Mostrando postagens com marcador N. T. Wright. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador N. T. Wright. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de dezembro de 2010

Afinal, qual a lógica da ressurreição?

Não pretendo tratar aqui a questão de como a ressurreição é possível e vai ser feita, já que se Deus existe e possui as características que a Teologia Cristã atribui, então não é impossível que ela ocorra. Algumas pessoas acham possível para Deus criar o mundo ex nihilo, espíritos com capacidades impressionantes e a possibilidade de reencarnações sucessivas de seres humanos, mas não a de uma “simples” ressurreição.

Parecem crer num Deus que possui a habilidade de criar a vida do nada, mas não consegue fazer com que essa vida que havia criado da matéria inanimada se torne animada mais uma vez.

É claro que na ressurreição o que ressurge nem sempre se refere ao material exato que a pessoa possuía ao morrer, e sim a forma que o faz [alguém], um “eu” diferente dos outros e com suas características pessoais, o que só é problema para seres limitados e não a um Ser do qual nada maior se pode imaginar. Nós, por exemplo, constantemente somos regenerados com um novo material quando possuímos algum ferimento.

Também não penso ser importante o que alguns citam como motivo para desacreditar na ressurreição questões como a idade das pessoas ressurretas. Isso, na minha sincera opinião, não passa de desculpas esfarrapadas pra quem quer arrumar um motivo pra dizer que possui algum porquê de não crer na ressurreição.

A questão principal não é essa. Se Deus prometeu ressuscitar os seres humanos, e prometeu que o que há de vir será muito bom, Ele sabe mais do que nós mesmos o que vai ser melhor (afinal, é o nosso Projetista), inclusive a idade, que não importa sabermos pra poder ver sentido.

As questões que realmente importam, e ultimamente tenho visto, são um pouco diferentes dessas primeiras (e bem mais importantes), e devem ser respondidas pressupondo que Jesus teria ressuscitado. Melhor, para um sentido completo, deve-se levar em consideração toda a história da salvação registrada nas escrituras. Não crer, apenas pressupor.

Mas afinal, qual é a lógica, ou melhor, o sentido da ressurreição? Além do sentido da nossa ressurreição futura, qual é o sentido da ressurreição de Jesus além da repetida conseqüência expiatória? Teria alguma importância para sua mensagem se Ele (Jesus) ressuscitou de fato ou não? O que é que os cristãos primitivos ensinavam? E o que o real significado da ressurreição de Jesus implica para nossas vidas e para o mundo?

Segundo os primeiros cristãos, o mundo havia decaído e estava corrompido. O mundo precisava de restauração e Deus prometeu restaurá-lo. De tempos em tempos surgia um sinal Divino dessa intervenção, seja pela mensagem dos profetas, ou por acontecimentos ligados a Israel que não estavam ligados necessariamente a essas mensagens proféticas. Nessa história, surge a esperança da ressurreição final dos mortos, onde Deus julgará cada pessoa e restaurará a natureza.

Antes da ressurreição de Jesus todos os seus discípulos, assim como os outros judeus, acreditavam que essa restauração se daria nesse dia da ressurreição final quando Deus irá restaurar o que criou.

Esse é o primeiro ponto sobre o sentido da ressurreição. Para Deus, o mundo em si não é ruim, e Ele não deixará sua criação à toa, pelo contrário, irá restaurá-la assim como ela estava no momento em que viu que era boa. Seria a Nova Criação de Deus, mas vamos tratar disso melhor adiante.

Diferente da expectativa dos judeus (incluindo seus discípulos), Jesus ressuscitou após a sua morte. Além do significado referente à morte expiatória, explicada pelo próprio Senhor depois de ressurreto, houve outro entendimento dos cristãos (passado por Ele ou pelo Espírito Santo) das conseqüências da ressurreição o Mestre. Esse entendimento foi sobre a antecipação em Jesus do que acontecerá com o mundo.

Se a Nova Criação de Deus começa na ressurreição e Jesus ressuscitou, então a Nova Criação de Deus já começou. Mas se todos os mortos ainda não ressurgiram isso significa que Ele é a finalidade, o futuro da humanidade apresentada no presente de modo que o presente possa ser transformado à luz desse futuro glorioso começado por Jesus Cristo.  Não só o futuro da humanidade, mas de toda a criação a ser restaurada (ou feita viva novamente), e a garantia disso tudo é esse futuro que já começou com Jesus ressuscitado.

Isso claramente cria uma responsabilidade que os cristãos têm negligenciado, principalmente por acreditarem em conceitos sobre o fim do mundo, “ir para o céu” (acredito em um estado intermediário, mas não como finalidade do homem) e esperar a volta de Jesus. Como N. T. Wright disse “Se Deus queria que o mundo acabasse e o Armagedom estava às portas, por que se preocupar com o fato de grandes empresas, como a General Motors, continuarem a lançar gases venenosos na atmosfera canadense? [...] Se a intenção de Deus é conduzir o mundo a sua destruição total, qual é o problema? Se o Armagedon está às portas, não faz diferença o (e suspeito que isso realmente faça parte da agenda) o fato de a General Motors lançar gases venenosos na atmosfera canadense”. [Surpreendido pela esperança, p 135 e 136]

Transformar o mundo presente à luz do futuro é feito cumprindo a mensagem de Jesus. Amar a Deus acima de todas as coisas, ao próximo como a si mesmo resume todo esse ensino. Amando a Deus conseqüentemente implica em amar o próximo, mas não só ele, e sim a sua criação. Assim, possuímos plena responsabilidade não só com as pessoas, mas com a natureza, e isso acaba com a acusação de que a crença cristã (principalmente na volta de Jesus) nos livra dessa responsabilidade, quando na verdade é o contrário.

É bom lembrar que esse Reino pregado por Jesus Cristo foi também ensinado como parábolas, como uma planta que sua semente é pequena, mas que cresce até dar frutos. Ou como uma farinha fermentada, e, talvez um dos exemplos mais esclarecedores, a Parábola do Joio e do Trigo.

Isso explica perfeitamente que, apesar das aparências, o Reino está a se manifestar e se manifestará completamente, assim como a semente pequena que dá uma grande árvore. Entretanto, enquanto não é manifesto totalmente, há joios no meio do trigo, o que faz algumas pessoas pensarem que Jesus não está a reinar.

É óbvio que os cristãos têm sido um tanto desastrosos, mas isso além de ser previsto, mostra mais uma vez que a “porta é estreita” e não serão muitos os que entrarão por essa porta.

É claro, também, que não estou a falar da salvação por obras, nem que somos salvos por agir dessa forma. Estou me referindo às conseqüências da ressurreição de Jesus para a humanidade e o cosmos, qual seu sentido, e como Deus, segundo a Teologia Cristã, não abandonará o mundo, ao contrário de outros tipos de pensamentos, onde esse mundo é mau em si (ou, em alguns casos, irrelevante, sem importância) e que seremos libertos quando sairmos desse corpo para algo melhor. Os discípulos de Jesus ensinaram também de algo melhor, mas esse algo melhor que faz parte da esperança primitiva é a restauração do mundo, “o Novo Céu e Nova Terra”, o cumprimento da promessa de que Deus não abandonaria o mundo, pois criou e viu que era bom.

Isso também me faz pensar na questão de Jesus como o Messias. Os primeiros cristãos não pareciam pensar que “Jesus ressuscitou, portanto é o messias”, mas que Ele é o Messias, cumpriu algumas profecias, ressuscitou para cumprir outros propósitos de Deus (alguns já foram mencionados) além das outras profecias que cumprirá nesse futuro que já pode ser experimentado de alguma forma no presente.

O significado da ressurreição não é apenas o que coloquei aqui, mas esse é um dos que considero como mais negligenciados. As Escrituras, assim como a Tradição Cristã, mostram seus outros significados e implicações para o Cristão e o Cosmos. Resta a quem desejar conhecer a mensagem cristã (principalmente o que faz parte da crença cristã primitiva) buscar entender melhor esse assunto. Acho interessante o que N. T. Wright mostra sobre essa visão, inclusive no livro “Surpreendido pela Esperança” (que tirei várias idéias para escrever esse texto).

Então, está aí uma pequena explicação, e uma boa dica de leitura.

Autor: Jonadabe Rios

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Traços da investigação atual sobre Jesus

José Antonio Pagola

Assinalo brevemente alguns traços que caracterizam de alguma forma o momento atual da investigação sobre Jesus. [1]

- Ficou superado o cetcismo semeado por R. Bultmann. Os investigadores movem-se nm clima de moderado otimismo e confiança. Foise- superando também o preconceito de que a investigação histórica sobre Jesus é irrelevante a fé cristã e também a convicção de que é muto pouco o que podemos saber sobre ele. Com excessão de Flávio Josefo e, talvez, Paulo de Tarso, "Jesus é o personagem judeu mais bem conhecido de seu tempo" (D. Flusser).

- Há um consenso muito generalizado de que não é possível escrever uma biografia de Jesus, no sentido moderno da palavra. Aceita-se que os evangelhos, principal fonte da história de Jesus, recolhem o impacto que ele causou em seus seguidores, e conservam recordações que nos fazem remontar a ele, embora tenham sido compostas por crentes que escrevem e interpretam o passado de Jesus a partir de sua fé em Cristo ressuscitado, e o fazem não para redigir uma "biografia", mas para proclamar a Boa Notícia de Jesus: Messias, Senhor e Filho de Deus.

- Apesar de algumas brilhantes excessões (J. P. Meier), os investigadores em geral, não se limitam ao estudo crítico das fontes literárias, mas empregam todo tipo de métodos para aproximar-se de Jesus a partir da arqueologia, da sociologia, da antropologia cultural, da economia das sociedades agrárias pré-industriais, etc.

- Há consenso também em que a figura de Jesus deve ser investigada a partir das fontes disponíveis, embora os evangelhos sinóticos sejam a fonte mais importante e decisiva. Está havento progressos no conhecimento dos evangelhos apócrifos, da obra de Flávio Josefo, da literatura rabínica, dos targumim e dos escritos intertestamentários apócrifos ou pseudepígrafos. Deve-se destacar o rigor crítico com que se estudam os escritos de Flávio Jovefo, levando em consideração sua tendência pró-romana na apresentação dos fatos (Freyne, Horsley), e os importantes esforços no sentido de analisar criticamente a literatura rabínica, a fim de não tirar falsas conclusões sobre o judaismo anterior ao ano 70 (Neusner, Sanders).

- Observa-se também uma crescente aténção aos dados arqueológicos que as escavações vão trazendo sobre a Palestina romana anterior ao ano 79. Não se trata de esperar descobertas sensacionais, mas de compilar e avaliar os resultados dos trabalhos que estão sendo realizados: caráter judaico dos galileus, vida cotidiana nas aldeias da Galiléia, grau de helenização, impacto da construção de Séforis e Tiberíades... (Reed, Gonzáles Echegaray, Charlesworth).

- A investigação atual está fazendo um importante esforço para situar Jesus dentro do judaísmo de seu tempo, muito mais complexo e plural do que pensava até há pouco tempo. Não se deve esquecer que Jesus é o fundador de um "movimento de renovação judaica" (Theissen). Corrigiu-se a tendência, vigente há alguns anos, de destacar apenas o caratér original e único de Jesus, empregando de maneira menos exclusiva e mais flexível o "critério de descontinuidade". É verdade que foram acrescentados modelos de Jesus alheios ao judaísmo (por exemplo, o Jesus "intinerante cínico" de Downing, Mack e, em parte, Crossan), mas foram alvo de uma crítica muito generalizada e contundente.

- Adquiriu grande importância nestes ultimos anos o estudo da Galiléia para conhecer de maneira mais concreta o contexto em que Jesus se moveu, já que foi sobretudo em suas aldeias e nos arredores do lago que realizou sua atividade e a pregação de sua mensagem (Freyne, Horsley, Reed, Charlesworth). A atenção concentra-se sobretudo no grau de possível helenização da região, na repercussão socioeconômica dos centros urbanos de Séforis e Tiberíades, na tributação e taxas que recaiam sobre as classes camponesas, na presença de fariseus e mestres da lei na Galiléia.

- Durante estes mesmo anos desenvolveu-se de maneira importante a aplicação das ciências sociais e a antropologia cultural à investigação sobre Jesus (Malina, Rohrbaugh, E. W. Stegemann e W. Stegemann, Moxnes, Aguirre, Guijarro e membros do Context Group). Avançou-se também no conhecimento da situação econômica (Hanson, Oakman). Trabalha-se a partir de uma dupla convicção: na sociedade de que Jesus conheceu não era possível separar a religião do sociopolitico; Jesus não foi um revolucionario social, mas com sua atividade e sua mensagem apresentava diretamente exigências de ordem social (Horsley).

