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domingo, 1 de dezembro de 2013

O desejo de ver a Deus - Parte Final

I. Não temos naturalmente em nós o desejo de ver Deus em si mesmo; isto está provado. Este desejo, porém, nos é dado; assim, nós o temos de forma sobrenatural. É necessário, consequentemente, colocarmos na cabeça que, se o homem fosse deixado em seu estado puramente natural, ele não teria este desejo. Ora, visto o poder que teria o homem, neste estado, de conhecer a Deus pela razão remontando do efeito à causa, e visto sua tendência de desejar ver diretamente o que ele conhece indiretamente, nós achamos difícil concluir que o homem, no estado puramente natural, não pode desejar ver Deus imediatamente. Por outro lado, visto de forma intima, profunda, universal, que há em nós este desejo em nosso estado atual, temos dificuldade em nos persuadir que este desejo em nós não seja essencial, e não seja uma das tendências, um dos das necessidades naturais de nossa natureza. Assim como os autores pensavam que este desejo nos era natural e que há controvérsia neste tema entre os teólogos e filósofos.

Esta dificuldade que nós temos de nos persuadir que este desejo não nos é natural, e esta controvérsia entre os teólogos a respeito do assunto, são como evidencia da força que Deus colocou este desejo em nós, e de intima ligação que foi estabelecido entre o elemento natural e o sobrenatural, quando foi isto foi depositado em nós.

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II. Na antiguidade pagã, o ateísmo se cobriu às vezes, sobretudo nos últimos tempos, de um culto vago da natureza, de uma admiração estéril de suas maravilhas. É precisamente o mesmo erro que reapareceu no século XVIII. Sêneca e os mais sábios filósofos continuaram, como um ateísmo desigual, pelos mesmos argumentos dos modernos apologistas da fé. Isto voltou nos dois últimos séculos; o que aprendeu a humanidade sobre Deus?

sábado, 30 de novembro de 2013

Deus - Exposição sobre a ação do Espírito Santo (Parte IV)

IV – EXPOSIÇÃO SOBRE A AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO NA SANTIFICAÇÃO DAS ALMAS E SUA AÇÃO, DE UMA PARTE NAS OPERAÇÕES DIVINAS AD INTRA, DE OUTRA NA ENCARNAÇÃO DO VERBO.

Na processão das pessoas divinas, o Verbo recebe apenas o nome e a qualidade de Filho; O Espírito Santo procede, mas não é o Filho. Por quê? Porque a operação divina pelo qual o Filho vem do Pai é a única que tem como objetivo a produção de um ser consubstancial (por natureza), distinto (por pessoa), mas que seja a imagem e semelhança do Pai; por consequencia, é a única que pode ser chamada, e que realmente é uma geração. A operação divina para o Espírito Santo vem do Pai não sendo da mesma espécie, embora seja também uma processão (este é um termo genérico), não pode ser chamado e não é, de fato, uma geração, mas uma operação.

Mas o Espírito Santo tem, na relação do Pai com o Filho, uma parte intima e necessária; Ele é sua conexão de amor. E se é impossível que o Pai [seja], sem que, pelo fato mesmo de seu ser, ele gera o Filho, do mesmo modo é impossível que o Pai gere o Filho e que o Filho seja gerado pelo Pai sem que, por esse motivo, todos os dois juntos respirem, exalem, soprem, se enviem reciprocamente o Espírito Santo.

(Pode-se dizer que o Espírito Santo tem, na geração eterna do Verbo, uma parte ativa, e que, por este motivo, o Pai gera o Filho? Não supõe a processão do Espírito Santo logicamente antes à geração do verbo? Se é possível dizer, sem receio, este ponto adquirido me servirá para explicar ainda mais expressamente a relação seguida que estabeleci entre a parte do Espírito Santo na geração eterna do Verbo e o que ela teve em sua Encarnação).

É sobre o papel do Espírito Santo que foi fundada a conveniência por meio do qual o Filho se encarnou, e Maria concebeu pela operação do Espírito Santo, não por meio do Pai, ou por uma operação atribuída à natureza, mas da relação a uma pessoa cujas características e atribuições pessoais estão em jogo. Aqui ainda eu lembro que encontrei na geração eterna: a encarnação forma um homem que procede do Pai por geração e que pode, por direito, ser chamado, que é o Filho; ele não pode também ser chamado de filho adotivo; ele é a semelhança formal de Deus O Pai, e sua geração carnal tem por objetivo a produção de um ser semelhante. Era, portanto, necessário que o Espírito Santo viesse da mesma ação.

É ainda sobre as mesmas observações e noções teológicas, por conveniência, das mesmas características, propriedades e atribuições pessoais, que está fundada a doutrina católica da graça santificante e da parte que têm as três pessoas divinas. Pela graça santificante e a elevação à ordem sobrenatural, nós nos tornamos filhos de Deus; nós recebemos, por adoção sem dúvida, mas de uma maneira real, uma conexão de descendência divina que nos faz filhos de Deus e que o nome exato é geração. De toda fraseologia da geração divina, após o Nosso Senhor, de nascimento e de vida nova que nos foi dada; desta idéia de semelhança divina sempre unida a esta filiação adotiva e deificação, para fazer o fundo da descrição da graça santificante. Por último, a mesma operação atribuída ao Espírito Santo, em nossa santificação, na formação de filho de Deus em nós, na nossa deificação, no ponto em que eu poderia fazer a seguinte observação de São Paulo: dificilmente se tem, das numerosas passagens onde ele apresenta, a descrição da graça santificante e que não contenham, como um dos elementos essenciais e primeiros desta descrição, as operações interiores do Espírito Santo nas almas.

Do mesmo modo da geração eterna do Verbo, não é certo que se conceba que a processão do Espírito Santo resulte de uma relação de amor entre as duas primeiras pessoas, e que à imagem desta operação divina, a geração terrestre de Jesus Cristo tem semelhante característica, não é certo ser descrito sem uma cooperação ativa do Espírito Santo fazendo com que o verbo se encarne em Maria; o mesmo é em virtude da mesma lei oculta, em toda a série de gerações místicas de Jesus Cristo, em suas diversas espécies, vós não podeis negligenciar a ação do Espírito Santo que coopera na mesma medida a estas novas e misteriosas gerações do Verbo. Assim, a formação de Jesus Cristo nas almas pela graça santificante é chamada uma geração mística de Jesus Cristo. Ora, o Espírito Santo foi exibido como o agente e princípio direto para sua operação santificante; é a ele mesmo que se atribui a causa ativa de toda santidade. É uma outra geração mística do Verbo, em que consiste na geração da fé e da inteligência das coisas reveladas; isto pode ser considerado como sua operação tanto na Igreja em geral quanto em cada inteligência católica em particular; é o Verbo que é gerado, pois é o pensamento de Deus, a palavra divina que é concebida, que se forma, que cresce e nasce nas almas. Mas assim é pela operação do Espírito Santo que se realiza esta geração, pois é Ele que ilumina, que inspira e que dá a fé.

sábado, 16 de novembro de 2013

Deus - Deus e a Criação (Parte III)

Retirado do livro "Etudes sur Dieu, l'Eglise, le Pape e sur le surnature" do Padre Jean-Baptiste Aubry.


I. Quando se considera atentamente, à luz da Escritura e da teologia, a grande e completa economia das obras de Deus no mundo, observamos se dividir, ou se agrupar em três belas e vastas frases, que cada uma porta visivelmente a presença e as características próprias de uma das três pessoas da Trindade.

Se vê Deus, o Pai, presidindo à criação e o Antigo Testamento, operando todo este majestoso trabalho, reivindicando a glória, como as outras pessoas da Trindade, a ele atribuem também a Escritura e a tradição. Em todo Antigo Testamento, é o Pai que aparece sobretudo; as duas outras pessoas agem com Ele, sem dúvida, mas são mais escondidos; o mistério da Santíssima Trindade é anunciado com menos clareza no Antigo Testamento. Quando o Pai, no fim de seu trabalho, entra em seu repouso, deixou, sobretudo, agir o Filho. O Filho agiu, mas menos diretamente e apenas por concomitância: Cume o eram cunta componens(I)

O Filho chega à sua torre, no meio ou na plenitude dos tempos, para fazer a ligação entre o trabalho do Pai e do Espírito Santo. Seu trabalho é a Redenção; isso é feito o mais rápido possível. É ele sobretudo que age, é necessário que ele esqueça as duas outras pessoas. Ele previne seus apóstolos em breve vem a noite onde não agirá mais, que ele não pode dizer tudo aos seus apóstolos, mas que um outro virá lhes dizer o resto; e, por afirmar a unidade, ele diz que ele mesmo irá pedir a seu Pai para enviar este outro; seu trabalho termina, ele entra na sua glória ou seu repouso, para deixar agir o Espírito Santo.

Jesus Cristo sobre ao Céu, o Espírito Santo desce e começa seu trabalho imenso que vai até o fim dos tempos, que é a Igreja, e a aplicação do fruto da Redenção pela Igreja. O Pai e o Filho continuam a agir com ele. O Pai, anunciou várias vezes antes de cessar seu trabalho! Trabalho do Filho; O Filho, tendo concluído seu ato, ainda tem duas coisas ao coração, que é lembrar que Ele age com seu Pai e anuncia o trabalho do Espírito Santo; o Espírito Santo, por sua vez, cuidou em fazer conhecer na Igreja o mistério da Santíssima Trindade, que é a promulgação do trabalho simultâneo das três pessoas.

Ao buscar imagens naturais ou sobrenaturais para compreensão, na medida do possível, para a Santíssima Trindade, dir-se-á a unidade de substância na pluralidade de pessoas. Mas, isto não é mais belo e expressivo por consistir em buscar a imagem da Trindade em seus trabalhos? Porque nós sabemos que Deus não fez nada além de sua imagem, e, como dizem os escolásticos, o vestígio da Trindade está em todos os trabalhos de Deus. E, a partir dos trabalhos de Deus, sendo este último o mais alto, por portar a imagem de Deus mais perfeita; uma única humanidade deificada em três grandes trabalhos igualmente divinos.

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II. Qui continet omnia scientiam habet vocis (i).

Curiosa e profunda reflexão! Como o Espírito Santo contém tudo? (1º) Sendo o tipo primordial de todos os seres, Ele tem em si todos os seus protótipos; (2º) tudo que ele deu aos seres criados não é mais que uma participação do que ele tem essencialmente e de forma perfeita; (3º) seu poder envolve, sustenta e conserva tudo o que existe; (4º) é Ele que comunica interiormente às almas pela sua graça.

Como Ele tem a ciência da voz? Nos três títulos precedentes. Pois ele porta em si a ideia primeira de todas as coisas, é nele que se realizam, ao pronunciar seu nome com uma vontade criadora. Pois ele tem em si de forma excelente e superior o que as criaturas em si por participação, sua palavra é precisamente a emissão para fora de si desta participação de seu ser. Por sustentar e conter todas as coisas pelo seu poder, sua palavra é precisamente o exercício deste poder conservador dos seres. Sendo espírito, é Ele quem, em Deus, tem por função de falar às almas.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Deus - Atributos e perfeições (Parte II)

Retirado do livro "Etudes sur Dieu, l'Eglise, le Pape e sur le surnature" do Padre Jean-Baptiste Aubry.

