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sábado, 18 de janeiro de 2014

Uma figura que encarna uma época: São Francisco de Sales - Por Daniel Rops

Houve um homem que parece ter sido especialmente escolhido pela Providência para resumir no seu ser e na sua vida fecunda o mais essencial - e decisivo para o futuro - do imenso esforço realizado pela Igreja, desde que verdadeiramente tomou consciência dos seus problemas e dos seus perigos, para renovar-se no seu interior, regressar às suas verdadeiras fidelidades e opor aos seus inimigos armas de luz. Esse homem foi São Francisco de Sales (1567-1622). Basta recordar os vários pontos do grande plano de renovação posto em marcha pelo catolicismo, durante os sessenta anos que se seguiram à conclusão do Concilio de Trento, para medir a importância histórica deste homem: quanto à defesa da fé, encontra-se na primeira fila; quanto à reconquista das terras ocupadas pela heresia, é a tarefa a que dedica a sua juventude; quanto à reforma do clero, a ela se consagra obstinadamente ao longo de vinte anos; das suas mãos sai uma nova Ordem, e, para reintroduzir na pesada massa cristã o verdadeiro fermento do Evangelho, quem mais eficaz do que esse pregador infatigável, do que o autor das grandes tiragens da Introdução à vida devota?

Mais ainda: dir-se-ia que cento e cinquenta anos de história cristã, e tantos debates dramáticos, prepararam a sua vinda e permitiram a sua ação. Eis que o humanismo cristão com que tantos dos melhores espíritos tinham sonhado, desde que Marsílio Ficino e Pico della Mirandola haviam modulado as suas árias sobre o tema, essa doutrina cujos alicerces tinham sido lançados de várias maneiras por Lefèvre d'Etaples, Thomas More e o grande Erasmo..., eis que, por meio de Francisco de Sales, essa doutrina atinge a sua plena maturidade, a sua formulação mais judiciosa e mais resplandecente. Os excessos da Renascença e, por reação e em sentido contrário, os da Reforma protestante, recebem uma solução perfeitamente equilibrada no seio da sua calma sabedoria. E eis que toda a vasta corrente mística que banhara a alma cristã durante mais de duzentos anos, que a salvara das securas mortais, eis que essa corrente desemboca nesta fonte ampla e inesgotável: da Imitação de Cristo ao Combate espiritual de Lourenço Scupoli - seu livro de cabeceira -, de Santa Teresa de Ávila ao mestre dós Exercícios espirituais, de quem se aproxima através de Molina, todos esses rios de vida confluem nele, para que deles possa haurir o que há de mais puro, de mais ativo, de mais adaptado ao comum dos homens. Francisco de Sales! Expressão viva de uma época e, ao mesmo tempo, coroamento dos ardentes anseios de três gerações.

Nascera em Thorens, na Savóia, nessa província que uma sobrevivência feudal fazia ainda depender de Turim, mas que participa já plenamente do desenvolvimento espiritual da França, com a qual mantém múltiplas relações. A língua que lá se fala é o francês mais puro, aquele que então caminha para a sua forma definitiva; aliás, o grupo de intelectuais que se autodenominava La Pleiade conta com amigos em Annecy, em Chambéry e até na abadia real de Hautecombe. Foi em Paris que Francisco acabou os seus estudos, no Colégio de Clermont - futuro Liceu Louis le Grand —, onde os jesuítas se dedicavam a formar autênticos humanistas, apaixonados pelo grego e pelo latim. E católicos fervorosos! Mas haveria necessidade de animar nesse sentido a criança ajuizada que pedira a tonsura aos onze anos e que sorria em silêncio quando seu pai lhe acenava com um ambicioso futuro de senador ou de jurisconsulto? Em Clermont, mostra-se tão recolhido, tão amável, tão diligente em comungar todas as semanas, que os seus companheiros o apelidam de "o Anjo". O seu caminho parece fixado.

Contudo, aos dezoito anos, uma provação, um maelstroem, um vórtice feito de angústia e de dúvida. Crise de alma e de espírito ao mesmo tempo. É a hora obscura, a hora dolorosa em que cada qual, perante problemas decisivos, deve escolher o seu destino. Para a maioria, esses dramas desenrolam-se no nível dos instintos, e patinha-se em lodo muito sujo. Para Francisco de Sales, não; mas sim um conflito de ideias, esse mesmo em que se dilaceram até à carne viva tantos homens da sua época: graça, predestinação, salvação eterna, condenação fatal. Debate-se durante meses entre as teses e as hipóteses, sabendo que disso depende tudo. Finalmente, triunfa. Desses conflitos extenuantes da alma, não é a inteligência que o tirará, nem o raciocínio, mas o impulso do amor. Também ele tem a sua noite de fogo, sessenta e oito anos antes de Pascal. "O Senhor — grita —, se não vos devo ver, permiti ao menos que nunca vos amaldiçoe nem blasfeme de Vós! E se não vos posso amar na outra vida, pois ninguém vos louva no inferno, que ao menos aproveite todos os momentos da minha curta existência neste mundo para vos amar!" Oração que merece ser atendida e que o será de maneira incomparável. Está feito: Francisco vai-se ajoelhar diante da imagem de Nossa Senhora de Grès, e a Santíssima Virgem recebe o seu coração.

