadeiro Deus, a Palavra de Deus, engrandecendo o hino conosco. Esse Jesus, que é eterno, o único grande Sumo Sacerdote do único Deus e Pai dele, ora pelos homens e os exorta”. [6]

A divindade de Jesus no Concílio de Nicéia. Dan Brown parece não saber do que se tratava o Concílio de Nicéia. Não era a divindade de Jesus que estava em debate, mas o novo ensinamento de um homem chamado Ário. O Concílio de Niceia não foi convocado para solidificar o poder com a elaboração de uma nova doutrina, mas para unificar a igreja e defender o ensinamento original das novas idéias. Ário acreditava que Jesus era divino, mas de forma diferente ou menor que o Pai, pois ele alegava que Jesus fora criado pelo Pai. A grande maioria dos bispos presentes no Concílio de Niceia era contra esse ensinamento. O único debate em relação à linguagem do credo apresentado por eles seria para descrever de forma mais acurada a relação do Pai e do Filho. [7]

Por fim, eles chegaram à linguagem familiar do Credo de Niceia:

Creio em um só Deus, Pai Onipotente, criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis e em Jesus Cristo, Senhor nosso, Filho de Deus unigênito, e nascido do Pai, antes de todos os séculos.

Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro, gerado, não feito, da mesma substância do Pai e pelo qual foram feitas todas as coisas, o qual por nós foi crucificado e por nossa salvação desceu dos céus, encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem e foi feito homem.

Foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras. E subiu ao céu, onde há de vir segunda vez para julgar os vivos e os mortos e o seu Reino não terá fim.

Creio no Espírito Santo que também é o Senhor e dá vida, e procede do Pai e do Filho com os quais é juntamente adorado e glorificado, e que falou pelos profetas. Creio na Igreja que é uma, santa, católica e apostólica. Creio no Batismo para a remissão dos pecados e espero a Ressurreição dos mortos e a vida do futuro século. Amém.

Quanto à “reunião” realizada por Constantino de todos os “evangelhos heréticos”, os próprios escritos de Nag Hammadi comprovam que são falsos. Eles são datados de alguma época do século IV, provavelmente, depois de 350 d.C., e é possível que, até mesmo, sejam de “uma geração posterior” [8], tornando a composição deles, pelo menos, 25 anos posterior ao Concílio de Niceia.

A humanidade de Jesus no gnosticismo e nos evangelhos canônicos. De acordo com Brown, o Jesus dos evangelhos gnósticos é mais humano que o Jesus dos evangelhos canônicos. [...] A palavra gnóstico é um termo abrangente para um sistema filosófico baseado em “conhecimento secreto” (o termo gnóstico deriva da palavra grega para conhecimento). Os gnósticos acreditavam possuir o conhecimento correto do que era a realidade, o que não era visível para todas as outras pessoas.

Havia algumas crenças básicas entre os gnósticos. A essência divina original produziu outras essências divinas, mas aconteceu algum tipo de queda no reino espiritual. Como resultado disso, a matéria veio à existência. Essa matéria, portanto, foi produzida do mal. Todavia, parte da natureza original, pura e espiritual foi posta em algumas almas. Essas almas atravessaram o mundo material em seu retorno ao mundo divino, mas foram presas em sua “concha” material. Um “redentor”, a saber, Jesus, veio para revelar o meio de escapar do mundo material por meio desse bocado de natureza divina. [9]

Contudo, uma vez que, no gnosticismo, a matéria é inerentemente má, o Jesus gnóstico classifica-se em algum ponto entre ser um veículo humano para o espírito divino do Filho e uma simples aparição que não tem, de modo algum, forma material. Os evangelhos gnósticos, em vez de enfatizar a humanidade de Jesus, quase a excluem.

Retirado do livro “O Jesus que nunca existiu”. Para mais informações sobre as fontes pré-nicenas da divindade de Jesus, conferir aqui e aqui.

1 – MIESEL,Sandra. “Dismantling the Da Vinci Code”, reista Crisis, 8 de julho de 2004.
2 – Ehrman diz: “Como a maioria dos historiadores que dedicou a vida ao estudo das fontes antigas de Jesus e do cristianismo primitivo, comecei imediatamente a ver problemas nas alegações históricas feitas no livro. Havia inúmeros erros, alguns ridículos, que não só eram óbvios para um especialista, mas também desnecessários para a trama. Se o autor tivesse apenas feito um pouco mais de pesqusia, teria sido capaz de apresentar um relato histórico mais preciso, sem compreometer de forma alguma a história que ele tinha para contar” Ehrman, Bart D. Truth and fiction in the da Vinci Code. New York: Oxford University press, 2004, p. xiii.
3 – Brown é simplesmente negligente aqui. Os pergaminhos do mar Morto não contêm evangelhos, mas são textos judaicos que não fazem menção a Jesus. A maioria deles foi escrita entre cinqüenta e cem anos antes de Jesus. Os “pergaminhos cópticos” são escritos gnósticos que incluem alguns ‘evangelhos’ entre muitas outras obras. Geralmente eles são chamados de Biblioteca Nag Hammadi e não são, de maneira alguma, pergaminhos, mas livros encadernados chamados códices.
4 – Ignatius, Epistle to the Ephesians, p. 19 (ANF 2.205)

5 – Mártir, Justino, The frist apology, p. 43 (ANF 1.184)
6– Clemente de Alexandria, Exhortation to the Heathen, p. 12 (ANF 2.205).
7 – Ferguson, Everett. Church history, Volume I: From Christ to Pre-Reformation. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2005, p; 191-95;
8 – Brannan, Rick. “Historic Creeds and Confessions” Ed.eletrônica. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997, artigo 12.
9 – Ferguson, Everett. Church history, vol. 1: From Christ to Pre-reformation. P. 93

*** Em breve alguns comentários sobre certas alegações de alguns muçulmanos.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O fragmento muratoriano


Em 1740, foi publicada uma lista dos livros do Novo Testamento em latim por Lodovico Antonio Muratori, distinto antiquário e teólogo em sua época, a partir de um códice copiado no éculo VII ou VIII no mosteiro de Bobbio, na Lombardia, mas que depois veio a ser guardado na Biblioteca Ambrosiana (da qual Muratori fora, por algum tempo, curador), em Milão. Continua armazenada lá, sob o número de catálogo J 101 sup., fólios 10a-11a.

A data em que a lista foi preparada originalmente é muito debatida. Ela provém, mais provavelmente, do final do século II. O texto latino sofreu por ter sido copiado por um ou mais escribas que possuíam pouca habilidade de escrita. Há vários erros que clamam por emendas. Muitos estudiosos sustentam a idéia de que por trás do texto latino jaz um texto original grego que se perdeu. Todavia, no todo, parece que o latim era mesmo sua língua original, e que a lista data do tempo em que a igreja romana (que fora de língua grega desde sua fundação no século I) começava a tornar-se bilíngüe.

O documento é melhor entendido como uma lista de livros do Novo Testamento reconhecidos como portadores de autoridade escritural pela igreja romana da época. Além de listar os livros, faz várias observações sobre eles, refletindo a opinião contemporânea de alguns líderes eclesiásticos.

O manuscrito encontra-se mutilado na sua parte inicial. Uma vez que sua primeira frase completa menciona Lucas como “o terceiro livro do evangelho”, provavelmente mencionava os outros dois, e não é excessivamente especulativo supor que esses fossem Mateus e Marcos. Se for esse o caso, as primeiras palavras preservadas do manuscrito seriam as últimas de uma frase sobre Marcos: “... nestas, todavia, ele estava presente e assim as registrou”. A seguir o documento continua:

O terceiro livro do evangelho; segundo Lucas.

Depois da ascensão de Cristo, Lucas, o médico, a quem Paulo levara consigo como especialista legal, escreveu [o relato] em seu próprio nome de acordo com a opinião [de Paulo]. Ele próprio, todavia, não havia visto o Senhor na carne e, portanto, até onde podia seguir [o curso dos acontecimentos], começou a contá-lo a partir do nascimento de João.

O quarto evangelho é de autoria de João, um dos discípulos. Quando seus colegas de discipulado e os bispos o encorajaram, João disse: “Jejum comigo por três dias, e o que vier a ser revelado a cada um, seja isso contado aos demais”. Naquela mesma noite foi revelado a André, um dos apóstolos, que João, em seu próprio nome, deveria escrever tudo e que eles deveriam revisá-lo. Assim, embora haja indícios diferentes para os vários livros do evangelho, isso não faz diferença para a fé dos crentes, uma vez que em todos eles tudo foi declarado por um Espírito primário, com respeito à sua [de Cristo] natividade, paixão e ressurreição, sua associação com os discípulos e seu duplo advento – o primeiro em humildade, quando foi desprezado, e que já ocorreu; o segundo, resplendente em poder real, sua segunda vinda. Não é de espantar, portanto, que João apresente os detalhes com tanta freqüência também em suas cartas, dizendo a respeito de si mesmo: “O que vimos com nossos olhos, e ouvimos com nossos ouvidos, e as nossas mãos apalparam, isso vos escrevemos”. Dessa maneira ele alega não ter sido apenas espectador, mas também ouvinte, e também alguém que escreveu de maneira ordenada os fatos maravilhosos sobre nosso Senhor.

