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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Livro inédito no Brasil: A Verdade Sobre o Papado - Rafael Merry del Val

Finalmente este livro que traduzi foi publicado. Ele pode ser encontrado aqui: http://www.editoraloreto.com/produto/a-verdade-sobre-o-papado/

É um dos melhores livros já publicados no Brasil sobre este tema.

O que você irá aprender com este livro:
  • Antes de tudo, o conteúdo deste livro é uma verdadeira aula de como tratar seriamente determinado assunto;
  • As provas de que Jesus organizou sua Igreja sob a autoridade de São Pedro e de seus sucessores;
  • Que São Pedro esteve sim em Roma, e foi lá que ele morreu;
  • Textos patrísticos que comprovam que esta foi a crença ininterrupta dos primeiros cristãos;
  • Que as mentiras protestantes a respeito do Papado são completamente refutadas com uma análise séria das Escrituras e dos textos Patrísticos;
  • Que Pedro é, sem qualquer sombra de dúvidas, a Rocha sobre a qual a Igreja foi construída.




sexta-feira, 8 de julho de 2016

Os objetivos de Pio X - F. A. Forbes


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Com uma mão firme e segura, o novo Papa traçou o programa de seu pontificado: restaurar todas as coisas em Cristo, mas não foi a primeira vez que usara aquelas palavras. Já vimos como, quando foi pároco, bispo e patriarca, elas estavam em seus pensamentos como ideal e objetivo da vida sacerdotal. Finalmente, chegara o momento em que, da cátedra de Pedro, iria mostrá-las ao mundo como remédio para todo o mal, convocando todos os filhos da Igreja para ajudarem-no nesse grande trabalho.

Não somente indicou os males que haveria de curar, mas lhes dava os meios: oração sincera, a formação de um sacerdócio erudito, zeloso e devoto, instrução religiosa tanto para adultos quanto para crianças, sábios esforços para melhorar a condição dos pobres, resolver a questão social, a caridade cristã tanto para amigos quanto para inimigos, a fidelidade aos mandamentos de Deus, o uso frequente dos Sacramentos. Desse modo, a “restauração de todas as coisas em Cristo” foi realizada.

Durante toda sua vida, Pio X foi um trabalhador infatigável, e apesar disto, aos sessenta e oito anos, continuava a ser um homem são e vigoroso. Levantava-se cedo, fazendo uma hora de meditação e recitando seu Ofício antes de rezar a Missa, que era feita, geralmente, às seis horas. O dia de trabalho era cuidadosamente organizado para que nenhum tempo fosse perdido. Organizador nato, o Papa, em breve, familiarizar-se-ia, completamente, com o trabalho de administração e de governo da Igreja, empreendendo algumas reformas severas necessárias no trabalho de diferentes congregações. Prático, pontual e exato em todas as coisas, requeria a mesma atitude dos outros. Não havia nenhuma questão do dia na qual sua rápida inteligência não se interessasse.

“Ele é um admirável ouvinte”, disse um estadista francês que teve uma audiência nos primeiros dias de seu pontificado. “Compreende rápida e completamente a questão em discussão, indo direto ao ponto, que resume em poucas e precisas palavras. Para mim, ele possui as qualidades de um verdadeiro estadista, tanto quanto Leão XIII. Ele observa em um olhar compreensivo o que é possível e o que não o é. Entretanto, o que me surpreendeu ainda mais foi sua calma e coragem inabalável. Não há nenhuma precipitação nele: ele quer ser lento para condenar, mas, quando o faz, é inflexível. Se circunstâncias difíceis surgem, ele mostrar-se-á tanto como um herói quanto como um Santo. ”.

Pio X nunca frequentou uma escola de diplomacia, mas o mesmo fim pode ser atingido por caminhos diferentes. “Um homem nascido do povo”, disse outro escritor, “que viveu entre homens trabalhadores, um estudante da Bíblia e dos Padres da Igreja, de filosofia e de teologia: um homem com rica experiência e com conhecimento a respeito dos homens e das coisas”.

Os amantes da música eclesiástica em todos os países ficaram repletos de alegria com a notícia da eleição do Cardeal Sarto ao papado, uma vez que as mudanças ocorridas em Veneza não ficaram sem ser noticiadas no mundo musical e uma necessidade de reforma era sentida universalmente.

— Podemos esperar que Sua Santidade faça no mundo o que fez em Veneza? — Perguntou um músico francês.

— Será feito e logo. Contudo, será um trabalho difícil e não o único. — Acrescentou o Papa pensativo, meditando a respeito de seu trabalho.

Leão XIII exortara, mais de uma vez, para que os fiéis estudassem a música tradicional da Igreja. Ele mesmo enviara a Veneza Dom Lorenzo Perosi para fazer a mudança da música da Capela Sistina, mas os italianos prendiam-se aos seus efeitos operísticos, tornando pouco notáveis os resultados esperados.

Em 22 de novembro de 1903, o motu próprio sobre a música sagrada ditou, definitivamente, as regras sobre o assunto. “Nada deverá ter lugar na igreja que seja indigno de uma casa de oração e da majestade de Deus”, disse o Papa. “A música sagrada contribui para a adequação e para o esplendor dos ritos eclesiásticos e, uma vez que seu principal trabalho é vestir com melodia adequada o texto litúrgico proposto para o entendimento dos fiéis, seu objetivo próprio é acrescentar a maior eficácia possível às palavras, a fim de que, por meio delas, o povo possa ser mais facilmente movido à devoção e a estar melhor disposto para os frutos da graça pertencentes à celebração dos mais santos mistérios. Ela deve ser santa, deve ser uma verdadeira arte, ser universal e, uma vez que essas qualidades são encontradas no mais alto grau no canto gregoriano, […] o tipo de composição mais ligado à Igreja […] é a forma gregoriana, a forma mais sacra e litúrgica e quanto menos harmonia houver em relação a esse supremo modelo menos merecedor será do templo”.

O motu próprio, entretanto, não excluía o uso da música moderna, desde que fosse digna de estar associada com a liturgia, mas a música teatral não era tolerada. Algumas regras foram ditadas para garantir a dignidade e a solenidade dos ofícios da igreja: cantores pagos, especialmente mulheres, não deveriam fazer parte do coro; bandas e orquestras estavam proibidas. Os bispos deveriam criar comissões de pessoas especializadas em música sacra para fazer as regras serem cumpridas. As escolas de música sacra deveriam ser estabelecidas nos seminários onde ainda não existiam, assim como nas cidades e nas paróquias rurais. A partir de sua experiência pessoal em Tombolo, Salzano, Treviso e em Mantua, Pio X sabia que tudo isso poderia ser posto em prática.

Na carta ao Cardeal Respighi, cardeal vigário de Roma, escrita poucas semanas depois, o Papa lamenta, novamente, que a beleza da tradição musical da escola clássica de Roma tenha quase desaparecido. “Pois as devotas salmodias do clero”, escreve, aludindo ao canto da Véspera, no qual o povo também se juntava, “foram substituídas por composições musicais intermináveis sobre as palavras dos salmos, todas modeladas em trabalhos com expressões excessivas e a maioria de tão pobre qualidade que não deveriam ser toleradas nem mesmo em um concerto. O canto gregoriano, assim como nos foi transmitido pelos Pais e encontra-se nos códices das várias igrejas, é nobre, sereno, fácil de aprender, além de possuir uma beleza tão fresca e cheia de surpresas que, por onde quer que tenha sido introduzido, nunca falhou em excitar um entusiasmo real nos jovens cantores”.

O motu próprio foi recebido com alegria por muitos, mas com consternação por aqueles que acreditavam que a música de ópera era uma atração para a multidão. “Logo teremos boa música na igreja”, disse Pio X a Dom Perosi. “O Papa não demorou para pôr em prática suas palavras”, disse um escritor na Revista Eclesiástica. “Deus queira que este amante do santuário e da beleza da santidade possa viver muito e consiga sua amável face suavizar aqueles corações duros que talvez ainda tragam a si mesmos para cantar por bravata, para não dizer palhaçada, com ousadia diante do Santíssimo Sacramento, com medonhos tremores e garganteios”.

Alguns corações não se abrandaram. Pio falou a verdade quando disse que, “o prazer de um gosto depravado cria hostilidade à música sacra. Por isso, não se pode negar que a música profana, de tão fácil compreensão e repleta de ritmo, é preferida em proporção direta a uma boa e verdadeira educação musical entre os que a escutam”.

Que essa reforma era necessária na Inglaterra é possível observar pela impressão de alguns ouvintes de fora a respeito da música em uso em algumas de nossas igrejas católicas. “Temos a senhorita ‘A’ cantando duetos com a senhorita ‘B’ para as palavras ‘Domine Fili Jesu Christe’ como se elas estivessem cantando ‘O que nós duas estamos fazendo no mês de maio’, ou ‘Ainda há vida no velho cavalo’, e tudo isso com um acompanhamento que envergonharia um músico de terceira. Ou, se for o caso de um coro masculino, os baixos não acertam o tom, isso sem contar os tenores afeminados […] engajados em destroçar as mais solenes palavras do Credo como se fossem cães de caça ou um grupo de ratos”.

Não que o Papa só gostasse da música clássica da Igreja e do canto gregoriano. Ele era um amante de toda boa música, seja ela sacra ou secular, mas considerava que a música de ópera, apesar de toda a beleza, era inadequada para o santuário. É possível admirar as pinturas de Watteau, sem desejar colocá-las no altar.

Em sua primeira encíclica, Pio já tinha tocado na questão da ação social católica. Entretanto, falou com mais precisão sobre o assunto em seu motu próprio de dezembro de 1903. Tendo nascido e crescido no meio do povo, podia entender completamente suas necessidades. Ele também previa os perigos de uma ação precipitada e imprudente que pudesse depender demasiadamente de um esforço popular e influente. Não era o movimento social em si que deveria ser reprimido, mas as extravagâncias de alguns reformadores com entusiasmo excessivo.

“A democracia cristã”, declarou, “deve ter sua base nos princípios da fé e da moral católica e deve estar livre de partidos políticos”. Seu grande predecessor, Leão XIII, tendo traçado, luminosamente, as regras da ação popular em sua famosa encíclica (continuada por Pio X), seu próprio desejo foi o de que aquelas regras prudentes fossem observadas completa e exatamente. Ele decidiu, portanto, colecioná-las em uma forma abreviada que pudesse ser, para todos os católicos, uma regra constante de conduta. Assim, após recordar o direito do homem em usar e possuir sua propriedade, abordou as obrigações da justiça entre patrões e empregados e a utilidade dos grêmios e dos sindicatos. A democracia cristã, sustentou, tem como principal objetivo a solução das dificuldades entre o trabalho e o capital, mas, a fim de que isso seja feito baseado nos princípios da fé e da moral católicas, não deveria ser usada com propósitos partidários, pois deve ser uma atividade beneficente para o povo, fundada na lei natural e nos preceitos do Evangelho. Escritores católicos, ao defender a causa do povo e dos pobres, deveriam abster-se de usar uma linguagem calculada a fim de inspirar má vontade entre as classes. Aqui, como em outros assuntos, a obediência às leis de Deus e da Igreja deveria ser entendida como a solução de muitas dificuldades existentes. “A piedade é útil em tudo”, disse em sua primeira encíclica, “e quando ela é completamente vigorosa, o povo estará completamente em paz”.