Depois, Pádua, por quatro anos: tempo suficiente para travar um conhecimento reverente com São Tomás de Aquino e para descobrir com enlevo Santo Agostinho e os Padres da Igreja. Tempo também para confirmar-se na sua vocação, no meio de uma juventude louca a quem o seu porte digno irrita e que o arrelia cruelmente. E chega a ordenação, em tempo brevíssimo: todas as Ordens menores numa semana, o diaconato três meses depois, e o sacerdócio passados outros três; sentimo-nos tentados a pensar se, a propósito deste rapaz visivelmente eleito, não seria o caso de repetir a célebre máxima de São Gregório Nazianzeno: "Era sacerdote antes de ser sacerdote". Era por demais evidente que Deus o tinha reservado para Si.

Imediatamente, à ação! Recém-ordenado, vemo-lo plenamente absorvido no seu ministério. Deão do cabido: um belo título, mas que não significa senão o que o titular quiser. O jovem cônego põe nele todo o seu ardor, toda a sua caridade. Visitar os doentes, socorrer os pobres, passar longas horas no confessionário, e pregar, pregar muito, tanto que Monsieur de Sales, seu pai, quase se indigna e o censura por não preparar desses belos sermões "em que se cite o grego e o latim", e que, proporcionando um agradável lazer aos ouvintes, os deixam, no fim das contas, na sua tranquila rotina... Não, esse jovem pregador de menos de trinta anos sabe muito bem como mover o coração das multidões, e a sua reputação já vai crescendo. E há de valer-lhe uma distinção bem perigosa.

O Chablais, essa encantadora região de montes e colinas que, de Hermance a Saint-Gingolph, acompanha a margem sul do lago Léman, e cuja capital é Thonon, tinha-se tornado protestante. Em 1550, o duque da Savóia Carlos Manuel tomara essa região ao cantão de Berna e desejava que fosse retomada também ao calvinismo. Uma primeira tentativa falhou. O bispo de Annecy — que é também o desolado titular de Genebra — pede voluntários para tentar de novo. Na primeira fila, apresenta-se o jovem preboste do cabido, Francisco. E parte. Quatro anos de esforços sobre-humanos e, literalmente, heroicos. Quantas vezes não entra o missionário no castelo de Allinges, através do gelo e da neve espessa, com os pés gretados a ponto de o sangue lhe tingir as meias! Quantas noites não passa ao ar livre, sem ter, como o divino Mestre, onde repousar a cabeça! Quantas vezes não arrisca a vida ao atravessar o ribeirão de Dranse sobre uma prancha escorregadia de gelo, ou ao aventurar-se entre os adversários, que - como veremos nos Grisões com Fidélis de Sigmaringen — são às vezes demasiado lépidos no uso do punhal! Não importa! A Palavra deve ser levada, e sê-lo-á. Não quererão ouvir as suas pregações? O antepassado dos publicistas, o padroeiro dos jornalistas, inventará os folhetos e fará distribuir ou afixar em toda a parte os seus impressos de controvérsia. O resultado está à vista. E quando, em 1598, o bispo vem examinar a tarefa realizada, verifica que a quase totalidade dos habitantes do Chablais regressou ao redil católico.

Francisco tem então trinta e dois anos. A sua missão no Chablais tornou-o célebre. Em Roma, Clemente VIII quer ouvi-lo pessoalmente, e, quando o jovem apóstolo termina a sua exposição perante oito cardeais e vinte bispos, o papa levanta-se e dá-lhe um abraço. O bispo de Annecy está velho, doente: Francisco é nomeado seu coadjutor com direito a sucessão. Em Paris, onde reside em 1602, a mesma notoriedade de bom quilate. O salão de Mme. Acarie recebe-o de braços abertos e Pierre de Bérulle declara-se seu amigo. Povo e nobres damas acotovelam-se ao pé do seu púlpito. E o próprio Henrique IV deseja agregá-lo ao clero do reino e oferece-lhe a coadjutoria de Paris, que ele rejeita. "Já estou casado, Majestade, com uma mulher pobre; não a posso deixar por uma mais rica". Tem perfeita consciência de que é o próprio Deus quem o chama a esse dever, deliberadamente escolhido. A morte do seu bispo encontra-o a meio do caminho de regresso. Não será nada mais nada menos que um modesto bispo savoiano.