Os Atos de todos os apóstolos foram escritos em um livro. Dirigindo-se ao excelentíssimo Teófilo, Lucas inclui uma por uma as coisas que foram feitas em sua presença, o que ele deixa claro ao omitir a paixão de Pedro e também a partida de Paulo, quando se preparava para partir da cidade [Roma] para a Espanha.

Quanto às cartas de Paulo, elas mesmas demonstram aos que querem entender de que lugar e por que razão foram escritas. Em primeiro lugar, ele escreveu para os coríntios, proibindo cismas e heresias. Depois, aos gálatas, [proibindo] a circuncisão. Depois aos romanos, uma longa carta sobre a ordem das Escrituras e também insistindo que Cristo era seu tema primário. É necessário prestarmos um relato lógico de todas elas uma vez que o bendito apóstolo Paulo, seguindo a ordem de seu predecessor João, sem, contudo, nomeá-lo, escreve a sete igrejas na seguinte ordem: em primeiro lugar, aos coríntios, em segundo, aos efésios, em terceiro, aos filipenses, em quarto, aos colossenses, em quinto, aos gálatas, em sexto, aos tessalonicenses e em sétimo, aos romanos. E ainda que [a mensagem] seja repetida aos coríntios e aos tessalonicenses a título de advertência, apenas uma igreja é reconhecida como a que se espalhou por todo o mundo. Pois também João, ainda que escreva a sete igrejas em Apocalipse, fala a todas as igreja

s. Além disso, [Paulo escreveu] uma carta a Filemom, uma a Tito e duas a Timóteo em amor e afeição. Essas, porém foram santificadas para a honra da Igreja Católica no que tange à regulamentação da disciplina eclesiástica.

Diz-se ainda haver uma carta em nome de Paulo aos laodicenses e outra aos alexandrinos, [ambas] forjadas de acordo com a heresia de Marcion, e muitas que não podem ser recebidas na Igreja Católica, já que não convém que se misture veneno ao mel.

A carta de Judas, porém, e as duas que tem no sobrescrito o nome de João, são aceitas na [Igreja] Católica. Também a Sabedoria, escrita pelos amigos de Salomão em sua honra. Além dessas, recebemos o Apocalipse de João e o de Pedro, que alguns dentre nós não permitem que seja lido na igreja. Mas O Pastor foi escrito por Hermas na cidade de Roma, bem recentemente, em nossa época, quando seu irmão Pio ocupava a cátedra episcopal na igreja da cidade de Roma. Pode, portanto, ser lido, mas não distribuído ao povo na igreja, nem incluído entre os pofetas, cujo número está completo, nem entre os apóstolos no fim dos tempos.

Nenhum dos escritos de Arsino, ou Valentino, ou Miltíades, nós acolhemos. Esses compuseram um novo livro de Salmos para Marcion; [a estes] rejeitamos comBasílides [e] o fundador dos Catafrígios que veio da Ásia...

Retirado do livro "O Cânon das Escrituras" de F. F. Bruce.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O que Ehrman disse? O que não disse? No que acreditam as "ehrmanetes" e porque estão erradas.

Achei esse vídeo no blog de um amigo, e achei muito bom. Ehrman é um grande estudioso, embora não o considere o maior (e mesmo se fosse o maior, não significaria que é inerrante ao falar da inerrância). O livro em questão tem muitas informações boas, mas o título (principalmente da edição em português) é tendencioso, o que faz pessoas com desespero em criticar a Bíblia acharem que ele refutou de alguma forma.



Mais textos sobre o autor (e do autor) para quem se interessar:

http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/09/o-polemico-bart-d-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/03/comentarios-sobre-bart-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/04/debate-sobre-ressurreicao.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/11/criterio-para-estabelecer-veracidade-do.html

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Norman Geisler, C. S. Lewis: intercessão dos santos e purgatório.

Encontrei um texto interessante onde teólogo protestante Norman Geisler menciona que os santos estão conscientes do que acontece aqui na terra, além de fazerem orações diante de Deus para as cosias que acontecem por aqui. Nesse mesmo trecho ele critica a oração pelos mortos, que por ora não irei comentar, pois, pelo que o texto demonstra, deriva de um certo equivoco do que é a oração pelos os mortos. No entanto, depois desse trecho, segue um texto de outro protestante (C. S. Lewis) demonstrando a incoerência da critica de certos protestantes de se orar para os mortos. (Perceba a diferença de "pelos" e "para" (ou por), que tratarei em outra ocasião).

Segue a citação:

"... os mortos oram pelos vivos (cf. Ap 6:10), mas não há exemplo em toda a inspirada Palavra de Deus de vivos orando por mortos. Os santos martirizados, na glória, são descritos como orando por vingança sobre os ímpios (Ap 6:9) E como há alegria no céu por uma única alma que é salva na terra (Lc 15 10), não há dúvida de que há oração no céu pelos perdidos. Mas a Bíblia não deixa nem mesmo o menor vislumbre de esperança para quem quer que morra em seus pecados [nem o ensino católico] (veja os comentários de 2 Ts 1:9)." (Manual popular de Dúvidas, Enigmas e "Contradições" da Bíblia -Norman Geisler - Thomas Howe. sobre 2 Samuel 12:21-23)

