Sabe-se que desde muitos séculos os cristãos chamam Jesus de Senhor fazendo alusão a fé em sua divindade. No entanto, vários grupos e indivíduos tendem a argumentar que isso é bem posterior, que surgiu com Paulo ou que nem mesmo Paulo afirmou tais coisas.
Dentre eles posso citar as Testemunhas de Jeová e os muçulmanos, principalmente os que vêm fazendo um trabalho de divulgação do Islã (embora, geralmente, e provavelmente de forma sincera, sejam equivocadas quando se referem a Jesus, ao NT e aos primeiros cristãos). Diante disso resolvi escrever alguns artigos com algumas informações que refutam a maioria dessas alegações.
Comecemos por uma que é verdadeira: nem sempre a palavra KURIOS significa ADONAI. Isso pode ser visto em vários exemplos tanto nas escrituras dos hebreus quanto nas dos nazarenos, o AT e NT (que para os cristãos ambos são Palavra de Deus). KURIOS também era dirigido ao imperador e a outros lideres.
Diante disso, deve-se buscar algumas pistas para a interpretação, onde o sentido é de divindade, já que esse termo, assim como outros relacionados a Jesus, possuem mais de um significado (v. Cristologia do Novo Testamento, Oscar Cullmann, p. 257 a 309). O objetivo desse presente artigo é tratar de dois casos em que se referem explicitamente a Jesus como Deus.
Fp 2, 10-11: “Portanto Deus o elevou ao lugar mais alto e lhe deu um nome acima de todo nome, para que, em honra ao nome dado a ele TODO JOELHO SE DOBRE – no céu, na terra e debaixo da terra – E TODA LINGUA RECONHEÇA que Yeshua, o Messias, é ADONAI – para a glória de Deus, o Pai.
Essa tradução do NT feita pelo judeu David Stern deixa claro, até mais que outros tradutores, que colocam apenas “SENHOR”, que Jesus é ADONAI. Segundo alguns, essa seria uma tradução tendenciosa e ilógica que simplesmente mostra as preferências teológicas do tradutor. Nada mais injusto que isso. Se formos ao AT, em Isaías, veremos que a IAHWEH, todo joelho se dobrará: “Diante de mim se dobrará todo o joelho, toda língua jurará por mim, dizendo: Só em IAHWEH há justiça e força” (45, 23-24).
Assim, temos em cerca de 61 e 62 d.C, uma alusão em carta de uma passagem que Deus fala de si mesmo, mas que agora é feita em referência a Jesus. A Deus todo joelho se dobrará, a Jesus também; toda língua confessará/jurará, a Jesus também.
Mais tarde veremos porque só depois da ressurreição foi “conferido” (charizomai) e como isso não contradiz seu senhorio desde a Eternidade. Basta aqui expor que é uma mensão a um texto do AT sobre Deus, e que na menção de Paulo há menção a “Deus Pai”. Vamos ao outro caso.
Hb 1, 10: “No principio, Senhor, firmaste os fundamentos da terra; o céu é obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como roupas; e tu os enrolarás como um manto. Sim, eles serão trocados como peças usadas, mas tu permaneces o mesmo, os teus anos jamais terão fim.”
Para alguns isso seria pouca coisa. Só uma referência a vitória de Jesus, e que os anos dele jamais terão fim. No entanto, essa também é uma alusão do AT a Deus que é dito para Jesus. O Sl 102 (101) claramente aplica a IAHWEH. No mesmo livro há outras alusões, mas vou me ater as referências ao “Senhor”.
Mas por que, então, se diz que em determinado momento Jesus “foi feito” Senhor? Essa é uma forma comum de se declarar no presente, de forma litúrgica, o que se é por natureza. Isso pode ser visto até mesmo a respeito de Deus:
“O Senhor reina! Vestiu-se de majestade; de majestade vestiu-se o Senhor e armou-se de poder! O mundo está firme e não se abalará. O teu trono está firme desde a antigüidade; tu existes desde a eternidade. As águas se levantaram, Senhor, as águas levantaram a voz; as águas levantaram seu bramido. Mais poderoso do que o estrondo das águas impetuosas, mais poderoso do que as ondas do mar é o Senhor nas alturas. Os teus mandamentos permanecem firmes e fiéis; a santidade, Senhor, é o ornamento perpétuo da tua casa.” - Salmos 93:1-5
Deus sempre foi e é Majestoso e Poderoso, mas por que o texto diz que ele vestiu-se de majestade e armou-se de poder? Porque essa é uma forma litúrgica de se declarar hoje o que se é no “Eterno Hoje”, pois, como bem disse Oscar Cullmann, “se Cristo é um com Deus desde sua ressurreição é necessário que desde o princípio tenha estado unido a Ele”. Ora, se Deus é Eterno e imutável, e se os textos do AT aplicados a Deus como Senhor são transferidos para Jesus, só podemos concluir que Jesus é esse Senhor que é o único Senhor (1Co 8, 6). Se a Jesus é dado, ou seja, declarado aqui no tempo, reconhecido, o mesmo nome que é sobre todo o nome (assim como é feito no exemplo feito em relação a Deus), então podemos concluir que Jesus é Deus desde a Eternidade.
A partir daqui surgem algumas questões: por que só foi declarado depois que Jesus ressuscitou? Por que não é algo explicitamente dito por Jesus?
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domingo, 1 de julho de 2012
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Jesus é o Messias? - Parte 3
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Conheça o blog do Projeto: https://anscarvonier.wordpress.com/
Retirado de The Life and Times of Jesus the Messiah (1883), escrito por (1825-1889; convertido do Judaismo ao Anglicanismo)
Edersheim estudou de forma intensiva as doutrinas, práticas e formas do judaísmo nos séculos anteriores e posteriores ao inicio da era cristã. (Para mais informações sobre ele: http://en.wikipedia.org/wiki/Alfred_Edersheim )
Lista das passagens messiânicas do Antigo Testamento vistos em antigos escritos rabínicos.
A lista a seguir contém as passagens do Velho Testamento aplicadas ao Messias ou aos tempos messiânicos nos mais antigos escritos judaicos... As obras rabínicas mencionadas são o Targumim, os dois Talmudes e os Midrashim mais antigos, em vez do Zohar (que a data de sua composição é debatida), trabalhos cabalísticos ou os Midrashim mais recentes, além, é claro, dos escritos rabinos posteriores. Tenho citado frequentemente o Yakut, obra bem conhecida, pois, embora seja uma obra relativamente tardia, é, como o próprio nome indica, uma seleção e compilação de mais de cinqüenta escritos antigos e confiáveis, e nos apresenta passagens que de outra forma não seriam acessíveis. Tenho aproveitado muito dele, além de ter sido forçado, de forma relutante, à conclusão de que o Midrashim que nós temos foi adulterado em algumas ocasiões controversas.
Isaias 52, 3 é aplicado de forma messiânica no Talmud (Sanh. 97 b), enquanto a última cláusula do versículo 2 é uma das passagens citadas no Midrash sobre Lamentações (Ver Is 11, 12). A declaração evangélica de Isaias 52, 7 é comentada dessa forma em Yalkut (vol. II. P. 53 c):
Na hora em que O Santo (Bendito seja Seu Nome) redimir Israel, 3 dias antes da vinda do Messias virá Elias, e permanecerá diante das montanhas de Israel, e chorará e lamentará por eles, e dirá a eles: "Olhai (para a) Terra de Israel, por quanto tempo você ficará numa região seca e desolada?" E a sua voz será ouvida de canto a canto do mundo, e depois de tudo será dito a eles: "A Paz chegou ao mundo, a Paz chegou ao mundo, como está dito: "Quão belo (por sobre / acima) as montanhas!" E quando os (malignos? pecadores?) ouvirem isso, regozijarão, e então dirão uns aos outros: "A Paz chegou até nós". No segundo dia, ele (Elias?) permanecerá diante das montanhas de Israel, e dirá: "O Bem virá a este mundo, o bem virá a este mundo, como está escrito: 'que trará boas novas do bem' ". No terceiro dia, ele (Elias?) virá e permanecerá diante das montanhas de Israel, e dirá: "A Salvação chegou ao mundo, a Salvação chegou ao mundo, como está escrito: que promulgará/espalhará a Salvação' ".
Do mesmo modo, essa passagem é citada em Yalkut sobre Salmos 122:1. Veja também as observações sobre Cânticos 2:13.
O versículo 8 é uma das passagens que o Midrash se refere acima sobre as Lamentações, e é frequentemente usado em outros lugares como messiânicas.
O versículo 12 é aplicado de forma messiânica em Shemoth R. 15 e 19.
O versículo 13 é aplicado expressamente aplicado no Targum para o Messias. Sobre as palavras “Ele será exaltado e enaltecido”, lemos em Yalkut II. (Par. 338, p. 53 c): Ele deve ser superior a Abraão, a quem se aplica Genesis 14: 22; maior que Moisés, como fala Números 11:12; superior aos anjos, como diz Ezequiel 1:18. Mas a Ele isso não se aplica em Zech. IV. 7: “Quem és tu, ó grande monte?” “E Ele foi ferido pelas nossas transgressões, moído pelas nossas iniqüidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. R. Huma diz, em nome de R. Acha: Todos os sofrimentos são divididos em três partes: uma parte vai para Davi e os Patriarcas, outra para a geração rebelde (Israel rebelde), e o terceiro para o Rei Messias, como está escrito (Sl 2:7), “Tenho estabelecido o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião”. Segue, então, uma citação curiosa do Midrash sobre Samuel, em que o Messias indica que sua morada é no monte Sião, e que a culpa está relacionada com a destruição de suas paredes.
Em relação a Isaias 53, recordamos que o nome messiânico de “leproso” (Sanh. 98 b) é expressamente baseado nele. No Targum, Isaias 53:10 é aplicado para o Reino do Messias. O versículo 5 é interpretado de forma messiânica referente a Samuel (Ed. Lemberg, p. 45), onde é dito que todos os sofrimentos são divididos em três, um dos quais é do Messias – uma observação que é conectada com Rute 2:44.
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Retirado de The Life and Times of Jesus the Messiah (1883), escrito por (1825-1889; convertido do Judaismo ao Anglicanismo)
Edersheim estudou de forma intensiva as doutrinas, práticas e formas do judaísmo nos séculos anteriores e posteriores ao inicio da era cristã. (Para mais informações sobre ele: http://en.wikipedia.org/wiki/Alfred_Edersheim )
Lista das passagens messiânicas do Antigo Testamento vistos em antigos escritos rabínicos.
A lista a seguir contém as passagens do Velho Testamento aplicadas ao Messias ou aos tempos messiânicos nos mais antigos escritos judaicos... As obras rabínicas mencionadas são o Targumim, os dois Talmudes e os Midrashim mais antigos, em vez do Zohar (que a data de sua composição é debatida), trabalhos cabalísticos ou os Midrashim mais recentes, além, é claro, dos escritos rabinos posteriores. Tenho citado frequentemente o Yakut, obra bem conhecida, pois, embora seja uma obra relativamente tardia, é, como o próprio nome indica, uma seleção e compilação de mais de cinqüenta escritos antigos e confiáveis, e nos apresenta passagens que de outra forma não seriam acessíveis. Tenho aproveitado muito dele, além de ter sido forçado, de forma relutante, à conclusão de que o Midrashim que nós temos foi adulterado em algumas ocasiões controversas.
Isaias 52, 3 é aplicado de forma messiânica no Talmud (Sanh. 97 b), enquanto a última cláusula do versículo 2 é uma das passagens citadas no Midrash sobre Lamentações (Ver Is 11, 12). A declaração evangélica de Isaias 52, 7 é comentada dessa forma em Yalkut (vol. II. P. 53 c):
Na hora em que O Santo (Bendito seja Seu Nome) redimir Israel, 3 dias antes da vinda do Messias virá Elias, e permanecerá diante das montanhas de Israel, e chorará e lamentará por eles, e dirá a eles: "Olhai (para a) Terra de Israel, por quanto tempo você ficará numa região seca e desolada?" E a sua voz será ouvida de canto a canto do mundo, e depois de tudo será dito a eles: "A Paz chegou ao mundo, a Paz chegou ao mundo, como está dito: "Quão belo (por sobre / acima) as montanhas!" E quando os (malignos? pecadores?) ouvirem isso, regozijarão, e então dirão uns aos outros: "A Paz chegou até nós". No segundo dia, ele (Elias?) permanecerá diante das montanhas de Israel, e dirá: "O Bem virá a este mundo, o bem virá a este mundo, como está escrito: 'que trará boas novas do bem' ". No terceiro dia, ele (Elias?) virá e permanecerá diante das montanhas de Israel, e dirá: "A Salvação chegou ao mundo, a Salvação chegou ao mundo, como está escrito: que promulgará/espalhará a Salvação' ".
Do mesmo modo, essa passagem é citada em Yalkut sobre Salmos 122:1. Veja também as observações sobre Cânticos 2:13.
O versículo 8 é uma das passagens que o Midrash se refere acima sobre as Lamentações, e é frequentemente usado em outros lugares como messiânicas.
O versículo 12 é aplicado de forma messiânica em Shemoth R. 15 e 19.
O versículo 13 é aplicado expressamente aplicado no Targum para o Messias. Sobre as palavras “Ele será exaltado e enaltecido”, lemos em Yalkut II. (Par. 338, p. 53 c): Ele deve ser superior a Abraão, a quem se aplica Genesis 14: 22; maior que Moisés, como fala Números 11:12; superior aos anjos, como diz Ezequiel 1:18. Mas a Ele isso não se aplica em Zech. IV. 7: “Quem és tu, ó grande monte?” “E Ele foi ferido pelas nossas transgressões, moído pelas nossas iniqüidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. R. Huma diz, em nome de R. Acha: Todos os sofrimentos são divididos em três partes: uma parte vai para Davi e os Patriarcas, outra para a geração rebelde (Israel rebelde), e o terceiro para o Rei Messias, como está escrito (Sl 2:7), “Tenho estabelecido o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião”. Segue, então, uma citação curiosa do Midrash sobre Samuel, em que o Messias indica que sua morada é no monte Sião, e que a culpa está relacionada com a destruição de suas paredes.
Em relação a Isaias 53, recordamos que o nome messiânico de “leproso” (Sanh. 98 b) é expressamente baseado nele. No Targum, Isaias 53:10 é aplicado para o Reino do Messias. O versículo 5 é interpretado de forma messiânica referente a Samuel (Ed. Lemberg, p. 45), onde é dito que todos os sofrimentos são divididos em três, um dos quais é do Messias – uma observação que é conectada com Rute 2:44.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O Jesus do "Código da Vinci" - Por H. Wayne House
Esse já é um assunto batido, mas sempre tem gente pousando de conhecedor depois que leu livros como o Código da Vinci. Eu lembro da tempestade em copo d'água que foi feito, inclusive de um professor meu que estava jogando na cara dos seus alunos o quanto a Bíblia é falsa, como "prova" o Código da Vinci. Por muitas das afirmações falsas que estão no livro ainda serem divulgadas e cridas (nem todos passaram a acreditar por meio desse livro, mas é o mais comum), resolvi postar esse comentário. Bom proveito:
Em 2003, o escritor Dan Brown publicou seu quarto livro, O Código da Vinci. O livro é um romance, embora Brown afirme: “Todas as descrições de ilustrações, arquitetura, documentos e rituais secretos desse romance são exatos”, declaração que provocou alvoroço na comunidade cristã. As asserções de Brown a respeito de Jesus foram tão radicais quanto falsas. Os erros bem documentados em O código da Vinci levaram Sandra Miesel, da revista Crisis, a gracejar: “o Livro O código da Vinci está tão cheio de erros que o leitor instruído, na verdade,aplaude as raras ocasiões que Brown tropeça (sem querer) na verdade”. [1] Até mesmo Bart Ehrman, que discutiremos mais adiante neste capítulo, tem palavras depreciativas para a falta de exatidão histórica de Brown e sua pesquisa descuidada. [2]
Infelizmente, talvez muitas pessoas não tenham o discernimento de separar a verdade da ficção na obra de Brown. Embora o alvoroço em relação ao romance tenha se aquietado, alguns dos argumentos apresentados no livro continuam a reverberar em toda a sociedade. A popularidade do livro O código da Vinci levou a um aumento da aceitação pública pela busca de alternativas à percepção ortodoxa de Jesus. Todavia, muitas afirmações feitas por Brown são simplesmente recontagens exageradas dos debates dos estudiosos da atualidade. Limitaremos nossa crítica às afirmações de Brown a respeito de Jesus, especialmente em relação à divindade dele, e às interpretações errôneas de Brown das versões gnósticas de Jesus.
O Jesus humano de Dan Brown
Jesus foi feito Deus no Concílio de Niceia. A certa altura do romance, um dos personagens de Brown está instruindo outro a respeito do Jesus “real”. Ele diz: “Nessa reunião [Concilio de Nicéia], muitos aspectos do cristianismo foram debatidos e votados – a data da Páscoa, o papel dos bispos, a administração dos sacramentos e, claro, a divindade de Jesus”. Mais adiante, esse personagem, Teabing, em um diálogo, diz a outro:
- Meu caro, até esse momento da história, Jesus foi visto por seus seguidores como um profeta mortal, [...] um grande e poderoso homem, mas apenas um homem. Um mortal.- Não como o Filho de Deus?- Isso mesmo, o estabelecimento de Jesus como “o Filho de Deus” foi oficialmente proposto e votado no Concílio de Nicéia.
Brown continua e, ainda por intermédio desse personagem, declara que a votação foi secreta, e que era Constantino quem desejava se tornar o Jesus divino. Ele diz que a igreja roubou Jesus de seus seguidores primitivos, “seqüestrando a mensagem humana dele, envolvendo-a em um impenetrável manto de divindade e usando-a para expandir o poder dela mesma”. Ele alega que os “evangelhos” que enfatizavam a humanidade de Jesus foram reunidos e queimados por Constantino, mas alguns escaparam da destruição. Aqueles que usavam esses evangelhos eram chamados de “heréticos”, embora usassem os evangelhos “originais”. Entre esses “evangelhos heréticos”, diz Brown, estavam os pergaminhos do Mar morto e os “pergaminhos cópticos” encontrados em Nag Hammadi. [3] Brown argumenta que esses documentos “falam do ministério de Cristo em termos bem humanos”.
Resposta à alegação de Brown
O suporte bíblico para a divindade de Jesus. Essa bizarra declaração a respeito de Jesus simplesmente é falsa, e isso é fácil de provar. Primeiro, os próprios evangelhos testificam a divindade de Jesus. João 1.1,2 diz “No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”. João 8:58 afirma: “Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Mesmo se aceitarmos a erudição mais liberal de que o Evangelho de João foi escrito mais de dois séculos antes do Concílio de Nicéia. O apóstolo Paulo, na epístola aos Romanos, escrita em 55 e 57 d.C., pouco mais de vinte anos após a crucificação de Jesus, indica claramente que Jesus era divino: “O Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém” (Rm 9:5).