- Houve aprofundamento na atividade concreta de Jesus a partir das ciências sociais e antropológicas: suas curas foram objeto de uma investigação sociocultural da antiga medicina, da magia e dos milagres (Kee, Pilch, Avalos, Guijarro, Stevan); a mesma coisa aconteceu no estudo de seus exorcismos (Twelftree, Strecher, Chilton, Guijarro); também sua comensalidade com "publicanos e pecadores" foi investigada a partir da antropologia da refeição e do sistema de pureza (Douglas, Malina, Neusner, Aguirre, Crossan).

- Falou-se da "criatividade caótica" da investigação atual, porque esboçaram-se diferentes modelos: Jesus "judeu marginal" (Meier); Jesus "reformador social" (Horsley, Theissen, Kaylor); Jesus "intinerante cínico" (Downing, Mack, Crossan); Jesus "mestre sapiencial" (Ben Witherington III, Shussler Fiorenza); Jesus "judeu piedoso (hasid)", cheio de Espírito (Vermes, Borg); Jesus "profeta escatológico" ou "Messias" (Meier, Wright, Dunn, Stulmacher, Bocmuehl). Existe, sem dúvida, o risco de focalizar a investigação num determinado aspecto, esquecendo outros acolhidos também na tradição de Jesus. Daí a necessidade de atender à contribuição mais sólida e sensata de cada modelo. O Jesus que atua como "profeta escatológico" é o mesmo que promove a "mudança social" exigida pela vinda do reino de Deus; ele o faz movido pelo Espírito de Deus, que o impele também a curar a enfermidade e oferecer o perdão; Jesus não só anuncia o reino de Deus definitivo, mas também sua presença atual na busca de sua justiça. Aproximação a Jesus é provavelmente mais acertada se evitarmos o risco de ficar encerrado num modelo exclusivo e se acolhermos o que é compatível entre as diferentes contribuições.

- Recentemente, James D.G. Dunn lembrou duas questões que a investigação moderna sobre o Jesus histórico descuidou. Em primeiro lugar, geralmente não se leva em consideração que esta investigação não consiste em chegar até um "Jesus puro" mediante o expediente de ir eliminando da tradição tudo o que foi acrescentado ou retocado posteriormente, e sim em captar da maneira mais clara possível o "impacto" que Jesus causou de fato em seus seguidores. Por outro lado, habituados à cultura escrita, os investigadores modernos nem sempre levam em conta a importância que a transmissão oral tem na tradição de Jesus: não conhecem seu funcionamento nem seus traços característicos. Ao que parece, a crítica de Dunn está sendo bem acolhida.

- Podemos observar três marcas no trabalho dos investigadores contemporâneos: um certo deslocamento da investigação da Europa para o mundo anglo-saxão, onde cresce o número de trabalhos e publicações; o desenvolvimento cada vez maior do estudo interdisciplinar; o impulso do trabalho grupal em equipes: basta recordar a criação em 1983 da Historical Jesus Section, dentro da Society of Biblical Literature; a fundação em 1985 do discutido Jesus Seminar, que agrupa cerca de cem membros; o Contexto Group, com seus encontros regulares para o estudo do ambiente cultural da Bíblia; ou Projeto Internacional Q.


Nota [1] - Discute-se se é adequado falar de uma "terceira busca" (Third Quest) a partir da década de 1980 até nossos dias, depois da "primeira busca" (First Quest), que vai desde Reimarus ( 1694-1768) até Schweitzer (1875-1965), e da segunda busca" (Second Quest), quevai de E. Kasemann (1953) a E. Schillebeeckx (1979).

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A esperança cristã primitiva em seu contexto histórico. - Por N. T. Wright


Em 25 de outubro de 1946, às 20h30, em uma sala espaçosa no King’s College em Cambridge, dois dos maiores filósofos do século 20, Ludwig Wittgenstein e Karl Popper, estiveram frente a frente pela primeira e única vez. Aquele, certamente, não foi um encontro feliz. Poteriormente, ao conferirem suas anotações, nenhum dos presentes conseguiu chegar a um consenso sobre o que realmente aconteceu naquele encontro.

Wittgenstein, na ocasião, era presidente do Clube de Ciência Moral de Cambridge (em Cambridge, “ciência moral” significa “filosofia”) e famoso por seu brilhantismo, encantando muitas pessoas com suas idéias revolucionárias. Popper e outros filósofos, no entanto, desconfiavam dele. Popper estava começando a adquirir fama, tendo publicado pouco tempo antes a tradução em inglês de sua obra-prima The Open Society and is Enemies. Ambos eram judeus, criados em Viena, nos anos que antecederam a guerra, por, Wittgenstein pertencia a uma família rica, enquanto Popper vinha de uma família mais modesta. Popper havia muito tempo ansiava por uma oportunidade de demonstrar a insensatez dos argumentos de Wittgenstein, e agora lá estava ele, pronto a entregar-lhe um texto que o atacava diretamente. Era uma noite fria; o fogo crepitava na lareira. Wittgenstein estava sentado bem ao lado dela. Muitos dos presentes eram, ou se tornariam, nomes famosos no campo de filosofia: Bertrant Russel, Peter Geach, Stephen Toulmin, Richard Braithwaite. Outros seguiram outra profissão como a advocacia.

Popper provavelmente não sabia que Wittgenstein tinha a reputação de nunca ouvir uma critica até o fim. Conhecido por sua arrogância e rispidez, ele costumava sair antes do término das reuniões. A reunião nem bem havia começado quando Wittgenstein interrompeu Popper e os dois começaram a discutir. A partir daí, os relatos começaram a divergir. Em determinado momento, Wittgenstein apanhou a pá da lareira e ergueu-a, ameaçadoramente, diante dos presentes. Logo depois, saiu da sala e não voltou mais.

Os boatos se espalharam rapidamente. Popper recebeu uma carta da Nova Zelândia perguntando se era verdade que Wittgenstein o havia amealado com uma pá incandescente. Os que presenciaram o fato, nunca chegaram a um acordo sobre o que realmente aconteceu naquele dia. Alguns dizem que a pá estava em brasa, outros, que estava fria. Alguns dizem que Wittgenstein ergueu-a para impor seu ponto de vista(o que não teria sido incomum); outros, incluindo o próprio Popper, afirmam que ele teria ameaçado seu oponente. Alguns dizem que Wittgenstein saiu da sala depois de uma discussão acalorada com Russel, sendo advertido por Popper a ser educado e a “não ameaçar os palestrantes visitantes com pás”. Para outos, ele teria saído antes. Alguns dizem que ele bateu a porta ao sair, outros, que saiu silenciosamente. Posteriormente, essa história foi publicada em um livro ousado, sugerindo que Wittgenstein provavelmente teria saído da sala antes do comentário de Popper. Popper devia estar enganado, afinal, aquele encontro era tão importante para sua reputação profissional, e ele gostaria tanto que aquele dia ficasse marcado como o dia de sua vitória sobre Wittgensteins, que acabou acreditando em sua própria versão da história.

Apesar das divergências quanto aos detalhes, ninguém duvida que esse encontro realmente ocorreu. Todos concordam que Wittgenstein e Popper eram adversários principais, e Russel, uma espécie de árbitro. Ninguém duvida que Wittgenstein tivesse erguido realmente a pá e saído logo depois.

Resolvi contar essa história por uma razão muito simples. É comum que testemunhas oculares discordem entre s, mas isso não quer dizer que nada aconteceu. O mais notável é que ocorram divergências quando as testemunhas são extremamente eruditas e profissionalmente preocupadas em estabelecer a verdade. No entanto, foi isso o que aconteceu. O ponto central do evangelho cristão, o próprio cerne do evangelho, é algo que só foi registrado 50 anos após o ocorrido, e alguns registros não se encaixam exatamente. Alguns duvidam que tenha realmente acontecido algo no primeiro dia da Páscoa. Assim, temos nos quatro Evangelhos, no livro de Atos e nas cartas de Paulo, um relato semelhante Às várias narrativas sobre a pá de Wittgenstein, o que levanta a questão sobre o que, de fato, teria acontecido naquele dia. O sepulcro estaria realmente vazio naquela manhã de Páscoa?

Essas questões estão no centro de um debate que tem perturbado a igreja ocidental há mais de um século. William Temple, que mais tarde veio a ser arcebispo de Cantuária, não foi ordenado enquanto não declarou que realmente acreditava na ressurreição corpórea de Jesus. Posteriormente, o clero, inclusive muitos bispos, não teve essa mesma atitude, permitindo que David Jekins incitasse uma célebre controvérsia, com insinuações sobre o sepulcro vazio e sugerindo fraudes no que diz respeito aos ossos de Jesus – embora suas palavras, assim como a discussão entre Popper e Wittgenstein, tenham tido, posteriormente, uma interessante carreira na tradição oral e escrita.

Podemos realmente crer na ressurreição de Jesus? Por quê? Esta questão tem gerado muita confusão na mente das pessoas. Não se trata de acreditar ou não na Bíblia, ou de acreditar que os milagres realmente ocorreram, ou de crer no “sobrenatural”. Não se trata também da crença de que Jesus está vivo hoje e que podemos conhecê-lo. Se tratarmos o tema da Páscoa apenas para provar uma dessas discussões, perderemos o foco.

Também não podemos afirmar, embora muitos tenham tentado, que ao contrário das pessoas do primeiro século, nós conhecemos as leis da natureza, por isso sabemos que Jesus não podia ter ressuscitado dentre os mortos. Vimos, anteriormente, que os povos antigos – com exceção dos judeus – eram céticos quanto à possibilidade de os mortos ressuscitarem, embora os judeus não acreditassem que alguém pudesse ressuscitar antes da ressurreição final. Mesmo que essas interpretações equivocadas, as dúvidas permanecem. Em que, precisamente, os cristãos primitivos acreditavam? Por que usavam a linguagem da ressurreição pra expressar a sua crença? É possível se obter uma prova histórica a favor ou contra o túmulo vazio e a ressurreição corpórea, ou tudo é uma questão de crer ou não crer? Até onde essa história pode nos levar? Qual é o papel da fé, e como ela opera? A questão não é simplesmente o que podemos saber, mas como podemos saber – é aqui que todo o nosso conhecimento é questionado.

Edmonds e Eidinow empregaram dois métodos para investigar o encontro entre Popper e Wittgenstein. Primeiramente, eles interrogaram as testemunhas oculares para se certificarem das evidências, e a partir daí, reconstruíram a sutuação detalhadamente, levando em conta a complicada agenda e os traços de caráter dos dois personagens principais. Depois disso, eles chegaram a algumas conclusões, expressas em uma narrativa histórica conectada, que embora não possa ser considerada absolutamente verdadeira, é a maneira mais provável de conciliar as diferentes opiniões.

Devemos empregar esse mesmo método ao contemplarmos o túmulo vazio e o evento da Páscoa. As testemunhas oculares – se é que podemos chamá-la assim – são bem conhecidas, e podemos encontrá-las facilmente no Novo Testamento. Podemos também reconstruir a situação detalhadamente, considerando as crenças e expectativas judaicas, o ministério público de Jesus e as crenças e esperanças de seus seguidores. Porém, temos ainda um terceiro elemento, sem um paralelo real no debate de Cambridge, de 1946. As questões filosóficas discutidas nesse debate e a tensões provocadas pó elas pertencem a um contexto específico, cada vez mais distante no tempo. Popper, hoje, é considerado “antiquado”, e o legado mais brilhante de Wittgenstein é visto como profundamente ambíguo. Não podemos afirmar, ao observarmos o desenvolvimento das correntes filosóficas posteriores, que alguém “venceu” o debate naquela noite. Mesmo que a obra de um deles tenha sido reconhecida, posteriormente, como superior, isso provavelmente, não tem nada a ver com os dez minutos de retórica acalorada em Cambridge.

Com a Páscoa, no entanto, a situação é diferente. O que aconteceu naquele dia gerou algo completamente novo: algo que cresceu e se desenvolveu de maneira completamente distinta, mas sempre a partir daquele momento. Nossa investigação, portanto, deve se concentrar na observação do movimento cristão que emergiu a partir daí, procurando descobrir o que o teria causado. Apesar de nossas testemunhas oculares discordarem quanto aos detalhes, algo certamente aconteceu.

Como já abordamos esse tema exaustivamente, podemos agora ir direto ao cerne da questão. Procurei me concentrar, nesse capítulo, nas crenças dos cristãos primitivos sobre a vida além da morte, no contexto das visões antigas, tanto pagãs quanto judaicas. Os incríveis resultados dessa busca nos levarão de volta às narrativas da Páscoa, investigando novamente seu caráter e procedência e refletindo sobre as possíveis opções abertas ao historiador.

A RESSURREIÇÃO E A VIDA APÓS A MORTE NO PAGANISMO E NO JUDAISMO ANTIGO.