Em 1905, uma carta apostólica aos bispos italianos definia, com mais clareza, as linhas da ação social católica. “Tamanho é o poder da verdade e da moralidade ensinada por Jesus Cristo”, diz, “que mesmo o bem-estar material dos indivíduos, da família e da sociedade humana recebem suporte e proteção”. A civilização do mundo é a civilização cristã, mais sincera, mais verdadeira, duradoura e produtora de bons frutos, quanto mais distintamente cristã. Longe desse ideal, toda a civilização decai, com imenso prejuízo à sociedade. A Igreja tem sido guardiã e protetora da civilização cristã por todas as eras. “Quanta prosperidade e felicidade, paz e concórdia, respeito e submissão à autoridade, e quão excelentes governos seriam fundados e mantidos no mundo se o ideal perfeito da civilização cristã pudesse ser realizado. Entretanto, dada a guerra constante entre a carne e o espírito, entre as trevas e a luz, entre Satanás e Deus, tamanho bem dificilmente poderá ser esperado em sua plena medida. Entretanto, isso não é razão para perder a coragem. Assim, a Igreja vai com coragem, enquanto estende o Reino de Deus em locais em que ainda não foi pregado, e procura recuperar o que se perdeu no que fora conquistado”. Mais uma vez, os meios para alcançar o fim desejado são apontados: “Reinstaurar Jesus Cristo na família, na escola e na sociedade; reestabelecer o princípio de que a autoridade humana representa a de Deus; preocupar-se, de coração, com os interesses do povo, especialmente dos trabalhadores industriais e agrícolas, tornar as leis conformes à justiça e corrigir ou suprimir aquelas que não estão […] defender e sustentar os direitos de Deus em tudo e os não menos sagrados direitos da Igreja.”

— O que eu posso fazer pela Igreja? — Perguntou uma senhorita a Pio X em uma audiência privada.

— Ensinar o catecismo! — Foi a resposta imediata e talvez inesperada.

“É impossível”, disse o Papa, “reestabelecer as instituições que se demonstraram úteis no passado, pois os instrumentos devem ser adequados ao trabalho empregado. Deve haver unidade, cooperação no trabalho e métodos adaptados ao nosso tempo. Em todo trabalho social católico, deve haver submissão à autoridade católica. Que todos, portanto, esforcem-se para melhorar […] a condição econômica do povo, dando-lhes suporte e promovendo instituições que conduzam a esse fim […] e todos aqueles nossos filhos que se dedicam à ação católica escutem novamente as palavras que brotam espontaneamente de nosso coração. Em meio a amargas tristezas que nos rodeiam diariamente, diremos, com o apóstolo São Paulo, que, se há qualquer consolação em Cristo, se há qualquer conforto em nossa caridade […], tornai perfeita nossa alegria, e que possais permanecer unidos […] com um mesmo sentir, com humildade e devida submissão, não procurando vossas próprias conveniências, mas o bem comum, e imprimindo em vossos próprios corações os sentimentos de Jesus Cristo, Nosso Salvador. Que esse seja o começo de vossos projetos. Tudo o que fizerdes no mundo ou no trabalho, todas as coisas sejam feitas no nome do Senhor Jesus Cristo’, fazendo-O ser a finalidade de todo seu trabalho; ‘pois dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas; a Ele a glória para sempre. Amém’”.

A Bíblia foi o estudo favorito de Pio X durante toda sua vida. Em cada encíclica publicada, havia o testemunho de seu íntimo conhecimento e amor tanto ao Antigo quanto ao Novo Testamento. As palavras pelas quais ele, insistentemente, recomendava o cuidado e o amor ao estudo das Sagradas Escrituras aos padres e ao povo eram surpreendentes aos nossos irmãos separados que persistiam na crença de que a Igreja Católica proibia a leitura da Bíblia aos seus filhos. Ao receber representantes da Sociedade de São Jerônimo para a difusão das Sagradas Escrituras, o Papa falou com o maior louvor a respeito do esplêndido trabalho desta digna instituição que, em quinze meses, foi capaz de distribuir mais de 200 mil cópias dos evangelhos. Para aqueles teólogos católicos que estavam engajados nos estudos históricos e na pesquisa bíblica, sempre teve palavras de estímulo e de encorajamento. “A fé católica não tem receio do conhecimento, mas da ignorância”, era a verdade da qual ele estava mais do que convencido.

O Papa, que em sua juventude participava com entusiasmo de todos os jogos e esportes do seminário, foi um forte defensor das atividades físicas feitas pelos jovens. “Eu abençoo, com todo o meu coração, vossos jogos e divertimentos”, disse na ocasião de uma demonstração no jardim do Vaticano feita por clubes de atletismos. “Eu aprovo vossas ginásticas, ciclismos, canoas, alpinismos, corridas e todos esses passatempos que os livram da indolência, que é a mãe de todos os vícios. Uma vez que essas competições serão para vós símbolo da emulação na prática da virtude […], sejam fortes em guardar e em defender vossa fé quando muitos estão perdendo-a; sejam fortes para permanecer como filhos devotos da Igreja quando tantos estão rebelando-se […], sejam firmes em superar os obstáculos que encontrareis na prática da religião católica, para vosso mérito e para o bem de vossos irmãos”.

Aos peregrinos que convergiam de todas as partes do mundo em sua homenagem, Pio X endereçou palavras de simpatia e de encorajamento: “Abençoo a todos vós, grandes e pequenos, ricos e pobres”, disse a um grupo de camponeses da Moravia, “para que vossos bons mantenham-se bons e para que aqueles que se afastaram do caminho reto possam voltar; para que os pais eduquem bem os seus filhos e para que os filhos possam honrar os cabelos brancos de seus pais e o país em que foram nutridos”.

“Dizei aos ricos para serem generosos nos atos de caridade”, disse em outra ocasião, “e dizei aos pobres para que tenham orgulho de serem a viva representação de Cristo na Terra. Não odeiem e nem invejem os outros, mas tenham resignação e paciência”.

Sua ternura era especialmente revelada com seus provincianos. “Se eu pudesse dizer tudo o que está em meu coração”, disse um dia em uma peregrinação a Treviso, “a noite viria e eu ainda estaria falando”. Era difícil para ele acreditar que nunca veria seus queridos venezianos novamente. Andando, um dia, nos jardins do Vaticano com um amigo, ele ouviu distante um agudo assobio. “Escuta!”, disse triste, “talvez seja o trem para Veneza!” Embora amasse muito a sua família, nunca passou em sua cabeça, nem na deles, as vantagens de que poderiam tirar proveito por meio de sua posição. “Graças a Deus, somos capazes de manter-nos”, disse uma de suas irmãs pouco depois de sua eleição, “e não precisamos pedir-lhe nada. Nosso pobre”, acrescentaram com compaixão, “terá de pensar agora em todos os pobres do mundo”. Eles tinham um lugar reservado na capela privada do Papa nos dias de gala em São Pedro, sendo esses os seus únicos privilégios e tudo o que queriam.

Se dizia do novo Papa que sua expressão usual era de avassaladora tristeza e, para aqueles que somente viam-no em público, poderia parecer verdade. Seu espirito humilde odiava a pompa e a exibição e o fardo de sua estrondosa responsabilidade pesava em sua alma. Quando era sustentado nas multidões por meio da sedia gestatória, parecia mais ainda consciente do peso da cruz que seu divino Mestre carregou. “Sua face entre a cena de triunfo expressava quão vã é a glória terrena. Ele sempre tinha o olhar de pesar pelos pecados e pelas dores da humanidade: olhar próprio do vigário d’Aquele que dizemos ser o Homem de Dores”, escreveu Wilfrid Ward. Nas festas de São Pedro, ele proibiu os aplausos costumeiros nos serviços papais. “Não convém que o servo seja aplaudido na casa de seu Senhor”, disse severamente quando deu a ordem. Assim, passava em silêncio no meio de seu povo, mas num silêncio tenso e estremecedor, com uma emoção que poderia, ocasionalmente, ser expressa, apesar de toda tentativa em restringi-la.

Aqueles, entretanto, que o conheciam intimamente tinham outra opinião a respeito dele. Seu antigo modo genial e alegre de ser, embora ofuscado no início de seu pontificado, não estava completamente morto. Ele possuía o dom de fazer-se tudo para todos, pois podia ser alegre e divertido com os jovens e maravilhosamente terno e gentil para com os tristes e sofredores: “ele tinha o maior coração que existia naquela época”, disse alguém que o conhecia bem.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O acidente inglês - Por Hilaire Belloc [Parte III]

"[...] Primeiro, o motivo. Irei chamar o primeiro ato, a ruptura de Henrique VIII com a Santa Sé, um acidente, pois estimo que esta palavra é a que mais se aproxima com a verdade. Um acidente – por exemplo, um automóvel que se desvia – não é intencional em seus efeitos. Se deve a um cálculo mal feito por parte do condutor, quem, ao querer fazer uma coisa, faz outra. Se pode, com frequência, corrigir a má manobra e eliminar suas consequências. O condutor não a faz por gosto. [Continua]"

Continue a ler aqui: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/15/o-acidente-ingles-por-hilaire-belloc-parte-iii/

terça-feira, 14 de abril de 2015

O acidente inglês – Hilaire Belloc [Parte II]

A Inglaterra era uma velha província do Império Romano, com tradições cristãs duas vezes mais antigas e muito mais fortes que as dos distritos nórdicos da Alemanha, obrigados pela conquista dos exércitos de Carlos Magno e seus sucessores a aceitar a doutrina cristã, sua prática e a apartar-se da barbárie. Se o governo inglês não tivesse variado, a reação a favor da unidade, quando se produziu, teria sido avassaladora. Em uma palavra, a separação da Inglaterra e a Igreja constituiu, entre outros fatores de maior ou menor importância, o fator principal do sucesso definitivo de nosso desmembramento. O afastamento artificial dos ingleses do resto da Europa tornou permanente a separação da cristandade. [...]

Leia o restante aqui: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/15/o-acidente-ingles-hilaire-belloc-parte-ii/

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O acidente inglês – Hilaire Belloc.


E se disséssemos que o rompimento inglês com a Igreja foi um acidente? Para muitos, isso não é novidade; para outros, a “reforma” inglesa daria uma ótima novela da globo. Mas veja, nos próximos capítulos, o que Hilaire Belloc diz sobre o assunto. Como o tempo para traduzir nesta semana está curto, o texto será postado da mesma forma que a revolução protestante: dividido em partes. Mas “muita hora nessa calma”! Não será em tantas partes.

***

Nesta divisão do tema, que é a mais importante, a chamo de acidente inglês. Escolhi a palavra cuidadosamente.

Se houve alguma vez na história um acontecimento que não foi desejado por seus agentes, nem compreendido por aqueles que o suportaram; que não era resultado de plano algum, mas o efeito prodigioso de causas relativamente pequenas e incongruentes, esse acontecimento foi a destruição gradual, mecânica e desastrosa da mentalidade inglesa da fé que havia formado a Inglaterra.

Em sua maioria, as histórias escritas em inglês apresentam este movimento como algo nacional e inevitável; algo que a nação inglesa desejava e que, chegada a oportunidade, necessariamente conseguiu. Ao mesmo tempo, enquanto fazem alusão em diferentes graus ao plano de fundo europeu, centralizam a Reforma na história inglesa.

