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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Livro inédito no Brasil: A Verdade Sobre o Papado - Rafael Merry del Val

Finalmente este livro que traduzi foi publicado. Ele pode ser encontrado aqui: http://www.editoraloreto.com/produto/a-verdade-sobre-o-papado/

É um dos melhores livros já publicados no Brasil sobre este tema.

O que você irá aprender com este livro:
  • Antes de tudo, o conteúdo deste livro é uma verdadeira aula de como tratar seriamente determinado assunto;
  • As provas de que Jesus organizou sua Igreja sob a autoridade de São Pedro e de seus sucessores;
  • Que São Pedro esteve sim em Roma, e foi lá que ele morreu;
  • Textos patrísticos que comprovam que esta foi a crença ininterrupta dos primeiros cristãos;
  • Que as mentiras protestantes a respeito do Papado são completamente refutadas com uma análise séria das Escrituras e dos textos Patrísticos;
  • Que Pedro é, sem qualquer sombra de dúvidas, a Rocha sobre a qual a Igreja foi construída.




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

São Pedro, Bispo de Roma – Autor desconhecido.

Depois de demonstrado que São Pedro pregou mesmo em Roma, cabe-nos provar ter sido ele o primeiro bispo daquela cidade sem par na Igreja.

Não abusaremos da paciência dos leitores com infindável lista de autorizadas personagens que dão testemunho em tal sentido. Contentar-nos-emos de mostrar, com documentos respeitáveis, que varões como Santo Irineu, Caio, São Cipriano, Optato, Santo Agostinho, São Jerônimo, Suplício Severo, o autor anônimo do Carmen Adversus Marcionem abonam o ponto de vista católico.

Antes de tudo, lembramos que todos os catálogos de bispos de Roma, sem exceção alguma, catálogos organizados com o maior escrúpulo, tanto no ocidente como no Oriente, colocam sempre o nome de São Pedro à frente dos chefes que teve a Igreja.

Se os norteasse com um profundo amor à verdade, há muito que devia ter cessado o clamor de certa classe de protestantes contra os direitos de São Pedro ao título de bispo de Roma.

Fechando os olhos a tantas razões alegadas pela Igreja, o protestante persiste na sua negação invocando, a seu favor, um argumento tirado do silêncio do apóstolo São Paulo. Na verdade, afirmaram eles, se São Pedro fosse o bispo de Roma no tempo das missões apostólicas de São Paulo, infalivelmente teria este último feito referência ao mesmo, quando escreveu a sua conhecida epístola aos romanos…

À primeira vista, semelhante argumento parece de grande alcance, pois não se concebe que o bravo evangelizador dos gentios, numa epístola em que saúda mais de vinte irmãos na fé com morada em Roma, silenciasse o nome do bispo daquela cidade. Não lhe ficaria bem enviar cumprimentos a tantas ovelhas, pondo à margem o pastor.

Outra, porém, é a verdade. Basta lembrar por ora, que São Paulo também escreveu aos cristãos de Éfeso e não faz qualquer alusão ao bispo daquela terra. Por igual enviou epístola aos coríntios, aos gálatas, aos tessalonicenses, aos colossenses, aos hebreus… e em nenhuma delas faz menção dos pastores colocados à frente daquelas comunidades.

Como explicar tudo isto? Primeiramente, é bem possível que os portadores dessas mensagens, que eram pessoas de sua inteira confiança, levassem especiais recomendações, orais ou escritas, para os bispos das referidas paragens. Depois, convém ter presente que eram maus tempos, constantes as perseguições religiosas, e tudo aconselhava a não pôr em evidência o nome do bispo local num documento público. Etc.

Podemos acrescentar a tudo isto que é sempre desaconselhável englobar o nome do chefe de uma diocese na enumeração de simples fiéis.

Quem leu o que aí fica devia naturalmente esperar que o protestante pusesse ponto final nas suas contestações à estada de São Pedro em Roma e à sua consequente investidura episcopal naquela cidade.

Mas o que sucede é que o homem continua no mesmo pensamento: passa de um galho para outro e, sem se dar por achado, lança o seguinte argumento: “Se Pedro ali tivesse a sede do seu episcopado, São Paulo não invadiria anarquicamente diocese alheia”, pois ele tinha por princípio “não edificar sobre fundamento alheio”.

Antes de tudo, meu amigo, este sistema de conduta não foi sempre adotado por São Paulo; e a prova é que ele pregou o Evangelho nas igrejas de Damasco, Antioquia e Jerusalém, que não haviam sido fundadas por ele. Além disto, o argumento apresentado contra nós, se provasse alguma causa, provaria exatamente o contrário dos seus desejos.

Leia com atenção todo o capítulo XV da citada epístola aos romanos. Nela, efetivamente, declara São Paulo que não costumava pregar a Boa Nova onde Cristo já havia sido anunciado, a fim de não edificar em cima de alicerce de outra pessoa (vers. 20).

“Por isso mesmo, continua ele, me via embaraçado, muitas vezes, para ir ver-vos e não tenho podido fazê-lo até agora. Entretanto, já não tenho motivo para me demorar, por mais tempo, nestas terras; e desejando ir ver-vos há muitos anos, logo que me ponha de viagem para a Espanha, espero ver-vos de passagem” (vers. 22-24).

Conforme se vê, as palavras do apóstolo das gentes nos levam a uma conclusão bem diferente das que os protestantes desejam. E qual será esta a conclusão? Paulo comunica que, tencionando ir à Espanha, verá, de passagem, os romanos, com os quais, de há muito, desejava entrar em relações. Não demorará entre eles porque não gosta de edificar em cima de alicerce de outrem. Quer isto dizer, implicitamente, que ali outro já havia edificado antes dele. Aliás, ele já o tinha feito sentir no começo da sua epístola: “vossa fé é conhecida em todo o mundo” (I, 8). Já havia afirmado que “os romanos estavam cheios de caridade, cheios de toda a ciência” (XV, 14). E pouco depois dirá que eram tão submissos a seus superiores eclesiásticos que “a obediência deles era notória em toda parte” (XVI, 19).

De tudo isto se conclui que, antes de Paulo aparecer em Roma, já existia por lá uma cristandade tão florescente que a sua boa fama corria em todo o mundo cristão. Mas quem teria fundado tamanho bloco de discípulos do Salvador na capital do maior império do mundo?

– São Pedro, respondem-nos todos os documentos dignos de respeito.

Pois bem, negando a viagem de Pedro a Roma, os nossos irmãos separados saíram atrás de um possível fundador, lançando mão de todos os recursos da imaginação, já que a História não os favorecia; e ainda hoje estão embaraçados nessa busca eternamente frustrada.

Em lugar de assim procederem, o que lhes competia era pensar como todos os espíritos razoáveis, admitindo que, sendo Roma a capital do Império e a cidade mais corrompida da Europa, onde enxameavam as religiões mais extravagantes, fosse evangelizada e convertida pelo príncipe dos apóstolos, o imediato representante do divino Mestre.

Como se percebe, o exame da epístola aos romanos o que deixa de entrever é exatamente o contrário da tese protestante.

São Pedro em Roma – Autor desconhecido

Depois de haver fundado as igrejas de Jerusalém e Antioquia, as mais célebres da Ásia, partiu S. Pedro para o Ocidente com o propósito de fixar-se em Roma, até então baluarte do paganismo e destinada a tornar-se o centro da vida cristã.
Na cidade dos Césares estabeleceu ele a sua cátedra episcopal. Derramando nela seu sangue por amor do divino Mestre, inaugurou a dinastia dos Papas, que já conta vinte séculos de existência. É exatamente isto que pretendemos demonstrar contra os sofismas do protestantismo. É fora de dúvida que o príncipe dos apóstolos, tendo-se libertado da prisão em Jerusalém, escolheu Roma para sua residência episcopal. Sobre a certeza deste fato, em toda a antiguidade cristã, não pairou sequer a sombra de uma contestação.
Foi somente no século quatorze que apareceu o primeiro a pô-lo em dúvida, aliás interesseiramente. Com o intuito de defender Luiz de Baviera contra o Papa João XXII, Marcílio de Pádua lançou no ar a dúvida, que os protestantes breve converteram em negação formal, como quem aproveita toda a arma para atingir o fim que tem em mira.
Para que saiba, entretanto, quanto é fora de contestação a estada de São Pedro em Roma, bastam os seguintes testemunhos, todos de imenso valor.
São Cipriano que viveu no século terceiro da nossa era e foi bispo primaz da África, numa sua epístola a Antoniano, diz: “Tendo ficado vaga a sede de Fabiano, isto é, a sede de Pedro, e da dignidade da cátedra, foi Cornélio criado bispo” (Epístola X ad Antonianum).
Orígenes, o maior luminar da Escola de Alexandria, falecido em 254, atesta que São Marcos escreveu o seu Evangelho a pedido dos “romanos que tinham ouvido a pregação de São Pedro” (Coment. In Genes., tomo 3).
Tertuliano, morto depois de 222, entre outras alusões à estada de São Pedro em Roma, diz o seguinte: “Oh! Igreja feliz à qual deram os apóstolos, juntamente com seu sangue, o tesou re sua doutrina, onde Pedro se assemelhou ao Mestre no gênero de morte. Etc.” Escrevendo contra os hereges, o vigoroso polemista apelava para o fato da estada de São Pedro em Roma, sem medo de ser contestado.
Há, porém, entre quase uma dezena de outros documentos comprovando a tese da Santa Igreja, dois, pelo menos, de uma força demonstrativa extraordinária. São os testemunhos deixados por Santo Irineu e Santo Inácio.
Santo Irineu morreu em 202, após haver sido educado na escola de Policarpo, que, por sua vez, fica distanciado dos apóstolos apenas por uma geração. Pois este venerando varão, na sua obra “Contra as Heresias”, repetidas vezes fala na presença de São Pedro em Roma. Acha-se isto no III livro, c. I, n. I da citada obra. Eis o trecho decisivo: “Encontrando-se entre os hebreus, redigiu Mateus o Evangelho na língua deles, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundavam a Igreja”.
Não podemos, entretanto, deixar sem especial menção o testemunho de Eusébio, tristemente adulterado por protestantes. Assim reza o texto de Irineu: “Fundando, portanto, e instituindo a Igreja, os bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo entregaram o episcopado a Lino… A este sucedeu Anacleto. Depois deste, em terceiro lugar, Clemente ocupou o episcopado (transmitido) pelos apóstolos” (Adversus Hereses, III, 3)
Vejamos agora o que diz Eusébio na sua História Eclesiástica: “Depois de Pedro, Lino foi o primeiro a exercer o episcopado na Igreja Romana”. É ainda Irineu quem, no seu livro Chronicon, em texto sagazmente omitido por protestantes, escreveu o seguinte: “Como o apóstolo Pedro houvesse fundado a igreja de Antióquia, foi enviado para Roma, e aí, pregando o Evangelho, permaneceu bispo desta cidade por vinte e cinco anos. Depois de Pedro, Lino foi o primeiro a reger a Igreja de Roma.” (Hist. Ecclesiae, livro III, cap. 4)
Diante do exposto, como preservar negando verdades tão meridianas? Negar a verdade conhecida por tal é pecado contra o Espírito Santo, atitude indigna de um discípulo do Salvador.
Santo Inácio, martirizado no ano 107, de viagem para Roma, escreveu várias epístolas a diferentes igrejas, confortando-as na Fé e obediência aos superiores eclesiásticos. Numa dessas cartas, dirigida aos romanos, diz textualmente: “Tudo isto não vos ordeno como Pedro e Paulo, eles eram apóstolos, enquanto eu sou um condenado à morte.”
Parece claro, em tal linguagem, haver nos romanos, já então, um perfeito conhecimento daqueles dois arautos do Evangelho…
[Continua…]

Pedro nos Atos dos Apóstolos – Autor Desconhecido

Não querendo dar-se por vencido, o protestante volta à fala, dizendo que a melhor prova de que Pedro não recebeu especial autorização para dirigir a Igreja é que nunca fez uso dessa investidura.

A crermos em suas palavras, os “Atos”, livro em que São Lucas nos deixou os fatos mais salientes da atividade dos apóstolos, nada nos dirão acerca do exercício do primado de São Pedro. Mas, como tudo isso anda longe da verdade!

Admitindo-se, por hipótese, que Pedro jamais houvesse posto em prática os direitos da sua primazia, poderíamos concluir daí que esse direito não lhe pertencesse? Não e não. Onde já se viu que uma lei deixasse de existir só porque alguém deixou de se utilizar das vantagens que ela lhe oferecia?

Ora, as palavras de Cristo valem por uma lei, dando a Simão-Pedro o direito de governar a Igreja, fazendo-lhe as vezes aqui na terra; se Pedro não tivesse exercido esse direito, poderíamos assim explicar o fato: que não tivesse havido precisão de exercitá-lo.

Repetimos o que acima deixamos dito: o não-uso de um direito concedido por Deus não serve de prova de sua não-existência.

Mas será mesmo exato que os outros apóstolos não deram sinais de reconhecer essa primazia? Será ainda exato que a história da Igreja não contenha certos vestígios de haver ela sido posta em ação? O protestante acha isto tão indubitável que escreveu o seguinte: “a ausência do sol ao meio dia não é mais notável do que a ausência da supremacia oficial de São Pedro nas páginas do Novo Testamento”.

Vamos aos fatos. Não terão os apóstolos dado mostras de reconhecer a primazia de São Pedro? Por que então todos os evangelistas, sem exceção de um só, todas as vezes que falam nos Doze ou os mencionam pelos respectivos nomes, dão a Pedro o lugar de honra e primazia? Não lhe parece que tal prioridade seja altamente significativa, especialmente depois das antigas contendas para saberem qual deles era o maior? Outrora queriam saber qual deles era o primeiro: agora é o próprio São Mateus quem nos afirma no seu Evangelho: “Primeiro, Simão que se chama Pedro” (X, 2).

Recordemos os primeiros capítulos dos “Atos”, onde São Lucas relata os mais notáveis sucessos da Igreja primitiva. Que é que neles se lê? Lá aprendemos que foi São Pedro o primeiro a anunciar o Evangelho aos judeus, depois da morte do Salvador; por sinal que com seus primeiros sermões converteu três mil pessoas (II, 41). Que foi São Pedro quem admitiu na Igreja os primeiros gentios (X, 9 e seguintes). Que foi Pedro quem operou o primeiro milagre em confirmação da fé em Jesus Cristo (III, e seguintes).

Dizem-nos os “Atos” que, da mesma forma que o povo fazia com o Salvador, fazia com Pedro, no sentido de levarem até ele grande número de enfermos para que os curasse (V, 15).

Acha pouco tudo isto? Pois ouça mais. Leia os “Atos” (I, 15 e seguintes) e lá verá que foi São Pedro o apóstolo que promoveu e presidiu a eleição de um novo apóstolo para substituir a Judas. Pelos “Atos” (II, 14; IV, 8) verá também que foi São Pedro o primeiro a tomar a defesa de seus colegas contra o sinédrio, que queria impedi-los de pregar. Leia nos “Atos” (VIII, 20) Pedro condenando, com pasmosa autoridade, o primeiro herege simoníaco.

Se Pedro é preso por ordem de Herodes, toda a Igreja se põe em oração até vê-lo milagrosamente salvo (Atos XII, 3). Parece pouco tudo isto? Pois escute: quando, em Jerusalém, se reúne o primeiro concílio para decidir acerca de uma questão importantíssima, é Pedro o primeiro que toma a palavra e põe termo à controvérsia (Atos XV, 7 e seguintes).

Sempre Pedro é visto como chefe supremo, na defesa da fé e dos bons costumes, na propagação da Igreja, na promulgação das leis, no dom dos milagres, no papel de imediato representante de Jesus Cristo.

