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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Deus: sua existência. [Parte 2]


2º Sentido e conteúdo da definição que estabelece a distinção entre Deus e o mundo. O Concílio passa a abordar o tema da distinção entre Deus e o mundo. Já em 1215, o IV Concílio de Latrão havia condenado o panteísmo de Amaury de Chartres, considerando-o mais como uma aberração que como uma heresia. A reaparição e desenvolvimento deste erro exigia uma definição mais explícita e fundada. O Concílio define, pois, a distinção entre Deus e o mundo, e indica as principais provas desta doutrina. Tais provas se reduzem a três: Deus quit cum sit uma singularis, simplex omnino et incommutabilis substantia spiritualis, praedicandus est re et essentia a mundo distinctus. 1º Deus é único por natureza: é o mesmo que dizer que não se pode multiplicar a natureza de Deus em muitos seres, e não pode estar realizada senão em um só Deus. O ser de Deus é, portanto, real e essencialmente distinto do mundo, pois nos encontramos com multiplicidade de gêneros, espécies e indivíduos. 2º Deus é absolutamente simples: o ser de Deus é real e essencialmente distinto do mundo, no qual comprovamos três classes de composição: a composição física (partes integrantes dos corpos, que são fisicamente distintas entre si), a composição metafísica (essência suscetível de existir e existência), composição lógica (gênero e diferença específica). 3º Deus é imutável: o ser de Deus é, portanto, real e essencialmente distinto do mundo, pois comprovamos em todas as partes a mudança ou a sua possibilidade. O Concílio distingue precisamente: re et essentia a mundo distinctus. Não é uma distinção de razão nem uma distinção virtual, como a que existe entre os atributos divinos, mas uma distinção real, em virtude da qual Deus e o mundo são duas realidade e não uma única realidade. Esta distinção não é apenas real, como a que existe entre dois indivíduos de uma mesma espécie, mas é também essencial, é dizer que Deus é, por essência, distinto do mundo. O Canon 3º também determina, rejeitando o panteísmo em geral, que concebe a Deus como uma substância imanente ao mundo, e às coisas finitas como acidentes desta substância. “Seja anátema quem disser que a substância ou essência de Deus e de todas as coisas são a mesma”. Finalmente, esta distinção é infinita. Deus basta a si mesmo: “Bem aventurado em si e por si, e inefavelmente excelso sobre tudo que há ou se pode conceber fora Dele”.

Quatro cânones correspondem a este parágrafo da Constituição Dei Filius. O primeiro condena o ateísmo: “Seja anátema quem negar o único verdadeiro Deus, Criador e Senhor das cosias visíveis e invisíveis”. O segundo condena o materialismo: “Seja anátema quem não sentir vergonha de afirmar que nada existe fora da matéria”. O terceiro condena o princípio do panteísmo: “Seja anátema quem disser que a substância ou essência de Deus e de todas as cosias são uma mesma”. O quarto condena as três principais formas de panteísmo: o panteísmo emanatista, o panteísmo essencial de Shelling e o panteísmo essencial do ser universal: “Seja anátema quem disser que as coisas finitas, tanto corporais como espirituais, ou, apenas as espirituais, são imanados da substância divina; ou que a essência divina, por manifestação ou evolução de si mesma, transforma-se em todas as coisas; ou, finalmente, que Deus é o ser universal e indefinido que constitui, determinando-se, a universalidade das cosias e sua distinção em gêneros, espécies e indivíduos”. Em relação a este último Canon, há de se pôr as teorias rosminianas condenadas pelo decreto do S. Ofício de 14 de dezembro de 1887, e as proposições ontologistas condenadas pela mesma Congregação em 18 de setembro de 1861. Observe a continuação destas proposições: “O ser que compreendemos em todas as coisas e sem o qual nada compreendemos é o ser divino”. “Os universais considerados da parte do objeto não se distinguem realmente de Deus” (Denzinger, n. 1660 [1517]; 1661 [1518].)
Temos aqui o que a Igreja nos ensina sobre a existência de Deus, sua natureza, atributos essenciais e sua distinção do mundo.

A tais doutrinas, o Concílio Vaticano agrega as relativas à Criação e Providência: “A causa de sua bondade e por sua virtude onipotente, não para aumentar sua beatitude nem para adquirir sua perfeição, mas para manifesta-la pelo bem que dispensa às criaturas, este único Deus verdadeiro, por desígnio absolutamente livre, feito do nada simultaneamente no começo do tempo, as criaturas espirituais e corporais, os anjos e o mundo e depois a criatura humana, como reunindo espírito e corpo em sua constituição.