Não irei me alongar para explicar as partes destacadas, o principal objetivo do post é uma reflexão. Fica, para uma reflexão mais ampla, uma citação de C. S. Lewis sobre o assunto:
"Imagino se quem morreu há tempos fica sabendo quando nós enfim, após incontáveis malogros, somos bem-sucedidos em perdoá-los. Seria uma pena se não. Um perdão dado mas não recebido seria frustrado. O que me traz à sua questão.
Claro que eu oro pelos mortos. O ato é ão espontâneo, quase inevitável, que só o argumento teológico mais coercivo seria capaz de me dissuadir. E desconheço como o restante das minhas orações sobreviveria se essas, pelos portos, fossem proibidas. Na nossa idade, a maior parte daqueles a quem mais amamos já morreu. Que tipo de interação com Deus eu poderia ter se aquilo que mais amo não pudesse ser mencionado diante dele?Todavia, não cremos nós que Deus já fez e já está fazendo tudo que pode pelos vivos? O que mais haveríamos de pedir?
 Na visão protestante tradicional, os mortos estão ou condenados ou salvos. Se condenados, orar por eles é inútil. Se salvos, inútil da mesma forma. Deus já fez tudo por eles, o que mais haveríamos de pedir?
Todavia, não cremos nós que Deus já fez e já está fazendo tudo que pode pelos vivos? O que mais haveríamos de pedir? No entanto, é-nos mandado pedir.
'Sim', alguém responderá, 'contudo os vivos ainda estão na estrada. Ulteriores provações, desenvolvimentos, possibilidades de erro aguardam por eles. Os saltos, no entanto, têm sido aperfeiçoados. Terminaram a corrida. Orar por eles pressupõe que progresso e dificuldades ainda são possíveis. Na verdade, você está introduzindo algo como o Purgatório."
Bem, imagino que esteja. Embora seria de supor até no Céu algum incremento perpétuo de bem-aventurança, alcançado por meio de uma autorrendição cada vez mais extasiada, sem a possibildiade de fracasso, mas talvez não sem os ardores e esforços que lhe são próprios - pois o deleite também conta com suas dificuldades e escaladas íngremes, como bem sabem os amantes. Mas não vou insistir nessa questão nem tentar fazer conjecturas sobre ela por enquanto. Eu acredito no Purgatório.
Lembre-se, os reformadores tiveram bons motivos para lançar dúvidas sobre a "doutrina romana concernente ao Purgatório", considerando em que se transformara essa doutrina na época. Não me refiro ao simples escândalo comercial. Se você se desviar do Purgatório de Dante para o século XVI, ficará aterrorizado com a degradação. Em Supplication of Souls [Súplica de almas], de Thomas More, o Purgatório nada mais é que um Inferno temporário. Nele as almas são atormentadas pelos demônios, cuja presença é "mais horrível e penosa para nós que a própria dor". Pior ainda, Fisher, em seu sermão sobre o salmo 6, diz que as torturas são tão intensas a ponto de o espírito que as sofre não ser capaz, por causa da dor, "de lembrar de Deus como deveria fazer". Na verdade, até a etimologia da palavra purgatório já deixou de ser levada em conta. Sua dor não nos traz mais perto de Deus, mas faz que o esqueçamos. É um lugar não de purificação, mas de puro castigo retributivo.
A visão correta se volta esplendorosamente para The Dream of Geronitus [O sonho de Gerontio] de Newman. Ali, se me lembro bem, a alma salva, ao pé do trono, suplica para ser levada embora e purificada. Não consegue suportar nem mais um instante "as trevas que afrontam aquela luz". A religião tem reclamado o Purgatório.
Nossa alma exige o Purgatório, não? Seria de cortar o coração se Deus nos dissesse: "É verdade, meu filho, que você está com o hálito forte e que de seus trapos pingam lama e lodo, mas somos caridosos aqui, e ninguém o repreenderá por essas coisas, nem se apartará de você. Entre no gozo do teu Senhor", não acha? Nós não deveríamos retrucar: "Com submissão, Senhor, se não houver nenhuma objeção, eu preferiria ser purificado primeiro"? "Pode machucar, você sabe..." "Mesmo assim, Senhor."
Suponho que seja normal o processo de purificação envolver sofrimento. Em parte por tradição; em parte porque a maioria do bem real que me tem sido feito nesta vida o tem envolvido. Mas não entendo que o sofrimento seja o propósito da purgação. Poso bem crer que pessoas nem muito piores nem muito melhores do que eu sofrerão menos ou mais do que eu. "Sem disparates envolvendo o mérito." O tratamento dado será o necessário, quer ele machuque muito, quer pouco.
Minha imagem favorita dessa questão vem da cadeira do dentista. Espero que, quando meu dente da vida for arrancado e eu estiver "me recuperando", uma voz diga: "Enxágue a boca com isto aqui". "Isto aqui" seria o purgatório. O enxágue pode durar mais tempo do que sou capaz de imaginar agora. O gosto desse "isto aqui" pode ser mais adstringente e ardente do que minha atual sensibilidade consegue suportar.
Mas More e Fisher não conseguirão me convencer de que será odioso e profano.
Sua própria dificuldade particular - o fato de os mortos não estarem inseridos no tempo - é outra questão.
Como sabe que não estão? Eu com certeza acredito que ser Deus é desfrutar um presente infinito, no qual nada ainda passou e nada ainda está por acontecer. Disso se depreende que podemos dizer o mesmo a respeito de santos e anjos? Ou, pelo menos, exatamente o mesmo? Os mortos talvez experimentem um tempo não tão linear quanto o nosso - que tenha, por assim dizer, espessura, bem como comprimento. Já nesta vida temos alguma espessura sempre que aprendemos a dar atenção a mais de uma coisa de uma só vez. Pode-se supor essa situação ampliada a qualquer medida, de modo que, embora, para eles tanto quanto para nós, o presente esteja sempre se tornando o passado, ainda assim cada presente contenha inimaginavelmente mais do que o nosso.
Tenho a impressão - você consegue resolver o problema para mim e me dizer se é mais de uma impressão? - de que revestir a vida dos mortos benditos de uma atemporalidade rigorosa é incoerente com a ressurreição do corpo.
De novo, como você e eu concordamos, quer oremos em benefício dos vivos, quer dos mortos, as causas que impedirão ou excluirão os acontecimentos pelos quais oramos na verdade já estão operando. Na verdade, fazem parte de uma série que, suponho eu, remonta à criação do Universo. As causas que fizeram da enfermidade de George uma coisa trivial já estavam em operação enquanto orávamos acerca dela; se fosse o que temíamos, suas causas também teriam estado operando. É por isso, conforme eu sustento, que nossas oraões são atendidas ou não na eternidade. A incubência de promover o encaixe perfeito entre histórias espirituais e físicas do mundo umas nas outras se realiza por completo no próprio ato da criação. Nossas oraçõse, e outros atos livres, nos são atos da criação. Nossas orações, e outros atos livres, nos são conhecidas apenas quando atingimos o momento de fazê-las. Mas elas têm participação eterna na partitura da grande sinfonia. Não são "predeterminadas"; o prefixo pré dá lugar à noção de que a eternidade não passa de um tempo mais antigo. Pois, embora não sejamos capazes de experimentar nossa vida como um presente sem fim, somos eterno aos olhos de Deus; ou seja, em nossa realidade mais profunda. Quando digo que estamos "no tempo", não quero dizer que estejamos, impossivelmente, fora do presente infinito em que Ele nos observa, como observa tudo o mais. Quero dizer, nossa limitação como criaturas pode ser experimentada por nós só no modo de sucessão.
Na verdade, começamos introduzindo a questão da maneira errada. A questão não é se os mortos fazem parte da realidade atemporal. Eles fazem; o mesmo acontece como lampejo do raio. A questão é se eles compartilham da percepção divina da atemporalidade." (Oração: cartas a Malcom, na carta XX)
Enfim... que esses textos sirvam para que você que critica a intercessão dos santos e o purgatório perceba que não é incoerente e anti-bíblico. Pelo contrário, geralmente quando se critica a intercessão dos santos, se faz a um espantalho criado exatamente para desviar a atenção da verdade. Se quer criticar a doutrina, façam, mas não critiquem uma imagem distorcida achando que estão fazendo um bem. Não faz mal ser honesto quanto a isso, pelo contrário, faz muito bem! Quem sabe assim, com exemplos de protestantes (assim como vários que já citei aqui) que os fanáticos, que não são todos, parem com essa birra.

Isso não foi colocado para demonstrar biblicamente. Para isso há vários textos tanto aqui quanto em outros lugares. É uma forma de explicar o conceito. A partir de um real conceito (não das fantasias de alguns delirantes) se pode fazer uma crítica coerente.

Já está mais do que na hora de certos teólogos protestantes estudarem melhor suas doutrinas, e, se forem criticar a doutrina católica, que critiquem-na em si, e não sua distorção. Ler um livrete aqui e ali contra a Igreja não significa necessariamente que estudaram a fundo. Aliás, o fato da maioria dos críticos protestantes falarem sempre contra a sua imagem distorcida se deve a isso.

Está mais do que na hora de termos debates sensatos e honestos. Cabe agora aos protestantes honestos confrontarem o que aprenderam com a real doutrina Católica.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Evangelhos Canônicos e Apócrifos - Tabela comparativa.

Uma interessante tabela comparativa entre os "Quatro Evangelhos" e os outros evangelhos que vi numa publicação de Dave Armstrong e resolvi postar. É inegável o papel da Tradição para o reconhecimento canônico, apesar de não ter sido feito apenas por ela.


Para mais informações: http://ntcanon.org/table.shtml

sábado, 21 de janeiro de 2012

Divindade de Jesus – A importância da questão. - Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.

Um texto interessante para a reflexão:

1.    A divindade de Cristo é a doutrina cristã de maior destaque. Define-se cristão basicamente como uma pessoa que acredita nisso. E nenhuma outra religião tem uma doutrina sequer semelhante a essa. Os budistas não acreditam que Buda era Deus. Os muçulmanos não acreditam que Maomé era Deus. Eles afirmam: “Não existe outro Deus além de Alá, e Maomé é seu profeta”.

2.    A diferença essencial entre o cristianismo ortodoxo, tradicional, bíblico, apostólico, histórico e o cristianismo revisionista, modernista e liberal está na crença sobre a divindade de Cristo. A revisão essencial modernista procura ver Cristo simplesmente como o homem ideal, ou “o homem em favor de outros”; como profeta, rabino, filósofo, mestre, assistente social, psicólogo, psiquiatra, reformador, sábio ou mago, mas não como Deus encarnado.

3.    Essa doutrina serve como uma chave-mestra, que destranca todas as outras portas doutrinárias do cristianismo. Os cristãos crêem em todas as suas muitas doutrinas não porque raciocinaram e as encontraram como conclusões de um inquérito teológico, ou como resultado de experiências místicas, mas com base na autoridade divina daquele que as ensinou, como estão registradas na Bíblia e como foram transmitidas pela Igreja. Se Cristo fosse apenas humano, poderia ter cometido erros. Portanto, qualquer pessoa que quiser discordar dos ensinos pouco populares de Cristo terá de negar a divindade dele. E com certeza haverá aspectos de Seus ensinamentos que todos consideraremos ofensivos – se observarmos a totalidade desses ensinos, em vez de atermo-nos àqueles que consideramos aceitáveis ou familiares.