A divindade de Jesus na igreja pós-apostólica. A doutrina da divindade de Jesus foi defendida e ensinada logo no início da igreja. O pai apostólico Inácio acreditava na divindade de Jesus e, por volta de 105 d.C., escreveu: “Deus mesmo sendo manifestado na forma humana para a renovação da vida eterna”. [4]
Justino Mártir escreveu na primeira metade do éculo II: “O Pai do universo tem um Filho, que sendo também o primogênito Verbo de Deus, é mesmo Deus” [5]
Clemente, por volta de 150 d.C., defendeu a divindade de Jesus e a Trindade ao dizer: “Se esse é seu desejo, seja também você iniciado; e você se juntará ao coro com os anjos em torno do não gerado, indestrutível e único verdadeiro Deus, a Palavra de Deus, engrandecendo o hino conosco. Esse Jesus, que é eterno, o único grande Sumo Sacerdote do único Deus e Pai dele, ora pelos homens e os exorta”. [6]
A divindade de Jesus no Concílio de Nicéia. Dan Brown parece não saber do que se tratava o Concílio de Nicéia. Não era a divindade de Jesus que estava em debate, mas o novo ensinamento de um homem chamado Ário. O Concílio de Niceia não foi convocado para solidificar o poder com a elaboração de uma nova doutrina, mas para unificar a igreja e defender o ensinamento original das novas idéias. Ário acreditava que Jesus era divino, mas de forma diferente ou menor que o Pai, pois ele alegava que Jesus fora criado pelo Pai. A grande maioria dos bispos presentes no Concílio de Niceia era contra esse ensinamento. O único debate em relação à linguagem do credo apresentado por eles seria para descrever de forma mais acurada a relação do Pai e do Filho. [7]
Por fim, eles chegaram à linguagem familiar do Credo de Niceia:
Creio em um só Deus, Pai Onipotente, criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis e em Jesus Cristo, Senhor nosso, Filho de Deus unigênito, e nascido do Pai, antes de todos os séculos.
Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro, gerado, não feito, da mesma substância do Pai e pelo qual foram feitas todas as coisas, o qual por nós foi crucificado e por nossa salvação desceu dos céus, encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem e foi feito homem.
Foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras. E subiu ao céu, onde há de vir segunda vez para julgar os vivos e os mortos e o seu Reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo que também é o Senhor e dá vida, e procede do Pai e do Filho com os quais é juntamente adorado e glorificado, e que falou pelos profetas. Creio na Igreja que é uma, santa, católica e apostólica. Creio no Batismo para a remissão dos pecados e espero a Ressurreição dos mortos e a vida do futuro século. Amém.
Quanto à “reunião” realizada por Constantino de todos os “evangelhos heréticos”, os próprios escritos de Nag Hammadi comprovam que são falsos. Eles são datados de alguma época do século IV, provavelmente, depois de 350 d.C., e é possível que, até mesmo, sejam de “uma geração posterior” [8], tornando a composição deles, pelo menos, 25 anos posterior ao Concílio de Niceia.
A humanidade de Jesus no gnosticismo e nos evangelhos canônicos. De acordo com Brown, o Jesus dos evangelhos gnósticos é mais humano que o Jesus dos evangelhos canônicos. [...] A palavra gnóstico é um termo abrangente para um sistema filosófico baseado em “conhecimento secreto” (o termo gnóstico deriva da palavra grega para conhecimento). Os gnósticos acreditavam possuir o conhecimento correto do que era a realidade, o que não era visível para todas as outras pessoas.
Havia algumas crenças básicas entre os gnósticos. A essência divina original produziu outras essências divinas, mas aconteceu algum tipo de queda no reino espiritual. Como resultado disso, a matéria veio à existência. Essa matéria, portanto, foi produzida do mal. Todavia, parte da natureza original, pura e espiritual foi posta em algumas almas. Essas almas atravessaram o mundo material em seu retorno ao mundo divino, mas foram presas em sua “concha” material. Um “redentor”, a saber, Jesus, veio para revelar o meio de escapar do mundo material por meio desse bocado de natureza divina. [9]
Contudo, uma vez que, no gnosticismo, a matéria é inerentemente má, o Jesus gnóstico classifica-se em algum ponto entre ser um veículo humano para o espírito divino do Filho e uma simples aparição que não tem, de modo algum, forma material. Os evangelhos gnósticos, em vez de enfatizar a humanidade de Jesus, quase a excluem.
Retirado do livro “O Jesus que nunca existiu”. Para mais informações sobre as fontes pré-nicenas da divindade de Jesus, conferir aqui e aqui.
1 – MIESEL,Sandra. “Dismantling the Da Vinci Code”, reista Crisis, 8 de julho de 2004.
2 – Ehrman diz: “Como a maioria dos historiadores que dedicou a vida ao estudo das fontes antigas de Jesus e do cristianismo primitivo, comecei imediatamente a ver problemas nas alegações históricas feitas no livro. Havia inúmeros erros, alguns ridículos, que não só eram óbvios para um especialista, mas também desnecessários para a trama. Se o autor tivesse apenas feito um pouco mais de pesqusia, teria sido capaz de apresentar um relato histórico mais preciso, sem compreometer de forma alguma a história que ele tinha para contar” Ehrman, Bart D. Truth and fiction in the da Vinci Code. New York: Oxford University press, 2004, p. xiii.
3 – Brown é simplesmente negligente aqui. Os pergaminhos do mar Morto não contêm evangelhos, mas são textos judaicos que não fazem menção a Jesus. A maioria deles foi escrita entre cinqüenta e cem anos antes de Jesus. Os “pergaminhos cópticos” são escritos gnósticos que incluem alguns ‘evangelhos’ entre muitas outras obras. Geralmente eles são chamados de Biblioteca Nag Hammadi e não são, de maneira alguma, pergaminhos, mas livros encadernados chamados códices.
4 – Ignatius, Epistle to the Ephesians, p. 19 (ANF 2.205)
5 – Mártir, Justino, The frist apology, p. 43 (ANF 1.184)
6– Clemente de Alexandria, Exhortation to the Heathen, p. 12 (ANF 2.205).
7 – Ferguson, Everett. Church history, Volume I: From Christ to Pre-Reformation. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2005, p; 191-95;
8 – Brannan, Rick. “Historic Creeds and Confessions” Ed.eletrônica. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997, artigo 12.
9 – Ferguson, Everett. Church history, vol. 1: From Christ to Pre-reformation. P. 93
*** Em breve alguns comentários sobre certas alegações de alguns muçulmanos.
quinta-feira, 22 de março de 2012
O que Ehrman disse? O que não disse? No que acreditam as "ehrmanetes" e porque estão erradas.
Achei esse vídeo no blog de um amigo, e achei muito bom. Ehrman é um grande estudioso, embora não o considere o maior (e mesmo se fosse o maior, não significaria que é inerrante ao falar da inerrância).
O livro em questão tem muitas informações boas, mas o título (principalmente da edição em português) é tendencioso, o que faz pessoas com desespero em criticar a Bíblia acharem que ele refutou de alguma forma.
Mais textos sobre o autor (e do autor) para quem se interessar:
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/09/o-polemico-bart-d-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/03/comentarios-sobre-bart-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/04/debate-sobre-ressurreicao.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/11/criterio-para-estabelecer-veracidade-do.html
Mais textos sobre o autor (e do autor) para quem se interessar:
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/09/o-polemico-bart-d-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/03/comentarios-sobre-bart-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/04/debate-sobre-ressurreicao.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/11/criterio-para-estabelecer-veracidade-do.html
domingo, 14 de agosto de 2011
Novo Testamento - As ferramentas e o texto
Por Ben Witherington III
Para pessoas modernas como nós, é difícil imaginar o mundo antes das máquinas de impressão. De fato, é difícil para alguns de nós imaginar o mundo antes dos computadores, da internet, da TV ou, antes, das modernas bibliotecas, jornais ou revistas de notícias. Entretanto, o NT não só foi escrito antes de todas essas invenções, como o foi numa época em que a alfabetização ainda era restrita a uma parcela muito pequena da população. Além disso, foi escrito muito antes do registro sonoro de alguma coisa dita por alguém. Os antigos raramente esperavam uma transcrição ao pé da letra de uma fala, exceto ocasionalmente, quando se tratava de atas legais ou pronunciamentos do rei. Mesmo assim,obter a reprodução ao pé da letra de discursos proferidos durante um julgamento era novidade da época de Júlio César. Tiro, o famoso secretário e companheiro de viagens de Cícero, foi muito elogiado por causa da adaptação de uma “recente” invenção, a “taquigrafia” (espécie de escrita abreviada), que lhe permitia anotar ipsis litteris os discursos feitos nas cortes de Roma, no primeiro século antes de Cristo.
No mundo do NT, a palavra falada reinava soberana. Aliás, o NT foi escrito numa cultura predominantemente oral, na qual a escrita não tinha a primeira nem a última palavra. Pense, por exemplo, no que Platão disse antes da época do NT, quando menciona a advertência de Sócratis contra a substituição das tradições orais pela palavra escrita, porque as pessoas deixariam de usar a memória (Fedro, 274-275)! Os mesmos sentimentos são também expressos por autores que escreveram mais próximos da época do NT, como Xenofonte (Simpósio, 3.5) e Diógenes Laércio (7.45.56). Papias, um dos primeiros pais da igreja, que viveu no final do primeiro século d.C. e início do segundo, é famoso por sua observação sobre quanto ele preferia a palavra viva e as testemunhas vivas a qualquer escrita.
Devemos dar atenção à advertência de H. Gamble, de que “fazer uma distinção marcante entre os modos oral e escrito é anacrônico, no sentido que pressupõe tanto a moderna noção de estabilidade de um texto quanto os modernos hábitos de leitura. Os manuscritos, como eram todos os textos anteriores à invenção da imprensa, eram muito menos estáveis que os atuais textos impressos, porque estavam sujeito a modificações acidentais ou propositais, a cada nova transcrição. Além disso, na antiguidade, quase toda leitura, pública ou privada, era eita em voz alta; os textos eram rotineiramente convertidos no modo oral. Sabendo disso, os escritores antigos escreviam tanto para o ouvido quanto para os olhos” [1].
Essas atitudes em relação à oralidade e as dimensões desse modo de comunicação prevaleceram durante toda a época do NT, e simplesmente salientam o quão espantoso é o fato de os 27 documentos que constituem o NT terem chegado até nós. Então, como esses 27 documentos foram gerados numa época anterior à produção de textos em massa e à disseminação da alfabetização? É uma história notável, e infelizmente, sabemos muito pouco sobre ela. Mas o que sabemos merece ser contado e, espero, bem contado.
Nós, que estamos acostumados a ler a Bíblia, gostamos de repetir a frase “No princípio era o Verbo”. Logo ficará bem claro quanto essa frase é verdadeira. Antes que houvesse quaisquer palavras escritas para compor os livros do NT, havia palavras faladas – milhares delas. Provavelmente, o NT é apenas a ponta do iceberg de uma abundância de palavras sobre Jesus que foram comunicadas no primeiro século d.C. Podemos quase sentir a frustração do autor do evangelho de João, quando diz: “Jesus, na verdade, realizou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão registrados neste livro” (Jo 20.30). Por que eles não foram registrados? Porque um rolo de papiro tinha um determinado tamanho, e o papiro era caro. Além disso, escrever e copiar um texto à mão era uma tarefa extremamente tediosa. Essas são limitações que raramente experimentamos na maioria dos lutares hoje.
Vejamos a questão sob outro ângulo. Os evangelhos abrangem, basicamente, o período da história em que Jesus exerceu seu ministério na Terra Santa, aproximadamente de 27 a 30 d.C. Não encontramos em nenhum lugar dos evangelhos uma passagem que mencione Jesus ou qualquer um dos discípulos escrevendo enquanto aqueles eventos ocorriam. Provavelmente, a narrativa da história na forma escrita surgiu mais tarde.Semelhantemente, todas as epístolas de Paulo foram escritas para congregações que já haviam sido fundadas e tinham recebido a palavra oralmente muito antes de receberem qualquer comunicação por escrito. De fato, as cartas de Paulo funcionam como uma espécie de substituto das conversas orais que ele gostaria de ter tido, se pudesse estar presente. Tanto isso é verdade que as cartas trazem as marcas características desse tipo de comunicação – elas refletem padrões e técnicas da antiga retórica Greco-romana, a arte oral da persuasão. No caso dos evangelhos e das epístolas, a Palavra era oral muito antes de ser escrita. Hoje em dia, invertemos o processo quando lemos o texto do NT em voz alta e, em seguida, proclamamos ou discursamos com base no que foi lido. Portanto, é justo dizer que, quando contamos a história do NT, estamos contando a história de um fenômeno de segunda ordem, a história do resíduo literário de um movimento primordialmente oral que cresceu fundamentado na pregação e no ensino, na oração e no louvo e em outras formas de comunicação oral. No período inicial da história cristã, não foi principalmente por intermédio dos textos que a Palavra se espalhou, mas sim pela proclamação oral. A exceção à regra foi o uso das Escrituras Hebraicas ou, mais freqüentemente, sua tradução grega, a Septuaginta, como podemos ver na passagem [2] de 2 Timóteo 3,16. Precisamos ter essas coisas em mente agora que vamos examinar os maravilhosos e desafiadores textos do NT.
AS FERRAMENTAS DO OFÍCIO E SEUS USUÁRIOS
Apesar das afirmações tão seguras de inúmeras introduções ao NT, não sabemos muito sobre quem realmente escreveu alguns dos seus livros. Quando digo “escreveu”, estou me referindo a quem realmente fez os apontamentos. E, mesmo quando temos certeza de quem foi a fonte de determinado documento, por exemplo, de que a carta aos Romanos saiu da mente de Paulo, somos informados de que a pessoa que efetivamente redigiu o documento foi um desconhecido chamado Tércio (Rm 16.22). [3]
Vemos, então,que foi necessário certo trabalho de equipe para escrever alguns documentos do NT, e que teremos de discutir as relações entre os autores e escribas, e entre os que passavam adiante as tradições e os editores, antes de terminarmos. Alguns documentos, tais como os três primeiro evangelhos, são formalmente anônimos, já que o nome do autor não é mencionado em nenhuma parte do livro. Tampouco são mencionadas os nomes dos escribas. Os sobrescritos desses evangelhos refletem tradições posteriores da igreja a respeito da autoria ou fontes primária do material.
Também temos, é claro, um documento como Hebreus, que é claramente anônimo, embora tenham surgido várias hipóteses sobre quem seria seu autor. Só quando o nome do autor é mencionado no próprio documento (como ocorre na maioria das cartas do NT) é que temos um ponto de partida concreto para definir quem produziu um determinado livro do NT. Mas o que realmente sabemos é que, fosse quem fosse, a pessoa que produziu o primeiro exemplar de cada um desses documentos sabia ler e escrever grego, que, obviamente, é a língua em que foi escrito todo o NT, pois era a língua franca do mundo Greco-romano. [4] Portanto, vamos primeiramente examinar a habilidade e o ofício de escrever em grego na antiguidade.
Como a taxa de alfabetização nunca ultrapassou cerca de dez por cento, durante a época em que os documentos do NT foram redigidos, [5] É lógico que a maioria das pessoas, quando desejava que alguma coisa fosse escrita, recorria a um escriba, um escritor profissional. Normalmente, essas habilidades profissionais eram requisitadas para a elaboração de documentos muito práticos – contratos, testamentos, cartas comerciais, certidões de casamento e assemelhados. Os livros do NT não eram nada disso. Porém, numa cultura predominantemente oral, com alta taxa de anafalbetismo, não é de admirar que os escribas, ou amanuenses, fossem fáceis de encontrar e aceitassem escrever quase todo tipo de documento, mediante remuneração. Contudo, não devemos nos apressar em concluir que todos os documentos do NT foram escritos por escribas. E por quê?
Os variados níveis de habilidade na redação do grego do NT mostram que, com certeza, esses documentos não foram todos redigidos por profissionais fluentes em grego, embora isso tenha ocorrido algumas vezes, como no caso de Romanos. Também é interessante observar que o próprio conteúdo dos documentos do NT os teria enquadrado como um tipo de literatura que, normalmente, só era lida pela elite letrada. Esse não era o tipo de documento prático ou comercial que pessoas comuns da sociedade Greco-romana teriam redigido ou mandado copiar.
Além da classe dos escribas, a alfabetização também era encontrada entre pessoas que não pertenciam à elite da sociedade, como soldados, médicos, comerciantes, artesãos e engenheiros. Podemos conjeturar com certo grau de segurança que pelo menos dois dos maiores documentos do NT, Lucas e Atos, foram escritos por alguém que não era um escriba mas era letrado por causa de sua profissão (i.e. , era médico). Uma suposição igualmente razoável é a de que um documento como Apocalipse foi escrito por alguém cuja primeira língua era o aramaico, mas que tinha o grego como segunda língua, porquanto ele escreve em grego com certa dificuldade. [6] O NT como um todo provavelmente não é resultado do trabalho de escribas; e, como a maioria ou todos os documentos foram elaborados para serem lidos em voz alta, o objetivo de seus redatores não foi produzir literatura pura, no sentido moderno do termo. Eram texto com funções predominantemente não-literárias. [7]
Então, como se iniciou o processo? Depois de um período em que as histórias do evangelho foram divulgadas em diversos contextos e de diversas maneiras, e exortações de vários tipos foram feitas oralmente na igreja primitiva, chegou um momento em que fatores ligados à distância espacial e temporal provocaram certa urgência de colocar várias coisas por escrito. No caso dos evangelhos, a urgência se devia, provavelmente, ao fato de que as testemunhas oculares e auditivas estavam morrendo, por volta da segunda metade do primeiro século d.C., e se fazia necessário preservar as tradições que elas haviam transmitido oralmente.
Certamente, não é impossível que, em alguns lugares, essa necessidade tenha surgido mais cedo e tenha gerado coisas como: (1) uma coleção de ditos de Jesus em aramaico, feita pela igreja de Jerusalém; (2) uma coleção de histórias de milagres envolvendo Jesus; (3) um esboço em aramaico de grande parte da história do evangelho; [8] (4) uma narrativa por escrito da última semana de vida terrena de Jesus; e (5) um documento composto, principalmente, dos ensinamentos de Jesus, a que tanto o primeiro quanto o terceiro evangelista tiveram acesso, e que hoje chamamos de Q. [9] Esses antigos percussores dos nossos evangelhos não existem mais, e a maioria dos estudiosos acredita que nenhum evangelho em grego tenha sido produzido ou estivesse disponível na forma escrita antes de 60 d.C. Isso significa que as cartas, e em particular as cartas paulinas, são os mais antigos documentos do NT, cronologicamente falando, [10] e as cartas são os documentos do NT mais nitidamente ligados aos escribas.
É importante ressaltar a esta altura que, com toda certeza, não devemos pensar em “livros”, no sentido moderno da palavra, quando falamos dos documentos do NT. Em primeiro lugar, naquela época eles não eram manufaturados em forma de livro ou códice, mas sim escritos em rolos de papiro. Em segundo lugar, evidentemente, eles não eram produzidos em massa. Inicialmente, apenas algumas cópias devem ter sido feitas, por causa do tempo necessário e do custo elevado. Em alguns casos, como nas cartas, talvez tivesse sido feito apenas um exemplar.
Quando nos referimos à cultura literária daquela época, estamos falando de pequenos círculos da elite letrada do mundo Greco-romano, que tinha dinheiro para mandar reproduzir documentos e fazer cópias para os amigos, além de ter tempo para lê-los ou mandar que alguém o fizesse em voz alta. A cultura liveira, no sentido moderno de publicações para as massas, não existia. Os autores da antiguidade, normalmente, dependiam de patronos abastados para poderem custear a produção e a circulação de suas obras. Na minha opinião, Teófilo, mencionado no início de Lucas e Atos, provavelmente era o patrono de Lucas, que escrevia para ele e seu círculo de amizades.