Mas que bispo Sê-lo-á durante vinte anos, como São Carlos Borromeu. Lenta e pacientemente, abrirá o sulco e semeará com cuidado a boa semente. Na pequena cidade que é então Annecy - pois Genebra, de que é bispo pelo título, está nas mãos de Teodoro de Beza -, vive modestamente, mais como monge do que como dignitário. Todos os que precisam dele encontram-no disponível: "os bispos, esses grandes bebedouros públicos...", diz ele, amavelmente. Promove aulas de catequese em toda a parte, e ele mesmo vai ensinar as crianças. Ordena aos sacerdotes que não têm paróquia que se ponham à disposição dos párocos para os ajudarem na sua tarefa. Como lhe faltam fundos para criar um seminário, supre esse lamentável vazio com semanas de colóquios espirituais destinados ao clero e com conversas particulares em que sonda minuciosamente a vocação de cada um dos candidatos ao sacerdócio. Quer levar a verdade e a vida a todo esse povo que Deus lhe confiou. Fala todos os domingos, e a catedral transborda. Acaso serão sermões essa palestras familiares, em tom delicioso, em que se misturam as anedotas, as comparações, as perguntas lançadas ao auditório, tudo com bonomia e finura infinitas? Que maravilhoso pregador esse que adotou como princípio: "Não desejaria que se dissesse: Oh, que grande pregador! Oh, como fala bem!, mas simplesmente: Meu Deus, como sois bom, justo, e coisas semelhantes...".

Não é necessário dizer que não permanece confinado na sua amável cidadezinha; deixa-a muitas vezes, para ir, "apesar do mau tempo e da muita neve", a cavalo, munido de pesadas botas, "bater a região durante semanas" e visitar sucessivamente os vinte setores em que dividiu a sua diocese. Um bispo de ação, o que há de mais contrário a um homem de gabinete! O que não o impede de escrever inúmeras cartas - conhecem-se mais de duas mil - aos seus amigos, ilustres ou obscuros, aos seus dirigidos ou dirigidas. E encontra ainda tempo para ir pregar em Grenoble, Dijon, Paris, onde se exige a sua presença em 1618. Morrerá aos cinquenta e cinco anos, mas os seus vinte anos de episcopado podem contar-se pelo dobro numa vida de tal calibre. Poucos como ele possuíram a misteriosa ubiquidade que permite ao gênio desempenhar simultaneamente tarefas cuja transcendência desconcerta o vulgo.

Ao serviço dessa atividade incansável, que qualidades de inteligência e de coração! E, além disso, sem dúvida, um homem de feições belas, de uma beleza de prata dourada, fascinante, que Joana de Chantal ressaltou e que — acrescenta ela — causou ao santo alguns desgostos com o sexo frágil. Os seus retratos não exprimem talvez com muita precisão essa beleza: a maioria deles — mesmo o do hospital de Annecy, feito em vida — são insípidos e convencionais. "Esse rosto cheio de doçura, mas também de majestade, pacífico, mas carregado de poder, e tão suave e luminoso que insensivelmente espalha a serenidade nos espíritos mais perturbados" -como diz Henri Bordeaux — é realmente aquele que os seus contemporâneos captaram e que os seus íntimos amaram. O seu traço de caráter mais evidente é a mansidão, a caridade incessantemente presente, nas grandes e nas pequenas vicissitudes da vida, uma caridade que o leva a dar os sapatos a um pobre, mas também a não ferir com uma palavra severa uma pobre moça que não se portou dignamente... "Sou o mais afetivo do mundo — confessa ele —, e parece-me que não amo nada tanto como a Deus e a todas as almas por amor de Deus".

Mas atenção! Por escrever que se apanham mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de vinagre, não se deve considerá-lo um caçador de piedosas tontinhas. "Gosto das almas independentes - diz ele, à semelhança de Santa Teresa -, vigorosas e másculas". A sua alma é precisamente dessa têmpera. Força de caráter, mas também bom-senso lúcido, grande prudência em não se deixar enganar pelas aparências nem se deixar levar por sentimentos. Qualidades modestas, virtudes burguesas? "Somos tentados — diz ainda o seu compatriota da Savóia, Henri Bordeaux — a tomá-lo por um homem vulgar, bom, calmo, doce e honesto, mas cuja virtude é também vulgar; ora, se lhe seguimos os passos, eis que de repente nos sentimos inundados de claridade: a sua santidade envolve-nos bruscamente, sem que nos tenhamos dado conta da sua vinda e das suas provas". Sainte-Beuve, o crítico literário, que não pode ser acusado de excessiva credulidade, já o tinha assinalado no penetrante Lundi que consagrou a esta grande figura: "Em São Francisco de Sales, há mais do que o justo, mais do que o útil, mais do que o humano, há o santo, coisa real e que, desde que seja sincera, será sempre adorada entre os homens". Adorado..., talvez não seja o termo exato. Mas muito venerado e querido, sem dúvida. Tantas virtudes humanas, iluminadas pelo amor de Cristo nesse sacerdote perfeito, que poder de irradiação não contém!