Vejamos, resumidamente, quais as crenças existentes no mundo antigo sobre a vida além-túmulo. Para o mundo pagão antigo, a estrada que leva ao mundo inferior tem apenas um sentido. A morte possui poderes ilimitadas; ninguém consegue escapar ou resistir a essa realidade. Todos sabem que terão de enfrentá-la mais cedo ou mais tarde. O mundo pagão antigo, portanto, se dividia entre aqueles que esperavam ter um novo corpo, como as “sombras” de Homero, mas sabiam que isso seria impossível, e aqueles que, como os filósofos platônicos, não queriam ter novamente um corpo, pois achavam que a alma sem corpo era muito melhor.

Nesse contexto, a palavra “ressurreição” e seu equivalente em grego, latim ou outra língua, nunca é usada para se referir à “vida após a morte”. “Ressurreição” tem o sentido e uma nova vida corpórea depois da “vida após a morte”. Quando os antigos falavam de ressurreição, quer para negá-la (como todos os pagãos), quer para afirmá-la (como alguns judeus0, estavam se referindo a um acontecimento em dois estágios, com a ressurreição no sentido de uma vida corpórea, sendo precedida de um período de intervalo entre a morte física. A “ressurreição”, portanto, não era uma maneira vivida ou dramática de refletir à situação das pessoas imediatamente após a morte. Ela representava uma situação que poderia existir (embora poucos acreditassem nisso) algum tempo depois da morte. Esse tipo de pensamento esteve presente em todo o mundo antigo, até o surgimento do gnosticismo pós-cristão no segundo século. A maioria dos antigos acreditava na vida após a morte; alguns deles desenvolveram crenças complexas e fascinantes sobre o assunto, sobre as quais pouco sabemos. No entanto, fora do judaísmo e do cristianismo (e talvez do zoroastrismo, apesar das controvérsias quanto à datação), ninguém mais acreditava na ressurreição.

Quanto ao conteúdo, a “ressurreição” se refere especificamente a algo que acontece ao corpo, dão os debates posteriores sobre como Deus fazia isso, se ele começaria com os ossos que haviam sobrado, criaria outros novos ou faria algo parecido. Esse tipo de debate só teria sentido se a ressurreição fosse algo assim, como poderíamos dizer, palpável e física. Todos sabiam bem o que eram fantasmas, espíritos, visões e alucinações. A maioria das pessoas no mundo antigo acreditava em todas essas coisas, e certamente não se referia a nenhuma delas quando falava de “ressurreição”. Quando Herodes pensou que Jesus poderia ser João Batista ressurgido dentre os mortos, não achou que seria um fantasma (Mc 6.14-6 e paralelos). A ressurreição implica a existência de um corpo. Nunca e demais enfatizar isso, já que em boa parte dos textos modernos a palavra “ressurreição” continua sendo usada, quase sempre equivocadamente, como um sinônimo virtual de “vida após a morte”, no sentido popular.

Há uma conclusão importante a ser tirada de tudo isso, antes de analisarmos as tradições judaicas. Quando os cristãos primitivos afirmavam que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos, eles sabiam que estavam falando de algo que havia exclusivamente acontecido com ele, e que ninguém esperava que acontecesse com outros. Eles não estavam dizendo, confusamente, que Jesus havia se tornado divino. Nada do que eles diziam tinha essa conotação. Tanto para os judeus como para os pagãos, não havia uma ligação implícita entre ressurreição e divinização. Quando os antigos romanos declaravam que o imperador morto recentemente tinha ido para o céu e se tornado divino, ninguém pensava que ele havia ressuscitado dentre os mortos. A exceção prova a regra: aqueles que acreditavam que Nero havia retornado à vida (um grupo, talvez, semelhante aos que pensam que Elvis não está morto, apesar de seu túmulo ser bem conhecido e muito visitado) não esperavam que ele agora estivesse no céu.

Quanto Às antigas crenças judaicas, alguns judeus, da mesma forma que os pagãos, negavam qualquer possibilidade de vida futura, especialmente em um novo corpo. Os saduceus assumiram claramente essa posição. Outros concordavam com os pagãos sobre um futuro glorioso para a alma, ainda que sem corpo, a exemplo do filósofo Filo. A maioria dos judeus daquela época, no entanto, acreditava em uma ressurreição final: ou seja, que Deus cuidaria da alma após a morte, e, no último dia, daria a seu povo novos corpos, quando fosse julgar e refazer o mundo inteiro. Foi isso que Marta supôs diante da conversa que teve com Jesus, ao lado do túmulo de Lázaro: “Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição no ultimo dia” (Jô 11.24). Era assim que os judeus entendiam a “ressurreição”.


O ensino de Jesus durante seu breve ministério público apenas reforçou a visão judaica. Jesus redefiniu alguns conceitos bastantes comuns na época – especialmente, é claro, a noção de “reino de Deus”, explicando por meio de parábolas e atitudes simbólicas que o governo soberano e salvador de Deus estava sendo estabelecido a partir daquele momento, embora não fosse aquilo que seus contemporâneos haviam imaginado e desejado. Porém ele mesmo quase nunca tentou redefinir a noção de ressurreição. Quando tentou, ele a fez de modo breve e obscuro, fazendo com que seus seguidores mais próxmos não tivessem a menor idéia do que ele estava falando.

Na primeira discussão direta sobre esse assunto – quando os saduceus lhe fizeram uma pergunta ardilosa, tentando desacreditar a idéia da ressurreição -, a resposta de Jesus foi bem tradicional, certamente melhor do que os fariseus teriam respondido, mas sem acrescentar algo significativo à visão judaica padrão. Jesus falou de “ressurreição” como algo que aconteceria no futuro, quando todos os justos seriam trazidos de volta à vida, indicando que nesse estado as coisas seriam diferentes, portanto a questão de quem casaria com quem não teria sentido – o ponto em que os saduceus tentaram apanhá-lo. A propósito, Jesus não disse, como algumas pessoas sugerem que eles se tornariam anjos, mas que, em certo sentido, seriam como anjos (Mt 22.30; Mc 12.25) ou iguais a anjos (Lc 20.36). Fora essa discussão, praticamente a única referencia à “ressurreição” , em termos gerais, nos Evangelhos, ocorre em Mateus 13.43, quando Jesus declara que no último dia os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. A referência a Daniel 12.3 assegura que isso deve ser interpretado no contexto da ressurreição. Quando Jesus se refere à recompensa que o povo de Deus irá receber nos céus, ele pode simplesmente estar se referindo à “ressurreição dos justos”, tal como os judeus a como os judeus a compreendiam (Lc 14.14). Em um texto isolado do Evangelho de João (5.29), Jesus fala de uma ressurreição futura, tanto dos que fizeram o bem, como dos que praticaram o mal. Até aqui ele está afinado com a crença judaica do primeiro século. Diferentemente de suas redefinições do reino e de sua obra messiânica, ele parece não ter muita coisa a dizer sobre o assunto.

Exceto quando ele começa a falar aos seus discípulos sobre sua morte e ressurreição ao terceiro dia. Muitos estudiosos argumentam que estas seriam “falsas profecias”, colocadas posteriormente pela igreja nos lábios de Jesus. Tenho definido exaustivamente uma visão oposta a essa. Para mim, parece evidente que alguém que fez o que Jesus fez e pensou como ele deve ter pensado, é capaz de prever sua própria morte, referindo-se a ela com imagens e metáforas apocalípticas e revestindo-a de um sentido salvífico, como se imagina que os mártires macabeus tenham feito em relação às suas próprias mortes. Naquela época, quem pensasse assim seria quase que obrigado a dizer: “E Deus me honrará depois que eu morrer”. O tipo de honra que eles esperavam receber, de acordo com 2 Macabeus, seria, é claro, a ressurreição.

Os discípulos, porém, como afirmam repetidas vezes os Evangelhos, não conseguiam entender o que Jesus dizia. Suas palavras enigmáticas estavam, de alguma forma, ocultas na metáfora apocalíptica sobre o Filho do homem, e eles claramente tinham a intenção de decifrá-las, mas não sabiam como. A última coisa que eles imaginavam era que esse enviado do reino, esse Jesus que eles acreditavam que poderia ser o Messias de Deus, morreria nas mãos das forças dominadoras pagãs. Em nenhum momento vemos alguém dizendo: “Bem, tinha que ser assim; ele precisava morrer para nos salvar, para então ressuscitar logo depois”. A única vez que Jesus tentou redefinir a crença judaica na ressurreição, afirmando que ele seria o primeiro a ressuscitar, os discípulos não entenderam nada. Quando Jesus pediu aos discípulos que não comentassem sobre a transfiguração “até o dia em que o Filho do homem ressuscitasse dentre os mortos”, eles perguntam uns aos outros o que seria esse “ressuscitar dentre os mortos”. Isso não significa que eles nada sabiam sobre a ressurreição. Provavelmente, eles nunca haviam pensado – apesar do comentário de Herodes sobre João Batista – que isso pudesse acontecer a uma pessoa, antes de todas as outras. Essa explicação é bastante aceitável, tanto em relação a Jesus como aos discípulos, e está de acordo com o contexto da época e com a compreensão dos discípulos sobre os fatos e suas motivações.

Evidentemente, essa explicação revela também que a crucificação de Jesus representou o fim de toda esperança. Ninguém disse: “Não se preocupem, ele estará de volta dentro de alguns dias”, ou “Bem, pelo menos agora ele está no céu cm Deus”. Eles não esperavam esse tipo de “reino”. Afinal, Jesus havia lhes ensinado a orar para que o reino de Deus viesse “assim na terra como no céu”. O que eles disseram – o que também está de acordo com o pensamento do primeiro século – foi: “Esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (Lc 24.11), mas como “ele foi crucificado, então não era ele”.

Vimos que a cruz tinha um significado simbólico em todo mundo romano, muito antes de adquirir um novo sentido para os cristãos. A cruz simbolizava o poderio romano sobre um determinado lugar, e aquele que opusesse a esse poder seria castigado de forma terrível. Nesse sentido, a crucificação significa que o reino, ao contrário do que Jesus dizia, ainda não tinha vindo. A crucificação de um provável Messias significa que ele não era, de fato, o Messias. Quando Jesus foi crucificado,, os discípulos sabiam bem o que isso significava. Eles devem ter pensado: “Embarcamos numa canoa furada. A brincadeira acabou”. Até onde eles podiam enxergar, todas as suas expectativas tinham virado poeira. Eles tinham sorte de escapar com vida.

Foi nesse contexto que o cristianismo despontou como algo novo e, ao mesmo tempo, esperado. Vejamos agora o que acontece ao localizarmos esse movimento repentino no mapa do judaísmo antigo, em seu contexto pagão mais amplo.

O ASPECTO SURPREENDENTE DA ESPERANÇA CRISTÃ PRIMITIVA

Vimos que a crença cristã primitiva na esperança para além da morte fazia parte da teologia dos judeus, e não dos pagãos; entretanto, essa esperança judaica passou por sete modificações notáveis, que podem ser observadas com extraordinária consistência nos escritos de Paulo, em meados do primeiro século, e também nos de Tertuliano e Orígenes, no fim do segundo século, além de outros.

Para começar, a esperança futura dos cristãos primitivos concentrava-se firmemente na ressurreição. Os primeiros cristãos não acreditavam simplesmente na “vida após a morte”; eles nunca falavam de “ir para o céu” (o título de um bom livro sobre o assunto diz que o céu não é importante, mas não é o fim do mundo), e quando se referiam ao céu como um destino pós-morte, pareciam considerar essa vida “celestial” como um estágio temporário, enquanto esperavam a ressurreição final do corpo. Quando Jesus disse ao ladrão que eles estariam no paraíso naquele mesmo dia, “paraíso” aqui não indica que este seria seu destino final, como Lucas 24 deixa claro. “Paraíso’ é o delicioso jardim de descanso para o povo de Deus à espera da ressurreição. Quando Jesus declarou que havia muitas moradas na casa de seu Pai, ele usou a palavra monê, que tem sentido de moradia temporária. Quando Paulo disse que desejava “partir e estar com Cristo, o que é muito melhor”, ele estava de fato pensando em uma vida de delicias ao lado do Senhor, em seguida à morte, mas esta seria apenas o prelúdio da ressurreição (Lc 23.43; Jô 14.2; Fp 1.23 com 3.9-11, 20-11). Quanto à discussão no capítulo anterior, os cristãos primitivos acreditavam em dois estágios no futuro: primeiro, a morte e o que viesse logo após; segundo, uma nova existência corpórea em um mundo refeito.

Não há nada comparável a isso no paganismo. Essa é uma crença totalmente judaica. Porém, essa crença judaica recebeu sete modificações do cristianismo primitivo, trazidas por escritores tão diversos como Paulo e João, Lucas e Justino Mártir, Mateus e Irineu. Isso é bastante significativo, porque as pessoas tendem a ser conservadoras em relação às suas crenças sobre a vida após a morte. Diante da desolação, as pessoas recuam para a segurança daquilo que ouviram ou aprenderam no passado. No entanto, os cristãos primitivos organizaram uma crença totalmente nova, de sete maneiras diferentes. Vejamos quais são essas sete modificações.

