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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Livro inédito no Brasil: A Verdade Sobre o Papado - Rafael Merry del Val

Finalmente este livro que traduzi foi publicado. Ele pode ser encontrado aqui: http://www.editoraloreto.com/produto/a-verdade-sobre-o-papado/

É um dos melhores livros já publicados no Brasil sobre este tema.

O que você irá aprender com este livro:
  • Antes de tudo, o conteúdo deste livro é uma verdadeira aula de como tratar seriamente determinado assunto;
  • As provas de que Jesus organizou sua Igreja sob a autoridade de São Pedro e de seus sucessores;
  • Que São Pedro esteve sim em Roma, e foi lá que ele morreu;
  • Textos patrísticos que comprovam que esta foi a crença ininterrupta dos primeiros cristãos;
  • Que as mentiras protestantes a respeito do Papado são completamente refutadas com uma análise séria das Escrituras e dos textos Patrísticos;
  • Que Pedro é, sem qualquer sombra de dúvidas, a Rocha sobre a qual a Igreja foi construída.




quarta-feira, 21 de junho de 2017

São Jerônimo e a Virgindade de Maria

Por Emmanuel-Marie O.P.

Encontramos já no final do quarto século um certo Helvidius atribuindo outras maternidades à Virgem. Segundo ele, Maria deixou de ser virgem após o nascimento de Jesus.

Não se conhece as elucubrações deste Helvidius a não ser pela refutação feita por São Jerônimo no tratado chamado Adversus Helvidium, e através de menções que ele fez em seu comentário ao primeiro Evangelho.
Explicando, por exemplo, o texto de São Mateus 13, 55-56 (“Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?”), São Jerônimo declara: “Em Jesus Cristo, eles (os judeus, e depois os hereges) viam apenas um homem, e pensavam que ele era filho de um carpinteiro. Vos espanta que eles se enganassem sobre os irmãos quando se enganam sobre o pai? Esta questão foi exaustivamente exposta em meu opúsculo contra Helvidius”[1]

E, um pouco antes, no verso “Eis aqui minha mãe e meus irmãos” (Mt 12, 49), ele afirma: “É minha mãe quem me gera a cada dia na alma dos fiéis, são meus irmãos quem faz as obras de meu Pai. Portanto, Jesus não negou sua mãe, como pretendem Marcião e Manes para que se pudesse crer que o que nasceu foi um fantasma, mas ele colocou os seus apóstolos antes da parentela para que nós também, quando tivermos que colocar as afeições na balança, prefiramos o espírito em relação à carne. Tua mãe e teus irmãos te procuram. Alguns, baseando-se em divagações dos apócrifos (sequentes deliramenta apocryphorum), supõem que o Senhor tinha irmãos, filhos de José com uma outra esposa, e imaginam uma certa boa mulher chamada Escha (quandam Escham mulierculam configentes). Mas, e sobre isto trata nosso trabalho contra Helvidius, nós compreendemos que estes irmãos do Senhor não eram filhos de José, mas os primos e primas do Salvador, filhos de Maria, tia materna do Senhor, que é a mãe de Tiago o Menor, José e Judas, assim como vemos em outra passagem do evangelho[2]. Os primos são chamados de irmãos, coisa que toda a Escritura demonstra[3]”.

1 — Adversus Helvidium, PL 23, 188 a, 196 c.
2 — Voir Mc 15, 40 et par. ; Jn 19, 25.
3 — Commentaire sur saint Matthieu, Sources Chrétiennes 242, p. 262-263.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Maria permaneceu sempre virgem

Por Irmão Emmanuel-Marie O.P., Le sel de la terre nº 41

É impossível que Jesus tenha tido irmãos e irmãs no sentido estrito da palavra, uma vez que os Evangelhos afirmam claramente a virgindade perpétua de Maria, sua mãe, e que este é um dogma de fé atestado desde os primórdios da Igreja através do consentimento unânime de toda a Tradição.
Mateus afirma que Maria concebeu pelo Espírito Santo [antes] de viver junto com José (Mt 1, 18), afirmando que ainda não haviam se conhecido (no sentido conjugal) [até que] ela deu à luz um filho (Mt 1, 25). Mas estas observações escritas para enfatizar o milagre da intervenção divina na concepção de Jesus não implicam que Maria e José a partir de então viveram o caminho comum dos casados e que Maria teve outros filhos. O reconhecimento de determinado estado antes deste ou aquele evento não implica, por si só, que deve ser outro o estado após este evento.

Ademais, se compararmos os vários textos do Evangelho relacionados com a concepção e nascimento de Jesus, fica claro que Cristo era seu único filho.

No relato da Anunciação, a Virgem objeta ao anjo que lhe fez o anuncio: "Como se fará isso, pois não conheço homem?" (Lc 1, 34). Esta bem formulada pergunta pressupõe que Maria deseja a todo preço permanecer virgem. E isso é tão verdadeiro que, para descartar esse incômodo argumento, alguns críticos não hesitaram em rejeitar a autenticidade deste verso [COMENTÁRIO MEU: Assim como alguns rejeitam a autenticidade de versos que atestam a Divindade de Cristo. Eles pressupõem que milagres não podem acontecer e já descartam este fato, assim como ALGUNS protestantes pressupõem erroneamente que isso seria exaltar demasiadamente Maria, e já descartam qualquer obra que Deus tenha feito em sua vida].

Por outro lado, o texto da Infância de Cristo, especialmente o episódio do reencontro de Jesus no Templo (Lc 2, 40-52), mostra que havia apenas um Menino com Maria e José, doze anos após o nascimento em Belém. A lenda dos irmãos e irmãs de Jesus não se sustentam com os fatos.
Jesus ainda é chamado por seus compatriotas “o filho de Maria” (Mc 6, 3). Se abstrairmos as razões providenciais para esta expressão, que sublinham a ausência de paternidade terrena e, portanto, a singular e miraculosa geração de Cristo, deve-se notar que esta pergunta é surpreendente no contexto antigo onde as afiliações eram feitas através de menções ao pai (Ex: Mt 16, 17; Mc 1, 19). Entretanto, esta referência justifica-se pela morte do pai e quando a viúva não tinha outro filho (Assim como o jovem falecido de Naim, que é designado como "filho único de sua mãe, que era viúva" Lc 7, 12). Esta expressão pode ser considerada como um indicativo de que, por um tempo considerável, Jesus foi conhecido em sua região como o único filho de uma viúva.
Finalmente, o fato de Jesus agonizante ter confiado sua mãe a João, e que, "dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa" (Jo 19, 26-27) só pode ser explicado se Cristo a tenha deixado sem irmãos carnais.

A expressão “seu filho primogênito”
Quanto ao termo “primogênito” (prwtovtokos) relatado por São Mateus (1, 25) e Lucas (2, 7), isso não implica que houve outros, ao contrário do que os críticos da virgindade perpétua de Nossa Senhora querem dizer. Significa apenas que Jesus era o primeiro filho de Maria e teve, portanto, de acordo com a Lei Mosaica, que ser apresentado ao Senhor e resgatado certo tempo após o nascimento (Num 8, 17; 18, 15-16).

Na Lei de Moisés, o termo “primogênito” significa simplesmente a primeira criança do sexo masculino “que abre a madre”, sem presumir a existência ou a esperança de outros. É uma tradução da palavra hebraica bekhor, que significa “primícia” (Ex 11, 5; Dt 15, 19; Nm 10, 36; LV 2, 14). Todos os primogênitos (esta lei inclui até mesmo os animais) “pertencem a Deus”, porque, diz o Senhor, "todo primogênito entre os israelitas, homem ou animal, é meu, eu os consagrei a mim no dia em que feri os primogênitos no Egito" (Nm 8, 17)

É sob esta mesma lei que os levitas foram “atribuídos” a Javé. Os levitas, de fato, foram “substitutos para aqueles que abrem a madre da mãe, o primogênito de todos”, eles “tomaram o lugar dos primogênitos dos israelitas” que Deus tinha reservado a si (Nm 8, 16-17; Nm 3, 45-51).
Fica claro, então, que é fazendo referência ao resgate legal que os evangelistas chamam Jesus de “primogênito” da Virgem. Entretanto, em relação a Cristo, o termo também evoca uma primogenitura de uma ordem diferente da carnal, bem superior a esta, sobre a qual São Paulo declara que Cristo é o “primogênito de toda a criação, pois nele que todas as coisas foram criadas” (Col 1, 15-16). “Primogênito dos mortos, [...] porque Deus quis habitar nele toda a plenitude da divindade” (Col 1, 18) e porque é, por sua própria ressurreição, “primícia” dos ressuscitados; “primeiro entre muitos irmãos”, isto faz referência a quem Deus predestinou para fazer imagem de seu Filho, os quais chamou, justificou e glorificou após seu Cristo (Rm 8, 29-30).

São Jerônimo, em seu comentário a Mateus 1, 25, dá a mesma explicação: “De acordo com esta passagem, diz ele, alguns suspeitam, o que é o cúmulo da perversão, que Maria também teve outro filho. Eles dizem se emprega o termo primogênito a quem tem irmãos. Mas as Santas Escrituras referem-se geralmente aos primogênitos não como aqueles que tiveram outros irmãos, mas ao primeiro nascido” (Saint Jérôme, Commentaire sur saint Matthieu, Livre I, dans : Sources Chrétiennes nº 242 (traduction Émile Bonnard), Paris, Cerf, 1977, p. 81-83.). Esta interpretação foi confirmada pela descoberta no Egito de uma inscrição judaica do reinado de Augusto: o epitáfio de uma mãe que morreu no nascimento de sua “criança primogênita” (prwtovtokou tevknou). É óbvio que nenhum outro poderia nascer da mãe morta (Ver o artigo do padre FREY em Biblica, 1930, p. 385-390.)

sábado, 24 de setembro de 2016

Série Cristológica: A Personalidade de Cristo.

Segue abaixo o esquema das postagens de uma série sobre Cristologia que traduzirei dos textos de Anscar Vonier.

Minha opinião sobre o que ele escreveu? Eu já li vários textos sobre Cristologia de vários autores renomados, mas pouca coisa é do mesmo nível que encontrei nestes textos. Se o que ele fez é só um resumo da Suma, quão profundo não deve ser o que o próprio São Tomás de Aquino escreveu?


"Meu livro é um resumo pouco convencional dos principais pontos da terceira parte da Suma Teológica. Apesar disso, tenho certeza que consegui expressar o espírito deste grande santo e pensador medieval e terei obtido um enorme sucesso se as seguintes páginas criarem o desejo no leitor de ir à própria Suma." (Anscar Vonier)

1 - A Metafísica da Encarnação.
2 - O Cristo dos Evangelhos, da Teologia Cristã e da Experiência Cristã.
3 - Cristo e a ciência da religião comparada.
4 - Cristo, o Maravilhoso.
5 - Uma tentativa de definir "Personalidade".
6 - A continuação da natureza humana em Cristo.
7 - "Antes que Abração existisse, Eu Sou"
8 - Quão Divina é a natureza humana de Cristo.
9 - O Verbo se fez carne.
10 - A hipótese escolastica.
11 - "Instrumentum conjunctum Divinitatis".
12 - O Objetivo da União Hipostática.
13 - As duas vontates e duas operações em Cristo.
14 - O conhecimento de Cristo.
15 - Em Cristo.
16 - Cristo em tudo e todos.
17 - Cristo, o Forte.
18 - Mal entendidos a respeito do Evangelh.
19 - O Caráter de Cristo.
20 - O lugar de Cristo no mundo.
21 - A Ligação entre a vida mortal de Cristo e a Eucaristia.
22 - A Majestade da Presença Eucarística.
23 - O Sangue de Cristo.
24 - O otimismo da Encarnação.
25 - Cristo, o Herói.
26 - Conclusão.

A Personalidade de Cristo - (1) A Metafísica da Encarnação, ou: por que estudar Cristologia é importante?

Desde o início da vida terrena de Nosso Senhor tem-se substituído o elemento pessoal por algo puramente legal. Sua personalidade é misteriosa, e todo sucesso de Sua religião encontra-se em confiar nEle, em segui-lo e em entendê-lo, tendo como principal preceito o princípio pessoal de amor pelos outros. Em outras palavras, em vez de disciplinas legais materiais, Ele estabeleceu as grandes observâncias do coração humano, do entendimento recíproco, da ajuda mútua e do amor ao próximo. “Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo.” (Gálatas VI, 2).

É o grande trunfo de sua graça manter os homens em unidade de fé religiosa sem impor-lhes qualquer obrigação de uniformidade prática em sua ascética externa. É Ele mesmo, em Sua própria Pessoa, que é a Força unificadora do Cristianismo. Seus primeiros discípulos seguiram-no, na simplicidade de seu novo amigo, levados por seu carisma inefável. Sem dúvida orgulhavam-se de ser seguidores de tão grande rabi, embora ainda não tivessem observância externas para criar uma escola. Assim, como poderiam ser seguidores de um mestre sem jejuar, enquanto os discípulos de João e dos fariseus jejuavam frequentemente? Em outras palavras, como alguém poderia ser discípulo de outra pessoa a não ser que ele carregue em si a insígnia da maestria deste mestre no caminho da abstinência, da purificação ou da oração?

Os homens conseguem unir seus semelhantes ligando-se através de certas austeridades exteriores; nenhum homem pode ser mestre de outro de fato sem colocar no pescoço do discípulo o julgo de ferro da observância corpórea; mesmo que fosse o objetivo do novo rabi ter uma escola cuja única observância fosse acreditar, ter confiança Nele e ter amizade e amor pelos outros. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (João XIII, 35). “Jesus respondeu-lhes: "Podem porventura jejuar os convidados das núpcias, enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não lhes é -possível jejuar. Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão.” (Marcos II, 19-20). O jejum é importante na formação de um Cristão, mas você não é um discípulo de Cristo simplesmente porque você jejua quatro vezes na semana, enquanto os discípulos de João jejuam três vezes e os Fariseus duas. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.