I. Quando nós dizemos que Deus não pode ser, nem ter o poder de produzir uma criatura igual a si, que não é livre de fazer o mal, etc.; estas negações são uma maneira imperfeita e incompleta de falar, pois a imperfeição e o defeito são inerentes à nossa linguagem humana empregada para designar as coisas infinitas, com expressões feitas para exprimir coisas finitas. Estritamente falando (forma literal), se acredita que falta em Deus um poder, uma perfeição, uma liberdade, ou qualquer coisa que de fato Deus não tem; pelo contrário, estas expressões insuficientes têm o objetivo de exprimir ou, por meio da palavra, de fazer entender por signos que nada de bom e de real falta à Deus e a impossibilidade de ser, de produzir uma criatura igual a si, de fazer o mal, é precisamente a perfeição de seu poder e de sua liberdade!

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II. A doutrina da eternidade simultânea, que de Deus, ato puro e essência de todos os atos, que da identidade real dos atributos e operações divinas com sua essência, dá a solução fora das questões teológicas insolúveis nela. Esta solução é misteriosa e incompreensível, é verdade; mas ao menos sabemos onde ela está, e não buscaremos em outro lugar, como quando se conhece que um objeto está em tal lugar, embora não possamos encontrar este lugar em si, ao menos se conduzirá suas buscas sobre um outro ponto.

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III. Esta reflexão de Tertuliano: Accipe... Deum... de suo optimum, de nostro justum. Nisi enim homo deliquisset, optimum solummodo Deum nosset ex proprietate nature; at nunc etiam justum eum patitur ex cause necessitate, não me parece justa de fato; ela parece reduzir a idéia de justiça à aceitação de um justiça vingativa. Deus, quando jamais teve que punir, teria ainda 1º possuído em si essencialmente este admirável atributo que nós chamamos de justiça; 2º exerceu sobre suas criaturas os atos que ela, em si, carrega de bom.

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IV. A consideração do Ser absoluto e infinito de Deus, de seu domínio absoluto sobre toda criatura, e de seus atributos, eternidade, todo-poder, justiça, misericórdia, é a base necessária da moral e de toda lei, é o apoio, a força e a formação da consciência.

Há profundas noções espirituais e belas considerações místicas a se traçar no estudo da vida íntima de Deus. Com efeito, Deus é a fonte de toda vida, de todo sobrenatural.

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Para ver a primeira parte, clique aqui.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Deus – A Trindade. (Parte I)


Retirado do livro "Etudes sur Dieu, l'Eglise, le Pape e sur le surnature" do Padre Jean-Baptiste Aubry.
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I. Se Deus é um Deus vivente, se a vida está nEle, é necessário que ela participe de sua perfeição. Entretanto, a perfeição da vida se termina, se consuma, em três graus: O Ser, o Pensamento e O Amor. Nós devemos, portanto, encontrar em Deus estes três graus; não se pode dividir sua substância em três, tanto porque esta substância repugna nela mesma toda divisão quanto porque estas três substâncias não têm, por sua propriedade, divisão entre elas na substância em que elas estão, mas mantêm-se uma única substância. Como não pode haver em Deus nada de real e subsistente que não tenha sua personalidade completa, é necessário que tenha em Deus três pessoas distintas.

A união, a distinção e as relações das três pessoas podem ser estudadas à luz do que nós portamos (o que faz parte de nossa natureza) e do que podemos observar.

A geração do Verbo pelo Pai, ou seja, do pensamento ou palavra interior, é o tipo da nossa; por conseqüência, a nossa pode dar uma idéia dela. Ela é a primeira e excelente realização na atividade do Ser divino, exercício da inteligência ou pronunciação do Verbo interior.

A geração de nosso pensamento em nós e a pronúncia de nossa palavra interior é, assim, nossa operação mais elevada; mas nós somos seres finitos e inferiores, assim, esta operação em nós não pode lembrar em tudo à operação divina. Não pode, sobretudo, conduzir à produção de um verbo subsistente e pessoal. Ela não é mais que um desdobramento*. Porém, ela porta todas as características de uma geração intelectual que lembra a geração eterna do Verbo divino.

A procissão do Espírito Santo, amor mútuo do Pai e do Filho, pode, da mesma maneira, ser estudada sobre o tipo que nós portamos. Qual é, em nós, o objeto e a causa do amor? Nossa semelhança que vemos no outro. A paternidade produz um filho à imagem do pai e objeto de seu amor. Assim é em Deus, onde o Filho é a imagem e o esplendor do Pai. Mas em nós, este amor não é mais que um sentimento, uma relação, e não o termo subsistente de uma relação. Em Deus, é necessário que se tenha um termo subsistente de uma relação.

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II. Como nos assombra encontrar três pessoas em uma natureza, se nós portamos em nós mesmos duas naturezas em uma pessoa? Um é mais compreensível que o outro? E se negamos a primeira porque é incompreensível, porque não negamos a segunda?

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III. Passei longos tempos meditando ou fazendo simples comparações pouco engenhosas, à maneira dos escolásticos, buscando em todas as criaturas um reflexo, uma semelhança da Trindade e também de outros mistérios da fé, analogias que eles buscavam sobretudo entre a maneira que as atribuições do homem procedem de alguma forma uma da outra e a relação entre as pessoas divinas.

Entretanto, hoje eu creio que essas comparações e analogias têm um fundamento real em uma real semelhança. Com efeito, uma vez que Deus fez tudo que existe nos dois mundos, espiritual e material, e toda criatura é a expressão de seu poder, é necessário que sua vida intima seja reproduzida, seja impressa, leve sua expressão, e, assim, tenha o reflexo da vida divina. Pode ser que haja engano na maneira de encontrar, mas se não buscar não se vai encontrar; Deus é o ideal de tudo, não um ideal abstrato, impessoal, privado de existência real, mas um ideal existente, ou o tipo e exemplar ao mesmo tempo em que é autor.


* Nota do tradutor: A palavra original é adobration. Não encontrei o significado desta palavra, e, por isso, tentei deduzi-la pelo contexto. Caso alguém a encontre, e seja diferente, eu ficaria grato ser corrigido.

domingo, 1 de julho de 2012

Jesus é o Senhor

Sabe-se que desde muitos séculos os cristãos chamam Jesus de Senhor fazendo alusão a fé em sua divindade. No entanto, vários grupos e indivíduos tendem a argumentar que isso é bem posterior, que surgiu com Paulo ou que nem mesmo Paulo afirmou tais coisas.


Dentre eles posso citar as Testemunhas de Jeová e os muçulmanos, principalmente os que vêm fazendo um trabalho de divulgação do Islã (embora, geralmente, e provavelmente de forma sincera, sejam equivocadas quando se referem a Jesus, ao NT e aos primeiros cristãos). Diante disso resolvi escrever alguns artigos com algumas informações que refutam a maioria dessas alegações.

Comecemos por uma que é verdadeira: nem sempre a palavra KURIOS significa ADONAI. Isso pode ser visto em vários exemplos tanto nas escrituras dos hebreus quanto nas dos nazarenos, o AT e NT (que para os cristãos ambos são Palavra de Deus). KURIOS também era dirigido ao imperador e a outros lideres.

Diante disso, deve-se buscar algumas pistas para a interpretação, onde o sentido é de divindade, já que esse termo, assim como outros relacionados a Jesus, possuem mais de um significado (v. Cristologia do Novo Testamento, Oscar Cullmann, p. 257 a 309). O objetivo desse presente artigo é tratar de dois casos em que se referem explicitamente a Jesus como Deus.

Fp 2, 10-11: “Portanto Deus o elevou ao lugar mais alto e lhe deu um nome acima de todo nome, para que, em honra ao nome dado a ele TODO JOELHO SE DOBRE – no céu, na terra e debaixo da terra – E TODA LINGUA RECONHEÇA  que Yeshua, o Messias, é ADONAI – para a glória de Deus, o Pai.

Essa tradução do NT feita pelo judeu David Stern deixa claro, até mais que outros tradutores, que colocam apenas “SENHOR”, que Jesus é ADONAI. Segundo alguns, essa seria uma tradução tendenciosa e ilógica que simplesmente mostra as preferências teológicas do tradutor. Nada mais injusto que isso. Se formos ao AT, em Isaías, veremos que a IAHWEH, todo joelho se dobrará: “Diante de mim se dobrará todo o joelho, toda língua jurará por mim, dizendo: Só em IAHWEH há justiça e força” (45, 23-24).

Assim, temos em cerca de 61 e 62 d.C, uma alusão em carta de uma passagem que Deus fala de si mesmo, mas que agora é feita em referência a Jesus. A Deus todo joelho se dobrará, a Jesus também; toda língua confessará/jurará, a Jesus também.

Mais tarde veremos porque só depois da ressurreição foi “conferido” (charizomai) e como isso não contradiz seu senhorio desde a Eternidade. Basta aqui expor que é uma mensão a um texto do AT sobre Deus, e que na menção de Paulo há menção a “Deus Pai”. Vamos ao outro caso.

Hb 1, 10: “No principio, Senhor, firmaste os fundamentos da terra; o céu é obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como roupas; e tu os enrolarás como um manto. Sim, eles serão trocados como peças usadas, mas tu permaneces o mesmo, os teus anos jamais terão fim.”

Para alguns isso seria pouca coisa. Só uma referência a vitória de Jesus, e que os anos dele jamais terão fim. No entanto, essa também é uma alusão do AT a Deus que é dito para Jesus. O Sl 102 (101) claramente aplica a IAHWEH. No mesmo livro há outras alusões, mas vou me ater as referências ao “Senhor”.

Mas por que, então, se diz que em determinado momento Jesus “foi feito” Senhor? Essa é uma forma comum de se declarar no presente, de forma litúrgica, o que se é por natureza. Isso pode ser visto até mesmo a respeito de Deus:

“O Senhor reina! Vestiu-se de majestade; de majestade vestiu-se o Senhor e armou-se de poder! O mundo está firme e não se abalará. O teu trono está firme desde a antigüidade; tu existes desde a eternidade. As águas se levantaram, Senhor, as águas levantaram a voz; as águas levantaram seu bramido. Mais poderoso do que o estrondo das águas impetuosas, mais poderoso do que as ondas do mar é o Senhor nas alturas. Os teus mandamentos permanecem firmes e fiéis; a santidade, Senhor, é o ornamento perpétuo da tua casa.” - Salmos 93:1-5

Deus sempre foi e é Majestoso e Poderoso, mas por que o texto diz que ele vestiu-se de majestade e armou-se de poder? Porque essa é uma forma litúrgica de se declarar hoje o que se é no “Eterno Hoje”, pois, como bem disse Oscar Cullmann, “se Cristo é um com Deus desde sua ressurreição é necessário que desde o princípio tenha estado unido a Ele”. Ora, se Deus é Eterno e imutável, e se os textos do AT aplicados a Deus como Senhor são transferidos para Jesus, só podemos concluir que Jesus é esse Senhor que é o único Senhor (1Co 8, 6). Se a Jesus é dado, ou seja, declarado aqui no tempo, reconhecido, o mesmo nome que é sobre todo o nome (assim como é feito no exemplo feito em relação a Deus), então podemos concluir que Jesus é Deus desde a Eternidade.

A partir daqui surgem algumas questões: por que só foi declarado depois que Jesus ressuscitou? Por que não é algo explicitamente dito por Jesus?

sábado, 21 de janeiro de 2012

Divindade de Jesus – A importância da questão. - Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.

Um texto interessante para a reflexão:

1.    A divindade de Cristo é a doutrina cristã de maior destaque. Define-se cristão basicamente como uma pessoa que acredita nisso. E nenhuma outra religião tem uma doutrina sequer semelhante a essa. Os budistas não acreditam que Buda era Deus. Os muçulmanos não acreditam que Maomé era Deus. Eles afirmam: “Não existe outro Deus além de Alá, e Maomé é seu profeta”.