A primeira destas características – apresentar o que aconteceu aqui como algo nacional e inevitável – é, a partir do ponto de vista histórico, um desatino. A segunda, também através do ponto de vista histórico, é correta. Mesmo a Inglaterra não sendo uma nação pequena, o erro crasso cometido pelo governo inglês ao separar-se da unidade europeia teve influência capital para o êxito da reforma.

Não existia na Inglaterra um movimento nacional dirigido contra a Igreja Católica; o pouco que ocorreu no inicio foi um movimento do governo, que sequer foi doutrinal. Foi um ato meramente político e até mesmo doutrinal. O que seguiu não constituiu um processo normalmente desejado pelo povo em geral. Foi um processo artificial dirigido por alguns poucos homens interessados, que atuavam impulsionados pelo dinheiro e não por mania religiosa; e, o que é pior, foi um processo que, em seu inicio, não deu a estes poucos atores a ideia dos efeitos posteriores que ocasionariam por sua avidez e loucura.

Mas o enfoque sobre a reforma inglesa que a apresenta revestida de importância especial é, coisa bastante curiosa, história verdadeira, e isto apesar da intenção que encerra a versão oficial de nossos livros acadêmicos anticatólicos.

Este enfoque sobre a história da igreja da reforma ocultou, certamente, a grande número de nossos homens cultos, a natureza geral da reforma, e, em especial (o que tratarei mais adiante), dos pontos principais: que a Holanda foi o exemplo e a França o campo de batalha. Mas é certo que se a Inglaterra não tivesse apartado da unidade do mundo cristão, essa unidade estaria agora plenamente restabelecida – e teria estado há muito tempo.

Desde que a Inglaterra se afastou desta unidade, cujo princípio vivente é o Papado, o distúrbio havia despertado de forma confusa, mesmo que violenta, em toda a Alemanha, e pouco afetava o resto da Europa. Na própria Alemanha não havia afetado principalmente o setor mais forte, mas antigo e mais civilizado do país. Sua ação foi pouco profunda entre os alemães inicialmente disciplinados pela cultura romana.

Esta afirmação somente deve ser tomada em sentido geral. As exceções abundam. Assim, Estrasburgo, cidade romana (se já foi alguma vez), se contava entre as que se haviam separado pelo “protesto” de Espira.

Mas, ocorresse o que ocorreu na Alemanha, e especialmente na parte menos civilizada, era diferente na Inglaterra.

[Continua…]

***

Aproveitando as postagens de uma biografia de Anscar Vonier, responsável pela reconstrução de um mosteiro destruído durante a revolução protestante, resolvemos também revezar com postagens com um texto de Hilaire Belloc sobre o tema.

Será interessante conhecer a história de uma verdadeira Reforma, mesmo que pequena, e um verdadeiro Reformador (Anscar Vonier), em comparação com uma falsa reforma motivada pela ambição e vaidade humana:

Parte 1: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/03/29/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-1/

Parte 2: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/04/13/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-2/

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A unidade do Sacrifício cristão

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Quase todos sabem que a censura principal do protestantismo contra a doutrina católica do sacrifício eucarístico é este: a Igreja Católica, ao ensinar a necessidade de um segundo sacrifício, nega virtualmente a suficiência total do sacrifício do Calvário. Entretanto, a Igreja nunca cessou de proclamar por todos os meios ao seu alcance que seu sacrifício eucarístico não constitui de forma alguma uma abolição do sacrifício natural de Cristo na Cruz, mas é, pelo contrário, uma tributada à grande ação redentora de Cristo. O sacrifício do altar cristão e do Calvário são um mesmo sacrifício, ensina a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, a Igreja sustenta que o sacrifício eucarístico o é, em toda extensão da palavra, um ato que se renova diariamente, mesmo que seja o antigo sacrifício. Se unem de forma particular, portanto, nesta matéria divina, a unidade e a dualidade. Opino que, se não nos segurarmos fortemente no conceito sacramental do sacrifício eucarístico, será impossível refutarmos o argumento protestante. Mas, uma vez que fizemos alusão do verdadeiro sentido do sacramento, a dificuldade proposta se desvanece e ressalta a unidade fundamental do sacrifício cristão.

Se o sacrifício eucarístico fosse, de alguma maneira, natural, seria impossível evitarmos o fato de que haveria dois sacrifícios diferentes, o que levaria à pergunta de “por que dois sacrifícios?” de forma absolutamente lógica. A circunstancia de que o segundo sacrifício se realiza em condições totalmente distintas não nos permitiria evitar esta conclusão; se o sacrifício é in natura, por mais encoberto que seja, é, de fato, outro sacrifício e não o mesmo.

Mas se, por sua vez, o sacrifício é um sacramento em todo sentido do termo, não pode ser um novo holocausto, e se transforma na representação pura e simples do sacrifício histórico ou natural.

Se no sacrifício eucarístico houvesse uma imolação, uma morte, ou um ato heróico de qualquer tipo que não formasse parte do sacrifício da Cruz, se converteria imediatamente num segundo sacrifício, pois em tal caso ocorreria no mundo da graça algo novo, algo que não se realizou na Cruz.

O que constitui o prodígio e natureza própria do sacramento cristão é, precisamente, ser um ato que pode repetir-se de forma indefinida, mesmo que seu conteúdo (ou objeto) permaneça imutável.

Tal é o papel representativo do sacramento cristão. Coisa semelhante não pode acontecer fora da esfera sacramental: o sacramento não é, por acaso, este mistério da incessante repetição ou representação de uma coisa imutável em si mesma? Se Cristo se apresentasse aos nossos olhos em seu estado natural e nessas condições fosse oferecido ao Pai, esta nova vinda e nova oferenda seriam feitos históricos e formariam novas etapas na existência do Filho de Deus. A presença sacramental e a oferenda sacramental não são acontecimentos históricos na vida de Cristo; não constituem capítulos diferentes no livro de Sua existência, mesmo que, naturalmente, o ato pelo qual instituiu a Eucaristia, oferecendo-se pela primeira vez, é um fato fundamental em sua trajetória histórica. Ser oferecido sacramentalmente não forma parte da existência histórica do Filho de Deus. Se existe repetição nos atos, não a efetua Cristo, mas a Igreja militante na terra. “Assim como o que oferecemos em diversos lugares é um só Corpo e não muitos Corpos, do mesmo modo é um único sacrifício”. Sicut enim quod ubique offertur unum est corpus et non multa corpora, ita et unum sacrificium (III, Q. LXXXIII, art. I ad 1m.)

É curioso observar como um erro de princípio nestas altas disciplinas pode conduzir a divergências profundas de pensamento e, até mesmo, a apresentações perigosas da verdade católica. Para salvaguardar a unidade do sacrifício cristão, foi formulado em nossos dias a estranha hipótese de que o sacrifício eucarístico, mas que uma representação do sacrifício da Cruz, é uma parte integrante dele. Se considera a ambos os sacrifícios, o atual e o da Última Ceia, como outras etapas do grande sacrifício total que culminou sobre a Cruz.

Não me proponho criticar as diversas opiniões teológicas. Entretanto, é algo certo que considerar o sacrifício eucarístico como parte integrante do sacrifício universal equivale a deformar e alterar o papel que a tradição atribui ao sacramento. Por mais importante que seja o drama, o sacramento não forma parte dele; é, por sua própria essência, a representação do drama já terminado. O drama histórico deve encontrar-se completo antes que possam existir sacramentos, já que eles são memoriais do fato realizado, e não prólogos nem epílogos de grandes acontecimentos históricos. Se o sacrifício eucarístico fosse, de alguma forma, parte de um sacrifício universal, se representaria unicamente a si mesmo; conteria somente a si mesmo; não aplicaria outra graça além da que lhe corresponde como parte; não conteria outra imolação além da justificada por seu caráter limitado dentro de uma realidade superior. Entretanto, o sacramento cristão e, principalmente, o sacramento-sacrifício,, é uma representação, uma aplicação, uma imolação e uma plenitude de toda a imensidão do sacrifício universal. Se desejamos salvar a integridade essencial de nossa Missa, devemos vê-la como algo que existe por si mesmo, e nunca como o começo ou o fim de outra realidade, por mais divina e poderosa que seja.

Compreendo bem a tentação intelectual de quem abandonou o ponto de vista sacramental em termos gerais e, especialmente, a visão sacramental do sacrifício eucarístico. Se encontra diante de uma dualidade desconcertante, e crê vencê-la fazendo da Missa uma parte do sacrifício cristão. Crê, assim, no que poderíamos chamar de unidade orgânica, se é que podemos considerar “uno” aos diversos membros de um mesmo corpo. Na teoria que acabamos de mencionar, a Missa se converte em um membro, não no corpo inteiro. No conceito tradicional, pelo contrário, a Missa é o todo; contém Cristo totalmente, com todo o tipo de integridade que descrevemos no capítulo anterior. Não é, por acaso, um dos princípios básicos do sacrifício eucarístico a plenitude e o caráter definitivo do holocausto da Cruz? Se a Missa acrescentasse algo à Cruz, deixaria de ser sacramento, deixaria de representar. A Missa é a recordação, o memorial, da Paixão de Cristo. Que outra coisa representa o monumento se não for a vitória completa, o ato heróico,
o triunfo definitivo? Não erguemos monumentos aos fracassos, nem aos projetos não concluídos. Remover algo da plenitude do sacrifício da Cruz, por um lado, e da plenitude do sacrifício da Missa, por outro, não é uni-los em um único organismo, mas destruir os dois. É impossível aqui fazer um todo com duas metades, pois o sacramento e a realidade natural são coisas totalmente diferentes. Se unificam por meio dessa mesma diversidade, como já disse, pois um é a representação completa da totalidade da outra. A visão tradicional da Igreja, como provarei adiante, é que o sacrifício do Calvário foi completo e perfeito dentro do gênero “sacrifício”; a Eucaristia não pode acrescentar-lhe nada, pois ela é de fato “o resplendor de sua glória e figura de sua substância”.

Voltando ao argumento protestante, podemos ainda responder que essa posição é compreensível se é negado todo o sistema sacramental, raízes e ramos, convertendo a fé em um único caminho até Cristo; mas caso se admita algum sacramento-regeneração, há de admitir-se o sacramento-sacrifício; falo aqui do Batismo e da Eucaristia.

Em ambos os casos não existe mais que uma representação – no sentido técnico do termo – da Morte de Cristo, e sua aplicação à alma em particular. Se o Batismo não é uma abolição do sacrifício de Cristo sobre o Gólgota mas, pelo contrário, é o sinal da vitória do Senhor, por que a Eucaristia seria uma abolição? Em ambos os casos não tratamos com outros modos de contato entre as almas e o Cristo histórico? O sacrifício eucarístico poderá ser um contato mais vivo, mais ardente, caso prefira, mais cheio de virtude ativa que de passividade, já que contém uma substância divina; mas, apesar de tudo, não existe diferença radical, em termos rigorosamente teológicos, entre Batismo e Eucaristia, considerando esta última em sua verdadeira função sacramental de sacrifício e alimento espiritual.