Na atração que leva a Cristo, bem como fidelidade a Ele, há todo o júbilo de um casamento; o apego e o companheirismo são inevitáveis, pois o banquete é formoso e jubiloso; o trabalho árduo virá após a festa, mas a lembrança deste banquete estará eternamente na memória.

A paz e a prosperidade da causa cristã residem nisso. Toda conversão e toda santidade devem estar associadas à Pessoa de Cristo e às pessoas a quem estamos ligados. A santidade pode realmente variar um pouco. Para alguns, a Pessoa de Cristo é um elemento predominante; para outros, seus pensamentos – vivos pensamentos – estão mais direcionados às pessoas que podem ver visivelmente; mas há certos indivíduos em que seus esforços espirituais são direcionados à realização escrupulosa de um sistema de observância em si mesmo, sem um propósito pessoal, e a religião Cristã está em perigo quando algum tipo de observância começa a desenvolver-se sem este elemento pessoal.

O espírito do cristianismo, apesar de sua pureza ascética, é diametralmente oposto a essa concepção material de vida ética, e os sucessos temporários que se podem obter são os arautos da catástrofe final. É privilégio exclusivo de Nosso Senhor ser Lei, ou melhor, ser uma substituição a toda lei. A princípio, ninguém gostaria disso, pois a alma humana ressente-se por estar obrigada a alguém. Entretanto, como Nosso Senhor é uma Pessoa Divina, não uma pessoa qualquer, pois é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não há justificativa para este ressentimento.

Os Fariseus ressentiam-se mais com a Pessoa de Nosso Senhor do que com Sua doutrina, pois leis abstratas ou observâncias externas nunca despertaram o ódio e a inveja, assim como nunca despertaram amor e simpatia na mesma medida em que uma pessoa pode fazê-lo.

Portanto, as grandes doutrinas teológicas acerca da Pessoa de Nosso Senhor têm uma intima ligação com Sua posição espiritual, pois Ele é uma Personalidade e sua graça não é nada mais que uma graça de amor e entendimento mútuo. Não há lucro tirado dos Evangelhos que não seja aperfeiçoamento do espírito e do coração. Alguém pode até inventar um sistema ascético achar quem submeta-se, mas nenhum homem pode fazer de sua própria personalidade a irrevogável voz da consciência e o alimento que sacia completamente o coração e a alma. Nosso Senhor é o Único que poderia fazê-lo.

Nenhum homem tem o poder de fazer das relações de outros homens que são seus seguidores a insígnia de seus verdadeiros discípulos; Nosso Senhor é o único que pode, e ninguém questiona Sua autoridade e direito para fazê-lo.  Portanto, os ensinos da teologia cristã sobre a Pessoa de Nosso Senhor devem ser de intenso interesse para cada seguidor de Cristo, e o fato dEle ser uma Pessoa Divina deveria encher-nos de imensa alegria.

A vida dos santos mostra em incontáveis almas um amor intenso e pessoal a Cristo.  Isso é fato histórico. Disso pode-se perguntar: tamanha amizade com alguém que não é deste mundo seria possível se Ele não fosse uma Personalidade Divina Viva? Em outras palavras, o amor pessoal a Cristo, tal como a história revela, é uma prova psicológica de sua realidade Divina?

Uma coisa é certa: isso não existe em nenhum outro lugar a não ser na Igreja. As personalidades das religiões não cristãs não fazem parte da consciência humana assim como Cristo o faz.

Seria um grande engano, portanto, considerar as verdades metafísicas da União Hipostática como verdades inférteis e sem aplicação prática; elas são, pelo contrário, indispensáveis para qualquer explicação racional da posição de Nosso Senhor em relação à raça humana. Há em Cristo certo tipo de multiplicidade de presença espiritual que faz dEle o amigo espiritual pessoal de milhões de almas; Ele tem um tipo de universalidade de presença e ação que não interfere de modo algum na intensa individualidade de Sua relação com cada alma. Tal é o Cristo da experiência e da história. Em sua humanidade Ele tem para todos os propósitos práticos a ilimitada característica de sua própria Divindade; Ele é, verdadeiramente, o Amigo Universal, e nenhum outro jamais conseguiu ser o amigo pessoal que todo ser humano pode ter.

Ora, um indivíduo de caráter tão universal só pode ter uma explicação: a União Hipostática, ou a Personalidade Divina, o mistério de uma natureza humana existindo através de uma Pessoa Divina. Em nossos dias mais do que em qualquer outro tempo, os pensadores temem o governo onde um só comande, por mais santo que possa ser. Para eles, não parece ser possível a um indivíduo ser tão grande a ponto de dar satisfação ao espírito de uma raça inteira.

Assim, encontramos com frequência em teólogos modernos a substituição do ideal pelo individual. Tais esforços são tudo, menos censuráveis; o fato é que nenhum indivíduo meramente humano poderia dar um completo ideal para a humanidade, ser um fator vivificante, uma ideia prática para toda a raça humana. Entretanto, estes teólogos modernos erram gravemente ao aplicar isso a Cristo. Não há, pois, a necessidade de substituir um Cristo ideal por um Cristo histórico, justamente porque o Cristo dos Evangelhos, o Cristo da Teologia Católica, possui de fato e uma Personalidade Infinita. Nele não há nenhuma limitação. Sem esta Personalidade infinita, dada as preocupações da raça humana, um Cristo ideal seria de fato preferível a um Cristo histórico pessoal.

Este é o motivo pelo qual digo que os grandes princípios metafísicos subjacentes à União Hipostática são de imensa importância prática. Com isto eu não quero dizer que aquelas almas santas façam destas grandes verdades um estudo utilitarista: elas simplesmente possuem a Cristo, e alegram-se nesta posse. Entretanto, a metafísica da Encarnação é indispensável ao filósofo que começa a lidar com a relação entre Cristo e a humanidade.

[Continua...]

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pio X e os que negam a ressurreição.

Depois de minha conversão à Igreja Católica por certo tempo eu ainda mantive uma espécie de preconceito em relação a alguns autores católicos, como o próprio Santo Tomás de Aquino. Na minha ignorância eu achava que ele tinha escrito algo bom, mas de certa forma ultrapassado e que não respondia às objeções dos céticos modernos, assim como não poderia contrapor ao que era colocado pelos estudiosos de hoje. Eu ainda estava acostumado a autores como C. S. Lewis, William Lane Craig, Peter Kreeft (que é um tomista, mas eu não sabia), além de vários outros pesquisadores de diversos temas relacionados à confiabilidade da Bíblia.

A mesma coisa em relação aos Papas e suas encíclicas. Certa vez, com uma dúvida, pedi ao meu diretor espiritual uma indicação de leitura, e o que foi indicado foi uma encíclica. Eu achei que não seria algo muito profundo e haveria somente afirmações verdadeiras, mas sem tanta força apologética para minhas pretensas e ilustríssimas questões.

Creio que só depois de uns dois ou três anos de convertido (hoje tenho cerca de 7 anos de convertido) que comecei a dar o devido valor aos autores que realmente valem a pena conhecer e dedicar a maior parte de meus estudos.

Eu tinha muito interesse em descobrir respostas mais profundas aos teólogos liberais (que até então eu só conhecia entre os protestantes) que negavam a ressurreição literal de Cristo, a sua Divindade, a inerrância das Escrituras, a possibilidade dos milagres e todo tipo de asneira. Meu interesse surgiu principalmente depois de certos debates no Orkut. Lembro-me até de um ex-seminarista que se gabava de que, ohhh, ter estudado “quatro anos num seminário” (dava até para ler com um tom majestoso e sapiencial aquela afirmação feita por um velho e sábio ex-seminarista no ápice de seus 30 anos de idade). Na minha ignorância sobre a raiz do problema, fui até um tanto ingênuo e achava que como ele havia estudado em um seminário então pôde aprender o que era correto e que, depois, abandonou a fé. Nessa época eu ainda era protestante, mas já respeitava a Igreja Católica.

Só muito tempo depois é que eu fui conhecer o que é o Modernismo (para mim era só um assunto chato de Literatura), e só aí tudo ficou claro: aquele seminarista NÃO negava as verdades fundamentais da fé católica APESAR de ter estudado num seminário, mas provavelmente POR TER JUSTAMENTE estudado num seminário modernista.

Não que eu considere todos os seminários ruins, mas este fato pode ser constatado por qualquer um que conheça seminaristas bons, que têm realmente vocação, e que passam por verdadeiros sufocos para seguirem seu caminho e serem bons padres (isso quando conseguem ser ordenados).

Mas, como eu descobri isso? Lendo a Encíclica chamada Pascendi, escrita por São Pio X. Depois da leitura dela, TUDO ficou claro. E mais: eu entendi a raiz da negação de tudo que é fundamental à fé Cristã, desde a ressurreição até as verdades elementares do cristianismo como a Virgindade Perpétua de Nossa Senhora e a Divindade de Cristo. O Modernismo não é somente o esgoto coletor de todas as heresias, ele é exatamente o oposto do Catolicismo.

Apesar de ter sido escrita há mais de 100 anos, me dei conta de que este documento é mais atual do que podem pensar.

Mas ler a Pascendi não foi suficiente para resolver algumas questões, e a resposta ficou mais completa depois que comecei a ler sobre a vida do Papa São Pio X. O que ele vivenciou, os fatos que ocorreram naquela época, o seu caráter e todos os problemas que ele precisou lidar, explicam não só a Pascendi, mas também o que estava por trás dos grupos que eram e ainda hoje devem ser combatidos.

Eu tenho a impressão de que muita gente acha que ler a vida de um santo é só conhecer curiosidades e ações bonitinhas de algumas pessoas que eram santas de tão fofas, como São Francisco, aquele criador de passarinhos, Santa Terezinha, apaixonada por rosas, e sem esquecer ainda de Santo Antônio, batendo um papo com os peixes.  Nada mais falso.



Também percebo nos gestos de algumas pessoas a mesma indiferença e, perdoem-me, burrice que eu tinha. Já indiquei a muitos a leitura da Pascendi para depois receber, simplesmente, aquela concordância complacente como a de alguém que estava esperando algum tratado de mil páginas escrito por qualquer autor que não fosse Pio X, e quando perguntamos a respeito da leitura é um infindável balançar de cabeça, opiniões vazias e elogios sem nexo. Afinal, ele certamente foi um bom Papa, mas com certeza não atenderia as questões que elas, em sua “sabedoria”, consideram como realmente cruciais. Isso quando o problema não é a vergonha ser visto pelos outros como “rad-trad”. Este é exatamente o mesmo tipo de soberba que eu tinha quando menosprezava a importância de Santo Tomás de Aquino e o que me obrigava a ficar na superficialidade. Afinal, o que o Aquinate teria a dizer sobre as questões atualmente colocadas por céticos como Bertrand Russel, Dawkins, Bart Ehrman, Dan Barker e vários outros pesquisadores iluminados da modernidade que geralmente ignoram o passado e consideram o desenvolvimento do pensamento humano como o desenvolvimento tecnológico, como um celular de hoje que é melhor que o de cinco anos atrás? Do mesmo modo, o que a vida de São Pio X ajudaria na compreensão de certos problemas do mundo moderno?

Poucos sabem, por exemplo, mas no tempo de Leão XIII a assembleia de Maçons tomou a seguinte resolução: “É dever estrito de um maçom, caso seja membro do parlamento, votar pela supressão do ‘Orçamento dos Cultos’, para a supressão da embaixada francesa no Vaticano e, em todas as ocasiões, declarar-se a favor da separação entre a Igreja e o Estado, sem abandonar o direito de o Estado policiar a Igreja”; que foi nessa época e na de São Pio X que muita coisa que se vê hoje estava sendo aplicada e que os Papas lutavam com todas as suas forças. “Destruí a Igreja na França e a descristianização virá em seguida”, é o que diziam os inimigos da Igreja. E o que aconteceu? É o que nós vemos hoje.

Mas, o que mais se vê no Facebook são pessoas comentando sobre o estado atual da Igreja, sobre o que está acontecendo com a França e dando as mais diversas “soluções” sem sequer saberem o que levou a França e os demais países da Europa ao estado em que estão.

Por isso, ler a biografia dos Santos Papas é importante, em especial a de São Pio X. Esta biografia lida com prazer pelo próprio Cardeal Merry del Val (carne e unha com São Pio X) fará com que você conheça melhor a raiz de alguns destes males.

Inédito no Brasil e nunca traduzido para o português, o livro é mais barato que a ida de muita gente a uma lanchonete num sábado qualquer. Com apenas R$ 28,00 você vai conhecer um dos Papas que entendeu o mal que nos rondava e deu-nos algumas soluções verdadeiramente católicas.

Tenho a certeza de que lendo Papa Sarto, o Papa Santo você não só saberá como foi a vida de um dos Papas mais santos da história, mas vai compreender alguns dos motivos do caos atual no qual a Europa está mergulhada e, além disso, nos ajudará a continuar com este projeto e o compromisso de publicar bons livros!


Você poderá comprá-lo aqui: http://editoraloreto.com/produto/papa-sarto-o-papa-santo-f-a-forbes/

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Patrick Madrid em poucas palavras detonando a heresia da Sola Scriptura.