1. A primeira delas é que, dentro do cristianismo primitivo, não havia praticamente nenhuma crença sólida sobre a vida após a morte. As crenças sobre a vida após a morte, e a maneira de expressá-las social e culturalmente, não são notadamente as características mais conservadoras de uma cultura. No entanto, embora os cristãos primitivos tenham retirado muitos elementos do judaísmo e diferentes contextos do paganismo – que por sua vez deveriam sustentar muitas crenças diferentes sobre a vida após a morte – eles modificaram essa crença de modo a focalizar um único ponto. Nesse sentido, o cristianismo parece ser uma variação do judaísmo farisaico. Não há nenhum traço da visão dos saduceus ou de Filo.

A igreja de Corinto, uma igreja de ex-pagãos confusos, tinha em seu meio algumas pessoas que, aparentemente, negavam a ressurreição, mas essa situação não durou muito tempo (1Co 15.12). Dois mestres mencionados nas cartas pastorais de Paulo afirmavam que a ressurreição já havia acontecido (2Tm 2.18). Provavelmente teria sido um mal-entendido, antecipando talvez a reconsideração gnóstica posterior de toda a questão, mas que não alterou a esmagadora impressão de unanimidade. Porém, não podemos imaginar, como alguns imaginam até hoje, que a ração para essa unanimidade estaria no fato de a ortodoxia ditatorial ter apagado todos os traços de um período anterior mais polimórfico. Há evidência de debates sobre diversos tipos de crenças, mas a unanimidade sobre a ressurreição se sobressai. Somente no fim do segundo século, cerca de 150 anos depois da época de Jesus, algumas pessoas começaram a usar a palavra “ressurreição” com um significado diferente do que ela tinha no judaísmo e no cristianismo primitivo, isto é, como uma “experiência espiritual” no presente, levando a uma esperança desligada do corpo no futuro. Durante os dois primeiros séculos, a ressurreição, no sentido tradicional, manteve-se no centro das discussões.

2. Isso nos leva à segunda mudança. Para o judaísmo do segundo templo, a ressurreição não era muito importante. Uma grande quantidade de obras sequer toca no assunto. Ainda não se sabe exatamente o que os autores dos manuscritos do mar Morto pensavam sobre isso. A não ser por algumas citações ocasionais, como em 2 Macabeus 7, a ressurreição era considerada um tema secundário. No entanto, no cristianismo primitivo a ressurreição passou a ter importância fundamental. É impossível conceber o pensamento de Paulo ou de João sem a ressurreição. Ela é extremamente importante nos textos de Clemente e Inácio, Justino e Irineu. A crença da ressurreição foi um dos principais motivos que levaram os pagãos da cidade de Lyon, na França, em 177 depois de Cristo, a se enfurecerem e matarem muitos cristãos, inclusive o bispo que antecedeu ao grande Irineu. A crença na ressurreição do corpo foi uma das coisas que chamou atenção do médico pagão Galeno em relação aos cristãos (a outra seria seu notável controle sobre o desejo sexual). Se extrairmos os relatos do nascimento de Jesus nos Evangelhos, perderemos apenas dois capítulos de Mateus e dois de Lucas. Porém, se eliminarmos a ressurreição, perderemos todo o Novo Testamento, e boa parte dos escritos dos pais da igreja do segundo século.

3. Essas duas primeiras modificações estão relacionadas à importância que a ressurreição passou a ter no cristianismo primitivo, em oposição ao lugar ocupado por ela no judaísmo. A próxima mudança diz respeito ao que significava, de fato, a ressurreição. O judaísmo não é claro quanto ao tipo de corpo que o ressuscitado teria. Os mártires macabeus supunham que seria um corpo não muito diferente do que temos hoje. A maior parte dos textos judaicos sobre a ressurreição não acrescenta muita coisa ao assunto, exceto por algumas referencias à “glória”, talvez no sentido de luz. Porém, o cristianismo primitivo sempre afirmou que o novo corpo ressurreto, apesar de ser um corpo no sentido físico, ocupando assim um lugar no tempo e no espaço, seria também um corpo transformado, com novas características. Houve muitas discussões sobre o que a “ressurreição” realmente envolvia.

Paulo coloca isso mais claramente em 1 Coríntios 15, em uma passagem geralmente mal-interpretada, que serve de base para muitos escritos posteriores. Paulo se refere a dois tipos de corpo, presente e futuro, usando dois adjetivos para descrever esses dois corpos. Infelizmente, muitas traduções interpretam mal esse ponto, fazendo supor que, para Paulo, o novo corpo seria um corpo “espiritual”, um corpo não no sentido físico, de modo que, no caso de Jesus, o túmulo não teria ficado vazio. Não é bem isso que Paulo está dizendo, o que pode ser facilmente demonstrado pelo exame filológico e exegético do texto. O contraste que ele está fazendo não é entre o que entenderíamos por um corpo “físico” presente em um corpo “espiritual” futuro, mas entre um corpo presente animado alma humana normal e um corpo futuro, animado pelo Espírito de Deus.

Paulo destaca que esse corpo futuro será incorruptível. A carne e o sangue são corruptíveis e estão destinados à decadência e à morte. É por isso que Paulo diz que “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (v. 50) O novo corpo será incorruptível. O capítulo inteiro, uma das argumentações mais longas mantidas por Paulo e ponto alto de toda a carta, é sobre a nova criação, sobre o Deus criador refazendo a criação, e não abandonando-a, como querem os filósofos platônicos e os gnósticos.

A transformação desse corpo físico (que chamei de “transfisicalidade” em meu livro The Ressurrection on the Son of God) não envolve a transformação em um corpo resplandecente. Aqui novamente alguns se equivocam ao interpretar a palavra “glória” como resplandecer fisicamente, e não como uma posição dentro do mundo de Deus. Isso pode ser observado com mais clareza em Daniel 12, um texto bíblico bastante conhecido sobre a ressurreição, que fala que os sábios ressuscitados “resplandecerão como o fulgor do firmamento”. Surpreendentemente, esse texto nunca é citado no Novo Testamento como referência à ressurreição corpórea, exceto na interpretação de uma parábola (MT 13.43). Ele é citado uma única vez, mas como uma metáfora para o testemunho cristão no mundo atual (Fp 2.15). Podemos concluir, então, que a crença cristã primitiva sobre a ressurreição incluía a visão de um novo corpo transformado, no futuro, mas não do único modo que o texto bíblico central parece sugerir.

4. A quarta e surpreendente mudança, evidenciada pela crença cristã primitiva sobre a ressurreição, é que a “ressurreição” como um evento, pode ser dividida em duas. Aqui, o texto de 1 Corintios 15 é novamente fundamental, mas ele só é reconhecido no transcorrer dos dois primeiros séculos. Nenhum judeu do primeiro século esperava que a “ressurreição” pudesse ser outra coisa senão um evento em larga escala, atingindo todo o povo de Deus, ou talvez toda a raça humana, como parte de um evento repentino no qual o reino de Deus finalmente chegaria, assim na terra como no céu. Ninguém esperava que uma pessoa pudesse ressuscitar antes das outras. As “exceções” às vezes citadas (Enoque e Elias) não contam, por dois motivos: (a) nenhum deles teria morrido, e assim a “ressurreição” (nova vida após morte física) não seria relevante; (b) eles estavam no céu, não em um corpo novo, na terra (Gn 5.25; 3Rs 2.11-12). Não podemos esquecer que ressuscitar não significa “ir para o céu” ou “escapar da morte” ou ainda “desfrutar de uma existência após a morte”, mas “voltar à vida física depois de uma morte corpórea”. É por isso que, logo depois da transfiguração, quando Jesus diz a seus discípulos para não mencionarem a visão até que o Filho do homem tenha ressuscitado dentre os mortos, eles ficam confusos, e se perguntam o que isso poderia significar, se seria um evento que lhes permitiria falas às pessoas sobre detalhes da vida de Jesus, ou um vento em que todo o novo mundo de Deus renasceria.

Houve, é claro, outros movimentos judaicos semelhantes ao cristianismo primitivo que sustentaram uma espécie de escatologia iniciada (isto é, a crença de que o “fim” já teria, de certa forma, começado). Os essênios, de acordo com os Manuscritos do Mar Morto, acreditavam que o pacto tinha sido restaurado secretamente com eles, no inicio do final dos tempos. Porém, fora do cristianismo, não encontramos em outro lugar aquela que se tornaria sua característica principal: a crença de que esse inicio consistia na ressurreição de alguém durante o transcorrer da história, antes de sua ocorrência grandiosa e final, antecipando e garantido a ressurreição definitiva do povo de Deus no fim da história.

5 . Sou grato a Dominic Crossan por me chamar a atenção para o que passei a considerar como a quinta mudança na crença judaica da ressurreição. Em um debate público em Nova Orleans, em março de 2005, Crossan chamou essa mudança de “escatologia colaborativa”. Minha compreensão do que isso significa, em sintonia com o pensamento de Crossan, é que como os cristãos primitivos acreditavam que a “ressurreição” teria começado com Jesus, e seria concluída na grande ressurreição final no ultimo dia, eles acreditavam também que Deus os havia chamado para serem seus colaboradores, no poder do Espírito, na realização da obra de Jesus na vida pessoal e política, na missão e na santificação, antecipando assim a ressurreição final. Deus não estava apenas iniciando o “fim”; se Jesus, o Messias, era o próprio “fim” e o futuro de Deus manifestado no presente, então aqueles que pertenciam a ele, que eram seus discípulos, capacitados pelo seu Espírito, deveriam transformar o presente, à luz do futuro.

6. A sexta mudança extraordinária dentro da crença judaica é o uso metafórico totalmente diferente de “ressurreição”. A ressurreição, no judaísmo, podia ser usada como uma metáfora ou como uma metonímia do retorno do exílio. Em Ezequiel 37 ela é claramente usada como metáfora; na época em que os rabinos admitiam essa idéia, em 2 Macabeus, Esdras 4 e em outras partes do Antigo Testamento, bem como nos Evangelhos, ela é usada como metonímia, isso é, uma parte de toda a escatologia, representando o todo. O referencial concreto dessa metáfora judaica era a restauração nacional, étnica e geográfica de Israel. Assim, quando a “ressurreição” é usada metaforicamente no judaísmo, ela se refere à restauração de Israel. Porém, desde os primórdios do cristianismo – o que é mais impressionante quando consideramos que ele começou como um movimento messiânico judaico – esse significado desapareceu, tendo talvez sua única e rápida aparição na confusa pergunta dos discípulos no primeiro capítulo do livro de Atos: “Senhor, será esse o tempo em que restaures o reino de Israel?” (v. 6; cf. Rm 11.15; At 16).

Surge, então, um novo significado metafórico da ressurreição, com suas raízes firmadas na época de Paulo, em que a ressurreição é entendida como uma metáfora do batismo, com o sentido de morrer e ressurgir com Cristo. A ressurreição surge também como rferência à uma nova vida de obediente submissão, capacitada pelo Espírito Santo. Esses significados metafóricos geralmente aparecem junto à passagens que enfatizam também o sentido literal de uma ressurreição futura e corpórea, como em Romanos, indicando que não estavam sendo usados apenas no sentido espiritual. É importante observar também que esse significado metafórico tem uma referência concreta – batizmo e ética – ao contrário do significado abstrato e “espiritual” prezado pelos gnósticos posteriores.

Portanto, na sexta modificação da crena judaica, a ressurreição ainda mantém seu sentido literal sobre uma existência corpórea futura, mas perde seu poderoso significado metafórico anterior sobre a renovação do Israel étnico para adquirir um novo sentido, com a renovação dos seres humanos em geral. De fato, o cristianismo primitivo estava começando a descobrir que a linguagem usada para se referir ao retorno do exílio é à renovação étnica e territorial de Israel, passaria agora a ser usada metaforicamente para se referir à renovação dos seres humanos no presente e à sua ressurreição corpórea no final dos tempos. Evidentemente, todos esses significados só poderiam ser compreendidos no contexto judaico; nenhum pagão poderia sequer imaginar algo parecido com isso. Porém, antes do surgimento do cristianismo, nenhum judeu havia enveredado por esse caminho. Estamos diante de uma notável mudança posterior, vinda de dentro.

7. A sétima mudança, dentro da crença judaica da ressurreição, se encontra na sua associação com o messianismo. Ninguém no judaísmo esperava que o Messias morresse, portanto, ninguém imaginava que ele poderia ressuscitar dentre os mortos. Isso trouxe uma tremenda mudança não apenas na crença da ressurreição, mas na própria crença messiânica. De acordo com as crenças messiânicas da época (é importante frisar que nem todos os textos judaicos mencionavam um messias, mas essa noção passou a ser fundamental no cristianismo primitivo), o Messias deveria lutar para conquistar a vitória de Deus sobre os pagãos, reconstruir ou purificar o templo e trazer a justiça divina ao mundo. Jesus, aparentemente, não fez nada disso. Ele sofreu com a injustiça do mundo; encenou uma estranha, e aparentemente ineficiente, manifestação publica no templo, e morreu nas mãos dos pagãos, em vez de derrotá-los. Nenhum judeu com alguma noção das idéias messiânicas teria imaginado, após a crucificação, que Jesus de Nazaré seria de fato o ungido do Senhor. No entanto, desde o começo, de acordo com fragmentos de antigos credos pré-paulinos, os cristãos declaravam que Jesus era de fato o Messias, exatamente por ele ter ressuscitado.