Conviria solucionar agora uma dificuldade que pode desconcertar aos pensadores mais minuciosos, aos analistas mais finos de questões teológicas. O sacrifício eucarístico foi oferecido pela primeira vez na Última Ceia, antes que tivesse lugar o sacrifício natural da Cruz. Isso não indica que o sacrifício da Eucaristia constitui, de certa forma, o inicio de todo o processus da imolação cristológica? Cristo por acaso não realizou, ao oferecer-se em sacrifício no cenáculo, o primeiro ato desse sacerdócio que culminou no Calvário? Repito aqui o que seria extremamente difícil, se não impossível, localizar a Última Ceia no quadro da redenção, se damos ao sacrifício eucarístico o sentido e o valor de um sacrifício natural. Se o fosse, seriamos obrigados a aceitar a conclusão de que o mundo foi redimido antes que Cristo derramasse sua primeira gota de sangue, uma vez que a Última Ceia possuiria, por direito próprio, valor infinito de sacrifício.

A outra alternativa naturalmente seria a que alguns teólogos modernos adotam, cujas opiniões já citei; eles consideram a Última Ceia como o primeiro ato de um sacrifício universal, fazendo com que a realidade natural e sacramental se apóiem mutuamente. Apesar disso, se admitimos desde o princípio a visão sacramental do sacrifício eucarístico, toda dificuldade desaparece. Uma vez que o sacramento é, por essência, uma representação, Cristo poderia instituí-lo em qualquer momento, desde que exista corporalmente na realidade da Encarnação, e não somente na esperança dos crentes.

Essa realidade imensa, Cristo imolado na Cruz, poderia ser representada antes ou depois do Calvário, e mesmo que o sacramento derive toda sua verdade e eficácia da Morte de Cristo, sua instituição, celebração e até mesmo seu uso podem preceder a essa morte. A celebração do sacrifício que Cristo realizou não substituiu a finalidade da Cruz, como também não a substituiu a primeira fração de pão efetuada na Igreja cristã depois da vinda do Espírito Santo. Somente os sacramentos estão sublimados de tal forma acima dos acontecimentos históricos.

Falando do Batismo, São Tomás nos apresenta sucintamente a teologia dessas maravilhosas “antecipações” de Nosso Senhor. Considerando como coisa certa que os homens poderiam ter recebido o batismo antes mesmo da morte de Cristo na Cruz, ele afirma: “Mesmo antes da Paixão de Cristo, o Batismo recebia sua eficácia dessa Paixão, uma vez que a prefigurava, mas a figurava de forma diferente dos sacramentos da Lei Antiga, que eram exclusivamente figuras, enquanto que o Batismo, antes da Morte de Cristo, recebia o poder de justificar desse mesmo Cristo, cuja virtude a Paixão havia de transforma-se em fonte de salvação”. Etiam ante passionem Christi baptismus habebat efficaciam a Christi passione, in quantum eam praefigurabat: aliter tamen, quam sacramenta veteris legis, nam illa erant figurae tantum; baptismus autem ab ipso Christo virtutem habebat justificandi, per cujus virtutem ipsa etiam passio salutifera fuit (III. Q. LXVI, art. II ad 1m).

Aplicando esta doutrina ao sacrifício eucarístico da Última Ceia, podemos dizer que ele prefigurava o sacrifício da Cruz; o Cristo que logo daria sua a própria Carne e Sangue naturais o poder de redimir a humanidade, deu ao pão e vinho a virtude de representar sacramentalmente essa mesma Carne e Sangue. Não é preciso considerar, como certos pregadores gostam de fazer, o sacrifício eucarístico da Última Ceia como um voto final do Filho de Deus, comprometendo-se a morrer na Cruz. O conceito tradicional sobre a Última Ceia é de teor sacramental: Cristo, perto de abandonar este mundo, nos deixou o memorial (ou monumento) de Si mesmo; nada intrínseco à natureza desse monumento o obrigava a instituí-lo depois do próprio feito. O monumento é de natureza tal que pode ser erguido antes, uma vez que é um sacramento. A instituição do sacramento eucarístico da Última Ceia não foi somente o voto de Cristo oferecendo-se para morrer, mas o triunfo antecipado de Cristo sobre a morte.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A vida dos Anjos

1 – Os anjos têm começo, mas não podem perecer. Permanecem perpetuamente idênticos a eles mesmos.

2 – Os anjos não estão sujeitos às leis do tempo, mas têm uma medida de duração que lhes é própria.

3 – Os anjos situam-se de maneira absoluta acima do espaço, sem jamais poderem ser submetidos às suas leis.

4 – Os anjos exercem seu poder sobre o mundo material diretamente pela vontade.

5 – A vida dos anjos é dotada apenas de duas faculdades: inteligência e vontade.

6 – No que toca à ordem natural, o anjo não pode errar, nem em sua inteligência nem em sua vontade.

7 – O anjo jamais volta atrás de uma decisão que tenha tomado.

8 – O espírito angélico não é como o espírito humano, sujeito a um desenvolvimento gradual. Desde o inicio surge com plenitude de conhecimento.

9 – O anjo pode influenciar diretamente uma outra inteligência criada, mas não pode agir diretamente sobre outar vontade criada.

10 – Os anjos são dotados de livre-arbítrio. São capazes de amar e odiar.

11 – Os anjos conhecem as coisas materiais e individuais.

12 – Os anjos não conhecem o futuro, nem os pensamentos secretos das outras criaturas racionais, nem os mistérios da graça, a menos que tais coisas lhes sejam livremente reveladas por Deus ou por essas outras criaturas racionais.

[Continua...]

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Os dois nascimentos do Filho de Deus

O Nascimento é o único evento da carreira de Cristo em que se pode dizer que ocorreu duas vezes, uma na eternidade, outra no tempo. Em nenhuma outra circunstância na história do Filho de Deus podemos usar esta clara distinção da época ou duração, como atribuímos à circunstância do nascimento; Ele nasceu duas vezes, com toda exatidão da expressão.

Suponha que um homem deve iniciar duas raças, com um intervalo de tempo entre dois eventos; certamente seria contra toda a lógica e toda a verdade dizer que seriam uma raça pois foram iniciadas pela mesma pessoa. Assim, seria contrário a todas as leis do pensamento dizer que Cristo tem somente um nascimento, pois a mesma Pessoa, Cristo, nasceu em ambas as ocasiões.

[Continua...]

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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um pagão ensinando cristianismo a um que se diz cristão...

É triste ver que muitos cristãos ainda conhecem pouco de sua história (e por isso são presas fáceis para os que criticam a fé, inclusive com dados mentirosos ao estilo do Código da Vinci), por outro lado é bom ver pessoas que, mesmo não sendo cristãs, não procuram distorcer os fatos sobre o cristianismo.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Thomas More e a importância das imagens

Não custa nada colocar sempre algo sobre esse assunto já batido, mas que ocupa a imaginação fantasiosa de alguns protestantes sobre as imagens. Alguns chegam a considerar a única coisa da Igreja que se deve criticar (até o momento em que são respondidos e começam a procurar outras desculpas para o protesto), e que, fora isso, seriam iguais a eles. Esse trecho, mencionado no livro Trivium, é uma refutação a algumas alegações de Tyndale. Bom proveito:

(o trecho em vermelho é um acréscimo meu)

"Imagens são livros necessários aos sem instrução e são bons livros também aos instruídos. Pois todas as palavras são apenas imagens que representam coisas que o escritor ou orador concebe em sua mente, tanto quanto a figura de uma coisa emoldurada pela imaginação, e deste modo concebido na mente, é tão somente a imagem representativa da coisa mesma sobre a qual o homem pensou.


Por exemplo, se eu conto um episódio da vida de um amigo meu [ou, se alguém narra um episódio da Bíblia, como a morte de Jesus], a imaginação que tenho dele em minha mente não é ele mesmo, mas uma imagem que o representa. E quando eu o nomeio, seu nome não é nem a figura que dele tenho em minha imaginação, mas apenas a imagem que apresenta a você a imaginação da minha mente.


Se eu estiver muito longe de você para lhe contar tal episódio, então será a escrita, e não o nome mesmo, uma imagem representativa do nome. E, no entanto, todos esses nomes falados e todas essas palavras escritas não são signos ou imagens naturais, mas signos construídos por consentimento e convenção entre os homens para significar as coisas, enquanto as imagens pintadas, esculpidas ou entalhadas podem ser tão bem trabalhadas, tão fiéis à verdade e ao objetivo, que, naturalmente, acabam representando-o muito mais eficazmente do que o nome falado ou escrito. Pois aquele que nunca tenha ouvido o nome do meu amigo, mas que tenha visto um seu retrato, se um dia a vir em pessoa, o reconhecerá através da imagem trazida à memória." (Confutation of Tundale's Answers)

quinta-feira, 22 de março de 2012

O que Ehrman disse? O que não disse? No que acreditam as "ehrmanetes" e porque estão erradas.

Achei esse vídeo no blog de um amigo, e achei muito bom. Ehrman é um grande estudioso, embora não o considere o maior (e mesmo se fosse o maior, não significaria que é inerrante ao falar da inerrância). O livro em questão tem muitas informações boas, mas o título (principalmente da edição em português) é tendencioso, o que faz pessoas com desespero em criticar a Bíblia acharem que ele refutou de alguma forma.



Mais textos sobre o autor (e do autor) para quem se interessar:

http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/09/o-polemico-bart-d-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/03/comentarios-sobre-bart-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/04/debate-sobre-ressurreicao.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/11/criterio-para-estabelecer-veracidade-do.html

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Norman Geisler, C. S. Lewis: intercessão dos santos e purgatório.

Encontrei um texto interessante onde teólogo protestante Norman Geisler menciona que os santos estão conscientes do que acontece aqui na terra, além de fazerem orações diante de Deus para as cosias que acontecem por aqui. Nesse mesmo trecho ele critica a oração pelos mortos, que por ora não irei comentar, pois, pelo que o texto demonstra, deriva de um certo equivoco do que é a oração pelos os mortos. No entanto, depois desse trecho, segue um texto de outro protestante (C. S. Lewis) demonstrando a incoerência da critica de certos protestantes de se orar para os mortos. (Perceba a diferença de "pelos" e "para" (ou por), que tratarei em outra ocasião).