Mas como a escrita era feita, e em que tipos de materiais? A forma padrão de produzir um documento na antiguidade era escrever em papiro. Normalmente um rolo tinha de 20 a 25 centímetros de altura e até 10,5 metros de comprimento. Em geral, só se escrevia de um lado, já que o papiro não é um material muito denso. O texto era disposto em duas colunas de 5 a 10 centímetros de largura, com cerca de 25 a 45 linhas por coluna. Além disso, por causa do custo e do espaço necessário, normalmente não havia pontuação nem divisão de palavras, sentenças e parágrafos. Tudo era escrito em letras maiúsculas, e, portanto, uma linha desse texto ficava mais ou menos assim: SÓUMANÃODISSESEUNOME. É claro que podemos ler “Só uma não disse seu nome” ou “Só um anão disse seu nome”. Questões de interpretação surgem simplesmente pela falta de separação entre as letras ou pela ausência de pontuação. Além disso, não havia capítulos nem versículos nos manuscritos originais do NT antes do início da Idade Média!
“A leitura na Antiguidade geralmente era feita em voz alta, mesmo em particular. A razão disso é que os textos eram redigidos em escrita contínua [...] sem divisões entre palavras, frases, orações, parágrafos e sem pontuação, de modo que era necessário pronunciar e ouvir as sílabas para poder organizá-las em padrões semânticos reconhecíveis. Dessa forma, quase todos os textos antigos eram compostos tendo em vista o modo como soariam quando seriam lidos em voz alta.” [11] Foi só no próximo fim do primeiro século d.C. que a forma de texto chamada códice ou caderno de notas se popularizou, e parece que os antigos cristãos estavam entre os primeiros a reconhecer sua utilidade e adotá-la. [12]
Numa época em que não existiam direitos autorais, o que acontecia quando um patrono recebia um manuscrito era o seguinte: “A publicação [...] consistia em entregar esse original a um patrono amigo, o qual, então, o disponibilizaria para ser copiado por outras pessoas interessadas. Desse modo, as cópias eram multiplicadas em série, uma de cada vez. Uma vez que o texto estivesse em circulação e disponível para a cópia, qualquer um que estivesse interessado e tivesse acesso a ele poderia mandar fazer uma cópia. Assim, os livros eram produzidos e adquiridos por meio de um processo informal e não regulado”. [13]
A maioria das composições da antiguidade eram escritas com uma pena e tinta sobre o papiro, embora às vezes fosse usada pele de ovelhas para produzir pergaminho ou velo, um tipo de pele animal altamente refinada. A qualidade da superfície de escrita, a tinta e as penas variavam. Cícero, que escreveu por volta de 54 a.C., resume muito bem a situação: “Para esta carta, usarei uma boa pena, uma tinta bem misturada e um papel polido de marfim, pois você escreve que quase não conseguiu ler minha última carta [...] porque eu costumo usar a primeira pena que me aparece, sem me preocupar se é boa ou não” (Carta a Quinto 2.15.1). A cana de junco era a melhor pena da antiguidade e foi substituída pelas penas de pássaros (calamos) por volta do sétimo século d.C. A tinta era feita com carbono ou fuligem diluídos em água.
Mesmo depois de ter comprado os pedaços de papiro necessários, a pessoa ainda não estava pronta para tomar nota de um ditado ou escrever. O papiro tinha de ser preparado para a escrita, e um dos principais motivos é que não existia papel pautado. O escriba ou escritor pegava uma régua e um disco de chumbo e traçava linhas finas no papel. Ele precisava também de um apontador de pena, que era uma pedra abrasiva, e uma faca para fazer novas pontas, à medida que ia escrevendo. Nem o papiro, nem as penas, nem a tinta, nem os instrumentos para fazer linhas e apontar a pena eram baratos.
Mas, por que o papiro era tão caro? Em primeiro lugar, porque quase todo ele era produzido num único lugar, o Egito, e perto do Nilo, para que se pudesse colher o tipo de junco apropriado. Além disso, ainda havia o processo exigido para sua produção. Plínio, o Velho, diz que a cana do papiro, que tem perfil triangular, tinha de ser fatiada com uma agulha (!) em tiras largas e muitos finas. O miolo do talo ou da cana era a porção mais “carnuda” e, portanto, a parte mais útil. A casca verde provavelmente deveria ser eliminada.
As tiras, assim que eram cortadas, tinham de ser quase imediatamente colocadas sobre uma prancha de madeira umidecida com água do Nilo. Ocasionalmente, era adicionado um tipo de goma de farinha suave para auxiliar o processo, mas, normalmente, a própria seiva do junco era suficiente para unir as tiras e formar uma peça de papiro. Quando a peça de papiro estava pronta, as pontas eram aparadas para deixar as bordas retas. As tiras eram dispostas horizontal e verticalmente, formando um padrão de linhas cruzadas e, em essência, entrelaçadas. A peça de papiro recém-produzida era, então, pendurada ou estendida para secar ao sol. Por último, umas vinte peças de papiro eram costuradas umas às outras para formar um rolo (Plinio, Natural History 13.74-77). Quando um rolo ou peça de papiro chegava às mãos do escriba, este ainda tinha de alisá-lo com uma concha ou um pedaço de marfim. Era preciso tomar cuidado para que o papel não ficasse polido demais a ponto de não absorver a tinta com facilidade.
Em vista de todo o exposto, entende-se por que as pessoas comuns recorriam a um escriba quando precisavam ter algum documento redigido ou, se pudessem arcar com a despesa, contratavam um secretário pessoal, como mostra, por exemplo, a relação entre Cícero e Tiro. Em geral, quanto mais longo o documento maior a necessidade de um escriba profissional, e, pelos padrões antigos, muitos documentos do NT são realmente longos. Todos os evangelhos, Atos, as maiores cartas de Paulo e Apocalipse podem ser classificados como documentos muito longos, pelos padrões antigos. Até mesmo algumas cartas que consideramos curtas (e.g., Filipenses, Tiago, 1Pedro) eram muito grandes para uma carta, pelos padrões antigos. Vários autores do NT eram prolixos (v., p. ex., At 20.7-11) e, como muitos documentos do NT são apenas substitutos de uma conversação ou proclamação oral, eles também são muito longos. Os primeiros cristãos, que produziram esses documentos, obviamente tinham muito o que dizer!
Não dissemos nada até agora sobre a caligrafia, mas, na antiguidade, assim como hoje, as pessoas diferentes tinham diferentes estilos e modelos de escrita manual. Era crucial para ao escriba ter uam caligrafia bonita e legível, e não borrar a página enquanto escrevia. Falando em termos práticos, isso significava que o contratante preferia ter um destro para escrever em latim ou grego e um canhoto para escrever em aramaico ou hebraico, porque as duas primeiras línguas se escrevem da esquerda para a direita, enquanto as últimas são escritas da direita para a esquerda. Observe como Paulo acrescenta, de tempos em tempos, uma nota de próprio punho, em letras grandes, no fim do documento. Em Gálatas 6.11 está escrito: “Vede com que grandes letras vos escrevo de próprio punho”. [14] Como o espaço era precioso, ele teria preferido uma letra menor e mais concisa para redigir a maior parte do documento, para não desperdiçar espaço demais.
O ideal era que o escriba conhecesse tanto o autor quanto seu público. Os povos antigos acreditavam que as cartas deveriam ou refletir a personalidade do autor e, até certo ponto, levar em conta também o leitor. [15] Um secretário poderia ou não ter aprendido a técnica da estenografia; se não tivesse, o processo de composição poderia ser muito demorado. Muitos têm sugerido que, em alguns trechos do NT, principalmente nas cartas de Paulo, em que temos uma frase incompleta, isso talvez tenha ocorrido porque o escriba não sabia estenografia e não conseguia acompanhar a velocidade do ditado. E é claro que, se um assunto fosse urgente, poderia não haver tempo ou papiro à mão para tomar notas estenográficas e depois escrever o texto completo. O que podemos afirmar com certeza é que, normalmente, não era prática corrente do primeiro século os secretários redigirem documentos para os autores, exceto, talvez, quando se tratasse de matéria meramente formal, como um comunicado de que alguma coisa fora recebida. [16] Quando um secretário escrevia em nome de alguém, era costume informar isso no documento (v. Cícero, Carta aos amigos, 8.1.1).
Quando uma pessoa, que não fosse o autor, era mencionada no inicio de um documento, normalmente tinha algo a ver com o documento. Por exemplo, em 1Coríntio 1.1, Sóstenes, um cristão, foi provavelmente o escriba que redigiu esse documento para Paulo. [17] Já em 1 e 2Tessalonicenses, poderíamos considerar seriamente a questão da co-autoria envolvendo Paulo, Timóteo e Silvano, diante do modo como o documento começa. Não era costume dizer “nós” num documento como esse, a menos que se tratasse realmente de “nós”. Da mesma forma, no evangelho de João (21.24) o “nós” [implícito] significa, no mínimo, uma pessoa falando pela comunidade da qual o discípulo amado fazia parte.
Quando se tratava de cartas, o procedimento normal era fazer duas cópias, uma para o remetente e a outra para ser enviada (Cícero, Carta aos amigos 9.26.1). Nas terras de Roma, antes de Augusto, não havia serviço de correio regular para ser usado por pessoas comuns, nem mesmo um serviço postal oficial do governo. Desse modo, quando as pessoas tinham uma carta para enviar, aproveitavam alguma viagem que seus amigos, parentes ou pessoas com quem mantinham relações de negócios estivessem para fazer e pediam-lhes que entregassem a correspondência ao destinatário. No caso dos cristãos, essa tarefa parece ter ficado a cargo de outros cristãos; e, no caso de Paulo, aparentemente o encarregado era algum de seus colaboradores. Romanos 16.1,2 e Colossenses 4.7-9 não parecem indicar que Paulo confiaria seus documentos a uma pessoa qualquer que estivesse viajando na direção certa. A questão das redes sociais dos primeiros cristãos precisa ser considerada quando pensamos na disseminação das boas novas em várias formas escritas. Naturalmente, a rapidez com que um documento chegava a um grupo de pessoas ou a um indivíduo dependia do modo e da velocidade do meio de transporte, assim como outros fatores. Muitas vezes, as mensagens escritas não chegavam ao destinatário, e as conseqüências podiam ser desastrosas. Existe um famoso ditado inglês que diz: “Por causa de um prego, a ferradura se perdeu. Por causa do mensageiro, a mensagem se perdeu. Por causa da mensagem, perdeu-se a batalha. Por causa da batalha, perdeu-se a guerra; e tudo por causa de um prego”. Parece claro que alguns importantes documentos cristãos da época do NT realmente estão perdidos para nós. Por exemplo, em 1Coríntios 5.9, Paulo menciona que já havia escrito àquela igreja, advertindo-os de que não se associassem com pessoas imorais. Isso significa que houve uma carta aos coríntios anterior a 1Coríntios. Mas ela, provavelmente, perdeu-se nas areias do tempo. O que temos no NT é só uma amostra representativa da comunicação e do discurso dos primeiros cristãos. Talvez ainda encontremos alguns dos documentos perdidos desse período.
Fonte: História e histórias do Novo Testamento.
Para pessoas modernas como nós, é difícil imaginar o mundo antes das máquinas de impressão. De fato, é difícil para alguns de nós imaginar o mundo antes dos computadores, da internet, da TV ou, antes, das modernas bibliotecas, jornais ou revistas de notícias. Entretanto, o NT não só foi escrito antes de todas essas invenções, como o foi numa época em que a alfabetização ainda era restrita a uma parcela muito pequena da população. Além disso, foi escrito muito antes do registro sonoro de alguma coisa dita por alguém. Os antigos raramente esperavam uma transcrição ao pé da letra de uma fala, exceto ocasionalmente, quando se tratava de atas legais ou pronunciamentos do rei. Mesmo assim,obter a reprodução ao pé da letra de discursos proferidos durante um julgamento era novidade da época de Júlio César. Tiro, o famoso secretário e companheiro de viagens de Cícero, foi muito elogiado por causa da adaptação de uma “recente” invenção, a “taquigrafia” (espécie de escrita abreviada), que lhe permitia anotar ipsis litteris os discursos feitos nas cortes de Roma, no primeiro século antes de Cristo.
No mundo do NT, a palavra falada reinava soberana. Aliás, o NT foi escrito numa cultura predominantemente oral, na qual a escrita não tinha a primeira nem a última palavra. Pense, por exemplo, no que Platão disse antes da época do NT, quando menciona a advertência de Sócratis contra a substituição das tradições orais pela palavra escrita, porque as pessoas deixariam de usar a memória (Fedro, 274-275)! Os mesmos sentimentos são também expressos por autores que escreveram mais próximos da época do NT, como Xenofonte (Simpósio, 3.5) e Diógenes Laércio (7.45.56). Papias, um dos primeiros pais da igreja, que viveu no final do primeiro século d.C. e início do segundo, é famoso por sua observação sobre quanto ele preferia a palavra viva e as testemunhas vivas a qualquer escrita.
Devemos dar atenção à advertência de H. Gamble, de que “fazer uma distinção marcante entre os modos oral e escrito é anacrônico, no sentido que pressupõe tanto a moderna noção de estabilidade de um texto quanto os modernos hábitos de leitura. Os manuscritos, como eram todos os textos anteriores à invenção da imprensa, eram muito menos estáveis que os atuais textos impressos, porque estavam sujeito a modificações acidentais ou propositais, a cada nova transcrição. Além disso, na antiguidade, quase toda leitura, pública ou privada, era eita em voz alta; os textos eram rotineiramente convertidos no modo oral. Sabendo disso, os escritores antigos escreviam tanto para o ouvido quanto para os olhos” [1].
Essas atitudes em relação à oralidade e as dimensões desse modo de comunicação prevaleceram durante toda a época do NT, e simplesmente salientam o quão espantoso é o fato de os 27 documentos que constituem o NT terem chegado até nós. Então, como esses 27 documentos foram gerados numa época anterior à produção de textos em massa e à disseminação da alfabetização? É uma história notável, e infelizmente, sabemos muito pouco sobre ela. Mas o que sabemos merece ser contado e, espero, bem contado.
Nós, que estamos acostumados a ler a Bíblia, gostamos de repetir a frase “No princípio era o Verbo”. Logo ficará bem claro quanto essa frase é verdadeira. Antes que houvesse quaisquer palavras escritas para compor os livros do NT, havia palavras faladas – milhares delas. Provavelmente, o NT é apenas a ponta do iceberg de uma abundância de palavras sobre Jesus que foram comunicadas no primeiro século d.C. Podemos quase sentir a frustração do autor do evangelho de João, quando diz: “Jesus, na verdade, realizou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão registrados neste livro” (Jo 20.30). Por que eles não foram registrados? Porque um rolo de papiro tinha um determinado tamanho, e o papiro era caro. Além disso, escrever e copiar um texto à mão era uma tarefa extremamente tediosa. Essas são limitações que raramente experimentamos na maioria dos lutares hoje.
Vejamos a questão sob outro ângulo. Os evangelhos abrangem, basicamente, o período da história em que Jesus exerceu seu ministério na Terra Santa, aproximadamente de 27 a 30 d.C. Não encontramos em nenhum lugar dos evangelhos uma passagem que mencione Jesus ou qualquer um dos discípulos escrevendo enquanto aqueles eventos ocorriam. Provavelmente, a narrativa da história na forma escrita surgiu mais tarde.Semelhantemente, todas as epístolas de Paulo foram escritas para congregações que já haviam sido fundadas e tinham recebido a palavra oralmente muito antes de receberem qualquer comunicação por escrito. De fato, as cartas de Paulo funcionam como uma espécie de substituto das conversas orais que ele gostaria de ter tido, se pudesse estar presente. Tanto isso é verdade que as cartas trazem as marcas características desse tipo de comunicação – elas refletem padrões e técnicas da antiga retórica Greco-romana, a arte oral da persuasão. No caso dos evangelhos e das epístolas, a Palavra era oral muito antes de ser escrita. Hoje em dia, invertemos o processo quando lemos o texto do NT em voz alta e, em seguida, proclamamos ou discursamos com base no que foi lido. Portanto, é justo dizer que, quando contamos a história do NT, estamos contando a história de um fenômeno de segunda ordem, a história do resíduo literário de um movimento primordialmente oral que cresceu fundamentado na pregação e no ensino, na oração e no louvo e em outras formas de comunicação oral. No período inicial da história cristã, não foi principalmente por intermédio dos textos que a Palavra se espalhou, mas sim pela proclamação oral. A exceção à regra foi o uso das Escrituras Hebraicas ou, mais freqüentemente, sua tradução grega, a Septuaginta, como podemos ver na passagem [2] de 2 Timóteo 3,16. Precisamos ter essas coisas em mente agora que vamos examinar os maravilhosos e desafiadores textos do NT.
AS FERRAMENTAS DO OFÍCIO E SEUS USUÁRIOS
Apesar das afirmações tão seguras de inúmeras introduções ao NT, não sabemos muito sobre quem realmente escreveu alguns dos seus livros. Quando digo “escreveu”, estou me referindo a quem realmente fez os apontamentos. E, mesmo quando temos certeza de quem foi a fonte de determinado documento, por exemplo, de que a carta aos Romanos saiu da mente de Paulo, somos informados de que a pessoa que efetivamente redigiu o documento foi um desconhecido chamado Tércio (Rm 16.22). [3]
Vemos, então,que foi necessário certo trabalho de equipe para escrever alguns documentos do NT, e que teremos de discutir as relações entre os autores e escribas, e entre os que passavam adiante as tradições e os editores, antes de terminarmos. Alguns documentos, tais como os três primeiro evangelhos, são formalmente anônimos, já que o nome do autor não é mencionado em nenhuma parte do livro. Tampouco são mencionadas os nomes dos escribas. Os sobrescritos desses evangelhos refletem tradições posteriores da igreja a respeito da autoria ou fontes primária do material.
Também temos, é claro, um documento como Hebreus, que é claramente anônimo, embora tenham surgido várias hipóteses sobre quem seria seu autor. Só quando o nome do autor é mencionado no próprio documento (como ocorre na maioria das cartas do NT) é que temos um ponto de partida concreto para definir quem produziu um determinado livro do NT. Mas o que realmente sabemos é que, fosse quem fosse, a pessoa que produziu o primeiro exemplar de cada um desses documentos sabia ler e escrever grego, que, obviamente, é a língua em que foi escrito todo o NT, pois era a língua franca do mundo Greco-romano. [4] Portanto, vamos primeiramente examinar a habilidade e o ofício de escrever em grego na antiguidade.
Como a taxa de alfabetização nunca ultrapassou cerca de dez por cento, durante a época em que os documentos do NT foram redigidos, [5] É lógico que a maioria das pessoas, quando desejava que alguma coisa fosse escrita, recorria a um escriba, um escritor profissional. Normalmente, essas habilidades profissionais eram requisitadas para a elaboração de documentos muito práticos – contratos, testamentos, cartas comerciais, certidões de casamento e assemelhados. Os livros do NT não eram nada disso. Porém, numa cultura predominantemente oral, com alta taxa de anafalbetismo, não é de admirar que os escribas, ou amanuenses, fossem fáceis de encontrar e aceitassem escrever quase todo tipo de documento, mediante remuneração. Contudo, não devemos nos apressar em concluir que todos os documentos do NT foram escritos por escribas. E por quê?