Fica claro, portanto, que é impossível explicar a crença cristã primitiva de Jesus como Messias sem a ressurreição.

Há evidências de outros movimentos judaicos messiânicos ou proféticos, contemporâneos ao ministério público de Jesus. Em geral, eles terminam com a morte do personagem central. Os participantes do movimento (supondo-se que escapariam para salvar a própria pele) teriam de escolher entre desistir da luta, ou encontrar um novo Messias. Se eles optassem por um novo messias, Tiago, irmão de Jesus, um mestre importante e dedicado, a figura central na igreja primitiva de Jerusalém, seria um bom candidato. No entanto, ninguém imaginava que Tiago pudesse ser o Messias. Josefo refere-se a ele, com certo desdém, como “o irmão do chamado Messias”.

Essas evidências indicam que podemos rejeitar as posições revisionistas sobre a ressurreição de Jesus, oferecidas por vários escritores. Alguns têm sugerido que os discípulos estavam tão abalados com a morte de Jesus que cederam à idéia da ressurreição e agarraram-se a ela, convencendo-se que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos, embora, é claro, soubessem que isso não havia acontecido. Outros têm sugerido que os cristãos primitivos acreditavam que Jesus, depois de sua morte, foi elevado ao céu. Outros dizem que eles tinham uma compreensão estranha de sua missão – estabelecer o reino de Deus – crendo que ela deveria ser mantida de um modo diferente, e que essa crença os levou a dizer que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos.

Isso, no entanto, teria algum sentido? Podemos testar essa idéia com um pequeno exercício mental. Nos anos 70 depois de Cristo, os romanos conquistaram Jerusalém e levaram milhares de judeus cativos de volta a Roma, entre eles, o homem que eles consideravam o líder da revolta judaica, o “rei dos judeus”, um homem chamado Simão bar Giora. Ele seguia atrás do cortejo triunfal, e quando o espetáculo chegou ao fim, ele foi açoitado e então morto.

Agora, imagine um encontro desses revolucionários judeus, três dias ou três semanas depois. Um deles diz:

- Sabe, acho que Simão era, de fato, o Messoas. Acho que ainda é!
Os outros ficam confusos e dizem:
- É claro que ele não era; os romanos o mataram, como de costume. Se você queria um Messias, é melhor procurar outro.
- Ah, - diz o primeiro – mas eu acredito que ele ressuscitou dentre os mortos.
- O que você está dizendo? – pergunta os outros – Ele está morto e sepultado. – Não! – responde o primeiro. – Eu creio que ele foi elevado ao céu.
Os outros parecem confusos.
- Os justos estão com Deus, todo mundo sabe disso; suas almas estão nas mãos de Deus; isso não quer dizer que eles já ressuscitaram dos mortos. Seja como for, todos nós ressuscitaremos no final dos tempos, mas ninguém ressuscita no meio da história.
- Não – responde o primeiro. – Vocês não compreendem, eu me senti cercado pelo amor de Deus. Senti Deus me perdoando, perdoando a nós todos. Senti meu coração estranhamente aquecido. Além disso, eu vi Sião, ele estava ali comigo...
Os outros o interrompem, agora irados.
- Todos nós podemos ter visões. Muitas pessoas sonham com amigos mortos recentemente. Às vezes esses sonhos são muito reais. Isso não significa que eles ressuscitaram dentre os mortos. E certamente não quer dizer que um deles é o Messias. Se o seu coração está aquecido, então cante um salmo, mas não faça afirmações absurdas sobre Simão.

É mais ou menos isso que os revisionistas sugerem que poderia ter acontecido. No entanto, essa solução não simplesmente inconcebível; ela é impossível. Se alguém tivesse dito o que os revisionistas sugerem, teria acontecido esse tipo de conversa. Um pouco de imaginação histórica disciplinada é suficiente para remover pilhas enormes do chamado criticismo histórico.

Além disso (concluindo essa ultima mudança na crença judaica), a crença de que Jesus seria de fato o Messias levou ao desenvolvimento da crença de que Jesus seria também o Senhor, portanto, César não poderia ser o Senhor. Voltaremos a esse assunto em outra oportunidade, mas nas cartas de Paulo, a ressurreição de Jesus e, futuramente, de seu povo, é o fundamento da lealdade cristã a um outro rei e a um outro senhor. A morte é a ultima arma do tirano; e o argumento da ressurreição, apesar de mal compreendido, é o de que a morte, mas a sua derrota, junto à derrocada daqueles que dependem de seu poder. A despeito do desdém e das criticas de alguns estudiosos contemporâneos, aqueles que acreditavam na ressurreição corpórea é que foram queimados em estacas e lançados aos leões. A ressurreição nunca foi um modo de se impor ou de ser respeitado; os fariseus que o digam! Foram os gnósticos que transformaram a linguagem da ressurreição em uma espiritualidade particular e em uma cosmologia dualista, mudando totalmente seu significado e escapando assim da perseguição. Que imperador perderia noites de sono preocupado porque seus súditos estavam lendo o Evangelho de Tomé? A crença na ressurreição sempre deixava as pessoas em dificuldade.

Observamos assim sete mudanças principais na crença judaica da ressurreição, cada uma delas de importância fundamental para o cristianismo dos dois primeiros séculos. A crença cristã primitiva na ressurreição continuou inserida no judaísmo do primeiro século, não no paganismo. Porém, em relação ao monoteísmo, à eleição e à escatologia da teologia judaica, foi aberto um novo caminho para entender a história, a esperança e a hermenêutica. Isso exige uma explicação histórica. Por que os cristãos primitivos fizeram sete mudanças com tamanha consistência na linguagem judaica da ressurreição? Se perguntássemos a eles, eles certamente responderiam que fizeram isso porque acreditavam no que havia acontecido a Jesus no terceiro dia após sua morte. Então, como explicar a estranha história que eles contaram ao descrever os eventos daquele primeiro dia de Páscoa?

 --- Textos relacionados:

Origens cristãs e a ressurreição de Jesus - N. T. Wright
Algumas objeções à ressurreição
Debate sobre a ressurreição (Bart Ehrman e William Lane Craig)
Documentário: Em defesa de Cristo
Os apóstolos falaram a verdade?
Passanto no teste
Podemos confiar no NT?
Pano de fundo religioso do NT
Ressurreição de Jesus - Parte 1
Ressurreição de Jesus - Tormento fatal - Parte 2
Ressurreição de Jesus - Sepulcro vazio - Parte 3
Ressurreição de Jesus - Aparições de Cristo - Parte 4
Ressurreição de Jesus - Transformação - Parte 5

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Origens Cristãs e a Ressurreição de Jesus: A Ressurreição de Jesus como um Problema Histórico

Por N. T. Wright

Prólogo


A questão da ressurreição de Jesus mente ao coração da fé cristã. Não existe uma forma do Cristianismo primitivo conhecida por nós que não afirme que depois da vergonhosa morte de Jesus, Deus o ergueu à vida novamente. Essa afirmação é, particularmente, a constante resposta do Cristianismo anterior a uma das quatro questões-chave sobre Jesus, que deve ser levantada por todos os historiadores sérios do primeiro século. Eu já tenho respondidas as primeiras três dessas questões, a saber: “qual era a relação de Jesus com o Judaísmo?”, “quais eram seus alvos?”, “por que ele morreu?”. A quarta questão é essa: admitindo o acima mencionado, por que o Cristianismo surgiu e tomou a forma que tomou? Para essa questão, virtualmente todos os cristãos primitivos conhecidos por nós deram essa mesma resposta: “Ele foi ressuscitado dentre os mortos”. O historiador deve, portanto, investigar o que eles queriam dizer com isso e o que pode ser dito por meio da observação histórica.

Nessa primeira palestra eu examinarei o amplo problema histórico. Então eu farei um esboço sobre a crença da ressurreição mantida dentro do Judaísmo do Segundo Templo, e em seguida, olhar para a forma do Cristianismo primitivo para examinar como o último movimento cresceu a partir do anterior. Na segunda palestra nós nos aproximaremos de algumas das evidências detalhadas olhando para as reivindicações do movimento Cristão primitivo como refletido nos textos-chave. Na palestra final eu proponho usar uma narrativa particular da ressurreição, essa de Luke, como um ponto de partida para responder a questão: que força a mensagem da ressurreição tem para dizer ao mundo e à igreja como devemos enfrentar o desafio pós-moderno nos anos finais do segundo milênio? Assim, as três palestras trabalham da seguinte maneira: na palestra atual eu esboçarei uma grande figura das origens cristãs e argumentarei que apenas a ressurreição corpórea de Jesus pode explicá-las. Na segunda eu examinarei os textos detalhados que falam desse evento. Na terceira eu avançarei do Caminho de Emaús no primeiro século para o Dover Beach de Matthew Arnold no décimo nono ao vigésimo.

Meu tema para o momento, então, é apresentar o argumento histórico que resulta da observação do Judaísmo do primeiro século, por um lado, e o Cristianismo do primeiro século, por outro. Encontramo-nos, por assim dizer, contemplando dois pilares em cada lado de um rio largo. Pelo estudo de ambos e a relação entre cada um, devemos ser capazes de organizar que tipo de ponte pode uni-los. O Cristianismo emergiu do Judaísmo, mas como isso aconteceu? Como irmos de uma margem do rio à outra?


Ressurreição como Entendida no Judaísmo do Segundo Templo


Como a esperança da ressurreição funcionou dentro da visão do mundo do Judaísmo? E onde a ressurreição se encaixou nas crenças do Segundo Templo judeu sobre vida após a morte em geral?

A esperança da ressurreição começou no Judaísmo não como um dogma, mas como uma história – a história do exílio e restauração de Israel. A primeira passagem óbvia a qual encontramos está em Ezequiel 37:1-14, a visão do vale dos ossos secos. Ali a esperança da restauração de Israel é expressa nos termos da vívida, quase surreal, metáfora dos ossos secos voltando à vida, adquirindo carne, tendões e, finalmente, respiração. O contexto deixa claro que essa imagem denota retorno do exílio, também por meio dos capítulos anteriores, estabelece-se uma série de conexões, tal como um resgate limpando, e (particularmente) renovando a aliança. O mesmo é verdadeiro, indiscutivelmente para a difícil passagem de Isaías 26:16-21. A ressurreição começa a vida, em outras palavras, como uma metáfora para o retorno do exílio e de tudo o que aconteceu com a esperança de Israel por isso.

Mas a história que foi dita pelos judeus do Segundo Templo através do dia de Jesus nunca sugeriu que o retorno real tinha realmente acontecido. Ninguém supôs que as profecias de Isaías e Ezequiel ainda seriam cumpridas. Os judeus do Segundo Templo ainda viviam no mundo narrativo de exílio e restauração. Nessa narrativa, exílio se focou em certos pontos do sofrimento dos mártires, e ressurreição se focou em sua reivindicação. Nesse contexto nós devemos adicionar Daniel 12 e, particularmente, 2 Macabeus, com sua conta horrível de mártires que irritam seus torturadores, assegurando-lhes que eles, os mártires, receberão de volta pelo Deus de Israel os corpos físicos que agora estão sendo dilacerados (e.g., 2 Mac 7:1-23).

Esse é um desenvolvimento do mundo metafórico de Ezequiel 37 – não de um afastamento dele. O exílio continua, e no início do segundo século ele tomou a forma de opressão brutal pelo paganismo sírio. A esperança, então, era que o Deus de Israel restauraria seu povo, e que aqueles que morreram na luta, leais a ele e à sua Torá, seriam levantados dos mortos para compartilhar a eventual restauração. Assim também, após a queda de Jerusalém em 70 d.C. se intensificou o sentimento de exílio, quase insuportável; encontramos Esdras 4:7 articulando uma esperança semelhante. O mesmo é verdade, sempre que lhes datamos, de Enoque 1 e Baruque 2. Subjacente a todas estas histórias, é claro, é a crença inabalável de judeus na justiça do Deus único e verdadeiro.