São Paulo, campeão antipapal? [Parte II] – Autor Desconhecido

Parece, mas não é…
Focalizemos logo o verbo [pareciam] que, à primeira vista, parece uma bomba atômica, capaz de botar por terra a estátua de S. Pedro e, na realidade, é apenas um sofisma embarcado no equívoco de uma palavra. É que o protestante toma aí o verbo [parecer] no sentido de ter a aparência de uma coisa sem, na realidade, ser essa mesma coisa. Veio daí a ardilosa conclusão tirada por ele: que Pedro, Tiago e João eram exteriormente considerados colunas da Igreja, mas de verdade não o eram.
Ora, qualquer exegeta medíocre sabe que o verbo [videri], parecer, vez por outra se apresenta com o sentido de [ser considerado o que] verdadeiramente é. Eis o que quis dizer São Paulo: “Dizeis que meu evangelho e minha doutrina não são dignos de fé. Pois ficai sabendo que em Jerusalém eu os expus à apreciação daqueles que para vós são os depositários do verdadeiro cristianismo, tidos e havidos como colunas da Igreja. Condenaram-me por isto? Repreenderam-me? Não. Aquelas autoridades não acharam em mim o que condenar e, dessa forma, aprovaram todos os meus ensinamentos. Além disto, Pedro, Tiago e João, aos quais cabia o direito de examinar minha doutrina, reconheceram o apostolado que Deus me tinha confiado e, em sinal de amizade, me apertaram a mão”.
Se o protestante quiser ler outras passagens do Novo Testamento nas quais [parece] se apresenta no sentido de ter [as aparências de uma coisa ou pessoa que é realmente], leia o evangelho de S. Marcos, capítulo décimo, versículo 42; ou o evangelho de S. Lucas, capítulo vinte e dois, versículo 24, para não irmos mais longe.
O protestante da epístola de S. Paulo aos gálatas quer concluir que o apóstolo das gentes fala de Pedro como de um simples colega, e não de um chefe.
Aqui, como em outros casos da vida, vai grande distância entre o ser e o parecer. Parece, realmente, exprimir isto mesmo, mas um exame desapaixonado dos documentos revela o contrário. Nessa passagem da epístola aos gálatas, o objetivo do Apóstolo não é nem a chefia de Pedro sobre a Igreja nascente, nem tão pouco uma divisão sistemática e exclusivista do campo destinado à evangelização.
Por que, caro protestante? Porque . Paulo, ao escrever a citada epístola, já sabia ter sido Pedro quem batizara os primeiros gentios, abrindo para eles as portas da Santa Igreja. Alguns anos para trás, ele, S. Paulo, ouvira dos lábios de S. Pedro a seguinte declaração: “Sabeis que, desde os primeiros dias, Deus ordenou que, por minha boca, ouvissem os gentios a palavra do Evangelho” (Sobre isto leia Atos XV, 7).
Por outro lado, é absolutamente inexato que Paulo houvesse limitado sua pregação aos gentios. E a prova disto é que, em todas as suas excursões apostólicas, sua primeira tarefa era pregar a Boa Nova aos israelitas. Só depois de repelido por estes é que se voltava para os pagãos, quase sempre mais bem dispostos e generosos. Para se convencer disto, queira ler os capítulos 13, 14, 17, 18, 19, 20, 21 dos Atos.
Considerando, historicamente, os doze anos por ele vividos até então a serviço do Evangelho, Paulo faz ver aí como Deus tinha abençoado sua pregação aos gentios por meio de numerosos milagres e conversões, da mesma forma que era abençoado o ministério de Pedro entre os israelitas. Note bem isto: por que aí S. Paulo compara sua carreira apostólica com a de S. Pedro? Não é fora de qualquer dúvida que também os outros apóstolos haviam pregado o Evangelho aos israelitas? Por que destacar aqui somente a Pedro quando se dirige aos gálatas que só ele, Paulo, havia evangelizado e convertido?
A mais plausível explicação é que, pelo fato de ser Pedro o chefe supremo da Igreja, ao menos de nome todos os cristãos deviam conhecê-lo e seguir-lhe a direção.
Agora falaremos do discutido episódio de Antioquia.
Conforme sabemos através do Novo Testamento, achavam-se os apóstolos Pedro e Paulo naquela cidade, cujos cristãos, na sua maioria, tinham vindo do judaísmo. Procurando acomodar-se às exigências do meio, viviam ali os dois citados apóstolos com os novos cristãos sem se preocuparem com leis mosaicas, já então suprimidas pelo Evangelho.
A esse tempo, chegam de Jerusalém alguns cristãos convertidos do judaísmo, ardentes de zelo pela lei mosaica. Temendo cair no desagrado deles e assim afastá-los do cristianismo, pouco a pouco Pedro foi se afastando das refeições a que compareciam os cristãos daquela terra. Além disto, embora sabendo que os ritos mosaicos de nada adiantavam à vida cristã, condescendia com a fraqueza dos judeus-cristãos e diante deles cumpria as referidas prescrições rituais. Era assim, aliás, que procediam os outros apóstolos, sobretudo S. Tiago, bispo de Jerusalém.
Por iguais razões, S. Paulo tinha circuncidado a seu caro discípulo Timóteo; e, numa de suas viagens a Jerusalém, entrou no templo, purificou-se de acordo com as prescrições de Moisés e ofereceu as oblações legais.
Por aí se vê que o retraimento de Pedro significava somente uma condescendência paternal, um ato de caridade para com seus compatriotas recém convertidos ao cristianismo. Mas naquela cidade as circunstâncias eram diferentes das de Jerusalém; e Paulo, que pregava o Evangelho quase sempre aos gentios, previu a campanha de difamação que seus inimigos breve iriam mover contra ele, apoiados no exemplo do chefe dos apóstolos.
Com efeito, muitos judeus e até Barnabé, fiel companheiro de Paulo, já estavam voltando às práticas rituais do judaísmo; também eles tinham deixado de comer com os gentios convertidos.
Em tão sombrias circunstâncias, percebeu Paulo que o caminho a seguir era mostrar, publicamente, que a atitude de Pedro, justificável em Jerusalém, não era bem conforme ao espírito do Evangelho, desde que o Divino Mestre nos havia libertado das peias mortificante do mosaísmo.
Um dia, portanto, num dos ágapes dos cristãos ao qual Pedro comparecera, Paulo o adverte publicamente, como se vê de sua epístola aos gálatas (capítulo II, versículo 13): “Se tu, sendo judeu, vives como os gentios (batizados) e não como judeu, por que obrigas (com teu exemplo) os outros a judaizarem?”.
Agora pergunto ao protestante: haverá, nessa admoestação pública, qualquer contestação do primado apostólico? De modo algum. Aí Paulo não desobedece a nenhuma ordem dada por Pedro, não se insurge contra sua doutrina, não nega sua autoridade. Não lhe falou aí como um superior, cheio de autoridade, porém à maneira de filho mais velho, fazendo-lhe ver a necessidade de viver de acordo com o que ele próprio, Pedro, ensinava noutros lugares.
Eis a única significação dessa passagem da epístola aos gálatas. Ouça lá como o genial Santo Agostinho comenta este episódio, transformando-o em novo argumento a favor as suprema autoridade de Pedro: “Com santa e piedosa humildade, Pedro aceita a observação feita por Paulo (que assim agiu) inspirado na liberdade do amor. Deixou assim aos seus sucessores um raro exemplo de consentirem em ser corrigidos pelos súditos, quando se desviarem do reto caminho…”

“Tu es Petrus” – Pe. Leonel Franca

Texto extraído do livro “Catolicismo e Protestantismo” do pe. Leonel Franca.

O argumento tirado do primeiro versículo não colhe, diz o sr. Ernesto, porque a pedra sobre a qual Cristo diz há de construir a sua Igreja não é o Apóstolo mas o próprio Cristo. “Em resumo: nosso Salvador não disse a S. Pedro: ‘tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja’, mas disse-lhe: tu és um fragmento de pedra (isto é o que significa o seu nome), da pedra que confessaste; e sobre esta pedra, que sou eu, edificarei a minha Igreja; em outros termos: ‘edificarei a minha Igreja sobre mim e não sobre ti’. E fragmentos da mesma pedra são todos os santos que constituem a Igreja”.

O leitor confrontando a paráfrase do sr. Oliveira com o texto evangélico já percebeu tudo o que lhe enxertou desastradamente a sua exegese tendenciosa, “fragmento de pedra que confessaste… sobre esta pedra que sou eu” não existem absolutamente em toda a perícope evangélica onde Jesus Cristo não fala uma só vez de si, mas só de Pedro e a Pedro. Ora, toda esta interpretação visivelmente apaixonada já nos havíamos excluído nestes termos: Quem quer que leia despreocupadamente o passo de S. Mateus para logo se persuadirá que, em todo ele, Cristo só se dirige a Pedro: tibi dico, tu es, tibi dabo, quidquid ligaveris. Não há como isolar um inciso em que o Salvador entrasse a falar de si. Todos os membros do texto se articulam, se compaginam num todo, cuja continuidade não é possível interromper sem lhe quebrar as harmonias divinas.

Mas entre PETRUS e PETRA há diferença que passa entre seixo de rocha, fragmento de pedra e pedra. Não há tal. Esta diferença só existe na versão grega. O nome PETRA, feminino, não se adaptava à designação de um homem. O tradutor grego, helenizando o original KEFAS preferiu a forma PETRUS. Todas as outras versões, onde não havia este inconveniente, conservaram, como pode observar o francês moderno, a identidade da forma verbal nos dois incisos do versículo. Pode verificar-se na versão armena, etiópica, cóptica, persa, caldaica, siríaca, arábica e eslava. […]

Cristo falava aramaico. Ora, em aramaico nenhuma diferença verbal há entre Pedro e pedra. Traduzindo à letra, o texto original de S. Mateus dizia: tu és Pedra (Kefa) e sobre esta Pedra (Kefa) edificarei a minha Igreja. Desfaz-se assim a última aparência de arrimo a que se abordoa, desesperada, a exegese protestante. Como poder, com efeito, afirmar razoavelmente a diversidade na significação de duas palavras idênticas, usadas na mesma frase, e referindo-se uma à outra por um demonstrativo enfático?

Mais. Reduzir o nome de Kefas a um fragmento de pedra, e “fragmentos da mesma pedra são todos os santos que constituem a Igreja”, diz o pastor, é falsificar todo o sentido do Evangelho. Se não era Simão esta pedra fundamental da Igreja por que lhe mudou Cristo o nome em Pedra? Tu te chamarás Cefas, isto é, Pedra, disse-lhe Cristo no primeiro dia que o viu (João 1, 42); tu és Pedra, repete-lhe Cristo agora. Porventura os nomes impostos por Deus são palavras vazias, figuras sem significado, sombras sem realidade? Como! Tanto aparato de circunstâncias, tanta gravidade de palavras, tanta solenidade de fórmulas (Bem-aventurado és tu… E eu te digo: tu és Pedro), para dizer que Pedro será um “fragmento”, uma pedrinha no grande edifício do Reino de Deus! Mas “fragmento”, pedrinha são todos os fiéis, todos os membros da sociedade cristã. E qual seria, neste caso, o significado desta cena, uma das mais graves, das mais majestosas, das mais solenes do Evangelho? Algo parecido com o parturiunt montes!! Não! Não! Ante a exegese protestante revolta-se a consciência cristã num brado da mais justificada indignação.

São Pedro e os Papas – Autor Desconhecido.

Como chave de ouro desta série de argumentos, examinaremos o testemunho do próprio São Pedro.

A sua atitude humilde em face das observações de São Paulo, afirma o pastor protestante, bem nos mostra que “ele (Pedro) inteiramente ignorava possuir a posição e os títulos pomposos que, em nome dele, os papas assumem. Nas suas epístolas, – a crer em nosso ardente contraditor, – nada existe “que se pareça com um decreto do Vaticano”. Em palpável contraste com o autoritarismo vanglorioso das bulas papais, escreve São Pedro: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, esta é a rogativa que faço aos presbíteros, eu, presbítero como eles.” (Páginas 242-243)

Parece-lhe então, meu amigo, que esta humilde linguagem de São Pedro afaste a hipótese de ser ele o chefe visível e universal da Igreja? Pois, a mim não acontece a mesma coisa. Para lho demonstrar, lembro que São Pedro não escrevia para protestantes, preocupados em negar-lhe a autoridade, porém a cristãos que de boa fé haviam abraçado o Evangelho, cristãos que em Pedro reconheciam o continuador de Jesus Cristo e nem por sonho pensavam em pô-lo em dúvida.

– Mas, que contraste entre os apóstolos e as bulas papais! – dirá o pastor protestante.
Está-se vendo que o senhor nunca leu uma bula papal. Como São Pedro, o Papa ainda hoje se dirige aos bispos, saudando-os com o doce nome de irmãos; e assim é que se assina? Servo dos servos de Deus. Estas expressões nada encerram de autoritarismo vangloriosos.

– Mas os Papas – atalhará o pastor – dão ordens terminantes, ameaçam castigos, lançam excomunhões.

Pois não é assim que procedem as autoridades cônscias de seu dever? Foi assim mesmo que, na hora precisa, procedeu o humilde São Pedro. Quando o Sinédrio pretendia algemar a Igreja nascente, impondo o silêncio aos seus apóstolos, eis como, em nome de todos, São Pedro rebate as pretensões do poder civil: “Não podemos! Antes de obedecer aos homens, é necessário (obedecer) a Deus.” (Atos IV, 20; V, 29)

Veja com que severidade São Pedro julga e repreende a Ananias e Safira; veja como o Espírito Santo, confirmando a sentença dada por ele, fulmina de morte os dois culpados (V, 1-11). Veja também o desassombro com que ele rejeita as sacrílegas propostas de Simão Mago e lhe exprobra a miserável oferta (VIII, 18-24). Pois os papas, no decurso dos séculos, não fizeram outra coisa: fustigaram os vícios, condenaram os malfeitores, defenderam a liberdade da Igreja contra os caprichos dos poderosos do mundo.
Seguindo o exemplo de S. Pedro, os Papas, sem deixarem de ser humildes, têm defendido a causa do Evangelho contra o erro, contra o vício, contra a força.

Para se convencer disto, basta abrir a história com sincero desejo de tirar dela as lições que dela se desprendem.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Patrick Madrid em poucas palavras detonando a heresia da Sola Scriptura.

Uma coisa é certa: não há nenhum lugar na Bíblia em que diga que ela é a única regra de fé e que tudo deva ser provado por ela, mas tem gente que sente tanta ânsia de ser "reformado" que aceita esse jargão e repete-o como se uma frase de efeito tivesse necessariamente conteúdo.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A Noite de São Bartolomeu - PARTE 2 - A religião católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu.

Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.

Partes anteriores: Parte 1

II – A religião católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu.

1º A religião não estava diretamente interessada na questão; 2º nem a santa sé interveio, nem eclesiástico algum fazia parte do conselho real; 3º no massacre, não aparece participação alguma da Igreja; 4º a Igreja não aprovou o massacre.

É preciso não ter mais sentimento algum de justiça para acusar a religião católica dos males sofridos pelos Franceses durante as infelizes guerras que assolaram a França nos reinados dos três irmãos, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, e ainda mais para lhe atribuir a resolução de Carlos IX.

Por certo, não queremos pretender que a Igreja se desinteressou da grande questão religiosa que agitou a França no século XVI, nem que ela ficou expectadora indiferente na luta que se travava debaixo de seus olhos.

Naquela época, a religião católica era a religião do Estado na França. Guarda do direito dos reis e dos povos, protetora nata da fé e da moral cristã, tinha por missão e dever de opor-se à Reforma e às suas intrigas, e assim o fez energicamente. E pois que a heresia protestante atacava com as armas na mão, a Igreja podia, por sua vez, invocar contra ela a força do braço secular. Ninguém pode lhe imputar a crime sua intervenção nas lutas religiosas daquela época agitada.

Mas importa muito determinar de que modo interveio. Será verdade, como pretenderam seus adversários, que a Igreja seja responsável por São Bartolomeu? Será verdade que por conselhos, manejos, tenha escandalosamente triunfado? Não, ela não interveio neste fato, nem como motivo, nem como conselho, nem como agente.

Antes de tudo, notemos que o verdadeiro motivo do massacre não foi a religião. Se, no principio da Reforma na França, a crença contribuíra por alguma coisa na luta entre a Liga e os calvinistas, a questão, em 1572, era mais política do que religiosa. Não se tratava mais de dogmas, porém de rebelião. Três revoltas anteriores, muitas cidades subtraídas à obediência real, cercos sustentados, tropas estrangeiras introduzidas no reino, quatro batalhas travadas contra o exército do rei, o duque de Guise assassinado: tais eram os motivos de queixa do rei e de sua mãe. Por isso, Carlos IX, depois de São Bartolomeu, escreveu a Schomberg, seu embaixador na Alemanha, falando dos protestantes: “Não me era mais possível aturá-los”.

Em parte alguma é invocado o motivo religioso, e vê-se, pelo contrário, que os editos reais recomendavam não molestar de modo algum os membros da religião reformada. O martirologio dos protestantes refere que os matadores diziam aos transeuntes, ao mostrar os cadáveres: “São eles que nos quiseram constranger para matar o rei!”.

Mas será possível admitir que a Santa Sé excitou o rei da França para exterminar os protestantes, sob pretexto de conservar ao catolicismo sua supremacia religiosa? Interveio a Igreja como conselho?

Voltaire, naturalmente copiado por numerosos historiadores, acusa disto São Pio V, um papa, um dominicano, portanto um inquisidor, e enfim um santo. Que há de verdadeiro nesta afirmação?

Carlos IX reinava na França havia já seis anos, quando subiu ao trono de São Pedro um papa de grande virtude: São Pio V. Teve este dois grandes fins: deter os progressos sempre crescentes da Reforma na Europa, e alistar os príncipes cristãos numa cruzada contra os Turcos. Para alcançar estes fins compreendia muito bem a necessidade que tinha do concurso da França, e por isso multiplicou os avisos e conselhos a Carlos IX, em vista de reduzir a heresia e assegurar ao rei socorros e alianças.