Os variados níveis de habilidade na redação do grego do NT mostram que, com certeza, esses documentos não foram todos redigidos por profissionais fluentes em grego, embora isso tenha ocorrido algumas vezes, como no caso de Romanos. Também é interessante observar que o próprio conteúdo dos documentos do NT os teria enquadrado como um tipo de literatura que, normalmente, só era lida pela elite letrada. Esse não era o tipo de documento prático ou comercial que pessoas comuns da sociedade Greco-romana teriam redigido ou mandado copiar.
Além da classe dos escribas, a alfabetização também era encontrada entre pessoas que não pertenciam à elite da sociedade, como soldados, médicos, comerciantes, artesãos e engenheiros. Podemos conjeturar com certo grau de segurança que pelo menos dois dos maiores documentos do NT, Lucas e Atos, foram escritos por alguém que não era um escriba mas era letrado por causa de sua profissão (i.e. , era médico). Uma suposição igualmente razoável é a de que um documento como Apocalipse foi escrito por alguém cuja primeira língua era o aramaico, mas que tinha o grego como segunda língua, porquanto ele escreve em grego com certa dificuldade. [6] O NT como um todo provavelmente não é resultado do trabalho de escribas; e, como a maioria ou todos os documentos foram elaborados para serem lidos em voz alta, o objetivo de seus redatores não foi produzir literatura pura, no sentido moderno do termo. Eram texto com funções predominantemente não-literárias. [7]
Então, como se iniciou o processo? Depois de um período em que as histórias do evangelho foram divulgadas em diversos contextos e de diversas maneiras, e exortações de vários tipos foram feitas oralmente na igreja primitiva, chegou um momento em que fatores ligados à distância espacial e temporal provocaram certa urgência de colocar várias coisas por escrito. No caso dos evangelhos, a urgência se devia, provavelmente, ao fato de que as testemunhas oculares e auditivas estavam morrendo, por volta da segunda metade do primeiro século d.C., e se fazia necessário preservar as tradições que elas haviam transmitido oralmente.
Certamente, não é impossível que, em alguns lugares, essa necessidade tenha surgido mais cedo e tenha gerado coisas como: (1) uma coleção de ditos de Jesus em aramaico, feita pela igreja de Jerusalém; (2) uma coleção de histórias de milagres envolvendo Jesus; (3) um esboço em aramaico de grande parte da história do evangelho; [8] (4) uma narrativa por escrito da última semana de vida terrena de Jesus; e (5) um documento composto, principalmente, dos ensinamentos de Jesus, a que tanto o primeiro quanto o terceiro evangelista tiveram acesso, e que hoje chamamos de Q. [9] Esses antigos percussores dos nossos evangelhos não existem mais, e a maioria dos estudiosos acredita que nenhum evangelho em grego tenha sido produzido ou estivesse disponível na forma escrita antes de 60 d.C. Isso significa que as cartas, e em particular as cartas paulinas, são os mais antigos documentos do NT, cronologicamente falando, [10] e as cartas são os documentos do NT mais nitidamente ligados aos escribas.
É importante ressaltar a esta altura que, com toda certeza, não devemos pensar em “livros”, no sentido moderno da palavra, quando falamos dos documentos do NT. Em primeiro lugar, naquela época eles não eram manufaturados em forma de livro ou códice, mas sim escritos em rolos de papiro. Em segundo lugar, evidentemente, eles não eram produzidos em massa. Inicialmente, apenas algumas cópias devem ter sido feitas, por causa do tempo necessário e do custo elevado. Em alguns casos, como nas cartas, talvez tivesse sido feito apenas um exemplar.
Quando nos referimos à cultura literária daquela época, estamos falando de pequenos círculos da elite letrada do mundo Greco-romano, que tinha dinheiro para mandar reproduzir documentos e fazer cópias para os amigos, além de ter tempo para lê-los ou mandar que alguém o fizesse em voz alta. A cultura liveira, no sentido moderno de publicações para as massas, não existia. Os autores da antiguidade, normalmente, dependiam de patronos abastados para poderem custear a produção e a circulação de suas obras. Na minha opinião, Teófilo, mencionado no início de Lucas e Atos, provavelmente era o patrono de Lucas, que escrevia para ele e seu círculo de amizades.
Mas como a escrita era feita, e em que tipos de materiais? A forma padrão de produzir um documento na antiguidade era escrever em papiro. Normalmente um rolo tinha de 20 a 25 centímetros de altura e até 10,5 metros de comprimento. Em geral, só se escrevia de um lado, já que o papiro não é um material muito denso. O texto era disposto em duas colunas de 5 a 10 centímetros de largura, com cerca de 25 a 45 linhas por coluna. Além disso, por causa do custo e do espaço necessário, normalmente não havia pontuação nem divisão de palavras, sentenças e parágrafos. Tudo era escrito em letras maiúsculas, e, portanto, uma linha desse texto ficava mais ou menos assim: SÓUMANÃODISSESEUNOME. É claro que podemos ler “Só uma não disse seu nome” ou “Só um anão disse seu nome”. Questões de interpretação surgem simplesmente pela falta de separação entre as letras ou pela ausência de pontuação. Além disso, não havia capítulos nem versículos nos manuscritos originais do NT antes do início da Idade Média!
“A leitura na Antiguidade geralmente era feita em voz alta, mesmo em particular. A razão disso é que os textos eram redigidos em escrita contínua [...] sem divisões entre palavras, frases, orações, parágrafos e sem pontuação, de modo que era necessário pronunciar e ouvir as sílabas para poder organizá-las em padrões semânticos reconhecíveis. Dessa forma, quase todos os textos antigos eram compostos tendo em vista o modo como soariam quando seriam lidos em voz alta.” [11] Foi só no próximo fim do primeiro século d.C. que a forma de texto chamada códice ou caderno de notas se popularizou, e parece que os antigos cristãos estavam entre os primeiros a reconhecer sua utilidade e adotá-la. [12]
Numa época em que não existiam direitos autorais, o que acontecia quando um patrono recebia um manuscrito era o seguinte: “A publicação [...] consistia em entregar esse original a um patrono amigo, o qual, então, o disponibilizaria para ser copiado por outras pessoas interessadas. Desse modo, as cópias eram multiplicadas em série, uma de cada vez. Uma vez que o texto estivesse em circulação e disponível para a cópia, qualquer um que estivesse interessado e tivesse acesso a ele poderia mandar fazer uma cópia. Assim, os livros eram produzidos e adquiridos por meio de um processo informal e não regulado”. [13]
A maioria das composições da antiguidade eram escritas com uma pena e tinta sobre o papiro, embora às vezes fosse usada pele de ovelhas para produzir pergaminho ou velo, um tipo de pele animal altamente refinada. A qualidade da superfície de escrita, a tinta e as penas variavam. Cícero, que escreveu por volta de 54 a.C., resume muito bem a situação: “Para esta carta, usarei uma boa pena, uma tinta bem misturada e um papel polido de marfim, pois você escreve que quase não conseguiu ler minha última carta [...] porque eu costumo usar a primeira pena que me aparece, sem me preocupar se é boa ou não” (Carta a Quinto 2.15.1). A cana de junco era a melhor pena da antiguidade e foi substituída pelas penas de pássaros (calamos) por volta do sétimo século d.C. A tinta era feita com carbono ou fuligem diluídos em água.
Mesmo depois de ter comprado os pedaços de papiro necessários, a pessoa ainda não estava pronta para tomar nota de um ditado ou escrever. O papiro tinha de ser preparado para a escrita, e um dos principais motivos é que não existia papel pautado. O escriba ou escritor pegava uma régua e um disco de chumbo e traçava linhas finas no papel. Ele precisava também de um apontador de pena, que era uma pedra abrasiva, e uma faca para fazer novas pontas, à medida que ia escrevendo. Nem o papiro, nem as penas, nem a tinta, nem os instrumentos para fazer linhas e apontar a pena eram baratos.
Mas, por que o papiro era tão caro? Em primeiro lugar, porque quase todo ele era produzido num único lugar, o Egito, e perto do Nilo, para que se pudesse colher o tipo de junco apropriado. Além disso, ainda havia o processo exigido para sua produção. Plínio, o Velho, diz que a cana do papiro, que tem perfil triangular, tinha de ser fatiada com uma agulha (!) em tiras largas e muitos finas. O miolo do talo ou da cana era a porção mais “carnuda” e, portanto, a parte mais útil. A casca verde provavelmente deveria ser eliminada.
As tiras, assim que eram cortadas, tinham de ser quase imediatamente colocadas sobre uma prancha de madeira umidecida com água do Nilo. Ocasionalmente, era adicionado um tipo de goma de farinha suave para auxiliar o processo, mas, normalmente, a própria seiva do junco era suficiente para unir as tiras e formar uma peça de papiro. Quando a peça de papiro estava pronta, as pontas eram aparadas para deixar as bordas retas. As tiras eram dispostas horizontal e verticalmente, formando um padrão de linhas cruzadas e, em essência, entrelaçadas. A peça de papiro recém-produzida era, então, pendurada ou estendida para secar ao sol. Por último, umas vinte peças de papiro eram costuradas umas às outras para formar um rolo (Plinio, Natural History 13.74-77). Quando um rolo ou peça de papiro chegava às mãos do escriba, este ainda tinha de alisá-lo com uma concha ou um pedaço de marfim. Era preciso tomar cuidado para que o papel não ficasse polido demais a ponto de não absorver a tinta com facilidade.
Em vista de todo o exposto, entende-se por que as pessoas comuns recorriam a um escriba quando precisavam ter algum documento redigido ou, se pudessem arcar com a despesa, contratavam um secretário pessoal, como mostra, por exemplo, a relação entre Cícero e Tiro. Em geral, quanto mais longo o documento maior a necessidade de um escriba profissional, e, pelos padrões antigos, muitos documentos do NT são realmente longos. Todos os evangelhos, Atos, as maiores cartas de Paulo e Apocalipse podem ser classificados como documentos muito longos, pelos padrões antigos. Até mesmo algumas cartas que consideramos curtas (e.g., Filipenses, Tiago, 1Pedro) eram muito grandes para uma carta, pelos padrões antigos. Vários autores do NT eram prolixos (v., p. ex., At 20.7-11) e, como muitos documentos do NT são apenas substitutos de uma conversação ou proclamação oral, eles também são muito longos. Os primeiros cristãos, que produziram esses documentos, obviamente tinham muito o que dizer!
Não dissemos nada até agora sobre a caligrafia, mas, na antiguidade, assim como hoje, as pessoas diferentes tinham diferentes estilos e modelos de escrita manual. Era crucial para ao escriba ter uam caligrafia bonita e legível, e não borrar a página enquanto escrevia. Falando em termos práticos, isso significava que o contratante preferia ter um destro para escrever em latim ou grego e um canhoto para escrever em aramaico ou hebraico, porque as duas primeiras línguas se escrevem da esquerda para a direita, enquanto as últimas são escritas da direita para a esquerda. Observe como Paulo acrescenta, de tempos em tempos, uma nota de próprio punho, em letras grandes, no fim do documento. Em Gálatas 6.11 está escrito: “Vede com que grandes letras vos escrevo de próprio punho”. [14] Como o espaço era precioso, ele teria preferido uma letra menor e mais concisa para redigir a maior parte do documento, para não desperdiçar espaço demais.
O ideal era que o escriba conhecesse tanto o autor quanto seu público. Os povos antigos acreditavam que as cartas deveriam ou refletir a personalidade do autor e, até certo ponto, levar em conta também o leitor. [15] Um secretário poderia ou não ter aprendido a técnica da estenografia; se não tivesse, o processo de composição poderia ser muito demorado. Muitos têm sugerido que, em alguns trechos do NT, principalmente nas cartas de Paulo, em que temos uma frase incompleta, isso talvez tenha ocorrido porque o escriba não sabia estenografia e não conseguia acompanhar a velocidade do ditado. E é claro que, se um assunto fosse urgente, poderia não haver tempo ou papiro à mão para tomar notas estenográficas e depois escrever o texto completo. O que podemos afirmar com certeza é que, normalmente, não era prática corrente do primeiro século os secretários redigirem documentos para os autores, exceto, talvez, quando se tratasse de matéria meramente formal, como um comunicado de que alguma coisa fora recebida. [16] Quando um secretário escrevia em nome de alguém, era costume informar isso no documento (v. Cícero, Carta aos amigos, 8.1.1).
Quando uma pessoa, que não fosse o autor, era mencionada no inicio de um documento, normalmente tinha algo a ver com o documento. Por exemplo, em 1Coríntio 1.1, Sóstenes, um cristão, foi provavelmente o escriba que redigiu esse documento para Paulo. [17] Já em 1 e 2Tessalonicenses, poderíamos considerar seriamente a questão da co-autoria envolvendo Paulo, Timóteo e Silvano, diante do modo como o documento começa. Não era costume dizer “nós” num documento como esse, a menos que se tratasse realmente de “nós”. Da mesma forma, no evangelho de João (21.24) o “nós” [implícito] significa, no mínimo, uma pessoa falando pela comunidade da qual o discípulo amado fazia parte.
Quando se tratava de cartas, o procedimento normal era fazer duas cópias, uma para o remetente e a outra para ser enviada (Cícero, Carta aos amigos 9.26.1). Nas terras de Roma, antes de Augusto, não havia serviço de correio regular para ser usado por pessoas comuns, nem mesmo um serviço postal oficial do governo. Desse modo, quando as pessoas tinham uma carta para enviar, aproveitavam alguma viagem que seus amigos, parentes ou pessoas com quem mantinham relações de negócios estivessem para fazer e pediam-lhes que entregassem a correspondência ao destinatário. No caso dos cristãos, essa tarefa parece ter ficado a cargo de outros cristãos; e, no caso de Paulo, aparentemente o encarregado era algum de seus colaboradores. Romanos 16.1,2 e Colossenses 4.7-9 não parecem indicar que Paulo confiaria seus documentos a uma pessoa qualquer que estivesse viajando na direção certa. A questão das redes sociais dos primeiros cristãos precisa ser considerada quando pensamos na disseminação das boas novas em várias formas escritas. Naturalmente, a rapidez com que um documento chegava a um grupo de pessoas ou a um indivíduo dependia do modo e da velocidade do meio de transporte, assim como outros fatores. Muitas vezes, as mensagens escritas não chegavam ao destinatário, e as conseqüências podiam ser desastrosas. Existe um famoso ditado inglês que diz: “Por causa de um prego, a ferradura se perdeu. Por causa do mensageiro, a mensagem se perdeu. Por causa da mensagem, perdeu-se a batalha. Por causa da batalha, perdeu-se a guerra; e tudo por causa de um prego”. Parece claro que alguns importantes documentos cristãos da época do NT realmente estão perdidos para nós. Por exemplo, em 1Coríntios 5.9, Paulo menciona que já havia escrito àquela igreja, advertindo-os de que não se associassem com pessoas imorais. Isso significa que houve uma carta aos coríntios anterior a 1Coríntios. Mas ela, provavelmente, perdeu-se nas areias do tempo. O que temos no NT é só uma amostra representativa da comunicação e do discurso dos primeiros cristãos. Talvez ainda encontremos alguns dos documentos perdidos desse período.
Fonte: História e histórias do Novo Testamento.
terça-feira, 31 de maio de 2011
As Escrituras e a Tradição
O texto a seguir são partes digitadas do vídeo que coloquei na última postagem onde um Ortodoxo defende a relação das Sagradas Escrituras com a Sagrada Tradição, refutando a heresia da "Sola Scriptura". Algumas partes foram cortadas para se referir somente ao assunto proposto. Outro detalhe importante: por ter sido feito por um ortodoxo, algumas partes da argumentação é mais importante e faz sentido para a Igreja Ortodoxa, e não para a Católica. Um exemplo, talvez o principal, são as traduções bíblicas. É claro que uma grande quantidade de traduções foi feita enquanto não houve o cisma, no entanto, muitos lugares de origem ocidental realmente não tiveram traduções bíblicas (por motivos diversos que podem ser tratados posteriormente), apesar de existirem traduções para a lingua vernácula antes da "reforma" protestante.
Entre a Escritura e a Tradição não há nenhum conflito ou contradição. A falsa oposição entre elas apareceu apenas no século XVI quando o protestantismo proclamou o princípio da "Sola Scriptura", dizendo que a Bíblia é a única fonte de doutrina, suficiente para a salvação.
O significado inicial de Sola Scriptura, tal como Lutero entendeu, se refere a rejeição das supostas inovações Católicas - O próprio Lutero tirou da tradição Católica idéias de Santo Agostinho (A predestinação, o ensino sobre o Filoque, etc). Lutero, por exemplo, reconhecia o batismo dos bebês, apesar dos neoprotestantes considerá-lo antibíblico. Foram os discípulos neoprotestantes de Lutero que deram um caráter exclusivista para o princípio "Sola Scriptura", rejeitando qualquer idéia de Tradição. Apesar disso, protestantes e neoprotestantes também têm sua tradição, e espero que quem for honesto reconheça isso, pois é um fato. Eles interpretam a Bíblia a partir da perspectiva estrita de alguns pontos de doutrina que não estão escritos na Bíblia, de alguns livros, catecismos ou revistas publicados pela sua denominação ou da opinião de pessoas consideradas carismáticas. Assim, o princípio da Sola Scriptura, como veremos, não funciona, porque os critérios de interpretação da Bíblia estão fora dela. Se a Bíblia pudesse ser interpretada somente através dela seria impossível a aparição de inúmeras denominações e interpretações todas afirmando se basear "Somente nas Escrituras", mas, ao mesmo tempo, se contradizendo.
Apesar de terem sua tradição, os protestantes e neoprotestantes não reconhecem a Santa Tradição, trazendo contra nós falsos argumentos, que não se referem à Tradição, mas a "tradições humanas" como as chama a Bíblia. Em três lugares da Escritura, onde a tradição parece ser condenada, o Senhor se refere claramente aos "ensinamentos dos homens" (Mateus 15, 2-6; Marcos 7, 3-13 e Colossenses 2,8), E se os neoprotestantes preferem citar Mateus, eu vou citar Marcos 7, 8: ""Porque, afastando-se da Lei de Deus, vocês mantém as regras dos homens: lavar os copos e jarros, e muitos outros como estes.". Aqui podemos ver claramente não só a condenação de uma tradição, mas também o seu conteúdo: a lavagem de copos e garrafões e outros hábitos irrelevantes para a salvação. Mas quando nós falamos sobre a Tradição, nos referimos a outra coisa e quero que entendam claramente isso. Nós não consideramos parte da Tradição aquele elemento que contradiz a Revelação e a Divina Escritura. Escritura e Tradição não podem ser vistas como duas fontes complementares de doutrina, mas como duas realidades que estão numa relação de mútua interioridade (cada uma contém a outra). Se fizermos uma analogia a Santíssima Trindade, podemos dizer que a Escritura e a Tradição são um só ser, esse ser é a Verdade única e imutável, e, ao mesmo tempo, elas são distintas. É por isso que a sua separação e contraposição pode ser comparada com a separação e contraposição das Pessoas da Santíssima Trindade. Vou expandir a idéia mais tarde e quero que entendam a analogia da Santíssima Trindade somente como uma comparação.