4.    Se Cristo é divino, então sua encarnação foi o evento mais importante da história. É o divisor de águas, e mudou tudo. Se Cristo é o Filho de Deus, possui a mesma essência divina; se é o Cordeiro que tira o pecado do mundo, então, quando morreu na cruz, a porta do céu, fechada pelo pecado, foi aberta para nós pela primeira vez desde o Éden. Nenhum evento na história poderia ser mais importante para todos os seres humanos.

5.    A divindade de Cristo é uma doutrina que possui uma qualidade existencial incisiva e sem paralelos. Se Cristo possui a mesma natureza divina do Pai, se está à destra de Deus, se Ele e o Pai são um, então Jesus é Deus, e como tal é onipotente e onipresente; Ele está presente agora mesmo, e pode transformar nossa vida neste instante como nenhuma outra pessoa poderia fazer. Somente Deus pode responder ao clamor desesperado do salmista: Cria em mim um coração puro, ó Deus (Sl 51.10). Apenas Deus pode criar. Existe até uma palavra especial em hebraico para essa ação: é bara’.

6.    Se Cristo é divino, Ele tem direito sobre toda nossa vida, incluindo nosso íntimo e nossos pensamentos. Se Cristo é divino, nossa obrigação absoluta é acreditar em tudo que Ele diz e obedecer a todas as suas ordens. Se Cristo é divino, o significado de liberdade passa a ser nossa conformidade para com Ele.

Fonte: "Manual de defesa da fé" de Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.

Comentários do blog:

Não sei se concordo com tudo que está escrito. Por exemplo, ele coloca a divindade de Jesus como crucial para o cristianismo. Creio que apesar de ser crucial, a ressurreição talvez seja mais ainda, pois a divindade dEle só pode ser evidenciada através dessa ressurreição. Sem ela é vã a fé cristã.

Por isso, a própria necessidade de se acreditar em tudo o que Jesus disse vem inicialmente de sua autoridade divina que nos é provada por meio da ressurreição. Deus poderia ter escolhido outros meios, mas esse é o que nós podemos saber disso.

Esse seria o ponto de principal discordância. Talvez não discordância, mas um comentário complementar.

Outro ponto seria que, mesmo que Ele não fosse Deus (o que discordo) não significaria necessariamente que ele poderia errar em ensino, pois não é necessário que seja Deus, bastaria que fosse enviado por Ele e seja guiado pelo seu Poder.

Se você nunca pensou nas consequências da Divindade ou não de Jesus, é um bom momento para pensar.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O cristianismo é culpado pela escravidão? - Ravi Zacharias

Sam Harris também critica o cristianismo pela escravidão, o que eu acho muitíssimo irônico (ver Carta, 14-19). Na superfície, ele defende a igualdade da dignidade humana (ver Carta 18). Ao mesmo tempo, ele faz piada com a crença de bilhões de pessoas e quer erradicar essas crenças com base na sua crença de que o cientista que crê somente na matéria é, de fato, intelectualmente superior. Ele diz expressamente que 93% dos cientistas não reconhecem a idéia de Deus (Carta 39). De onde ele tirou esse número? De que cientistas ele está falando? Eles são ocidentais ou orientais, comunistas ou capitalistas? E se uma porcentagem de cientistas orientais mais alta que a de cientistas ocidentais acredita em Deus? Isso provaria que os ocidentais são superiores do ponto de vista intelectual aos orientais? Já vi dados estatísticos afirmando que 40% dos cientistas realmente acreditam em Deus. [1]

Mesmo se o número de Harris for verdadeiro, não podemos contestar que, só porque uma porcentagem alta de pessoas acredita em algo, isso não torna esse algo moralmente correto? Existe um motivo porque a escravidão não é tratada diretamente na Bíblia, como Harris deseja que fosse. Evidentemente ele não leu Jó 31.13-15, em que Jó defende a justiça para aqueles que trabalham para ele e que tanto ele quanto seus trabalhadores são iguais na condição humana.

O Novo Testamento contém uma carta bela e terna escrita pelo apóstolo Paulo a Filemom, um proprietário de escravo. Nessa carta, Paulo pede a Filemom que trate seu escravo fugido não como a um servo, mas como a um irmão. Numa frase importante, Paulo escreve: “Mesmo tendo em Cristo plena liberdade para mandar que você cumpra seu dever” (v. 8); mas não manda. Em vez disso, ele apela não meramente para o direito terreno, mas para o direito mais sublime do amor: “Assim, se você me considera companheiro na fé, receba-o como se estivesse recebendo a mim. Se ele o prejudicou em algo ou lhe deve alguma coisa, ponha na minha conta” (v. 17,18). O que mais Sam Harris gostaria que ele dissesse?

Ao contrario do igualitarismo que a fé cristã ensina expressamente, os escritos de renomados ateus são contra o igualitarismo. Igualitarismo não é dogma do ateísmo. Ouça Nietzche: “A igualdade é uma mentira inventada por pessoas inferiores que querem se reunir em bandos para superar o poder daqueles que são naturalmente superiores a elas. A moral dos ‘direitos iguais’ é a moral de rebanho e, porque se opõe ao cultivo de indivíduos superiores, leva à corrupção da espécie humana” [2]

Temos aqui um deles nos dizendo que existem seres humanos “superiores” e “inferiores”. Já trilhamos o caminho ateísta antes e ele nos levou ao Holocausto. Foi a crença numa moral absoluta, num igualitarismo divino verdadeiro, que pôs fim à escravidão. O motivo por que Jesus não fala nada sobre o problema da escravidão é muito simples. Ele não se manifestou sobre muitas questões que o “direito” poderia tratar sem mudar o coração, entre eles a derrubada de Roma – o império que havia escravizado sua amada Jerusalém e seu povo. Seus discípulos queriam que ele falasse ousadamente contra as leis de Roma, que os explorava e lhes restringia a prática da fé. Na verdade, aqueles que queriam calar Jesus até opuseram Roma contra ele, mas ainda assim ele não falou contra a tirania romana.


Notas:

1 – Ver Larson, E. J.; Witham, L. Scientists Are Still Keeping the Faith, Nature 386, 1997, p. 435-36; ver também Collins, Francis. Why This Scientist Believes in God, 6 de abril de 2007. Disponível em: HTTP://www.cnn.com/2007/US/04/03/collins.comentary/index.html> Acesso em: 1 de outubro de 2007.

2 – Citado em Novak, Philip. The Visiono f Nietzche, London: Veja, 2001, p. 16.


Texto retirado do livro "A morte da Razão - Uma resposta aos neoateus"

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Protestantes a favor das imagens?

No séc. XVI, a Reforma Protestante retomou a luta contra as imagens e passou a arrancar e destruir as obras sacras. Alguns historiadores indicam Martinho Lutero como o responsável por tal "violência", ao combater o culto aos santos. Entretanto, tomando contato com alguns livros , parece que a versão tradicional não condiz com a realidade, já que alguns protestantes tradicionais parecem não se posicionar contra o uso das imagens.

O teólogo e historiador luterano Martin N. Dreher, sustenta uma posição bem favorável ao uso das imagens. Seguem alguns trechos em sua obra, em especial do capítulo 5, entitulado "Palavra e Imagem":