Segue a citação:

"... os mortos oram pelos vivos (cf. Ap 6:10), mas não há exemplo em toda a inspirada Palavra de Deus de vivos orando por mortos. Os santos martirizados, na glória, são descritos como orando por vingança sobre os ímpios (Ap 6:9) E como há alegria no céu por uma única alma que é salva na terra (Lc 15 10), não há dúvida de que há oração no céu pelos perdidos. Mas a Bíblia não deixa nem mesmo o menor vislumbre de esperança para quem quer que morra em seus pecados [nem o ensino católico] (veja os comentários de 2 Ts 1:9)." (Manual popular de Dúvidas, Enigmas e "Contradições" da Bíblia -Norman Geisler - Thomas Howe. sobre 2 Samuel 12:21-23)

Não irei me alongar para explicar as partes destacadas, o principal objetivo do post é uma reflexão. Fica, para uma reflexão mais ampla, uma citação de C. S. Lewis sobre o assunto:
"Imagino se quem morreu há tempos fica sabendo quando nós enfim, após incontáveis malogros, somos bem-sucedidos em perdoá-los. Seria uma pena se não. Um perdão dado mas não recebido seria frustrado. O que me traz à sua questão.
Claro que eu oro pelos mortos. O ato é ão espontâneo, quase inevitável, que só o argumento teológico mais coercivo seria capaz de me dissuadir. E desconheço como o restante das minhas orações sobreviveria se essas, pelos portos, fossem proibidas. Na nossa idade, a maior parte daqueles a quem mais amamos já morreu. Que tipo de interação com Deus eu poderia ter se aquilo que mais amo não pudesse ser mencionado diante dele?Todavia, não cremos nós que Deus já fez e já está fazendo tudo que pode pelos vivos? O que mais haveríamos de pedir?
 Na visão protestante tradicional, os mortos estão ou condenados ou salvos. Se condenados, orar por eles é inútil. Se salvos, inútil da mesma forma. Deus já fez tudo por eles, o que mais haveríamos de pedir?
Todavia, não cremos nós que Deus já fez e já está fazendo tudo que pode pelos vivos? O que mais haveríamos de pedir? No entanto, é-nos mandado pedir.
'Sim', alguém responderá, 'contudo os vivos ainda estão na estrada. Ulteriores provações, desenvolvimentos, possibilidades de erro aguardam por eles. Os saltos, no entanto, têm sido aperfeiçoados. Terminaram a corrida. Orar por eles pressupõe que progresso e dificuldades ainda são possíveis. Na verdade, você está introduzindo algo como o Purgatório."
Bem, imagino que esteja. Embora seria de supor até no Céu algum incremento perpétuo de bem-aventurança, alcançado por meio de uma autorrendição cada vez mais extasiada, sem a possibildiade de fracasso, mas talvez não sem os ardores e esforços que lhe são próprios - pois o deleite também conta com suas dificuldades e escaladas íngremes, como bem sabem os amantes. Mas não vou insistir nessa questão nem tentar fazer conjecturas sobre ela por enquanto. Eu acredito no Purgatório.
Lembre-se, os reformadores tiveram bons motivos para lançar dúvidas sobre a "doutrina romana concernente ao Purgatório", considerando em que se transformara essa doutrina na época. Não me refiro ao simples escândalo comercial. Se você se desviar do Purgatório de Dante para o século XVI, ficará aterrorizado com a degradação. Em Supplication of Souls [Súplica de almas], de Thomas More, o Purgatório nada mais é que um Inferno temporário. Nele as almas são atormentadas pelos demônios, cuja presença é "mais horrível e penosa para nós que a própria dor". Pior ainda, Fisher, em seu sermão sobre o salmo 6, diz que as torturas são tão intensas a ponto de o espírito que as sofre não ser capaz, por causa da dor, "de lembrar de Deus como deveria fazer". Na verdade, até a etimologia da palavra purgatório já deixou de ser levada em conta. Sua dor não nos traz mais perto de Deus, mas faz que o esqueçamos. É um lugar não de purificação, mas de puro castigo retributivo.
A visão correta se volta esplendorosamente para The Dream of Geronitus [O sonho de Gerontio] de Newman. Ali, se me lembro bem, a alma salva, ao pé do trono, suplica para ser levada embora e purificada. Não consegue suportar nem mais um instante "as trevas que afrontam aquela luz". A religião tem reclamado o Purgatório.
Nossa alma exige o Purgatório, não? Seria de cortar o coração se Deus nos dissesse: "É verdade, meu filho, que você está com o hálito forte e que de seus trapos pingam lama e lodo, mas somos caridosos aqui, e ninguém o repreenderá por essas coisas, nem se apartará de você. Entre no gozo do teu Senhor", não acha? Nós não deveríamos retrucar: "Com submissão, Senhor, se não houver nenhuma objeção, eu preferiria ser purificado primeiro"? "Pode machucar, você sabe..." "Mesmo assim, Senhor."
Suponho que seja normal o processo de purificação envolver sofrimento. Em parte por tradição; em parte porque a maioria do bem real que me tem sido feito nesta vida o tem envolvido. Mas não entendo que o sofrimento seja o propósito da purgação. Poso bem crer que pessoas nem muito piores nem muito melhores do que eu sofrerão menos ou mais do que eu. "Sem disparates envolvendo o mérito." O tratamento dado será o necessário, quer ele machuque muito, quer pouco.
Minha imagem favorita dessa questão vem da cadeira do dentista. Espero que, quando meu dente da vida for arrancado e eu estiver "me recuperando", uma voz diga: "Enxágue a boca com isto aqui". "Isto aqui" seria o purgatório. O enxágue pode durar mais tempo do que sou capaz de imaginar agora. O gosto desse "isto aqui" pode ser mais adstringente e ardente do que minha atual sensibilidade consegue suportar.
Mas More e Fisher não conseguirão me convencer de que será odioso e profano.
Sua própria dificuldade particular - o fato de os mortos não estarem inseridos no tempo - é outra questão.
Como sabe que não estão? Eu com certeza acredito que ser Deus é desfrutar um presente infinito, no qual nada ainda passou e nada ainda está por acontecer. Disso se depreende que podemos dizer o mesmo a respeito de santos e anjos? Ou, pelo menos, exatamente o mesmo? Os mortos talvez experimentem um tempo não tão linear quanto o nosso - que tenha, por assim dizer, espessura, bem como comprimento. Já nesta vida temos alguma espessura sempre que aprendemos a dar atenção a mais de uma coisa de uma só vez. Pode-se supor essa situação ampliada a qualquer medida, de modo que, embora, para eles tanto quanto para nós, o presente esteja sempre se tornando o passado, ainda assim cada presente contenha inimaginavelmente mais do que o nosso.
Tenho a impressão - você consegue resolver o problema para mim e me dizer se é mais de uma impressão? - de que revestir a vida dos mortos benditos de uma atemporalidade rigorosa é incoerente com a ressurreição do corpo.
De novo, como você e eu concordamos, quer oremos em benefício dos vivos, quer dos mortos, as causas que impedirão ou excluirão os acontecimentos pelos quais oramos na verdade já estão operando. Na verdade, fazem parte de uma série que, suponho eu, remonta à criação do Universo. As causas que fizeram da enfermidade de George uma coisa trivial já estavam em operação enquanto orávamos acerca dela; se fosse o que temíamos, suas causas também teriam estado operando. É por isso, conforme eu sustento, que nossas oraões são atendidas ou não na eternidade. A incubência de promover o encaixe perfeito entre histórias espirituais e físicas do mundo umas nas outras se realiza por completo no próprio ato da criação. Nossas oraçõse, e outros atos livres, nos são atos da criação. Nossas orações, e outros atos livres, nos são conhecidas apenas quando atingimos o momento de fazê-las. Mas elas têm participação eterna na partitura da grande sinfonia. Não são "predeterminadas"; o prefixo pré dá lugar à noção de que a eternidade não passa de um tempo mais antigo. Pois, embora não sejamos capazes de experimentar nossa vida como um presente sem fim, somos eterno aos olhos de Deus; ou seja, em nossa realidade mais profunda. Quando digo que estamos "no tempo", não quero dizer que estejamos, impossivelmente, fora do presente infinito em que Ele nos observa, como observa tudo o mais. Quero dizer, nossa limitação como criaturas pode ser experimentada por nós só no modo de sucessão.
Na verdade, começamos introduzindo a questão da maneira errada. A questão não é se os mortos fazem parte da realidade atemporal. Eles fazem; o mesmo acontece como lampejo do raio. A questão é se eles compartilham da percepção divina da atemporalidade." (Oração: cartas a Malcom, na carta XX)
Enfim... que esses textos sirvam para que você que critica a intercessão dos santos e o purgatório perceba que não é incoerente e anti-bíblico. Pelo contrário, geralmente quando se critica a intercessão dos santos, se faz a um espantalho criado exatamente para desviar a atenção da verdade. Se quer criticar a doutrina, façam, mas não critiquem uma imagem distorcida achando que estão fazendo um bem. Não faz mal ser honesto quanto a isso, pelo contrário, faz muito bem! Quem sabe assim, com exemplos de protestantes (assim como vários que já citei aqui) que os fanáticos, que não são todos, parem com essa birra.

Isso não foi colocado para demonstrar biblicamente. Para isso há vários textos tanto aqui quanto em outros lugares. É uma forma de explicar o conceito. A partir de um real conceito (não das fantasias de alguns delirantes) se pode fazer uma crítica coerente.

Já está mais do que na hora de certos teólogos protestantes estudarem melhor suas doutrinas, e, se forem criticar a doutrina católica, que critiquem-na em si, e não sua distorção. Ler um livrete aqui e ali contra a Igreja não significa necessariamente que estudaram a fundo. Aliás, o fato da maioria dos críticos protestantes falarem sempre contra a sua imagem distorcida se deve a isso.

Está mais do que na hora de termos debates sensatos e honestos. Cabe agora aos protestantes honestos confrontarem o que aprenderam com a real doutrina Católica.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Evangelhos Canônicos e Apócrifos - Tabela comparativa.

Uma interessante tabela comparativa entre os "Quatro Evangelhos" e os outros evangelhos que vi numa publicação de Dave Armstrong e resolvi postar. É inegável o papel da Tradição para o reconhecimento canônico, apesar de não ter sido feito apenas por ela.


Para mais informações: http://ntcanon.org/table.shtml

domingo, 1 de janeiro de 2012

O cristianismo é culpado pela escravidão? - Ravi Zacharias

Sam Harris também critica o cristianismo pela escravidão, o que eu acho muitíssimo irônico (ver Carta, 14-19). Na superfície, ele defende a igualdade da dignidade humana (ver Carta 18). Ao mesmo tempo, ele faz piada com a crença de bilhões de pessoas e quer erradicar essas crenças com base na sua crença de que o cientista que crê somente na matéria é, de fato, intelectualmente superior. Ele diz expressamente que 93% dos cientistas não reconhecem a idéia de Deus (Carta 39). De onde ele tirou esse número? De que cientistas ele está falando? Eles são ocidentais ou orientais, comunistas ou capitalistas? E se uma porcentagem de cientistas orientais mais alta que a de cientistas ocidentais acredita em Deus? Isso provaria que os ocidentais são superiores do ponto de vista intelectual aos orientais? Já vi dados estatísticos afirmando que 40% dos cientistas realmente acreditam em Deus. [1]

Mesmo se o número de Harris for verdadeiro, não podemos contestar que, só porque uma porcentagem alta de pessoas acredita em algo, isso não torna esse algo moralmente correto? Existe um motivo porque a escravidão não é tratada diretamente na Bíblia, como Harris deseja que fosse. Evidentemente ele não leu Jó 31.13-15, em que Jó defende a justiça para aqueles que trabalham para ele e que tanto ele quanto seus trabalhadores são iguais na condição humana.

O Novo Testamento contém uma carta bela e terna escrita pelo apóstolo Paulo a Filemom, um proprietário de escravo. Nessa carta, Paulo pede a Filemom que trate seu escravo fugido não como a um servo, mas como a um irmão. Numa frase importante, Paulo escreve: “Mesmo tendo em Cristo plena liberdade para mandar que você cumpra seu dever” (v. 8); mas não manda. Em vez disso, ele apela não meramente para o direito terreno, mas para o direito mais sublime do amor: “Assim, se você me considera companheiro na fé, receba-o como se estivesse recebendo a mim. Se ele o prejudicou em algo ou lhe deve alguma coisa, ponha na minha conta” (v. 17,18). O que mais Sam Harris gostaria que ele dissesse?