2.    A diferença essencial entre o cristianismo ortodoxo, tradicional, bíblico, apostólico, histórico e o cristianismo revisionista, modernista e liberal está na crença sobre a divindade de Cristo. A revisão essencial modernista procura ver Cristo simplesmente como o homem ideal, ou “o homem em favor de outros”; como profeta, rabino, filósofo, mestre, assistente social, psicólogo, psiquiatra, reformador, sábio ou mago, mas não como Deus encarnado.

3.    Essa doutrina serve como uma chave-mestra, que destranca todas as outras portas doutrinárias do cristianismo. Os cristãos crêem em todas as suas muitas doutrinas não porque raciocinaram e as encontraram como conclusões de um inquérito teológico, ou como resultado de experiências místicas, mas com base na autoridade divina daquele que as ensinou, como estão registradas na Bíblia e como foram transmitidas pela Igreja. Se Cristo fosse apenas humano, poderia ter cometido erros. Portanto, qualquer pessoa que quiser discordar dos ensinos pouco populares de Cristo terá de negar a divindade dele. E com certeza haverá aspectos de Seus ensinamentos que todos consideraremos ofensivos – se observarmos a totalidade desses ensinos, em vez de atermo-nos àqueles que consideramos aceitáveis ou familiares.

4.    Se Cristo é divino, então sua encarnação foi o evento mais importante da história. É o divisor de águas, e mudou tudo. Se Cristo é o Filho de Deus, possui a mesma essência divina; se é o Cordeiro que tira o pecado do mundo, então, quando morreu na cruz, a porta do céu, fechada pelo pecado, foi aberta para nós pela primeira vez desde o Éden. Nenhum evento na história poderia ser mais importante para todos os seres humanos.

5.    A divindade de Cristo é uma doutrina que possui uma qualidade existencial incisiva e sem paralelos. Se Cristo possui a mesma natureza divina do Pai, se está à destra de Deus, se Ele e o Pai são um, então Jesus é Deus, e como tal é onipotente e onipresente; Ele está presente agora mesmo, e pode transformar nossa vida neste instante como nenhuma outra pessoa poderia fazer. Somente Deus pode responder ao clamor desesperado do salmista: Cria em mim um coração puro, ó Deus (Sl 51.10). Apenas Deus pode criar. Existe até uma palavra especial em hebraico para essa ação: é bara’.

6.    Se Cristo é divino, Ele tem direito sobre toda nossa vida, incluindo nosso íntimo e nossos pensamentos. Se Cristo é divino, nossa obrigação absoluta é acreditar em tudo que Ele diz e obedecer a todas as suas ordens. Se Cristo é divino, o significado de liberdade passa a ser nossa conformidade para com Ele.

Fonte: "Manual de defesa da fé" de Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.

Comentários do blog:

Não sei se concordo com tudo que está escrito. Por exemplo, ele coloca a divindade de Jesus como crucial para o cristianismo. Creio que apesar de ser crucial, a ressurreição talvez seja mais ainda, pois a divindade dEle só pode ser evidenciada através dessa ressurreição. Sem ela é vã a fé cristã.

Por isso, a própria necessidade de se acreditar em tudo o que Jesus disse vem inicialmente de sua autoridade divina que nos é provada por meio da ressurreição. Deus poderia ter escolhido outros meios, mas esse é o que nós podemos saber disso.

Esse seria o ponto de principal discordância. Talvez não discordância, mas um comentário complementar.

Outro ponto seria que, mesmo que Ele não fosse Deus (o que discordo) não significaria necessariamente que ele poderia errar em ensino, pois não é necessário que seja Deus, bastaria que fosse enviado por Ele e seja guiado pelo seu Poder.

Se você nunca pensou nas consequências da Divindade ou não de Jesus, é um bom momento para pensar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Meditações sobre o Inferno

Veio em mente uma analogia que explica muito bem o porque do inferno não ser logicamente contraditório com um Deus amoroso, além a aniquilação ser uma falta de respeito. Isso além de várias outras explicações coerentes que existem.

Já havia tratado da questão de que se Deus obrigasse o homem a viver com Ele, ou amá-lo seria uma falta de respeito, além de que seria imoral o Pai destruir (como diz a doutrina da aniquilação) o filho por este motivo. Outra analogia que me veio a mente é a de um Noivo e a Noiva. Sabemos que as Escrituras constantemente fazem alusão da Igreja como a Noiva e de Cristo como seu Noivo. Essa analogia também faz grande sentido com a questão do inferno.

Pense numa mulher que não ama os padrões de um homem que a ama, muito menos ama esse homem. Pense que esse homem faz de tudo para que ela o ame, mas ela possui essa livre escolha. Dessa forma, seria imoral obrigá-la a viver com ele e casar-se, até porque um homem que ama não obrigaria a isso. Seria mais imoral ainda matá-la porque não desejou viver com esse homem. Isso é muito imoral. A solução moral é deixar a mulher viver sem esse homem, viver segundo as suas vontades. O Inferno seria, então, a vida das pessoas sem o Noivo, onde as pessoas vivem segundo seus próprios pecados. Como Deus é Amor, por natureza ele não pode obrigar uma pessoa a amá-lo, muito menos irá aniquilar essa pessoa para sempre. Tirar a existência dessa pessoa só porque ela não desejou viver com Ele.

É claro que nenhuma analogia explica por completo estas questões espirituais. Só quando a pessoa estiver totalmente com Cristo ou no Inferno saberá plenamente a alegria de estar com Deus plenamente ou a tristeza de estar separado eternamente de Deus, de não amar porque não quer amar (e de talvez não conseguir olhar nos olhos dos que também estão lá). De qualquer modo, não vejo como Deus possa ser Amor e ainda não existir o Inferno.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Forma e peculiaridade da literatura de Israel

O Antigo Testamento é parte integrante de nossa Bíblia cristã. Justamente nos últimos anos ressurgiu mais e mais do esquecimento e tornou a assumir seu lugar incontestado na pregação.

É, todavia, sempre um segmento reduzido do grande todo do Antigo Testamento que se nos apresenta. E quem procura penetrar mais fundo neste livro e lê, inclusive, trechos maiores do Antigo Testamento, deparar-se-á constantemente com dificuldades. Essas são, muitas vezes, de caráter externo. Simplesmente não compreendemos muitas coisas, esbarramos em contradições ou em fatos que nós cristãos achamos estranhos.

Temos, p. ex., logo no início da Bíblia, dois relatos distintos sobre a criação. O leitor imparcial imediatamente notará que um não é mero complemento do outro; pelo contrário, os relatos apresentam duas exposições bem diferentes do processo da criação do mundo. O primeiro relato é bem sistemático na seqüência das obras dos sete dias. (Compreende o trecho de Gn 1.1 até a primeira frase de Gn 2.4, que forma o epílogo.) De acordo com este relato, tudo se originou aos poucos do nada caótico, mediante a vontade criativa e ordenadora de Deus Criador, a começar pelos elementos inânimes, passando pelo reino vegetal e animal até o ser humano. Conforme esse relato, Deus cria apenas através de sua palavra eficaz.

Bem diferente é o segundo relato. (Começa em Gn 2.4b: “Quando o Senhor Deus fez o céu e terra...”.) Aqui o estado caótico primitivo não é a água, mas a seca. No princípio da criação está o ser humano. Em seu redor são criados, então, o reino vegetal e o reino animal. Esse relato é bem mais ingênuo e plástico, representando, p. ex., a atividade criadora de Deus como a do oleiro que forma um vaso de barro. E em todo este conjunto é visado, exclusivamente, o espaço vital imediato do ser humano.

É evidente que aqui foram colocados lado a lado dois relatos de criação distintos que originalmente eram independentes. Originaram-se em tempos e de autores diferentes, que, com respeito à criação, foram movidos por interesses bem diferentes.

Já este exemplo nos pode mostrar que no caso do Antigo Testamento temos diante de nós um livro que cresceu paulatinamente. Em sua forma atual constitui o resultado de uma longa história. Foi chamado, certa vez, de “o livro que cresceu durante mil anos”. Nele encontramos reunidos os testemunhos de fé do povo de Israel, procedentes de muitos séculos.

Em cada geração se levantavam de forma nova as perguntas que resultavam da fé de Israel em um só Deus e seu agir na história com seu povo. E cada geração tinha que dar as suas próprias respostas. Tudo isso se documentou, nas mais diversas formas, nos textos agora reunidos no Antigo Testamento.

No início deste processo de crescimento está a palavra falada e transmitida oralmente. As histórias vivas e coloridas sobre os patriarcas, p. ex., foram, com certeza, contadas e recontadas através de muitas gerações antes de serem fixadas por escrito. Neste transcurso, naturalmente, também alteraram, amiúde, sua forma, assumindo novos traços característicos enquanto que outros perderam sua importância para uma geração nova. Ou ainda, vejamos as palavras dos profetas: foram pronunciadas em uma determinada situação histórica e depois transmitidas, também, oralmente antes de alcançarem sua forma literária final.

Algo semelhante também sucedeu com os textos restantes do Antigo Testamento. Somente aos poucos formaram-se coleções menores ou maiores de textos congêneres ou da mesma origem. O resultado final desta história movimentada são os diversos “livros” do Antigo Testamento, na forma como atualmente os encontramos na Bíblia.

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A história do Antigo Testamento se estende desde a imigração dos israelitas na Palestina, no século XIII a.C., até os últimos séculos antes da era cristã.

Os textos mais antigos são, com freqüência, cânticos ou ditos que facilmente se gravaram na memória e que, por isso, se conservaram por muito tempo. Um exemplo é a “canção de vitória” de Miriam, em Êx 15.21, que canta a destruição dos egípcios no mar. Outro é a canção de Lameque, em Gn 4.23-24, uma “fanfarronada” que fala de cruel vingança de morte; ou, então, a “canção do poceiro” em Nm 21.17-18, que se deve imaginar cantada durante a cavação de um poço. Mas também canções mais extensas, como p. ex., a magnífica canção de Débora em Jz 5, provêm de tempos muito mais remotos.

Tradições muito antigas estão conservadas também sob a forma de provérbios populares, como ocorre em toda parte do mundo. Citam-se tais provérbios explicitamente diversas vezes (p. ex. 1Sm 24.14; Ez 16.44), e ainda em muitas outras passagens podem ser descobertos durante a leitura. Os provérbios foram especialmente cultivados no Antigo Israel, quando, após a faina diária, as pessoas se reuniam junto ao portão. Os provérbios alcançavam forma artística na corte real, conforme relatam notícias do tempo de Salomão (1 Rs 5.11-12).

Já em tempos antigos passou-se a colecionar estes provérbios e cânticos. Prova disso são algumas passagens em que se citam tais coleções, das quais, porém, nada mais sabemos. Assim é mencionado, em Js 10.13 e 2Sm 1.18, o “livro do valente”, e em Nm 21.14, o “livro das guerras de Javé”.

Porém, desde os tempos mais antigos, circulavam também contos. Exatamente como em outros povos, trata-se, sobretudo, de “sagas” (lendas) que falam dos acontecimentos e vultos da história primitiva de Israel. O termo “saga” expressa que esta não é motivada por interesse histórico, querendo fixar exatamente a seqüência dos eventos. A saga apresenta em cores vivas o que é o característico da época e dos respectivos personagens, conforme se conservou vivo na consciência do povo. Por isso, as sagas são mais do que simples contos de eventos passados. Nelas o passado está presente como parte integrante da própria história daqueles que as narram e ouvem. Reconhecem, naquilo que Abraão, Jacó e Moisés experimentaram, uma representação de suas próprias experiências que tiveram e ainda têm. Israel entende sua história sempre como a história com Deus. E como Ele agiu com os patriarcas, livro a geração posterior do Egito e a levou para a terra prometida, assim Deus está agindo com seus povo em todos os tempos. Deste modo, estas sagas representam, com toda a sua vivacidade narrativa, muitas vezes, uma profunda profissão de fé.