Uma coisa é certa: não há nenhum lugar na Bíblia em que diga que ela é a única regra de fé e que tudo deva ser provado por ela, mas tem gente que sente tanta ânsia de ser "reformado" que aceita esse jargão e repete-o como se uma frase de efeito tivesse necessariamente conteúdo.

sábado, 27 de junho de 2015

A Noite de São Bartolomeu - PARTE I

Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.

Noção Geral e questões a examinar.

Entende-se por São Bartolomeu o massacre dos huguenotes ou protestantes, que teve lugar na França, na noite de 24 de agosto, festa de são Bartolomeu, em 1572, por ordem de Carlos IX, influenciado pelos conselhos de sua mãe, Catarina de Medicis.

Este massacre começou em Paris, depois do sino de Saint-Germain-l’Auxerrois ter dado o sinal. Coligny, chefe do partido huguenote, foi uma das primeiras vítimas. O sangue correu em toda a capital; segundo alguns, houve dois mil mortos; segundo outros, dez e até vinte mil. Vê-se que a diferença é grande, e a verdade deve estar entre os extremos.

Nos dias seguintes, sempre pelas ordens do rei, semelhantes cenas se renovaram em diferentes pontos do país: Meaux, Orleans, Lyão, Burges, Tolosa, Bordéus etc. Alguns historiadores pretendem que, nas províncias, houve de quinze a vinte mil vítimas. Veremos o que se deve pensar a este respeito.

Tal é o fato da São Bartolomeu... Mesmo sem aceitar os exageros a respeito dele, foi por demais verdadeiro, e é uma pátina que se desejaria poder apagar dos anais da história francesa, segundo uma palavra não do chanceler de l’Hospital, a quem muitas vezes foi atribuída, mas do presidente de Thou: “Excidat illa dies aevo! Pereça para sempre a memória daquele dia!”

O ódio dos protestantes e ditos filósofos misturou, de tal modo, o nome da Igreja Católica a este fato histórico que, por tanto ouvir, muitas pessoas passaram a acreditar que São Bartolomeu era obra da Igreja. Importa destruir este preconceito. Por outra parte, sob a pena dos escritores protestantes, dos romancistas e outros homens de juízo errôneo, o número das vítimas aumentou de modo sistemático. Não nos será difícil demonstrar que aí também o exagero se deu livre curso.

Para proceder com ordem:

1 – Examinaremos rapidamente as causas que prepararam este acontecimento deplorável;
2 – Mostraremos que a Religião Católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu;
3 – Foi um golpe de Estado, um ato de proscrição, obra da política de Carlos IX e de Catarina de Medicis;
4 – Finalmente, que a noite de São Bartolomeu fez muito menos vítimas do que se tem escrito. É o que vamos demonstrar em outros tantos artigos, onde aparecerá claramente que a Igreja deve ser justificada de qualquer acusação de intervenção no odioso massacre da noite de São Bartolomeu, e convém andar desconfiado a respeito dos números em que se calculam as vítimas.

I – AS CAUSAS QUE PREPARARAM E EXPLICAM A SÃO BARTOLOMEU.

I. Princípios da Reforma.
II. Violências e crimes dos protestantes na França.

I – Recentes trabalhos, publicados por investigadores e eruditos, permitem colocar hoje, em plena luz, o acontecimento que deixou uma impressão tão dolorosa na história da Filha primogênita da Igreja, no século XVI. Esses autores remontam às fontes, e acharam, nos próprios historiadores da Reforma, declarações que merecem ser recolhidas.

Primeiro, julgamos que não surpreenderemos nossos leitores afirmando que da Reforma procederam as desordens que tão profundamente transtornaram a Europa no século XVI. A doutrina de Lutero e Calvino continha em gérmen todos os princípios de revolta, de anarquia, de luta sangrenta.

1º O protestantismo arrastava consigo a corrupção dos costumes. O livre exame, a salvação atribuída somente à fé, sem as obras, a rejeição da autoridade da Igreja e de toda moral importuna, já, ainda em tempo dos reformadores – e os próprios Lutero e Calvino disso gemeram – tinham causado uma depravação geral.

2º O protestantismo impelia para o socialismo, a pilhagem e para a anarquia. Na livre interpretação da sagrada Escritura, cada um achava não só uma desculpa, mas uma aprovação de todos os excessos. Pois: “Naqueles tempos, diz Bousset[1], toda a Alemanha estava em fogo. Os camponeses, revoltados contra os senhores, tinham pegado em armas e imploravam o socorro de Lutero. Além de que seguiam a doutrina dele, pretendia-se que um livro dele, a Liberdade cristã, muito contribuíra a lhes inspirar a rebelião, pela maneira ousada com que falava contra os legisladores e contra as leis.”

“Lutero, diz Luiz Blanc, levava direitinho a Munzer. Milhões de vozes estavam prontas a proferir, contra os reis e os príncipes, o grito que soltara contra Roma[2]”. A violência dos novos bárbaros não conheceu mais limites: matanças nos campos de batalha, cidades desmanteladas, mosteiros destruídos, igrejas incendiadas e saqueadas, tesouros de escultura e pintura destruídos; tais foram os resultados da Reforma na Alemanha. Melanchton dizia que as ondas do Elba não chegariam para chorar todas as infelicidades e desventuras da Religião e do Estado.

3º O protestantismo queria a destruição do catolicismo. É um erro considerável, explorado pelos inimigos da Igreja, acreditar que os protestantes reclamavam simplesmente um lugar ao sol, ao lado dos católicos, que eram inofensivos e tolerantes em excesso. Lutero dissera: “Quem cooperar com o braço ou os bens para a ruína dos bispos e da hierarquia episcopal, é bom filho de Deus, verdadeiro cristão, e observa os mandamentos do Senhor”. Seus discípulos obedeceram e provam-no seus sangrentos triunfos na Alemanha, na Dinamarca e na Inglaterra.

II – Na França, como em outros lugares, os protestantes queriam acabar com a religião católica e substituir-lhe o calvinismo. No século XVI formavam um Estado no Estado; tentavam apoderar-se do poder e pactuavam com os inimigos da pátria. “O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou Miguelada, efetuada pelos huguenotes, a sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, em 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França.[3]”.

“As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas”.[4]

Assim, é preciso reconhecer que o massacre de Vassy, no qual quarenta e dois protestantes, segundo La Popelinère, sucumbiram numa luta travada entre eles e os católicos, era já vingado e de sobra. Deve-se então ficar surpreendido que a velha fé dos Francos, tão arraigada no solo do reino cristianíssimo, ficasse indignada e, mais do que a Alemanha e a Inglaterra, se tivesse defendido contra as usurpações, os concluios e manejos da Reforma?

É neste verdadeiro ponto de vista histórico, que convém colocar-se para julgar lealmente o fato da São Bartolomeu e, sem pretender desculpá-lo, patentear pelo menos as muitas circunstâncias atenuantes.



Notas:

1 – Bousset, Histoire des Variations, liv. II, cap. XI. (Possui PDF em espanhol).
2 – Luiz Blanc, Histoire de la Révolution française, t. I.
3 – Jorge Gandy, Revue des questions historiques, 1866, t. I. -  J. J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse).
4 – Carlos Buet, François de Guise.


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sábado, 9 de maio de 2015

Alexandre VI e César Bórgia: Mitos e verdades.

Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.




Nenhuma reputação foi mais vilipendiada do que a de Alexandre VI e dos Bórgias. Depois das ignomínias infligidas a este personagem e à sua família, vieram as indagações históricas e críticas, guiadas pela sinceridade e pela boa fé. Projetaram-se algumas luzes sobre a questão que nos ocupa; contudo, não podemos afirmar que a última palavra foi dita sobre o caso.

Limitemo-nos: 1º a expor com toda franqueza e lealdade o problema histórico com as conclusões que hoje parecem fato averiguado; 2ª acrescentemos alguns reparos que talvez facilitem uma justa apreciação dos personagens e dos fatos.

1 - Quem foi ao certo Alexandre VI? Terá sido, não só na juventude, mas sendo cardeal e papa, um monstro de crueldade e de luxúria, o Nero da Roma cristã, como falam Henrique Martin (Histoire de France, t. VII) e outros depois dele?

Observemos primeiro que não se deve julgá-lo segundo o romance, o panfleto ou o teatro. Ora, vamos ver a que fontes se foram documentar os historiadores de Alexandre VI e dos Bórgias. O primeiro autor consultado é Burchard, inimigo figadal da Itália e do papa, mestre de cerimônia da corte de Roma desde 1483, morto bispo de Cittá di Castello: é autor de um Diarium, jornal escrito tanto sem boa fé quanto sem crítica, que interpolações protestantes ainda alteraram, tornando-o mais parcial e odioso. O segundo é Guichardin. Sua má fé é tamanha que o incrédulo Bayle dizia dele: "Guichardin merece o ódio; torna-se culpado das mentiras dos noveleiros." O próprio Voltaire o acusa de impostura e mentira. Eis contudo as fontes onde os historiadores e os romancistas foram procurar informações.

A darmos crédito no que dizem esses autores, a juventude de Rodrigo Bórgia, nascido em Valência, na Espanha, em 1431, se passa nos prazeres. Criado cardeal em 1456, por seu tio Calixto III, continua a ter costumes mais do que livres. Papa, desonra o trono pontifical, prodigaliza honras e benefícios a seu indigno filho César Bórgia, admite a uma intimidade escandalosa sua filha Lucrécia, semeia o veneno e a morte nas fileiras do Sacro Colégio para se apoderar das riquezas de suas vítimas, e morre ele próprio de uma bebedeira mortífera que mandara preparar para cardeais que, a seu parecer, não morriam bastante depressa.

Depois dos exageros da panfletagem e do romance, veio uma reação história. Procurou-se, valendo-se de outras fontes, reabilitar completamente Alexandre VI. Os desmandos de Rodrigo Bórgia não foram mais do que um erro e faltas de mocidade, cometidas em uma época em que era brilhante oficial da Espanha. Seus filhos César, Lucrécia e mais três outros, teriam nascido de uma esposa ilegítma, Julia Farnese, mulher de uma origem ilustre, irmã do cardeal deste nome, que veio a ser Paulo III. A celebre Vannoza, em lugar de ser a cortesã desavergonhada, mãe de cinco filhos adulterinos, não seria senão Joana Gaetani, avó dos jovens Bórgias, inteiramente dedicada à educação deles. Feito cardeal e eleito papa sob o nome de Alexandre VI, Rodrigo Bórgia, seria um modelo de zelo e de atividade; seus costumes, impolutos sobre o trono pontifical, o defenderiam contra qualquer ataque. Além disso, certos escritores, acompanhando a Revista de Dublin, pretenderam que Cesar e Lucrécia Bórgia, assim como seus irmãos, pediam muito be
m não ser mais do que sobrinhos de Alexandre VI, filhos de seu irmão Pedro Luiz Bórgia.

Não é mais possível ser partidário desse sistema histórico. Alexandre VI teve fraquezas e faltas que qualidades reais não podem fazer esquecer. Se Burchard foi parcial e exagerado, se Guichardin se mostrou muitas vezes de má fé, outros escritores e analistas, mais sinceros e insuspeitos, Pavini, Raynaldi, Muratori e os Bollandistas, gemeram sobre as irregularidades de Rodrigo Bórgia; não desculparam nem o cardeal nem o papa. A sua pretensa carreira militar não é mais do que um romance, pois foi nomeado cardeal por seu tio aos vinte e cinco anos; não contratou casamento regular; Rinaldi, continuador de Baronio, escreve relativamente à eleição de Alexandre VI em 1492: "Os cardeais, comprados pelo ouro, elegeram um papa de costumes corruptos". A julgar pelas cartas e testemunhos de vários embaixadores, essa escolha foi manchada de simonia, e um escandaloso nepotismo assinalou a elevação do novo papa. Enfim, sua corte pontifical ofereceu o espetáculo de um grande luxo e de festas brilhantes que os cronistas conta
ram com malignidade. Tal parece ser o verdadeiro Alexandre VI, no dizer da história imparcial.

O sábio cardeal Hergenroether, na sua História da Igreja (1888), não hesita em dar de Alexandre VI a seguinte apreciação: "Ele tinha as qualidades de um brilhante soberano; era um espírito culto, protetor das artes e das ciências, benigno e benévolo para com o povo, duro e severo para com os grandes, corajoso e resoluto nos perigos, sagaz e hábil nas negociações, não recuando perante meio algum, familiarizado com a política de interesse, que dominava então na maior parte das cortes. Mas tinha um passado absolutamente manchado e ficavam-lhe vários filhos de uma união adúltera: não viveu senão no mundo para satisfazer sua paixão, enriquecer e engrandecer sua família e, por muito tempo ainda continuou sobre o trono pontifical o seu primeiro gênero de vida. Se muitos dos crimes que lhe foram imputados por seus inimigos são imaginários, ficam ainda bastantes para votar sua memória à execração moral, e é já um grande motivo de censura que se possa ter dado fé à narração escandalosa de tantas aventuras. Parecia que o espírito mundano, a sede de prazeres tivessem abafado nele o senso moral; e é assim que seu pontificado serviu para desacreditar a cadeira de São Pedro aos olhos do mundo inteiro, tanto mais que sua política, sempre aplicada em arranjar  principados para seus filhos, era muitas vezes equívoca e desonesta".

Dessas afirmações, os testemunhos são irrecusáveis. Cesar Bórgia, duque de Valência; João, duque de Candia; Lucrécia, duquesa de Ferrara e Godofredo são perfeitamente os filhos de Rodrigo e de Vannoza, como atestam inscrições tumulares na igreja de Santa Maria del Pollo, em Roma, e a data de seu nascimento revela claramente a desordem de uma vida escandalosa sob a púrpura.