Desses conselhos faz a fé a correspondência pontifical. De conselhos sanguinários, porém, de maquinações pérfidas, de conluios urdidos na sombra, não há vestígio e nem prova. Além disso, sabe-se como a corte da França não fez caso dos conselhos do Papa e assinou a paz de São Germano (1570), que fazia dos protestantes um poder político no Estado.

Pio V morreu três meses antes do massacre de São Bartolomeu. Gregório XIII lhe sucedeu em 13 de maio de 1572, e seguiu a mesma norma de conduta que seu predecessor, procurando aproximar a Espanha da França, a fim de alcançar uma pacificação religiosa que permitiria dirigir os esforços comuns contra a ambição da Turquia. O historiador francês, H. Martin, que não se pode suspeitar de parcialidade em favor da Igreja, reconhece que Gregório XIII, “não só não favoreceu as intrigas que precederam São Bartolomeu, mas nem delas teve conhecimento”.

Pois do lado de Roma nenhum conselho de perseguição ou de represálias sangrentas. Mas o rei da França neste ponto teria sido influenciado pelo clero católico?

Nos conselhos reais, segundo a narrativa do duque de Anjou (mais tarde Henrique III), intervieram o rei, a rainha, a senhora de Nemours, o marechal de Tavannes, o duque de Nevers, Birague, de Retz etc., porém nenhum cardeal, nenhum bispo, nenhum sacerdote. Os Essais sur l’Histoire générale andam errados julgando que se trata dos cardeais de Biraguee e de Retz; são os marechais desses nomes que são designados. O cardeal de Birague revestiu a púrpura só em 1578 e o de Retz em 1587.

A religião católica que não interviera em nada nos conselhos, tão pouco aparece como agente no massacre. Falou-se em sacerdotes, em frades, de milícia inteira de burel, que teria andado em volta com os matadores e que, como diz Voltaire, como contam os romancistas, imolava suas vítimas com a espada numa das mãos e o crucifixo na outra. Falou-se daquelas famosas cruzes brancas que adornavam os chapéus dos assassinos, aqueles punhais bentos pelo cardeal Lorena...

Onde está a verdade? Em Paris, por uma especial proteção da Providência, não se vê nenhum sacerdote no massacre, a não ser João Rouillard, cônego da catedral e conselheiro do parlamento, que foi arrastado no lugar do massacre para dele ser vítima. Os escritores protestantes, na verdade, citam os nomes de alguns sacerdotes que tomaram parte nos massacres das províncias. Mas a ser isso verdade, a conduta repreensível deles, no final das contas, não pode ser imputada à Igreja.

Eis o que a imparcial e verídica história pôde afirmar: o clero católico, durante os massacres, desempenhou o papel que lhe competia. Em lugar de matar ou ferir, salva. Basta lembrar o nobre procedimento do bispo de Liseux, Hennuyer, que, por sua energia, salvou todos os protestantes de sua diocese.

O martiriológio dos protestantes, que não se pode lançar a suspeita de querer fazer o elogio dos católicos, cita muitos fatos como o precedente. “Em Tolosa, diz ele, os conventos serviram de asilo aos calvinistas; em Burgues, os católicos pacíficos salvaram alguns; em Romans, de sessenta que foram presos, conseguiram soltar quarenta, e dos mais só pereceram sete; em Troyes, em Bordéus, muitos foram igualmente salvos por sacerdotes.”

Em Paris, os huguenotes perseguidos acharam também protestores católicos, e em Nimes, esquecendo-se da Miguelada, houve corações muito generosos para defender os calvinistas de uma carnificina demais autorizada pelo exemplo, mas de nenhum modo permitido pela Religião.

Como, depois disso, acusar a Igreja e seus ministros de terem banhado as mãos no sangue dos hereges? Quanto as cruzes brancas, não passavam elas de um emblema, de um sinal. Além disso, o cardeal Carlos Lorena achava-se em Roma desde três meses antes do massacre. Como poderia então benzer os punhais destinados a um massacre que foi improvisado? Portanto, a cena introduzida por Chérnier no seu “Carlos IX”, e por Scribe nos seus “Huguenotes”, merece ser desterrada por entre as fábulas.

Mas, obsetar-se-á, se a Igreja não preparou a São Bartolomeu, se o papa não foi dela nem conselheiro nem cumplice, não se pode negar que Gregório XIII a tenha altamente aprovado e dela se tenha regozijado. É certo que em Roma, ao receber a notícia desse nefando golpe de Estado, renderam-se a Deus solenes ações de Graças; Gregório XIII foi em procissão da igreja São Marcos até a de São Luiz, indicou um jubileu, mandou cunhar medalhas comemorativas, e encomendou ao pintor Vasari, para o Vaticano, frescos destinados a perpetuar a lembrança de um acontecimento que a corte romana concebia uma grande alegria.

Que esses fatos materiais sejam verdadeiros, não o discutimos. Mas, para conhecer-lhes o verdadeiro caráter e julgar-lhes a significação, é necessário e justo lembrar suas circunstâncias e explicar seus motivos.

Depois de ter recebido a notícia dos acontecimentos de Paris, o sumo Pontífice foi em procissão da igreja de São Marcos à igreja de São Luiz dos franceses; ali mandou cantar um Te Deum de ação de graças, ordenou procissões, marcou um jubileu, mandou ou deixou cunhar uma medalha comemorativa do massacre. É ainda verdade que o pregador Muret fez um elogio público na presença do papa, e o pintor Vasari representou as diversas cenas desse fato em três quadros que ainda adornam uma das salas do Vaticano. Mas que pretendia celebrar a corte de Roma com essas demonstrações? Aquilo que lhe tinham revelado as notícias recebidas. Ora, continham o que se publicara por toda a parte na França e fora dela: que o rei e a família real acabavam de escapar ao maior perigo, sufocando uma nova conspiração tramada pelos huguenotes.

Neste ponto, não há dúvida possível; Carlos IX numa carta dirigida, em 24 de agosto, ao senhor de Ferralz, seu embaixador em Roma, contava resumidamente o fato, deixando ao senhor de Beauvillé, portador da missiva, o cuidado de dar mais pormenores ao embaixador e ao papa Gregório XIII. Os pormenores eram os que tinham sido mandados aos governadores das províncias.

A correspondência oficial de Salviati, núncio do papa em Paris, mostra que ele ignorava completamente os projetos da corte. Nos seus relatórios particulares, endereçados ao conselho de Estado, fala da rebelião geral dos protestantes que obrigou a corte da França a lançar mão de uma resolução extrema para se pôr a salvo do perigo. Um curiosíssimo documento, conservado no Vaticano, veio recentemente confirmar todas essas afirmações. É o resumo manuscrito (1) em latim, de um leito de justiça realizado no parlamento de Paris. Encontra-se aí um trecho que explica de um modo, que se poderia dizer definitivo, o massacre de São Bartolomeu: “Nesta augusta assembleia, o rei Carlos declarou que, graças a Deus, descobrira as ciladas que o almirante Gaspard de Coligny armava ao governo do rei, chegando ao ponto de ameaçar toda a família real com uma catástrofe e com morte, e que tendo tratado ele e a seus cúmplices como mereciam, queria que, no futuro, não se imputasse este fato a crime àueles que foram os fiéis ministros de uma tão justa vingança, visto que tinham procedido só por vontade, mandato e ordem do rei.”

Este mesmo documento relata que as execuções feitas em 24 de agosto não foram mais do que justas represálias contra as conspirações da facção protestante que devia, duas horas mais tarde, matar os membros da família real. Demonstra em segundo lugar que as execuções ordenadas por Carlos IX só assumiram o caráter de massacre pela intervenção do povo de Paris, irritado contra as facções. Menciona enfim a proibição expressa feita pelo rei ao mesmo povo de París, “de homicídios, combates, pilhagem e saque dos bens dos huguenotes”, sem a intervenção do parlamento e dos magistrados públicos.

Tais foram as notificações feitas ao Papa, donde resulta que Roma entendeu celebrar não o assassinato dos hereges, mas a exterminação dos rebeldes, a libertação do reino e, sem dúvida, como consequência ulterior, o fim de uma horrorosa guerra civil. O próprio Muret, na sua famosa pratica pronunciada em 23 do dezembro seguinte, não celebrava outra coisa.

As medalhas comemorativas, cunhadas em 1572, tendo a legenda: Ugonotorum strages, com a imagem de um anjo exterminador, armado de uma espada e perseguindo guerreiros, significavam a repressão de hereges rebeldes. As pinturas de Vasari não tinham outro sentido e deviam simplesmente transmitir à posteridade a memória de um fato que, aos olhos da corte de Roma, assumia um caráter providencial: a salvação da vida e do trono de Carlos IX, a vitória sobre a heresia, o fim das dissensões internas que desolavam a França.


Brantôme conta que, mais tarde, Gregório XIII, melhor informado sobre os massacres de Paris e das províncias, chorou amargamente: “Lamento, dizia ele, a morte de tantos inocentes que não deixaram de perecer de envolta com os culpados; é possível que a muito deles Deus tenha concedido a graça de se arrependerem” (Lefortier, La Saint-Barthéleby. Pode-se consultar também o estudo feito por Jorge Gándy na Revue des questions historiques, t. I, 1886).



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terça-feira, 14 de abril de 2015

O acidente inglês – Hilaire Belloc [Parte II]

A Inglaterra era uma velha província do Império Romano, com tradições cristãs duas vezes mais antigas e muito mais fortes que as dos distritos nórdicos da Alemanha, obrigados pela conquista dos exércitos de Carlos Magno e seus sucessores a aceitar a doutrina cristã, sua prática e a apartar-se da barbárie. Se o governo inglês não tivesse variado, a reação a favor da unidade, quando se produziu, teria sido avassaladora. Em uma palavra, a separação da Inglaterra e a Igreja constituiu, entre outros fatores de maior ou menor importância, o fator principal do sucesso definitivo de nosso desmembramento. O afastamento artificial dos ingleses do resto da Europa tornou permanente a separação da cristandade. [...]

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A unidade do Sacrifício cristão

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Quase todos sabem que a censura principal do protestantismo contra a doutrina católica do sacrifício eucarístico é este: a Igreja Católica, ao ensinar a necessidade de um segundo sacrifício, nega virtualmente a suficiência total do sacrifício do Calvário. Entretanto, a Igreja nunca cessou de proclamar por todos os meios ao seu alcance que seu sacrifício eucarístico não constitui de forma alguma uma abolição do sacrifício natural de Cristo na Cruz, mas é, pelo contrário, uma tributada à grande ação redentora de Cristo. O sacrifício do altar cristão e do Calvário são um mesmo sacrifício, ensina a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, a Igreja sustenta que o sacrifício eucarístico o é, em toda extensão da palavra, um ato que se renova diariamente, mesmo que seja o antigo sacrifício. Se unem de forma particular, portanto, nesta matéria divina, a unidade e a dualidade. Opino que, se não nos segurarmos fortemente no conceito sacramental do sacrifício eucarístico, será impossível refutarmos o argumento protestante. Mas, uma vez que fizemos alusão do verdadeiro sentido do sacramento, a dificuldade proposta se desvanece e ressalta a unidade fundamental do sacrifício cristão.

Se o sacrifício eucarístico fosse, de alguma maneira, natural, seria impossível evitarmos o fato de que haveria dois sacrifícios diferentes, o que levaria à pergunta de “por que dois sacrifícios?” de forma absolutamente lógica. A circunstancia de que o segundo sacrifício se realiza em condições totalmente distintas não nos permitiria evitar esta conclusão; se o sacrifício é in natura, por mais encoberto que seja, é, de fato, outro sacrifício e não o mesmo.

Mas se, por sua vez, o sacrifício é um sacramento em todo sentido do termo, não pode ser um novo holocausto, e se transforma na representação pura e simples do sacrifício histórico ou natural.

Se no sacrifício eucarístico houvesse uma imolação, uma morte, ou um ato heróico de qualquer tipo que não formasse parte do sacrifício da Cruz, se converteria imediatamente num segundo sacrifício, pois em tal caso ocorreria no mundo da graça algo novo, algo que não se realizou na Cruz.

O que constitui o prodígio e natureza própria do sacramento cristão é, precisamente, ser um ato que pode repetir-se de forma indefinida, mesmo que seu conteúdo (ou objeto) permaneça imutável.

Tal é o papel representativo do sacramento cristão. Coisa semelhante não pode acontecer fora da esfera sacramental: o sacramento não é, por acaso, este mistério da incessante repetição ou representação de uma coisa imutável em si mesma? Se Cristo se apresentasse aos nossos olhos em seu estado natural e nessas condições fosse oferecido ao Pai, esta nova vinda e nova oferenda seriam feitos históricos e formariam novas etapas na existência do Filho de Deus. A presença sacramental e a oferenda sacramental não são acontecimentos históricos na vida de Cristo; não constituem capítulos diferentes no livro de Sua existência, mesmo que, naturalmente, o ato pelo qual instituiu a Eucaristia, oferecendo-se pela primeira vez, é um fato fundamental em sua trajetória histórica. Ser oferecido sacramentalmente não forma parte da existência histórica do Filho de Deus. Se existe repetição nos atos, não a efetua Cristo, mas a Igreja militante na terra. “Assim como o que oferecemos em diversos lugares é um só Corpo e não muitos Corpos, do mesmo modo é um único sacrifício”. Sicut enim quod ubique offertur unum est corpus et non multa corpora, ita et unum sacrificium (III, Q. LXXXIII, art. I ad 1m.)

É curioso observar como um erro de princípio nestas altas disciplinas pode conduzir a divergências profundas de pensamento e, até mesmo, a apresentações perigosas da verdade católica. Para salvaguardar a unidade do sacrifício cristão, foi formulado em nossos dias a estranha hipótese de que o sacrifício eucarístico, mas que uma representação do sacrifício da Cruz, é uma parte integrante dele. Se considera a ambos os sacrifícios, o atual e o da Última Ceia, como outras etapas do grande sacrifício total que culminou sobre a Cruz.

Não me proponho criticar as diversas opiniões teológicas. Entretanto, é algo certo que considerar o sacrifício eucarístico como parte integrante do sacrifício universal equivale a deformar e alterar o papel que a tradição atribui ao sacramento. Por mais importante que seja o drama, o sacramento não forma parte dele; é, por sua própria essência, a representação do drama já terminado. O drama histórico deve encontrar-se completo antes que possam existir sacramentos, já que eles são memoriais do fato realizado, e não prólogos nem epílogos de grandes acontecimentos históricos. Se o sacrifício eucarístico fosse, de alguma forma, parte de um sacrifício universal, se representaria unicamente a si mesmo; conteria somente a si mesmo; não aplicaria outra graça além da que lhe corresponde como parte; não conteria outra imolação além da justificada por seu caráter limitado dentro de uma realidade superior. Entretanto, o sacramento cristão e, principalmente, o sacramento-sacrifício,, é uma representação, uma aplicação, uma imolação e uma plenitude de toda a imensidão do sacrifício universal. Se desejamos salvar a integridade essencial de nossa Missa, devemos vê-la como algo que existe por si mesmo, e nunca como o começo ou o fim de outra realidade, por mais divina e poderosa que seja.

Compreendo bem a tentação intelectual de quem abandonou o ponto de vista sacramental em termos gerais e, especialmente, a visão sacramental do sacrifício eucarístico. Se encontra diante de uma dualidade desconcertante, e crê vencê-la fazendo da Missa uma parte do sacrifício cristão. Crê, assim, no que poderíamos chamar de unidade orgânica, se é que podemos considerar “uno” aos diversos membros de um mesmo corpo. Na teoria que acabamos de mencionar, a Missa se converte em um membro, não no corpo inteiro. No conceito tradicional, pelo contrário, a Missa é o todo; contém Cristo totalmente, com todo o tipo de integridade que descrevemos no capítulo anterior. Não é, por acaso, um dos princípios básicos do sacrifício eucarístico a plenitude e o caráter definitivo do holocausto da Cruz? Se a Missa acrescentasse algo à Cruz, deixaria de ser sacramento, deixaria de representar. A Missa é a recordação, o memorial, da Paixão de Cristo. Que outra coisa representa o monumento se não for a vitória completa, o ato heróico,
o triunfo definitivo? Não erguemos monumentos aos fracassos, nem aos projetos não concluídos. Remover algo da plenitude do sacrifício da Cruz, por um lado, e da plenitude do sacrifício da Missa, por outro, não é uni-los em um único organismo, mas destruir os dois. É impossível aqui fazer um todo com duas metades, pois o sacramento e a realidade natural são coisas totalmente diferentes. Se unificam por meio dessa mesma diversidade, como já disse, pois um é a representação completa da totalidade da outra. A visão tradicional da Igreja, como provarei adiante, é que o sacrifício do Calvário foi completo e perfeito dentro do gênero “sacrifício”; a Eucaristia não pode acrescentar-lhe nada, pois ela é de fato “o resplendor de sua glória e figura de sua substância”.