Uma historiografia propriamente dita existiu em Israel mais ou menos desde o tempo de Davi. Ocupa-se, principalmente, com acontecimentos políticos. Assim, acham-se descritos, no 1º livro de Samuel, a origem do reinado e a ascensão de Davi; no 2º livro de Samuel trata-se da consolidação e expansão do reino de Davi e das tramas em torno do problema da sucessão no seu trono. Os livros dos Reis apresentam, a seguir, o governo de Salomão como o último período glorioso do Reino Unido, bem como a divisão em um Reino do Norte e um Reino do Sul e a queda paulatina até o fim total da existência política independente do povo de Israel.

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As sagas do Antigo Testamento têm muitas vezes uma intenção explicativa específica. Fala-se, nesse caso, desagas etiológicas (do grego aitia, causa). Assim, p. ex., a narração da queda dos primeiros seres humanos quer explicar a origem dos distúrbios na vida humana. A sinistra inimizade mortal entre o ser humano e a serpente, os incômodos de maternidade da mulher, aliás, em tensão misteriosa com sua inclinação para o marido, e a fadiga do trabalho do ser humano são as conseqüências da primeira desobediência humana a Deus (Gn 3.14-19). A narrativa da construção da torre de Babel (Gn 11) responde à pergunta pelo motivo da divisão da humanidade em uma pluralidade de povos e línguas tão diferentes. Outras sagas etiológicas explicam a peculiaridade de tribos e povos, conhecidos de Israel por serem seus vizinhos. A posição subalterna dos aborígenes cananeus não expulsos pelos ismaelitas é explicada como conseqüência de uma falta grave do pai, Canaã (Gn 9.25). A natureza selvagem e agressiva dos beduínos ismaelitas é atribuída, na saga, ao comportamento rebelde de sua mãe, Hagar (Gn 16.12) etc.

Freqüentemente, essas sagas etiológicas também querem explicar determinados nomes. Para este fim, faz-se uso de trocadilhos de palavras hebraicas, dificilmente traduzíveis para o vernáculo. No nome Isaque, em hebraico, ressoa a palavra “rir” (Gn 21.6); o nome de Jacó se assemelha ao som das palavras “calcanhar” (Gn 25.26) e “enganar” (Gn 27.36); o nome Israel é interpretado como “o que luta com Deus” (Gn 32.29[28]). Tais etiologias encontram-se a cada passo e mostram a intenção destas sagas de interpretar e compreender seu passado.

Uma forma especial de saga etiológica constituem os textos que tencionam justificar a santidade de um lugar. Assim exclama Jacó, após o sonho da escada ao céu: “Quão temível é este lugar! Aqui é a casa de Deus (Bet-El)!”, e erige lá um santuário (Gn 28.17ss). Por causa desta aparição da divindade em sonho, portanto, o lugar é sagrado. Algo semelhante ocorre com os santuários de Manre, onde três homens aparecem a Abraão (Gn 18), e de Peniel, onde Jacó teve que travar uma luta noturna (Gn 32.25ss).

Já em tempos mais remotos, “ciclos de sagas” formaram-se de várias sagas individuais que tratavam das mesmas pessoas. Assim, as ocorrências que sucederam entre Abraão e Ló foram contadas numa seqüência narrativa (Gn 13; 18-19); igualmente existia um ciclo de sagas de Jacó e Esaú (Gn 25.19ss; 27; 33), e outro de Jacó e Labão (Gn 29-31). Nestes dois últimos, pode-se ver nitidamente qual o processo que levou a estas coleções maiores. Os dois ciclos que tratam de Jacó foram estreitamente ligados entre si. Embora contivessem material muito heterogêneo, os narradores conseguiram plasmar uma imagem completa do personagem Jacó. Nisto se revela uma arte de contar mais desenvolvida. Sob aspectos literários, quase se poderia chamar este conjunto de “novela”. Ainda mais evoluída é a forma artística na história de José. Traço a traço é reconstituído o destino de José. Contudo, não se fala exclusivamente de José; entram em cena também diversos atores coadjuvantes. O resultado é uma contextura artística d vários fios magistralmente entrelaçados pelo narrador.

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Além de ditos, cânticos e sagas, foram transmitidas, desde os primórdios de Israel, também leis das mais diversas espécies. O seu conteúdo é muito abrangente: vai desde a exigência de adorar exclusivamente o Deus único até a regulamentação do dever de restituição em casos de danos causados por um animal; do mandamento do amor ao próximo até as prescrições exatas sobre o vestuário dos sacerdotes.

Mediante critérios externos e internos podem ser distinguidas, claramente, diversas classes de leis. Em primeiro lugar, há disposições que começam por “se” e expõem um “caso” com precisão (p. ex. Êx 21.18ss). Essas leis “casuísticas” tratam de casos litigiosos da vida diária e se destinam para o uso na comunidade judicial. Esta se reunia na praça junto ao portão sempre quando era preciso julgar um processo. Juízes profissionais não os havia, mas essa função era exercida pela totalidade dos cidadãos plenos, que também tinham direito a voz e voto. Ajuda importante neste julgamento representavam as sentenças casuísticas, que eram transmitidas de geração a geração. Um exemplo vivo de como funcionava a comunidade judicial encontramos no cap. 4 de Rute.

De natureza bem diferente são as sentenças que simplesmente expressam um mandamento ou uma proibição sem quaisquer condições ou restrições: “tu farás” ou “não farás” (p. ex. Êx 20.2ss). Este direito “apodítico” tem sua origem na esfera do culto. Era recitado de forma solene no culto, provavelmente por ocasião de uma festa que lembrava a renovação da Aliança entre Deus e o povo, estabelecida no monte Sinai. E nesta ocasião eram recitadas as leis apodíticas – especialmente o “Decálogo” – como sendo manifestação da vontade divina que estabelece esta Aliança.

O “direito casuístico” é congênere, segundo sua forma e seu conteúdo, ao direito usado em todo o Antigo Oriente; o paralelo mais interessante, com correspondências parcialmente literais, oferece o Código babilônico de Hamurábi (por volta de 1700 a.C.).

O “direito apodítico”, por outro lado, é genuinamente israelita; é compreensível somente a partir da peculiaridade da fé veterotestamentária e pertence a seus elementos mais antigos. Ambos os gêneros legais se fundem no Antigo Testamento.

 Outra espécie de norma legal ocupa-se com questões que afetam o culto. Assim, p. ex., são descritos minuciosamente os rituais que fazem parte do ato de sacrifício (Lv 1-5), são compilados, para uso por parte do sacerdote, detalhes técnicos sobre como oferecer o sacrifício (Lv 6-7), ou sobre pureza e impureza ritual ( Lv 11-15). Estes textos formam a base da instrução sacerdotal dos leigos sobre assuntos cultuais. Em geral, porém, provêm de épocas mais recentes do que as leis casuísticas e apodíticas.

No Antigo Testamento, as diversas leis foram conservadas em uma série de coleções. A mais antiga é o “Código da Aliança” (Êx 20.22-23.19). Reúne em si leis apodíticas e casuísticas. O Deuteronômio contém, igualmente, muitas leis antigas nos caps. 12-26, que foram entremeadas e ampliadas por frases explicativas e exortativas: aqui a lei é pregada! Uma coleção semelhante, todavia com determinações preponderantemente cúlticas, encontramos também na “Lei de Santidade” (Lv 17-26). Sua exigência básica está resumida na sentença: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (19.2). Finalmente, os caps. 1-16 de Levítico reúnem diversas coleções menores com disposições rituais.


Fonte: A formação do Antigo Testamento, ROLF RENDTORFF

domingo, 5 de dezembro de 2010

Afinal, qual a lógica da ressurreição?

Não pretendo tratar aqui a questão de como a ressurreição é possível e vai ser feita, já que se Deus existe e possui as características que a Teologia Cristã atribui, então não é impossível que ela ocorra. Algumas pessoas acham possível para Deus criar o mundo ex nihilo, espíritos com capacidades impressionantes e a possibilidade de reencarnações sucessivas de seres humanos, mas não a de uma “simples” ressurreição.

Parecem crer num Deus que possui a habilidade de criar a vida do nada, mas não consegue fazer com que essa vida que havia criado da matéria inanimada se torne animada mais uma vez.

É claro que na ressurreição o que ressurge nem sempre se refere ao material exato que a pessoa possuía ao morrer, e sim a forma que o faz [alguém], um “eu” diferente dos outros e com suas características pessoais, o que só é problema para seres limitados e não a um Ser do qual nada maior se pode imaginar. Nós, por exemplo, constantemente somos regenerados com um novo material quando possuímos algum ferimento.

Também não penso ser importante o que alguns citam como motivo para desacreditar na ressurreição questões como a idade das pessoas ressurretas. Isso, na minha sincera opinião, não passa de desculpas esfarrapadas pra quem quer arrumar um motivo pra dizer que possui algum porquê de não crer na ressurreição.

A questão principal não é essa. Se Deus prometeu ressuscitar os seres humanos, e prometeu que o que há de vir será muito bom, Ele sabe mais do que nós mesmos o que vai ser melhor (afinal, é o nosso Projetista), inclusive a idade, que não importa sabermos pra poder ver sentido.

As questões que realmente importam, e ultimamente tenho visto, são um pouco diferentes dessas primeiras (e bem mais importantes), e devem ser respondidas pressupondo que Jesus teria ressuscitado. Melhor, para um sentido completo, deve-se levar em consideração toda a história da salvação registrada nas escrituras. Não crer, apenas pressupor.

Mas afinal, qual é a lógica, ou melhor, o sentido da ressurreição? Além do sentido da nossa ressurreição futura, qual é o sentido da ressurreição de Jesus além da repetida conseqüência expiatória? Teria alguma importância para sua mensagem se Ele (Jesus) ressuscitou de fato ou não? O que é que os cristãos primitivos ensinavam? E o que o real significado da ressurreição de Jesus implica para nossas vidas e para o mundo?

Segundo os primeiros cristãos, o mundo havia decaído e estava corrompido. O mundo precisava de restauração e Deus prometeu restaurá-lo. De tempos em tempos surgia um sinal Divino dessa intervenção, seja pela mensagem dos profetas, ou por acontecimentos ligados a Israel que não estavam ligados necessariamente a essas mensagens proféticas. Nessa história, surge a esperança da ressurreição final dos mortos, onde Deus julgará cada pessoa e restaurará a natureza.

Antes da ressurreição de Jesus todos os seus discípulos, assim como os outros judeus, acreditavam que essa restauração se daria nesse dia da ressurreição final quando Deus irá restaurar o que criou.

Esse é o primeiro ponto sobre o sentido da ressurreição. Para Deus, o mundo em si não é ruim, e Ele não deixará sua criação à toa, pelo contrário, irá restaurá-la assim como ela estava no momento em que viu que era boa. Seria a Nova Criação de Deus, mas vamos tratar disso melhor adiante.

Diferente da expectativa dos judeus (incluindo seus discípulos), Jesus ressuscitou após a sua morte. Além do significado referente à morte expiatória, explicada pelo próprio Senhor depois de ressurreto, houve outro entendimento dos cristãos (passado por Ele ou pelo Espírito Santo) das conseqüências da ressurreição o Mestre. Esse entendimento foi sobre a antecipação em Jesus do que acontecerá com o mundo.

Se a Nova Criação de Deus começa na ressurreição e Jesus ressuscitou, então a Nova Criação de Deus já começou. Mas se todos os mortos ainda não ressurgiram isso significa que Ele é a finalidade, o futuro da humanidade apresentada no presente de modo que o presente possa ser transformado à luz desse futuro glorioso começado por Jesus Cristo.  Não só o futuro da humanidade, mas de toda a criação a ser restaurada (ou feita viva novamente), e a garantia disso tudo é esse futuro que já começou com Jesus ressuscitado.