Como a Bíblia ensina, a nossa salvação trazida por Cristo foi realizada objetivamente pela paixão, morte e ressurreição de Cristo e, subjetivamente, pela nossa cooperação com Deus e a Igreja que ele fez, não com a base nas idéias pessoais ou de algum grupo, mas baseada na Sua Pessoa Divino-Humana (Mateus 16, 16; 1 Timóteo 3, 15-16). Ele prometeu que Sua Igreja sempre vai existir, por isso nem "as portas do inferno prevaleverão contra ela". (Mateus 16, 18). Quando Ele levantou ao céu, Ele prometeu que vai estar conosco até o fim do mundo (Mat 16, 16) e que o Espírito Santo será enviado no mundo para levar-nos a toda a verdade (Mateus 28, 20). Esta verdade é a respeito de Cristo e é o próprio Cristo (João 14, 6), que "ontem, hoje e sempre é o mesmo" (Hebreus 13, 8) e nossa fé nEle é a fé que tem sido dada para sempre aos santos (Judas 1, 3). Tendo isso em conta, é evidente que a verdade da fé não pode ser uma no primeiro século, outra no quarto, outra no século XVI e outra no século XXI. Ela deve ser a mesma até o fim do mundo. Quem admitir que a verdade pode ser mudada está longe da verdade, pois ele está contrariando as Escrituras. É por isso que consideramos que a verdade deve ser a mesma em todos os tempos e lugares e sua manutenção intecta é devida a presença eterna de Cristo e do Espírito Santo na Igreja do Deus Vivo, que é o "pilar e sustentáculo da verdade" ( 1 Tomóteo 3, 15). E se a verdade é uma só, também a Igreja só pode ser uma, porque uma cabeça não pode ter vários corpos, uma cabeça tem um só corpo (Efésios 1, 22-23; 2, 3-6). Deduzimos que a Igreja de Cristo e sua doutrina deve existir a partir do momento da sua criação até o fim do mundo, sem interrupção. Então, pode pretender ao nome de "Igreja de Cristo" só aquela assembléia cristã que tem existido, sem interupção e consideramos que essas condições só nossa Igreja corresponde a partir dos primeiros séculos, sendo a mesma Igreja dos apóstolos e dos primeiros cristãos. Foi nesta Igreja que a Bíblia foi escrita e interpretada junto com muitos outros
ensinamentos necessários para a salvação. Foi nela que o Espírito Santo guiou os santos bispos a estabelecer corretamente o canon bíblico (o número dos livros bíblicos, seus autores e sua ordem), rejeitando todos os apócrifos heréticos. E isso aconteceu a partir do século IV até mais tarde, quando a Igreja tinha as mesmas cerimônias e organizações.
Grandes diferenças entre a Igreja do século quando foi proclamado o canone bíblico e a nossa Igreja de hoje não existem. Nesta Igreja, a Bíblia era escrita, interpretada e transmitida adiante, com muitos outros ensinamentos baseados na mesma fé e pregação apostólicas. O principio da Sola Scriptura não existia e não tinah como existir. Os Santos Padres que estabeleceram o canon bíblico foram aceitando e difundindo muitos ensinamentos que não estavam claramente expressos na Bíblia, mas que foram retirados da Santa Tradição, e, mesmo assim, em acordo com a Bíblia:
- O texto e a cerimônia da Sagrada Eucaristia que não são mencionados na Bíblia.
- A tripla imersão no batismo, sugerida na Didaquê, escritura do primeiro século, que, muitas vezes era incluida no canon, sabemos que os protestantes de hoje batisam com uma só imersão, e seria interessante saber de onde tiraram isso.
- A veneração das reliquias, claramente mencionada no século II, vinculada ao martírio de S. Policarpo de Esmirna, discipulo direto de São João Teólogo.
- O sinal da cruz, confirmado no século II.
De onde os protestantes têm a Bíblia? Em que eles estão baseados, quando dizem que um Evangelho pertence a Mateus ou a Marcos? De onde eles sabem que existem 27 livros autênticos no Novo Testamento e não menos ou mais? Nós dizemos que todas essas informações e, às vezes, até a maneira de interpretar as Escrituras, eles plagiaram da Santa Tradição da nossa Igreja.
Daqui derivam outras perguntas: Por que tiraram apenas uma parte da Tradição da Igreja e com base em que critérios eles consideram que, no estabelecimento do Canon bíblico a Tradição da nossa Igreja foi correta e em outras, a mesma Tradição errou? E se esta Igreja errou em alguma coisa, tendo "mancha ou ruga" (Efésios 5, 27), então ela não é mais Igreja e o que Cristo estabeleceu foi derrotado pelo diabo e Cristo era um mentiroso, pois fez falsas profecias (Mateus 16, 18). E se o que Ele criou não foi destruído, então essa Igreja existiu e existe e é a ela que devemos pertencer, porque todas as outras supostas "igrejas" são mentirosas.
Quero detalhar alguns aspectos sobre a relação Escritura-Tradição-Igreja. Depois da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos (Atos 2, 1-4), os cristãos perseveraram "na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações." (Atos 2, 42). A atividade de cada apóstolo não era limitada a pregação, porque os apóstolso não espalhavam Bíblais pelo mundo, como os protestantes fazem, mas eles espalhavam a Igreja de Cristo, em toda a sua integridade. "A sabedoria de Deus, de muitos tipos, foi dada a conhecer através da Igreja" (Efésios 3, 10), não através da Bíblia. E a Igreja incluiu e inclui batismo, eucaristia, sacerdócio, pregação e muitas outras coisas das quais, me desculpem, os protestantes, às vezes, nunca ouviram falar.
É claro que uma ênfase especial na missão dos apóstolos era dada a pregação da "palavra de Deus" e esta expressão se refere, em primeiro lugar, a pregação oral. (Atos 6, 2-7; 11,1; 13,7-44; 16, 32; 18, 11). a "Palavra de Deus" mão se referia a palavra escrita (as Escrituras), como os protestantes dizem, considerando apenas a Bíblia como "Palavra de Deus". As Escrituras mostram claramente que a pregação oral era a Palavra de Deus e ela "crescia e se multiplicava" (Atos 12, 21), ou seja, foi passada adiante em formas enriquecidas pela ação do Espírito Santo.
Outro aspecto extremamente importante e crucial na pregação da Palavra de Deus coexiste em que os apóstolos exortavam os seus discípulos a manter e passar adiante o que receberam do Senhor. Aqui aparece a noção de "Tradição", como revelação completa dada a Igreja através dos apóstolos e transmitida adiante sem alterações. Vejam alguns textos bíblicos que falam sobre esse significado da tradição (paradosis) e da necessidade de guardá-la: "Louvo-vos, irmãos, que vos lembreis de mim em todas as coisas, e mantenham as tradições como lhes entreguei. Porque as recebi do Senhor e o que recebi repassei para vós" (1 Coríntios 11, 2-23); "Irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa" (2 Tessalonissenses 2, 15); "Agora, o compando-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos apartei de todo irmão que anda desordenadamente, e não seguindo a Tradição que de nós recebeu" (2 Tessalonisenses 3,6); "Essas coisas, que vós aprendestes, recebestes, ouvistes, e vistes em mim, façam: o Deus da paz estará convosco" (Filipenses 4, 9); Não disse "o que lestes". Vemos que a transmissão da doutrina por meio oral e a retransmissão dela inalterada não era apenas uma alternativa para a palavra escrita, mas, na maioria das vezes, a única maneira de pregar o Evangelho, porque:
1) Cristo não escreveu nada (com exceção de algumas palavras na areia) e não ordenou aos apóstolos que escrevessem alguma coisa.
2) Assim como no Antigo Testamento, até Moisés, ninguém escreveu nada, também os Santos Apóstolos não escreveram nada nos quase 20 anos de pregação e São João escreveu seus cinco livros no final da sua vida, após 60 anos de pregação ora, que representa mais de uma geração. Surge a pergunta: Esse povo sabia que "Deus é amor" (1 João 4, 8)? A Epístola de S. João não estava escrita ainda.
3) Por causa de alguns problemas concretos de algumas comunidades, mas, sobretudo, por causa das heresias daquele tempo. os apóstolos escreveram apenas uma parte da doutrina, sem dizer ou deixar claro que o que eles escreveram continha tudo, mas pelo contrário, claramente mostraram que a atividade e, especialmente, a doutrina de Jesus, diretamente ou através dos apóstolos dada, é muito mais vasta, que "nem mesmo o próprio mundo poderia conter os livros que deveriam ser escritos". Em Atos 20, 35, São Paulo, que não conheceu diretamente a Cristo, apresenta um ensinamento dele que não aparece em nenhum dos quatro evangelhos: "Há mais felicidade em dar do que em receber". Mas o que chama a atenção é que, antes disso, em Atos 20, 31, São Paulo diz que, durante três anos, nunca parou, dia e noite, a exortar os seus apóstolos de Eféso, mas não encontramos na Bíblia o conteúdo dessas pregações sistemáticas durante três anos. E se essas pregações continham centenas de ensinamentos que vieram diretamente de Jesus, mas que não estão escritos no Evangelho, como o versiculo acima? Este caso não é o único, porque também não temos, na Bíblia, o conteúdo da pregação durante um ano e meio, de Corinto (Atos 18, 11), que não é o mesmo que o das duas epístolas aos Coríntios que temos. Certamente, São Paulo disse aos coríntios muito mais sobre a Eucaristia do que ele disse depois, em alguns versículos do capítulo 11, da primeira epístola. Podemos pensar o mesmo sobre a celebração do domingo, sobre o qual, nas epístolas, ele fala apenas um pouco (1 Coríntios 16, 2).
4) Mais do que isso, os apóstolos preferiam falar com os seus discípulos, diretamente, cara a cara, as epístolas sendo apenas uma alternativa para os casos em que a reunião e a conversa direta não eram possíveis. Vejam apenas dois exemplos, ambos a partir do final do século apostólico, em que vemos os apóstolos, mesmo naquela época, preferiam a palavra oral, não a escrita: "Apesar de ter mais coisas que vos escrever, não o quis fazer com papel e tinta, mas espero estar entre vós e conversar de viva voz, para que a vossa alegria seja perfeita." (2 João 1, 12) Se a alegria não era completa, também a graça não era completa, segundo São Paulo. "Tinah muitas coisas para te escrever, mas não quero fazê-lo com tinta e pena. Espero ir ver-te em breve e então falaremos de viva voz." (3 João 1,13-14).
5) Os apóstolos não podiam pretender aos primeiros cristãos ter ou ler a Bíblia, pois isso era técnicamente impossível. Foi apenas nos séculos II e III que as igrejas das cidades grandes começaram a recolher os livros do Novo Testamento adotando também a tradução grega do Antigo Testamento (Septuaginta), mas esse processo de colheita era muito difícil por causa do grande custo dos pergaminhos ou papiro e das grandes distâncias entre as igrejas. que tinham um certo livro herdado dos apóstolos. A possibilidade de algumas pessoas terem uma parte dos livros bíblicos era extremamente reduxida (também a maioria não sabia ler). Se aceitarmos a concepção errada dos protestantes podemos concluir que os primeiros cristãos não podiam ser salvos, já que não liam nem estudavam a Bíblia. E se é assim que aconteceu nos primeiros séculos e mais tarde com a Bíblia, então uma pergunta aparece: Como e de que forma os cristãos recebiam a palavra salvadora? A resposta é muito simples: na Igreja. onde os bispos ordenados e ajudados pelo Espírito Santo (Atos 20, 28) estavam passando de geração em geração o "tesouro" recebido pelos apóstolos (2 Timóteo 1, 13-14).
Essa sucessão apostólica incluía o direito de sacrificar a Eucaristia e o direito de pregar o Evangelho, realidades que nem a Igreja primária, nem depois, foram separadas. Irineu de Lyon, discípulo de S. Policarpo de Esmirna, que foi discípulo de São João, que era o "apóstolo amado" do Senhor, disse: "A nossa fé está de acordo com a Eucaristia". Duas gerações depois de S. João, a fé e a Eucaristia estavam unidas. Assim também são hoje, na nossa Igreja. Não falei sobre a sucessão apostólica gratuitamente, porque, na Igreja, esta sucessão pode ser vista em toda parte e permanentemente. Lógica e teologicamente, está claro que a quebra desta sucessão sacramental e doutrinária significa a separação da Igreja Apostólica, cuja cabeça é Cristo. Ficaríamos felizes em ver esta sucessão no protestantismo também, mas não temos chance. Ao enfatizar o papel da sucessão sacramental, não quero dizer que os leigos não conheciam a "palavra de Deus", mas que a Bíblia era lida e pregada somente na Bíblia; Igreja é a comunhão de cristãos, reunidos em torno da Eucaristia e guiada pelo Espírito Santo, mas também o lugar concreto onde esses livros (que nem todos tinham mas que estavam a disposição de todos) estavam guardados.
O mito que diz que a Igreja proibia os leigos de lerem a Bíblia é uma grande mentira. Os protestantes também desinformam com outro mito: que a Igreja proibia a tradução da Bíblia para os outros povos. Havia a tradução siríaca, nos séculos 4-5, a tradução gótica, no século 9, a tradução eslava, no século 15, a tradução romena. Quando Lutero apareceu na face da Terra, todos o grandes povos antigos tinham a Bíblia traduzida em suas línguas.
Vou fazer algumas especificações sobre a natureza e o conteúdo da Tradição. Por Santa Tradição, entendemos a revelação completa, dada a Igreja, através dos apóstolos e passada adiante inalterada. Então, a Tradição não é um conjunto de ensinamentos ou costumes, mas a "respiração do Espírito Santo na Igreja", presente na doutrina da Igreja, na oração e na vivência dos seus membros. Nós já argumentamos que a Bíblia é apenas [uma parte] desta revelação a sua importância e autoridade não são devidas ao seu conteúdo exaustivo (como dizem os evangélicos, que a Bíblia contém tudo) mas ao fato de a Bíblia ser aquela parte ao fato de a Bíblia ser aquela parte da revelação que foi escrita diretamente pelos apóstolos, testemunhas oculares auditivas do Senhor e em sua base, todos os outros elementos da Tradição podem ser certificados. E por isso que a Bíblia tem autoridade: por ser uma fonte de primeira mão, não porque conteria tudo e fora dela não haveria nada. Então, a Bíblia não e não pode ser considerada auto-suficiente, separada da memória viva da Igreja, que é a Tradição. Tirar a Bíblia do contexto da Tradição Igreja é tirar um versículo do contexto de um livro bíblia. Assim como separar o versículo de um contexto pode levar a perdição, também separar a Bíblia da Tradição leva a perdição. Então, a Bíblia, como ela mesma diz, só pode ser interpretada através da Tradição. Vejam alguns trechos bíblicos sobre isso: "Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos falaram da parte de Deus conforme eram movidos pelo Espírito Santo" (2 Pedro 1, 20-21). Então, a Bíblia não se interpreta por si mesma ou em particular, como os protestantes dizem, mas sua interpretação só pode ser feita por "homens santos", "guiados pelo Espírito Santo". Para nós, eles são Santos Padres, que os batistas, Às vezes, plagiam, sem ter a coragem e sinceridade de dizer que certos ensinos pertencem a João Crisóstomo ou a S. Vasilios, mas nem mesmo a eles, mas ao Espírito Santo, que falou, através deles, devido a sucessão herdada dos apóstolos, mas também devido a santidade deles. Até o eunuco da Etiópia reconheceu que não poderia compreender corretamente o texto da Escritura sem guia (Atos 8, 31), especialmente porque, na Bíblia, há "muitas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis torcem, para sua própria perdição" (2 Pedro 3, 16).
A Tradição da Igreja não só nos deu a Bíblia, mas também a chave da sua significação, sem a qual é impossível não errar, atraindo a perda da alma. A Santa Tradição tem os seguintes elementos básicos:
1) A Bíblia, elemento infalível e com máxima autoridade, com base na qual as outras fontes são verificadas.
2) Os antigos símbolos de fé e confissões, incluindo os mártires (Mateus 10, 19-20). Cristo disse que na hora do martírio, não vão ser os cristãos quem falarão, mas o Espírito Santo falará através deles. Isso significa que eles serão revelados. E se os evangelistas foram revelados e são obedecidos, também os mártires devem ser escutados.
3) As decisões canônicas e dogmáticas dos Concílios Locais e Ecumênicos.
4) Os escritos dos Santos Padres, universalmente reconhecidos pela Igreja (por meio do principio "consensum patrum" = os escritos que não contradizem a Escritura e não se contradizem entre si, mas são baseadas no consenso teológico, como obra do Espírito Santo, que falou através deles, com palavras diferentes, mas da mesma forma.
5) Os vestígios liturgicos: ícones, hinografia, etc. Na Igreja primária, existia uma definição simples para os ícones: "A Bíblia dos analfabetos".
Os critérios em base do qual que os elementos 2, 3, 4, 5 são aceitos ou rejeitados na Tradição é o mesmo critério base do qual os livros bíblicos foram aceitos e pregados. Este critério foi formulado no século 4 por São Vicênio de Leryn: "A verdadeira Tradição é o que todas as pessoas acreditaram sempre e em todos os lugares". A ação do Espírito Santo consiste nesta concordância universal no espaço e no tempo, que faz da Tradição uma espécie de filtro, que só aceita o que é útil e em concordância com o ensinamento oral e escrito herdado de Cristo e dos apóstolos, rejeitando todos os escritos contrários a esses ensinamentos.
Esta revelação não é só informação, assim como também a Bíblia não é só informação e nem a Tradição é só informação, mas também espiritu=ação viva do Espírito Santo, na Igreja. O espírito da Tradição precede e dá valor à informação.
1) Através da Tradição, nos é transmitido o espírito apostólico da leitura e interpretação da Bíblia e, apenas depois, aparece a informação (o conteúdo dessas interpretações). Primeiro, foi transmitido o espírito da compreensão e formulação dos dogmas cristãos e, apenas depois, encontramos o conteúdo desses dogmas formulado na Tradição. Em conclusão, a Igreja poderá formular outros dogmas também, se for preciso. E o espírito da compreensão dos dogmas que vai nos manter longe das formulações erradas e contraditórias. Os protestantes, tendo isso em conta, não foram e não são capazes de operar conforme a informação dos dogmas, porque não tem mais o espírito da Tradição dogmática. O espírito e modelo da oração foram transmitidas pelos apóstolos aos seus discípulos e gravitavam em torno da Eucaristia.
Muito antes da oficialização do cristianismo como religião (313) as orações e praticas litúrgicas dos cristãos eram semelhantes e, às vezes, idênticas, como o texto e forma das que vemos hoje, mesmo sem nem existirem na Bíblia. Tudo isso demonstra, mais uma vez, a ação do Espírito Santo na Igreja não somente através da letra da Bíblia mas também através da letra e espirito da Tradição da nossa Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.
terça-feira, 17 de maio de 2011
As escrituras e a Tradição descritas por um ortodoxo.
Bom, discordo dele quanto a questão da não validade dos sacramentos e sacerdócio Católico, entretante ele refuta as principais objeções protsetantes e demonstra, como várias vezes já foi demosntrado em outros meios, que a Sola Scriptura não faz sentido algum, pelo contrário, nem a Bíblia nem a Igreja desde o principio acreditava em algo do tipo.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
domingo, 5 de dezembro de 2010
Afinal, qual a lógica da ressurreição?