"Na primavera de 1522 aconteceu, em Wittenberg, o início de uma das maiores catástrofes na história da humanidade. O conselho da cidade determinara a retirada das imagens das igrejas. Quando se começou a executar a decisão dos conselheiros municipais, a multidão reunida na frente da igreja da cidade invadiu o templo, arrancou as imagens das paredes, quebrou-as e terminou por queimar tudo do lado de fora. Em questão de minutos, uma paixão brutal destruiu o que para gerações de cristãos fora objeto de veneração religiosa. Onde os iconoclastas passaram, os templos ficaram como lavouras após uma chuva de granizo. Igual a uma epidemia o iconoclasmo se alastrava por todas as regiões. E o mais interessante é que são poucos os historiadores que se referem a ele, permitindo que o iconoclasmo continue a ser praticado até os nossos dias. O terrível disso tudo é que cristãos, munidos de machados e martelos, se levantaram contra objetos sacros, em locais consagrados, ante os quais até há pouco se haviam ajoelhado. Cristãos destruíram a linguagem da imagem que durante séculos havia orientado os cristãos. E o culpado pela destruição não foi o povo, mesmo que ele tenha realizado a ação; os culpados foram os pregadores que, a partir do púlpito, incitaram ao iconoclasmo. O mentor intelectual do iconoclasmo em Wittemberg foi Andreas Bodenstein, de Karlstadt. Ardoroso em sua maneira de ser, mas falho no tocante à reflexão sobre a consequência de seus atos, Karlstadt assumiu a direção do movimento reformatório em Wittemberg enquanto Lutero se encontrava no Wartburgo. No inverno de 1521/22, Karlstadt escreveu e publicou livreto com o título 'Da Eliminação das Imagens'. O livro é diminuto, tem poucas páginas, mas teve grandes consequências, provocando a destruição de muitas obras-de-arte. Segundo Karlstadt, não se pode tolerar imagens nas igrejas, pois afrontam o primeiro mandamento. Os 'ídolos de óleo' colocados sobre os altares, são invenção do demônio. Karlstadt tomou posição não somente contra esculturas, mas contra pinturas, a nova tendência na arte do Renascimento e da Reforma. Há autores que consideram Karlstadt o primeiro puritano. Assim, o emergente puritanismo seria responsável pelo iconoclasmo. Um outro momento parece ser importante para entender a onda iconoclasta: o biblicismo. Na Reforma se expressou a convicção de que somente a palavra havia de vencer. Para o mundo da Reforma, que tomava o cristianismo primitivo como norma e exemplo, não podia haver lugar para a imagem. Não é de se admirar que parte considerável do protestantismo tenha assumido as concepções de Karlstadt e que Calvino tenha em sua 'Institutas' um capítulo dedicado a todos os argumentos que podem ser usados contra as imagens. Quais as consequências desse fato? O século XVI não mais entendeu a linguagem das imagens e, por isso, as destruiu, produzindo consequências caóticas e cegueira. [...] Com a retirada das imagens do interior das igrejas protestantes destruiu-se o pensamento simbólico tão constitutivo para o cristianismo. E o pensamento simbólico é pensamento religioso propriamente dito. É na linguagem simbólica que se expressa a experiência do espiritual. Quando essa forma de pensamento não-conceitual deixa de ser usada ou é ridicularizada, produz-se a destruição de uma das disposições religiosas do ser humano. Quando se destruíram as imagens, destruiu-se o elemento que deixa o que é cristão transformar-se em sentimento. A imagem provoca e confirma o pensamento simbólico, sem o qual não se pode imaginar religiosidade viva. Observando imagens religiosas aprendemos a sentir simbolicamente. A melhor forma de introduzir crianças no mundo de concepções cristãs é através de imagens. Quando aprendemos a ver a imagem apenas como 'ídolo', destruímos a percepção para o pensamento simbólico. [...] Quando o ser humano não é mais capaz de pensar e de ver símbolos em uma tradição cristã viva, sua consciência religiosa fica esclerosada. [...] No início, Lutero tinha dificuldades com as imagens e afirmava que seria melhor se não existissem. [...] Mas quando Karlstadt deu início à onda iconoclasta, nela nada mais viu do que vandalismo, que estava prestes a destruir a liberdade evangélica e a reintroduzir a lei. Por isso, Lutero passou pouco depois a afirmar que imagens são memoriais e testemunhos e como tais devem ser toleradas. Além disso, chegou a afirmar que, se pudesse, mandaria pintar toda a Bíblia dentro e fora das casas. Sua postura em favor da pintura e das imagens tornou-se mais do que evidente desde a publicação dos catecismos (1529). As imagens movem a fé das crianças e dos simples. A fé cristã não se dirige, para ele, apenas aos ouvidos, mas também aos olhos das pessoas. A arte sacra deve ser meditada, e meditação não é pensamento lógico. Meditar é silenciar para que Deus possa falar. Nos últimos 500 anos, em razão do iconoclasmo, o pecado humano não tem deixado Deus falar; só fala o homem".

As palavras acima demonstram que o mundo protestante vem se abrindo para o uso das imagens. É interessante notar como a posição de Dreher é semelhante à da Igreja Católica, especialmente por repudiar o iconoclasmo e por reconhecer a importância que as imagens representam para o pensamento abstrato e catequético. Antes disso, em 1956, um congresso luterano lançou a questão: "por que admitir as impressões auditivas na catequese e rejeitar as impressões visuais? Estas parecem ainda mais eficientes do que aquelas".

Retirado do Veritatis Splendor

Comentários do blog:

Esse é um assunto já batido e refutado há muito tempo e desde que surgiu, mas ironicamente é o principal "argumento" dos protestantes brasileiros (em especial os pentecostais e neopentecostais). Isso acontece pois não percebem a diferença entre ter imagem, venerar, e idolatrar.

Por esse motivo não custa nada trazer algum texto novo sobre um tema antigo, como esse, onde há a defesa feita por um protestante em relação aos equivocos sobre o uso de imagens.

Mais textos do blog sobre o assunto:

http://porquecreio.blogspot.com/2010/07/os-catolicos-sao-idolatras-porque-quero.html
http://porquecreio.blogspot.com/2011/09/prova-biblica-para-o-culto-de-deus.html
http://porquecreio.blogspot.com/2011/02/imagens-outras-perspectivas.html
http://porquecreio.blogspot.com/2010/11/as-catacumbas.html (também de um protestante)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Um diálogo fictício sobre o batismo infantil.


Esse é um diálogo fictício criado por Dave Amstrong e “traduzido” por mim. Ainda não sei inglês o suficiente para fazer uma boa tradução, e tenho feito algumas como forma de praticar pelo menos a leitura. Ainda falta muito para que eu faça leituras e traduções sem dificuldade e sem apelar o tempo todo a um dicionário, mas mesmo com certa dificuldade estarei disponibilizando algumas pequenas traduções. Espero que façam bom proveito. Originalmente os personagens se chamavam “Zeke” (Protestante) e "Cathy” (Católica), mas resolvi trocar para nomes mais familiares aos brasileiros.

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João Flavio: Alexandre, por que os católicos batizam bebês? É sem sentido, pois eles não sabem o que está acontecendo e não podem arrepender-se, segundo Atos 2:38 e Marcos 6:16.

Alexandre: Mas onde está proibido na Bíblia especificamente o batismo de bebês?

João Flavio: Bem... Eu acho que não diz isso, mas...

Alexandre: Mas você não segue apenas o que é ensinado claramente nas páginas das Escrituras?

João Flavio: É a conclusão que vem a partir de idéias claras na Escritura. Por isso é uma doutrina bíblica.

Alexandre: Essa é uma grande diferença! Agora estamos no mesmo barco, já que a Bíblia não ensina explicitamente sobre o batismo de crianças. Devemos fazer inferências. Os católicos observam que lá existem muitas indicações de nossa visão.

João Flavio: Onde? Eu nunca vi nenhuma em 17 anos de convertido.

Alexandre: Em Atos 16:15, 33; 18:8 (cf. 11:14), e 1Corintios 1:16 afirma-se um indivíduo e sua “casa inteira” foram batizados. E seria difícil, para não dizer impossível, não haver nenhuma criança. Paulo em Colossenses 2:11-13 faz conexão entre o batismo e a circuncisão. Israel era a igreja antes de Cristo (Atos 7:38, Romanos 9:4). Circuncisão, dada ao oitavo dia, foi o selo do pacto com Deus feito a Abraão, que também se aplica a nós (Gálatas 3:14,29). Ela era o sinal de arrependimento e fé futura (Romanos 4:11). Crianças eram parte do pacto tanto quanto os adultos (Genesis 17:7, Deuteronômio 29:10-12, cf. Mateus 19:14). Da mesma forma, o batismo é o selo do Novo Testamento em Cristo. Ela significa a purificação do pecado, precisamente o que a circuncisão fez (Deuteronômio 10:16, 30:6, Jeremias 4:4, 9:25, Romanos 2:28-9, Filipenses 3:3). Crianças são salvas totalmente pela graça de Deus da mesma forma que os adultos são, exceto pelo consentimento intencional racional.

João Flavio: Isso é impossível. Você tem que se arrepender e nascer de novo para receber salvação, como João 3:5.

Alexandre: Ele não diz exatamente isso. Ele diz que primeiro é preciso “nascer da água e do Espírito”. Os católicos, juntamente com os Pais da Igreja, como Santo Agostinho, e muito protestantes (Luteranos e Anglicanos, por exemplo), interpretam com referência ao batismo e uma prova da necessidade do batismo infantil.

João Flavio: Isso não faz sentido. A água referida aqui é do saco amniótico quando o bebê nasce. Bebês não podem nascer novamente. Jesus está contrastando o nascimento natural e espiritual.

Alexandre: Você está dizendo que o bebê não pode ser salvo, e vai morrer antes da “idade da razão”?

João Flavio: Não, eu não disse isso. Deus também é misericordioso demais para deixar que isso aconteça a um bebê inocente.