O ilustre doutor L. Pastor, em sua notável História dos Papas, tão documentada, não conclui de outro modo o seu estudo sobre o célebre pontífice: "Qualquer tentativa de salvar a memória de Alexandre VI, diz ele, seria doravante a defesa de uma causa desesperada". É, contudo, permitido fazer algumas reservas e acrescentar com o cardeal Hergeroether: "Em compensação, deve-se desterrar para o domínio das fábulas as relações incestuosas de Alexandre com Lucrécia e o que se diz da vida constantemente imoral dela. Muitas das acusações dirigidas contra Alexandre e tiradas de Burchard, Joves, Pontanus, Sannazar e Guichardin, foram combatidas com sucesso por Raynal, Roscoe, Capefigue e Chantrel." Por seu lado, L. Pastor acrescenta: "Nem tão pouco César Bórgia é o autor de todos os assassinatos que lhe foram imputados".

2 - Na impossibilidade em que estamos de discutir detalhadamente e tratar longamente todos os pontos agitados em ardentes polêmicas contra Alexandre VI, contentar-nos-emos com algumas observações.

Primeiro, poderíamos, com L. Pastor, o historiador mais informado e o melhor dos guias no meio das questões complexas e delicadas suscitadas pelos feitos dos papas naquela época, deter-nos um instante para contemplar a pintura dos costumes italianos no fim do século XV. Ao mesmo tempo que um sopro de indiferença e incredulidade e uma sede ardente de gozo material solapavam a sociedade, a literatura, as artes, abriam de par em par as portas da corrupção. Disso resultou um obscurecimento geral do senso moral, ao qual não escaparam de modo suficiente pontífices às vezes tão pouco preparados à sua sublime missão. Alexandre VI e César Bórgia, tais como nos representam os documentos contemporâneos, não são mais, desde então, exceções monstruosas como nos aparecem estudados à luz que ilumina hoje o trono pontificial.

Lembremos ainda que Alexandre VI, ao lado de faltas indesculpáveis, teve qualidades apreciáveis. Eleito papa, ocupa-se em restabelecer a ordem em Roma e consagra-se com ardor ao governo da Igreja. - Como rei, organiza uma polícia severa, publica regulamentos para a administração da justiça, dá à cidade de Roma um governo superior às facções, confia a César Bórgia, a quem revestiu da púrpura cardinalícia, o cuidado de defender os domínios pontificais, pela força das armas, contra os príncipes italianos. Este último ato foi imputado como crime ao papa e seu delegado. É esquecer então que essas funções militares estavam admitidas pelos costumes da época. O próprio Júlio II embainhou a espada e revestiu a couraça para defender a Itália. Esse César Bórgia, de quem não pretendemos defender a memória, era contudo amado pelos povos e, depois da morte de Alexandre VI, as cidades da Romanha não quiseram obedecer senão a ele somente. "Devia essa vantagem, dis Guichardin, ao cuidado que tivera em fazer administrar exatam
ente a justiça e em livrar a paz dos bandidos que o pilhavam". A Lucrécia Bórgia atribuem-se todos os crimes, mesmo o assassinato. Historiadores da Itália, Giraldi, Sardi, Libanori, a chamam de uma mulher perfeita e sem repreensão; dizem que possuía a beleza, a virtude, todos os dotes do espírito. Roscoe a justifica de todas as calúnias atribuídas contra ela. Quem merece mais confiança?Seus tardios detratores ou seus contemporâneos?

Como pontífice, Alexandre VI não foi inativo. Dá provas de uma solicitude universal, convida os cristãos para uma cruzada contra os Turcos, trabalha em fazer voltar para o grêmio da Igreja os hussitas da Bohêmia, continua com Ximenes a reforma das ordens religiosas, funda as universidades de Pisa, de Toledo, de Salamanca e de Lisboa, combate os abusos das indulgências e empreende reformar sua corte pontifical. Estes fatos advogam muito a favor dele.

O Bullario de Alexandre VI tem um notável valor, a lista de suas cartas e de seus outros escritos atesta juntamente sua atividade, sua habilidade e sua energia. "De noite, segundo Roscoe, Alexandre dormia apenas duas horas; passava à mesa como uma sombra, sem parar; nunca recusava ouvir as solicitações dos pobres; pagava as dívidas dos infelizes e mostrava-se sem dó para a prevaricação".

Entre outras censuras feitas a Alexandre VI, alguns não deixaram de lhe atribuir uma grande parte de responsabilidade na morte, em Florença, do Dominicano Jerônimo Savonarola. Questão delicada e também muito complexa. Certamente o papa Alexandre VI interveio neste processo. As pregações violentas do monge, as denúncias de que foi o objeto, davam ao papa o direito de chamá-lo para Roma. A recusa de Savonarola em responder a esta convocação, sua obstinação em não querer ligar o convento de Florença à província toscana, posta sob a regra conventual, provocaram, da parte do papa, uma breve ameaça; em seguida, com a data de 12 de maio de 1947, um novo breve de excomunhão formal. Tinha Alexandre VI o direito de dar a Savonarola ordem para entrar numa ordem menos severa? Era legítima a excomunhão? Obedecia a um rancor pessoal contra o frade audacioso que falava de Roma e da corte romana como de uma Babilônia de confusão e de crimes, que atacava o pontífice romano, sua eleição, seus vícios manifestos, e não receara e
screver: "Aquele homem não é cristão; sequer acredita em Deus; ultrapassou o limite da infidelidade de da incredulidade"? Eis outras tantas questões difíceis de resolver.

Em todo o caso, Alexandre VI pediu para que o monge fosse julgado em Roma: a corte de Florença recusou, e só concedeu a admissão de dois delegados do papa entre os juízes florentinos. É esse tribunal que, em 22 de maio de 1498, condenou à morte o Dominicano Savonarola, cuja execução teve lugar no dia seguinte. O frade confessara nos tormentos: protestou na fogueira.

Estranho século, diremos nós, e muito triste o estado da Igreja, numa época em que fatos e cenas semelhantes se podiam realizar, de modo a deixar a Savonarola a reputação, entre alguns de herege e excomungado impenitente; entre outros, de mártir e santo. Segundo L. Pastor, a reforma tentada por Savonarola não parece sem excesso, e o fim trágico de sua carreira tormentosa não aparece isento de censura. Sua resistência ao papa e seus ataques contra Alexandre VI podem ser desculpados, mas não justificados.

Finalmente, contra a opinião de Guichardin e de Tomasi sobre a morte de Alexandre VI, que representam como vítima de um veneno preparado para alguns cardeais, oporemos esta simples narrativa do próprio Burchard: "No sábado, 12 de agosto de 1503, de manhã, o papa sentiu-se indisposto, depois das vésperas, às três ou quatro horas da tarde. Declarou-se uma febre que não o largou mais. Em 16 de agosto fizeram-lhe sangrias; em 17 tomou remédios; na sexta-feira, 18 de agosto, às seis ou sete horas da manhã, confessou-se a D. Pedro, bispo de Culm que, em seguida, celebrou a Missa diante dele e, depois de ter comungado, administrou o sacramento da Eucaristia ao papa sentado na cama. Cinco cardeais estavam presentes. Na hora das vésperas Alexandre VI recebeu a extrema-unção das mãos do bispo de Culm e, na presença ele e do datário, expirou."

A respeito da morte de Alexandre VI, Voltaire escreveu: "Atrevo-me a dizer a Guichardin: a Europa foi enganada por vós, e vós fostes pela vossa paixão. Éreis o inimigo do papa, e demais acreditastes no vosso ódio."

Concluímos com o senhor de l'Êpinois: "Alexandre VI foi culpado, não há dúvidas, mas principalmente culpado por ter vivido ele, sacerdote, cardeal e papa, como viviam no seu tempo a maior parte dos príncipes e, como muitas vezes antes e depois dele, viveram os homens do mundo que, miseráveis na sua vida privada, puderam todavia, graças à sua inteligência e às suas vistas políticas, apresentar-se com certo brilho na vida pública.

Mas essas faltas não podem perturbar a vida do cristão... A Igreja vive no tempo e é servida por homens sujeitos a todas as fraquezas do tempo; porém, nela o elemento divino subsiste inatacável, indefectível. Os piores papas nunca lavraram contra a fé um só decreto que a possa alterar. Eles restam sempre, neste ponto de vista, assim como foi sempre Alexandre VI, os vigários infalíveis de Jesus Cristo... A personalidade humana deste papa desaparece, o caráter divino é posto em evidência, pois a fé no Vigário de Jesus Cristo não faliu. Esta prova da infalibilidade pontifical é assaz eloquente para consolar-nos das fraquezas de um papa como Alexandre VI" [1].

A impressão que se desprende deste estudo rápido de uma das épocas mais tristes da história da Igreja, é que o pontificado de Alexandre VI tornou quase inevitável o grande movimento de reforma que, no século seguinte, ia tão cruelmente abalar a Igreja e a Europa.

"Só se poderiam admirar dessa conclusão severa aqueles que se teriam esquecido da célebre máxima de Cícero dada por Leão XIII como divisa aos pesquisadores desinteressados perante os quais se abrem hoje de par em par as portas dos arquivos do Vaticano: 'Ne quid falsi audeat; ne quid veri non audeat'. Nada dizer que seja falso, nada omitir que seja verdadeiro"[2]

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Notas:
1 - Conclusão de H. de l'Êpinois.
2 - Conclusão do visconde de Meaux, Alexandre VI e Savonarola (1898).

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

O acidente inglês - Por Hilaire Belloc [Parte III]

"[...] Primeiro, o motivo. Irei chamar o primeiro ato, a ruptura de Henrique VIII com a Santa Sé, um acidente, pois estimo que esta palavra é a que mais se aproxima com a verdade. Um acidente – por exemplo, um automóvel que se desvia – não é intencional em seus efeitos. Se deve a um cálculo mal feito por parte do condutor, quem, ao querer fazer uma coisa, faz outra. Se pode, com frequência, corrigir a má manobra e eliminar suas consequências. O condutor não a faz por gosto. [Continua]"

Continue a ler aqui: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/15/o-acidente-ingles-por-hilaire-belloc-parte-iii/

terça-feira, 14 de abril de 2015

O acidente inglês – Hilaire Belloc [Parte II]

A Inglaterra era uma velha província do Império Romano, com tradições cristãs duas vezes mais antigas e muito mais fortes que as dos distritos nórdicos da Alemanha, obrigados pela conquista dos exércitos de Carlos Magno e seus sucessores a aceitar a doutrina cristã, sua prática e a apartar-se da barbárie. Se o governo inglês não tivesse variado, a reação a favor da unidade, quando se produziu, teria sido avassaladora. Em uma palavra, a separação da Inglaterra e a Igreja constituiu, entre outros fatores de maior ou menor importância, o fator principal do sucesso definitivo de nosso desmembramento. O afastamento artificial dos ingleses do resto da Europa tornou permanente a separação da cristandade. [...]

Leia o restante aqui: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/15/o-acidente-ingles-hilaire-belloc-parte-ii/

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O acidente inglês – Hilaire Belloc.


E se disséssemos que o rompimento inglês com a Igreja foi um acidente? Para muitos, isso não é novidade; para outros, a “reforma” inglesa daria uma ótima novela da globo. Mas veja, nos próximos capítulos, o que Hilaire Belloc diz sobre o assunto. Como o tempo para traduzir nesta semana está curto, o texto será postado da mesma forma que a revolução protestante: dividido em partes. Mas “muita hora nessa calma”! Não será em tantas partes.

***

Nesta divisão do tema, que é a mais importante, a chamo de acidente inglês. Escolhi a palavra cuidadosamente.

Se houve alguma vez na história um acontecimento que não foi desejado por seus agentes, nem compreendido por aqueles que o suportaram; que não era resultado de plano algum, mas o efeito prodigioso de causas relativamente pequenas e incongruentes, esse acontecimento foi a destruição gradual, mecânica e desastrosa da mentalidade inglesa da fé que havia formado a Inglaterra.

Em sua maioria, as histórias escritas em inglês apresentam este movimento como algo nacional e inevitável; algo que a nação inglesa desejava e que, chegada a oportunidade, necessariamente conseguiu. Ao mesmo tempo, enquanto fazem alusão em diferentes graus ao plano de fundo europeu, centralizam a Reforma na história inglesa.

A primeira destas características – apresentar o que aconteceu aqui como algo nacional e inevitável – é, a partir do ponto de vista histórico, um desatino. A segunda, também através do ponto de vista histórico, é correta. Mesmo a Inglaterra não sendo uma nação pequena, o erro crasso cometido pelo governo inglês ao separar-se da unidade europeia teve influência capital para o êxito da reforma.

Não existia na Inglaterra um movimento nacional dirigido contra a Igreja Católica; o pouco que ocorreu no inicio foi um movimento do governo, que sequer foi doutrinal. Foi um ato meramente político e até mesmo doutrinal. O que seguiu não constituiu um processo normalmente desejado pelo povo em geral. Foi um processo artificial dirigido por alguns poucos homens interessados, que atuavam impulsionados pelo dinheiro e não por mania religiosa; e, o que é pior, foi um processo que, em seu inicio, não deu a estes poucos atores a ideia dos efeitos posteriores que ocasionariam por sua avidez e loucura.

Mas o enfoque sobre a reforma inglesa que a apresenta revestida de importância especial é, coisa bastante curiosa, história verdadeira, e isto apesar da intenção que encerra a versão oficial de nossos livros acadêmicos anticatólicos.