Não pretendo tratar aqui a questão de como a ressurreição é possível e vai ser feita, já que se Deus existe e possui as características que a Teologia Cristã atribui, então não é impossível que ela ocorra. Algumas pessoas acham possível para Deus criar o mundo ex nihilo, espíritos com capacidades impressionantes e a possibilidade de reencarnações sucessivas de seres humanos, mas não a de uma “simples” ressurreição.
Parecem crer num Deus que possui a habilidade de criar a vida do nada, mas não consegue fazer com que essa vida que havia criado da matéria inanimada se torne animada mais uma vez.
É claro que na ressurreição o que ressurge nem sempre se refere ao material exato que a pessoa possuía ao morrer, e sim a forma que o faz [alguém], um “eu” diferente dos outros e com suas características pessoais, o que só é problema para seres limitados e não a um Ser do qual nada maior se pode imaginar. Nós, por exemplo, constantemente somos regenerados com um novo material quando possuímos algum ferimento.
Também não penso ser importante o que alguns citam como motivo para desacreditar na ressurreição questões como a idade das pessoas ressurretas. Isso, na minha sincera opinião, não passa de desculpas esfarrapadas pra quem quer arrumar um motivo pra dizer que possui algum porquê de não crer na ressurreição.
A questão principal não é essa. Se Deus prometeu ressuscitar os seres humanos, e prometeu que o que há de vir será muito bom, Ele sabe mais do que nós mesmos o que vai ser melhor (afinal, é o nosso Projetista), inclusive a idade, que não importa sabermos pra poder ver sentido.
As questões que realmente importam, e ultimamente tenho visto, são um pouco diferentes dessas primeiras (e bem mais importantes), e devem ser respondidas pressupondo que Jesus teria ressuscitado. Melhor, para um sentido completo, deve-se levar em consideração toda a história da salvação registrada nas escrituras. Não crer, apenas pressupor.
Mas afinal, qual é a lógica, ou melhor, o sentido da ressurreição? Além do sentido da nossa ressurreição futura, qual é o sentido da ressurreição de Jesus além da repetida conseqüência expiatória? Teria alguma importância para sua mensagem se Ele (Jesus) ressuscitou de fato ou não? O que é que os cristãos primitivos ensinavam? E o que o real significado da ressurreição de Jesus implica para nossas vidas e para o mundo?
Segundo os primeiros cristãos, o mundo havia decaído e estava corrompido. O mundo precisava de restauração e Deus prometeu restaurá-lo. De tempos em tempos surgia um sinal Divino dessa intervenção, seja pela mensagem dos profetas, ou por acontecimentos ligados a Israel que não estavam ligados necessariamente a essas mensagens proféticas. Nessa história, surge a esperança da ressurreição final dos mortos, onde Deus julgará cada pessoa e restaurará a natureza.
Antes da ressurreição de Jesus todos os seus discípulos, assim como os outros judeus, acreditavam que essa restauração se daria nesse dia da ressurreição final quando Deus irá restaurar o que criou.
Esse é o primeiro ponto sobre o sentido da ressurreição. Para Deus, o mundo em si não é ruim, e Ele não deixará sua criação à toa, pelo contrário, irá restaurá-la assim como ela estava no momento em que viu que era boa. Seria a Nova Criação de Deus, mas vamos tratar disso melhor adiante.
Diferente da expectativa dos judeus (incluindo seus discípulos), Jesus ressuscitou após a sua morte. Além do significado referente à morte expiatória, explicada pelo próprio Senhor depois de ressurreto, houve outro entendimento dos cristãos (passado por Ele ou pelo Espírito Santo) das conseqüências da ressurreição o Mestre. Esse entendimento foi sobre a antecipação em Jesus do que acontecerá com o mundo.
Se a Nova Criação de Deus começa na ressurreição e Jesus ressuscitou, então a Nova Criação de Deus já começou. Mas se todos os mortos ainda não ressurgiram isso significa que Ele é a finalidade, o futuro da humanidade apresentada no presente de modo que o presente possa ser transformado à luz desse futuro glorioso começado por Jesus Cristo. Não só o futuro da humanidade, mas de toda a criação a ser restaurada (ou feita viva novamente), e a garantia disso tudo é esse futuro que já começou com Jesus ressuscitado.
Isso claramente cria uma responsabilidade que os cristãos têm negligenciado, principalmente por acreditarem em conceitos sobre o fim do mundo, “ir para o céu” (acredito em um estado intermediário, mas não como finalidade do homem) e esperar a volta de Jesus. Como N. T. Wright disse “Se Deus queria que o mundo acabasse e o Armagedom estava às portas, por que se preocupar com o fato de grandes empresas, como a General Motors, continuarem a lançar gases venenosos na atmosfera canadense? [...] Se a intenção de Deus é conduzir o mundo a sua destruição total, qual é o problema? Se o Armagedon está às portas, não faz diferença o (e suspeito que isso realmente faça parte da agenda) o fato de a General Motors lançar gases venenosos na atmosfera canadense”. [Surpreendido pela esperança, p 135 e 136]
Transformar o mundo presente à luz do futuro é feito cumprindo a mensagem de Jesus. Amar a Deus acima de todas as coisas, ao próximo como a si mesmo resume todo esse ensino. Amando a Deus conseqüentemente implica em amar o próximo, mas não só ele, e sim a sua criação. Assim, possuímos plena responsabilidade não só com as pessoas, mas com a natureza, e isso acaba com a acusação de que a crença cristã (principalmente na volta de Jesus) nos livra dessa responsabilidade, quando na verdade é o contrário.
É bom lembrar que esse Reino pregado por Jesus Cristo foi também ensinado como parábolas, como uma planta que sua semente é pequena, mas que cresce até dar frutos. Ou como uma farinha fermentada, e, talvez um dos exemplos mais esclarecedores, a Parábola do Joio e do Trigo.
Isso explica perfeitamente que, apesar das aparências, o Reino está a se manifestar e se manifestará completamente, assim como a semente pequena que dá uma grande árvore. Entretanto, enquanto não é manifesto totalmente, há joios no meio do trigo, o que faz algumas pessoas pensarem que Jesus não está a reinar.
É óbvio que os cristãos têm sido um tanto desastrosos, mas isso além de ser previsto, mostra mais uma vez que a “porta é estreita” e não serão muitos os que entrarão por essa porta.
É claro, também, que não estou a falar da salvação por obras, nem que somos salvos por agir dessa forma. Estou me referindo às conseqüências da ressurreição de Jesus para a humanidade e o cosmos, qual seu sentido, e como Deus, segundo a Teologia Cristã, não abandonará o mundo, ao contrário de outros tipos de pensamentos, onde esse mundo é mau em si (ou, em alguns casos, irrelevante, sem importância) e que seremos libertos quando sairmos desse corpo para algo melhor. Os discípulos de Jesus ensinaram também de algo melhor, mas esse algo melhor que faz parte da esperança primitiva é a restauração do mundo, “o Novo Céu e Nova Terra”, o cumprimento da promessa de que Deus não abandonaria o mundo, pois criou e viu que era bom.
Isso também me faz pensar na questão de Jesus como o Messias. Os primeiros cristãos não pareciam pensar que “Jesus ressuscitou, portanto é o messias”, mas que Ele é o Messias, cumpriu algumas profecias, ressuscitou para cumprir outros propósitos de Deus (alguns já foram mencionados) além das outras profecias que cumprirá nesse futuro que já pode ser experimentado de alguma forma no presente.
O significado da ressurreição não é apenas o que coloquei aqui, mas esse é um dos que considero como mais negligenciados. As Escrituras, assim como a Tradição Cristã, mostram seus outros significados e implicações para o Cristão e o Cosmos. Resta a quem desejar conhecer a mensagem cristã (principalmente o que faz parte da crença cristã primitiva) buscar entender melhor esse assunto. Acho interessante o que N. T. Wright mostra sobre essa visão, inclusive no livro “Surpreendido pela Esperança” (que tirei várias idéias para escrever esse texto).
Então, está aí uma pequena explicação, e uma boa dica de leitura.
Autor: Jonadabe Rios
Parecem crer num Deus que possui a habilidade de criar a vida do nada, mas não consegue fazer com que essa vida que havia criado da matéria inanimada se torne animada mais uma vez.
É claro que na ressurreição o que ressurge nem sempre se refere ao material exato que a pessoa possuía ao morrer, e sim a forma que o faz [alguém], um “eu” diferente dos outros e com suas características pessoais, o que só é problema para seres limitados e não a um Ser do qual nada maior se pode imaginar. Nós, por exemplo, constantemente somos regenerados com um novo material quando possuímos algum ferimento.
Também não penso ser importante o que alguns citam como motivo para desacreditar na ressurreição questões como a idade das pessoas ressurretas. Isso, na minha sincera opinião, não passa de desculpas esfarrapadas pra quem quer arrumar um motivo pra dizer que possui algum porquê de não crer na ressurreição.
A questão principal não é essa. Se Deus prometeu ressuscitar os seres humanos, e prometeu que o que há de vir será muito bom, Ele sabe mais do que nós mesmos o que vai ser melhor (afinal, é o nosso Projetista), inclusive a idade, que não importa sabermos pra poder ver sentido.
As questões que realmente importam, e ultimamente tenho visto, são um pouco diferentes dessas primeiras (e bem mais importantes), e devem ser respondidas pressupondo que Jesus teria ressuscitado. Melhor, para um sentido completo, deve-se levar em consideração toda a história da salvação registrada nas escrituras. Não crer, apenas pressupor.
Mas afinal, qual é a lógica, ou melhor, o sentido da ressurreição? Além do sentido da nossa ressurreição futura, qual é o sentido da ressurreição de Jesus além da repetida conseqüência expiatória? Teria alguma importância para sua mensagem se Ele (Jesus) ressuscitou de fato ou não? O que é que os cristãos primitivos ensinavam? E o que o real significado da ressurreição de Jesus implica para nossas vidas e para o mundo?
Segundo os primeiros cristãos, o mundo havia decaído e estava corrompido. O mundo precisava de restauração e Deus prometeu restaurá-lo. De tempos em tempos surgia um sinal Divino dessa intervenção, seja pela mensagem dos profetas, ou por acontecimentos ligados a Israel que não estavam ligados necessariamente a essas mensagens proféticas. Nessa história, surge a esperança da ressurreição final dos mortos, onde Deus julgará cada pessoa e restaurará a natureza.
Antes da ressurreição de Jesus todos os seus discípulos, assim como os outros judeus, acreditavam que essa restauração se daria nesse dia da ressurreição final quando Deus irá restaurar o que criou.
Esse é o primeiro ponto sobre o sentido da ressurreição. Para Deus, o mundo em si não é ruim, e Ele não deixará sua criação à toa, pelo contrário, irá restaurá-la assim como ela estava no momento em que viu que era boa. Seria a Nova Criação de Deus, mas vamos tratar disso melhor adiante.
Diferente da expectativa dos judeus (incluindo seus discípulos), Jesus ressuscitou após a sua morte. Além do significado referente à morte expiatória, explicada pelo próprio Senhor depois de ressurreto, houve outro entendimento dos cristãos (passado por Ele ou pelo Espírito Santo) das conseqüências da ressurreição o Mestre. Esse entendimento foi sobre a antecipação em Jesus do que acontecerá com o mundo.
Se a Nova Criação de Deus começa na ressurreição e Jesus ressuscitou, então a Nova Criação de Deus já começou. Mas se todos os mortos ainda não ressurgiram isso significa que Ele é a finalidade, o futuro da humanidade apresentada no presente de modo que o presente possa ser transformado à luz desse futuro glorioso começado por Jesus Cristo. Não só o futuro da humanidade, mas de toda a criação a ser restaurada (ou feita viva novamente), e a garantia disso tudo é esse futuro que já começou com Jesus ressuscitado.
Isso claramente cria uma responsabilidade que os cristãos têm negligenciado, principalmente por acreditarem em conceitos sobre o fim do mundo, “ir para o céu” (acredito em um estado intermediário, mas não como finalidade do homem) e esperar a volta de Jesus. Como N. T. Wright disse “Se Deus queria que o mundo acabasse e o Armagedom estava às portas, por que se preocupar com o fato de grandes empresas, como a General Motors, continuarem a lançar gases venenosos na atmosfera canadense? [...] Se a intenção de Deus é conduzir o mundo a sua destruição total, qual é o problema? Se o Armagedon está às portas, não faz diferença o (e suspeito que isso realmente faça parte da agenda) o fato de a General Motors lançar gases venenosos na atmosfera canadense”. [Surpreendido pela esperança, p 135 e 136]
Transformar o mundo presente à luz do futuro é feito cumprindo a mensagem de Jesus. Amar a Deus acima de todas as coisas, ao próximo como a si mesmo resume todo esse ensino. Amando a Deus conseqüentemente implica em amar o próximo, mas não só ele, e sim a sua criação. Assim, possuímos plena responsabilidade não só com as pessoas, mas com a natureza, e isso acaba com a acusação de que a crença cristã (principalmente na volta de Jesus) nos livra dessa responsabilidade, quando na verdade é o contrário.
É bom lembrar que esse Reino pregado por Jesus Cristo foi também ensinado como parábolas, como uma planta que sua semente é pequena, mas que cresce até dar frutos. Ou como uma farinha fermentada, e, talvez um dos exemplos mais esclarecedores, a Parábola do Joio e do Trigo.
Isso explica perfeitamente que, apesar das aparências, o Reino está a se manifestar e se manifestará completamente, assim como a semente pequena que dá uma grande árvore. Entretanto, enquanto não é manifesto totalmente, há joios no meio do trigo, o que faz algumas pessoas pensarem que Jesus não está a reinar.
É óbvio que os cristãos têm sido um tanto desastrosos, mas isso além de ser previsto, mostra mais uma vez que a “porta é estreita” e não serão muitos os que entrarão por essa porta.
É claro, também, que não estou a falar da salvação por obras, nem que somos salvos por agir dessa forma. Estou me referindo às conseqüências da ressurreição de Jesus para a humanidade e o cosmos, qual seu sentido, e como Deus, segundo a Teologia Cristã, não abandonará o mundo, ao contrário de outros tipos de pensamentos, onde esse mundo é mau em si (ou, em alguns casos, irrelevante, sem importância) e que seremos libertos quando sairmos desse corpo para algo melhor. Os discípulos de Jesus ensinaram também de algo melhor, mas esse algo melhor que faz parte da esperança primitiva é a restauração do mundo, “o Novo Céu e Nova Terra”, o cumprimento da promessa de que Deus não abandonaria o mundo, pois criou e viu que era bom.
Isso também me faz pensar na questão de Jesus como o Messias. Os primeiros cristãos não pareciam pensar que “Jesus ressuscitou, portanto é o messias”, mas que Ele é o Messias, cumpriu algumas profecias, ressuscitou para cumprir outros propósitos de Deus (alguns já foram mencionados) além das outras profecias que cumprirá nesse futuro que já pode ser experimentado de alguma forma no presente.
O significado da ressurreição não é apenas o que coloquei aqui, mas esse é um dos que considero como mais negligenciados. As Escrituras, assim como a Tradição Cristã, mostram seus outros significados e implicações para o Cristão e o Cosmos. Resta a quem desejar conhecer a mensagem cristã (principalmente o que faz parte da crença cristã primitiva) buscar entender melhor esse assunto. Acho interessante o que N. T. Wright mostra sobre essa visão, inclusive no livro “Surpreendido pela Esperança” (que tirei várias idéias para escrever esse texto).
Então, está aí uma pequena explicação, e uma boa dica de leitura.
Autor: Jonadabe Rios
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Palavra de Deus encarnada
José Antonio Pagola
Assim é chamado Jesus numa espécie de "prólogo" com o qual inicia o evangelho de João. Depois a expressão desaparece inclusive neste mesmo evangelho. Ninguém volta a falar assim nas primeiras gerações cristãs. No entanto, esta expressão servirá mais tarde para aprofundar a partir da fé cristã, o próprio núcleo do mistério encerrado em Jesus.
Na terminologia deste prólogo está ressoando a categoria grega de Logos, a fé judaica na "Palavra" de Deus e a meditação sapiencial sobre a "Sabedoria". Como se sabe, na cultura grega sente-se a realidade como impregnada de racionalidade e sentido; a realidade não é algo caótico e incoerente; nela há Logos; as coisas têm sua "lógica" interna. Por outro lado, de acordo com a fé judaica, Deus não tem imagem visível, não pode ser pintado nem esculpido; mas tem voz; com a força de sua "Palavra" cria o universo e salva seu povo. Por isso, segundo a tradição sapiencial de Israel, o mundo e a história humana não constituem uma realidade absurda, porque tudo é sustentado e dirigido pela "Sabedoria" de Deus.
Este precioso hino joânico realça sobretudo a fé judaica. A Palavra está já "no princípio" de tudo. Não devemos entender esta Palavra como algo criado. Esta Palavra é o próprio Deus falando, comunicando-se, revelando-se na criação e na história apaixonante da humanidade. Tudo é criado e dirigido por essa Palavra. Por toda parte podemos intuir suas pegadas. Nessa Palavra está a "vida" e a "luz verdadeira" que ilumina toda pessoa que vem a este mundo. No mundo há também trevas, mas "a luz brilha nas trevas".
Tudo isto é crido pelos judeus e pode ser aceito por muitas pessoas de cultura grega. O insólito é a audaz proclamação que vem em seguida: "A Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós". Agora podemos captar a Palavra de Deus feita carne neste profeta da Galiléia chamado Jesus. Não é fácil. De fato, ele veio ao mundo e o mundo não o reconheceu; nem sequer os seus o receberam. Mas em Jesus Cristo nos está sendo oferecida a "graça" e a "verdade". Ninguém pode nos falar como ele. Deus assumiu carne em Jesus. Em suas palavras, seus gestos e em sua vida inteira estamos nos encontrando com Deus. Deus é assim, como diz Jesus; olha as pessoas como Jesus as olha; acolhe, defende, ama, perdoa como Jesus o faz. Deus se parece com Jesus. E não é só isso. Jesus é Deus falando-nos a partir da vida frágil e vulnerável deste ser humano.
Assim é chamado Jesus numa espécie de "prólogo" com o qual inicia o evangelho de João. Depois a expressão desaparece inclusive neste mesmo evangelho. Ninguém volta a falar assim nas primeiras gerações cristãs. No entanto, esta expressão servirá mais tarde para aprofundar a partir da fé cristã, o próprio núcleo do mistério encerrado em Jesus.
Na terminologia deste prólogo está ressoando a categoria grega de Logos, a fé judaica na "Palavra" de Deus e a meditação sapiencial sobre a "Sabedoria". Como se sabe, na cultura grega sente-se a realidade como impregnada de racionalidade e sentido; a realidade não é algo caótico e incoerente; nela há Logos; as coisas têm sua "lógica" interna. Por outro lado, de acordo com a fé judaica, Deus não tem imagem visível, não pode ser pintado nem esculpido; mas tem voz; com a força de sua "Palavra" cria o universo e salva seu povo. Por isso, segundo a tradição sapiencial de Israel, o mundo e a história humana não constituem uma realidade absurda, porque tudo é sustentado e dirigido pela "Sabedoria" de Deus.