Dois detalhes importantes devem ser mencionados aqui. Primeiro, sabemos por Josefo (Guerra 2:163; Ant. 18:14) e pelo Novo Testamento (Atos 23:7-8) que poderíamos ter adivinhado a partir dos rabinos mais tarde, a saber, que a ressurreição foi uma característica importante da teologia farisaica. Mas nós precisamos lembrar que nos dia de Jesus e de Paulo a maioria dos fariseus eram o que poderíamos chamar de ala revolucionária do judaísmo, mais para a restauração de Israel. A ressurreição funcionou para os fariseus, não como uma doutrina abstrata sobre o que acontece com o povo de Deus (ou a qualquer pessoa) após a morte, mas como uma declaração sobre a grande volta do destino de Israel, que em breve ocorreria, e sobre o fato de que quando esse evento acontecesse aqueles que tinham sido fiéis a Torá, mas tiveram que morrer antes do tempo seriam erguidos para compartilhar as bênçãos dos tempos que viriam. A crença farisaica, em outras palavras, deve ser visto como um desenvolvimento da mesma história subjacente que vemos em Daniel e 2 Macabeus.

O segundo detalhe a ser mencionado diz respeito ao livro conhecido como Provérbios de Salomão. Ele tem sido usado há muito tempo entre os estudiosos para declarar que este livro simplesmente ensina a imortalidade da alma e não a ressurreição. Os versos de abertura do capítulo três são cotados para esse efeito:

As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento nunca vai tocá-los. Aos olhos dos insensatos pareciam ter morrido, e sua partida foi pensada para ser um desastre, e eles partem de nós à sua destruição; mas eles estão em paz. (3:1-3.)

No entanto, a passagem continua alguns versos mais tarde:

No tempo da sua visitação resplandecerão, e correrão como centelhas através da palha. Governarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre. (3:7-8.)

Esses judeus justos que foram mártires nas mãos dos pagãos estão no presente em paz, seguros com Deus, mas a imortalidade da alma é apenas o prelúdio de sua ressurreição, e serão definidos com autoridade sobre os reinos da terra, dentro de um reino de Deus. Essas propostas de passagens, além dos outros elementos que consideramos brevemente, são um relato do que acontece com os justos mortos no intervalo entre sua tortura e morte e sua ressurreição: suas almas são cuidadas depois disso por Deus.

A ressurreição pertence, então, à cosmovisão revolucionária do Judaísmo do Segundo Templo. Qual parte é representada dentro da esperança judaica para a vida após a morte? Havia dentro do judaísmo um espectro considerável de crença e especulação sobre o que acontecia às pessoas mortas em geral, e para os judeus mortos, em particular. Num final, foram os saduceus que parecem ter negado qualquer doutrina da existência post-mortem (Marcos 12:18; Josefo, Guerra 2:165). Em outro foram os fariseus, que afirmaram uma futura existência encarnada, e que pareciam ter, pelo menos, começado a desenvolver teorias sobre como as pessoas continuariam a existir no intervalo entre a morte física e a ressurreição física. E há opções adicionais. Alguns textos falam de almas em alegria desencarnada; alguns especulam sobre almas como seres angelicais ou astrais, e assim por diante. Não podemos, então, simplesmente afirmar que os gregos acreditavam na imortalidade e os judeus na ressurreição. As coisas nunca foram assim tão simples.

A razão pela qual os saduceus eram contra, não só à ressurreição, mas a qualquer noção de vida após a morte é muito interessante. Primeiro, eles insistiam que as tradições não continham essa doutrina ultramoderna e que a ressurreição não era ensinada na própria Torá. Mas eles foram além. A ressurreição era uma doutrina revolucionária, que tinha a ver com crenças firmemente mantidas sobre o clímax vindo da história de Israel. Seria exatamente o tipo de coisa, do ponto de vista saduceu, que aqueles fariseus de classe baixa mais problemáticos adotariam para sustentar seus sonhos revolucionários sobre a derrubada da ordem existente e o estabelecimento do reino de Deus. O principal objetivo dos saduceus não era garantir sua própria sobrevivência pessoal em uma vida futura, mas negar uma doutrina que lhes parecia (e com razão) constituir uma ameaça para a sobrevivência de seu poder dentro da ordem atual e dentro de qualquer mudança que viria por aí.

Eu falei antes sobre o estado intermediário entre a morte e a ressurreição. Como acabamos de ver, Provérbios de Salomão falou sobre as almas dos justos estarem na mão de Deus, até o dia em que eles subirão novamente e reinarão sobre as nações e reinos. Alternativamente, se pensava que os mortos, ou pelo menos os justos mortos, continuariam a viver, antes da sua ressurreição em um estado comparável ao dos anjos ou espíritos. Neste contexto, em adição a vários textos judeus não-cristãos, é interessante notar uma passagem em Atos que aponta precisamente esse sentido. Quero dizer sobre a cena maravilhosamente desenhada em Atos 12, em que a criada Rode ouve Pedro batendo à porta e falando com ela e, em vez de abrir a porta, ela corre e diz à comitiva montada. Eles dizem, interessantemente, "deve ser o seu anjo”. Assumem que Pedro foi executado na prisão, que ele entrou no estado desincorporado entre a morte e a ressurreição, e que desta forma ele lhes pagou uma espécie de visita post-mortem que várias pessoas em várias culturas tinham experimentado quando alguém perto deles havia morrido recentemente. Tal visita é inteiramente compreensível em termos do “anjo” pessoa.

Meu ponto aqui é que os judeus nesse período tinham idéias razoavelmente bem desenvolvidas sobre um estado intermediário, ou pelo menos uma série de conceitos e vocabulário à mão com os quais se referiam a ele. Claro que, se alguém não acredita na ressurreição final, acreditando em vez disso em uma imortalidade contínua desencarnada, que um fariseu consideraria como um estado intermediário, pode pensar como sendo um estado final. Mas, se um judeu do primeiro século dissesse que alguém havia sido "ressuscitado dos mortos", a única coisa que não queria dizer era que essa pessoa tinha ido a um estado de êxtase desencarnado, e não queria descansar para sempre ou esperar até o grande dia da reincorporação.

Isto pode ser facilmente testado, perguntando se alguém, em 150 a.C., que acreditava apaixonadamente que os mártires macabeus eram verdadeiros e justos israelitas, ou alguém em 150 d.C., que acreditava que Simeon ben-Kosiba era o verdadeiro Messias (se algum tal existiu), teria dito que eles, ou ele, tinham sido ressuscitados dos mortos, pretendendo com esta afirmação indicar simplesmente que sua causa foi realmente justa e que eles estavam vivos em um lugar de honra na presença de Deus. A resposta é óbvia. Alguém na posição que temos descrito poderia muito bem ter dito que os mártires, ou ben-Kosiba, estavam vivos na forma de um anjo ou um espírito, ou que suas almas estavam na mão de Deus, mas não teriam sonhado em dizer que já tinham sido ressuscitados dos mortos. Ressurreição significa incorporação; mais, implica que a nova era amanheceu. Ninguém sugeriu que os mártires foram reincorporados. Ninguém sugeriu que a nova era amanheceu, exceto é claro, os cristãos, que serão o meu ponto em poucos minutos.

Não houve, então, nenhuma única universalmente aceita e comumente articulada esperança do Segundo Templo judeu para o futuro. Porém, com isso é provável que a crença farisaica, sua maneira de contar a história, era popular com um bom número de judeus. Seja como for, por mais amplo que o espectro possa ter sido e por mais posições diferentes que os judeus tenham assumido, "ressurreição" sempre denota uma posição dentro desse espectro. "Ressurreição" não era um termo para "vida após a morte" em geral. Ela sempre significou reincorporação.


Os Primórdios do Cristianismo


Tendo examinado muito brevemente um elemento do enigma histórico, o pilar da margem do rio judaico, agora devemos voltar nossa atenção para a outra margem, o pilar cristão primitivo. Então, ao olhar para os dois pilares em conjunto, devemos estar em posição de avaliar que tipo de ponte pode conseguir ligar de forma concebível as duas estruturas ao mesmo tempo tão semelhantes e ainda tão diferentes.

Há três aspectos a este inquérito. O cristianismo começou como um movimento do reino de Deus, como um movimento messiânico, e como um movimento da ressurreição. Em cada caso, isso representa um enigma considerável para o historiador. Ao considerar cada um destes três aspectos, o meu argumento vai cair em três etapas. Primeiro, examinarei a maneira pela qual o cristianismo começou como um movimento do tipo em questão. Segundo, revisitarei o judaísmo para indagar o que esses movimentos aparentavam e o que eles esperavam. Terceiro, mostrarei que as diferenças marcantes entre os movimentos relevantes no Judaísmo e o movimento aparentemente equivalente no Cristianismo são tais que exigem um tipo particular de explicação.


O Movimento do Reino de Deus


As três etapas neste caso particular podem ser resumidas como segue: primeiro, o Cristianismo primitivo surgiu como um movimento do reino de Deus. Segundo, o reino de Deus no judaísmo tinha certos significados especiais. Terceiro, uma vez que estes certamente não tinham vindo a transpor, nós devemos indagar por que os primeiros cristãos disseram, no entanto, que o reino de Deus tinha de fato sido trazido para a Terra.

Primeiro, então, o Cristianismo primitivo pensava nele mesmo como um movimento do reino de Deus (Marcos 1:14-15). Já no tempo de Paulo a expressão "reino de Deus" e seus equivalentes tornaram-se mais ou menos um atalho para o movimento, o seu modo de vida, e sua razão de existência "(Romanos 14:17; 1Cor. 4:20, 6:9-10, 15:50; Gal. 5:21; 1 Tessalonicenses. 2:12). Já é tecida na estrutura do pensamento cristão primitivo. A maneira como Paulo a usa mostra que ela é invenção comum dentro do cristianismo primitivo e que pertence ao mundo judaico do qual falei. Os primeiros cristãos contaram a história do reino como sua própria história. Eles reordenaram suas vidas – no caso dos ex-pagãos, bastante drasticamente – em torno do novo universo simbólico em que a esperança judaica que dizia que não haveria "nenhum rei, mas Deus" tinha se tornado realidade por meio de Jesus, o Messias. Eles se engajaram em uma práxis que afirmava que havia uma maneira diferente de ser humano, de forma a responder às reivindicações deste reino. Esta é a primeira etapa desta primeira fase de meu argumento.

O segundo passo é, então, considerar o que "reino de Deus" significava no judaísmo (um grande tópico é claro, que podemos apenas resumir aqui breve e inadequadamente). No judaísmo a vinda do reino de Deus significava o fim do exílio de Israel, a queda de um império pagão e a exaltação de Israel, e o retorno de YHVH a Sião para julgar e salvar. Estes são os motivos que surgem dessa grande profecia do reino em Isaías 40-55, e de numerosos salmos e outras partes das escrituras hebraicas. E, como Josefo deixa claro, no dia de Jesus a convicção de que seu "único Rei e Senhor" era Deus foi uma marca particular dos revolucionários (Ant. 18:23).

Para o Segundo Templo judeu, então, a vinda do reino não era sobre uma experiência existencialista privada ou gnóstica, mas sobre eventos públicos. No seu sentido mais estreito, era sobre a libertação de Israel. No seu sentido mais amplo, era sobre a vinda da justiça de Deus e da libertação de todo o cosmos. Assim, se você tivesse dito a um judeu do primeiro século, "o reino de Deus está aqui", e tivesse se explicado falando de uma nova experiência espiritual, um novo sentimento de perdão, ou uma reordenação emocionante de sua interioridade religiosa privada, ele ou ela poderiam muito bem ter dito que estavam contentes por você ter tido essa experiência, mas por que você se referia a ela como o reino de Deus? Esta, então, é a segunda etapa desta primeira fase do argumento.

O terceiro passo é colocar os dois juntos e perceber o contraste. É claro que, independentemente dos primeiros cristãos terem dito, o reino de Deus não veio da maneira que os judeus do primeiro século tinham imaginado. Israel não foi libertado, o Templo não foi reconstruído, e – olhando mais para o cosmos –, injustiça, dor e morte, estavam ainda em fúria. A questão se mantém, então: por que os cristãos primitivos disseram que o reino de Deus havia chegado?

Uma resposta obviamente seria esta: os primeiros cristãos mudaram o sentido da frase tão radicalmente que agora não se refere a um estado político de negócios, mas a um interno ou espiritual. Eles tinham tomado o sentido apocalíptico atual em seu mundo e o demitologizaram, dejudaizaram, espiritualizaram, ou helenizaram. Mas isso é simplesmente falso ao cristianismo primitivo. Os primeiros cristãos agiam como se o reino de Deus estilo judaico estivesse realmente presente: eles organizaram a sua vida como se realmente fossem pessoas retornadas do exílio, o povo da nova aliança. Quando falavam de uma nova realidade interna ou "espiritual", usavam a linguagem não do reino de Deus, mas do coração novo, a morada do espírito, e assim por diante.

A questão histórica é assim posta: o que na terra (e quero dizer na Terra) os teria provocado a agir, falar e pensar desta maneira? Por que, na verdade, eles não continuaram o tipo de revolução do reino que haviam imaginado que Jesus estava indo liderar? Como explicar o fato do cristianismo primitivo não ter sido nem um movimento nacionalista judeu, nem uma experiência existencial privada? Como explicar o fato de que é afirmado, a partir da cosmovisão judaica, que o eschaton tinha chegado, mesmo pensado que não parecia como eles imaginavam que seria? A resposta cristã primitiva foi, naturalmente, que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos. Foi por isso que eles disseram que o reino havia chegado e que a nova era amanheceu.