Isso claramente cria uma responsabilidade que os cristãos têm negligenciado, principalmente por acreditarem em conceitos sobre o fim do mundo, “ir para o céu” (acredito em um estado intermediário, mas não como finalidade do homem) e esperar a volta de Jesus. Como N. T. Wright disse “Se Deus queria que o mundo acabasse e o Armagedom estava às portas, por que se preocupar com o fato de grandes empresas, como a General Motors, continuarem a lançar gases venenosos na atmosfera canadense? [...] Se a intenção de Deus é conduzir o mundo a sua destruição total, qual é o problema? Se o Armagedon está às portas, não faz diferença o (e suspeito que isso realmente faça parte da agenda) o fato de a General Motors lançar gases venenosos na atmosfera canadense”. [Surpreendido pela esperança, p 135 e 136]

Transformar o mundo presente à luz do futuro é feito cumprindo a mensagem de Jesus. Amar a Deus acima de todas as coisas, ao próximo como a si mesmo resume todo esse ensino. Amando a Deus conseqüentemente implica em amar o próximo, mas não só ele, e sim a sua criação. Assim, possuímos plena responsabilidade não só com as pessoas, mas com a natureza, e isso acaba com a acusação de que a crença cristã (principalmente na volta de Jesus) nos livra dessa responsabilidade, quando na verdade é o contrário.

É bom lembrar que esse Reino pregado por Jesus Cristo foi também ensinado como parábolas, como uma planta que sua semente é pequena, mas que cresce até dar frutos. Ou como uma farinha fermentada, e, talvez um dos exemplos mais esclarecedores, a Parábola do Joio e do Trigo.

Isso explica perfeitamente que, apesar das aparências, o Reino está a se manifestar e se manifestará completamente, assim como a semente pequena que dá uma grande árvore. Entretanto, enquanto não é manifesto totalmente, há joios no meio do trigo, o que faz algumas pessoas pensarem que Jesus não está a reinar.

É óbvio que os cristãos têm sido um tanto desastrosos, mas isso além de ser previsto, mostra mais uma vez que a “porta é estreita” e não serão muitos os que entrarão por essa porta.

É claro, também, que não estou a falar da salvação por obras, nem que somos salvos por agir dessa forma. Estou me referindo às conseqüências da ressurreição de Jesus para a humanidade e o cosmos, qual seu sentido, e como Deus, segundo a Teologia Cristã, não abandonará o mundo, ao contrário de outros tipos de pensamentos, onde esse mundo é mau em si (ou, em alguns casos, irrelevante, sem importância) e que seremos libertos quando sairmos desse corpo para algo melhor. Os discípulos de Jesus ensinaram também de algo melhor, mas esse algo melhor que faz parte da esperança primitiva é a restauração do mundo, “o Novo Céu e Nova Terra”, o cumprimento da promessa de que Deus não abandonaria o mundo, pois criou e viu que era bom.

Isso também me faz pensar na questão de Jesus como o Messias. Os primeiros cristãos não pareciam pensar que “Jesus ressuscitou, portanto é o messias”, mas que Ele é o Messias, cumpriu algumas profecias, ressuscitou para cumprir outros propósitos de Deus (alguns já foram mencionados) além das outras profecias que cumprirá nesse futuro que já pode ser experimentado de alguma forma no presente.

O significado da ressurreição não é apenas o que coloquei aqui, mas esse é um dos que considero como mais negligenciados. As Escrituras, assim como a Tradição Cristã, mostram seus outros significados e implicações para o Cristão e o Cosmos. Resta a quem desejar conhecer a mensagem cristã (principalmente o que faz parte da crença cristã primitiva) buscar entender melhor esse assunto. Acho interessante o que N. T. Wright mostra sobre essa visão, inclusive no livro “Surpreendido pela Esperança” (que tirei várias idéias para escrever esse texto).

Então, está aí uma pequena explicação, e uma boa dica de leitura.

Autor: Jonadabe Rios

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O inferno não é arbitrariamente imposto aos condenados

Peter Kreeft

Alguns subtenderam que o inferno é imposto aos perdidos contra a vontade deles. Mas essa idéia seria contrária à razão fundamental da existência do inferno: nossa livre escolha e o respeito de Deus por ela.

Os condenados não se alegrarão no inferno, mas mesmo assim eles o escolhem, ao preferirem o egoismo, em vez do amor; o eu, em vez de Deus; o pecado, em vez do arrependimento [e do perdão divino]. Não pode haver céu sem amor doado. A coisa que os perdidos desejam - a felicidade nos seus próprios termos egoístas - é impossível até para Deus conceder. Ela não existe. Não pode existir.

Se o inferno é escolhido livremente pelos pecadores, então o problema see torna não a conciliação entre o inferno e o amor de Deus, mas a condição entre o inferno e a sanidade mental humana. Quem, em sã consciência, preferiria o inferno ao céu? Contudo, todos nós fazemos isso vez ou outra ao pecarmos, pois todo pecado reflete a nossa preferência pelo inferno.

Os céticos objetam dizendo que não é possível escolhermos livremente o inferno ao céu; só loucos fariam isso. Os cristãos respondem que isso é precisamente o que o pecado é: loucura. uma recusa deliberada do júbilo e da verdade.

Talvez o ensino mais chocante do cristianismo não seja o da doutrina do inferno, mas a doutrina do pecado, pois significa que a humanidade está espiritualmente insana [ao ponto de continuar em sua marcha para o inferno, sem atentar para a salvação em Cristo oferecida por Deus]

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Critérios gerais de interpretação.

José Antonio Pagola

A exegese católica não têm um método de interpretação próprio e exclusivo, mas, partindo da base histórico-critica das fontes, aproveita todos os métodos atuais. Os principais critérios foram expostos em 1993 pela Pontíficia Comissão Bíblica. Assinalamos os mais importantes.

Rejeição da literatura fundamentalista. Esta leitura parte do princípio de que a Bíblia deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes. Para isso não há necessidade de empregar nenhum método científico. Esta maneira de ler os evangelhos não leva em consideração a linguagem humana dos autores, costuma estar freqüentemente ligada a uma tradução determinada e oferece muitas vezes interpretações piedosas, mas falsas. O fundamentalismo constitui “uma forma de suicídio de pensamento”.

Caráter indispensável do método histórico-crítico. Com a finalidade de captar com a maior clareza possível o sentido expresso pelos autores, este método histórico-críttico leva em consideração a crítica textual, a análise lingüística e semântica, o estudo dos gêneros literários e o processo da redação. É “o método indispensável” para o estudo científico dos textos antigos. Uma justa compreensão dos textos evangelísticos “requer a utilização deste método”. Por isso, “os exegetas devem se servir do método histórico-crítico. Eles não devem, no entanto, atribuir-lhe a exclusividade.

Importância da abordagem a partir da antropologia cultural. A antropologia cultural procura definir as características antropológicas da sociedade onde se originaram os textos bíblicos (valores reconhcidos, modo de exercer o controle social, concepção da família, condição social da mulher, estruturação social, etc.). Esta abordagem dos textos é de suma importância. “Nos textos que relatam o ensinamento de Jesus, por exemplo, as parábolas, muitos detalhes podem ser esclarecidos graças a essa abordagem. Ocorre o mesmo para as concepções fundamentais, como aquela do reino de Deus.” Convém recordar que toda esta abordagem não está em condições por si só de dar conta no sentido profundo que o crente descobre na mensagem de Jesus.

Contribuição da abordagem liberacionista. A teologia da libertação promoveu uma abordagem liberacionista da Bíblia que traz “elementos cujo valor é indubitável”: maior atenção ao “Deus dos pobres, que não pode tolerar a opressão nem a injustiça”; insistência na dimensão comunitária da fé; urgência de um práxis libertadora enraizada na justiça e no amor. Esta leitura comprometida da Bíblia comporta riscos. “É certo que a exegese não pode ser neutra, mas ela deve também evitar de ser unilateral.”

Contribuição da abordagem feminista. São numerosas as contribuições positivas que provém da exegese feminista. As mulheres “conseguira, muitas vezes melhor do que os homens, perceber a presença, o significado e o papel da mulher na Bíblia, na história das origens cristãs e na Igreja”. Está crescendo uma sensibilidade feminina que “leva a revelar a corrigir certas interpretações correntes, que eram tendenciosas e visavam justificar a dominação do homem sobre a mulher”. Deve-se evitar, no entanto, o risco de cair numa leitura tendenciosa, apoiada no “argumento ex silentio” ou em “indícios fugitivos.

Importância da afinidade com o conteúdo do texto. Convém recordar que “o conhecimento justo do texto bíblico só é acessível àquele que tem uma afinidade viva com aquilo do qual fala o texto”. Por isso todo intérprete deve colocar-se a pergunta seguinte: “Qual teoria hermenêutica torna possível a justa apreensão da realidade profunda da qual fala a Escritura e sua expressão significativa para o homem de hoje?” Não há dúvida de que a sintonia com a mensagem de Jesus, a acolhida de seu chamado e o seguimento fiel aumentam a capacidade do exegeta de captar sua realidade profunda.

Atualização da mensagem bíblica. A expressão de fé renovou-se continuamente para enfrentar situações novas. Por isso, “a interpretação da Bíblia deve igualmente ter um aspecto de criatividade e afrontar as questões novas, para respondê-las partindo da Bíblia”. Pode-se dizer que a tarefa dos exegetas só termina quando “tiverem esclarecido o sentido do texto bíblico como palavra atual de Deus”. Para alcançar esta finalidade, “devem levar em consideração as diversas perspectivas lhes permitem de responder às necessidades dos leitores modernos das Escrituras”. Daí a importância de adaptar a interpretação à mentalidade e à linguagem contemporâneas.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O inferno não é ódio divino - Peter Kreeft

Muitos crêem que, por existir o inferno, Deus deve ser um Ser irado, vingativo e odioso [que descarregará sua fúria sobre os pecadores]. Quem pensa assim, ignora a possibilidade de que a consciência dos pecadores sobre o amor de Deus por eles desprezado possa constituir-se uma tortura no inferno. Esse amor poderia torturá-los devido ao egoismo com o qual os pecadores condenados insistiram e apegaram-se [levando-os à destruição e ao afastamento total daquele que é a própra vida e o próprio amor].

Assim como a beleza de uma ópera pode ser uma tortura para alguém que tenha uma inveja cega de seu compositor, as chamas do inferno podem ser feitas do ódio dos condenados pelo amor singular de Deus.
A expressão bíblica "a ira de Deus" (A) pode ser uma metáfora, como "o senhor arrependeu-se" ou um antropomorfismo, como "a forte destra de Deus"; ou seja, pode não ser literal. Se não for uma metáfora, mas literalmente ira (ódio), (B) pode ser uma projeção do ódio do pecador condenado para com Deus, em vez de ódio do próprio Deus. Se a expressão referir-se literalmente à ira de Deus, e não a uma projeção subjetiva humana, (C) é uma ira associada à santidade e à justiça de Deus, e não um ressentimento ardente da parte dele; é uma medida dele contra o pecado, não contra os pecadores.