Este precioso hino joânico realça sobretudo a fé judaica. A Palavra está já "no princípio" de tudo. Não devemos entender esta Palavra como algo criado. Esta Palavra é o próprio Deus falando, comunicando-se, revelando-se na criação e na história apaixonante da humanidade. Tudo é criado e dirigido por essa Palavra. Por toda parte podemos intuir suas pegadas. Nessa Palavra está a "vida" e a "luz verdadeira" que ilumina toda pessoa que vem a este mundo. No mundo há também trevas, mas "a luz brilha nas trevas".
Tudo isto é crido pelos judeus e pode ser aceito por muitas pessoas de cultura grega. O insólito é a audaz proclamação que vem em seguida: "A Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós". Agora podemos captar a Palavra de Deus feita carne neste profeta da Galiléia chamado Jesus. Não é fácil. De fato, ele veio ao mundo e o mundo não o reconheceu; nem sequer os seus o receberam. Mas em Jesus Cristo nos está sendo oferecida a "graça" e a "verdade". Ninguém pode nos falar como ele. Deus assumiu carne em Jesus. Em suas palavras, seus gestos e em sua vida inteira estamos nos encontrando com Deus. Deus é assim, como diz Jesus; olha as pessoas como Jesus as olha; acolhe, defende, ama, perdoa como Jesus o faz. Deus se parece com Jesus. E não é só isso. Jesus é Deus falando-nos a partir da vida frágil e vulnerável deste ser humano.
domingo, 21 de novembro de 2010
Inerrância Bíblica, alguns comentários sobre.
O que vou colocar aqui é o que postei como comentário em outro blog, mas achei interessante que os leitores soubessem do que tenho refletido referente à inerrância bíblica e sua inspiração.
Não faz muito tempo que deixei de defender a inerrância bíblica da forma que os fundamentalistas propõem. O que não quer dizer que creio que a Bíblia é cheia desses erros, principalmente os apontados no manual de contradições bíblicas do Geisler. Uma coisa que me chama atenção nessa questão é que, para estes, a inerrância plena se dá somente nos autógrafos. Mas se não os possuímos, como é que podemos dizer que os autógrafos são inerrantes da maneira que desejam apresentar?
Eu partilho do pensamento de que Jesus é a Palavra no sentido estrito e que as Escrituras são a Palavra, pois elas refletem a Jesus Cristo. Mas ainda isso me faz indagar: se Jesus não erra e as escrituras são um reflexo dessa Palavra, então como elas não seriam inerrantes da mesma forma que Jesus é inerrante? Creio que depende de como vemos a Bíblia como esse reflexo e como vemos Jesus como inerrante. Por exemplo, se ela é um reflexo de Jesus, então ela é humana e espiritual (sua mensagem espiritual). É claro que como cristão acredito que Jesus não errou em sua mensagem espiritual, portanto a Bíblia também não erra na mensagem de salvação para a humanidade.
A questão é se “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, ou como chamo aqui, de "escrita secular". Mas se Jesus errou de alguma forma como homem, no sentido de que possuía as crenças de sua época a respeito do mundo secular, então a Bíblia poderia sim ter errado nessas questões.
Por exemplo, Jesus falou que o menor grão é o grão de mostarda. É claro que Jesus estava a falar do menor grão em que os palestinos possivelmente conheciam. Será que Jesus também não estava errado nisso, de acordo com o conhecimento secular limitado? Esse é um exemplo de conhecimento secular limitado que todo ser humano possui.
Sinceramente, até agora não vi nenhum problema para pensar que Jesus não poderia ser limitado dessa forma, afinal, Ele é totalmente Deus e totalmente homem, isso significa que assim como um palestino no primeiro século [totalmente homem], Jesus era limitado nessas questões seculares assim como nós que somos totalmente humanos. Sem pecado, porém ainda limitado nas questões seculares como qualquer ser humano. Veja que não estou a falar que Jesus foi limitado na questão de sua mensagem que Ele disse ter sido revelada pelo Pai.
Então, se a Bíblia reflete essa Palavra, ela deveria refletir Jesus até mesmo em suas limitações. O que faria da inerrância não algo de que “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, mas que a Bíblia contém a mensagem verdadeira de Jesus revelada aos homens escrita por pessoas com as limitações de conhecimento secular humano.
Claro que devemos fazer diferenciação de Inspiração Bíblica com o de Inerrância, mas a questão da inerrância vai depender do que temos por inspiração.
Como até o momento não vi nem mesmo nas próprias escrituras a exposição do conceito de inspiração que os fundamentalistas defendem, nem mesmo argumentos lógicos apropriados, penso que nos casos em que mostrei não é contraditório crer na inspiração e em erros bíblicos, na verdade, pelos motivos apresentados, os tipos de erros e características humanas já eram de se esperar na Bíblia sem afetar também sua característica espiritual, esta sim inerrante.
Assim, pelas palavras escritas pelos homens inspirados por Deus, a Palavra de Deus vem à tona, da mesma forma que a Palavra de Deus veio à tona através da humanidade de Jesus.
Não faz muito tempo que deixei de defender a inerrância bíblica da forma que os fundamentalistas propõem. O que não quer dizer que creio que a Bíblia é cheia desses erros, principalmente os apontados no manual de contradições bíblicas do Geisler. Uma coisa que me chama atenção nessa questão é que, para estes, a inerrância plena se dá somente nos autógrafos. Mas se não os possuímos, como é que podemos dizer que os autógrafos são inerrantes da maneira que desejam apresentar?
Eu partilho do pensamento de que Jesus é a Palavra no sentido estrito e que as Escrituras são a Palavra, pois elas refletem a Jesus Cristo. Mas ainda isso me faz indagar: se Jesus não erra e as escrituras são um reflexo dessa Palavra, então como elas não seriam inerrantes da mesma forma que Jesus é inerrante? Creio que depende de como vemos a Bíblia como esse reflexo e como vemos Jesus como inerrante. Por exemplo, se ela é um reflexo de Jesus, então ela é humana e espiritual (sua mensagem espiritual). É claro que como cristão acredito que Jesus não errou em sua mensagem espiritual, portanto a Bíblia também não erra na mensagem de salvação para a humanidade.
A questão é se “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, ou como chamo aqui, de "escrita secular". Mas se Jesus errou de alguma forma como homem, no sentido de que possuía as crenças de sua época a respeito do mundo secular, então a Bíblia poderia sim ter errado nessas questões.
Por exemplo, Jesus falou que o menor grão é o grão de mostarda. É claro que Jesus estava a falar do menor grão em que os palestinos possivelmente conheciam. Será que Jesus também não estava errado nisso, de acordo com o conhecimento secular limitado? Esse é um exemplo de conhecimento secular limitado que todo ser humano possui.
Sinceramente, até agora não vi nenhum problema para pensar que Jesus não poderia ser limitado dessa forma, afinal, Ele é totalmente Deus e totalmente homem, isso significa que assim como um palestino no primeiro século [totalmente homem], Jesus era limitado nessas questões seculares assim como nós que somos totalmente humanos. Sem pecado, porém ainda limitado nas questões seculares como qualquer ser humano. Veja que não estou a falar que Jesus foi limitado na questão de sua mensagem que Ele disse ter sido revelada pelo Pai.
Então, se a Bíblia reflete essa Palavra, ela deveria refletir Jesus até mesmo em suas limitações. O que faria da inerrância não algo de que “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, mas que a Bíblia contém a mensagem verdadeira de Jesus revelada aos homens escrita por pessoas com as limitações de conhecimento secular humano.
Claro que devemos fazer diferenciação de Inspiração Bíblica com o de Inerrância, mas a questão da inerrância vai depender do que temos por inspiração.
Como até o momento não vi nem mesmo nas próprias escrituras a exposição do conceito de inspiração que os fundamentalistas defendem, nem mesmo argumentos lógicos apropriados, penso que nos casos em que mostrei não é contraditório crer na inspiração e em erros bíblicos, na verdade, pelos motivos apresentados, os tipos de erros e características humanas já eram de se esperar na Bíblia sem afetar também sua característica espiritual, esta sim inerrante.
Assim, pelas palavras escritas pelos homens inspirados por Deus, a Palavra de Deus vem à tona, da mesma forma que a Palavra de Deus veio à tona através da humanidade de Jesus.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
O que é a Crítica Textual?
Wilson Paroshi
A ciência que procura reestabelecer o texto original de um trabalho escrito cujo autógrafo [1] não mais exista é denominada crítica textual. Conhecida nos meios seculares por ecdóica [2], sua aplicação não se restringe ao NT, sendo extensível a qualquer peça de literatura cujo texto original tenha sido eventualmente alterado no processo de cópia e recópia, sobretudo antes da invenção da imprensa no século XV. Por sinal, os princípios metodológicos são basicamente os mesmos, exceto, obviamente, aqueles relacionados a características e circunstâncias particulares, se bem que tais exceções muitas vezes podem assumir um papel determinante. [3]
Quanto ao material com que trabalham os críticos textuais, este inclui, no caso específico do NT, não somente as cópias manuscritas dos livros apostólicos na língua original, o grego, mas também antigas versões, bem como citações de passagens bíblicas de antigos escritores. A prática da crítica textual, portanto, exige um conhecimento especializado dos diferentes manuscritos [4] e das respesctivas famílias textuais, conhecimento da paleografia grega e do cânon crítico [5], além do vocabulário e da teologia do autor cujo livro se examina. Só assimserão exequíveis a reconstituição da história do texto sagrado da forma mais completa possível e a consequente edição de um texto que busque refletir com exatidão os termos do original.
Visto ser necessário o estabelecimento de um texto confiável antes de passar a outros estudos, a crítica textual costumava a ser chamada de baixa crítica, como que a representar os níveis primários na estrutura do estudo crítico, em contraposição à alta crítica [6], que estuda os problemas de composição, incluindo-se o autor, a data, o lugar e as circunstâncias em que foi escrito o material em questão. Es expressões “baixa crítica” e “alta crítica”, porém, têm dado margem a objeções por parecerem indicar diferentes graus de importância. Em vista disso, em tempos recentes têm sido substituídas respectivamente pelas expressões “crítica textual” e “crítica histórica”, que melhor descrevem a natureza e os objetivos de ambas as ciências. [7].
Talvez convenha destacar ainda que a crítica bíblica, como tal, incluindo-se a textual e mesmo a histórica, não significa propriamente essa ou aquela opinião, nem representa esse ou aquele grupo de opiniões formuladas em relação à Palavra de Deus. Significa, sim, um temperamento, atitude ou disposição intelectual que se move na direção da verdade desconhecida, mas conhecível, com respeito e devoção e livre de preconceitos ou pressuposições estranhas às Escrituras Sagradas. Isso não significa, todavia, que tenha sido sempre assim. Grandes abusos já foram cometidos por muitos dos que se engajam nesse tipo de trabalho, por estarem repletos de ideias preconcebidas contra o cristianismo tradicional e seu conteúdo teológico. A crítica bíblica, porém, quando devidamente aplicada, está a serviço da fé, com o objetivo de descobrir, tanto quanto possível, seus fundamentos racionais e verdadeiros e assim fazê-los passar de “presunções religiosas” a “certezas científicas”. [8]
Definição do problema
Quando lemos hoje o NT, será que de fato estamos lendo aquilo que Lucas, João, Paulo e os outros autores escreveram tantos séculos atrás? Não teria a ordem de Cristo em Apocalipse 22.18 e 19, proibindo qualquer alteração no texto desse livro, sido contrariada com relação tanto ao próprio Apocalipse quanto aos demais livros do NT? Tais perguntas não se destinam meramente a levantar dúvidas quanto aos documentos em que baseamos a fé, mas a chamar-nos a atenção sobretudo para o tipo e o tamanho do problema com que lida a crítica textual. E tal problema torna-se ainda mais evidente quando nos lembramos, em primeiro lugar, de que todos os autógrafos do NT desapareceram por completo e mais nenhuma colação [9] com eles pode ser possível.
De fato, seria extraordinário poder ir a uma biblioteca ou museu e ver, por exemplo, uma das cartas de Paulo tal como a ditou ou mesmo escreveu. Seria por demais emocionante encontrar o autógrafo de Gálatas e ler na última página: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6.11; cf. Rm 16.22; 1Co 16.21; Cl 4.18), ou ver ainda como era a assinatura com que o apóstolo terminava suas epístolas (veja 2Ts 3.17). Mas que emocionante, porém, o acesso aos originais do NT serviria principalmente para colocar a autenticidade dos escritos sagrados do cristianismo acima de toda e qualquer suspeita. Mas isso não é possível, e as oportunidades de ainda vir a acontecer, acredito serem reduzidas ao mínimo.
A razão para a perda prematura dos autógrafos neotestamentários certamente foi a pouca durabilidade do material em que, conforme o uso da época, escreviam-se livros e cartas: o papiro, o qual não era mais durável que nosso moderno papel. Muito provavelmente, os mss. Originais do NT foram lidos e relidos pelos cristãos apostólicos até se desfazerem por completo e literalmente caírem aos pedaços. Seja como for, perderam-se todos. Providencialmente, porém, antes que se tornassem ilegíveis ou desaparecessem, foram copiados. Isso leva-nos ao segundo fator que evidencia a seriedade do problema em questão: os erros introduzidos no texto mediante o processo de cópias manuais.
As cópias dos autógrafos, por sua vez, converteram-se em originais no que diz respeito a outras cópias, e assim sucessivamente. Durante esse processo de cópias e recópias manuais, que se estendeu por 14 séculos até a invenção da imprensa, inevitavelmente muitos e variados erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade humana. E, à medida que aumentavam as cópias, mais se multiplicavam as divergência entre elas, pois cada escriba acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo escriba anterior. E essas variantes textuais [10] têm suscitado sério problema para os estudiosos do NT – dando margem para que os céticos questionem sua pureza textual: “Qual a forma correta do texto, ou que dizia exatamente o original?”. A essa pergunta é que tratam de responder os críticos textuais. Seu objetivo é examinar criticamente a tradição manuscrita, avaliar as variantes e reconstruir o texto que possua a maior soma de probabilidades de ser o original ou a forma primitiva do autógrafo.
Esse oobjetivo, por si só, já traduz tuda a importância da crítica textual, pois, se os mss. Apresentam divergências e nós não podemos recorrer aos originais para verificar a forma correta, então a credibilidade do texto sagrado que chegou até nós aparentemente estaria por demais ameaçada. Consequentemente, o próprio corpo doutrinário e ético do cristianismo estaria ameaçado, além da própria historicidade de seus documentos originais, o que seria ainda pior. Sir. Edwiyn Hoskyns e Noel Davey colocaram a questão da seguinte forma:
A crítica textual, portanto, lida com um problema básico e de tremendas implicações. Dela dependem todas as demais ciências bíblicas que corporalizam a religião cristã, pois lana os fundamentos sobre os quais toda e qualquer investigação deva ser construída. Sem um texto grego fidedigno, não mais próximo do original quanto possível, não há como se fazer confiável crítica histórica ou literária, exegese, teologia, nem mesmo sermão, para não falar em tradução. Consiste num “pré-requisito para todos os outros trabalhos bíblicos e teológicos”. [12]
Dificuldades Técnicas
O problema do qual se ocupa a crítica textual do NT aumenta consideravelmente quando se verifica a dimensão dos três principais obstáculos que necessitam ser transpostos para a restauração do texto apostólico, o que, à primeira vista, afigura-se um esforço completamente inútil. Uma análise mais criteriosa, porém, revelará que, se por um lado tais obstáculos dificultam os trabalhos textuais, por outro, proporcionam maior solidez e confiabilidade às conclusões finais.
O primeiro deles consiste na distância entre as cópias mais completas e os autógrafos. O NT estava completo, ou essenciamente completo, por volta do ano 100, sendo que a maioria dos livros já existia cerca de 20 a 50 anos antes dessa data, e, de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes remontam aproximadamente aos meados do século IV. A distância em relação aos autógrafos, portanto, chega a perto de três séculos, o que, se por um lado pode consistir num problema, por outro faz com que o NT seja a obra mais bem documentada da antiguidade.
Os clássicos tanto gregos quanto latinos, cuja autenticidade quase ninguém põe em dúvida, levam grande desvantagem quanto ao tempo que separa os mais antigos mss. De seus originais em relação aos escritos neotestamentários. A cópia mais antiga que existe de Eurípedes foi escrita 1.600 anos depois da morte do poeta. No caso de Sófocles, o intervalo é de 1.400 anos, o mesmo acontecendo com Ésquilo e Tucídides. Quanto a Platão, o intervalo não é muito menor: encontra-se ao redor dos 1.300 anos. Entre os latinos, embora levem vantagem sobre os gregos, a situação não é muito diferente. Enquanto Catulo o intervalo é de 1.600 anos e em Lucrécio de mil anos, Terêncio e Lívio reduzem-se para 700 e 500 anos respectivamente. Só Virgílio aproxima-se do NT, pois há um ms. Completo de suas obras que pertence ao século IV, sendo que o autor faleceu no ano 8 a.C.
Quão diferente, porém, é a situação do NT nesse aspecto. Além dos famosos mss. Do século IV, escritos em pergaminho, existem ainda consideráveis fragmentos em papiros de praticamente todos os livros do NT, que nos fazem recuar até o século III, ou, como em alguns casos, até meados do século II. Enfim, embora dispondo apenas de cópias posteriores, podemos citar o veredicto pronunciado por Sir Frederic G. Kenyon, destacado estudioso da primeira parte deste século e grande autoridade em mss. Antigos:
O segundo obstáculo é o grande número de documentos disponíveis. Existem atualmente cerca de 5.500 mss. Gregos completos ou fragmentários do NT, sem falar nos quase 13.000 mss. Das versões e nos milhares de citações dos antigos Pais da Igreja. Os problemas e dificuldades da crítica textual, portanto, surgem mais por uma superabundância de evidências do que propriamente por uma insuficiência delas. Todavia, novamente a limitação se torna em vantagem, pois, apesar de a multiplicidade de mss. Oferecer ensejo para os mais variados erros de transcrição, oferece também muito mais elementos de comparação. Frederic F. Bruce declarou:
Há ainda outro fator a ser observado. O elevado número de documentos existentes faz com que o NT tenha muito mais apoio textual que qualquer outro livro dos tempos antigos, seja em se tratando das obras de Homero, dos autores trágicos áticos, de Platão, de Cícero ou de César. A situação normal no que diz respeito às grandes obras da literatura clássica é que nosso conhecimento do textodelas depende de poucos e recentes mss., de maneira que estamos muito mais bem equipados para observar as etapas primitivas da história textual do NT que de qualquer outra obra da literatura antiga.