Este enfoque sobre a história da igreja da reforma ocultou, certamente, a grande número de nossos homens cultos, a natureza geral da reforma, e, em especial (o que tratarei mais adiante), dos pontos principais: que a Holanda foi o exemplo e a França o campo de batalha. Mas é certo que se a Inglaterra não tivesse apartado da unidade do mundo cristão, essa unidade estaria agora plenamente restabelecida – e teria estado há muito tempo.

Desde que a Inglaterra se afastou desta unidade, cujo princípio vivente é o Papado, o distúrbio havia despertado de forma confusa, mesmo que violenta, em toda a Alemanha, e pouco afetava o resto da Europa. Na própria Alemanha não havia afetado principalmente o setor mais forte, mas antigo e mais civilizado do país. Sua ação foi pouco profunda entre os alemães inicialmente disciplinados pela cultura romana.

Esta afirmação somente deve ser tomada em sentido geral. As exceções abundam. Assim, Estrasburgo, cidade romana (se já foi alguma vez), se contava entre as que se haviam separado pelo “protesto” de Espira.

Mas, ocorresse o que ocorreu na Alemanha, e especialmente na parte menos civilizada, era diferente na Inglaterra.

[Continua…]

***

Aproveitando as postagens de uma biografia de Anscar Vonier, responsável pela reconstrução de um mosteiro destruído durante a revolução protestante, resolvemos também revezar com postagens com um texto de Hilaire Belloc sobre o tema.

Será interessante conhecer a história de uma verdadeira Reforma, mesmo que pequena, e um verdadeiro Reformador (Anscar Vonier), em comparação com uma falsa reforma motivada pela ambição e vaidade humana:

Parte 1: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/03/29/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-1/

Parte 2: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/13/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-2/

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domingo, 21 de dezembro de 2014

Quais foram as causas da diminuição da fé no século passado? - Anscar Vonier

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"Todas as vezes que cantamos as orações oficiais da Igreja, proclamamos a vitória de Cristo. No entanto, pode acontecer que católicos do nosso tempo, conservando mesmo a fé histórica e integral, deixem influenciar-se por certo sentimento ou imaginação e não tenham igual entusiasmo, em seus corações, para com o triunfo de Cristo.

Não é fácil encontrar as causas de tão grande mudança nesse modo de sentir. Para explicar esta triste diferença de mentalidade, dizem que é por ter a fé enfraquecido. É uma formula breve, mas não exata.

Outras são as causas da diminuição da fé, visto que ela não pode enfraquecer-se por si mesma. Entre outras causas dessa mentalidade dos católicos dos nossos tempos, temos as seguintes: Negou-se a Cristo o lugar que ele tem direito nos negócios do mundo; o começo desse movimento hostil contra a supremacia do Redentor é fenômeno relativamente recente, remota à décima oitava centúria. Foi todo o século dezenove a glorificação de uma civilização que se vangloria da sua independência de Cristo, bastando-se a si mesma, como se nada devesse ao filho de Deus. Esta apostasia quase universal dos Estados tornou-se grave tentação para os próprio crentes. Em toda parte os cristãos têm tomado uma atitude de escusa, como se eles se sentissem inferiores aos outros. Demais a mais, o sentimento e a imaginação têm influenciado de modo prejudicial sobre as doutrinas e devoções. Também a ciência chamada das religiões comparadas tem feito grande mal. Fez-se do problema da salvação dos povos, ainda idólatras, questão urgente, teológica, em detrimento da doutrina da salvação dos fiéis, assegurada por Cristo. Na admiração exagerada pelo progresso do nosso tempo, comete-se injustiça para com o passado. No mundo político, os povos têm sido vítimas de doutrinas exageradas e conduzidos assim por caminhos falsos, como se já não tivessem a Cristo por chefe. Muitas vezes, as devoções particulares revelam lamentável ignorância ou esquecimento culpável das principais doutrinas da vida sobrenatural. São essas a nosso ver as principais causas.

Pode tomar-se como sinal mais evidente da diminuição da fé na supremacia de Cristo o relaxamento do espírito de adoração no mundo. É, ao mesmo tempo, causa e efeito; porquanto os homens deixando de louvar e adorar a Cristo, como Senhor e Mestre, ficam cada vez mais imbuídos do espírito do mundo, e assim se torna, para eles, mais difícil o cumprimento da obrigação do culto, tanto público como particular."

(Dom Anscar Vonier, A Vitória de Cristo)

Projeto Anscar Vonier

Um dos principais motivos para não ter postado por um bom tempo no blog é que iniciamos um grupo cujo objetivo é traduzir e divulgar todo trabalho de Dom Anscar Vonier.

Atualmente ele é praticamente desconhecido aqui no Brasil, apesar do prestigio que já teve por conta de publicações antigas.

Infelizmente foram deixados de lado uma vasta quantidade de grandes autores católicos. Soma-se a isso  ao fato de que nem sempre se dá prioridade à tradução de textos que ainda não se encontram em nosso idioma. Esse é, inclusive, o motivo de termos decidido dar prioridade aos textos que  ainda não estão em português.

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Quem foi Anscar Vonier?

Em poucas linhas pretendemos dar aqui os traços principais da vida desse grande monge beneditino, que foi Dom Anscar Vonier.

Filho de família profundamente católica, Dom Vonier nasceu em 11 de novembro de 1875 em Ringschnait na Suábia, sul da Alemanha. Seus pais foram Teodulfo e Ágata Vonier. Posto que o nome da sua família o faça parecer de descendência francesa, os seus antepassados, no entanto, eram oriundos daquela região em que ele nascera, onde desde séculos sempre residiram.

Educado na escola da piedade cristã, o jovem Martinho, era esse o seu nome de batismo, comprazia-se em ajudar à Missa, acompanhando-a no seu pequeno pissal. Em casa havia armado um pequeno altar em que imitava a celebração dos santos mistérios. Daí lhe veio o desejo de abraçar a vida monástica. A esse tempo (1888), tendo ele treze anos, passou pela sua cidade um sacerdote angariando vocações para o mosteiro de Buckfast, na Inglaterra, o qual acabava de ser restaurado pelos monges da Congregação Sublacense da província francesa.

O jovem Martinho foi um dos primeiros que corresponderam a esse chamamento do Senhor. Mandado à França, fez os estudos de humanidades no colégio dos padres do Espírito Santo da cidade de Beauvais. Desses estudos e anos passados na pátria de São Luiz lhe veio um grande amor à cultura francesa.

Terminado o curso de humanidades, foi mandado para Buckfast. Ao ser admitido ao noviciado canônico, recebeu o nome de Anscar. Em 2 de julho de 1894, fez os votos de religião e em 17 de dezembro de 1898 foi ordenado sacerdote. No ano seguinte foi mandado para o colégio de S. Anselmo em Roma onde, após um brilhante curso de filosofia que sendo de três, ele completou em dois anos, defendeu a tese e recebeu as láureas de doutor.

Em 1906 ocupava Dom Vonier a cátedra de filosofia no colégio de S. Anselmo onde se havia doutorado. Nas férias desse ano o seu abade, Dom Bonifácio Natter, o tomou como companheiro numa viagem à Argentina com o encargo de fazer a visita canônica a um dos mosteiros de sua Congregação naquele país. Tendo embarcado no vapor Sírio, este sossobrou nas costas da Espanha, em 4 de agosto, perecendo entre muitos outros passageiros o abade Dom Bonifácio Natter. Dom Vonier foi salvo por um pescador. Os monges de Buckfast já tinham por mortos a ambos, tanto o abade como o seu companheiro, por cujas almas celebraram solenes exéquias. Dias depois receberam carta de Dom Vonier comunicando ter sido salvo. No dia 14 de setembro do mesmo ano, Dom Vonier foi eleito pela comunidade abade do mosteiro, e em 18 do mês seguinte, festa de S. Lucas, recebeu a benção abacial.

O novo abade desde logo manifestou o desejo de restaurar a igreja abacial, destruída no século XVI, no tempo da Reforma. Nesta obra, empreendida alguns anos mais tarde, trabalharam os próprios monges como construtores. Em 1932 Dom Vonier teve a grande satisfação de ver realizado esse desiderato, que fazia parte do seu programa de governo da abadia. Nesse mesmo ano, 15 de agosto, foi a igreja consagrada pelo Cardeal Bourne, delegado do Papa, com assistência de vários bispos e de milhares de fiéis.

Desde o começo da sua vida monástica mostrou Dom Vonier uma predileção toda especial pelo estudo da Sagrada Escritura. Durante muitos anos dedicou diariamente uma hora inteira à leitura e estudo da Bíblia. Daí lhe veio uma grande familiaridade com as Sagradas Escrituras e sobretudo com as Epístolas de São Paulo que praticamente sabia de cór.

Possuia o dom da palavra: pregava ordinariamente aos domingos na igreja abacial e muitas vezes em outras igrejas. Era com frequência convidado pelas comunidades religiosas para lhes dirigir a palavra de vida, em exercícios espirituais. Grande foi também a sua atividade literária. Escreveu várias obras de espiritualidade, profundas em doutrina e de um sabor e atrativo pouco comum nesse gênero de literatura. Escrevia também artigos para as principais revistas católicas de Londres.

Dom Vonier, no dizer de um dos seus religiosos, foi construtor, pregador, escritor, mas foi antes de tudo e acima de tudo um monge, isto é, um homem de Deus e da Igreja. Como fruto dos seus trabalho e do seu espírito apostólico e de vida interior, a vida de oração e de união com Deus, temos as suas obras. Quem quiser conhecer Dom Vonier, leia os seus livros. Eles nos dizem melhor que qualquer biógrafo quem foi esse grande beneditino: o teólogo profundo, o monge apaixonado pelo ideal monástico, o homem de Deus, inflamado do amor de Cristo e da sua Igreja.

Das suas obras, 4 já foram traduzidas para o português*. Além de “Nova e Eterna Aliança” (The New and Eternal Convenant), temos a “Vitória de Cristo” (Victory of Christ), o “Espírito Cristão” (The Christian Mind) e o “Mistério da Igreja”, editadas pela “Lumen Christi”.

Nas obras de Dom Vonier goza-se e admira-se com a profundidade da sua doutrina e originalidade de expressão. Todas foram editadas em inglês, com exceção do “Mistério da Igreja” por se compor de três conferências, feitas em alemão pelo autor, em Salzburgo, e publicadas em forma de livro em Munique, em 1933, com o título de “Das Mysterium der Kirche”. Não se acha pois no elenco das obras do abade de Buckfast.

Suas obras são:

(As obras iniciadas com um "+" já estão em português em edições muito antigas. Faremos, entretanto, novas traduções.)

• A alma humana e suas relações com outros espíritos, 1913. (Tradução em andamento)
• A personalidade de Cristo, 1914. (Tradução em andamento)
• A Maternidade Divina, 1921. (Tradução completa)
• Chave para a doutrina da Eucaristia, 1925. (Tradução quase completa)
• A vida do mundo vindouro, 1926.
• Arte de Cristo, 1927.
+ Os Anjos, 1928.
+ A nova e eterna aliança, 1930.
• Morte e Julgamento, 1930. (Tradução Completa)
• Cristo, o rei da Glória, 1932.
• Christianus, 1933. (Tradução completa)
+ A vitória de Cristo, 1934.
• O Espírito e a Noiva, 1935.
+ O Povo de Deus, 1937.
+ O Espírito Cristão.

Cheio de merecimentos, Dom Anscar Vonier foi chamado por Deus em 26 de dezembro de 1938 para receber no céu a recompensa do seu trabalho. Ele, no entanto, continua a nos intruir e a nos reconfortar om os seus escritos.

D. Joaquim G. de Luna, O.S.B.
Tijuca, Pentecostes de 1942.

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Fonte: Introdução no livro “A nova e eterna aliança”, edições Lumen Christi.


* Número de traduções na época. As nossas traduções darão prioridade aos textos que ainda não estão em português.

sábado, 25 de maio de 2013

Galileu Galilei à luz da história

"[...] O interesse que levantou a condenação eclesiástica do físico e astrônomo pisano Galileu Galilei, o famoso "Caso Galilei", é manifestado pela literatura que provocou e ainda suscita em todas as línguas culturais. Quando, no século passado, a cúria romana franqueou as atas dos processos de 1616 e 1632, quase imediatamente e no mesmo ano de 1877, os documentos principais foram publicados em três línguas: alemã, francesa e italiana. Desde então propriamente não se pode mais falar de "Questão Galilei", pois todos os fatos estão à luz do dia. Sem falar dos inúmeros ataques à Igreja Católica, onde domina a má fé, podem-se apontar numerosos estudos bem documentados, que levam ao público o conhecimento do caso. [...] Quem não ouviu falar de Galileu Galilei? O grande sábio, o gênio turbulento, matemático, físico, astrônomo, observador e pensador, lutador vitorioso e derrotado, promovendo a ciência e sucumbindo a erros, entregue a altas contemplações e inclinado aos prazeres da vida, admirado e louvado, criticado e acusado, elevado aos fastígios da glória e humilhado como réu e criminoso. Como sua vida está cheia de estranhos contrastes e contradições, também o é sua memória na história. Seus admiradores o exaltam, seus adversários o condenam. Boa e má fé se misturam, como também os fatos históricos se entremeiam com lendas. O que devemos pensar deste homem enigmático? A esta pergunta não é possível responder em poucas palavras. O presente trabalho procura elucidar o "Caso Galilei", expondo e ponderando os fatos históricos, tirados de documentos originais e transmitidos por testemunhas fidedignas. Ouvindo as próprias palavras de Galilei e dos mais atores da tragédia, ser-nos-á possível separar a lenda da verdade e formar um juízo seguro e justo. [...]"