Eis, pois, que as almas vêm ter com ele: em breve, serão multidões. Grandes damas e moças humildes, seres excepcionais e outros simplesinhos. A todos se oferece com inesgotável delicadeza. Diretor de almas, Francisco de Sales consagra-se a cada uma das que se lhe entregaram como se fosse a única e a dona do seu tempo. A mais estimada é Joana de Chantal (1572-1641), que será uma santa autêntica na sua esteira, e a quem o une um "afeto mais branco que a neve, mais puro que o sol". Dessa jovem viúva, que a princípio o fez rir um pouco, quando lhe falou da sua possível vocação, mas cuja profundidade de alma mediu rapidamente, fez ele uma associada da sua obra apostólica, a fundadora, consigo, e a primeira superiora da Ordem que prolongaria a sua obra - a Visitação. Uma outra dirigida, "a jovem dama toda de ouro", Mme. de Charmoisy, dar-lhe-á ocasião de redigir esse "memorial dirigido a uma bela alma" que levará o seu nome às gerações futuras: a Introdução à vida devota. E se a morte não tivesse vindo interromper tão cedo o diálogo espiritual que manteve com Angélique Arnauid, quem sabe se não teria evitado que a impetuosa Madre se deixasse tragar pelo sombrio turbilhão para o qual o fascinante senhor de Saint-Cyran ia arrastá-la!

Foi dessa capacidade de irradiação - e também do seu trabalho de direção das consciências - que nasceu a sua obra, uma obra, em suma, de ocasião. Mas que dotes de escritor e, mais ainda, de especialista do coração humano, de descobridor de almas! A Introdução à vida devota, aparecida em 1608, dirige-se, para além da amável mulher que é a Filotéia do livro, a todo esse vasto público de verdadeiros fiéis - desses com quem a Igreja imediatamente posterior ao Concilio de Trento conta em bom número - que querem viver mais perto de Deus, "no meio das ondas amargas deste século, e voar entre as chamas das cobiças terrenas, sem queimar as asas dos sagrados desejos". Livro para principiantes? Num certo sentido, sim, mas que é completado pelo Tratado do amor de Deus (1616), escrito certamente com o mesmo desígnio, mas que transporta aos mais altos cumes da experiência mística. Práticas espirituais, correspondência, outros tantos complementos de uma obra cuja verdadeira finalidade nunca foi expor na sua secura dogmática uma doutrina, mas torná-la tão próxima quanto possível da vida, para assim servir ao bem das almas.

Contudo, essa doutrina existe, e mais comovedora e mais cativante por nunca se guindar nem se dar ares de importância. Como se está longe, apesar da proximidade geográfica, da Instituição cristã de Mestre Calvino! Na verdade, Francisco de Sales, sem quase pensar nisso, toma o sentido oposto da Instituição. "Humanismo devoto", diz o historiador Brémond para definir a sua filosofia. O elemento essencial é que toma como ponto de partida o homem, o homem real, o homem completo, com os seus grandes defeitos, mas também com a sua divina semelhança. Como o conhece bem, o psicólogo!, porque é mais como psicólogo do que como metafísico que ele procura na alma os fundamentos do amor divino. Francisco é, no sentido pleno do termo, um humanista. "Sou tão homem... que nada mais sou". E esta sua fórmula, célebre, exprime bem o que quer exprimir. "O humanismo cristão - comenta ainda Brémond - submete facilmente aos dogmas e ao espírito da Igreja as duas divisas: com Terêncio, e melhor do que ele, compreende bem que «nada de humano lhe é estranho», e isso porque, em tudo o que é humano, reconhece a imagem de Deus, e, em cada homem, um irmão; e com Shakespeare, e mais alto do que ele, também o santo exclama: «Como é bela a humanidade!», e isso porque a humanidade foi resgatada por um Deus feito homem e a graça divina o eleva acima da sua natural perfeição..."

Aqui estão, pois, nitidamente expressas, a realização e a glorificação em Deus do homem, com que os humanistas mais cristãos sonhavam havia cento e cinquenta anos. "Humanismo devoto": a palavra devoto - hoje tão insossa - deve ser tomada na acepção mais exigente, a que tinha no século XVII; significa que esse humanismo está votado, devotado a Deus, e que encontra no homem sobrenatural o seu sentido e a sua justificação. Eis, pois, afastada também essa espécie de desespero do homem que obstrui todo o protestantismo. Não é que Francisco de Sales desconheça a realidade do pecado, mas sabe também que existe a graça, e que ela é muito mais poderosa. O problema da predestinação, que tanto o angustiou aos dezoito anos, já não o preocupa, agora que descobriu na confiança plena em Deus o segredo da sabedoria; voluntariamente, confessa até "que odeia todas as contendas e disputas que surgem entre católicos", e entrega-se ao Todo-Poderoso para resolver os problemas que ultrapassam a razão humana. "Deus, sem dúvida - escreve ele -, não preparou o Paraíso senão para aqueles que previu que seriam seus... Ora, está em nossas mãos sermos seus". Portanto, confiança em Deus e esforços sérios do homem, eis a regra de vida que propõe. "Fiar o fio das pequenas virtudes", mas também sobrenaturalizar essas virtudes. Querer oferecer-se a Deus, querer fazer o bem, querer rezar e, acima de tudo, querer amar: basta. Depois disso, a ansiedade acabou: a misericórdia divina corresponderá a esses esforços, a essa expectativa, e o mistério da Redenção exercerá a sua eficácia. In pace in idipsum, "apaziguados em Deus", como se canta nas Completas: o resto é resposta do céu.