Ao contrario do igualitarismo que a fé cristã ensina expressamente, os escritos de renomados ateus são contra o igualitarismo. Igualitarismo não é dogma do ateísmo. Ouça Nietzche: “A igualdade é uma mentira inventada por pessoas inferiores que querem se reunir em bandos para superar o poder daqueles que são naturalmente superiores a elas. A moral dos ‘direitos iguais’ é a moral de rebanho e, porque se opõe ao cultivo de indivíduos superiores, leva à corrupção da espécie humana” [2]

Temos aqui um deles nos dizendo que existem seres humanos “superiores” e “inferiores”. Já trilhamos o caminho ateísta antes e ele nos levou ao Holocausto. Foi a crença numa moral absoluta, num igualitarismo divino verdadeiro, que pôs fim à escravidão. O motivo por que Jesus não fala nada sobre o problema da escravidão é muito simples. Ele não se manifestou sobre muitas questões que o “direito” poderia tratar sem mudar o coração, entre eles a derrubada de Roma – o império que havia escravizado sua amada Jerusalém e seu povo. Seus discípulos queriam que ele falasse ousadamente contra as leis de Roma, que os explorava e lhes restringia a prática da fé. Na verdade, aqueles que queriam calar Jesus até opuseram Roma contra ele, mas ainda assim ele não falou contra a tirania romana.


Notas:

1 – Ver Larson, E. J.; Witham, L. Scientists Are Still Keeping the Faith, Nature 386, 1997, p. 435-36; ver também Collins, Francis. Why This Scientist Believes in God, 6 de abril de 2007. Disponível em: HTTP://www.cnn.com/2007/US/04/03/collins.comentary/index.html> Acesso em: 1 de outubro de 2007.

2 – Citado em Novak, Philip. The Visiono f Nietzche, London: Veja, 2001, p. 16.


Texto retirado do livro "A morte da Razão - Uma resposta aos neoateus"

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cristofobia, JÁ CHEGA!


Criticar alguma personalidade, algum judeu (que não seja Jesus), os homossexuais, dentre outras pessoas e grupos é querer acabar com a liberdade de expressão e incitar ódio e preconceito (basta lembrar o alarde que certos grupos fizeram com o filme "A Paixão de Cristo", em algumas falas de judeus, ou coisas do tipo)... Agora criticar Jesus é ser politicamente correto, mente aberta, em alguns casos - como esse - é fazer arte.

Fazer ataques a Cristo e aos cristãos tem que ser permitido, temos que ser "tolerantes", isso é liberdade de expressão. O contrário não pode ser permitido, pois é querer impor a religiosidade e dogmas.

Como disse Reinaldo Azevedo:

"Cristo — sim, aquele, o Jesus — é alvo das maiores vilezas. E ai de quem se atrever a contestar o agressor. Há o risco de ser linchado sob a acusação de cercear a liberdade alheia. Malhar o Nazareno pode; chamá-lo eventualmente de “impostor” é um sinal de progressismo, de independência e de caráter superior. Mas Chico Buarque é intocável. Não foi assim, em passado recente, com Che Guevara, o porco fedorento?"

Segue aí um vídeo do que consideram liberdade de expressão. Ao mesmo tempo que criticava os poucos jovens que protestavam contra a peça em que se atira pedras numa imagem de Jesus Cristo, a platéia grita reafirmando essa "liberdade". Ironicamente os jovens que protestavam não possuem tal liberdade, tendo que ser tirados por policiais enquanto a platéia aplaudia o espetáculo.

Não é raro encontrar grupos que protestam de forma zombeteira em eventos organizados pela Igreja. Cito por exemplo um que jogava camisinhas na cara de jovens que oravam no JMJ, se não me falha a memória. Ou o tão comum hoje "beijaço gay" (que parece já até mesmo um certo fetiche). Agora compare-os com o protesto desse vídeo.

O que está na claro é que querem ter um tipo estranho de liberdade: liberdade para impor. Impor seus dogmas com aparência de mera opinião politicamente correta. Você não pode criticá-los, isso é intolerância. Não podem prendê-los em seus protestos contra a igreja (e falo agora das demais igrejas cristãs, não apenas a Católica). No atual conceito de "liberdade de expressão" se pode tolerar imagens de santos com formas eróticas, como fizeram numa parada gay, e ao mesmo tempo é intolerável que se diga o que tais santos diziam sobre essas práticas, o que fazia parte da vida dessas pessoas.

Podem zombar e atirar pedras em imagens que simbolizam a crença de milhares de pessoas no mundo inteiro, mas se você fizer uma música contrária a o que muita gente pensa, um filme em que apenas coloca o que está relatado em um documento antigo e considerado autêntico ou afirmar que não concorda com eventos como o holocausto por não existir evidências suficientes (que não é o meu caso), será acusado de incitar o ódio, ser intolerante e um fundamentalista fanático. Vão considerar uma ofensa, um crime digno de castigo.

Eles podem criticar a família, a correção dos filhos, a defesa da vida dos bebês e a dignidade desses seres vivos que são assassinados no ventre de suas próprias mães em prol de uma obsessão ao consumo de coisas e de pessoas, além de uma fuga de responsabilidade como seres humanos. Mas criticar qualquer uma dessas coisas é intolerância e algo injustificável. É isso que querem impor.

Eu não estou criticando a liberdade de se expressar, a questão aqui é a falsa tolerância. Então está aí meu recado: chega de Cristofobia.




terça-feira, 6 de setembro de 2011

Prova bíblica para o culto de Deus através de uma imagem.

Por Dave Amstrong

Às vezes perdemos coisas na Bíblia, embora elas estejam bem na nossa frente. Alguns de nossos irmãos protestantes (principalmente os calvinistas, mas algumas outras denominações também) têm medo quase obsessivo de qualquer imagem associada com a adoração em tudo, pensando que todas as manifestações são exemplos de idolatria e exaltação indevida a “imagem de escultura”. Isto levou alguns elementos fanáticos a se opor até mesmo por crucifixos e estátuas de Cristo como ídolos. Em outras palavras, todas as imagens desabaram como “imagem de escultura” nos Dez Mandamentos, por conta dessa mentalidade equivocada. Mas a Bíblia não toma esse ponto de vista. Aqui está um exemplo impressionante:

E acontecia que, saindo Moisés à tenda, todo o povo se levantava, e cada um ficava em pé à porta da sua tenda; e olhava para Moisés pelas costas, até ele entrar na tenda. E sucedia que, entrando Moisés na tenda, descia a coluna de nuvem, e punha-se à porta da tenda; e o SENHOR falava com Moisés. E, vendo todo o povo a coluna de nuvem que estava à porta da tenda, todo o povo se levantava e cada um, à porta da sua tenda, adorava.

É também uma manifestação sobrenatural, que é uma grande diferença com qualquer ídolo verdadeiro feito por mãos de homens, mas que não faria nenhuma diferença para aqueles que equivocadamente sustentam que é inadmissível que Deus seja associado a qualquer imagem. O problema surge quando o próprio Deus expressamente sanciona tais imagens e a adoração em conjunto com elas, como aqui. Os iconoclastas (opositores de imagens) têm que explicar coisas como a sarça ardente (Ex 3,2-6), que não é somente fogo, mas também chamada de “anjo do Senhor” (Ex 3,2), “Deus” (3:4,6,11,13-16,18, 4:5, 7-8) e “O Senhor” (3:7, 16,18, 4:2, 4-6, 10-11, 14) alternadamente. Um anjo é uma criação (como também é o fogo e a nuvem), porém, Deus escolheu usar um ser criado e objetos inanimados para representá-lo de forma visível. Vários casos semelhantes ocorrem no Velho Testamento.

Original: http://socrates58.blogspot.com/2011/06/biblical-evidence-for-worship-of-god.html

Comentários do blog:

Apesar da questão das imagens ser pequena, pois talvez seja a objeção mais ridícula feita a Igreja Católica, ela é a que é mais usada. Motivo? Suspeito que os principais são uma falta de entendimento do que as Sagradas Escrituras ensinam, bem como do conceito de imagens, ídolos, ícones, idolatria e veneração. Muitas pessoas sabem que segundo as Escrituras não há condenação para o uso de imagens, no entanto ainda não são a favor, e o principal motivo para isso é que foi colocado em suas mentes uma associação para o mal em relação as imagens. Tanto é que o mais comum é chamarem "Imagens de Escultura" mesmo fotos, que claramente não são escultura. Ou seja, por tanto afirmarem isso e colocarem em suas mentes (um tipo de lavagem cerebral), qualquer imagem é vista [emocionalmente] como algo ruim. Não pelo seu intelecto, pois admitem racionalmente que o uso de imagens não é idolatria.

Se você conversar com qualquer evangélico sobre a Igreja Católica, é muito provável que seja o primeiro assunto a ser tocado. Para muitos, é a única objeção à Igreja, pois se não existissem imagens, ela seria como as evangélicas! Ora, há muito mais diferenças.

Assim, peço aos evangélicos que ainda continuam a criticar o uso de imagens, bem como a veneração de Santos e sua intercessão (que são coisas diferentes), que deixem de lado essa associação ao que é ruim. Não faz sentido continuar em um conjunto de grupos (protestantismo) em que suas objeções à Igreja Católica são falsas.


Deus estava sendo representado por essa coluna de nuvem. Eles não adoravam a coluna de nuvem, mas a Deus representado por ela, uma imagem feita pelo próprio Deus. Assim somo nós católicos. Também não veneramos a imagem (veja a mudança de termo, pois "venerar" não é "adorar"), pois ela em si não é nada, e sim a pessoa representada pela imagem.


Antes que venham postar dizendo que não é proibido usar imagens, mas se ajoelhar, ou venerar santos, leiam esses textos::

- Imagens, outras perspectivas.
- Católicos são idólatras, porque quero, porque quero e porque quero!
- As catacumbas.

Ainda há vários outros textos bíblicos sobre o uso de imagens, veneração de santos e consciência pós-morte. Sempre diferenciando o uso de imagens, de venerar, e de se pedir intercessão.

Quanto mais vejo certas objeções à Igreja Católica, mais percebo que os protestantismos não faz sentido.

Ps: Comentários ad hominem não serão aceitos.

domingo, 14 de agosto de 2011

Novo Testamento - As ferramentas e o texto

Por Ben Witherington III


Para pessoas modernas como nós, é difícil imaginar o mundo antes das máquinas de impressão. De fato, é difícil para alguns de nós imaginar o mundo antes dos computadores, da internet, da TV ou, antes, das modernas bibliotecas, jornais ou revistas de notícias. Entretanto, o NT não só foi escrito antes de todas essas invenções, como o foi numa época em que a alfabetização ainda era restrita a uma parcela muito pequena da população. Além disso, foi escrito muito antes do registro sonoro de alguma coisa dita por alguém. Os antigos raramente esperavam uma transcrição ao pé da letra de uma fala, exceto ocasionalmente, quando se tratava de atas legais ou pronunciamentos do rei. Mesmo assim,obter a reprodução ao pé da letra de discursos proferidos durante um julgamento era novidade da época de Júlio César. Tiro, o famoso secretário e companheiro de viagens de Cícero, foi muito elogiado por causa da adaptação de uma “recente” invenção, a “taquigrafia” (espécie de escrita abreviada), que lhe permitia anotar ipsis litteris os discursos feitos nas cortes de Roma, no primeiro século antes de Cristo.