Deus pratica o que prega: ama os pecadores, e odeia o pecado, removendo-o, assim como os cirurgiões, por amarem seus pacientes, odeiam o câncer que os ameaça e eliminam-no. Todo pecado deve encontrar seu destino necessário: a exclusão do céu. Apenas os que não se dissociarem de seus pecados terão esse destino. Logo, os condenados ao inferno serão aqueles que se recusarem a abandonar seus pecados, arrependendo-se e sendo salvos por Cristo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os Salmos, por Oscar Cullmann - Parte 1

Os salmos que o Antigo Testamento nos transmitiu, na verdade, representam apenas uma pequena parte de todos os salmos existentes no Antigo Israel. Sua grande importância já se evidencia no fato de haver numerosos salmos fora do "Saltério", p. ex. em Ex 15; 1Sm 2; 2Sm 22, bem como nos livros proféticos: Is 38.10-20; Jn 2; Hc 3, etc.

O Saltério divide-se em cinco "livros". Destacam-se, claramente, um do outro pela doxologia, um canto de louvor a Deus, acrescentada no fim do último salmo de cada livro: Sl 1-41; 42-72; 73-89; 90-106; 107-150 (no fim falta uma doxologia especial, porque o próprio Sl 150 representa o louvor final). Essa subdivisão, evidentemente, foi feita numa época em que a coleção de salmos já existia na forma atual.

No entanto, ainda se pode reconhecer que, já antes, existiam coleções menores independentes. Assim temos, p. ex. no fim do Sl 72, a seguinte notícia: "Findam as orações de Davi, filho de Jessé". Essa observação, evidentemente, formava outrora o fecho de uma coleção especial de "Salmos de Davi". Além dos salmos 51-72, porém, no fim dos quais acha-se essa anotação, também nos Salmos 3-41 levam, em geral, o título "de Davi", de modo que se obtém a impressão de que existiam duas coleções de Davi.

A par dessas, sobressaem ainda outros grupos por um título comum: os Salmos de Coré (42-49), os Salmos de Asafe (73-83), além de um grupo que, conforme J. F. de Almeida, leva o título "Cantico de romagem"> Al 120-134. O significado do respectivo termo hebraico é um tanto incerto; provavelmente, trata-se de "Cânticos de romaria" ou, talvez, "graduais". Afinal, ainda é interessante que, em um grupo inteiro de salmos, o nome de Deus "Javé" (traduzido por "o Senhor") tenha sido substituido por "Elohim" ("Deus"): Sl 42-83.

Isso pode ser verificado com facilidade pela comparação entre os Sl 14 e 53, que, aliás, são quase literalmente idênticos. Portanto, podemos supor que os Salmos de Coré (42-49), o segundo grupo de Salmos de Davi (51-72) e os Salmos de Asafe (73-83) formassem juntos uma coleção, na qual foi efetuada essa mudança do nome de Deus.

Tudo isso torna patente que o Saltério, em sua forma atual, é resultado de um crescimento paulatino. Neste aspecto ele é comparável com nossos hinários, que também são o produto final de uma longa história do hino eclesiástico, e sempre se baseiam em hinários e coleções de cânticos mais antigos. E, como um hinário moderno contém hinos do tempo desde antes da Reforma até nossos dias, assim também os salmos provêm das mais diversas épocas da história de Israel. Entretanto, a maioria dos casos, é muito dificil determinar o tempo exato de sua origem. Só raras vezes achavam-se indicios seguros a este respeito, assim p. ex. no Sl 137, que nasceu "às margens dos rios da Babilônia", por tanto, durante o exílio babilônico, no século VI a.C.

A comparação com o hinário ainda tem sua boa razão num outro particular: os salmos revelam, todos eles, uma relação mais ou menos clara com o culto. E neste ponto pode-se, muitas vezes, reconhecer mais claramente qual o ensejo em que foram usados. Visto que forma e conteúdo estão em uma correlação determinada, os salmos podem ser classificados em diversos "gêneros", que apresentam, cada qual, as mesmas características formas e provêm de um mesmo lugar ("Stiz im Leben") no contexto do culto. A classificação segundo o gênero é, em muitos casos, ao mesmo tempo, um importante meio para a interpretação de um salmo, já que deste modo se torna patente seu verdadeiro intuito. Disso falaremos mais detalhadamente a seguir.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Crer é também pensar!

É de fundamental importância os cristãos em geral estarem alerta para que possam moldar a cultura atual e tornar a filosofia cristã relevante nesse mundo pós-moderno, e isso deve ocorrer principalmente nas universidades. Como bem foi afirmado por William Lane Craig e J. P. Morelande, em seu livro “Filosofia e Cosmovisão Cristã”, há uma guerra na atualidade em jornais, revistas, livros e outros meios de informação, e o cristão não pode, como é o que atualmente ocorre em grande quantidade, se acomodar à “periferia intelectual”.

Devemos se importar cada vez mais com a filosofia, ciência, história, dentre outros diversos assuntos. Fico espantado às vezes com a quantidade de cristãos que mal conhecem as doutrinas fundamentais do cristianismo. Mais espantado ainda quando se coloca questões cruciais, e se faz perguntas a essas pessoas, onde a maioria das respostas são jargões e afirmações de que é um mistério que o cristão não pode saber. É verdade que boa parte das respostas às nossas perguntas não foram reveladas, e, por isso são um mistério. Entretanto, isso não torna verdadeiro o pensamento de tais cristãos que não é necessário estudar a fundo questões importantes da vida de forma que a filosofia cristã seja apresentada como algo realmente relevante em nossa sociedade, ajudando, assim, a moldar nossa cultura que está cada vez mais distante dos valores que consideramos importantes. É claro que não quero afirmar com isso que os cristãos devem impor sua visão de mundo. Longe disso. Quero apenas ser mais um, dentre muitos que têm se levantado, a falar da importância do diálogo entre as outras visões de mundo. Estou convencido de que se houver esse diálogo, com os cristãos cada vez mais instruídos, o mundo atual estará mais receptivo ao que o cristianismo têm a dizer no que se refere à sua visão de mundo. Também está longe do que quero afirmar propor que as pessoas vão se converter apenas com argumentos intelectuais sem a ação efetiva do Espírito Santo, e espero que não tenham interpretado dessa forma, mas que por meio do intelecto, o Espírito mude o coração da pessoas.

Várias religiões e visões de mundo secularistas têm atacado a fé cristã de todos os lados, com argumentos intelecutuais e lógicos, ou, em alguns casos, apenas aparentemente lógicos, e o que boa parte dos cristãos têm feito? Estamos preocupando-nos em dar a razão da nossa fé? Se de um lado boa parte dos protestantes se preocupam mais com o sentimentalismo, movimentos histéricos e novidades tolas que nada importam ao Reino de Deus, além de boa parte ter transformado o ensino de Jesus em uma religião em que o homem faz trocas de favores com Deus na maioria das vezes de forma supersticiosa, da mesma forma que os pagãos faziam ou shows musicais e pitorescos que mais importa o calafrio que sente no umbigo do que conhecer as Escrituras (que tanto afirmam seguir!) e buscar conhecer aquilo que crê. Afinal, quando gostamos de algo, ou melhor, quando amamos algo ou alguém, buscamos entender, conhecer de forma que nossos conhecimentos sejam ampliados. Do outro lado estão muitos católicos (que alguns amigos têm chamado de “católicos de ibge”) que vão somente a igreja (quando vão) para seguir somente o que aprendeu desde pequeno, e quando aparece aprimeira critica ao cristianismo, a seguem como grande verdade como se estivessem a esperar somente um motivo para seguir suas próprias vontades e largar o quehavia recebido como verdade quando criança. Esse “bolo doido” surge como ótima oportunidade pra tais ataques à fé, onde seguidores de outras religiões e filosofias, que muitas vezes, outrora, fizeram parte da cristandade, apresentam o cristianismo como algo irracional e uma fé cega, ora convencendo alguns que na maioria dos casos não conheciam sua religião, ora intimidando mais ainda tais cristãos. Graças a Deus, parte desses aproveitaram o alerta, tomando-o como um alerta quase que divino, para perceber a importância de conhecer as bases de sua fé, e principalmente conhecer a própria fé.

O que você faria se alguém afirmasse que Jesus nunca existiu? Mostraria que existiu pois estão nos evangelhos? Pra que? Mostrar a uma pessoa que considera tais evangelhos manipulações posteriores, cheios de erros e contradições onde não se pode confiar pra nada, e que possuem a mesma importância que a estória de Alice no país das maravilhas? E se perguntarem que Deus existe? Ele existe porque o mundo é belo? E os problemas no mundo, tanta dor e tanto sofrimento? O livre-arbitrio? Mas porque Deus permitiria isso? E todas as coisas horriveis que aconteceram nos tempos em que a cristandade detinha o poder? Jesus é Deus? Podemos confiar nos evangelhos? Por que o que Paulo ensina é diferente do Evangelho ensinado por Jesus? Existe verdade absoluta? Como? Mas todas as religiões levam a Deus e são revelações divinas e iguais! Se te mostrassem este video, já refutado é claro:



Bom, não preciso continuar com mais perguntas e exemplos, são vários. Além da situação em que nos encontramos com os céticos em relação ao cristianismo com duvidas sinceras, também tem a situação de nos encontrarmos com cristãos com dúvidas também sinceras, como todos nós tivemos um dia e temos constantemente.

Graças a Deus hoje o cristianismo está cada vez mais relevante em nossa sociedade, ao contrario do que algumas pessoas pensam. Vários pensadores cristãos têm exposto as falácias das criticas feitas ao cristianismo, bem como dado grandes argumentos de como o cristianismo é verdadeiro. Entre eles, além dos já mencionados, posso citar outros estudiosos como N. T. Wright, Gary Habermas, Craig Evans, J. P. Meier, Craig Bloomberg e o atual Papa Bento XVI.

Vários brasileiros, como blogs que sempre visito, que posso citar o de Eliel Vieira, Desafiando a Nomenkatura Científica, Apologia, Bibliosofia, Deus em debate, Mansão do TI-TI-TI Gospel, o blog Criacionista, Veritatis e Montfort. Não concordo com tudo que tais páginas dizem, por exemplo, não sou criacionista nem protestante e alguns desses exemplos são de protestantes e criacionistas, mas aprecio a importância que se dá a tais estudos.

É claro que ainda há perguntas a serem respondidas, e cada dia surgem novos questionamentos, mas isso não é motivo para ficar inerte intelecualmente, pelo contrário, deveria ser reconhecido como um presente de Deus como uma forma, dentre várias outras, de reavivar a fé, que, não se torna sem sentido quando resolvemos endentê-la, pelo contrário, torna-se cada vez mais viva e impressionante, além de paciente nos momentos de dúvida. É claro, também, que se pode estudar sem necessariamente estudar com fins apologéticos (na verdade penso que boa parte das melhores defesas da fé vieram de estudos que não tiveram esse fim, ou, pelo menos os conhecimentos necessarios para tal defesa não foram obtidos com ela como motivação)

Hoje no Brasil, embora um pouco tarde em relação aos outros lugares, essa situação também está mudando, como os exemplos mencionados. Espero que cada vez mais cristãos (católicos, protestantes, ortodoxos, etc.) tenham consciência da importância de conhecer sua fé e dar a razão da mesma aos que possuem duvidas sinceras, de modo que possamos estar cada vez mais interessados em dialogos desse tipo.

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Autor: Jonadabe Rios

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Para compreender a Santíssima Trindade

(Estudos de D. Estevão Bettencourt – Teólogo de renome nacional e internacional, um dos tradutores da Bíblia de Jerusalém e TEB, dedicou sua vida aos estudos bíblicos, foi muito respeitado no meio acadêmico, deixou uma das maiores Escolas de Teologia do Brasil – Mater Ecclesiae)

Deus pode ser conhecido mediante a razão natural. Todavia os filósofos se detiveram em noção fria e temerosa de Deus. Escrevia Aristóteles († 322aC): “Seria um absurdo querer alguém amar a Deus” (Ética maior 2,2 1208).