Alexandre: Se você diz que o bebê será salvo, então há claramente uma justificação para batizar crianças, já que existem outros fatores para a salvação além de seu consentimento. Dessa forma você chega a mais um ponto comum, a aliança de salvação (veja, por exemplo, 1 Co 7:14, 12:13), diferente da noção individualista que a maioria dos evangélicos possuem. A realidade do pecado original faz com que o batismo seja desejado o mais rápido possível, já que remove a punição e conseqüência do pecado e infunde a graça santificante. É por isso que muitos protestantes como Luteranos, Anglicanos, Metodistas, Reformados e Presbiterianos, ao longo da história tem batizado bebês.

João Flavio: Espere um minuto. Você realmente acredita que o batismo faz algo? Ele é somente um simbolismo.

Alexandre: Vocês sempre negam que a matéria pode ser um meio de transmitir graça, e também frequentemente fazem cara feia com a idéia dos sacramentos, que são os meios físicos pelo qual a graça é conferida.

João Flavio: Não acreditamos neles, pois são anti-bíblicos. A Bíblia fala que o Espírito que confere a Graça (Jo 6:63, Rm 8:1-10), não a matéria. Os católicos sempre acreditam nessas coisas bizarras, como as estátuas, relíquias, rosário, a hóstia da comunhão e água benta. Isso geralmente vira idolatria.

Alexandre: Eu discordo. O próprio Deus se fez carne em Jesus Cristo. O lenço de Paulo curou doentes (At 19:12), também a sombra de Pedro (At 5:15). Assim, o batismo é feito para a regeneração dos pecados. Atos 2:38 fala do batismo "para a remissão dos seus pecados.", 1 Pedro 3:21 que " agora vos salva, o batismo" (cf. Mc 16:16, Rm 6:3-4). Paulo lembra que Ananias disse "batiza-te, e lava os teus pecados" Atos 22:16. Em Co 6:11 Paulo parece inferir uma conexão orgânica entre batismo (lavagem), santificação e justificação, enquanto os evangélicos separam todos os três. Tito 3:5 diz que Ele "nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação". O que mais de prova bíblica é preciso? É para explicar isso tudo como simbolismo?

João Flavio: Estou de saída. Tenho algumas perguntas para meu pastor...

Texto original: http://socrates58.blogspot.com/2005/11/fictional-dialogue-on-infant-baptism.html

domingo, 14 de agosto de 2011

Novo Testamento - As ferramentas e o texto

Por Ben Witherington III


Para pessoas modernas como nós, é difícil imaginar o mundo antes das máquinas de impressão. De fato, é difícil para alguns de nós imaginar o mundo antes dos computadores, da internet, da TV ou, antes, das modernas bibliotecas, jornais ou revistas de notícias. Entretanto, o NT não só foi escrito antes de todas essas invenções, como o foi numa época em que a alfabetização ainda era restrita a uma parcela muito pequena da população. Além disso, foi escrito muito antes do registro sonoro de alguma coisa dita por alguém. Os antigos raramente esperavam uma transcrição ao pé da letra de uma fala, exceto ocasionalmente, quando se tratava de atas legais ou pronunciamentos do rei. Mesmo assim,obter a reprodução ao pé da letra de discursos proferidos durante um julgamento era novidade da época de Júlio César. Tiro, o famoso secretário e companheiro de viagens de Cícero, foi muito elogiado por causa da adaptação de uma “recente” invenção, a “taquigrafia” (espécie de escrita abreviada), que lhe permitia anotar ipsis litteris os discursos feitos nas cortes de Roma, no primeiro século antes de Cristo.

No mundo do NT, a palavra falada reinava soberana. Aliás, o NT foi escrito numa cultura predominantemente oral, na qual a escrita não tinha a primeira nem a última palavra. Pense, por exemplo, no que Platão disse antes da época do NT, quando menciona a advertência de Sócratis contra a substituição das tradições orais pela palavra escrita, porque as pessoas deixariam de usar a memória (Fedro, 274-275)! Os mesmos sentimentos são também expressos por autores que escreveram mais próximos da época do NT, como Xenofonte (Simpósio, 3.5) e Diógenes Laércio (7.45.56). Papias, um dos primeiros pais da igreja, que viveu no final do primeiro século d.C. e início do segundo, é famoso por sua observação sobre quanto ele preferia a palavra viva e as testemunhas vivas a qualquer escrita.

Devemos dar atenção à advertência de H. Gamble, de que “fazer uma distinção marcante entre os modos oral e escrito é anacrônico, no sentido que pressupõe tanto a moderna noção de estabilidade de um texto quanto os modernos hábitos de leitura. Os manuscritos, como eram todos os textos anteriores à invenção da imprensa, eram muito menos estáveis que os atuais textos impressos, porque estavam sujeito a modificações acidentais ou propositais, a cada nova transcrição. Além disso, na antiguidade, quase toda leitura, pública ou privada, era eita em voz alta; os textos eram rotineiramente convertidos no modo oral. Sabendo disso, os escritores antigos escreviam tanto para o ouvido quanto para os olhos” [1].

Essas atitudes em relação à oralidade e as dimensões desse modo de comunicação prevaleceram durante toda a época do NT, e simplesmente salientam o quão espantoso é o fato de os 27 documentos que constituem o NT terem chegado até nós. Então, como esses 27 documentos foram gerados numa época anterior à produção de textos em massa e à disseminação da alfabetização? É uma história notável, e infelizmente, sabemos muito pouco sobre ela. Mas o que sabemos merece ser contado e, espero, bem contado.

Nós, que estamos acostumados a ler a Bíblia, gostamos de repetir a frase “No princípio era o Verbo”. Logo ficará bem claro quanto essa frase é verdadeira. Antes que houvesse quaisquer palavras escritas para compor os livros do NT, havia palavras faladas – milhares delas. Provavelmente, o NT é apenas a ponta do iceberg de uma abundância de palavras sobre Jesus que foram comunicadas no primeiro século d.C. Podemos quase sentir a frustração do autor do evangelho de João, quando diz: “Jesus, na verdade, realizou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão registrados neste livro” (Jo 20.30). Por que eles não foram registrados? Porque um rolo de papiro tinha um determinado tamanho, e o papiro era caro. Além disso, escrever e copiar um texto à mão era uma tarefa extremamente tediosa. Essas são limitações que raramente experimentamos na maioria dos lutares hoje.

Vejamos a questão sob outro ângulo. Os evangelhos abrangem, basicamente, o período da história em que Jesus exerceu seu ministério na Terra Santa, aproximadamente de 27 a 30 d.C. Não encontramos em nenhum lugar dos evangelhos uma passagem que mencione Jesus ou qualquer um dos discípulos escrevendo enquanto aqueles eventos ocorriam. Provavelmente, a narrativa da história na forma escrita surgiu mais tarde.Semelhantemente, todas as epístolas de Paulo foram escritas para congregações que já haviam sido fundadas e tinham recebido a palavra oralmente muito antes de receberem qualquer comunicação por escrito. De fato, as cartas de Paulo funcionam como uma espécie de substituto das conversas orais que ele gostaria de ter tido, se pudesse estar presente. Tanto isso é verdade que as cartas trazem as marcas características desse tipo de comunicação – elas refletem padrões e técnicas da antiga retórica Greco-romana, a arte oral da persuasão. No caso dos evangelhos e das epístolas, a Palavra era oral muito antes de ser escrita. Hoje em dia, invertemos o processo quando lemos o texto do NT em voz alta e, em seguida, proclamamos ou discursamos com base no que foi lido. Portanto, é justo dizer que, quando contamos a história do NT, estamos contando a história de um fenômeno de segunda ordem, a história do resíduo literário de um movimento primordialmente oral que cresceu fundamentado na pregação e no ensino, na oração e no louvo e em outras formas de comunicação oral. No período inicial da história cristã, não foi principalmente por intermédio dos textos que a Palavra se espalhou, mas sim pela proclamação oral. A exceção à regra foi o uso das Escrituras Hebraicas ou, mais freqüentemente, sua tradução grega, a Septuaginta, como podemos ver na passagem [2] de 2 Timóteo 3,16. Precisamos ter essas coisas em mente agora que vamos examinar os maravilhosos e desafiadores textos do NT.

AS FERRAMENTAS DO OFÍCIO E SEUS USUÁRIOS

Apesar das afirmações tão seguras de inúmeras introduções ao NT, não sabemos muito sobre quem realmente escreveu alguns dos seus livros. Quando digo “escreveu”, estou me referindo a quem realmente fez os apontamentos. E, mesmo quando temos certeza de quem foi a fonte de determinado documento, por exemplo, de que a carta aos Romanos saiu da mente de Paulo, somos informados de que a pessoa que efetivamente redigiu o documento foi um desconhecido chamado Tércio (Rm 16.22). [3]

Vemos, então,que foi necessário certo trabalho de equipe para escrever alguns documentos do NT, e que teremos de discutir as relações entre os autores e escribas, e entre os que passavam adiante as tradições e os editores, antes de terminarmos. Alguns documentos, tais como os três primeiro evangelhos, são formalmente anônimos, já que o nome do autor não é mencionado em nenhuma parte do livro. Tampouco são mencionadas os nomes dos escribas. Os sobrescritos desses evangelhos refletem tradições posteriores da igreja a respeito da autoria ou fontes primária do material.