Voltando ao argumento protestante, podemos ainda responder que essa posição é compreensível se é negado todo o sistema sacramental, raízes e ramos, convertendo a fé em um único caminho até Cristo; mas caso se admita algum sacramento-regeneração, há de admitir-se o sacramento-sacrifício; falo aqui do Batismo e da Eucaristia.

Em ambos os casos não existe mais que uma representação – no sentido técnico do termo – da Morte de Cristo, e sua aplicação à alma em particular. Se o Batismo não é uma abolição do sacrifício de Cristo sobre o Gólgota mas, pelo contrário, é o sinal da vitória do Senhor, por que a Eucaristia seria uma abolição? Em ambos os casos não tratamos com outros modos de contato entre as almas e o Cristo histórico? O sacrifício eucarístico poderá ser um contato mais vivo, mais ardente, caso prefira, mais cheio de virtude ativa que de passividade, já que contém uma substância divina; mas, apesar de tudo, não existe diferença radical, em termos rigorosamente teológicos, entre Batismo e Eucaristia, considerando esta última em sua verdadeira função sacramental de sacrifício e alimento espiritual.

Conviria solucionar agora uma dificuldade que pode desconcertar aos pensadores mais minuciosos, aos analistas mais finos de questões teológicas. O sacrifício eucarístico foi oferecido pela primeira vez na Última Ceia, antes que tivesse lugar o sacrifício natural da Cruz. Isso não indica que o sacrifício da Eucaristia constitui, de certa forma, o inicio de todo o processus da imolação cristológica? Cristo por acaso não realizou, ao oferecer-se em sacrifício no cenáculo, o primeiro ato desse sacerdócio que culminou no Calvário? Repito aqui o que seria extremamente difícil, se não impossível, localizar a Última Ceia no quadro da redenção, se damos ao sacrifício eucarístico o sentido e o valor de um sacrifício natural. Se o fosse, seriamos obrigados a aceitar a conclusão de que o mundo foi redimido antes que Cristo derramasse sua primeira gota de sangue, uma vez que a Última Ceia possuiria, por direito próprio, valor infinito de sacrifício.

A outra alternativa naturalmente seria a que alguns teólogos modernos adotam, cujas opiniões já citei; eles consideram a Última Ceia como o primeiro ato de um sacrifício universal, fazendo com que a realidade natural e sacramental se apóiem mutuamente. Apesar disso, se admitimos desde o princípio a visão sacramental do sacrifício eucarístico, toda dificuldade desaparece. Uma vez que o sacramento é, por essência, uma representação, Cristo poderia instituí-lo em qualquer momento, desde que exista corporalmente na realidade da Encarnação, e não somente na esperança dos crentes.

Essa realidade imensa, Cristo imolado na Cruz, poderia ser representada antes ou depois do Calvário, e mesmo que o sacramento derive toda sua verdade e eficácia da Morte de Cristo, sua instituição, celebração e até mesmo seu uso podem preceder a essa morte. A celebração do sacrifício que Cristo realizou não substituiu a finalidade da Cruz, como também não a substituiu a primeira fração de pão efetuada na Igreja cristã depois da vinda do Espírito Santo. Somente os sacramentos estão sublimados de tal forma acima dos acontecimentos históricos.

Falando do Batismo, São Tomás nos apresenta sucintamente a teologia dessas maravilhosas “antecipações” de Nosso Senhor. Considerando como coisa certa que os homens poderiam ter recebido o batismo antes mesmo da morte de Cristo na Cruz, ele afirma: “Mesmo antes da Paixão de Cristo, o Batismo recebia sua eficácia dessa Paixão, uma vez que a prefigurava, mas a figurava de forma diferente dos sacramentos da Lei Antiga, que eram exclusivamente figuras, enquanto que o Batismo, antes da Morte de Cristo, recebia o poder de justificar desse mesmo Cristo, cuja virtude a Paixão havia de transforma-se em fonte de salvação”. Etiam ante passionem Christi baptismus habebat efficaciam a Christi passione, in quantum eam praefigurabat: aliter tamen, quam sacramenta veteris legis, nam illa erant figurae tantum; baptismus autem ab ipso Christo virtutem habebat justificandi, per cujus virtutem ipsa etiam passio salutifera fuit (III. Q. LXVI, art. II ad 1m).

Aplicando esta doutrina ao sacrifício eucarístico da Última Ceia, podemos dizer que ele prefigurava o sacrifício da Cruz; o Cristo que logo daria sua a própria Carne e Sangue naturais o poder de redimir a humanidade, deu ao pão e vinho a virtude de representar sacramentalmente essa mesma Carne e Sangue. Não é preciso considerar, como certos pregadores gostam de fazer, o sacrifício eucarístico da Última Ceia como um voto final do Filho de Deus, comprometendo-se a morrer na Cruz. O conceito tradicional sobre a Última Ceia é de teor sacramental: Cristo, perto de abandonar este mundo, nos deixou o memorial (ou monumento) de Si mesmo; nada intrínseco à natureza desse monumento o obrigava a instituí-lo depois do próprio feito. O monumento é de natureza tal que pode ser erguido antes, uma vez que é um sacramento. A instituição do sacramento eucarístico da Última Ceia não foi somente o voto de Cristo oferecendo-se para morrer, mas o triunfo antecipado de Cristo sobre a morte.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Um Protestante histórico descobre a Igreja Católica – História de conversão de A.David Anders, Ph.D.

Eu cresci como um protestante evangélico, em Birmingham, Alabama. Meus pais eram amorosos e dedicados, sinceros em sua fé, e profundamente envolvidos na nossa igreja. Eles embutiram em mim um respeito pela Bíblia como a Palavra de Deus, e um desejo de uma fé viva em Cristo. Missionários freqüentavam a nossa casa e nos trouxeram seu entusiasmo pelo seu trabalho. As estantes de livros em nossa casa estavam cheias de teologia e apologética. Desde cedo, eu absorvi a noção de que o ponto mais alto possível na vocação era ensinar a fé cristã. Acho que não é nenhuma surpresa que eu me tornei um historiador da Igreja, mas tornar-se um católico era a última coisa que eu esperava.

A Igreja da minha família era nominalmente Presbiteriana, mas as diferenças denominacionais significava muito pouco para nós. Eu freqüentemente ouvia que divergências sobre o batismo, ceia do Senhor,  ou o governo da igreja não eram importantes, enquanto se acreditava no Evangelho. Por isso, quis dizer que a pessoa deve "nascer de novo", que a salvação é pela fé, e que a Bíblia é a única autoridade para a fé cristã. Nossa igreja apoiou os ministérios de muitas denominações protestantes diferentes, mas o nosso grupo certamente se opunha a Igreja Católica.

O mito de que os protestantes "recuperaram" o Evangelho era forte em nossa igreja. Eu aprendi muito cedo a idolatrar os reformadores protestantes Martinho Lutero e João Calvino, porque supostamente haviam resgatado o Cristianismo e as trevas do catolicismo medieval. Os católicos eram os que confiavam em "boas obras" para levá-los para o céu, que valoravam à tradição ao invés das Escrituras, e que adoravam Maria e os santos em vez de Deus. Sua obsessão com os sacramentos também criou um enorme obstáculo para a verdadeira fé e um relacionamento pessoal com Jesus. Não havia dúvida. Os católicos não eram  cristãos verdadeiros.

Nossa igreja era caracterizada por uma espécie de intelectualismo confiante. Presbiterianos tendem a ser bastantes preparados teologicamente, e professores de seminário, apologistas, cientistas e filósofos eram oradores freqüentes em nossas conferências. Foi essa atmosfera intelectual que atraiu o meu pai para a igreja, e suas estantes estavam alinhadas com as obras do reformador João Calvino, e os puritanos Jonathan Edwards, bem como autores mais recentes como BB Warfield, AA Hodge, C.S. Lewis e Francis Schaeffer. Como parte dessa cultura acadêmica, tomamos como certo que a investigação honesta levaria qualquer um a nossa versão da fé cristã.

Todas estas influências deixaram impressões definitivas sobre mim enquanto criança. Eu percebia o cristianismo como um pouco parecido com a física newtoniana. A fé cristã consistia em certas leis eminentemente razoáveis ​​e imutáveis​​, e você estava garantido a vida eterna, desde que você construísse a sua vida de acordo com esses princípios. Eu também pensei que esta era a mensagem claramente enunciada no livro oficial da teologia cristã: a Bíblia. Somente a confiança irracional na tradição humana ou indiferença depravada poderia explicar o fracasso de alguém para agarrar estas verdades simples.

Havia uma estranha ironia neste ambiente altamente religioso e teológico. Deixávamos claro que era a fé e não as obras que salva. Também confessamos a crença protestante clássica que todas as pessoas são "totalmente depravadas", o que significa que até mesmo os seus melhores esforços morais são intrinsecamente odiosa para Deus e pode merecer nada. No momento em que cheguei no ensino médio, eu juntei essas peças e conclui que a prática religiosa e esforço moral eram mais ou menos irrelevantes para a minha vida. Não é que eu tenha perdido a minha fé. Pelo contrário, eu a absorvi completamente. Eu tinha aceitado a Cristo como meu Salvador e era "nascido de novo." Eu acreditava que a Bíblia era a palavra de Deus. Eu também acreditava que nenhum dos meus trabalhos religiosos ou morais tinham qualquer valor. Então eu parei de praticá-los.

Felizmente, minha indiferença durou apenas alguns anos, e eu tive uma verdadeira reconversão à fé na faculdade. Descobri que a minha necessidade de Deus era mais profunda do que simples "seguro contra incêndio." Eu também conheci uma linda menina com quem eu comecei a ir aos trabalhos protestantes . Jill tinha crescido nominalmente como católica, mas não conseguiu manter-se a prática de sua fé após a confirmação. Juntos, nós nos encontramos crescendo mais profunda na fé protestante, e depois de alguns meses, ambos tornaram-se desiludido com a atmosfera mundana da nossa Universidade de Nova Orleans. Concluiu-se que o Centro-Oeste e a Universidade evangélica Wheaton College iria proporcionar um ambiente mais espiritual, e nós dois fomos transferidos no meio do nosso segundo ano ( Em Janeiro de 1991).

Wheaton College é como um farol para cristãos evangélicos sinceros de várias origens. Protestantes de diversas denominações diferentes estão representados, unidos em seu compromisso com Cristo e na Bíblia. Minha infância me ensinou que a teologia, apologética e evangelismo são a maior vocação do cristão, e eu encontrei-los todos em oferta abundante no Wheaton. Foi aí que pensei pela primeira vez de dedicar minha vida ao estudo da teologia. Foi também em Wheaton que Jill e eu nos tornamos noivos.

Depois de graduados, Jill e eu nos casamos no Trinity Evangelical Divinity School, em Chicago. Meu objetivo era ter uma educação de seminário, e, eventualmente, completar um Ph.D. Eu queria me tornar um daqueles professores de teologia que tinha sido tão admirado na igreja da minha juventude.

Atirei-me no seminário com desprendimento. Eu amei meus cursos de teologia,  Escritura, história da Igreja, e eu prosperei na fé, na confiança e no senso de missão que permeava a escola. Eu também abracei sua atmosfera anti-católica. Eu estava lá em 1994, quando o documento "Evangélicos e Católicos Unidos [1]" foi publicado pela primeira vez e a faculdade era quase em sua totalidade hostil a ele. Eles viram qualquer compromisso com os católicos como uma traição da Reforma. Os católicos não eram simplesmente irmãos no Senhor. Eles eram apóstatas.

Eu aceitei as atitudes anti-católicas dos meus professores de seminário, por isso, quando chegou a hora de seguir em frente nos meus estudos, decidi focar em um estudo histórico da Reforma. Eu pensei que não poderia haver uma melhor preparação para atacar a Igreja Católica e ganhar convertidos do que em conhecer profundamente as mentes dos grandes líderes de nossa fé - Martinho Lutero e João Calvino. Eu também queria entender toda a história do cristianismo para que eu pudesse colocar a Reforma no contexto. Eu queria ser capaz de mostrar como a igreja medieval tinha deixado a verdadeira fé e como os reformadores tinha recuperado-o. Para este fim, comecei meu Ph.D. em estudos de teologia histórica na Universidade de Iowa. Eu nunca imaginei que a história da Reforma da Igreja iria fazer com que eu me tornasse me um Católico.

Antes que eu começasse meus estudos em Iowa, Jill e eu testemunhamos o nascimento do nosso primeiro filho, um menino. Seu irmão nasceu há menos de dois anos depois, e uma irmã chegou antes de sairmos Iowa (agora temos cinco filhos). Minha esposa estava muito ocupada cuidando destas crianças, enquanto eu me comprometi quase inteiramente com meus estudos. Vejo hoje que eu passei muito tempo na biblioteca e não tempo suficiente com a minha esposa, meus filhos pequenos e minha filha. Eu acho que justifiquei essa negligência por confiar no meu senso de missão. Eu tinha uma vocação - testemunhar a fé através do estudo teológico - e uma visão intelectual da fé cristã e meu dever cristão. Para os cristãos evangélicos, o que se acredita é mais importante do que o que se vive. Eu estava aprendendo a defender e promover essas crenças. O que poderia ser mais importante?

Eu comecei meus estudos doutorais  em setembro de 1995. Fiz cursei vários cursos: Igreja Primitiva, Medieval e história da Reforma da Igreja. Eu li os Padres da Igreja, os teólogos escolásticos, e os reformadores protestantes. Em cada etapa, tentei relacionar teólogos posteriores para os anteriores, e todos eles com as Escrituras. Eu tinha um objetivo de justificar a Reforma e isso significava, acima de tudo, investigar a doutrina da "justificação pela fé." Para os protestantes, esta é a doutrina mais importante a ser "recuperada" pela Reforma.

Os reformadores tinham insistido que eles estavam seguindo a Igreja Primitiva ao ensinar o "somente pela fé" e como prova apontou para os escritos do Padre da Igreja Agostinho de Hipona (354-430). Meus professores de seminário também apontaram para Agostinho como a fonte originária da teologia protestante. A razão para isso era interesse de Agostinho nas doutrinas do pecado original, graça e justificação. Ele foi o primeiro dos Padres para tentar uma explicação sistemática desses temas paulinos. Ele também chamou atenção para um nítido contraste entre "obras" e "fé" ( cf. sua On the Spirit and the Letter, 412 dC). Ironicamente, foi a minha investigação desta doutrina e de Santo Agostinho, que fez com que eu começasse a minha viagem para a Igreja Católica.

Minha primeira dificuldade surgiu quando comecei a entender o que realmente Agostinho ensinou sobre a salvação. Em poucas palavras, Agostinho rejeitou a "Sola Fide”. É verdade que ele tinha um grande respeito pela fé e graça, mas viu estes principalmente como fonte de nossas boas obras. Agostinho ensinou que nós literalmente "merecemos” vida eterna quando nossas vidas são transformadas pela graça. Isto é completamente diferente da do ponto de vista protestante.

As implicações da minha descoberta foram profundas. Eu sabia o suficiente pelos meus dias de faculdade e seminário para entender que Agostinho ensinava nada menos que a doutrina católica romana da justificação. Eu decidi passar para Padres anteriores da Igreja em minha busca pela "fé pura" da antiguidade cristã. Infelizmente, os Padres da Igreja anteriores ajudavam menos do que Agostinho.

Agostinho tinha vindo da língua Latina do norte da África. Outros vieram de Ásia Menor, Palestina, Síria, Roma, Gália, e no Egito. Eles representavam diferentes culturas, falavam diferentes línguas , e foram associados a diferentes apóstolos. Eu pensei que seria possível que alguns deles podem ter entendido mal o Evangelho, mas parecia improvável que todos iriam ser confundidos. A verdadeira fé tinha de ser representada por algum lugar do mundo antigo. O único problema era que eu não poderia encontrá-lo. Não importa para onde eu olhava, em qualquer continente, em qualquer século, os Padres concordavam: a salvação vem por meio da transformação da vida moral e não somente pela fé. Eles também ensinaram que essa transformação começa e é alimentada nos sacramentos, e não através de alguma experiência de conversão individual.

Nesta fase da minha jornada eu estava ansioso para continuar a ser um protestante. Toda a minha vida, casamento, família e carreira estavam ligados ao protestantismo. As minhas descobertas na história da Igreja eram uma enorme ameaça para a minha identidade, então eu foquei para estudos bíblicos que proporcionassem conforto e ajuda. Eu pensei que se eu pudesse ser absolutamente confiante nos recurso dos reformadores com as Escrituras, então eu basicamente poderia demitir 1500 anos de história cristã. Evitei a erudição católica, ou livros que eu achava que tinham a intenção de minar a minha fé, e preferi me concentrar no que eu achava que eram as obras protestantes mais objetivas, históricas e também de erudição bíblica. Eu estava procurando por uma prova sólida de que os reformadores estavam certos em sua compreensão de Paulo. O que eu não sabia era que o melhor erudito protestante do século XX já havia rejeitado a leitura de Lutero da Bíblia.