Deus, porém, se revelou aos homens na mensagem judeu-cristã (bíblica), dando-lhes a conhecer que Deus é pessoal (possuidor de inteligência e vontade) e não força neutra; é Pai, é Amor, é tão rico que se afirma 3 vezes (como Pai, Filho e Espírito Santo).


• O Antigo Testamento

No AT a necessidade de incutir a unicidade de Deus impedia a revelação da trindade de pessoas em Deus. Os israelitas tendiam mesmo a afastar cada vez mais Deus dos homens, substituindo o nome de Deus por locuções como “Ele, o Altíssimo, o Eterno, o Nome...”.

Verdade é que Deus fala algumas vezes como se fosse um sujeito plural:

Gn1,26 ...Façamos...

Gn3,22 ...como um de nós...

Gn11,7 ...Desçamos e confundamos...

Is 6,8 ...Quem enviaremos...

Trata-se de formas de plural intensivo, que designam o valor do sujeito que fala, não, porém, a sua pluralidade.

Contudo não podemos deixar de observar a tendência, dos autores do AT, a conceber como se fossem pessoas certos conceitos ou atributos de Deus; é o que dá especialmente em relação à Sabedoria, à Palavra e ao Espírito de Deus.

1.1 # Sabedoria

A sabedoria como tal é um atributo de Deus e do homem. Todavia nos livros sapienciais ela foi sendo concebida como pessoa; assim em...

Jó 28,1-28
Br 3,4 – 4
Pr 8,12-36
Eclo 24,5-32
Sb 7,22-26

A sabedoria “sai da boca do Altíssimo, e, como a neblina, cobre a terra...reina sobre todos os povos e nações” (Eclo 24,3-6). Só Deus sabe onde ela habita; só Deus conhece o caminho que leva a ela (cf. Jó 28,23). Desde a eternidade, ela foi estabelecida, antes das montanhas e dos mares, foi gerada; assistia a Deus, como mestre-de-obra, na criação do mundo; todo tempo ela brincava na presença de Deus e se alegrava com os homens (cf. Pr 8,22-31). Ela apareceu sobre a terra e no meio dos homens conviveu (cf.Br 3,38). É um “espírito inteligente, santo, imaculado, amigo do bem, todo-poderoso...É “um reflexo de luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus, uma imagem da sua bondade” (Sb 7,22-26).

Embora esses textos insinuem ser a Sabedoria uma pessoa distinta de Deus, sabemos que a mentalidade judaica não os podia entender senão como figuras literárias, que personificam poeticamente um atributo de Deus. No NT, porém, São Paulo alude a esses textos e identifica a Sabedoria com a 2ª pessoa da SS. Trindade ou o Cristo Jesus:

1Cor 1,24 “Cristo é o poder e a sabedoria de Deus”

Hb 1,3 “Cristo é o resplendor da glória de Deus e a imagem da sua substância; sustenta todas as coisas pela sua palavra poderosa”

Cl 1,15 “Cristo é a imagem do Deus invisível”

O apóstolo, ilustrado pela revelação do Cristo Jesus, releu os textos do AT de modo a descobrir neles uma revelação antecipada da segunda pessoa da SS.Trindade.

1.2 # A Palavra

A Palavra (dabar), para que os semitas, tinha mais importância do que para nós. Atribuíam-lhe eficácia própria, que durava para além do momento em que era proferida.

Assim a palavra de Deus é tida como criadora:

Gn 1,3.6.9.11.14s.20.24 “Deus disse...E assim se fez”

Sl 33,6 “O céu foi feita pela palavra do Senhor”

Sb 9,1 “Deus dos pais,...que tudo criaste com tua palavra”

Sl 147,15 “O Senhor envia suas ordens à terra e sua palavra corre velozmente”

A eficácia atribuída à palavra de Deus explica tenha sido ela concebida como pessoa ao lado do próprio Deus; assim, por exemplo, nos seguintes textos:

Is 55,10s “Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem ter regado a terra..., tal ocorre com a palavra de minha boca; ela não torna a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da minha missão para a qual a enviei”

Sb 18,14s “Quando um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite mediava seu rápido percurso, tua palavra onipotente precipitou-se do trono real dos céus”
Sb 16,12 “Não os curou nem erva, nem ungüento, mas a tua palavra, Senhor, que a tudo cura”

Nesses textos não há, segundo os judeus que os escreveram, senão personificação
Poética ou figura literária. Todavia o apóstolo São João desenvolveu a concepção
judaica, apresentado a segunda pessoa da SS.Trindade como a Palavra (Lógos, em
grego); cf. Jo 1,1.14: “No princípio existia o Lógos, e o Lógos estava com Deus e o Lógos
era Deus... E o Lógos se fez carne, em habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a
glória do Unigênito do Pai”.

1.3 # O Espírito de Deus

O termo hebraico ruah (em latim, spiritus, espírito) significa “vento, brisa silenciosa,
Tempestade...”. Está associado a idéia de vida. Em conseqüência, as intervenções de
Deus em favor do seu povo na história são atribuídas ao ruah (força vivificante) de Deus. É este quem transforma os homens, tornando-os capazes de façanhas excepcionais; tenham-se em vista o caso de Sansão (Jz 13,25;14,6).

O Messias prometido pelos profetas seria portador de ruah:

Is 11,1-5
Is 42,1-3
Is 61,1s
Jl 3,1-4

Essa força vivificante de Deus seria dada a todos os homens:

Is 32,15-20
Is 44,3-5

E produziria novas criaturas:

Ez 11,19
Ez 18,31
Ez 36,26
Ez 37,1-10

Nota-se também a tendência a personificar o Espírito entre os judeus; cf.Is 63,10s ; 2Sm 23,2. Isto, porém, sem ultrapassar os termos de uma figura poética. O NT mais uma vez desenvolveu o pensamento judaico, apresentando o Espírito como a terceira pessoa da SS.Trindade, cf. Jo 14,25 / Jo 16,7.13 / At 2,1-22.


• O Novo Testamento

Jesus explicitou as noções judaicas, falando abertamente do Pai e do Espírito, que com o Filho constituem um só Deus em 3 pessoas (obs: 3 pessoas numa única divindade).

A SS.Trindade aparece em algumas fórmulas marcantes:

Mt 28,18s
“Ide e fazei com que todas as naçõesmse tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” – Temos aqui a fórmula tal como era aplicada na liturgia do Batismo; a justaposição mediante a preposição e significa a igualdade de natureza da 3 pessoas divinas.

Mt 3,16 / Mc 1,11 / Lc 3,22
No Batismo de Jesus, o Pai se fez ouvir apontando o Filho e o Espírito Santo se manifesta sob forma de pomba (a pomba era, nas literaturas antigas, um sinal que servia para identificar).

Lc 1,20-35
Na anunciação do anjo a Maria, o Pai é dito “o Altíssimo, o Senhor Deus”; o Espírito Santo é identificado com o “Poder do Altíssimo”. Este recobre Maria com a sua sombra, como as asas de um pássaro recobrem uma criatura, simbolizando a ação divina fecundante e vivificante (cf. Sl 17,8 ; Sl 57,2 ; Gn 1,2); em conseqüência, Maria recebe em seu seio o Filho de Deus, ao qual ela deverá dar a natureza humana, para que Ele nasça como Filho de Deus e (enquanto homem) como Filho de Maria.

2Cor 13,13
“A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” – Nesta fórmula, Deus(Pai) é tido como o Amor (pois, na verdade, foi como Amor que Ele quis identificar-se no NT, cf. 1Jo 4,16). Esse Amor tem um sorriso (graça)para os homens, que é o Filho feito homem, manifestação do Pai. Essa graça se comunica a cada homem mediante o Espírito Santo, ao qual, portanto, é atribuída a comunhão.

Gl 4,6
“Porque sois filhos, enviou Deus em nossos corações e o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai!” (cf.Rm 8,15) – Este texto nos diz que o Espírito Santo, nos faz filhos no Filho e, consequentemente, com o Filho nos leva a clamar a palavra por excelência: Abbá, Pai.
Somos assim inseridos na vida trinitária; a consciência deste fato era tão viva para os antigos cristãos que aprendiam a dizer Abbá desde os primeiros dias da sua conversão, ficando essa palavra aramaica, mesmo fora da Palestina, como a palavra mais típica e fundamental da mensagem cristã.

Ef 2,18
“Por Cristo...num só Espírito temos acesso ao Pai”. – Neste texto é apresentado o papel de cada uma das pessoas trinitárias na obra da salvação do homem: O Espírito Santo é sempre aquele que nos faz filhos ou aquele que nos atinge em nosso íntimo. Ele nos leva ao Pai (que é o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Último) mediante o Filho (que é nosso Pontífice ou Mediador – o único). “Ao Pai pelo Filho no Espírito Santo” é a fórmula clássica da piedade cristã. Vivemos no “Espírito Santo” (cf.1Cor 12,3 ; Rm8,9.11), pois é o Espírito que anima e vivifica o corpo de Cristo que é a Igreja.

Tt 3,4-6
“Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram..., fomos lavados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele ricamente derramou sobre nós por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador”. – Como se vê, o Pai é o Amor, que tem a iniciativa de nos salvar, o Filho é o Mediador, e o Espírito Santo é a força de Deus que nos recria, fazendo-nos consortes da vida trinitária.

Hb 2,3s:
“A salvação começou a ser anunciada pelo Senhor. Depois foi-nos fielmente transmitida pelos que a ouviram, testemunhando Deus juntamente com eles..., pelos dons do Espírito Santo distribuídos segundo a sua vontade”... – Deus (Pai) é o princípio de toda salvação; o Filho é a palavra, que na terra anuncia essa Boa-Nova do Pai; o Espírito Santo é Aquele que em nossos corações explana e interpreta a mensagem.

Tal é a doutrina dos escritos do NT. Tem aspecto vivencial, procurando enfatizar o significado salvífico das verdades da fé. – Desde o séc. II os cristãos se viram diante de séria interrogação: como conciliar a unidade de Deus (tão incutida pela AT e pela razão) com a trindade de suas Pessoas? Ou há 3 deuses ou as Pessoas Divinas não passam de aspectos ou facetas de um único Deus – tal era o dilema que se impunha à reflexão dos cristãos.

É para este problema que nos voltamos agora...

As primeiras tentativas de conciliar unidade e trindade em Deus foram falhas: tendiam a subordinar o Filho do Pai (o Espírito Santo era menos estudado). Tal teoria nos séc. II e III tomou o nome de monarquianismo ( defendia a monarquia divina).

No séc. IV, o subordinacionismo foi reapresentado por Ário de Alexandria a partir de 315: afirmava ser o filho a primeira e mais excelente criatura do Pai. Tendo sida concebida a paz aos cristãos em 313, compreendeu-se a controvérsia tenha tomado vulto que nunca tivera. Em conseqüência, reuniu-se o primeiro Concílio Ecumênico da história em Nicéia (Asia Menor) no ano de 325, o qual reuniu uma profissão de fé, que afirmava:

“Cremos... em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Pai como Unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por quem foi feito tudo que há no céu e na terra” (DS 125[54]).

Vê-se que o texto acentua a identidade de substância do Pai e do Filho para afirmar que o Filho não foi criado (quem cria, tira do nada), mas gerado (quem gera se prolonga no filho gerado); o Filho é Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

Todavia a disputa não se encerrou em 325. Entre outras questões, restava a das relações com do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Após decênios de debates, reuniu-se o Concílio de Constantinopla I em 381, que acrescentou à profissão nicena de fé os dados referentes ao Espírito Santo:

“Cremos no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai (cf.Jo 15,26), com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o qual falou pelos profetas” (DS 150[86]).