No mundo do NT, a palavra falada reinava soberana. Aliás, o NT foi escrito numa cultura predominantemente oral, na qual a escrita não tinha a primeira nem a última palavra. Pense, por exemplo, no que Platão disse antes da época do NT, quando menciona a advertência de Sócratis contra a substituição das tradições orais pela palavra escrita, porque as pessoas deixariam de usar a memória (Fedro, 274-275)! Os mesmos sentimentos são também expressos por autores que escreveram mais próximos da época do NT, como Xenofonte (Simpósio, 3.5) e Diógenes Laércio (7.45.56). Papias, um dos primeiros pais da igreja, que viveu no final do primeiro século d.C. e início do segundo, é famoso por sua observação sobre quanto ele preferia a palavra viva e as testemunhas vivas a qualquer escrita.

Devemos dar atenção à advertência de H. Gamble, de que “fazer uma distinção marcante entre os modos oral e escrito é anacrônico, no sentido que pressupõe tanto a moderna noção de estabilidade de um texto quanto os modernos hábitos de leitura. Os manuscritos, como eram todos os textos anteriores à invenção da imprensa, eram muito menos estáveis que os atuais textos impressos, porque estavam sujeito a modificações acidentais ou propositais, a cada nova transcrição. Além disso, na antiguidade, quase toda leitura, pública ou privada, era eita em voz alta; os textos eram rotineiramente convertidos no modo oral. Sabendo disso, os escritores antigos escreviam tanto para o ouvido quanto para os olhos” [1].

Essas atitudes em relação à oralidade e as dimensões desse modo de comunicação prevaleceram durante toda a época do NT, e simplesmente salientam o quão espantoso é o fato de os 27 documentos que constituem o NT terem chegado até nós. Então, como esses 27 documentos foram gerados numa época anterior à produção de textos em massa e à disseminação da alfabetização? É uma história notável, e infelizmente, sabemos muito pouco sobre ela. Mas o que sabemos merece ser contado e, espero, bem contado.

Nós, que estamos acostumados a ler a Bíblia, gostamos de repetir a frase “No princípio era o Verbo”. Logo ficará bem claro quanto essa frase é verdadeira. Antes que houvesse quaisquer palavras escritas para compor os livros do NT, havia palavras faladas – milhares delas. Provavelmente, o NT é apenas a ponta do iceberg de uma abundância de palavras sobre Jesus que foram comunicadas no primeiro século d.C. Podemos quase sentir a frustração do autor do evangelho de João, quando diz: “Jesus, na verdade, realizou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão registrados neste livro” (Jo 20.30). Por que eles não foram registrados? Porque um rolo de papiro tinha um determinado tamanho, e o papiro era caro. Além disso, escrever e copiar um texto à mão era uma tarefa extremamente tediosa. Essas são limitações que raramente experimentamos na maioria dos lutares hoje.

Vejamos a questão sob outro ângulo. Os evangelhos abrangem, basicamente, o período da história em que Jesus exerceu seu ministério na Terra Santa, aproximadamente de 27 a 30 d.C. Não encontramos em nenhum lugar dos evangelhos uma passagem que mencione Jesus ou qualquer um dos discípulos escrevendo enquanto aqueles eventos ocorriam. Provavelmente, a narrativa da história na forma escrita surgiu mais tarde.Semelhantemente, todas as epístolas de Paulo foram escritas para congregações que já haviam sido fundadas e tinham recebido a palavra oralmente muito antes de receberem qualquer comunicação por escrito. De fato, as cartas de Paulo funcionam como uma espécie de substituto das conversas orais que ele gostaria de ter tido, se pudesse estar presente. Tanto isso é verdade que as cartas trazem as marcas características desse tipo de comunicação – elas refletem padrões e técnicas da antiga retórica Greco-romana, a arte oral da persuasão. No caso dos evangelhos e das epístolas, a Palavra era oral muito antes de ser escrita. Hoje em dia, invertemos o processo quando lemos o texto do NT em voz alta e, em seguida, proclamamos ou discursamos com base no que foi lido. Portanto, é justo dizer que, quando contamos a história do NT, estamos contando a história de um fenômeno de segunda ordem, a história do resíduo literário de um movimento primordialmente oral que cresceu fundamentado na pregação e no ensino, na oração e no louvo e em outras formas de comunicação oral. No período inicial da história cristã, não foi principalmente por intermédio dos textos que a Palavra se espalhou, mas sim pela proclamação oral. A exceção à regra foi o uso das Escrituras Hebraicas ou, mais freqüentemente, sua tradução grega, a Septuaginta, como podemos ver na passagem [2] de 2 Timóteo 3,16. Precisamos ter essas coisas em mente agora que vamos examinar os maravilhosos e desafiadores textos do NT.

AS FERRAMENTAS DO OFÍCIO E SEUS USUÁRIOS

Apesar das afirmações tão seguras de inúmeras introduções ao NT, não sabemos muito sobre quem realmente escreveu alguns dos seus livros. Quando digo “escreveu”, estou me referindo a quem realmente fez os apontamentos. E, mesmo quando temos certeza de quem foi a fonte de determinado documento, por exemplo, de que a carta aos Romanos saiu da mente de Paulo, somos informados de que a pessoa que efetivamente redigiu o documento foi um desconhecido chamado Tércio (Rm 16.22). [3]

Vemos, então,que foi necessário certo trabalho de equipe para escrever alguns documentos do NT, e que teremos de discutir as relações entre os autores e escribas, e entre os que passavam adiante as tradições e os editores, antes de terminarmos. Alguns documentos, tais como os três primeiro evangelhos, são formalmente anônimos, já que o nome do autor não é mencionado em nenhuma parte do livro. Tampouco são mencionadas os nomes dos escribas. Os sobrescritos desses evangelhos refletem tradições posteriores da igreja a respeito da autoria ou fontes primária do material.

Também temos, é claro, um documento como Hebreus, que é claramente anônimo, embora tenham surgido várias hipóteses sobre quem seria seu autor. Só quando o nome do autor é mencionado no próprio documento (como ocorre na maioria das cartas do NT) é que temos um ponto de partida concreto para definir quem produziu um determinado livro do NT. Mas o que realmente sabemos é que, fosse quem fosse, a pessoa que produziu o primeiro exemplar de cada um desses documentos sabia ler e escrever grego, que, obviamente, é a língua em que foi escrito todo o NT, pois era a língua franca do mundo Greco-romano. [4] Portanto, vamos primeiramente examinar a habilidade e o ofício de escrever em grego na antiguidade.

Como a taxa de alfabetização nunca ultrapassou cerca de dez por cento, durante a época em que os documentos do NT foram redigidos, [5] É lógico que a maioria das pessoas, quando desejava que alguma coisa fosse escrita, recorria a um escriba, um escritor profissional. Normalmente, essas habilidades profissionais eram requisitadas para a elaboração de documentos muito práticos – contratos, testamentos, cartas comerciais, certidões de casamento e assemelhados. Os livros do NT não eram nada disso. Porém, numa cultura predominantemente oral, com alta taxa de anafalbetismo, não é de admirar que os escribas, ou amanuenses, fossem fáceis de encontrar e aceitassem escrever quase todo tipo de documento, mediante remuneração. Contudo, não devemos nos apressar em concluir que todos os documentos do NT foram escritos por escribas. E por quê?

Os variados níveis de habilidade na redação do grego do NT mostram que, com certeza, esses documentos não foram todos redigidos por profissionais fluentes em grego, embora isso tenha ocorrido algumas vezes, como no caso de Romanos. Também é interessante observar que o próprio conteúdo dos documentos do NT os teria enquadrado como um tipo de literatura que, normalmente, só era lida pela elite letrada. Esse não era o tipo de documento prático ou comercial que pessoas comuns da sociedade Greco-romana teriam redigido ou mandado copiar.

Além da classe dos escribas, a alfabetização também era encontrada entre pessoas que não pertenciam à elite da sociedade, como soldados, médicos, comerciantes, artesãos e engenheiros. Podemos conjeturar com certo grau de segurança que pelo menos dois dos maiores documentos do NT, Lucas e Atos, foram escritos por alguém que não era um escriba mas era letrado por causa de sua profissão (i.e. , era médico). Uma suposição igualmente razoável é a de que um documento como Apocalipse foi escrito por alguém cuja primeira língua era o aramaico, mas que tinha o grego como segunda língua, porquanto ele escreve em grego com certa dificuldade. [6] O NT como um todo provavelmente não é resultado do trabalho de escribas; e, como a maioria ou todos os documentos foram elaborados para serem lidos em voz alta, o objetivo de seus redatores não foi produzir literatura pura, no sentido moderno do termo. Eram texto com funções predominantemente não-literárias. [7]

Então, como se iniciou o processo? Depois de um período em que as histórias do evangelho foram divulgadas em diversos contextos e de diversas maneiras, e exortações de vários tipos foram feitas oralmente na igreja primitiva, chegou um momento em que fatores ligados à distância espacial e temporal provocaram certa urgência de colocar várias coisas por escrito. No caso dos evangelhos, a urgência se devia, provavelmente, ao fato de que as testemunhas oculares e auditivas estavam morrendo, por volta da segunda metade do primeiro século d.C., e se fazia necessário preservar as tradições que elas haviam transmitido oralmente.

Certamente, não é impossível que, em alguns lugares, essa necessidade tenha surgido mais cedo e tenha gerado coisas como: (1) uma coleção de ditos de Jesus em aramaico, feita pela igreja de Jerusalém; (2) uma coleção de histórias de milagres envolvendo Jesus; (3) um esboço em aramaico de grande parte da história do evangelho; [8] (4) uma narrativa por escrito da última semana de vida terrena de Jesus; e (5) um documento composto, principalmente, dos ensinamentos de Jesus, a que tanto o primeiro quanto o terceiro evangelista tiveram acesso, e que hoje chamamos de Q. [9] Esses antigos percussores dos nossos evangelhos não existem mais, e a maioria dos estudiosos acredita que nenhum evangelho em grego tenha sido produzido ou estivesse disponível na forma escrita antes de 60 d.C. Isso significa que as cartas, e em particular as cartas paulinas, são os mais antigos documentos do NT, cronologicamente falando, [10] e as cartas são os documentos do NT mais nitidamente ligados aos escribas.

É importante ressaltar a esta altura que, com toda certeza, não devemos pensar em “livros”, no sentido moderno da palavra, quando falamos dos documentos do NT. Em primeiro lugar, naquela época eles não eram manufaturados em forma de livro ou códice, mas sim escritos em rolos de papiro. Em segundo lugar, evidentemente, eles não eram produzidos em massa. Inicialmente, apenas algumas cópias devem ter sido feitas, por causa do tempo necessário e do custo elevado. Em alguns casos, como nas cartas, talvez tivesse sido feito apenas um exemplar.

Quando nos referimos à cultura literária daquela época, estamos falando de pequenos círculos da elite letrada do mundo Greco-romano, que tinha dinheiro para mandar reproduzir documentos e fazer cópias para os amigos, além de ter tempo para lê-los ou mandar que alguém o fizesse em voz alta. A cultura liveira, no sentido moderno de publicações para as massas, não existia. Os autores da antiguidade, normalmente, dependiam de patronos abastados para poderem custear a produção e a circulação de suas obras. Na minha opinião, Teófilo, mencionado no início de Lucas e Atos, provavelmente era o patrono de Lucas, que escrevia para ele e seu círculo de amizades.