Este humanismo será simplesmente um método de boa conduta ou levará a uma mística? Tem-se discutido muito: uns só veem nele uma técnica de ascese prática; Brémond, pelo contrário, defende que, em última análise, Francisco de Sales não é nem quer ser senão um místico, tendo em vista o "cume da alma", o estado inexprimível. Talvez se trate apenas de discussões acerca de palavras. E evidente que não se encontram na sua obra as análises precisas que fazem dos livros de Santa Teresa de Ávila, de São João da Cruz e mais ainda de Santo Inácio muitos tratados minuciosamente especificados de oração. Em certo sentido, São Francisco de Sales é menos original e menos espartilhado, mas se o verdadeiro fim de toda a mística é entregar o homem todo ao amor infinito, quem poderia ser mais autenticamente um místico do que aquele para quem o amor é a única lei da vida religiosa? Só que a sua medida é mais prudente do que a dos grandes espanhóis e o seu ritmo menos arrebatado: será esse o estilo de toda a escola francesa do Grand Siècle um pouco desconfiada das exaltações e dos voos amplos: o do seu amigo Bérulle, o de Olier e o da admirável ursulina Maria da Encarnação.

Mas o seu mérito insigne foi o de ter introduzido essa mística na vida: torna-a direta e assimilável para cada um de nós. "Relegava-se para os claustros a vida interior e espiritual, que se considerava - diz Bossuet - demasiado selvagem para aparecer na corte e na alta sociedade. Francisco de Sales foi escolhido para ir procurá-la no seu retiro". Homenagem exata, e que é preciso reter, na boca do grande orador! "É um erro, e, por isso uma heresia — escreve o santo — querer banir a vida devota do batalhão dos soldados, da oficina dos artesãos, da corte dos príncipes, do lar das pessoas casadas". Toda a mulher que o queira será uma Filotéia em potência, e sabemos que, neste ponto, muitos homens gostariam de seguir o exemplo das mulheres. Toda a corrente que, por volta de 1600, tende a introduzir a santidade na vida - ao contrário daquela que, cento e cinquenta ou duzentos anos antes, tendera a afastá-la da vida - tem em São Francisco de Sales a sua expressão mais perfeita[1]. Antepassado da Ação Católica, do laicado missionário? Talvez. Em todo o caso, como diz Brémond, "mestre dos mestres" da forma moderna da vida espiritual.

A doutrina de São Francisco de Sales vai marcar profundamente o catolicismo do seu tempo e daqueles que o seguirem. Não foi certamente o primeiro a dizer: "Os cristãos fazem mal em ser tão pouco cristãos como são...", mas di-lo tão bem, de maneira tão persuasiva, que se ouve e se sente vontade de seguir os seus conselhos. O seu livro tem um sucesso prodigioso: multiplicam-se as edições, algumas até sem que ele as autorize ou mesmo conheça. Espalham-se as devoções que preconiza, como a devoção aos anjos, sobretudo ao Anjo da Guarda. Mais do que ninguém, é ele quem trabalha por introduzir nos costumes católicos a comunhão frequente, semanal. Com toda a simplicidade, armado de um belo sorriso e com a mão continuamente disposta a abençoar e a absolver, o que ele oferece é o próprio cristianismo que a sociedade do seu tempo — e sem dúvida também a nossa – mais pode desejar: um cristianismo todo de paz, de equilíbrio e de amor.