Você pode baixar no Alexandria Católica: http://alexandriacatolica.blogspot.com.br/2013/05/colecao-vozes-em-defesa-da-fe-caderno.html

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Igreja em face do tempo presente - A. D. Sertillanges


“Deus fez no meio de nós uma obra que, desprendida de qualquer outra causa e só dele dependendo, enche todos os tempos e todos os lugares”17. É nestes termos que Bousset julga poder apresentar aos seus contemporâneos a Igreja eterna. Ele sabe que a Igreja reivindica como fundamento os milagres evangélicos, e que esta manifestação exterior serve como que de selo ao ato do nascimento dela. Mas, depois que esses milagres a fundaram e a sustentaram no seu crescimento, no seu surto de conquista, e na sua resistência aos poderes, ela própria pretende, como manifestação exterior também do mesmo Deus, o mesmo brilho que por ela como por eles se faz reconhecer.
   
Nisso, ela não os suplanta, continua-os, visto como eles já estão nela. Com eles ela revela o divino no homem. Ela é uma síntese de milagres e um milagre a mais.

Propriamente, esse milagre novo consiste na existência entre nós de um organismo social humano-divino e que leva uma vida humano-divina, mostrando portanto Deus em sociedade com o homem e o homem em sociedade com Deus.

Esse organismo, nos seus primórdios, no momento em que todo recém-nascido exerce o mais poderosamente a sua força assimiladora, deslumbra o mundo pagão. A sua unidade, a sua constituição já forte, a evidência do seu fermento intenso, a vida do Espírito nela, brilhavam, e às almas chamadas e predestinadas persuadiam de que a sua pátria ali estava. Como dissemos, isso fez mais para a conversão do mundo do que os milagres particulares relatados nos Atos. Esses “sinais” apagavam-se, de alguma sorte, ante o sinal por excelência.

Hoje em dia, embora o trabalho do Espírito seja menos visível, em compensação são mais visíveis os seus resultados. E a Igreja pretende que esse sinal baste, normalmente, para convencer uma alma atenta e reta. Não nos podemos admirar disto. Se Deus age deveras em cooperação com o homem, e com o homem social, que evolve no visível, isso deve ver-se. Que Deus seja aqui como em toda parte o “Deus oculto” a título de causa invisível em si mesma e que quer ser discreta, isso não impede que fenômenos em que ele desempenha um papel essencial não possam deixar de revelar a sua presença, se já o coração o procura.

É preciso para isso o coração, porque sempre, nas coisas morais, é requerido este ponto de partida, e porque, aliás, sendo a fé uma graça, semente de vida eterna, não se vê que, para se revelar, possa o Bem soberano assim oferecido desprezar as disposições morais de quem se abeira dele. Assente, porém, isto, a convicção deve ser possível, ou melhor, normalmente falando, a negação impossível. “É impossível que os que amam a Deus d e todo o seu coração desconheçam a Igreja, tão evidente é ela”, escreveu Pascal.


A vida divina da Igreja faz-se reconhecer, a quem quer vê-la, pela sua perpetuidade e pelos seus caracteres. A Igreja é a eternidade no tempo, e a eternidade é simultaneamente uma perpetuidade, pois envolve o tempo, e uma superioridade de natureza em relação às nossas durações mutáveis. As durações igualam os seres. Nossas durações, as nossas, são durações fragmentárias e reduzidas às nossas medidas; a duração de Deus é imutável e infinita no seu ser, que é o do próprio Deus. Se, pois, Deus vive deveras com o homem na terra, graças à encarnação continuada e socializada, a vida assim constituída será dotada conjuntamente de uma perpetuidade indefectível e de uma superioridade relativa sempre, visto que o homem faz parte dela, mas suficiente para indicar que o homem, aqui, não está só; que o Autor de seu ser retomou a obra na sua base, para levá-la mais alto.


Perpetuidade, dizemos primeiro. Para quem sabe ver, há aí um fato surpreendente. Pela sua própria definição e pelas suas próprias declarações mil vezes repetidas, a Igreja é obrigada a ser perpétua. Estranha obrigação essa. O profeta que assim se enfeita com o futuro arrisca-se cada hora a ser desmentido. Por isso o adversário, sentindo o lado fraco que contra a instituição e a doutrina uma tal pretensão lhe oferece, apressa-se, ele, a profetizar a morte da Igreja, a declarar iminente essa morte, a mostrá-la, já assente, por assim dizer, nos seus pródomos certos.

A tática é boa. Não há maneira mais segura de arruinar moralmente a Igreja, de que lançar o descrédito sobre toda a sua duração, do que provar –se se provasse – que essa duração terá um termo. Se a Igreja deve morrer, ela nada é. Se a Igreja está não somente no tempo, o que deve ser, porém é súdita do tempo, é que está abandonada ao tempo assim como tudo o mais, e não está suspensa à eternidade. Por outros termos: se a Igreja morrer, se morrer numa data qualquer antes do fim do homem – e o homem, em verdade, não morre-, é que ela é humana somente, é que não é humano-divina, é que não é o que pretende ser, e para encurtar razões, é que não é nada.

Mas a Igreja não se perturba com esse perigo, e já há dois mil anos que escuta calmamente os que a ameaçam dele. Passado tal não seria uma garantia do futuro? Creram-no grandes historiadores, impressionados não somente com o fato, mas com o estado d’alma que o acompanha, com essa prodigiosa certeza por entre tantos reveses, com essa tranquilidade no curso e de períodos históricos movimentados em extremo, diversos e fecundos em surpresas.

Uma tal força psicológica é por si só um fenômeno surpreendente. Um poder tão seguro de si mesmo e do seu futuro, tão decidido no que faz e tão pouco inquieto com as contradições, com os ataques, com os obstáculos, com todas as ciladas que, entretanto, com a sua vasta experiência, ele sabe armadas sob os passos de todas as instituições: é um desafio. Que audácia o pretender assim fazer exceção sozinho!

E, não há dizer, o fato responde; sempre respondeu ao sentimento que a nossa Igreja tem dele, como se esse sentimento houvesse partido do próprio fato. A Igreja circula entre os acontecimentos como o sonâmbulo à beira do telhado. O sonâmbulo não cai, guiado que é por um espírito interior, numa feliz ignorância do perigo que tangencia. Acordai-o, tirai-lhe a sua inconsciente segurança, feita de certeza vital: ele está perdido. Assim a Igreja se perdesse a sua fé. Porém não a pode perder. O seu Espírito interior a um só tempo lhe comunica o sentimento da sua perenidade e lhe dá em toda parte segurança de si.

A Igreja entende sobreviver a tudo o que pretende ser o futuro, e já enterrou muitos dos que lhe meditavam ou aguardavam a perda. Tempestades não lhe têm faltado; mas os tornados no oceano e as tempestades de areia do Saara não afetam a estabilidade da terra. A Igreja esposou a terra; ela é a própria terra encimada pela cruz, a terra viva, santificada por uma Presença invisível, e ela não tem medo. Um dia, a terra morrerá, mais numa apoteose que a Igreja diz sua. Ela não teme esse acontecimento, espera-o. Do lado de cá, profeta de si mesma, projetando o que ela é sobre o que amanhã será, a Igreja diz: O futuro é meu, porque em mim está esse futuro já adquirido com Aquele que o regula. O tempo não me contém; eu, a Igreja, é que contenho o tempo, pelo meu Espírito, seu princípio eterno. Beber na taça do tempo a duração eterna é a sorte de todo aquele que adere a mim e comunga com a minha alma secreta. Muitas coisas me fazem sofrer, mas nenhuma me desconcerta nem me inquieta. A adversidade retempera-me. Um fracasso significa para mim: recomeça; como um êxito significa: prossegue. Por cima da cabeça de meus inimigos e para além dos obstáculos, eu olho uma finalidade visível a mim, mas tão exigente que eu não posso desviar dela meus olhares nem minha marcha. Completar meu Cristo na terra, o Cristo coletivo, a assembleia universal a que ele chamou seu corpo: é esse o meu trabalho. Trabalho de todos os tempos, sem dúvida! E é por isso que eu não morro.

Quer se arrazoe, quer se desarrazoe sobre isso, a força íntima assim manifestada tem algo de único. Supõe, ao que parece, no invisível, fora das nossas durações indecisas e fugazes, uma cumplicidade.

Procura-se a explicação disso num iluminismo feliz da nossa fé, e, por outra parte, em contingências históricas cada uma das quais se presta a explicações naturais. Está bem. Mas o iluminismo da Igreja é muito positivo; a ingenuidade não é coisa dessa avó, que sabe aonde vai, e que impressiona o observador justamente pela certeza imperturbável do que faz.

Explicação indigente é o menos que aqui possa dizer-se. Na verdade, a explicação é nula; por quanto, se a misticidade pode realmente ter seus desvios, a Igreja, que controla a misticidade com um rigor severo, deve ser chamada sobremística, e escapa ao perigo porque deve prevê-lo. Ela não sonha; a sua certeza é serena; é bem em pleno despertar e de posse de toda experiência humana que ela diz: Há em mim algo de sobre-humano; eu, que assisto ou presido a tantas mortes, sei que não morro.

Quanto às contingências históricas, estas existem. Não se trata de negar as causalidades inerentes a uma vida que está na terra, embora não proceda unicamente da terra. Cada um dos casos apresentados por essa extraordinária história é suscetível de explicações que se afiguram suficientes, e que o seriam, tomado à parte esse caso. Mas o que assim se não explica é a repetição indefinida de contigências semelhantes e semelhantemente previstas, de tal modo que a instituição que lhes é objeto possa dizer tranquilamente que elas se repetirão sempre, sem que nada, até agora, desminta.

Difícil é, nestas condições, fugir à observação de Pascal: “E tudo isso se faz pela força que o predissera”. A predição não é muito menos extraordinária que o fato. O fato confirma a predição. Digamos que há aí um só fato ao mesmo tempo espiritual e histórico, profético e efetivo. E segue-se que a explicação da Igreja, quanto à sua perpetuidade, está na própria Igreja. A Igreja é o vivente imortal que seu Cristo predisse ao constituí-la; ela recebeu a imortalidade com o ser, e é por isso que afronta o tempo; é por isso que, por assim dizer, devora os ferozes acontecimentos feitos para devorá-la, e prossegue através de tudo os seus destinos tranquilos. Isso não são hábitos de homem.

Ademais, quando se fala de perpetuidade a respeito de uma sociedade religiosa, não se trata de uma perpetuidade exclusivamente política ou administrativa. Isso seria uma mera conservação de quadros. Para que a Igreja seja verdadeiramente perpétua, é preciso que se conservem, como fazendo parte dela mesma, e sem alteração essencial: o seu pensamento, isto é, o seu dogma; a sua prática, isto é, a sua moral e a sua liturgia; a sua organização, isto é, o seu sacerdócio e os chefes do seu sacerdócio – bispos, representantes dos Doze, Papa, sucessor de Pedro, e lugar-tenente de Cristo. É tudo isso que não deve perecer.

E quantas ocasiões para que isso tenha perecido! Pode-se dizer que tudo é ocasião para isso; porque o histórico se move no acidental. É clássico este adágio: Em história, tudo resulta sempre diversamente do que se previra. De sorte que, se não houvesse aí um princípio interno de indefectibilidade, de continuidade, tudo iria sempre a esmo, quer dizer, ao aniquilamento sem remédio; os dogmas desvanecer-se-iam em opiniões de indivíduos e de grupos (como no protestantismo); a prática moral e os sacramentos, a autoridade e as disciplinas mais essenciais teriam a mesma sorte; nada resistiria dessa contextura imensa, que, ao contrário, idêntica a si mesma vemos atravessar assim os séculos como os azares.

Todas as religiões têm mudado profundamente e têm-se esmigalhado em seitas: a Igreja de Jesus Cristo é fiel à sua tradição unitária, memória onde – sem prejuízo das adaptações que são o sinal da vida e que o serviço exige – se acham consignadas uma vez por todas as confidências de Deus à humanidade e as criações da sua graça.

Bem longe que o tempo deteriore a Igreja, ao contrário, ele lhe traz constantemente materiais novos; aumenta-lhe todos os órgãos e diferencia-os, sem prejudicar a ideia vital. Quem lê hoje S. Paulo reconhece nele a sua fé, a sua regra de vida, a sua prática ritual, o seu sacerdócio, a sua organização essencial; mas que riqueza aumentada! Que adaptação sempre mais perfeita aos problemas novos! Que manifestação obtida para o que o grão continha! Já não é mais o “grão de mostarda”, é verdadeiramente a grande “árvore”.

E, se há crises e atrasos, falhas no funcionamento, não há razão para nos admirarmos; é a parte do homem. Jesus Cristo prometeu Jesus Cristo prometeu à sua Igreja uma duração indefectível; não lhe prometeu uma saúde indefectível; ela tem as suas doenças, “que não levam à morte”. Cabe a nós fazer que ela melhore, pois a saúde, a nossa de fiéis e chefes é que proporciona a dela. Mas não se precisa de nós para que ela viva; ou, pelo menos, se de certa maneira a vida dela depende de nós, o Senhor dos corações aí está para que não falta o “restinho” em que Israel pode subsistir, reserva dos tempos melhores e penhor do triunfo eterno.


Observarei que a vitalidade da Igreja, condição da sua perenidade, é visível hoje mais do que nunca, primeiro porque o seu desenvolvimento interno está mais adiantado, a sua diferenciação aumentada ao mesmo tempo que a sua unidade reforçada (duplo sinal característico do progresso), o seu surfo de penetração no coração das raças desdobrado com vigor novo; mas também porque, por esse mesmo fato e em ração de circunstâncias históricas providenciais, o princípio católico se manifesta mais independente de tudo o que não é ele.