Também temos, é claro, um documento como Hebreus, que é claramente anônimo, embora tenham surgido várias hipóteses sobre quem seria seu autor. Só quando o nome do autor é mencionado no próprio documento (como ocorre na maioria das cartas do NT) é que temos um ponto de partida concreto para definir quem produziu um determinado livro do NT. Mas o que realmente sabemos é que, fosse quem fosse, a pessoa que produziu o primeiro exemplar de cada um desses documentos sabia ler e escrever grego, que, obviamente, é a língua em que foi escrito todo o NT, pois era a língua franca do mundo Greco-romano. [4] Portanto, vamos primeiramente examinar a habilidade e o ofício de escrever em grego na antiguidade.

Como a taxa de alfabetização nunca ultrapassou cerca de dez por cento, durante a época em que os documentos do NT foram redigidos, [5] É lógico que a maioria das pessoas, quando desejava que alguma coisa fosse escrita, recorria a um escriba, um escritor profissional. Normalmente, essas habilidades profissionais eram requisitadas para a elaboração de documentos muito práticos – contratos, testamentos, cartas comerciais, certidões de casamento e assemelhados. Os livros do NT não eram nada disso. Porém, numa cultura predominantemente oral, com alta taxa de anafalbetismo, não é de admirar que os escribas, ou amanuenses, fossem fáceis de encontrar e aceitassem escrever quase todo tipo de documento, mediante remuneração. Contudo, não devemos nos apressar em concluir que todos os documentos do NT foram escritos por escribas. E por quê?

Os variados níveis de habilidade na redação do grego do NT mostram que, com certeza, esses documentos não foram todos redigidos por profissionais fluentes em grego, embora isso tenha ocorrido algumas vezes, como no caso de Romanos. Também é interessante observar que o próprio conteúdo dos documentos do NT os teria enquadrado como um tipo de literatura que, normalmente, só era lida pela elite letrada. Esse não era o tipo de documento prático ou comercial que pessoas comuns da sociedade Greco-romana teriam redigido ou mandado copiar.

Além da classe dos escribas, a alfabetização também era encontrada entre pessoas que não pertenciam à elite da sociedade, como soldados, médicos, comerciantes, artesãos e engenheiros. Podemos conjeturar com certo grau de segurança que pelo menos dois dos maiores documentos do NT, Lucas e Atos, foram escritos por alguém que não era um escriba mas era letrado por causa de sua profissão (i.e. , era médico). Uma suposição igualmente razoável é a de que um documento como Apocalipse foi escrito por alguém cuja primeira língua era o aramaico, mas que tinha o grego como segunda língua, porquanto ele escreve em grego com certa dificuldade. [6] O NT como um todo provavelmente não é resultado do trabalho de escribas; e, como a maioria ou todos os documentos foram elaborados para serem lidos em voz alta, o objetivo de seus redatores não foi produzir literatura pura, no sentido moderno do termo. Eram texto com funções predominantemente não-literárias. [7]

Então, como se iniciou o processo? Depois de um período em que as histórias do evangelho foram divulgadas em diversos contextos e de diversas maneiras, e exortações de vários tipos foram feitas oralmente na igreja primitiva, chegou um momento em que fatores ligados à distância espacial e temporal provocaram certa urgência de colocar várias coisas por escrito. No caso dos evangelhos, a urgência se devia, provavelmente, ao fato de que as testemunhas oculares e auditivas estavam morrendo, por volta da segunda metade do primeiro século d.C., e se fazia necessário preservar as tradições que elas haviam transmitido oralmente.

Certamente, não é impossível que, em alguns lugares, essa necessidade tenha surgido mais cedo e tenha gerado coisas como: (1) uma coleção de ditos de Jesus em aramaico, feita pela igreja de Jerusalém; (2) uma coleção de histórias de milagres envolvendo Jesus; (3) um esboço em aramaico de grande parte da história do evangelho; [8] (4) uma narrativa por escrito da última semana de vida terrena de Jesus; e (5) um documento composto, principalmente, dos ensinamentos de Jesus, a que tanto o primeiro quanto o terceiro evangelista tiveram acesso, e que hoje chamamos de Q. [9] Esses antigos percussores dos nossos evangelhos não existem mais, e a maioria dos estudiosos acredita que nenhum evangelho em grego tenha sido produzido ou estivesse disponível na forma escrita antes de 60 d.C. Isso significa que as cartas, e em particular as cartas paulinas, são os mais antigos documentos do NT, cronologicamente falando, [10] e as cartas são os documentos do NT mais nitidamente ligados aos escribas.

É importante ressaltar a esta altura que, com toda certeza, não devemos pensar em “livros”, no sentido moderno da palavra, quando falamos dos documentos do NT. Em primeiro lugar, naquela época eles não eram manufaturados em forma de livro ou códice, mas sim escritos em rolos de papiro. Em segundo lugar, evidentemente, eles não eram produzidos em massa. Inicialmente, apenas algumas cópias devem ter sido feitas, por causa do tempo necessário e do custo elevado. Em alguns casos, como nas cartas, talvez tivesse sido feito apenas um exemplar.

Quando nos referimos à cultura literária daquela época, estamos falando de pequenos círculos da elite letrada do mundo Greco-romano, que tinha dinheiro para mandar reproduzir documentos e fazer cópias para os amigos, além de ter tempo para lê-los ou mandar que alguém o fizesse em voz alta. A cultura liveira, no sentido moderno de publicações para as massas, não existia. Os autores da antiguidade, normalmente, dependiam de patronos abastados para poderem custear a produção e a circulação de suas obras. Na minha opinião, Teófilo, mencionado no início de Lucas e Atos, provavelmente era o patrono de Lucas, que escrevia para ele e seu círculo de amizades.

Mas como a escrita era feita, e em que tipos de materiais? A forma padrão de produzir um documento na antiguidade era escrever em papiro. Normalmente um rolo tinha de 20 a 25 centímetros de altura e até 10,5 metros de comprimento. Em geral, só se escrevia de um lado, já que o papiro não é um material muito denso. O texto era disposto em duas colunas de 5 a 10 centímetros de largura, com cerca de 25 a 45 linhas por coluna. Além disso, por causa do custo e do espaço necessário, normalmente não havia pontuação nem divisão de palavras, sentenças e parágrafos. Tudo era escrito em letras maiúsculas, e, portanto, uma linha desse texto ficava mais ou menos assim: SÓUMANÃODISSESEUNOME. É claro que podemos ler “Só uma não disse seu nome” ou “Só um anão disse seu nome”. Questões de interpretação surgem simplesmente pela falta de separação entre as letras ou pela ausência de pontuação. Além disso, não havia capítulos nem versículos nos manuscritos originais do NT antes do início da Idade Média!

“A leitura na Antiguidade geralmente era feita em voz alta, mesmo em particular. A razão disso é que os textos eram redigidos em escrita contínua [...] sem divisões entre palavras, frases, orações, parágrafos e sem pontuação, de modo que era necessário pronunciar e ouvir as sílabas para poder organizá-las em padrões semânticos reconhecíveis. Dessa forma, quase todos os textos antigos eram compostos tendo em vista o modo como soariam quando seriam lidos em voz alta.” [11] Foi só no próximo fim do primeiro século d.C. que a forma de  texto chamada códice ou caderno de notas se popularizou, e parece que os antigos cristãos estavam entre os primeiros a reconhecer sua utilidade e adotá-la. [12]

Numa época em que não existiam direitos autorais, o que acontecia quando um patrono recebia um manuscrito era o seguinte: “A publicação [...] consistia em entregar esse original a um patrono amigo, o qual, então, o disponibilizaria para ser copiado por outras pessoas interessadas. Desse modo, as cópias eram multiplicadas em série, uma de cada vez. Uma vez que o texto estivesse em circulação e disponível para a cópia, qualquer um que estivesse interessado e tivesse acesso a ele poderia mandar fazer uma cópia. Assim, os livros eram produzidos e adquiridos por meio de um processo informal e não regulado”. [13]

A maioria das composições da antiguidade eram escritas com uma pena e tinta sobre o papiro, embora às vezes fosse usada pele de ovelhas para produzir pergaminho ou velo, um tipo de pele animal altamente refinada. A qualidade da superfície de escrita, a tinta e as penas variavam. Cícero, que escreveu por volta de 54 a.C., resume muito bem a situação: “Para esta carta, usarei uma boa pena, uma tinta bem misturada e um papel polido de marfim, pois você escreve que quase não conseguiu ler minha última carta [...] porque eu costumo usar a primeira pena que me aparece, sem me preocupar se é boa ou não” (Carta a Quinto 2.15.1). A cana de junco era a melhor pena da antiguidade e foi substituída pelas penas de pássaros (calamos) por volta do sétimo século d.C. A tinta era feita com carbono ou fuligem diluídos em água.