Mas como a escrita era feita, e em que tipos de materiais? A forma padrão de produzir um documento na antiguidade era escrever em papiro. Normalmente um rolo tinha de 20 a 25 centímetros de altura e até 10,5 metros de comprimento. Em geral, só se escrevia de um lado, já que o papiro não é um material muito denso. O texto era disposto em duas colunas de 5 a 10 centímetros de largura, com cerca de 25 a 45 linhas por coluna. Além disso, por causa do custo e do espaço necessário, normalmente não havia pontuação nem divisão de palavras, sentenças e parágrafos. Tudo era escrito em letras maiúsculas, e, portanto, uma linha desse texto ficava mais ou menos assim: SÓUMANÃODISSESEUNOME. É claro que podemos ler “Só uma não disse seu nome” ou “Só um anão disse seu nome”. Questões de interpretação surgem simplesmente pela falta de separação entre as letras ou pela ausência de pontuação. Além disso, não havia capítulos nem versículos nos manuscritos originais do NT antes do início da Idade Média!

“A leitura na Antiguidade geralmente era feita em voz alta, mesmo em particular. A razão disso é que os textos eram redigidos em escrita contínua [...] sem divisões entre palavras, frases, orações, parágrafos e sem pontuação, de modo que era necessário pronunciar e ouvir as sílabas para poder organizá-las em padrões semânticos reconhecíveis. Dessa forma, quase todos os textos antigos eram compostos tendo em vista o modo como soariam quando seriam lidos em voz alta.” [11] Foi só no próximo fim do primeiro século d.C. que a forma de  texto chamada códice ou caderno de notas se popularizou, e parece que os antigos cristãos estavam entre os primeiros a reconhecer sua utilidade e adotá-la. [12]

Numa época em que não existiam direitos autorais, o que acontecia quando um patrono recebia um manuscrito era o seguinte: “A publicação [...] consistia em entregar esse original a um patrono amigo, o qual, então, o disponibilizaria para ser copiado por outras pessoas interessadas. Desse modo, as cópias eram multiplicadas em série, uma de cada vez. Uma vez que o texto estivesse em circulação e disponível para a cópia, qualquer um que estivesse interessado e tivesse acesso a ele poderia mandar fazer uma cópia. Assim, os livros eram produzidos e adquiridos por meio de um processo informal e não regulado”. [13]

A maioria das composições da antiguidade eram escritas com uma pena e tinta sobre o papiro, embora às vezes fosse usada pele de ovelhas para produzir pergaminho ou velo, um tipo de pele animal altamente refinada. A qualidade da superfície de escrita, a tinta e as penas variavam. Cícero, que escreveu por volta de 54 a.C., resume muito bem a situação: “Para esta carta, usarei uma boa pena, uma tinta bem misturada e um papel polido de marfim, pois você escreve que quase não conseguiu ler minha última carta [...] porque eu costumo usar a primeira pena que me aparece, sem me preocupar se é boa ou não” (Carta a Quinto 2.15.1). A cana de junco era a melhor pena da antiguidade e foi substituída pelas penas de pássaros (calamos) por volta do sétimo século d.C. A tinta era feita com carbono ou fuligem diluídos em água.

Mesmo depois de ter comprado os pedaços de papiro necessários, a pessoa ainda não estava pronta para tomar nota de um ditado ou escrever. O papiro tinha de ser preparado para a escrita, e um dos principais motivos é que não existia papel pautado. O escriba ou escritor pegava uma régua e um disco de chumbo e traçava linhas finas no papel. Ele precisava também de um apontador de pena, que era uma pedra abrasiva, e uma faca para fazer novas pontas, à medida que ia escrevendo. Nem o papiro, nem as penas, nem a tinta, nem os instrumentos para fazer linhas e apontar a pena eram baratos.

Mas, por que o papiro era tão caro? Em primeiro lugar, porque quase todo ele era produzido num único lugar, o Egito, e perto do Nilo, para que se pudesse colher o tipo de junco apropriado. Além disso, ainda havia o processo exigido para sua produção. Plínio, o Velho, diz que a cana do papiro, que tem perfil triangular, tinha de ser fatiada com uma agulha (!) em tiras largas e muitos finas. O miolo do talo ou da cana era a porção mais “carnuda” e, portanto, a parte mais útil. A casca verde provavelmente deveria ser eliminada.

As tiras, assim que eram cortadas, tinham de ser quase imediatamente colocadas sobre uma prancha de madeira umidecida com água do Nilo. Ocasionalmente, era adicionado um tipo de goma de farinha suave para auxiliar o processo, mas, normalmente, a própria seiva do junco era suficiente para unir as tiras e formar uma peça de papiro. Quando a peça de papiro estava pronta, as pontas eram aparadas para deixar as bordas retas. As tiras eram dispostas horizontal e verticalmente, formando um padrão de linhas cruzadas e, em essência, entrelaçadas. A peça de papiro recém-produzida era, então, pendurada ou estendida para secar ao sol. Por último, umas vinte peças de papiro eram costuradas umas às outras para formar um rolo (Plinio, Natural History 13.74-77). Quando um rolo ou peça de papiro chegava às mãos do escriba, este ainda tinha de alisá-lo com uma concha ou um pedaço de marfim. Era preciso tomar cuidado para que o papel não ficasse polido demais a ponto de não absorver a tinta com facilidade.

Em vista de todo o exposto, entende-se por que as pessoas comuns recorriam a um escriba quando precisavam ter algum documento redigido ou, se pudessem arcar com a despesa, contratavam um secretário pessoal, como mostra, por exemplo, a relação entre Cícero e Tiro. Em geral, quanto mais longo o documento maior a necessidade de um escriba profissional, e, pelos padrões antigos, muitos documentos do NT são realmente longos. Todos os evangelhos, Atos, as maiores cartas de Paulo e Apocalipse podem ser classificados como documentos muito longos, pelos padrões antigos. Até mesmo algumas cartas que consideramos curtas (e.g., Filipenses, Tiago, 1Pedro) eram muito grandes para uma carta, pelos padrões antigos. Vários autores do NT eram prolixos (v., p. ex., At 20.7-11) e, como muitos documentos do NT são apenas substitutos de uma conversação ou proclamação oral, eles também são muito longos. Os primeiros cristãos, que produziram esses documentos, obviamente tinham muito o que dizer!

Não dissemos nada até agora sobre a caligrafia, mas, na antiguidade, assim como hoje, as pessoas diferentes tinham diferentes estilos e modelos de escrita manual. Era crucial para ao escriba ter uam caligrafia bonita e legível, e não borrar a página enquanto escrevia. Falando em termos práticos, isso significava que o contratante preferia ter um destro para escrever em latim ou grego e um canhoto para escrever em aramaico ou hebraico, porque as duas primeiras línguas se escrevem da esquerda para a direita, enquanto as últimas são escritas da direita para a esquerda. Observe como Paulo acrescenta, de tempos em tempos, uma nota de próprio punho, em letras grandes, no fim do documento. Em Gálatas 6.11 está escrito: “Vede com que grandes letras vos escrevo de próprio punho”. [14] Como o espaço era precioso, ele teria preferido uma letra menor e mais concisa para redigir a maior parte do documento, para não desperdiçar espaço demais.

O ideal era que o escriba conhecesse tanto o autor quanto seu público. Os povos antigos acreditavam que as cartas deveriam ou refletir a personalidade do autor e, até certo ponto, levar em conta também o leitor. [15] Um secretário poderia ou não ter aprendido a técnica da estenografia; se não tivesse, o processo de composição poderia ser muito demorado. Muitos têm sugerido que, em alguns trechos do NT, principalmente nas cartas de Paulo, em que temos uma frase incompleta, isso talvez tenha ocorrido porque o escriba não sabia estenografia e não conseguia acompanhar a velocidade do ditado. E é claro que, se um assunto fosse urgente, poderia não haver tempo ou papiro à mão para tomar notas estenográficas e depois escrever o texto completo. O que podemos afirmar com certeza é que, normalmente, não era prática corrente do primeiro século os secretários redigirem documentos para os autores, exceto, talvez, quando se tratasse de matéria meramente formal, como um comunicado de que alguma coisa fora recebida. [16] Quando um secretário escrevia em nome de alguém, era costume informar isso no documento (v. Cícero, Carta aos amigos, 8.1.1).

Quando uma pessoa, que não fosse o autor, era mencionada no inicio de um documento, normalmente tinha algo a ver com o documento. Por exemplo, em 1Coríntio 1.1, Sóstenes, um cristão, foi provavelmente o escriba que redigiu esse documento para Paulo. [17] Já em 1 e 2Tessalonicenses, poderíamos considerar seriamente a questão da co-autoria envolvendo Paulo, Timóteo e Silvano, diante do modo como o documento começa. Não era costume dizer “nós” num documento como esse, a menos que se tratasse realmente de “nós”. Da mesma forma, no evangelho de João (21.24) o “nós” [implícito] significa, no mínimo, uma pessoa falando pela comunidade da qual o discípulo amado fazia parte.

Quando se tratava de cartas, o procedimento normal era fazer duas cópias, uma para o remetente e a outra para ser enviada (Cícero, Carta aos amigos 9.26.1). Nas terras de Roma, antes de Augusto, não havia serviço de correio regular para ser usado por pessoas comuns, nem mesmo um serviço postal oficial do governo. Desse modo, quando as pessoas tinham uma carta para enviar, aproveitavam alguma viagem que seus amigos, parentes ou pessoas com quem mantinham relações de negócios estivessem para fazer e pediam-lhes que entregassem a correspondência ao destinatário. No caso dos cristãos, essa tarefa parece ter ficado a cargo de outros cristãos; e, no caso de Paulo, aparentemente o encarregado era algum de seus colaboradores. Romanos 16.1,2 e Colossenses 4.7-9 não parecem indicar que Paulo confiaria seus documentos a uma pessoa qualquer que estivesse viajando na direção certa. A questão das redes sociais dos primeiros cristãos precisa ser considerada quando pensamos na disseminação das boas novas em várias formas escritas. Naturalmente, a rapidez com que um documento chegava a um grupo de pessoas ou a um indivíduo dependia do modo e da velocidade do meio de transporte, assim como outros fatores. Muitas vezes, as mensagens escritas não chegavam ao destinatário, e as conseqüências podiam ser desastrosas. Existe um famoso ditado inglês que diz: “Por causa de um prego, a ferradura se perdeu. Por causa do mensageiro, a mensagem se perdeu. Por causa da mensagem, perdeu-se a batalha. Por causa da batalha, perdeu-se a guerra; e tudo por causa de um prego”. Parece claro que alguns importantes documentos cristãos da época do NT realmente estão perdidos para nós. Por exemplo, em 1Coríntios 5.9, Paulo menciona que já havia escrito àquela igreja, advertindo-os de que não se associassem com pessoas imorais. Isso significa que houve uma carta aos coríntios anterior a 1Coríntios. Mas ela, provavelmente, perdeu-se nas areias do tempo. O que temos no NT é só uma amostra representativa da comunicação e do discurso dos primeiros cristãos. Talvez ainda encontremos alguns dos documentos perdidos desse período.

Fonte: História e histórias do Novo Testamento.