O terceiro e maior obstáculo é a elevada cifra de variantes existentes. A consequência natural da multiplicação dos mss. Do NT pelo espaço de 1.400 anos foi o surgimento de incontáveis variações textuais. À primeira vista, os números são assutadores. Até o momento, já foram calculadas cerca de 250.000 variantes, [15] ou seja, mais variantes entre todos os mss. Que as palavras que o NT contém. Só um estudo de 150 mss. Gregos do evangelho de Lucas revelou mais de 30.000 textos divergentes. [16] É opinião unânime entre os críticos textuais que não possuímos nenhum ms. Que tenha preservado sem nenhuma variação o texto original dos 27 livros do NT, nem sequer de apenas um deles. [17] Merril M. Parvis, porém, vai mais longe, afirmando que “não há uma só frase no NT na qual a tradição manuscrita seja totalmente uniforme”. [18]
Apesar das enormes dificuldades advindas desse fato, devemos notar que quase a totalidade das variantes diz respeito a questões de pouca ou nenhuma importância. São variações na ordem relativa de palavras numa frase, no uso de diferentes preposições, conjunções e partículas, nas preposições que acompanham determinados verbos ou em simples modificações de natureza gramatical, muitas das quais até nem poderiam ser representadas numa tradução portuguesa. Em outras palavras, “o número de variantes que se revestem de importância, especialmente no que diz respeito à doutrina, é assaz reduzido”. [19]
Se os nímeros são assustadores, essa declaração é, no mínimo confortadora, e sua veracidade pode ser atestada mediante o exame de qualquer aparato crítico [20] de uma edição técnica do NT grego. Além disso, há mais de um século duas das maiores autoridades no assunto, B. F. Westcott e F. J. ª Hort, já afirmavam que apenas a milésima parte do texto do NT ainda não estava criticamente assegurada. [21] E, mais recentemente, Bruce destacou que as poquissimas variantes que subsistem passíveis de certa dúvida não afetam “nenhum ponto importante, seja em matéria de fato histórico, seja em questão de fé e prática” [22].
1. Autógrafo: termo técnico que designa o manuscrito original de uma obra.
2. O temro “ecdótica” foi introduzido na ciência literária por D. Henri Quentin, em sua obra Essais de Critique Textuelle: Ecdotique, publicada em Paris em 1926.
3. Veja Kurt & Barbara ALAND, The texto of the New Testament, p. 34.
4. A partir de agora serão usadas as abreviaturas ms. E mss. respectivamente para “manuscrito” e “manuscritos”.
5. Cânon crítico: certos critérios científicos estabelecidos pelos críticos textuais para propiciar uma escolha inteligente entre dois ou mais textos divergentes.
6. A expressão “alta crítica” foi pela primeira vez aplicada à literatura bíblica por J. G. Eichhorn, no prefácio da segunda edição de sua obra Einleitung in das Alte Testament (1787): “Tenho sido obrigado a dedicar a maior parte de meus labores num campo até o momento inteirament eesquecido: a investigação da constituição interior de cada livro do AT mediante a ajuda da crítica mais alta – nome novo para os não-humanistas”.
7. Veja George Eldon LADD, The New Testament and criticism, p. 55.
8. H. E. DANA, El Nuevo Testamento ante la crítica, p. 10.
9. Colação: confronto da cópia de um ms. Com o original ou outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para a escolha do texto exato.
10. Variantes: assim chamadas as diferentes formas conhecidas do mesmo texto, conforme encontradas nos diversos mss.
11. The riddle of the New Testament, p. 35.
12. J. Harold GREENLEE, Introduction to New Testament textual criticism, p. 17.
13. The Bible and archaeology, p. 288.
14. The New Testament documents, p. 19.
15. Heinrich ZIMMERMANN, Los métodos histórico-críticos em el Nuevo Testamento, p. 21.
16. M. M. PARVIS, The interpreter's dictionary of the Bible, p. 595.
17. Alfred WIKenhauser, Introdución al Nuevo Testamento, p, 73.
18. Op. Cit., p. 595.
19. B. P. BITTENCOURT, O Novo Testamento: Canôn, língua, texto, p. 74.
20. Aparato crítico: conjunto de sinais e termos técnicos destacando as variantes do texto bíblico e seus respectivos testemunhos.
21. The New Testament in the original Greek, p. 545.
22. Op. Cit., p. 20.
A ciência que procura reestabelecer o texto original de um trabalho escrito cujo autógrafo [1] não mais exista é denominada crítica textual. Conhecida nos meios seculares por ecdóica [2], sua aplicação não se restringe ao NT, sendo extensível a qualquer peça de literatura cujo texto original tenha sido eventualmente alterado no processo de cópia e recópia, sobretudo antes da invenção da imprensa no século XV. Por sinal, os princípios metodológicos são basicamente os mesmos, exceto, obviamente, aqueles relacionados a características e circunstâncias particulares, se bem que tais exceções muitas vezes podem assumir um papel determinante. [3]
Quanto ao material com que trabalham os críticos textuais, este inclui, no caso específico do NT, não somente as cópias manuscritas dos livros apostólicos na língua original, o grego, mas também antigas versões, bem como citações de passagens bíblicas de antigos escritores. A prática da crítica textual, portanto, exige um conhecimento especializado dos diferentes manuscritos [4] e das respesctivas famílias textuais, conhecimento da paleografia grega e do cânon crítico [5], além do vocabulário e da teologia do autor cujo livro se examina. Só assimserão exequíveis a reconstituição da história do texto sagrado da forma mais completa possível e a consequente edição de um texto que busque refletir com exatidão os termos do original.
Visto ser necessário o estabelecimento de um texto confiável antes de passar a outros estudos, a crítica textual costumava a ser chamada de baixa crítica, como que a representar os níveis primários na estrutura do estudo crítico, em contraposição à alta crítica [6], que estuda os problemas de composição, incluindo-se o autor, a data, o lugar e as circunstâncias em que foi escrito o material em questão. Es expressões “baixa crítica” e “alta crítica”, porém, têm dado margem a objeções por parecerem indicar diferentes graus de importância. Em vista disso, em tempos recentes têm sido substituídas respectivamente pelas expressões “crítica textual” e “crítica histórica”, que melhor descrevem a natureza e os objetivos de ambas as ciências. [7].
Talvez convenha destacar ainda que a crítica bíblica, como tal, incluindo-se a textual e mesmo a histórica, não significa propriamente essa ou aquela opinião, nem representa esse ou aquele grupo de opiniões formuladas em relação à Palavra de Deus. Significa, sim, um temperamento, atitude ou disposição intelectual que se move na direção da verdade desconhecida, mas conhecível, com respeito e devoção e livre de preconceitos ou pressuposições estranhas às Escrituras Sagradas. Isso não significa, todavia, que tenha sido sempre assim. Grandes abusos já foram cometidos por muitos dos que se engajam nesse tipo de trabalho, por estarem repletos de ideias preconcebidas contra o cristianismo tradicional e seu conteúdo teológico. A crítica bíblica, porém, quando devidamente aplicada, está a serviço da fé, com o objetivo de descobrir, tanto quanto possível, seus fundamentos racionais e verdadeiros e assim fazê-los passar de “presunções religiosas” a “certezas científicas”. [8]
Definição do problema
Quando lemos hoje o NT, será que de fato estamos lendo aquilo que Lucas, João, Paulo e os outros autores escreveram tantos séculos atrás? Não teria a ordem de Cristo em Apocalipse 22.18 e 19, proibindo qualquer alteração no texto desse livro, sido contrariada com relação tanto ao próprio Apocalipse quanto aos demais livros do NT? Tais perguntas não se destinam meramente a levantar dúvidas quanto aos documentos em que baseamos a fé, mas a chamar-nos a atenção sobretudo para o tipo e o tamanho do problema com que lida a crítica textual. E tal problema torna-se ainda mais evidente quando nos lembramos, em primeiro lugar, de que todos os autógrafos do NT desapareceram por completo e mais nenhuma colação [9] com eles pode ser possível.
De fato, seria extraordinário poder ir a uma biblioteca ou museu e ver, por exemplo, uma das cartas de Paulo tal como a ditou ou mesmo escreveu. Seria por demais emocionante encontrar o autógrafo de Gálatas e ler na última página: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6.11; cf. Rm 16.22; 1Co 16.21; Cl 4.18), ou ver ainda como era a assinatura com que o apóstolo terminava suas epístolas (veja 2Ts 3.17). Mas que emocionante, porém, o acesso aos originais do NT serviria principalmente para colocar a autenticidade dos escritos sagrados do cristianismo acima de toda e qualquer suspeita. Mas isso não é possível, e as oportunidades de ainda vir a acontecer, acredito serem reduzidas ao mínimo.
A razão para a perda prematura dos autógrafos neotestamentários certamente foi a pouca durabilidade do material em que, conforme o uso da época, escreviam-se livros e cartas: o papiro, o qual não era mais durável que nosso moderno papel. Muito provavelmente, os mss. Originais do NT foram lidos e relidos pelos cristãos apostólicos até se desfazerem por completo e literalmente caírem aos pedaços. Seja como for, perderam-se todos. Providencialmente, porém, antes que se tornassem ilegíveis ou desaparecessem, foram copiados. Isso leva-nos ao segundo fator que evidencia a seriedade do problema em questão: os erros introduzidos no texto mediante o processo de cópias manuais.
As cópias dos autógrafos, por sua vez, converteram-se em originais no que diz respeito a outras cópias, e assim sucessivamente. Durante esse processo de cópias e recópias manuais, que se estendeu por 14 séculos até a invenção da imprensa, inevitavelmente muitos e variados erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade humana. E, à medida que aumentavam as cópias, mais se multiplicavam as divergência entre elas, pois cada escriba acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo escriba anterior. E essas variantes textuais [10] têm suscitado sério problema para os estudiosos do NT – dando margem para que os céticos questionem sua pureza textual: “Qual a forma correta do texto, ou que dizia exatamente o original?”. A essa pergunta é que tratam de responder os críticos textuais. Seu objetivo é examinar criticamente a tradição manuscrita, avaliar as variantes e reconstruir o texto que possua a maior soma de probabilidades de ser o original ou a forma primitiva do autógrafo.
Esse oobjetivo, por si só, já traduz tuda a importância da crítica textual, pois, se os mss. Apresentam divergências e nós não podemos recorrer aos originais para verificar a forma correta, então a credibilidade do texto sagrado que chegou até nós aparentemente estaria por demais ameaçada. Consequentemente, o próprio corpo doutrinário e ético do cristianismo estaria ameaçado, além da própria historicidade de seus documentos originais, o que seria ainda pior. Sir. Edwiyn Hoskyns e Noel Davey colocaram a questão da seguinte forma:
Se o exame do significado de importantes palavras gregas que aparecem muitas vezes nos documentos do NT suscita grave problema histórico, visto que apontam para um acontecimento histórico particular na Palestina; se não pode haver uma compreensão do NT à parte da possibilidade de delinear o significado dessa história particular, pelo menos em seus traços mais gerais; e, além disso, se essa história deve ser reconstruiída a partir dos documentos do NT, uma vez que não dispomos de outras fontes de informação: torna-se evidente que nenhuma reconstrução da história é possível a menos que o historiador crítico possa ter razoavel confiança de que o texto do NT não sofreu alterações sérias durante os 14 séculos em que foi copiado por escribas. Não se pode empreender um sério trabalho de investigação histórica tendo por base textos suspeitos de extrema corrupção. [11]
A crítica textual, portanto, lida com um problema básico e de tremendas implicações. Dela dependem todas as demais ciências bíblicas que corporalizam a religião cristã, pois lana os fundamentos sobre os quais toda e qualquer investigação deva ser construída. Sem um texto grego fidedigno, não mais próximo do original quanto possível, não há como se fazer confiável crítica histórica ou literária, exegese, teologia, nem mesmo sermão, para não falar em tradução. Consiste num “pré-requisito para todos os outros trabalhos bíblicos e teológicos”. [12]
Dificuldades Técnicas
O problema do qual se ocupa a crítica textual do NT aumenta consideravelmente quando se verifica a dimensão dos três principais obstáculos que necessitam ser transpostos para a restauração do texto apostólico, o que, à primeira vista, afigura-se um esforço completamente inútil. Uma análise mais criteriosa, porém, revelará que, se por um lado tais obstáculos dificultam os trabalhos textuais, por outro, proporcionam maior solidez e confiabilidade às conclusões finais.
O primeiro deles consiste na distância entre as cópias mais completas e os autógrafos. O NT estava completo, ou essenciamente completo, por volta do ano 100, sendo que a maioria dos livros já existia cerca de 20 a 50 anos antes dessa data, e, de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes remontam aproximadamente aos meados do século IV. A distância em relação aos autógrafos, portanto, chega a perto de três séculos, o que, se por um lado pode consistir num problema, por outro faz com que o NT seja a obra mais bem documentada da antiguidade.
Os clássicos tanto gregos quanto latinos, cuja autenticidade quase ninguém põe em dúvida, levam grande desvantagem quanto ao tempo que separa os mais antigos mss. De seus originais em relação aos escritos neotestamentários. A cópia mais antiga que existe de Eurípedes foi escrita 1.600 anos depois da morte do poeta. No caso de Sófocles, o intervalo é de 1.400 anos, o mesmo acontecendo com Ésquilo e Tucídides. Quanto a Platão, o intervalo não é muito menor: encontra-se ao redor dos 1.300 anos. Entre os latinos, embora levem vantagem sobre os gregos, a situação não é muito diferente. Enquanto Catulo o intervalo é de 1.600 anos e em Lucrécio de mil anos, Terêncio e Lívio reduzem-se para 700 e 500 anos respectivamente. Só Virgílio aproxima-se do NT, pois há um ms. Completo de suas obras que pertence ao século IV, sendo que o autor faleceu no ano 8 a.C.
Quão diferente, porém, é a situação do NT nesse aspecto. Além dos famosos mss. Do século IV, escritos em pergaminho, existem ainda consideráveis fragmentos em papiros de praticamente todos os livros do NT, que nos fazem recuar até o século III, ou, como em alguns casos, até meados do século II. Enfim, embora dispondo apenas de cópias posteriores, podemos citar o veredicto pronunciado por Sir Frederic G. Kenyon, destacado estudioso da primeira parte deste século e grande autoridade em mss. Antigos:
O intervalo, então, entre as datas da composição original e a mais antiga evidência subsistente torna-se tão reduzido de sorte que é praticamente desprezível, e o derradeiro fundamento para qualquer dúvida de que nos hajam as Escrituras chegado às mãos substancialmente como foram escritas já não mais persiste. Tanto a autenticidade quanto a integridade geral dos livros do NT podem considerar-se firmados de modo absoluto e final. [13]
O segundo obstáculo é o grande número de documentos disponíveis. Existem atualmente cerca de 5.500 mss. Gregos completos ou fragmentários do NT, sem falar nos quase 13.000 mss. Das versões e nos milhares de citações dos antigos Pais da Igreja. Os problemas e dificuldades da crítica textual, portanto, surgem mais por uma superabundância de evidências do que propriamente por uma insuficiência delas. Todavia, novamente a limitação se torna em vantagem, pois, apesar de a multiplicidade de mss. Oferecer ensejo para os mais variados erros de transcrição, oferece também muito mais elementos de comparação. Frederic F. Bruce declarou:
Felizmente, se o grande número de mss. Aumenta o índice de erros escribais, aumenta, em medida idêntica, os meios para a correção desses erros, de modo que a margem de dúvida deixada no processo de restauração dos termos exatos do original não é tão grande como se poderia temer; pelo contrário, é, na verdade, marcadamente reduzida. [14]
Há ainda outro fator a ser observado. O elevado número de documentos existentes faz com que o NT tenha muito mais apoio textual que qualquer outro livro dos tempos antigos, seja em se tratando das obras de Homero, dos autores trágicos áticos, de Platão, de Cícero ou de César. A situação normal no que diz respeito às grandes obras da literatura clássica é que nosso conhecimento do textodelas depende de poucos e recentes mss., de maneira que estamos muito mais bem equipados para observar as etapas primitivas da história textual do NT que de qualquer outra obra da literatura antiga.
O terceiro e maior obstáculo é a elevada cifra de variantes existentes. A consequência natural da multiplicação dos mss. Do NT pelo espaço de 1.400 anos foi o surgimento de incontáveis variações textuais. À primeira vista, os números são assutadores. Até o momento, já foram calculadas cerca de 250.000 variantes, [15] ou seja, mais variantes entre todos os mss. Que as palavras que o NT contém. Só um estudo de 150 mss. Gregos do evangelho de Lucas revelou mais de 30.000 textos divergentes. [16] É opinião unânime entre os críticos textuais que não possuímos nenhum ms. Que tenha preservado sem nenhuma variação o texto original dos 27 livros do NT, nem sequer de apenas um deles. [17] Merril M. Parvis, porém, vai mais longe, afirmando que “não há uma só frase no NT na qual a tradição manuscrita seja totalmente uniforme”. [18]
Apesar das enormes dificuldades advindas desse fato, devemos notar que quase a totalidade das variantes diz respeito a questões de pouca ou nenhuma importância. São variações na ordem relativa de palavras numa frase, no uso de diferentes preposições, conjunções e partículas, nas preposições que acompanham determinados verbos ou em simples modificações de natureza gramatical, muitas das quais até nem poderiam ser representadas numa tradução portuguesa. Em outras palavras, “o número de variantes que se revestem de importância, especialmente no que diz respeito à doutrina, é assaz reduzido”. [19]
Se os nímeros são assustadores, essa declaração é, no mínimo confortadora, e sua veracidade pode ser atestada mediante o exame de qualquer aparato crítico [20] de uma edição técnica do NT grego. Além disso, há mais de um século duas das maiores autoridades no assunto, B. F. Westcott e F. J. ª Hort, já afirmavam que apenas a milésima parte do texto do NT ainda não estava criticamente assegurada. [21] E, mais recentemente, Bruce destacou que as poquissimas variantes que subsistem passíveis de certa dúvida não afetam “nenhum ponto importante, seja em matéria de fato histórico, seja em questão de fé e prática” [22].
1. Autógrafo: termo técnico que designa o manuscrito original de uma obra.
2. O temro “ecdótica” foi introduzido na ciência literária por D. Henri Quentin, em sua obra Essais de Critique Textuelle: Ecdotique, publicada em Paris em 1926.
3. Veja Kurt & Barbara ALAND, The texto of the New Testament, p. 34.
4. A partir de agora serão usadas as abreviaturas ms. E mss. respectivamente para “manuscrito” e “manuscritos”.
5. Cânon crítico: certos critérios científicos estabelecidos pelos críticos textuais para propiciar uma escolha inteligente entre dois ou mais textos divergentes.
6. A expressão “alta crítica” foi pela primeira vez aplicada à literatura bíblica por J. G. Eichhorn, no prefácio da segunda edição de sua obra Einleitung in das Alte Testament (1787): “Tenho sido obrigado a dedicar a maior parte de meus labores num campo até o momento inteirament eesquecido: a investigação da constituição interior de cada livro do AT mediante a ajuda da crítica mais alta – nome novo para os não-humanistas”.
7. Veja George Eldon LADD, The New Testament and criticism, p. 55.
8. H. E. DANA, El Nuevo Testamento ante la crítica, p. 10.
9. Colação: confronto da cópia de um ms. Com o original ou outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para a escolha do texto exato.
10. Variantes: assim chamadas as diferentes formas conhecidas do mesmo texto, conforme encontradas nos diversos mss.
11. The riddle of the New Testament, p. 35.
12. J. Harold GREENLEE, Introduction to New Testament textual criticism, p. 17.
13. The Bible and archaeology, p. 288.
14. The New Testament documents, p. 19.
15. Heinrich ZIMMERMANN, Los métodos histórico-críticos em el Nuevo Testamento, p. 21.
16. M. M. PARVIS, The interpreter's dictionary of the Bible, p. 595.
17. Alfred WIKenhauser, Introdución al Nuevo Testamento, p, 73.
18. Op. Cit., p. 595.
19. B. P. BITTENCOURT, O Novo Testamento: Canôn, língua, texto, p. 74.
20. Aparato crítico: conjunto de sinais e termos técnicos destacando as variantes do texto bíblico e seus respectivos testemunhos.
21. The New Testament in the original Greek, p. 545.
22. Op. Cit., p. 20.
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