“Deus, por sua Providência, conserva e governa tudo o que fez, [sua sabedoria] se estende poderosa de um a outro lado e o governa totalmente com suavidade” (Sab. VIII, 1). Porque as coisas são todas nuas e manifestas aos olhos Dele (Heb. IV, 13), ainda aquelas que se produzirão no futuro pela livre ação das criaturas”. Não se poderia dizer com Abelardo que Deus não pode impedir o mal (Denzinger, n. 375), nem que quer o mal da mesma forma que o bem (Denzinger, n. 816). É impossível que queira o pecado, pois pode apenas permiti-lo (Denzinger, n. 816).
Não há por que apresentar aqui a doutrina da Igreja sobre os mistérios divinos propriamente sobrenaturais, como a Santíssima Trindade.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Deus: sua existência. [Parte 1]

Estarei postando o que Reginald Garrigou-Lagrange escreveu sobre o que a Igreja diz a respeito da existência de Deus e os meios que podemos saber dela. O livro pode ser encontrado em espanhol para download no site http://www.obrascatolicas.com/ e se chama "Dios: Su Existencia".

O texto que vou colocar é dividido em cinco partes e não procura provar a existência de Deus, apenas expôr o ensino da Igreja sobre o assunto. O livro no todo, porém, faz a prova e vale a pena ser lido com cuidado.


***

A DOUTRINA DA IGREJA SOBRE A EXISTÊNCIA E A NATUREZA DE DEUS, SOBRE O CONHECIMENTO QUE PODEMOS TER DELE POR MEIO DA LUZ NATURAL E DA RAZÃO HUMANA.

1º Definição do Concílio Vaticano* sobre a existência e natureza de Deus. “a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, diz o Concílio Vaticano (Const. Dei Filius, cap. I), crê e confessa que há um só Deus verdadeiro e vivente, Criador e Senhor do céu e da terra, Todo Poderoso, Eterno, Imenso, Incompreensível, Infinito em inteligência, em vontade e em toda perfeição; que, sendo uma substância espiritual única por natureza, absolutamente simples e imutável, deve ser declarado realmente distinto do mundo e sua essência, bem aventurado em si e por si, e inefavelmente excelso sobre tudo que há ou se pode conceber fora Dele”.

Para determinar o que neste parágrafo é de fé católica, resumiremos as conclusões sobre este ponto que Vacant estabeleceu (Études théologiques sur lês Constituitions Du Concile Du Vatican, d’apès lês Actes Du Concile). O Concílio, depois de ter afirmado nossa fé em Deus, designando-o com os principais nomes que a Sagrada Escritura lhe dá, declara qual é a natureza de Deus e quais são os atributos que constituem a essência Divina. A eternidade, a imensidão e a incompreensibilidade mostram que a essência divina está acima do tempo, espaço e de qualquer conceito das criaturas. E eternidade significa que em Deus não pode haver começo nem fim, nem mudança; a ausência ou inexistência de toda sucessão, admitida de forma unânime pelos teólogos como elemento do conceito de eternidade, é uma verdade que se aproxima à fé, mas não parece ser, entretanto, um dogma de fé católica. A imensidão de Deus definida significa que a substância de Deus integra está e deve estar presente em todas e cada uma das criaturas às quais conserva em seu ser, e, também, que existe em todo lugar. A incompreensibilidade divina significa que Deus não pode ser plenamente compreendido por nenhum ser, exceto por si mesmo, e que até mesmo a visão intuitiva de  Deus que os bem aventurados gozam não pode chegar a esta plenitude. Ao definir que Deus é infinito em toda perfeição, o Concílio determina o sentido que se deve entender aqui o termo infinito. Os antigos filósofos só chamavam de infinito o que não estava terminado, que não estava completamente determinado. A Igreja, pelo contrário, quando diz que Deus é infinito quer dizer que Ele possui todas as perfeições possíveis, que sua perfeição não tem limite nem fim, assim como não tem imperfeições, de modo que é impossível conceber algo em que Ele possa melhorar. Consequentemente, o Concílio descarta o erro hegeliano de que o ser infinito, formado de todas as perfeições possíveis, é um ideal que tende a realizar-se, mas que jamais poderá ver-se realizado. Ao adicionar inteligência e vontade, o Concílio condena o panteísmo materialista segundo o qual a divindade não passa de uma necessidade cega e impessoal, uma lei fatal sem inteligência nem vontade. A respeito das demais perfeições possíveis que se podem atribuir a Deus, das quais o Concílio não fala, podemos dizer que somente são aquelas que não implicam imperfeição nenhuma; todas estas perfeições absolutas (simpliciter símplices) se identificam em uma superioridade absolutamente simples, que constitui seus aspectos parciais e que é a Deidade propriamente dita.