Isto leva-nos para a segunda fase do argumento.


O Movimento Messiânico


Eu já argumentei que o Cristianismo foi desde os primórdios um movimento messiânico. Deixem-me resumir o caso como o primeiro passo nesta segunda etapa do meu argumento.

Para começar, as fontes cristãs mais antigas que possuímos falam de Jesus como Messias. De acordo com Atos, esta afirmação foi fundamental para a proclamação antecipada que Deus fez Jesus "igualmente Senhor e Cristo" (3:36). Quanto a Paulo, já argumentei que o messianismo de Jesus permaneceu central e explícito para ele. Mas mesmo se você insistir que, na época de Paulo, a palavra Christos havia se tornado apenas um nome próprio com algumas lembranças messiânicas distantes ligadas a ela, você não pode evitar a conclusão de que se o ex-fariseu Paulo, com trinta anos após a morte de Jesus, estava se referindo a Jesus como Christos – e especialmente se ele estava fazendo isso sem dar uma idéia ao sentido judaico dessa palavra –, só mostra como dentro da tradição mais antiga a idéia da messianidade de Jesus firmemente se apoderou. Como explicar tudo isso? Por que diziam que Jesus era o Messias?

Vários estudiosos há muito reconheceram que a ressurreição sozinha não pode explicar por que os primeiros cristãos pensavam em Jesus como o Messias. Se alguém além de Jesus tivesse ressuscitado dos mortos, não haveria razão para supor que ele ou seus contemporâneos pensavam nele como o Messias. Temos, portanto, que buscar a razão na realização messiânica de Jesus, crucificado como foi com a expressão "rei dos judeus" acima de sua cabeça. Em Jesus and the Victory of God, tenho argumentado que esta, por sua vez, obriga-nos a olhar mais para trás e ver algumas das principais ações simbólicas de Jesus, notavelmente a sua ação no Templo, e alguns de seus principais enigmas e parábolas, como sua messianidade tanto implícita quanto explícita. (Deixem-me enfatizar, em caso de confusão, que no Judaísmo do Segundo Templo a palavra "messias" não carregava conotações do que chamaríamos de "divindade”.) Novamente, mesmo se você discordar e quiser insistir que Jesus veio a ser pensado como Messias somente na sua ressurreição, isso, de qualquer forma, apertaria o parafuso do meu argumento mais ainda.

Meu ponto é – para passar à segunda fase nesta etapa do meu argumento – um judeu do primeiro século, diante da crucificação de um suposto messias, ou mesmo de um profeta que tinha tido seguidores significativos, normalmente não concluiria que essa pessoa era o Messias e que o reino tinha chegado. Ele ou ela, normalmente, concluiria que ele não era o Messias e que este não tinha vindo.

Houve, com certeza, muitas variações na crença messiânica judaica nesse período. Nenhuma delas previu um Messias que morreria às mãos dos pagãos. Pelo contrário, onde as expectativas judaicas de um Messias não existiam, eles regularmente possuíam um duplo foco. Em uma linha de tradição que se estendia de Davi a Bar-Kochba, incluindo os macabeus e Herodes, vemos que o rei teria que derrotar os pagãos, e que ele teria que reconstruir (ou pelo menos limpar) o Templo. As duas ações, é claro, seriam feitas juntas: enquanto os pagãos mantivessem-se invictos, YHVH não haveria retornado a Sião, presumivelmente porque a casa não estava pronta. Se um Messias foi morto pelos pagãos, especialmente se ele não tivesse reconstruído o Templo ou libertado Israel, isso era o mais seguro sinal de que ele era outro na longa linha de falsos messias.

De fato é claro o seguinte: se o Messias que foi seguido foi morto pelos pagãos, você estava encurralado com uma escolha entre dois cursos de ação. Você poderia desistir da idéia de revolução e abandonar o sonho de libertação. Alguns foram por esse caminho sobretudo, naturalmente, o movimento rabínico como um todo depois de 135 d.C. Ou poderia encontrar você mesmo um novo messias, se possível a partir da mesma família do último deplorado. Alguns foram nessa rota: testemunharam o movimento permanente, que decorreu de Judas, o Galileu em 6 d.C. para seus filhos ou netos na década de 50; a outro descendente, Menahem, durante a guerra de 66-70; e a outro descendente, Eleazor, que foi o líder dos desafortunados sicários em Masada em 73.

Mais uma vez, vamos ser claros. Se, após a morte de Simão bar-Giora, no triunfo de Tito, em Roma, ou se, após a morte de Simeão ben-Kosiba em 135, você tivesse afirmado que Simão, ou Simeão, era realmente o Messias, você provocaria uma resposta bastante acentuada da maioria judaica do primeiro século. Se, no meio da explicação, você dissesse que tinha tido uma forte sensação de Simão, ou Simeão, como se ainda estivesse com você, sempre lhe sustentando e lhe guiando, a mais gentil resposta que você poderia esperar seria que seu anjo ou espírito ainda estava se comunicando com você – não que ele havia ressuscitado dos mortos. Tanto quanto sabemos, os seguidores dos movimentos messiânico ou quase-messiânico do primeiro século eram fanaticamente comprometidos com a causa. Deles, de qualquer modo, poderia se esperar que sofressem de dissonância cognitiva depois da morte de seu grande líder. Em nenhum outro caso, no entanto, em todo o século antes de Jesus e no século após ele, não ouvimos falar de qualquer grupo judeu que dissesse que seu líder executado ressuscitou dos mortos.

Assim – e aqui está a terceira etapa da segunda fase do meu argumento –, uma vez que Jesus de Nazaré foi certamente crucificado como um rei rebelde, é extremamente estranho que os primeiros cristãos não só insistissem que ele era realmente o Messias, mas reordenassem sua visão de mundo, sua práxis, suas histórias, símbolos, e teologia em torno desta crença.

Eles tinham, depois de tudo, as duas opções normais abertas a eles. Eles poderiam simplesmente ter voltado à sua pesca, feliz por terem escapado de Jerusalém com vida. Eles poderiam ter mudado para um rumo diferente, desistido do messianismo (como fizeram os rabinos pós-135), e ido a alguma forma de religião privada, fosse a observação intensiva da Torá, gnose privada, ou alguma outra coisa. Eles claramente não fizeram isso. Qualquer coisa exceto algo como uma religião privada que fosse ao redor do mundo pagão dizer que Jesus era o Messias de Israel seria difícil de imaginar.

Igualmente, e talvez ainda mais interessante, poderiam ter encontrado eles mesmos um novo messias, entre parentes de sangue de Jesus. Esta opção não é, penso eu, normalmente considerada. Merece ser. Sabemos de várias fontes que os parentes de Jesus foram importantes e bem conhecidos na igreja primitiva. Um dos mais próximos, o seu irmão Tiago, embora não fizesse parte do movimento durante a vida de Jesus, na verdade, parece ter se tornado o principal em Jerusalém, enquanto Pedro e Paulo saíram em todo o mundo (Atos 12:17, 15:13, 21: 18; Gal. 1:19, 2:9). Tiago era considerado na igreja primitiva a pessoa central, geográfica e teologicamente. No entanto – e esta é a pista principal, como o cão de Sherlock Holmes que não latiu na noite – ninguém no Cristianismo primitivo nunca sonhou em dizer que Tiago era o Messias. Nada teria sido mais natural, especialmente na analogia da família de Judas, o Galileu. No entanto, Tiago era conhecido simplesmente como "o irmão do Senhor" (Gl 1:19, cf. Marcos 6:3).

Temos, então, que perguntar mais uma vez: por que o cristianismo começou, e mesmo sozinho continuou, como um movimento messiânico, quando o seu Messias tão obviamente não só não fez o que o Messias deveria fazer, mas sofreu um destino que deveria ter mostrado conclusivamente que ele não poderia ter sido o ungido de Israel? Por que esse grupo de judeus do primeiro século, que tinha nutrido esperanças messiânicas e as focado em Jesus de Nazaré, não só continuaram a acreditar que ele era o Messias, apesar de sua execução, mas ativamente o anunciaram como tal ao mundo tanto pagão quando judaico, alegremente redesenhando a imagem do messianismo em torno dele, e recusando-se a abandoná-la? Sua resposta, consistentemente em toda evidência que possuímos, foi que Jesus, após sua execução sob a acusação de ser um aspirante a Messias, havia ressuscitado dos mortos.

Antes de podermos analisar o que entendemos por isso, devemos olhar para a terceira, e claramente a mais importante, das três fases dentro do presente argumento.


O Movimento de Ressurreição


O cristianismo começou como um movimento de ressurreição. Como já observei, não há nenhuma evidência de uma forma de cristianismo primitivo em que a ressurreição não fosse uma crença central, como se fosse arremessada ao Cristianismo pelo canto. Foi a força central de condução, informando todo o movimento. Em particular, nós podemos ver tecida na teologia cristã mais antiga que possuímos – a de Paul, é claro – a crença de que a ressurreição, a princípio, ocorreu, e que os seguidores de Jesus tiveram que reorganizar suas vidas, suas narrativas, seus símbolos, e sua práxis adequadamente (ver, classicamente, Rom. 6:3-11).

Eu quero aqui notar um fenômeno interessante, em particular. Esse pensamento sobre a ressurreição tem uma notável precisão e consistência. Ao contrário da crença judaica que observamos anteriormente, desde o começo o re-uso da linguagem da ressurreição do Cristianismo é surpreendentemente livre de especulações vagas e generalizadas. É nítido e claro: a ressurreição significa passar pela morte e sair do outro lado em um novo modo de existência. Toda esta situação é compreensível apenas dentro do mundo de pensamento do Judaísmo, mas é muito mais preciso do que qualquer coisa que o Judaísmo não-cristão tenha produzido naquele estágio.

O cristianismo, então, começou como um movimento de ressurreição. Essa é a primeira etapa desta terceira fase de meu argumento.

A segunda etapa baseia-se no que eu estava dizendo na primeira parte desta palestra sobre as expectativas judaicas da ressurreição. Como vimos, a "ressurreição" no Judaísmo do Segundo Templo funcionava dentro de um controle narrativo sobre o exílio e restauração, e sobre o sofrimento e reivindicação dos mártires. Deixem-me lembrá-los novamente: ela começou a vida como uma metáfora para o retorno do exílio, a renovação da aliança, e da limpeza de Israel de seus pecados. "Ressurreição" foi referida de várias maneiras, e tomou o seu lugar dentro de uma série bastante variada de especulações sobre o futuro da humanidade em geral, e Israel em particular depois da sua morte real do corpo. A ressurreição dos mortos foi, assim, um símbolo para a vinda de todas as eras novas, e dela própria, sendo literalmente, um elemento central no pacote: quando YHVH restaurasse o destino de seu povo, então é claro que Abraão, Isaque e Jacó, juntamente com o povo de Deus que foi abatido, incluindo os mártires que morreram pela causa, seriam reincorporados, ressuscitados à nova vida no novo mundo de Deus. Os judeus do Segundo Templo acreditavam na ressurreição dessa forma; então, essa crença acreditava por um lado, que a reincorporação dos humanos anteriormente mortos viria, e de outro, na inauguração da nova era, uma nova aliança, em que todos os justos mortos seriam reerguidos simultaneamente. Ressurreição significava tanto que os mortos estariam vivos novamente com novos corpos renovados quanto que a Era a Vir tinha sido pelo menos inaugurada.

Se, portanto, a qualquer momento durante este período que você disse a um judeu, "a ressurreição aconteceu!", você tivesse recebido a resposta perplexa (ou irritada) que, obviamente, não aconteceu, já que os patriarcas, profetas e mártires não estavam andando vivos novamente, e que desde a restauração de que fala Ezequiel 37 claramente não tinha acontecido – para não mencionar as grandes profecias de Isaías e do resto. E se, no meio da explicação, você tivesse dito que você não quis dizer tudo isso, que o que você quis dizer foi que você teve um novo sentido maravilhoso de cura divina e de perdão, ou que você acreditava que o ex-líder do seu movimento estava vivo na presença de Deus após as suas vergonhosas tortura e morte, seu interlocutor poderia ter lhe congratulado por ter uma experiência desse tipo e, discutindo com você sobre tal crença, ele ou ela ainda estaria sendo confundido por qual razão você tinha falado da "ressurreição dos mortos" ao se referir a qualquer uma destas coisas. Estas coisas implicam no que "a ressurreição dos mortos" não se referia.