Lutero baseou toda a sua rejeição a Igreja sobre as palavras de Paulo: "Uma pessoa é justificado pela fé, independentemente das obras da lei" (Romanos 3: 28). Lutero assumiu que este contraste entre "fé" e "obras" significava que não havia papel para a moralidade no processo de salvação (de acordo com a visão tradicional protestante, o comportamento moral é uma resposta para a salvação, mas não um fator contribuinte). Eu tinha aprendido que os primeiros Padres da Igreja rejeitaram essa visão. Agora eu tinha encontrado toda uma gama de estudiosos protestantes que também estavam dispostos a testemunhar que isso não era o que Paulo queria dizer.

Os Padres da Igreja do século II acreditavam que Paulo havia rejeitado a relevância somente da lei judaica para a salvação ("obras da lei" = lei mosaica). Eles viram a fé como a entrada para a vida da Igreja, dos sacramentos, e do Espírito. A fé nos admite por meio da graça, mas não é em si um motivo suficiente para a salvação. O que eu vi nos mais recentes e altamente respeitados estudiosos protestantes era o mesmo ponto de vista. A partir do último terço do século XX, estudiosos como EP Sanders, Krister Stendhal, James Dunn, e N. T. Wright têm argumentado que o protestantismo tradicional  mal interpretou profundamente Paulo. De acordo com Stendhal e outros, a justificação pela fé é principalmente sobre as relações judeus e gentios, e não sobre o papel da moralidade como condição de vida eterna. Juntos, o seu trabalho tem sido referido como "A Nova Perspectiva sobre Paulo".

Minha descoberta desta "Nova perspectiva" foi um divisor de águas na minha compreensão das Escrituras. Eu vi, para começar, que a "Nova perspectiva" era a "Velha Perspectiva" dos primeiros Padres da Igreja. Comecei a testá-la contra a minha própria leitura de Paulo e descobri que ela tinha sentido. Ela também resolveu a tensão de longa data que eu sempre senti entre Paulo e o resto da Bíblia. Mesmo Lutero tinha tido dificuldade em conciliar sua leitura de Paulo com o Sermão da Montanha, a epístola de São Tiago e o Antigo Testamento. Uma vez eu que apliquei a "Nova Perspectiva" esta dificuldade desapareceu. Relutantemente, eu tive que aceitar que os reformadores estavam errados sobre a justificação.

Essas descobertas no meu trabalho acadêmico foram paralelas em certa medida com descobertas na minha vida pessoal. A teologia protestante distingue fortemente crença de comportamento, e eu comecei a ver como isso me afetou. Desde a infância, eu sempre tinha identificado teologia, apologética e evangelismo como a mais alta vocação na vida cristã, enquanto as virtudes deveriam ser meros frutos da crença correta. Infelizmente, descobri que os frutos não estam apenas faltando em minha vida, mas que minha teologia tinha realmente contribuído para os meus vícios. Ele me fez severo, orgulhoso, e argumentativo. Eu também percebi que eu tinha feito a mesma coisa que os meus heróis.

Quanto mais eu aprendia sobre os reformadores protestantes, menos eu gostava deles como pessoas. Eu reconheci que o meu próprio fundador, João Calvino, era um homem arrogante e auto-confiante, que foi brutal para seus inimigos, nunca aceitou a responsabilidade pessoal e condenou qualquer um que não concordavam com ele. Ele chamou a si mesmo de profeta e atribuiu autoridade divina no seu próprio ensino. Isto contrasta totalmente com o que eu estava aprendendo sobre os teólogos católicos. Muitos deles eram santos, o que significa que eles tinham vivido vidas de caridade heróica e abnegação. Mesmo os maiores deles - homens como Agostinho e Tomás de Aquino - também reconheceram que eles não tinham autoridade pessoal para definir o dogma da Igreja.

Exteriormente, permaneci firme como anti-católico. Eu continuei a atacar a Igreja e a defender a Reforma, mas interiormente eu estava em agonia psicológica e espiritual. Descobri que minha teologia e trabalho da minha vida foram fundadas em uma mentira, e que a minha própria vida ética, moral e espiritual estavam profundamente carente. Eu estava perdendo rapidamente a minha motivação para contestar o Catolicismo, e em vez disso eu queria simplesmente para saber a verdade. Os reformadores protestantes tinham justificado a sua revolta por um apelo à "Sola Scriptura – Só as Escrituras." Meus estudos na doutrina da justificação tinham me mostrado que as Escrituras não eram tão clara como os Reformadores tinham alegado. E se todo o seu apelo às Escrituras foi equivocado? Por que, afinal, eu trataria as Escrituras como a autoridade final?

Quando eu levantei essa questão para mim mesmo, percebi que eu não tinha uma boa resposta. A verdadeira razão pela qual eu apelei ao Sola Scriptura era que isso era o que tinham me ensinado. Ao estudar o assunto, descobri que nenhum protestante deu alguma vez uma resposta satisfatória para esta pergunta. Os reformadores realmente não defenderam a doutrina do "Somente a Escritura." Eles simplesmente a afirmaram. Pior ainda, eu aprendi que os teólogos protestantes modernos que tentaram defender "Somente a Escritura" o fizeram por um apelo à tradição. Isso me pareceu ilógico. Eventualmente, eu percebi que "somente a Escritura" não existe nem nas Escrituras. A doutrina é auto-refutável. Vi também que os primeiros cristãos não acreditam no “ Somente as Escrituras” do mesmo modo que não criam na “ Somente pela Fé”. Sobre as questões de “como nós somos salvos”? e “como nós definir a fé”?, o mais antigo Cristãos encontraram seu centro na Igreja. A Igreja era tanto a autoridade pela qual sabíamos qual era a doutrina cristã, como também era instrumento de salvação.

A Igreja era uma questão que sempre voltava pra mim. Os evangélicos tendem a ver a Igreja como simplesmente uma associação de fiéis “like-minded” [ da mesma opinião/pessoas com interesses semalhantes]. Até mesmo os reformadores, Lutero e Calvino, tinha uma visão muito mais forte da Igreja do que isso, mas os antigos cristãos tinham a doutrina mais sublime de todas. Eu costumava ver sua ênfase na Igreja como anti-bíblica, ao contrário do "Somente a Fé", mas eu comecei a perceber que minha tradição evangélica  era que era anti-bíblica.

A Escritura ensina que a Igreja é o Corpo de Cristo (Efésios 4:12). Os evangélicos tendem a descartar isso como uma mera metáfora , mas os antigos cristãos pensavam nisso como ,literalmente, embora misticamente,     verdadeiro. São Gregório de Nissa pode dizer: " Aquele que contempla a Igreja realmente contempla Cristo. "  Quando eu pensei sobre isso, eu percebi que ele falou uma verdade profunda sobre o significado bíblico de salvação. São Paulo ensina que os batizados foram unidos a Cristo na Sua morte, para que também eles sejam unidos a Ele na ressurreição (Romanos 6:3-6 ) . Esta união , literalmente, faz o cristão um participante da natureza divina (2 Pedro 1:4). Santo Atanásio poderia até dizer , "Porque Ele se fez homem para que pudéssemos ser feitos como Deus" ( de Incarnatione , 54.3 ) . A antiga doutrina da Igreja agora fazia sentido para mim , porque eu vi que a própria salvação nada mais é que a união com Cristo e um crescimento contínuo em Sua natureza. A Igreja não é uma mera associação de pessoas com interesses semelhantes. É uma realidade sobrenatural porque compartilha da vida e ministério de Cristo.

Essa percepção também fez com que adquire-se sentido a doutrina sacramental da Igreja. Quando a Igreja batiza, absolve os pecados, ou, acima de tudo, oferece o Santo Sacrifício da Missa, é realmente Cristo quem batiza, absolve, e oferece Seu próprio Corpo e Sangue. Os sacramentos não diminuem Cristo. Ele se faz presente neles.

A antiga doutrina cristã da Igreja da veneração dos santos e mártires também fez sentido. Eu aprendi que a doutrina católica sobre os santos é apenas um desenvolvimento da doutrina bíblica do corpo de Cristo. Os católicos não adoram os santos. Eles veneram Cristo em seus membros. Ao invocar a sua intercessão, os católicos apenas confessam que Cristo está presente e operante na sua Igreja no céu. Os protestantes freqüentemente objetam que a veneração dos santos católicos de alguma forma diminui o ministério de Cristo. Eu entendi agora que o inverso é verdade. São os protestantes que limitam o alcance da obra salvadora de Cristo, negando suas implicações para a doutrina da Igreja.

Meus estudos mostraram essa teologia concretizada na devoção da Igreja Primitiva. Como eu continuei a minha investigação de Agostinho, eu aprendi que esse "herói protestante" abraçou completamente a veneração de santos. Um estudioso sobre a obra de Agostinho chamado Peter Brown (nascido em 1935) também me ensinou que os santos não estavam relacionados com o cristianismo antigo. Ele argumentou que não se pode separar o cristianismo antigo da devoção aos santos, e ele colocou Agostinho diretamente nesta tradição. Brown mostrou que esta não era uma mera importação pagã do cristianismo, mas sim ligada intimamente à noção cristã de salvação (Veja o The Cult of Saints:  Its Rise and Function in Latin Christianity).).

Quando entendi a posição católica sobre a salvação, a Igreja e os santos, os dogmas marianos também pareciam se encaixar. Se o coração da fé cristã é a união de Deus com a nossa natureza humana, a Mãe da natureza humana tem um papel extremamente importante e único em toda a história. Por isso, os Padres da Igreja sempre celebrou Maria como a segunda Eva. O seu "sim" a Deus na anunciação desfez o "não" de Eva no jardim. Se é apropriado venerar os santos e mártires da Igreja, quanto mais é apropriado dar honra e veneração a aquela que tornou possível nossa redenção?

No momento em que eu terminei meu doutorado, eu tinha revisto completamente a minha compreensão da Igreja Católica. Vi que a sua doutrina sacramental, a sua visão da salvação, sua veneração a Maria e aos santos, e suas reivindicações de autoridade eram todas fundamentada nas Escrituras, nas tradições mais antigas, e no claro ensino de Cristo e dos apóstolos. Eu também percebi que o protestantismo era uma massa confusa de inconsistências e lógica torturante. Não só era falsa doutrina protestante, mas uma deturpação que não poderia ela mesmo permanecer inalterada. Quanto mais eu estudava, mais eu percebia que a minha herança evangélica tinha se movido para longe não só do cristianismo primitivo, mas também do ensino de seus próprios fundadores protestantes.

Os modernos Evangélicos americanos ensinam que a vida cristã começa quando você "convida Jesus para entrar em seu coração." Conversão pessoal (o que eles chamam de "nascer de novo") é visto como a essência e o começo da identidade cristã. Eu sabia que a partir de minha leitura dos Padres que este não era o ensino da Igreja primitiva. Eu aprendi a estudar os reformadores que este não era o mesmo ensino dos primeiros protestantes. Calvino e Lutero tinham            inequivocamente identificado o batismo como o início da vida cristã. Eu olhei em vão em suas obras para qualquer exortação a "nascer de novo." Eu também aprendi que não eles não descartaram a Eucaristia como sem importância, como eu fiz. Enquanto eles rejeitaram a teologia católica sobre os sacramentos, ambos continuaram a insistir que Cristo está realmente presente na Eucaristia. Calvino mesmo ensinou em 1541 que uma compreensão adequada da Eucaristia é "necessária para a salvação." Ele não sabia nada do  Cristianismo “nascido de novo” individualista no qual eu tinha crescido.

Eu terminei a meu doutorado em Dezembro de 2002. Os últimos anos de meus estudos foram realmente negros. Mais e mais, pareceu-me que os meus planos foram ficando desequilibrados e meu futuro obscuro. Minha confiança foi fortemente abalada e eu realmente duvidava ou não, que poderia acreditar em qualquer coisa . Catolicismo começou a me parecer como a interpretação mais razoável da fé cristã , mas a perda da minha fé infância foi demolidora . Orei por orientação. No final, eu creio que foi a graça que me salvou. Eu tinha uma esposa e quatro filhos , e Deus finalmente me mostrou que eu precisava de mais do que  livros em minha vida. Sinceramente, eu também precisava de mais do que "somente a fé” . " Eu precisava de ajuda real para viver a minha vida e travar uma batalha com os meus pecados . Achei isso nos sacramentos da Igreja. Em vez de " Somente a Escritura :" Eu precisava de orientação verdadeira de um professor com autoridade. Achei isso no Magistério da Igreja . Eu descobri que eu precisava de toda a companhia dos santos no céu - não apenas seus livros sobre a terra. Em suma, eu achei que a Igreja Católica foi idealmente formada para atender as minhas reais necessidades espirituais . Além da verdade , descobri Jesus em Sua Igreja , através de Sua Mãe, em toda a companhia dos Seus santos. Entrei na Igreja Católica em 16 de novembro de 2003. Minha esposa também teve sua própria jornada para as profundezas da Igreja e hoje minha família está feliz e entusiasmada na Igreja Católica. Agradeço aos meus pais por me mostrarem a Cristo e as Escrituras. Agradeço a Santo Agostinho por ter me apontado a Igreja.


[1] “Evangelicals and Catholics Together” é um documento ecumênico de 1994 assinado pelos principais estudiosos evangélicos e católicos dos Estados Unidos. Os co-signatários do documento foram Charles Colson e Richard John Neuhaus, representando cada lado da discussão. Muitos evangélicos apreciaram o objetivo do acordo social no documento ECT, embora ainda estivessem em oposição a parte teológica do documento, devido as discordâncias entre Católicos e Evangélicos no que tange a Sola Fide [ Nota do Tradutor ].

Texto original : http://chnetwork.org/2012/02/a-protestant-historian-discovers-the-catholic-church-conversion-story-of-a-david-anders-ph-d/

Tradução : Arthur Olinto

sábado, 27 de julho de 2013

Como um ex-protestante abraçou o Catolicismo

 O seguinte testemunho é de Fábio Salgado, mais um protestante que encontrou a verdadeira Igreja de Jesus Cristo: a Igreja Católica.

http://fabiosalgado.blogspot.com.br/2013/07/minha-segunda-conversao-como-um-ex.html

***


Quando me converti ao Cristianismo no dia 25 de janeiro de 2009, prometi a algumas pessoas que descreveria aquilo que eu costumo de chamar "o meu caminho de Damasco" neste blog. Àqueles que conhecem a experiência de conversão de Paulo, que ainda se chamava Saulo — vejam o capítulo 9 de Atos —, sabem que a sua conversão deu-se quando ele estava a caminho de Damasco para prender cristãos — a imagem acima de Caravaggio chama-se "A conversão de São Paulo". Paulo teve uma experiência singular pessoal e intransferível. Creio que todo cristão genuíno, mesmo aqueles que nasceram e foram criados em um lar cristão, tem de ter o seu caminho de Damasco em algum momento. Tive o meu na referida data. Apesar da promessa, sempre adiei o projeto de escrever sobre a minha experiência porque acredito que deveria fazê-lo em um livro e que o espaço deste blog seria inadequado para relatar o ocorrido. As minha pretensão, entretanto, não é a de cumprir a minha antiga promessa, mas a de relatar o que chamei no título desta postagem como sendo a minha segunda conversão. Muitos já devem saber, e se não o sabiam sabem agora, que me converti ao Catolicismo. Antes, era um batista, evangélico, protestante; agora, sou um católico apostólico romano.

Antes, devo ressaltar que não tenho pretensões de converter ninguém. O meu objetivo aqui é o de registrar uma explicação da minha conversão a fim de não ter de repeti-la sempre, poupando-me de esforços desnecessários, embora tenha de confessar que ela ainda não está organizada suficientemente para que eu possa descrevê-la de maneira concisa — por isso, peço perdão, de antemão, se esta postagem apelar a digressões de modo excessivo ou se eu acabar estendendo-me em demasia. Não é a minha intenção aqui fazer uma apologética de todas as doutrinas católicas, até porque o espaço seria totalmente inadequado para tanto: precisaria escrever um livro para isso — de fato, há uma vasta literatura que já faz isso e procurarei indicar algumas leituras no decorrer deste texto não apenas para fundamentar o que digo, mas para oferecer um apoio de leitura a quem tiver o interesse sincero de conhecer a verdade.