Uma substância reconhece-se melhor quando é isolada. Os concluíos do Império constantiniano, o equilíbrio ofensivo do Sacerdócio e do Império, a aparência de misto político constituído pelo poder temporal, tudo isso pereceu. A Igreja é pura; pode-se ver o que ela é. E que é ela? É isso mesmo: um poder espiritual independente e que, a despeito das aparências superficiais que eu assinalo, sempre o foi. E pensar-se-á que isto não seja nada? Augusto Comte via nisso um fenômeno de primeira grandeza, depois de reconhecer aí uma condição de futuro da sociedade humana. A lua suspensa à noite no céu claro já não nos admira, porém KEPLER, Newton, Laplace ou Poincaré passaram anos a calcular esse equilíbrio delicado, irmão de um sono tranquilo.

A Igreja – tem-se acaso pensado nisto? – é a única sociedade religiosa assim independente que jamais se haja mostrado na humanidade. Não seria isto um prodígio? É um prodígio nisto que uma sociedade espiritualmente independente deve ter em si tudo o que uma autarquia dessa espécie exige para sobreviver, para não se misturar com coisa alguma de dissolvente, para se não deixar absorver por coisa alguma de envolvente ou de insinuante, e assim manter no mundo um poder alheio ao mundo, como seria em física um corpo liberto das forças cósmicas, inacessível às influências que tudo transformam.

As “autarquias econômicas” de que nos falam agora, onde é que se realizam? Unicamente lá onde a natureza proveu a isso, dando ao grupo que a ele aspira tudo o que é preciso à sua vizinhança e sem temor da vizinhança. Se a Igreja pode ser e é uma autarquia espiritual perfeita, é que portanto tem em si, a título independente e garantido contra toda alteração, contra todo desvio, tudo o que uma vida religiosa perpétua e universal comporta. Deve ela poder ir a toda parte sem se misturar em parte alguma; ocupar-se de tudo e influir em tudo sem que nada a contamine; durar sempre sem que à falta de uma condição temporal – entendo entre as que são alheias ao seu próprio funcionamento – possa deixá-la cair. Pese-se um tal requisito.

No curso das idades, acontecimentos não têm faltado para porem à prova essa alta independência e para aboli-la. Ela sempre se mostrou superior a eles. Os poderes têm feito tudo para captar essa força e para escravizá-la; as lutas épicas em razão disso por ela sustentadas são bastante conhecidas: ela tem-se saído delas constantemente vitoriosa. Agora, todos querem tratar com ela; e ela se presta a isso; porque, se ela é independente de todos quanto à sua vida, entende de não ser independente de ninguém quanto à ação; quer dizer que está disposta a uma colaboração universal. Mas, se às vezes os que tratam com a Igreja o fazem no velho espírito de envolvimento de que eu falava, ela tem com que desmanchar e desmancha todos esses ardis terrenos. Aos vorazes, poderá ela abandonar algumas penas de suas asas; mas não interromperá o seu voo.

Em pequenos círculos inteligentes, porém míopes, as pessoas deixam-se levar a dizer que “Musolini meteu no bolso Pio XI”, que “Hitler repete a história”, etc. Isso são palavras pouco sérias. Elevem-se antes esses tais à contemplação deste espetáculo: um soberano sem Estados, investido – por quem? – de um poder ante o qual o universo se inclina, que diz sim, que diz não aos mais poderosos como aos mais pequenos, e que da minúscula “Cidade”, território de teoria, quase irrisório se a irradiação dele não fosse tão solene, marca encontro para o futuro, sobre documentos autênticos, a tantos poderes que a ele não corresponderão.

Quanto durará Mussolini? Quanto Hitler? Quanto os regimes e as combinações políticas que temos sob os olhos?* não sei; mas o Papa aí estava de tal forma antes deles, que, sem se arriscar, pode-se dizer que aí estará depois deles e depois dos que lhe aguardam a herança. Todas essas sortes de poderes têm passado, estendendo a mão a Pedro para engodá-lo, para utilizá-lo; eles têm passado, e Pedro fica. Há aí um princípio de vida, sem dúvida, e no entanto cumpriria dizer qual.


A independência, que é um indício de força e, nas condições em que a Igreja a manifesta, de força propriamente sobre-humana, essa independência poderia conceber-se sem ação conquistadora? Vimos essa ação nos seus primórdios; foi fulminante. É normal que hoje em dia o seja menos, e sabemos o motivo; porém ela é mais evidente do que nunca. O reflorescimento missionário é mesmo assinalado, na ora atual, por um caráter extremamente impressionante e por um grande alcance de futuro: entendo a sua catolicidade intrínseca, se assim posso dizer, pelo acesso de todas as raças de homens ao sacerdócio e ao episcopado católicos, até aqui mais ou menos reservados, não de direito, por certo, mas de fato, só à raça branca.

No interior dos nossos grupos cristãos, a multiplicação das obras católicas deixar-nos-ia estupefatos, se soubéssemos ver. Poderíamos nós supor o menor começo delas, ou mesmo o antegozo, se não fora a Igreja? Não entendo dizer que a Igreja faça tudo; às vezes faz-se melhor do que ela; mas foi ela quem lançou tudo; o que ela mesma não faz, procede dela quanto à origem primeira e quanto às influências que sofre: emulação, concursos, exemplos.

Diversas tanto quanto as necessidades espirituais e temporais do homem, diversas tanto quanto a vida, a que é que se podem comparar as obras de criação ou de inspiração católica? Noutras partes há reflexos delas: da Igreja vem a luz. Há migalhas esparsas: nela está o pão.

Por certo! Muito mais haveria ainda por fazer do que o que a Igreja faz. Somos impacientes, e mui sinceramente podemos ficar impressionados com as lentidões seculares da Igreja mais do que com a sua ação secular. Mas, além de, aqui, intervirem as liberdades, e os acontecimentos, e os meios resistentes, não nos deveríamos precatar contra uma confusão dos valores e das escalas que os medem? Não é no absoluto, é comparativamente que convém julgar, quando se pede à experiência a resposta a esta pergunta: a Igreja é da mesma natureza que as outras potências deste mundo, ou de natureza superior?

No absoluto, tudo é lento daquilo que se move através do humano. O próprio Deus deve evitar os métodos “catastróficos”, inimigos da sua sabedoria, que é “número, peso e medida”. A Igreja, agente da Providência, e bem decidida a com ela se manter em contato, a não precedê-la, procura nos fatos passo a passo seguidos os vestígios de seu Deus, e é assim que ela marcha. A gente apressada censura-lhe isso: mas a gente apressada é a mais apta a perder o tempo que a gente calma utiliza em toda a extensão. A Igreja realiza milagres de atividade precisamente porque não se apressa, não compromete nada, nunca se obriga ao recuo, olha longe e sem impaciência no sentido do futuro; em suma, porque conduz a ação temporal num espírito superior ao tempo.


Falar-nos-ão de tantas misérias na Igreja? Consinto, contanto que se acrescente: e tanta santidade. Pode-se desconhecer a força santificante e purificadora da Igreja sob suas duas formas essenciais: a forma mística e a forma educativa ou moral?

Misticamente, a vida sacramental sublima, purifica e arrasta à obra boa uma multidão de corações. Cristo tem um império ao qual nem de longe qualquer império deste mundo pode ousar comparar-se. A despeito da carne, do mundo e de Satanás, três potências adversas. Ele obtém de seus fiéis efeitos de virtude e de ação espiritual que os meios antecristãos ou não cristãos não podem pensar em conhecer; ou, se a eles chegam, devem-no ainda a Ele pelos caminhos desviados que havemos descrito.

Mesmo onde quer que a lei cedeu, aquilo que subsiste de vida sacramental: batismos, primeiras comunhões, casamentos, ritos funerários, cerimônias públicas e privadas, ainda conserva uma armadura tal qual a uma civilização indecisa; o futuro aí está em expectativa, e bem longe que só haja nisso um legado do passado. Muito errados andaríamos em subestimar esses “restos”.

Moralizadora, a Igreja o é em nome do céu e em vista do céu; mas o terreno de onde se alça o voo para o céu é a terra. O Reino de Deus é temporal, dizíamos, precisamente porque é eterno. Por isso a Igreja é uma educadora de atenção sempre vigilante, e de psicologia admirável, de experiência consumada, utilizando todos os recursos da alma e da vida, envolvendo esta toda, como se, gerado por ela, o cristão nunca acabasse de nascer, e lhe vivesse no amplo seio.

Um dos mais altos e dos mais preciosos caracteres da Igreja, como educadora, é a sua arte de tirar o bem do mal. Ela reergue o pecador e não o desanima; sem pactuar, longe disto! Ela sabe compadecer-se e compreender. Salva e utiliza assim uma multidão de valores que uma sociedade sem alma abandona às forças do mal, e depois rejeita.

Quem dirá o de que assim se privam grupos talvez muito apressados em denegrir e em combater neste ponto a vida católica! Os grandes pecadores que se tornaram santos, e obras como Betânia, o Bom Pastor, ou Nossa Senhora da Caridade, ou as simples capelanias de prisões, sem falar de tantos outros sinais, deveriam no entanto fazer refletir. A Igreja faz beleza com as fealdades, e com a força revirada das paixões faz energias puras. Pedro, sobre o Lago, pede a Jesus para afastar-se dele porque ele é um pecador; mas a Toda-Pureza não tem destes pudores hipócritas; ela só se afasta convidando, como uma mãe diante do filho que tropeça, e todo o surto do arrependimento chama o homem para sobre o coração dela.


Não se quer que a santidade, que o poder santificador da Igreja prove a sua divindade, porque, primeiro, ao gosto do censor não há bastante bem nela, e há demasiado mal. Objeção tal não surpreende; fá-la muitas vezes a si mesmo o crente, e grande necessidade tem então de se lembrar da advertência de seu Senhor: “Bem aventurado aquele que se não escandalizar de mim” (Mt XI, 6). Mas no fundo desta dificuldade, como de muitas outras, há simplesmente isto: Exige-se que a Igreja seja humana ou divina, à escolha; não se quer que ela seja o que é; humana e divina, conjuntamente, com todas as consequências. Se uma vez se consente nesta última situação, compreende-se que, pela sua divindade, deve haver na Igreja grandes efeitos de Graça, e bem cego quem os não vê; mas, pela sua humanidade, deve ela oferecer também todas as misérias humanas, digo todas, visto haver nela todo o homem.

Quanto mais humanidade há na Igreja, tanto mais divindade deve nela haver para que ela sequer subsista; porém, quanto mais divindade há, isto é, sabedoria, respeito do homem, cuidado de deixar à obra um cunho de livre esforço e de responsabilidade, tanto mais imperfeições e taras devem nela encontrar-se.

Sem dúvida, poderia acontecer que esta última condição, a só olhar a ela, abolisse a primeira, e que de alguma sorte o humano afastasse a Deus. Mas isto é uma suposição inteiramente gratuita. A malícia do homem não iguala o poder de Deus. A Igreja tem em si, quando preciso, com que se reformar de dentro, mediante reconcentração do seu Espírito em individualidades que bem se devem chamar providenciais, embora em aparência nascidas do acaso, já que, à maneira da providência eterna, surgem sempre. Sempre o acaso, isto não será a providência?

Quanto a recusar a hipótese, exigindo o divino puro, sob pena de absolutamente não mais ver a Deus, isto é ditar a Deus o seu proceder. Melhor é, sem dúvida, fazer por dentro este gesto simplíssimo, a bem dizer profundíssimo e por isto quase heroico, de se inclinar perante Deus. Então, a objeção se esvai.

Pode ela, é verdade, dar lugar a outra. A santidade, na Igreja, não provaria a sua divindade, porque tudo o que se vê é explicável pelo homem. Mas na realidade, como observava Santo Agostinho, é mais difícil fazer um santo ou converter um pecador do que ressuscitar um morto, o que não é obra de homem. A despeito da audácia de uma tal fórmula, pode-se dizer que é tão difícil fazer um santo como fazer um Deus: um raio de sol ou um sol não são obra semelhante? É ao contato de Deus e do homem que a santidade jorra; reconhece-o um puro filósofo, como Bergson, e é esse, reconhece-o ele mais ou menos também, um dom especial da Igreja. A conclusão está bem próxima.

A santidade da Igreja é divindade latente. Brilha em certos pontos, em certas vidas, brilha amplamente, embora menos sensivelmente para a desatenção, no funcionamento geral da obra. Santidade concentrada ou santidade difusa, santidade brilhante ou humilde santidade, é sempre Deus que aflora, esse Deus que a humanidade procurava, que o seu capricho fabricava, e que um dia irrompeu nela mesma. Perguntava Santo Agostinho: “Que vale Juno em face de uma velhinha que é uma fiel cristã?”. Não é preciso mais do que estar atento a tudo isso para vê-lo; mas é preciso olhá-lo com os olhos da alma, e não com o espírito só.

Tendo-o reconhecido, e tendo-se capacitado de que, para a Igreja, fazer cristãos quer dizer humanos completos, em Deus, e juntos, bem pronto se está para confessar que a Igreja e a civilização são solidárias, de tal sorte que o milagre religioso vem aqui ao encontro do fato humano e nele se reforça.

Não se ignora, conquanto às vezes se goste de esquecer ou se esqueça por inadvertência, o que a Igreja fez no passado. Nenhum historiador recusaria dizer que ela, a Madre Igreja, foi quem carregou nos joelhos a civilização moderna. Mas o que ela fez no passado, está armada para fazê-lo muito mais ainda, desenvolvida como jamais o foi; rica de funções, de pessoal e de obras: capaz de atingir, de alto a baixo da escala dos espíritos, das situações sociais e das almas, todos os elementos humanos em busca de progresso e de felicidade.