Não haverá, porém, alguns perigos nessa doutrina? A confiança que o humanismo devoto deposita na razão humana não levará ao resultado exatamente oposto àquele que pretendia São Francisco de Sales, a uma certa ruptura entre a religião e a vida? É-se "devoto" — num sentido que se vai tornar bastante deplorável — quanto às práticas e aos dogmas, mas quanto ao resto... Não será excessiva a parte que ele concede à vontade do homem na obra da salvação? Não invadirá as atribuições de Deus? Apelar totalmente para a graça não será correr o risco de cair no quietismo? Bossuet, depois de ter elogiado o bispo de Annecy, desconfiará mais ou menos da sua influência, quando vir Fénelon e os seus discípulos apoiarem-se tanto nele. E depois, a sublime intimidade de São Francisco de Sales, quando tiver perdido o seu complemento indispensável, a sua firme simplicidade, não correrá o risco de cair na banalidade? Escrever-se-ão os mandamentos da lei de Deus em quadras, o Pai-Nosso em canções, e as "pequenas virtudes" não serão mais do que pequenas observâncias... Mas esses perigos, que uma crítica a posteriori pode discernir, não existem quando essa doutrina, esse humanismo devoto se exprime pela voz de um homem de bases tão sábias e tão firmes como é o autor da Introdução a vida devota. Ele sabe muito bem que carga representa levantar uma alma pecadora, para não cair na rotina, na facilidade, no quietismo! Sabe muito bem, como lhe ensinou o seu mestre Lourenço Scupoli, que a experiência cristã é um combate.

E, no que lhe diz respeito, ele próprio trava esse combate até ao último suspiro. No fim do outono de 1622, chamado a Lyon para tratar de um assunto, Francisco de Sales põe-se a caminho. Está doente; para dizer a verdade, está precocemente gasto por todos os trabalhos excessivos a que se entregou. Os seus íntimos, que já no verão anterior, durante uma viagem a Maurienne, julgavam tê-lo perdido, procuram fazê-lo desistir. Apesar de tudo, parte. Faz um alto em Belley, na casa do seu amigo, o bispo Camus, que será o seu primeiro biógrafo. Põe-se de novo a caminho e, fustigado pelo vento glacial das margens do Ródano, continua a sua rota para a metrópole das Gálias. Num dia de dezembro, uma autoridade importuna retém-no de pé, com a cabeça descoberta, a tremer de frio, no átrio da catedral. No dia seguinte, 28, sofre um derrame que o derruba. E, perante a morte, permanece o homem ponderado, calmo e firme que sempre foi. Enquanto tem forças, continua a dar conselhos, instruções para a Visitação, para a direção da sua diocese. A vida devota tem o seu remate na mais exemplar das mortes.

E, assim, nesse ano de 1622, que de tantos modos parece marcado por um sinal, desaparece o homem que, mais do que todos os outros, contribuiu para preparar a síntese do passado e do futuro. Uma época inteira termina nele, mas dele ai brotar também muito da época seguinte. Está verdadeiramente na charneira do tempo. Não passará meio século sem que a Igreja, pela voz de Alexandre VII, em 1665, o eleve aos altares; e em 1877 Pio IX proclamá-lo-á Doutor da Igreja. E haverá algum católico que, voltando a abrir o seu livro inesgotável, não se sinta amigo de quem nos ensinou não haver melhor templo da glória de Deus do que o coração do homem, e cuja firme sabedoria parece tão simples que quase nos decidimos a imitá-la?

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(1) É segundo esta perspectiva que se deve encarar a finalidade com que o .santo fundou uma nova Ordem, com a sua amiga Joana de Chantal. As religiosas com quem ele sonhava pertenceriam, no seu espírito, a um novo tipo. Originalmente, deviam chamar-se "Filhas de Santa Maria", nome que revelava bem a sua vocação. São Francisco queria-as dotadas de zelo apostólico, levando a presença de Cristo ao mundo, visitando os pobres e os doentes, como a Virgem Maria visitou a sua prima Isabel: daí o nome de Visitação que a Congregação tomará definitivamente. Elas dariam testemunho concreto da santidade que adquiririam na sua vida de renúncia e de oração. Temerosas de que as freiras saíssem dos seus conventos e se misturassem com a vida dos homens, as autoridades religiosas acharam a idéia excessivamente avançada. O arcebispo de Lyon persuadiu o santo (e mais dificilmente Santa Joana de Chantal) a fazer das suas visitandinas mulheres de oração e a aceitar que fossem úteis ao mundo unicamente pela oração e mortificação.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Deus: sua existência. [Parte 2]