Minha jornada ao Catolicismo, creio eu, iniciou-se em 2011. Como praticamente todos os protestantes que conheço — fui dar-me conta das proporções do anticatolicismo dos protestantes apenas muito recentemente —, conhecia o Catolicismo apenas por meio de chavões, caricaturas e espantalhos. Nunca tinha lido nada católico e só conhecia a Igreja Católica de segunda mão, a partir das críticas dos protestantes. Minha mãe, tomando conhecimento do meu catolicismo neste ano, perguntou-me certa feita: "Ué, você não dizia que tinha de ser muito burro pra ser católico?". Sim! Eu já disse isso antigamente, quando não tinha a menor idéia de como os católicos continuavam adorando as imagens depois de um texto tão claro como o de Êxodo 20.4: "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra" [Nova Versão Internacional (NVI) — uma tradução protestante!]. De maneira semelhante, cheguei a dizer quando era agnóstico, antes da minha conversão ao Cristianismo em 2009, que poderiam internar-me em um hospício se algum dia eu tornasse-me um cristão.

Acompanho o programa TrueOutspeak (http://www.blogtalkradio.com/olavo) do filósofo Olavo de Carvalho desde 2010. Mesmo tendo começado apenas em 2010, ouvi todos os programas desde 2006, o que são mais de 300 programas, com média de 50min de duração. O programa, que antes era semanal, passou a ser mensal neste ano. O professor Olavo chegou a anunciar o fim do programa em dezembro do ano passado, mas resolveu retomá-lo mensalmente por conta da enorme quantidade de protestos. O professor Olavo, por quem tenho imensa consideração, respeito e admiração, sempre iniciava os seus programas dizendo o seguinte: "Começamos mais uma vez invocando a santíssima Virgem Maria e o Santo Padre Pio de Pietrelcina para que roguem a Deus que nenhuma injustiça se cometa nesse programa". Quando percebi a erudição do professor Olavo e vi que ele era católico, logo pensei: "é... ninguém é perfeito.". Aquilo, entretanto, intrigava-me porque sabia que a última pessoa do mundo que eu diria que não estudou um assunto seria o professor Olavo. Será que ele, simplesmente, não sabia de passagens como a de Êxodo 20? Em 2011, ouvi um de seus programas citando o padre Paulo Ricardo (http://padrepauloricardo.org/). Procurei o seu site em outubro de 2011 e deixei uma pergunta que reproduzo aqui:

"Padre Paulo Ricardo, em primeiro lugar, parabéns pelo seu trabalho. Deus, com certeza, reserva o seu galardão no céu pela edificação que o senhor traz-nos com os seus vídeos e textos. Cresci na tradição protestante tradicional, para ser específico, a tradição Batista, e sempre tive uma visão bastante distorcida sobre o Catolicismo, baseada naquele catolicismo denunciado por Lutero no medievo. 

Tenho tentado despojar-me do preconceito para tentar compreender melhor a tradição católica e tenho me impressionado e me surpreendido quanto mais aprendo. Tenho quatro dúvidas que gostaria que me fossem respondidas se possível.

— A primeira pergunta refere-se à reza e às repetições. Jesus, antes de ensinar como se deve orar, disse o seguinte:

"E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes." [Mateus 6:7-8] 

Se logo antes de ensinar o Pai Nosso Cristo pede que não façamos uso de vãs repetições, por que se reza com repetições?

— A segunda pergunta refere-se às imagens. O segundo mandamento diz:
"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra." [Êxodo 20:4] 

Por que, então, faz-se imagens? 

— A terceira refere-se às intercessões feitas aos santos ou mesmo à virgem Maria. Paulo, diz o seguinte: 

"Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem." [1 Timóteo 2:5] 

Ora, se apenas Cristo é o mediador entre Deus e os homens, por que os católicos apelam a outros mediadores, além de Cristo? 

— A última refere-se à salvação. Uma das cinco solas da tradição reformada defende que o homem é justificado somente pela sua fé. Eu discordo disso, crendo que a salvação é obtida pela fé, numa conjunção com as obras. Se não fosse desse modo, o texto de Hebreus 12.14 não diria que sem a santificação ninguém verá o Senhor ou não se falaria de pecados que têm por conseqüência que não se verá a Deus. Costuma-se utilizar o argumento de que o converso, certamente, seguirá o caminho da santificação, mas acho tal argumento controverso e sem justificação. Qual a visão da Igreja Católica a respeito do assunto? Sempre ouvi dizer que ela prega que a salvação vem pelas obras.

Espero que as minhas perguntas sejam respondidas assim que possível e agradeço, desde já, a atenção dispensada. 

Paz de Cristo!
Fábio Salgado"
  Fiz algumas modificações na última pergunta porque na época fui impreciso, falando de "graça" em vez de fé. Não conhecia naquela época o documento assinado no dia 31 de outubro de 1999 intitulado "Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação".
(http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/documents/rc_pc_chrstuni_doc_31101999_cath-luth-joint-declaration_po.html)
No ponto 15 dessa declaração, luteranos e católicos afirmam: "Confessamos juntos: somente por graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa de nosso mérito, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para as boas obras". Esse documento é muito claro. Recentemente, um pastor disse para mim que a Igreja Católica não crê que somos salvos somente pela graça. Quando eu disse que ele estava errado, ele simplesmente disse que isso era óbvio. Quando eu mencionei esse documento, ele, simplesmente, disse que não iria ler nada. Nesse momento, tenho de deixar algo claro aqui. O professor Olavo de Carvalho, no seu já mencionado programa TrueOutspeak, certa feita, disse o seguinte:

"Se o cara não estudou, não sabe, tem é que calar a boca. Eu acho que o direito de ter opinião é proporcional ao interesse sincero que você tem pelo assunto. Se você não tem interesse pelo assunto pra você sequer ler alguma coisa, por que nós devemos ter interesse em ouvir a sua opinião?"

Aqueles que conhecem o tom do professor nesse programa — o tom dele nas suas aulas é completamente diferente — devem saber que o professor não foi tão educado e polido como procuro ser — infelizmente ou felizmente (não saberia dizer ao certo). Aqui está a sua fala completa: http://www.youtube.com/watch?v=pzZNeBam6ZQ . Concordo com ele: as pessoas não estudam e simplesmente querem opinar sobre aquilo que não entendem.

Voltando à minha pergunta de 2011, recebi a seguinte resposta no mesmo dia:

      "Salve Maria!
    Caro Fábio,
    Muito obrigado pela sua mensagem.
    Sua pergunta já foi encaminhada e na medida do possível, será respondida pelo Pe. Paulo Ricardo durante o podcast "A Resposta Católica".

    Aconselho que assista os vídeos dos links abaixo:
    http://padrepauloricardo.org/audio/18-a-resposta-catolica-intercessao-dos-santos/

    http://padrepauloricardo.org/audio/20-a-resposta-catolica-culto-aos-santos-e-sua-imagens/

    Gostaria de aproveitar a oportunidade e convidá-lo a participar dos cursos online do site padrepauloricardo.org e ajudá-lo nesse projeto de formação e incentivar outros a fazê-lo. Nele encontrará um vasto conteúdo para defender e ensinar a fé católica com mais firmeza e solidez.
    Ajude-nos a manter este trabalho de apostolado na internet, pela formação dos católicos, por amor a Santa Igreja e sua Sagrada Tradição.
    Contamos com as suas orações.
    Deus o abençoe sempre.

    Ad maiorem Dei gloriam
    Equipe Christo Nihil Praeponere - padrepauloricardo.org "


Os dois vídeos indicados foram o estopim para que eu percebesse que eu sabia absolutamente nada sobre o Catolicismo e que deveria dar-me ao trabalho de estudar seriamente o assunto. Infelizmente, na época, era um mero bolsista de iniciação científica da UnB e não tinha dinheiro para pagar o acesso ao site do padre Paulo Ricardo e sabia que meus pais nunca aceitariam ajudar-me a pagar cursos sobre o Catolicismo. No dia seguinte, mandei outra mensagem, angustiado com o pouco conhecimento que percebi ter:

    "Padre Paulo Ricardo, o senhor poderia indicar uma bibliografia para quem quer entender o Catolicismo? Além dos documentos da igreja, do ponto de vista da Teologia Católica, quais textos o senhor recomendaria?

    Abraço e paz de Cristo!"

Recebi a resposta, novamente, no mesmo dia:

    "Salve Maria!
    Caro Fábio,
    Muito obrigado pela sua mensagem.
    Recomendo que comece por estudar a História da Igreja.
    Segue abaixo algumas indicações:

    DUÉ, Andrea.  Atlas histórico do cristianismo. Aparecida-SP: Santuário; Petrópolis: Vozes, 1999.
    FRÖLICH, Roland. Curso básico de história da Igreja. 4ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.
    RATZINGER, Joseph. Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2005.
    BIHLMEYER; TUECHLE, Hermann.  História da Igreja: antiguidade cristã. São Paulo: Paulinas, 1964.
    DANIÉLOU, Jean; MARROU, Henri. Nova história da Igreja: dos primórdios a São Gregório Magno, v. 1. Petrópolis: Vozes, 1965.
    PIERINI, Franco. A idade antiga: curso de história da Igreja, vol. 1. São Paulo: Paulus, 1998.
    ROMAG, Dagoberto.  Compêndio de história da Igreja: a antiguidade cristã, v.1, 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1949.
    SESBOÜÉ, Bernard; WOLINSKI, Joseph.  O Deus da Salvação. Col.: SESBOÜÉ, B. (dir.) História dos Dogmas, vol. 1. São Paulo: Loyola, 2002.
    VERDETE, Carlos.  História da Igreja Católica: das origens até o cisma do Oriente (1054), v. 1. São Paulo: Paulus, 2006.
    DANIEL-ROPS, Henri. História da Igreja de Cristo. Tradução de Henrique Ruas; revisão de Emérico da Gama - São Paulo: Quadrante, (10 vols.), 2006.
    LLORCA, Bernardino; GARCÍA-VILLOSLADA, Ricardo e LABOA, Juan María. Historia de la Iglesia Católica. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (5 vols.), 2005.

    Contamos com as suas orações.
    Deus o abençoe sempre.

    Ad maiorem Dei gloriam
    Equipe Christo Nihil Praeponere"

Resolvi levar a sério a recomendação e comecei a estudar seriamente a história do Cristianismo e da Igreja Católica. Faço questão de ressaltar que fui respondido no mesmo dia porque já procurei corresponder-me com muitos pastores do meio cristão brasileiro, mas fui ignorado na maior parte das vezes. Creio que o estrelato deve ter subido às suas cabeças, pois consigo corresponder-me mais facilmente com filósofos estrangeiros extremamente produtivos de maneira muito mais fácil. Conto nos dedos das mãos os filósofos do exterior que deixaram de dar-me respostas. Não posso deixar de citar uma das poucas exceções, que foi o pastor Luiz Sayão, que respondeu inúmeros questionamentos meus por meio do seu programa "Conversando com Luiz Sayão" (http://rtm.radio.br/novo/interna/radio/conversando-com-luiz-sayao). Até hoje estou estudando a bibliografia acima que me foi indicada. Os cinco volumes de Llorca, García-Villoslada e Laboa, por exemplo, eu só comprei recentemente. Antes de ler e estudar essa bibliografia, já tinha estudado a história do Cristianismo da perspectiva de alguns protestantes como, por exemplo, a "História Ilustrada do Cristianismo" de Justo L González, quando ainda não tinha sido editada em apenas dois volumes, e "Uma História do Cristianismo", de Kenneth Scott Latourette. Lembro-me de que algo que me impressionou ao ler González foi que ele já apontava que, na verdade, a Contrarreforma começou antes da Reforma, por mais paradoxal que seja a partir dos nomes. Já na Espanha, a Igreja Católica já tinha começado várias reformas antes de Lutero. É importante dizer aqui que Lutero, de fato, estava certo em muita coisa. Havia, realmente, muitos abusos por parte do Clero. Lutero estava vivo quando o famoso Papa Alexandre VI, o Bórgia, foi eleito. Para ter a imaginação estimulada, recomendo a série "The Borgias".

Por falar em Lutero, resolvi começar a lê-lo por conta própria (procurem os vários volumes de "Obras Selecionadas" lançadas pela Editora Sinodal). Fiquei horrorizado com Lutero. Descobri que, por exemplo, Lutero acrescentou o termo "alleyn", em Romanos 3.28, para reforçar sua doutrina. Procurem os debates desse sujeito com Erasmo de Roterdã, por exemplo, e vejam como ele era grosseiro. As pessoas não têm o trabalho de, por exemplo, ler as 95 teses de Lutero e mal sabem que ele mesmo não era avesso às indulgências, mas apenas ao comércio de indulgências como se vê claramente na sua septuagésima segunda tese: "Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.". Quem nunca se deu ao trabalho de ler todas as teses, pode fazê-lo aqui:
http://www.monergismo.com/textos/credos/lutero_teses.htm

Cresci ouvindo as pessoas dizerem que a Igreja desestimulava a leitura da Bíblia, assim como a sua tradução. Se vocês consultarem o "The Cambridge History of the Bible", especificamente o volume 2, "The West from the Fathers to the Reformation", editado por G. W. H. Lampe, vocês verão, por exemplo, que muito antes de Lutero, 58 anos antes, já havia a primeira Bíblia impressa no Alemão e que durante esses 58 anos os católicos imprimiram 30 diferentes edições alemãs da Bíblia — procurem, também, o livro "As diferenças entre a Igreja Católica e Igrejas Evangélicas", de autoria do ex-protestante Jaime Francisco de Moura. Isso não foi exclusividade da Língua Alemã, mas ocorre, por exemplo, com o Espanhol, o Holandês, o Francês, em Inglês, entre outros idiomas.

Percebi que o desconhecimento era generalizado: até mesmo aqueles que se diziam ex-católicos sabiam de absolutamente nada da Doutrina Católica. O sociólogo Alberto Carlos Almeida — vejam as entrevistas dele ao Roda Viva e à Marília Gabriela — costuma apontar que os protestantes sempre foram bons na educação do povo em geral e que os católicos sempre foram bons na educação da elite — prova disso são as diferenças entre os índices educacionais de países majoritariamente protestantes e majoritariamente católicos, além do nível acadêmico das universidades católicas e das universidades protestantes. Como os protestantes baseiam-se no "Sola Scriptura", eles estavam extremamente interessados em alfabetizar as pessoas. Foi-se, entretanto, o tempo em que os protestantes eram conhecidos pelo seu domínio das Escrituras, uma vez que há protestantes de todo tipo hoje, inclusive denominações que, incrivelmente, desaconselham a leitura da Bíblia. Ouvi recentemente um batista tradicional beirando os sessenta anos dizendo-me que nunca tinha ouvido falar do "Sola Scriptura". Da mesma maneira, pegue uma igreja presbiteriana tradicional ou uma batista tradicional que defenda ferrenhamente que o cristão deve apenas basear-se nas Escrituras. Serão raros aqueles que terão lido a Bíblia toda durante anos de conversão. Digo isso porque os católicos são conhecidos por seu desconhecimento das Escrituras, mas creio que se levarmos em conta o conhecimento que um católico médio tem da Tradição, considerando-se que o católico não aceita a "Sola Scriptura", e formos comparar com o conhecimento de um protestante médio acerca das Escrituras, a diferença não será tanta.

Voltando à fala de algumas pessoas que falam sobre o desestímulo da leitura da Bíblia, reproduzo aqui um trecho do livro do Jaime de Moura que já mencionei:

 "João Crisóstomo (354-407 dC), doutor da Igreja, escreveu: 'É isto que tem destruído todas as coisas: vocês pensarem que a leitura da Escritura é tarefa apenas para os monges, quando na verdade vocês precisam dela muito mais do que eles. Aqueles que se põem no mundo e diariamente são feridos têm mais necessidade da medicina. Assim, age bem pior aquele que não lê as Escrituras, supondo que são supérfluas. Tais coisas são invenção do diabo' (Homilia sobre Mat. 2,5).

 Papa S. Gregório I (+604 dC), escreveu: 'O Imperador dos Céus, o Senhor dos homens e dos anjos, enviou suas epístolas para vós, para que aproveiteis a vossa vida, mas vós negligenciais a lê-las devidamente. Estudai e meditai diariamente sobre as palavras do vosso Criador - eu vos imploro. Aprendei o coração de Deus nas palavras de Deus, para que possais aspirar as coisas eternas, para que vossas almas possam ser despertadas pelo desejo da alegria celestial" (Epístola V,46).

 S. Bernardo de Clairvaux (1090-1153 dC), doutor e padre da Igreja, escreveu: 'A pessoa que deseja muito a Deus estuda e medita sobre a Palavra inspirada, para conhecer o que ela diz. É assim que essa pessoa certamente encontra aquele a quem deseja' (Comentário ao Cântico dos Cânticos, Sermão 23,3).

 Papa S. Pio X (1903-1914 dC), escreveu: 'Nada poderia nos alegrar mais do que ver nossos queridos filhos criarem o hábito de ler os Evangelhos, não apenas de tempos em tempos, mas diariamente'.

 Finalmente, o Catecismo da Igreja Católica declara: 'A Igreja 'exorta com veemência e de modo peculiar todos os fiéis cristãos... a que, pela freqüente leitura das divinas Escrituras, aprendam «a eminente ciência de Jesus Cristo» [Fil. 3,8]. «Porquanto ignorar as Escrituras é ignorar Cristo»' [S. Jerônimo]" (CIC 133).