Afirmando que o Espírito Santo é adorado com o Pai e o Filho, os padres conciliares queriam incutir a identidade de substância (ou a Divindade) do Espírito Santo com o Pai e o Filho.

Só foi possível aos teólogos chegar à formulação exata do dogma após recorrerem à distinção entre ousia (essência, natureza) e hypóstasis (pessoa). Aquela é única (a Divindade); as pessoas porém são 3, sem esfacelar nem retalhar a natureza divina, como 3 são os ângulos de um triângulo sem esfacelar a superfície do triângulo.


• As Processões em Deus

Os teólogos tentaram, desde os primeiros séculos, penetrar de algum modo no mistério da vida de Deus Uno e Trino. Não há dúvida, esta escapa à plena compreensão da inteligência humana, que é sempre finita. Como quer que seja, a reflexão teológica pode mostrar não somente que o mistério da SS.Trindade não é um absurdo, mas também que grande harmonia e conveniência existem nesse mistério.*

*Obs: Há quem diga popurlamente: Se 1+1+1=3, como é que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo não são 3 deuses? Na mesma linguagem popular pode-se responder: 1+1+1=3, mas 1x1x1=1! – Assim se desfaz a objeção mal concebida.

Eis como, em síntese, se pode ilustrar o mistério da SS.Trindade.

A S.Escritura, ao falar do Pai e do Filho, supõe procedência (ou processão) do Filho em relação ao Pai. No tocante ao Espírito Santo, diz Jesus: “O Espírito da verdade, que procede do Pai...(Jo 15,26).*

*Obs: Não confundir processão com procissão, que é uma cerimônia religiosa. Processão vem de proceder e só se usa na linguagem teológica trinitária.

Vejamos pois o que é uma processão:

- É simples a origem de um ser a partir de outro. Não implica relação de causalidade entre um e outro. Por exemplo, a luz e o calor procedem de uma lâmpada acesa (há relação de causalidade no caso); a estrada de Rio-São Paulo procede do ponto A (não há relação de causalidade entre o A e a estrada, mas há uma processão ou procedência).

Há 2 tipos de processão: a Transeunte e a Imanente

Na processão Transeunte, o termo que procede sai do princípio donde procede. É o que ocorre quando alguém escreve uma carta (esta sai para fora da pessoa que escreve); quando alguém confecciona uma obra de arte...

Na processão Imanente, o termo que procede permanece no sujeito donde procede. É o que acontece com nossas ações vitais: o conhecer, o querer, o ver, o ouvir... A ação permanece no sujeito como perfeição deste. Por exemplo, quando admiro uma paisagem, nada sai de mim; não obstante, realizo uma atividade, olhando, refletindo, imaginando..., que me enriquece interiormente.

Dentre as ações imanentes, as mais nobres são as da vida intelectiva: o conhecer intelectivo e o querer (que decorre do conhecimento).

Observemos o que ocorre em nós: nosso eu é dotado de intelecto (mediante o qual somos chamados a conhecer a verdade) e de vontade (mediante a qual queremos e amamos a verdade, que é um bem).*

Obs: A filosofia ensina que o Ser, na mediada em que é considerado pela inteligência, é verdade e, na medida em que é desejado pela vontade, é um Bem.

Assim nossa vida é uma contínua procura da verdade (mediante a inteligência), que suscita em nós momentos de gozo e deleite (amor).

Transponhamos essa realidade para Deus, já que somos imagem e semelhança dele.

Em Deus não existem só processões transeuntes (criação do mundo e do homem), mas há processões imanentes. Sim; em Deus há um conhecer intelectivo e um quere (que é também amor). Todavia Deus não conhece a verdade pouco a pouco, mas num único ato de Deus conhece toda verdade; consequentemente, com um único ato Deus ama todo o Bem.

E qual é o objetivo do conhecimento e do amor de Deus?

- É o próprio Deus. Deus não depende de criatura alguma para conhecer e amar; toda criatura começa no tempo, só Deus é eterno. Isto quer dizer: desde toda eternidade Deus se conhece cabal e exaustivamente e, conhecendo-se, projeta uma imagem de Si, igual ao próprio Deus que a projeta (não há retalhamento e nem diminuição nesta imagem); é um segundo eu em Deus, é Deus de Deus ou a segunda pessoa da SS.Trindade. A Sagrada Escritura dá a essa pessoa os nomes de Filho, Logos (conceito, palavra), Imagem (todo Filho é imagem e palavra de seu pai) – cf.Mc 1,11 (Filho); Jo 1,1(Logos); Cl 1,15 (Imagem). Tal é a primeira processão existente em Deus; a de ser entendida a semelhança do que se dá quando projetamos nossos conceitos e os contemplamos mentalmente; também tem analogia com a geração ou com o relacionamento existente entre Pai e Filho.*

*Obs: É de notar, aliás, que o mesmo verbo conceber se aplica tanto à concepção de noções ou idéias quanto à concepção de um filho. O pensador concebe um projeto mental; a mãe concebe um filho.

Mas a vida de Deus – como a de qualquer um de nós – não é só conhecimento. Este suscita o amor. Por isso o conhecimento que Deus tem de si, suscita o amor de Deus a esse bem, que é Ele mesmo. O amor em Deus não é um ato parcelado ( em Deus nada pode ser parcelado), mas é o próprio Deus que ama, ou ainda: é o amor que o Pai tem ao Filho e que o Filho tem ao Pai. Esse amor é chamado Espírito Santo. Tal é a segunda processão existente em Deus: é a terceira pessoa ou do terceiro eu, que procede do Pai e do Filho; na falta de outro nome, essa processão é chamada “espiração”, pois tem por termo o Espírito.

Vemos assim que em Deus deve haver duas processões em três pessoas. Não pode haver nem mais nem menos. É importante salientar que essas processões não implicam temporalidade (antes e depois), nem hierarquia, nem dependência. No único e permanente instante da eternidade, Deus se conhece gerando o seu Filho igual ao Pai, e Deus se ama, produzindo o Amor Subsistente.

Há, pois, uma só natureza em Deus, duas processões e três pessoas. As processões, sendo imanentes, não dividem nem retalham a única natureza divina; não constituem 3 deuses, mas um só Deus ou uma só natureza divina, que se afirma 2 vezes.

A analogia assim exposta é a que mais se aproxima da vida de Deus. Os antigos escritores da Igreja propunha outras, que a seu modo ilustram a SS.Trindade.

Imaginemos um lençol de água debaixo da terra; é algo de grande, mas invisível e insondável aos olhos da criatura. Esse lençol se manifesta mediante um “olho de água”, que revela aos poucos a quantidade e qualidade de água oculta. Por sua vez, esse olho de água dá origem a um córrego, que irriga e “vivifica” toda a terra vizinha. – Ora o lençol de água invisível representa o Pai; o olho de água, o Filho ou o Logos, que diz que há no lençol; o córrego representa o Espírito Santo, que comunica a todos os homens a vida decorrente da água oculta.

Imaginemos outrossim um tronco de planta com suas raízes invisíveis. É portador de uma vida, que se manifesta na flor. Esta, por sua vez, exala um suave perfume, que impregna todo o ambiente. Ora o tronco com suas raízes significa o Pai; a flor que fala e revela, simboliza o Filho; o suave odor representa o Espírito Santo. – Estas duas últimas é o princípio sem princípio; é o Deus invisível também chamado “Abismo” e “Silêncio”. O Filho é a imagem ou palavra do Pai; pelo Filho é que o Pai se dá a conhecer aos homens; Ele é também o mediador e o Pontífice. O Espírito Santo é Deus que atinge cada homem na sua intimidade e lhe fala ao coração; é o Artífice da santificação de cada um.

Há outra maneira de figurar a SS.Trindade, muito usual na arte latina: É a do triângulo eqüilátero. Este apresenta uma só área, que é focalizada diversamente a partir de cada um dos seus ângulos: A,B e C; estes são iguais entre si, mas ocupam posições diversas e inconfundíveis dentro da unidade da figura.


• As missões divinas

Em sua vida íntima, Deus é uno e trino. Conhecemos tal mistério através de sua manifestação na história da salvação. Esta nos ensina que existe um Pai, o qual nos enviou o seu Filho (mistério da encarnação na plenitude dos tempos; cf. Gl4,4). O Pai e o Filho, por sua vez, nos enviaram o Espírito Santo como dom por excelência, como hóspede invisível de cada coração em estado de graça; cf. Jo 14,26. – Ao falar-nos desses “envios” ou dessas “missões”, a S.Escritura dá-nos a entender que são o eco temporal das eternas processões existentes em Deus.

O estudo das missões divinas dá ao tratado da SS.Trindade uma nota muito viva e concreta. O mistério de Deus aparece profundamente inserido dentro da trama da história dos homens.

O Pai não é enviado, porque não procede. É Ele quem envia o Filho como Salvador, nascido de Maria. “Quando chegou a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, para reunir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” (Gl 4,4s). Esta é a missão visível do Filho, que não implica subordinação da segunda em relação à primeira, e que torna Deus, de modo novo e mais íntimo, presente às criaturas.

O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é-nos enviado por ambos: ... de modo visível, sob formas de línguas de fogo, no dia de Pentecostes (cf. At 2); ... de modo invisível à guisa de hóspede interior, no dia do Batismo de cada cristão: “Porque sois filhos, enviou Deus em nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! De modo que já não és escravo, mas filho. E, se és filho, és também herdeiro, graças a Deus” Gl 4,6s).

O Espírito Santo é o dom que o Pai e o Filho nos entregam como conseqüência da vitória de Cristo; Ele é o “outro Paráclito (Consolador)”, na ausência de Cristo (cf. Jo 14,16).

Vê-se assim que a santificação dos homens se faz por comunhão com a vida das 3 pessoas divinas; por obra do Espírito Santo, o cristão é feito filho no Filho e, com o Filho, volta ao Pai. A piedade cristã deve saber orientar-se diante desta verdade; especialmente a sua oração há de se mover dentro do esquema: Ao Pai por Cristo no Espírito Santo.

As doxologias (fórmulas de glorificação) antigamente rezavam “Glória ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo”. No século IV, porém, surgiu a heresia ariana, que subordinava o Filho ao Pai, prevalecendo-se, entre outras coisas, de tal fórmula. Em conseqüência, os autores católicos enfatizaram outra redação: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”, frase em que são postas exatamente no mesmo plano as 3 pessoas divinas. Esta outra maneira de rezar tem seu fundamento teológico e acabou prevalecendo sobre a anterior. Todavia não nos deveria levar a esquecer o papel que toca a cada Pessoa trinitária na santificação do cristão.


• As apropriações

Chamamos “propriedades” certos predicados que convêm, de maneira exclusiva, a uma Pessoa divina: assim a inascibilidade e a paternidade, ao Pai; a filiação, o ser Palavra, o ser imagem, ao Filho; a espiração passiva, o ser Amor e o ser Dom, ao Espírito Santo.

Na Liturgia e na Sagrada Escritura, ocorre também apropriações. Apropriação é o ato de atribuir a determinada Pessoa Divina um predicado comum as três; essa apropriação se faz na base da semelhança que tal predicado comum tem com alguma propriedade.

Na verdade, as três pessoas são igualmente poderosas e criaram o mundo; todavia parece que o ato de criar tem especial afinidade com o Pai, porque este é o Princípio sem princípio ou o Alfa em Deus. – Ao Filho é apropriada a Sabedoria (1Cor 1,24), não porque só Ele seja sábio, mas porque Ele é a palavra do Pai. – Ao Espírito Santo é apropriada a santificação implica consumação no amor. São numerosas as apropriações que a piedade cristã tem efetuado em seus hinos e textos litúrgicos.