O gênio moral que habita a Igreja é o fermento animador e o sal conservador das civilizações. O sentido da vida, as leis do indivíduo, da família, dos grupos profissionais e especialistas de qualquer especialidade, da sociedade nacional e internacional, com todos os seus meios psicológicos e místicos, no terreno moral, fazem parte do seu depósito. Ela nos ajuda a adaptá-los às circunstâncias diversas. A sua ciência moral é uma consequência do seu dogma, e a sua maternidade goza do dom de conselho.

“Alma das nações”, como dizem os Papas da Idade Média, ela pode fornecer aos nossos grupos, no espiritual, todas as suas normas de ação e todas as impulsões que os guiam. Ela consolida o reinado das leis, fazendo-as partir da Razão divina e ir ter aos seus juízos; humaniza-as banhando a justiça no amor. Aos fatos de autoridade ela dá por princípio a autoridade serviço público da parte de Deus; aos fatos de subordinação dá a obediência ao poder como a Deus; aos fatos individuais que preparam a matéria social dá a vida depósito divino e atividade em marcha para Deus. Estão aí bases firmes.

A construção poderá em seguida inspirar-se nas largas vistas de governo que são as da Igreja. A Igreja é eminentemente democrática quanto à definição e à apreciação dos seus valores sociais; canoniza os santos e não os chefes, os humildes virtuosos e não os fortes. É, entretanto, aristocrática pelas suas Igrejas particulares que os bispos governam, e é monárquica em razão de Cristo e da sua representação visível, o Papa. Pode assim dar modelos de governo a todos os Estados, como lhes dita seus fins supremos.

O sentido social é nela tão forte que o cidadão, comungando na sua larga vida, hauriria nela um espírito cívico em harmonia com o que seria então a sua vida espiritual. Numa grande cidade de que a gente gosta, a gente se sente confirmado a um tempo no seu sentimento social e na sua personalidade; oceano e remeiro harmonizam-se; no seio da Igreja universal animada de caridade e agrupada em torno de Cristo, cada um se tranquiliza na sua própria força e na força coletiva; é um em si e um com todos; sente a humanidade dentro e fora, com Deus em toda parte.

Como então, em particular, a eucaristia, que é como que a encarnação de Cristo em todos nós, poderia não nos unir? Grande é a inconsciência humana; todavia, não se podem negar os vastos efeitos desse sacramento no conjunto das sociedades cristãs. Não seria preciso mais do que fidelidade para reforçar essa ação e combater o esfacelamento, os antagonismos criados no corpo social pelo choque dos sentimentos e dos interesses, privados dos seus limites e do seu freio. É certamente no dogma, na moral e no culto católicos que o acionamento desse freio e o sentido desses limites são incomparavelmente mais bem assegurados.

Afirmando o Deus vivo, e pondo-nos com ele em vida comum; reintegrando-o, se assim posso dizer, em todas as suas funções, em relação a tantas religiões e filosofias que o dissolvem – Deus criador, Deus legislador, Deus providência, Deus justo e remunerador, Deus amor, - o catolicismo está em força para estabelecer a criatura na sua consciência e na sua solidez interior, nas suas atividades autênticas e nas suas relações verdadeiras. É o fundamento da vida que doravante é firme.

Trata-se da vida internacional, que a civilização deve considerar hoje em dia como por assim dizer idêntica a si mesma? A Igreja é competente pra isso tanto em relação ao princípio como do ponto de vista dos meios de realização. Pode-se dizer que, aos olhos da Igreja, a sociedade internacional é o fim dos Estados, a título de síntese humana em Deus e em Jesus Cristo, na razão que nos liga e no destino sobrenatural que são agora obra dos melhores! Penetre em toda parte e impregne tudo a cidade cristã, “alma das nações”, e a cidade universal está feita.

A comunidade internacional é para a Igreja um fim, pela boa razão de que é um começo, e de que sempre os princípios e os fins se correspondem. É da comunhão dos homens em Deus e em Cristo que tudo parte na vida católica. Se tudo parte disso no empreendimento e na intenção, a isso não deve tudo chegar na execução? Unidade espiritual, unidade moral, unidade jurídica, unidade política sob uma forma qualquer: pode isto dissociar-se sempre? Abordando o homem na sua unidade, o homem total, a Igreja ao pode deixar de querer a livre realização, pelo homem, do cosmos humano, como pela sua providência Deus realiza o cosmos universal.

O grande obstáculo à união dos povos está, de um lado, na materialização das almas, que multiplica as competições pela partilha das riquezas deste mundo, e, de outro, nos desvios do próprio ideal, que muitíssimas vezes se extravia, ou se particulariza, ou se exacerba. O exemplo das guerras de religião ou de prestígio aí está para nos mostrar que o idealismo nem sempre trabalha pela paz. Talvez que a catolicidade tenha aqui censuras a se fazer. Porém, fiel ao seu princípio de justiça e de amor, elevando e unificando ao mesmo tempo os homens, como a gente se aproxima em galgando um píncaro, a Igreja tem tudo o que é preciso para preparar o futuro do verdadeiro gênero humano, da sociedade humana definitiva.


Em suma, a Igreja em toda parte faz dominar o espírito, e, por via de consequência, a unidade de espírito, ligando-nos ao Espírito supremo.  Ora, é uma verdade essencial, por demais desconhecida das nossas febres “soi-disant” realizadoras, que todo trabalho civilizador tem origem no espírito. As simples técnicas, sabemos o que delas se faz; elas dão força à barbaria tanto quanto aos valores humanos. Das nossas multidões materializadas tendem elas a fazer uma massa de indivíduos que, espiritualmente, já não são pessoas. A Igreja desejaria fazer deles pessoas sagradas, de boa mente diria com Bergson: deuses.


E não é essa uma razão para que ela despreze as técnicas. Nunca a ouviremos maldizer das invenções, das organizações, das máquinas, dos processos e dos engenhos quase milagrosos que, pelo contrário, ela gosta de glorificar benzendo-os. Porém ela sabe e repete que todos esses valores, servos do espírito, e do espírito santificado, não o substituem; os efeitos deles dependem deste mais do que deles mesmos; pois sem ele, através da ruína do homem, eles só redundam no nada de si. Dividem o indivíduo de si mesmo corrompendo-o; dividem-no de outrem pela inveja, mesmo quando já não é pela necessidade.

Não se diga, pois, que por sua missão a Igreja, suposto que faça um trabalho útil, só o destine à salvação eterna. É verdade que a Igreja tem este escopo e não tem segredos para a organização deste mundo; mas a organização deste mundo depende dela porque depende dos homens, e, nos homens, depende justamente dessas virtudes, desses valores morais que os devem conduzir à salvação eterna.

“As coisas que vemos não foram feitas de coisas que se veem”, diz a Epístola aos Hebreus (XI, 3). A civilização visível tem fontes invisíveis; reside nos corações; a forma dos nossos pensamentos, dos nossos desejos, das nossas ações individuais, das nossas relações, das nossas reações mútuas em todas as ordens e em todos os cenários será a forma dela. A Igreja, que age sobre tudo isso na medida em que se lhe é fiel, trabalha em tudo, se bem que por si mesma se mantenha fora dos nossos trabalhos. Ela é a eternidade no tempo, dizemos nós incessantemente, a eternidade que anima o tempo, sem que a meçam os nossos relógios.

Nos nossos dias de perturbação e de progressos materiais em tão violento contraste, não é inútil relembrar estas coisas. O mundo moderno é um instrumento admirável, mas desafinado; os sons individuais persistem belos e possantes, porém a música peca.

Muitos não veem a cauã dos nossos males e atribuem-na a algum erro de método ou de organização. Pelam para os peritos, e muitas vezes estes procuram simplesmente meios para favorecer e exasperar a loucura dos homens. Sem dúvida há em nós defeitos de organização, defeitos de método; mas por detrás disso, e pela razão mesmo de haver isso, há outra coisa. Há os apetites desencadeados, uma febre absurda de vida a toda velocidade, como de quem se persuade de ter apenas um curto instante para gozar. Há os nossos laços afrouxados pela ausência das virtudes sociais: justiça, amor, que por sua vez dependem das nossas virtudes individuais.

Tornando-nos bons, nós nos tornamos um bem de todos; a solidariedade, que se estabelece pela boa vontade mútua, não é então uma cadeia de elos ocos, assume valor ao mesmo tempo que coerência. De nada serve estar ligado a outrem se nada lhe trazer de benéfico! – talvez infligindo-lhes taras! – nem amar o próximo como a si mesmo, tal como o quer o Evangelho, se nada se tem de si que amar.

Abdicação ou absurda presunção, isto é, abdicação retardada e cataclisma: tal é a alternativa imposta a um mundo que recusa as leis da vida e que, por uma extensão que o fato consagra tanto quanto a fé atesta, recusa as suas próprias leis sobrenaturais.

A medida que o sentimento de Deus e o sentimento da nossa unidade espiritual em Deus, tal como a concebe e a organiza Igreja, se vai enfraquecendo, vê-se proporcionalmente baixar o sentimento dos homens da unidade interior e da comunidade moral. Não há mais, dentro e fora, senão forças esparsas ou bloqueadas para fins utilitários. Não há mais senão funções.

É em Deus criador que se acham originariamente a ideia do homem, a ideia da humanidade, a ideia do universo, território e matéria de civilizações: é aí que cumpre reencontrá-las, e o caminho normal dessa ascensão, desse retorno espiritual, é a Igreja. O olhar para a matéria vem depois. O estatuário pensa em bloco; mas pensa primeiro na forma de arte da estátua e na forma do monumento que ele decora.

É por isso que Cristo homem, iniciador e chefe permanente da Igreja, Cristo na sua pessoa e na doutrina que a exprime propondo-a, é o ponto de partida ideal da civilização; a sua perfeição domina-a toda desde as mais antigas idades; ela é sua regra também para o futuro. Graças ao Homem-Deus, a Igreja casa em si o ideal e o real, o terrestre e o celeste. Obriga segundo Deus e convida segundo o homem, cuja imagem autêntica apresenta; é assim inspiradora perfeita do trabalho humano, e o seu socorro mais eficaz. É preciso céu e terra para a germinação do que quer que seja, planta ou homem.

Por seu turno, esses espelhos vivos de Cristo que se chamam os santos são, em nome dele, modelos e agentes de civilização que se não deveriam desconhecer. Que não deve a humanidade a homens como S. Paulo, Santo Agostinho, S. Bernardo, S. Francisco e S. Domingos, Santo Inácio e S. João Batista de La Salle, S. Francisco de Sales e S. Vicente de Paulo?  O que eles trazem nem sempre é brilhante e mensurável a título imediato; mas é um trabalho de fonte, e na medida em que a fonte lhes recebe a mensagem, torna-se, por igualdade de valor inato ou técnico, um elemento de verdadeira civilização.

Os chefes de estado que foram santos, como S. Luís, ou chefes militares como Sonis, como Foch, filósofos como Alberto Magno e S. Tomás de Aquino, artistas como Haydb, sábios como Linné ou Newton, não foram sublimados, em igualdade de gênio ou de poder, pela sua fé ativa e pela retidão da sua vida? Assim, generalizando, uma sociedade cristã é sublimada em todos os seus valores de civilização temporal, além da salvaguarda proporcionada ao que constituía esse fundo.

Felizmente, resta-nos muito daquilo que a Igreja verteu nas almas de nossos pais. A nossa civilização é um lençol d’água cuja superfície mostra uma triste escuma que terá sempre suas camadas inferiores; mas entre as duas, circula uma corrente pura e forte, formada das altas consciências cristãs e dos herdeiros, talvez inconscientes, do passado cristão.

É por isso que não há razão alguma para desesperar; mas é preciso despertar os dorminhocos e reconduzir os transviados, para que o milagre de Deus no meio de nós não seja vão, justamente no momento em que a sua oportunidade e as suas possibilidades de manifestação mais se patenteiam.

Quanto mais a humanidade dura, tanto mais necessidade tem daquilo que lhe permite tomar valor, começando por se desprender de si mesma. Quanto mais tempo há, tanto mais empréstimos à eternidade se fazem mister; quanto mais humanidade há, tanto mais divindade se torna mais necessária hoje do que nunca. Cumpre que ela nos batize, se não somos batizados, que nos confirme, nos faça comungar juntos e com Deus, nos ordene, nos perdoe também, nos case de um casamento puro e fecundo com a natureza santificada, e, se preciso, visto que as nações e as civilizações morrem, nos unja antes da paz do túmulo e da vinda a lume dos séculos novos..

Mas também, sempre mais necessário, a Igreja está sempre mais disponível. Ela é forte; pode carregar as desventuras do mundo e suas culpas, tanto quanto as suas virtudes e as suas venturas.


Quer se queira quer não, deve-se pois convir que as suas afirmações relativas a si mesma são justificadas; ela é “o estandarte levantado sobre as nações” de que fala o Concílio de Trento, e pelo qual a construção divina se reconhece. Só o dogma da Igreja explica o fato da Igreja. Fora isso, não há explicação pertinente. A gente dos primeiros séculos estava segura disso. Quando sucede duvidarmos disso, é que nossos olhos estão menos frescos. Deus queira que acontecimentos mais graves não nos refresque, mostrando-nos tragicamente aquilo que nos falta depois que acreditáramos tê-lo. Nossos pais, mais humildes, compreendiam que não o tinham.

   


17 – Bousset, Oração fúnebre de Ana de Gonzaga.
* - Pergunta que foi formulada ao tempo em que foi escrito este livro. A resposta, ao tempo em que aparece esta tradução, já está dada pelo desfecho da grande guerra. (Nota do Tradutor).