 A proibição de que falam os protestantes, é que o Concílio de Tolosa (França) proibiu traduções da Bíblia para o vernáculo para evitar erros, proibição retirada pelo Concílio da Tarragona (Espanha) em 1233.

O Sínodo de Oxford (1408) proibiu a publicação e a leitura de textos vernáculos da Bíblia não autorizados. O mesmo se deu no Sínodo dos Bispos alemães em Mogúncia (1485), devido a confusão doutrinária criada por John Wiclef (1320-84). O Concílio de Trento (1545-1563) declarou autêntica a Vulgata latina, tradução devida a S. Jerônimo (+420) e decretou que as traduções da Bíblia deveriam conter o visto do Bispo diocesano, para se evitar abusos de tradução.
 Isso aconteceu porque a Igreja exerce seu papel de zelar pela fidelidade da doutrina conf. (2 Timóteo 4, 2); (Tito 1, 13). É o que aconteceu ao contrário com os protestantes. Lutero divulgou a Bíblia para que cada um pudesse interpretar a sua maneira.".

Estou mencionando alguns pontos de equívoco aqui porque a confusão dos protestantes acerca do Catolicismo é enorme! Nesta semana, um pastor perguntou-me se eu cria na Infalibilidade Papal. Após a minha resposta afirmativa, ele perguntou se eu achava que o Papa não pecava. Quando eu falei que era óbvio que não e que, inclusive, o Papa confessava-se toda semana, ele achou que eu estava contradizendo-me. O referido pastor disse-me que as encíclicas papais contradizem-se. Uma pessoa que não compreende nem ao menos a doutrina da Infalibilidade Papal e que não sabe que ela refere-se apenas a definições "ex cathedra" e que encíclicas não são declarações desse tipo, simplesmente, não entende em absoluto a Doutrina Católica. O que tenho visto em todos os textos com críticas ao Catolicismo que procurei, de Boettner a Aníbal Pereira dos Reis, são falsificações grosseiras. Pessoas que, definitivamente, não entenderam nada da doutrina católica, que, simplesmente, não estudaram. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica, que estudo todos os dias desde março deste ano:

    "891 " 'Goza desta infalibilidade o Pontífice Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força de seu cargo quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé ou aos costumes... A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal quanto este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro', sobretudo em um Concílio Ecumênico[1611]. Quando, por seu Magistério supremo, a Igreja propõe alguma coisa 'a crer como sendo revelada por Deus'[1612] e como ensinamento de Cristo, 'é preciso aderir na obediência da fé a tais definições'[1613]. Esta infalibilidade tem a mesma extensão que o próprio depósito da Revelação divina[1614]."

    [1611] LG 25; Vaticano I: DS 3074.
[1612] DV 10
    [1613] LG 25
[1614] Cf. LG 25"

   Vejam que o texto acima é muito restrito com relação à Infalibilidade Papal — percebam, também, que ele cita documentos da Igreja e dos Concílios. Para uma visão introdutória destes, recomendo o livro "História dos concílios ecumênicos" organizado pelo Giuseppe Alberigo. Para vocês terem uma idéia, as duas únicas declarações "ex-cathedra" em 2000 anos foram os dogmas da Imaculada Conceição (1854) e da Assunção (1950). Um bom livro para quem nunca estudou nada ter uma noção bem introdutória dessas doutrinas é o livro "Catolicismo para leigos", de John Trigilio Jr. e Kenneth Brighenti.

   São muitas as barbaridades que ouço de protestantes que, comprovadamente, não estudaram. Ouvi, também nesta semana, alguém dizendo que a Teologia Católica é feita apenas do aristotelismo. Essa pessoa, simplesmente, desconhece tanto a história da Filosofia quanto do Cristianismo, pois qualquer estudante de Filosofia Medieval e Antiga sabe que Aristóteles era muito mal visto pela cristandade, que o conhecia pouco, uma vez que o movimento de tradução das duas obras deu-se no fim do século XII. Tomás de Aquino foi o grande responsável pela incorporação de Aristóteles à teologia cristã.

   Um pastor afirmou para mim que as heresias da Igreja Católica começaram com Constantino, repetindo o que todo protestante fala. Quando o acusei de desconhecimento, fui acusado de ter o costume de diminuir as pessoas. Creio que ele não fazia idéia do que eu estava falando porque apostaria todos os meus livros que ele não estudou nem 1% da literatura referente à patrologia greco-latina e siríaco-oriental. Para vocês terem uma idéia do que eu estou falando, dêem uma olhada nos 221 volumes da patrologia latina (http://www.logos.com/product/28902/patrologiae-cursus-completus-series-latina), nos 167 volumes da patrologia grega (http://www.logos.com/product/28903/patrologiae-cursus-completus-series-graeca) e nos 18 volumes da siríaco-oriental que ainda não está completa
(http://www.logos.com/product/28982/patrologia-syriaca). Se alguma alma caridosa quiser comprar esse material para mim, ficaria muito grato.

   Vamos voltar à minha história. No ano passado, uma colega minha perguntou-me, sabendo que gosto muito de ler, se eu já tinha lido Chesterton e o que achava dele. Vergonhosamente, disse que nada conhecia dele. Resolvi, então, comprar tudo o que havia sido lançado dele em Português, apenas por uma questão de facilidade de acesso, e não por eu ser monoglota, uma vez que ainda não tinha as condições que tenho hoje de importar livros, graças à minha bolsa de mestrado. O Chesterton, simplesmente, tornou-se um dos meus autores favoritos. Ele é um escritor realmente muito talentoso. Quando estava no meu terceiro ou quarto livro dele, descobri que ele era um ex-anglicano converso ao Catolicismo. Fiquei muito impressionado com aquilo e fui procurar livros dele tratando o assunto. Cheguei ao livro "Todos os caminhos levam a Roma". Pesquisando sobre esse livro, cheguei ao livro "Todos os caminhos vão dar a Roma" do casal Hahn, que na edição mais nova foi traduzido com precisamente o mesmo título do livro de Chesterton. Por curiosidade, comprei os dois livros. O interessante é que o título original "Rome sweet home" é um trocadilho intraduzível com "Lar, doce lar". Ninguém me recomendou o livro do casal Hahn, mas cheguei a ele por essa feliz "coincidência".

   Se você, leitor, quer entender um pouco sobre como se deu a minha conversão, leia o livro do casal Hahn, Scott e Kimberly. É um livro maravilhoso! Ele fez toda a diferença na minha vida. Ele conta a história de um casal que era presbiteriano e calvinista e que se converteu ao Catolicismo durante os seus anos de estudo de Teologia. É uma bela história. Virei um fã do Scott Hahn e saí comprando tudo o que havia dele em Português para depois comprar os ebooks dele que ainda não tinham sido traduzidos.

   Depois que terminei a leitura desse livro, uma série de "coincidências" começaram a ocorrer. Estava estudando Existencialismo em um curso ministrado pelo meu atual orientador, Julio Cabrera, e vimos uma série de autores católicos: Gabriel Marcel, Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. é bom dizer que o professor Cabrera não é religioso. Só não digo que ele é ateu porque creio que ele não gostaria de ser classificado assim por crer que não precisa posicionar-se acerca de uma questão que ele não aceita. Na mesma semana, minha namorada enviou-me um vídeo da Gabriela Rocha cantando a canção "Restless" (http://www.youtube.com/watch?v=ooQhH3AIu2A). Quando fui procurar quem era a cantora original, descobri a Audrey Assad, uma ex-protestante que se converteu ao Catolicismo. Por meio dela, cheguei ao Matt Maher, outro músico ex-protestante converso! Sem que eu fizesse esforço, encontrava uma série de conversos ex-protestantes. Durante a minha vida toda, nunca tinha ouvido falar dessas conversões, mas apenas de ex-católicos. O meu próprio pai é um ex-católico. Agora, desafio o leitor a procurar na rede livros e depoimentos de ex-católicos que se converteram ao Protestantismo e de ex-protestantes que se converteram ao Catolicismo. Em primeiro lugar, os últimos são inúmeros. Você encontrará muitos depoimentos. Infelizmente, o material em Português não é tão vasto como aquele de Língua Inglesa. O Jaime Francisco de Moura, que já citei, tem um livro chamado "Por que estes ex-protestantes se tornaram Católicos! Testemunhos de ex-pastores e leigos que voltaram à Igreja Mãe". Há, também, o livro "Homens que regressaram à Igreja" do Severin Lamping. Para quem lê na Língua Inglesa, há uma série de três livros editados pelo Patrick Madrid: "Surprised by truth: 11 converts give the biblical an historical reasons for becoming catholic"; "Surprised by truth 2: 15 men and women give the biblical and historical reasons for becoming catholic"; "Surprised by truth 3: 10 more converts explain the biblical and historical reasons for becoming catholic". Compare o nível dos argumentos dos dois lados. Para ser sincero, nunca encontrei um protestante anticatólico que demonstrasse conhecer a doutrina católica. Ainda estou à procura desse livro porque, por enquanto, só encontro argumentos falaciosos que fazem uso de espantalhos. O padre Paulo Ricardo fala num vídeo que os protestantes, em sua grande maioria, rejeitam uma completa caricatura da fé católica (http://www.youtube.com/watch?v=1Pu0AP4VvwU). Os católicos baseiam-se, também, na Tradição. Os textos da patrologia que coloquei aqui são apenas o começo dessa Tradição. Pergunto-me quantos protestantes já leram pelo menos o Catecismo da Igreja Católica. A resposta é óbvia a partir das acusações infundadas que já demonstram ignorância apenas pelo questionamento.

   Discutirei agora o que um apologista católico, também ex-protestante, chamado Dave Armstrong, chama de "o calcanhar de Aquiles do Protestantismo", que é o "Sola Scriptura". Essa doutrina afirma que as Escrituras são tomadas como a única regra de fé e conduta. Se existe algo que aprendi com a Filosofia Analítica, especificamente, com o Paradoxo de Russell, foi que sempre temos de considerar o critério da autorreferência. Se a Escritura é a única base de fé e conduta, pergunto-me onde está isso na Bíblia. A resposta é: não está! Mostrem-me um versículo sequer que afirme isso; pelo contrário, vocês encontrarão inúmeros textos contra a "Sola Scriptura". O próprio Dave Armstrong, que já citei, tem um livro chamado "100 biblical arguments against Sola Sciptura". Eu concordo plenamente com o Armstrong e creio que se a "Sola Scriptura" for derrubada todo o Protestantismo desaba junto. Apenas isso já é suficiente para abandonar o Protestantismo a meu ver. Por isso, estou estudando um vasto material para eu mesmo escrever um livro chamado "O calcanhar de Aquiles do Protestantismo". Para citar apenas alguns textos sobre o assunto, há o livro "Not by Scripture Alone: A Catholic Critique of the Protestant Doctrine of Sola Scriptura", do Robert A. Sungenis, e a trilogia "Holy Scripture: The Ground and Pillar of Our Faith" — "Volume I: A Biblical Defense of the Reformation Principle of Sola Scriptura" (David T. King); "Volume II: An Historical Defense of the Reformation Principle of Sola Scriptura" (William Webster); "Volume III: The Writings of the Church Fathers Affirming the Reformation Principle of Sola Scriptura" (David T. King; William Webster). Como vocês podem ver, esta trilogia defende o "Sola Scriptura". Eu vou ler e estudar essas 1107 páginas de defesa do "Sola Scriptura", fora os outros livros que estou organizando como bibliografia. Isso não é nada mais do que a minha obrigação porque isso é ter honestidade intelectual, o que está difícil de encontrar no Brasil.

   Outro ponto com relação à "Sola Scriptura" é que foi a Igreja quem compilou as Escrituras. Por que os protestantes aceitam a Bíblia como ela está? Que arbitrariedade é essa? Simplesmente, não tem lógica crer que Deus inspirou quem escreveu, mas não inspirou quem ouviria a mensagem e identificá-la-ia como inspirada, como costuma dizer o padre Paulo Ricardo. Por que os protestantes aceitam a autoridade da Igreja Católica para escolher o Novo Testamento, mas não aceitam a autoridade da Igreja para escolher o cânone do Antigo Testamento? Se você quer jogar fora a autoridade da Igreja, jogue fora junto as Escrituras que a própria Igreja escolheu. Tenhamos em mente, agora, a seguinte situação: suponha que alguém me deu uma série de jornais antigos e que eu estou fazendo uma seleção apenas dos noticiários sobre assassinatos, jogando fora todo o resto. Digamos que eu tenha compilado um livro com esse material. Você não encontraria nele, pelo menos em princípio, nada que falasse de eventos que nada tivessem a ver com um assassinato. Da mesma maneira, a Igreja Católica compilou as Escrituras de acordo com a Tradição, com aquilo que ela tinha na oralidade — os métodos foram muitos, mas nos detenhamos apenas nesse quesito a título de argumentação. Vocês acreditam mesmo que haveria algo nas Escrituras que seria contraditório à Tradição e à Doutrina Católica? É muita ingenuidade pensar isso. Alguém pode questionar-me, dizendo que a Igreja Católica perverteu-se com o tempo; no entanto, sinto informá-lo de que o reconhecimento de dogmas no decorrer da história da Igreja, como a Imaculada Conceição ou a Assunção, já mencionadas neste texto, foram apenas reconhecimentos de algo que já estava presente na Igreja. Os diversos textos dos padres apostólicos, por exemplo, comprovam todas as doutrinas católicas. Depois que me convenci de que a "Sola Scriptura" estava, realmente, equivocada, fui procurar os argumentos católicos para as suas doutrinas e fui vendo que todas têm base bíblica. Um outro apologeta ex-protestante que posso recomendar é o filósofo Peter Kreeft. Que princípio é esse que não existiu durante mais de duzentos anos enquanto os cristãos não tinham uma Bíblia compilada e que seria impossível de ser aplicado na Idade Média quando não havia imprensa, as Bíblias eram copiadas à mão e a maior parte das pessoas nem sabia ler? Teria Cristo abandonado a sua Igreja, em vez de estar com ela "todos os dias" como prometeu em Mateus 28.20, resolvendo reaparecer apenas com Lutero e os reformadores depois no século XVI?

   Sempre gostei de interpretação de texto. Uma das áreas que mais estudei em Teologia foi Hermenêutica. Estudando autores como Grant R. Osborne, Kevin Vanhoozer, Uwe Wegner, Gordon Fee, Douglas Stuart, entre outros, você dá-se conta de que a metodologia para interpretar-se a Bíblia, simplesmente, não está na Bíblia. Isso é externo a ela. Envolvi-me durante muito tempo com discussões com calvinistas, uma vez que era arminiano. Percebi, em um dado momento, que, simplesmente, o embate nunca seria resolvido por meio das Escrituras: os dois lados faziam uso delas, mas tinham pressupostos de leitura distintos. Quando li pela primeira vez a Bíblia após ter estudado Descartes, fazendo uso do seu método da dúvida hiperbólica, cheguei à conclusão de que a Bíblia não poderia ser a Palavra de Deus de modo algum, pois achava que a Bíblia não poderia ter nenhum erro de nenhuma estirpe. Ainda não conhecia aos 15 anos as discussões sobre infalibilidade bíblica, inerrância etc. . Acreditei, durante um tempo, que a Ciência seria a norteadora da interpretação bíblica. Com o tempo, percebi que aquilo não daria certo e acreditei que a Lógica seria a condutora; no entanto, vi fracassar esse critério também depois de estudar a fundo. É importante ressaltar que levei a sério o estudo do Trivium medieval — Lógica, Gramática e Retórica. No medievo, era imprescindível que um teólogo estudasse isso; hoje, infelizmente, os teólogos não sabem nem escrever e compreender um texto, quanto mais saber Lógica e Filosofia — creio sinceramente que não se faz Teologia sem Filosofia. No ano passado, usando recursos de Lógica Modal em discussões com um pastor, ele disse que Matemática tinha nada a ver com aquilo. Ele, simplesmente, desconhecia toda a literatura de Filosofia Analítica da Religião. Autores como William Lane Craig, Plantinga ou Swinburne, que qualquer estudante de graduação que estude uma introdução de Filosofia da Religião conhece, usam e abusam de ferramentas lógicas. Quando você denuncia essa inaptidão, ainda por cima, é tido por arrogante, em vez de essas pessoas serem tidas por picaretas. Enfim, o que quero dizer aqui é que percebi que se não apelássemos à Tradição da Igreja, cairíamos num vale-tudo, como de fato o Protestantismo caiu, com suas mais de 30 mil denominações, com outras mil surgindo diariamente, como indicam as estatísticas — não me lembro de onde li isso para indicar os números precisos e a fonte exata. É importante ressaltar que toda vez que se fala de "Tradição" as pessoas falam de "tradições humanas". A própria Igreja Católica faz essa distinção. A Tradição da Igreja são "as verdades transmitidas através dos tempos pela viva Voz de Cristo na sua Igreja". Tradições humanas "são leis feitas por homens e que podem ser modificadas.".