2º Sentido e conteúdo da definição que estabelece a distinção entre Deus e o mundo. O Concílio passa a abordar o tema da distinção entre Deus e o mundo. Já em 1215, o IV Concílio de Latrão havia condenado o panteísmo de Amaury de Chartres, considerando-o mais como uma aberração que como uma heresia. A reaparição e desenvolvimento deste erro exigia uma definição mais explícita e fundada. O Concílio define, pois, a distinção entre Deus e o mundo, e indica as principais provas desta doutrina. Tais provas se reduzem a três: Deus quit cum sit uma singularis, simplex omnino et incommutabilis substantia spiritualis, praedicandus est re et essentia a mundo distinctus. 1º Deus é único por natureza: é o mesmo que dizer que não se pode multiplicar a natureza de Deus em muitos seres, e não pode estar realizada senão em um só Deus. O ser de Deus é, portanto, real e essencialmente distinto do mundo, pois nos encontramos com multiplicidade de gêneros, espécies e indivíduos. 2º Deus é absolutamente simples: o ser de Deus é real e essencialmente distinto do mundo, no qual comprovamos três classes de composição: a composição física (partes integrantes dos corpos, que são fisicamente distintas entre si), a composição metafísica (essência suscetível de existir e existência), composição lógica (gênero e diferença específica). 3º Deus é imutável: o ser de Deus é, portanto, real e essencialmente distinto do mundo, pois comprovamos em todas as partes a mudança ou a sua possibilidade. O Concílio distingue precisamente: re et essentia a mundo distinctus. Não é uma distinção de razão nem uma distinção virtual, como a que existe entre os atributos divinos, mas uma distinção real, em virtude da qual Deus e o mundo são duas realidade e não uma única realidade. Esta distinção não é apenas real, como a que existe entre dois indivíduos de uma mesma espécie, mas é também essencial, é dizer que Deus é, por essência, distinto do mundo. O Canon 3º também determina, rejeitando o panteísmo em geral, que concebe a Deus como uma substância imanente ao mundo, e às coisas finitas como acidentes desta substância. “Seja anátema quem disser que a substância ou essência de Deus e de todas as coisas são a mesma”. Finalmente, esta distinção é infinita. Deus basta a si mesmo: “Bem aventurado em si e por si, e inefavelmente excelso sobre tudo que há ou se pode conceber fora Dele”.

Quatro cânones correspondem a este parágrafo da Constituição Dei Filius. O primeiro condena o ateísmo: “Seja anátema quem negar o único verdadeiro Deus, Criador e Senhor das cosias visíveis e invisíveis”. O segundo condena o materialismo: “Seja anátema quem não sentir vergonha de afirmar que nada existe fora da matéria”. O terceiro condena o princípio do panteísmo: “Seja anátema quem disser que a substância ou essência de Deus e de todas as cosias são uma mesma”. O quarto condena as três principais formas de panteísmo: o panteísmo emanatista, o panteísmo essencial de Shelling e o panteísmo essencial do ser universal: “Seja anátema quem disser que as coisas finitas, tanto corporais como espirituais, ou, apenas as espirituais, são imanados da substância divina; ou que a essência divina, por manifestação ou evolução de si mesma, transforma-se em todas as coisas; ou, finalmente, que Deus é o ser universal e indefinido que constitui, determinando-se, a universalidade das cosias e sua distinção em gêneros, espécies e indivíduos”. Em relação a este último Canon, há de se pôr as teorias rosminianas condenadas pelo decreto do S. Ofício de 14 de dezembro de 1887, e as proposições ontologistas condenadas pela mesma Congregação em 18 de setembro de 1861. Observe a continuação destas proposições: “O ser que compreendemos em todas as coisas e sem o qual nada compreendemos é o ser divino”. “Os universais considerados da parte do objeto não se distinguem realmente de Deus” (Denzinger, n. 1660 [1517]; 1661 [1518].)
Temos aqui o que a Igreja nos ensina sobre a existência de Deus, sua natureza, atributos essenciais e sua distinção do mundo.

A tais doutrinas, o Concílio Vaticano agrega as relativas à Criação e Providência: “A causa de sua bondade e por sua virtude onipotente, não para aumentar sua beatitude nem para adquirir sua perfeição, mas para manifesta-la pelo bem que dispensa às criaturas, este único Deus verdadeiro, por desígnio absolutamente livre, feito do nada simultaneamente no começo do tempo, as criaturas espirituais e corporais, os anjos e o mundo e depois a criatura humana, como reunindo espírito e corpo em sua constituição.

“Deus, por sua Providência, conserva e governa tudo o que fez, [sua sabedoria] se estende poderosa de um a outro lado e o governa totalmente com suavidade” (Sab. VIII, 1). Porque as coisas são todas nuas e manifestas aos olhos Dele (Heb. IV, 13), ainda aquelas que se produzirão no futuro pela livre ação das criaturas”. Não se poderia dizer com Abelardo que Deus não pode impedir o mal (Denzinger, n. 375), nem que quer o mal da mesma forma que o bem (Denzinger, n. 816). É impossível que queira o pecado, pois pode apenas permiti-lo (Denzinger, n. 816).
Não há por que apresentar aqui a doutrina da Igreja sobre os mistérios divinos propriamente sobrenaturais, como a Santíssima Trindade.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Deus: sua existência. [Parte 1]

Estarei postando o que Reginald Garrigou-Lagrange escreveu sobre o que a Igreja diz a respeito da existência de Deus e os meios que podemos saber dela. O livro pode ser encontrado em espanhol para download no site http://www.obrascatolicas.com/ e se chama "Dios: Su Existencia".

O texto que vou colocar é dividido em cinco partes e não procura provar a existência de Deus, apenas expôr o ensino da Igreja sobre o assunto. O livro no todo, porém, faz a prova e vale a pena ser lido com cuidado.