Mesmo depois de ter comprado os pedaços de papiro necessários, a pessoa ainda não estava pronta para tomar nota de um ditado ou escrever. O papiro tinha de ser preparado para a escrita, e um dos principais motivos é que não existia papel pautado. O escriba ou escritor pegava uma régua e um disco de chumbo e traçava linhas finas no papel. Ele precisava também de um apontador de pena, que era uma pedra abrasiva, e uma faca para fazer novas pontas, à medida que ia escrevendo. Nem o papiro, nem as penas, nem a tinta, nem os instrumentos para fazer linhas e apontar a pena eram baratos.

Mas, por que o papiro era tão caro? Em primeiro lugar, porque quase todo ele era produzido num único lugar, o Egito, e perto do Nilo, para que se pudesse colher o tipo de junco apropriado. Além disso, ainda havia o processo exigido para sua produção. Plínio, o Velho, diz que a cana do papiro, que tem perfil triangular, tinha de ser fatiada com uma agulha (!) em tiras largas e muitos finas. O miolo do talo ou da cana era a porção mais “carnuda” e, portanto, a parte mais útil. A casca verde provavelmente deveria ser eliminada.

As tiras, assim que eram cortadas, tinham de ser quase imediatamente colocadas sobre uma prancha de madeira umidecida com água do Nilo. Ocasionalmente, era adicionado um tipo de goma de farinha suave para auxiliar o processo, mas, normalmente, a própria seiva do junco era suficiente para unir as tiras e formar uma peça de papiro. Quando a peça de papiro estava pronta, as pontas eram aparadas para deixar as bordas retas. As tiras eram dispostas horizontal e verticalmente, formando um padrão de linhas cruzadas e, em essência, entrelaçadas. A peça de papiro recém-produzida era, então, pendurada ou estendida para secar ao sol. Por último, umas vinte peças de papiro eram costuradas umas às outras para formar um rolo (Plinio, Natural History 13.74-77). Quando um rolo ou peça de papiro chegava às mãos do escriba, este ainda tinha de alisá-lo com uma concha ou um pedaço de marfim. Era preciso tomar cuidado para que o papel não ficasse polido demais a ponto de não absorver a tinta com facilidade.

Em vista de todo o exposto, entende-se por que as pessoas comuns recorriam a um escriba quando precisavam ter algum documento redigido ou, se pudessem arcar com a despesa, contratavam um secretário pessoal, como mostra, por exemplo, a relação entre Cícero e Tiro. Em geral, quanto mais longo o documento maior a necessidade de um escriba profissional, e, pelos padrões antigos, muitos documentos do NT são realmente longos. Todos os evangelhos, Atos, as maiores cartas de Paulo e Apocalipse podem ser classificados como documentos muito longos, pelos padrões antigos. Até mesmo algumas cartas que consideramos curtas (e.g., Filipenses, Tiago, 1Pedro) eram muito grandes para uma carta, pelos padrões antigos. Vários autores do NT eram prolixos (v., p. ex., At 20.7-11) e, como muitos documentos do NT são apenas substitutos de uma conversação ou proclamação oral, eles também são muito longos. Os primeiros cristãos, que produziram esses documentos, obviamente tinham muito o que dizer!

Não dissemos nada até agora sobre a caligrafia, mas, na antiguidade, assim como hoje, as pessoas diferentes tinham diferentes estilos e modelos de escrita manual. Era crucial para ao escriba ter uam caligrafia bonita e legível, e não borrar a página enquanto escrevia. Falando em termos práticos, isso significava que o contratante preferia ter um destro para escrever em latim ou grego e um canhoto para escrever em aramaico ou hebraico, porque as duas primeiras línguas se escrevem da esquerda para a direita, enquanto as últimas são escritas da direita para a esquerda. Observe como Paulo acrescenta, de tempos em tempos, uma nota de próprio punho, em letras grandes, no fim do documento. Em Gálatas 6.11 está escrito: “Vede com que grandes letras vos escrevo de próprio punho”. [14] Como o espaço era precioso, ele teria preferido uma letra menor e mais concisa para redigir a maior parte do documento, para não desperdiçar espaço demais.

O ideal era que o escriba conhecesse tanto o autor quanto seu público. Os povos antigos acreditavam que as cartas deveriam ou refletir a personalidade do autor e, até certo ponto, levar em conta também o leitor. [15] Um secretário poderia ou não ter aprendido a técnica da estenografia; se não tivesse, o processo de composição poderia ser muito demorado. Muitos têm sugerido que, em alguns trechos do NT, principalmente nas cartas de Paulo, em que temos uma frase incompleta, isso talvez tenha ocorrido porque o escriba não sabia estenografia e não conseguia acompanhar a velocidade do ditado. E é claro que, se um assunto fosse urgente, poderia não haver tempo ou papiro à mão para tomar notas estenográficas e depois escrever o texto completo. O que podemos afirmar com certeza é que, normalmente, não era prática corrente do primeiro século os secretários redigirem documentos para os autores, exceto, talvez, quando se tratasse de matéria meramente formal, como um comunicado de que alguma coisa fora recebida. [16] Quando um secretário escrevia em nome de alguém, era costume informar isso no documento (v. Cícero, Carta aos amigos, 8.1.1).

Quando uma pessoa, que não fosse o autor, era mencionada no inicio de um documento, normalmente tinha algo a ver com o documento. Por exemplo, em 1Coríntio 1.1, Sóstenes, um cristão, foi provavelmente o escriba que redigiu esse documento para Paulo. [17] Já em 1 e 2Tessalonicenses, poderíamos considerar seriamente a questão da co-autoria envolvendo Paulo, Timóteo e Silvano, diante do modo como o documento começa. Não era costume dizer “nós” num documento como esse, a menos que se tratasse realmente de “nós”. Da mesma forma, no evangelho de João (21.24) o “nós” [implícito] significa, no mínimo, uma pessoa falando pela comunidade da qual o discípulo amado fazia parte.

Quando se tratava de cartas, o procedimento normal era fazer duas cópias, uma para o remetente e a outra para ser enviada (Cícero, Carta aos amigos 9.26.1). Nas terras de Roma, antes de Augusto, não havia serviço de correio regular para ser usado por pessoas comuns, nem mesmo um serviço postal oficial do governo. Desse modo, quando as pessoas tinham uma carta para enviar, aproveitavam alguma viagem que seus amigos, parentes ou pessoas com quem mantinham relações de negócios estivessem para fazer e pediam-lhes que entregassem a correspondência ao destinatário. No caso dos cristãos, essa tarefa parece ter ficado a cargo de outros cristãos; e, no caso de Paulo, aparentemente o encarregado era algum de seus colaboradores. Romanos 16.1,2 e Colossenses 4.7-9 não parecem indicar que Paulo confiaria seus documentos a uma pessoa qualquer que estivesse viajando na direção certa. A questão das redes sociais dos primeiros cristãos precisa ser considerada quando pensamos na disseminação das boas novas em várias formas escritas. Naturalmente, a rapidez com que um documento chegava a um grupo de pessoas ou a um indivíduo dependia do modo e da velocidade do meio de transporte, assim como outros fatores. Muitas vezes, as mensagens escritas não chegavam ao destinatário, e as conseqüências podiam ser desastrosas. Existe um famoso ditado inglês que diz: “Por causa de um prego, a ferradura se perdeu. Por causa do mensageiro, a mensagem se perdeu. Por causa da mensagem, perdeu-se a batalha. Por causa da batalha, perdeu-se a guerra; e tudo por causa de um prego”. Parece claro que alguns importantes documentos cristãos da época do NT realmente estão perdidos para nós. Por exemplo, em 1Coríntios 5.9, Paulo menciona que já havia escrito àquela igreja, advertindo-os de que não se associassem com pessoas imorais. Isso significa que houve uma carta aos coríntios anterior a 1Coríntios. Mas ela, provavelmente, perdeu-se nas areias do tempo. O que temos no NT é só uma amostra representativa da comunicação e do discurso dos primeiros cristãos. Talvez ainda encontremos alguns dos documentos perdidos desse período.

Fonte: História e histórias do Novo Testamento.