   O próprio Lutero, com o tempo, percebeu o seu erro:

    "Este não quer o batismo, aquele nega os sacramentos; há quem admita outro mundo entre este e o juízo final, quem ensina que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros aquilo, em breve serão tantas as seitas e tantas as religiões quantas são as cabeças.". [Luthers M. In. Weimar, XVIII, 547; De Wett III, 61)

    "Se o mundo durar mais tempo, será necessário receber de novo os decretos dos concílios (católicos) a fim de conservar a unidade da fé contra as diversas interpretações da Escritura que por aí correm.". (Carta de Lutero a Zwinglio. In Bougard, Le Christianisme et les temps presents, tomo IV (7), p.289)

   Retirei as duas citações acima de outro livro que indico: "Em defesa da Fé Católica nas questões mais difíceis", do Alessandro Lima.

   Outro ponto do qual discordo há tempos é o "Sola Fide", como vocês podem ver na pergunta de 2011 que fiz ao padre Paulo Ricardo. Leiam Tiago. O livro é muito claro e só não enxerga quem não quer. Lutero sabia disso e por isso dizia: "A carta de Tiago é uma carta de palha, pois não contém nada de evangélico" ("Preface to the New Testament', ed. Dillenberger, p. 19). Todo o Novo Testamento, com as suas advertências para o cristão, simplesmente, não faz sentido se as obras são conseqüências necessárias da fé. Aqui, é importante ressaltar que o católico não crê que as obras salvam. Ouvi o absurdo por parte de um pastor que os sete sacramentos serviam para a salvação. Ele, simplesmente, não sabia nem a definição de um sacramento: "um sinal sensível e eficaz da graça, instituído por Jesus Cristo para santificar as nossas almas". Aproveito aqui para recomendar o excelente livro do Leo J. Trese chamado "A fé explicada". Para quem quer ter uma visão panorâmica do Catolicismo, é um ótimo livro. O Sungenis, que já citei aqui, tem um livro de 773 páginas chamado "Not by faith alone: a biblical study of the catholic doctrine of justification" sobre o assunto. O livro do Trese diz o seguinte:

    "Certa vez, li na secção de pequenas notícias de um jornal que um homem construiu uma casa para a sua família. Ele mesmo executou quase todas as obras, investindo todas as suas economias nos materiais. Quando a terminou, verificou com horror que se tinha enganado de propriedade e que a tinha construído no terreno de um vizinho. Este, tranqüilamente, apossou-se da casa, enquanto o construtor não pôde fazer outra coisa senão chorar o dinheiro e o tempo perdidos.
       Por lamentável que nos pareça a história deste homem, não chega a ter importância se a compararmos com a da pessoa que vive sem a graça santificante. Por nobres e heróicas que sejam as suas ações, não têm valor aos olhos de Deus.".

   Vejam que as obras isoladamente, sem a Graça, não servem para nada! Agora, quantos de vocês já ouviram pessoas repetindo que a Igreja Católica crê que as pessoas são salvas pelas obras? Leiam o documento que mencionei neste texto sobre a justificação para vocês entenderem melhor o que a Igreja Católica entende sobre a questão.

   Estudando cada vez mais a Doutrina da Igreja Católica, senti-me extremamente solitário: afinal, estava chegando a várias conclusões apenas por meio do estudo, sem interagir com ninguém que pudesse ajudar-me. Comecei a orar a Deus pedindo ajuda. No dia 24 de maio, fui participar de uma reunião com um grupo de Brasília que pretendia iniciar estudos sobre o Conservadorismo. Quando apareci na reunião, estava lá apenas o Felipe Melo, autor do blog "Juventude Conservadora da UnB"
(http://unbconservadora.blogspot.com.br/).

   Sabia que o Felipe tinha se tornado católico, se não me engano, em 2011. Como estávamos só nós dois, acabamos conversando e disse a ele que estava em uma jornada de conversão ao Catolicismo. Ele disse-me que logo depois da reunião ele iria ao CEAC (http://www.ceacdf.org.br/), um centro católico da Opus Dei. Fiquei meio assustado e disse a ele que o que eu conhecia da Opus Dei vinha dos livros do Dan Brown. Ele logo tranqüilizou-me, dizendo que não encontraria pessoas mutilando-se lá e nem sangue espalhado pelo chão. Fiquei, também, mais tranqüilo porque sabia que o próprio Scott Hahn é da Opus Dei, por meio do seu livro sobre o assunto chamado "Trabalho ordinário, graça extraordinária". Chegando lá, gostei bastante do ambiente. Fui muito bem recebido e acolhido. Ele falou-me do padre Rafael Stanziona de Moraes, cujo livro "Por que confessar-se" recomendo fortemente: o meu entendimento da confissão mudou completamente depois dessa leitura. O Felipe disse-me que o padre Rafael era formado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP, em Física pela mesma Universidade, que tinha sido professor do IME aos 21 anos, que havia feito mestrado em Matemática e que tinha se doutorado em Teologia Moral pela Universidade de Navarra. Fiquei muito empolgado ao saber disso porque eu mesmo iniciei minha vida acadêmica na Física, fui para a Matemática e terminei na Filosofia. Ainda por cima, estava estudando uma série de textos sobre Teologia Moral. O Felipe disse-me que ele tinha um acompanhamento com o padre Rafael e eu disse que gostaria de fazer o mesmo. Isso ocorreu em uma sexta-feira. Marquei, então, um encontro com o padre Rafael para a terça seguinte.

   Antes de continuar a história, outra razão que me levou ao Catolicismo foi a questão da Moral. No ano passado, por meio de discussões com o professor Julio Cabrera sobre a sua Ética Negativa, após uma série de conferências que fui na UnB, comecei a interessar-me por Ética. Sempre fui uma pessoa mais teórica, meu principal interesse na época era Lógica e Filosofia da Linguagem. Nunca achei que fosse ter interesse em estudar Ética, o que hoje me parece absurdo. Só fui ter aulas pela primeira vez com o professor Cabrera, por quem já tinha admiração desde 2007 — cito ele no meu antigo flog:  (http://www.fotolog.com.br/fabiosal/23552538/) —  no primeiro semestre de 2011. O professor Cabrera, embora eu tivesse dito a ele que nunca tinha estudado nada de Ética e nem feito a disciplina, que fui fazer no meu último semestre na graduação, nunca me desprezou. Pelo contrário, chegou a escrever um texto respondendo questões que tinha feito a ele http://pt.scribd.com/doc/98045319/ACERCA-DO-CARATER-CONTINGENTE-DA-ETICA-NEGATIVA-Julio-Cabrera . Ainda estou devendo uma resposta a ele. Digo isso porque já tive a experiência de pessoas acreditarem que o seu diploma é uma razão suficiente para que se tenha alguma autoridade, desprezando quem não tenha um. O filósofo Olavo de Carvalho, que mencionei aqui, não tem diploma e é, simplesmente, a pessoa mais culta que já conheci. O professor Cabrera sempre me tratou com igualdade em todas as discussões que já tive com ele — e olha que não foram poucas. Meus argumentos sempre foram tratados enquanto argumentos a despeito do fato de eu ter um diploma na época ou não, do fato de ele ter muitos mais anos de estudo que eu, ser muito mais culto ou pelo fato de eu nunca ter estudado Ética. Curiosamente, quando fui fazer oficialmente o curso de Ética, que infelizmente não fiz com o professor Cabrera, dei-me conta de que aprenderia nada nele porque tinha aprendido muito mais por meio das discussões com o professor Cabrera.

   Na época, fui convencido de que a procriação seria imoral, como o professor Cabrera defende a partir da sua Ética Negativa, mas o interessante é que os seus argumentos não dependem do seu sistema ético particular. Durante muito tempo, defendi que a procriação seria imoral e cheguei a convencer outras pessoas, incluindo a minha própria namorada. Um argumento do padre Paulo Ricardo, entretanto, foi crucial para mudar o meu pensamento. Ele dizia que uma pessoa que se questiona sobre o número de filhos já não está pensando a partir de uma cosmovisão cristã, uma vez que toda a Bíblia mostra os filhos como sendo bênçãos, e uma questão que sempre me incomodou a partir daquilo que vejo em outras pessoas sempre foi a questão de elas dizerem-se cristãs defendendo pontos completamente absurdos quando se tem em vista o Cristianismo. Enfim, comecei a buscar literaturas que discutissem a Ética Cristã. Para a minha surpresa, encontrei quase nada produzido entre os protestantes e uma vasta discussão entre os católicos. Tomás de Aquino, Santo Afonso de Ligório, Dietrich von Hildebrand, Bernhard Häring, Servais Pinckaers, Martin Rhonheimer, o próprio Alasdair MacIntyre, que é um filósofo bastante conhecido, Jacques Maritain, entre muitos outros. Todos eles católicos! Fiquei impressionado com toda a discussão moral desses autores. O que me impressionou também foi que várias conclusões a que cheguei em termos de Ética pensando sozinho já eram defendidas pela Igreja Católica. Não foi apenas a Teologia Moral católica que me impressionou, mas a sua Teologia de modo geral. Teólogos como Henri de Lubac, Bernard Lonergan, Hans Urs von Balthasar, Reginald Garrigou-Lagrange, Jean Daniélou, o próprio Ratzinger, o Papa João Paulo II, com a sua Teologia do Corpo maravilhosa, entre muitos outros são de um nível altíssimo. Quando você estuda esses teólogos e passa para um teólogo protestante, a diferença de nível é realmente gritante.

   O Scott Hahn já tinha apontado para uma questão no "Todos os caminhos levam a Roma" que me fizeram ter cuidado com a questão litúrgica. Li dois livros dele sobre o assunto: "O Banquete do Cordeiro" e "A Sagrada Escritura no Mistério da Santa Missa", organizado junto com o Flaherty. O Scott relata no seu livro sobre a sua conversão, as diferença entre a missa e um culto evangélico. Eu sabia que não encontraria um coro todos os domingos com várias vozes como eu tinha na minha igreja antiga. Sabia que não teria um órgão imponente como havia na minha igreja batista. Sabia, entretanto, que os católicos criam na transubstanciação, presença real de Cristo na Missa, e que ela toda tinha uma razão de ser que o Scott Hahn explica muito bem. Depois da explicação dele, não vejo, por exemplo, como entender o Apocalipse sem a Missa — na verdade, é Apocalipse que explica a Missa. Só fui à minha primeira Missa depois de ter certeza de que eu entenderia o que está acontecendo nela em termos litúrgicos. No dia 16 de junho, fui à minha primeira missa na Paróquia São Pedro de Alcântara. Tinha dito ao padre Rafael que a minha antiga Igreja costumava ter um culto muito cuidadoso e que gostaria de freqüentar uma paróquia que tivesse cuidado com a liturgia. Dentre as duas que ele indicou-me, essa era a que ficava mais perto de casa. Foi emocionante ver na Missa tudo aquilo que eu tinha estudado. Vi com os meus próprios olhos como os católicos respeitavam as Escrituras —  o Scott Hahn já tinha explicado que se você for às missas todos os dias durante três anos você escutaria toda a Escritura na Missa, diferentemente dos cultos evangélicos nos quais o pastor prega o que quiser. Já tinha ouvido falar dos milagres eucarísticos, mas tive a oportunidade de presenciar um milagre durante uma Missa no dia 16 de junho na minha própria vida. Isso eu contarei algum dia quando escrever melhor sobre a minha conversão em algum livro. Como dizia Tomás de Aquino, "contra fatos, não há argumentos".

   Uma pessoa que também me ajudou bastante foi um professor meu com quem, também, tive a primeira aula no primeiro semestre de 2011, chamado Scott Randall Paine. Coincidentemente, o professor Scott, que é outra das pessoas mais cultas que já conheci, é um especialista na obra de Chesterton. Ele fez o seu doutorado sobre Chesterton — "Chesterton e o universo". No ano passado, fiz dois cursos com o professor Scott sobre Filosofia Oriental. No segundo semestre, o professor emprestou-me um livro que estava carimbado como "Rev. Scott Randall Paine". Eu perguntei a ele sobre o "Reverendo" e ele disse-me que era padre. Até então, eu não sabia. Contei várias das minhas dúvidas sobre o Catolicismo ao professor Scott e ele ajudou-me com várias delas. Outra coisa que me impressionou muito no Catolicismo é algo que já tinha me impressionado nos meus estudos de religiões orientais: todas elas tinham costumes que envolviam toda a dimensão humana, seja física ou mental. O Protestantismo era muito abstrato quando comparado às grandes religiões — nunca achei que fosse reclamar de excesso de abstração. O Catolicismo possui toda uma dimensão ascética e mística — não confundam com esoterismo! Recomendo o excelente "Compêndio de Teologia Ascética e Mística" do pe. Tanquerey — que não existe no Protestantismo. A minha vida de santificação tem se tornado mais fácil e, por incrível que pareça, o próprio entendimento de várias doutrinas católicas ajudam na sua vida espiritual. Eu seguiria o Catolicismo mesmo que me fizesse mal porque sei que é verdadeiro, mas nunca me senti tão bem na minha vida. Sempre ouvi falar de uma felicidade que o Cristianismo deveria produzir, mas só tenho descoberto essa felicidade depois da minha descoberta do Catolicismo. Deus tem colocado na minha vida pessoas realmente comprometidas com a Sua Palavra e que são extremamente piedosas e, como se já não bastasse a sua piedade, além do mais, conhecem bastante as Escrituras e a Tradição da Igreja Católica.

   Não posso deixar de citar um grande amigo que conheci pelo Facebook, que é o Arthur Olinto, que está passando por uma experiência bem parecida com a minha. Temos planos de escrever um livro sobre a nossa conversão ao Catolicismo. Na semana passada, conheci o padre da paróquia que estou freqüentando: tinha marcado um dia para conversar com ele. Expliquei ao padre Givanildo sobre a minha conversão e, para a minha alegria, soube que a paróquia tinha um coral. No mesmo dia, em uma quarta-feira, fui ao ensaio e reconheci a lindíssima "Cantique de jean Racine" de Fauré no ensaio. Gosto muito de música e temia que não tivesse a oportunidade de usar o meu dom na Igreja. Até nisso Deus foi bondoso comigo. Ouvi, um dia desses, um comentário malicioso de que as missas são sem graça quando comparadas ao cultos protestantes. Penso que a pirotecnia, o espetáculo e a pompa costumam ser inversamente proporcionais àquilo que realmente tem importância. Quando, por exemplo, um artista precisa de mil bailarinos, fogos de artifício e efeitos especiais, é porque o seu talento não é suficiente para despertar o interesse do ouvinte. Não trocaria, sinceramente, qualquer show da Beyoncé, por exemplo, por um show do Caetano Veloso. Qualquer semelhança com a diferença entre o minimalismo das missas católicas e a grandiloqüência dos cultos protestantes não é mera coincidência.

   Para terminar, tenho sofrido uma perseguição e uma incompreensão por parte dos protestantes que nunca cheguei a sofrer quando me declarava ser um agnóstico. Creio que a razão principal deve ser porque a maior parte das pessoas nem sabia do que se tratava ser um agnóstico, enquanto o espantalho do Catolicismo está pronto para ser queimado: afinal, não é todo mundo que vai dar-se ao trabalho de estudar os documentos eclesiásticos, a patrologia e a patrística, os textos dos doutores da Igreja etc. Tenho tentado não reagir ao anticatolicismo dos Protestantes com um antiprotestantismo; no entanto, tem sido difícil. Já cheguei a ouvir que "o Diabo está batendo palmas" diante da notícia da minha conversão. Não tinha a noção de que as pessoas fossem tão intolerantes. Sinto-me confortado pelas palavras de Tomás de Kempis:

    "Cristo teve adversários e difamadores; e você quer ter todos os homens por amigos e benfeitores seus? [...] Viver pacificamente com pessoas difíceis, e perversas, ou indisciplinadas, é uma grande graça e um feito muitíssimo louvável e corajoso. Não obstante, toda nossa paz nessa vida miserável consiste mais em sofrimento humilde do que em não sentir as adversidades. Seja forte com Cristo, e por Cristo, se você deseja Reinar com Cristo.".

   Tenho constatado na prática o que disse certa feita Pio XII:

    "os homens [...] facilmente procuram persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que não desejam que seja verdadeiro.".

   As pessoas, infelizmente, estou pouco interessadas na verdade, por mais que saibam que no Cristianismo a verdade é Cristo. Conheço, ainda, muito pouco do Catolicismo se eu for comparar a outras coisas que já estudei: afinal, descobri todo um mundo que nunca havia explorado. Quanto mais estudo, no entanto, mais tenho a certeza de que a Igreja Católica tem sido desde sempre o depósito da fé cristã e que Cristo nunca abandonou a Sua Igreja, mas sempre esteve com ela.