No entanto – e esta é a terceira etapa desta terceira fase do argumento – embora, tivéssemos enfatizado, a nova era não ocorreu da mesma forma que os judeus do primeiro século imaginaram, e a ressurreição de todo o velho povo de Deus não tinha acontecido, mas a igreja mais antiga persistiu em declarar categoricamente não apenas que Jesus ressuscitou dos mortos, mas também que "a ressurreição dos mortos" já havia ocorrido. Além do mais, como temos observado, os membros da igreja ativamente redesenharam sua visão do mundo – sua práxis característica, suas histórias controladoras, seu universo simbólico, e sua teologia básica – em torno deste novo ponto fixo. Eles se comportaram, em outras palavras, como se a nova era já tivesse chegado. Essa foi a lógica interna da missão aos gentios: enquanto Deus estivesse fazendo a Israel o que ele faria a Israel, os gentios, pelo menos, compartilhariam a bênção (Isaías 66:18-23; Zacarias 14:16). Eles não se comportaram como se tivessem um novo tipo de experiência religiosa, ou como se o ex-líder estivesse vivo e bem na presença de Deus, seja como um anjo ou um espírito ou o que seja. A única explicação para seu comportamento, suas histórias, seus símbolos, e sua teologia é que eles realmente acreditavam que Jesus tinha ressuscitado corporalmente dos mortos. Esta conclusão é tão bem fundamentada que, hoje, mesmo aqueles que gostariam de insistir que o corpo de Jesus de fato permaneceu em decomposição no túmulo concordam que os primeiros cristãos acreditavam que ele ressurgiu, deixando um túmulo vazio atrás dele.


Conclusão: as Questões as Opções


Eu argumentei que o Cristianismo começou reconhecidamente como movimento judeu do primeiro século: era um movimento do reino de Deus, um movimento messiânico, e um movimento de ressurreição. O contexto judaico de todos esses movimentos indicava certas expectativas que decididamente não foram cumpridas. De fato, a crucificação de Jesus não foi meramente o símbolo de esperança diferida, mas de esperança esmagada e pisoteada. O historiador é, portanto, obrigado a procurar uma explicação, não só do porquê do Cristianismo primitivo ter começado em primeiro lugar, mas também por que razão tomou a forma que tomou. Na parte final desta palestra, deixem-me rever rapidamente algumas das opções que foram discutidas no debate.

Há, para começar, algumas trilhas falsas bastante conhecidas. Algumas, por exemplo, sugeriram que Jesus realmente não morreu na cruz. Contra todos os proponentes desta chamada teoria da “síncope”, como tem sido freqüentemente chamada, é preciso salientar que os romanos sabiam como matar pessoas. O reaparecimento de um Jesus desgastado e esgotado dificilmente teria sugerido que ele tinha morrido e saído do outro lado, que o reino de Deus já tinha vindo, que "a ressurreição" tinha ocorrido, e que ele era realmente o Messias, que derrotaria os inimigos de Deus e reconstruiria o Templo.

Igualmente, há abundância de pessoas se esforçando para produzir teorias selvagens e fantásticas para explicar que Jesus realmente não ressuscitou dos mortos ou deixou um túmulo vazio atrás dele. Penso em um livro chamado The Tomb of God, publicado há dois anos, que termina dizendo que os ossos de Jesus encontram-se agora numa tumba selada no sudoeste da França.

Entre as acusações mais sérias à ressurreição de Jesus – e talvez a mais famosa neste século – foi a de Rudolf Bultmann. Em uma passagem muito discutida, Bultmann afirma que a linguagem da ressurreição da igreja primitiva era usada para designar não um evento separado da crucificação, mas a fé dos primeiros discípulos em que a crucificação não foi uma derrota trágica, mas o ato divino de salvação. A Páscoa é, portanto, sobre o surgimento, não de Jesus, mas da fé da igreja primitiva.

Meu argumento completo, até agora, se expressa muito fortemente contra isso. Se formos pensar nos termos judeus do primeiro século, é impossível conceber que tipo de experiência religiosa ou espiritual alguém poderia ter que os fizesse dizer que o reino de Deus havia chegado quando ele claramente não tinha, que um líder crucificado era o Messias quando ele obviamente não era, ou que a ressurreição ocorreu no mês passado quando ela obviamente não tinha acontecido. Por mais forte que o sentimento dos discípulos que Jesus tinha sido reivindicado possa ter sido, que haviam sido perdoados, ou algo assim, eles ainda não tinham dito que ele havia ressuscitado dos mortos. Eles poderiam, talvez, ter escrito uma nova versão de 2 Macabeus 7. Eles poderiam ter sugerido que Jesus havia previsto sua própria ressurreição. Eles não tinham dito que ela tinha realmente acontecido.

Essa incapacidade de pensar em termos do primeiro século também vicia aqueles que propuseram variações no regime bultmanniano. Edward Schillebeeckx, por exemplo, declara que quando os discípulos foram ao túmulo suas mentes estavam tão cheias de luz que não importava se havia um corpo lá ou não. O que aconteceu no aparecimento da Páscoa foi uma conversão de Jesus como o Cristo, que agora veio a eles como a luz do mundo, e essa foi a "iluminação" pela qual os discípulos foram "justificados". Schillebeeckx adapta a idéia de Bultmann, com uma precisão maior; superaram os profundos sentimentos de culpa por terem fugido e abandonado Jesus, experimentando na manhã de Páscoa uma sensação maravilhosa do perdão de Deus e da presença permanente de Jesus. Isto se tornou então o início da experiência caracteristicamente cristã, o conhecendo do perdão de Deus e/ou o conhecimento da presença de Jesus.

O problema com isto é que se você tivesse dito a um judeu do primeiro século que você teve uma experiência maravilhosa de perdão (ou amor e graça) de Deus, ela ou ele teria ficado encantado por você. Mas se você tivesse dito que o reino havia chegado, que um líder crucificado era o Messias ou que a ressurreição tinha ocorrido, eles teriam ficado profundamente confusos se não completamente ofendidos. Esta linguagem não é simplesmente sobre as experiências particulares, mesmo as experiências particulares comunicáveis, de perdão. É sobre a escatologia, sobre alguma coisa acontecendo dentro da história, que resultaria em um mundo que agora está sendo um lugar muito diferente. Nem Bultmann nem Schillebeeckx podem explicar a partir dos textos a ascensão do Cristianismo como a conhecemos.

Um argumento adicional de Gerd Lüdemann reforçou a hipótese de Bultmann. Ele sugere que Pedro estava tão profundamente entristecido com a morte de Jesus que ele experimentou o que, como vimos anteriormente, as pessoas em um estado tão freqüente relatam: um sentido de presença amorosa da pessoa falecida recentemente, talvez até mesmo um sentido dele falando e o tranqüilizando. Pedro então, assim Lüdemann nos pede para acreditar, comunicou esta experiência aos outros, que foram espontaneamente enchidos de alegria ao pensar que Jesus ainda estava vivo. Enquanto isso, Paulo sofreu um tipo de alucinação oposta: tendo sido veemente oposto ao novo movimento, ele foi vencido pela culpa e experimentou uma fantasia de culpa induzida a qual ele, também, foi capaz de compartilhar com os outros para efeitos extraordinariamente poderosos.

Minha resposta a esta proposta é (a) isso exige uma enorme credulidade, supor que, mesmo Pedro e Paulo tendo essas fantasias ou alucinações, elas teriam gerado mais de um comentário de compaixão entre os seus colegas ou contemporâneos, (b) que teorias psicológicas desse tipo – sobre pessoas de dois mil anos atrás em uma cultura diferente – são na melhor das hipóteses improváveis e, na pior descontroladamente fantásticas. Mas, o mais importante, (c) a proposta simplesmente não faz sentido dentro do mundo ou do Judaísmo do primeiro século.

Como se vê na história de Rode em Atos 12, judeus do primeiro século conheciam visitas post-mortem de amigos recentemente falecidos, e que já tinham sistemas de linguagem para falar de fenômenos desse tipo. "Deve ser o seu anjo", disseram eles, quando achavam que estavam tendo uma visita deste tipo de Pedro. Eles não disseram que Pedro tinha ressuscitado dos mortos. Em outras palavras, se tivéssemos sido membros do grupo de Atos 12, e se tivéssemos tido conhecimento de um recém executado Pedro como uma presença fantasmagórica ou espiritual conosco, teríamos de concluir, com certeza, de que Pedro estava agora vivo com Deus. Mas ainda lembraríamos que teríamos que reivindicar o seu cadáver para o enterro no dia seguinte, e ainda acreditaríamos que ele permaneceria ali até ser ressuscitado, juntamente com o resto do povo de Deus, no último dia.

Como vêem, teria sido muito natural para judeus do primeiro século, especialmente se já mal pertencessem a um movimento do reino de Deus, que dizia sobre um líder que tinha pagado a pena capital nas mãos das autoridades, que a sua alma estava na mão de Deus, que ele estava vivo para Deus, que ele tinha sido exaltado ao paraíso, e que se foi, portanto, entre os justos que haviam sido injustamente condenados à morte, mas que deverá ressuscitar novamente para governar o mundo no bom tempo de Deus. (Isto é, claro, não é exatamente o que Provérbios 3:1-9 diz?) E se os seguidores de Jesus de fato tivessem a sensação de que ele estava vivo de uma maneira não-física, e mesmo que ele ainda estivesse presente com eles de alguma forma, isto seria como eles teriam se expressado. Mas, sendo assim, não teriam reivindicado (para enfatizar esse ponto novamente) o eschaton, dizendo que o ansiado reino de Deus já tinha chegado; não teriam dito que o seu líder crucificado era o Messias, e acima de tudo eles teriam dito que ele havia ressuscitado dos mortos ou que "a ressurreição dos mortos" já tinha ocorrido.

Particularmente, nós não temos nenhuma razão para supor que, após a crucificação de um suposto messias alguém ia supor que ele tinha sido exaltado a um lugar de regência do mundo ou senhorio divino. Ninguém, até onde sabemos, jamais sugeriu que este era o caso, após as mortes de Judas, o Galileu, Simão bar-Giora, ou Simeão ben-Kosiba. Na verdade, tal sugestão provavelmente seria considerada ridícula na melhor das hipóteses, e escandalosa na pior. O fracasso de tais homens para conduzir com sucesso um movimento messiânico impedia-os de uma análise mais aprofundada de como seriam os candidatos a tal posição. Mesmo se alguém tivesse feito tal sugestão, porém, não teria dito que essa pessoa seria “ressuscitada dos mortos”. A crença na exaltação sozinha, não conduziria, no mundo do judaísmo do primeiro século, à crença na ressurreição. Se, pelo contrário, supormos que os seguidores de um suposto messias crucificado primeiro acreditariam que ele tinha sido ressuscitado dos mortos, então podemos traçar uma linha clara que posteriormente os faria acreditar que ele devia ser o Messias. E se ele era o Messias, então ele também era o governante do mundo prometido em Salmos 89 e Daniel 7, assim ele foi exaltado sobre o mundo, e assim por diante. Todos os nossos textos sugerem que esta realmente foi a linha de pensamento que os primeiros cristãos seguiram.

É óbvio que eu estou lidando com apenas uma pequena fração das teorias que têm avançado sobre o que aconteceu na Páscoa, mas espero ter dito o suficiente para mostrar que os defensores de qualquer teoria de que o corpo de Jesus permaneceu no túmulo, enquanto os primeiros cristãos disseram que a ressurreição ocorreu, tem uma tarefa difícil pela frente, simplesmente em termos de história do primeiro século. O que encontramos, pelo contrário, é a reivindicação cristã primitiva universal de que Jesus atravessou, por assim dizer, a morte e escapou do outro lado, que ele estava não apenas em um estado intermediário ou existência desencarnada, mas que o seu corpo tinha sido transformado de uma maneira para que eles, seus seguidores, que estavam completamente despreparados, tivessem que se acostumar. E eles deram isso como a razão pela qual eles acreditavam que seu anúncio do reino tinha atingido seu clímax, o seu cumprimento, em sua morte e ressurreição. Eles deram isso como a razão por que eles continuaram a considerá-lo como o Messias, apesar de sua morte vergonhosa. Eles deram isso como a razão para dizer que "a ressurreição" tinha, em princípio, já acontecido. E mais, teceram essa crença tão firmemente em sua teologia, sua práxis, suas histórias, e seus símbolos que (a menos que estejamos preparados para parar de escrever história e começar a escrever fantasia em vez disso) não podemos encarar a sua vida comum sem ela.

Proponho, portanto, como resultado deste tratamento amplo do Judaísmo do Segundo Templo e do Cristianismo primitivo, que não há, de fato, nenhuma outra solução para o problema histórico do que concluir que algo extraordinário havia acontecido com o corpo de Jesus. Nenhuma outra ponte levará o historiador através do rio de um pilar ao outro.

Mas o que foi que aconteceu, e como os primeiros cristãos descreveram isso? Essa é a questão que nos ocuparemos na segunda palestra, à medida que olharmos mais detalhadamente a ascensão atual do cristianismo à luz dos textos-chave de Paulo e dos evangelhos.