***

A DOUTRINA DA IGREJA SOBRE A EXISTÊNCIA E A NATUREZA DE DEUS, SOBRE O CONHECIMENTO QUE PODEMOS TER DELE POR MEIO DA LUZ NATURAL E DA RAZÃO HUMANA.

1º Definição do Concílio Vaticano* sobre a existência e natureza de Deus. “a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, diz o Concílio Vaticano (Const. Dei Filius, cap. I), crê e confessa que há um só Deus verdadeiro e vivente, Criador e Senhor do céu e da terra, Todo Poderoso, Eterno, Imenso, Incompreensível, Infinito em inteligência, em vontade e em toda perfeição; que, sendo uma substância espiritual única por natureza, absolutamente simples e imutável, deve ser declarado realmente distinto do mundo e sua essência, bem aventurado em si e por si, e inefavelmente excelso sobre tudo que há ou se pode conceber fora Dele”.

Para determinar o que neste parágrafo é de fé católica, resumiremos as conclusões sobre este ponto que Vacant estabeleceu (Études théologiques sur lês Constituitions Du Concile Du Vatican, d’apès lês Actes Du Concile). O Concílio, depois de ter afirmado nossa fé em Deus, designando-o com os principais nomes que a Sagrada Escritura lhe dá, declara qual é a natureza de Deus e quais são os atributos que constituem a essência Divina. A eternidade, a imensidão e a incompreensibilidade mostram que a essência divina está acima do tempo, espaço e de qualquer conceito das criaturas. E eternidade significa que em Deus não pode haver começo nem fim, nem mudança; a ausência ou inexistência de toda sucessão, admitida de forma unânime pelos teólogos como elemento do conceito de eternidade, é uma verdade que se aproxima à fé, mas não parece ser, entretanto, um dogma de fé católica. A imensidão de Deus definida significa que a substância de Deus integra está e deve estar presente em todas e cada uma das criaturas às quais conserva em seu ser, e, também, que existe em todo lugar. A incompreensibilidade divina significa que Deus não pode ser plenamente compreendido por nenhum ser, exceto por si mesmo, e que até mesmo a visão intuitiva de  Deus que os bem aventurados gozam não pode chegar a esta plenitude. Ao definir que Deus é infinito em toda perfeição, o Concílio determina o sentido que se deve entender aqui o termo infinito. Os antigos filósofos só chamavam de infinito o que não estava terminado, que não estava completamente determinado. A Igreja, pelo contrário, quando diz que Deus é infinito quer dizer que Ele possui todas as perfeições possíveis, que sua perfeição não tem limite nem fim, assim como não tem imperfeições, de modo que é impossível conceber algo em que Ele possa melhorar. Consequentemente, o Concílio descarta o erro hegeliano de que o ser infinito, formado de todas as perfeições possíveis, é um ideal que tende a realizar-se, mas que jamais poderá ver-se realizado. Ao adicionar inteligência e vontade, o Concílio condena o panteísmo materialista segundo o qual a divindade não passa de uma necessidade cega e impessoal, uma lei fatal sem inteligência nem vontade. A respeito das demais perfeições possíveis que se podem atribuir a Deus, das quais o Concílio não fala, podemos dizer que somente são aquelas que não implicam imperfeição nenhuma; todas estas perfeições absolutas (simpliciter símplices) se identificam em uma superioridade absolutamente simples, que constitui seus aspectos parciais e que é a Deidade propriamente dita.

domingo, 1 de abril de 2012

Ravi Zacharias e a aposta de Pascal.



"O filósofo francês Blaise Pascal não disse que estava apostando a fé. Em essência, ele dizia que há duas provas para a fé: a empírica – que se baseia na investigação – e a prova existencial – que se baseia na experiência individual. Negando a existência de Deus, Harris fica com apenas uma opção na sua busca de felicidade e sentido, a saber, a prova existencial de autorrealização.

Para o crente em Deus e discípulo de Jesus, há mais que a prova existencial, que é sujeita a circunstâncias e condições. Também temos a prova empírica da pessoa, do ensino e da obra de Jesus Cristo. Os ateus talvez reajam dizendo que para o naturalista, aquele que acredita tão somente na matéria, também há uma prova empírica. Em questões de moral e sentido, porém , eles não têm nada que olhar para um sistema moral além deles mesmos, e, se as premissas deles estão certas, a arena existencial é a única via legítima para a busca de sentido.

Pascal estava dizendo que, se a prova existencial para encontrar sentido na vida fosse a única opão que lhe restasse, a fome do seu coração tinha sido saciada em seguir Jesus e assim ele estava satisfeito. Numa pior hipótese, em que os ateus estejam certos e a morte é apenas o esquecimento, Pascal ainda tinha satisfeito a única prova que os ateus têm para crer e descobriu que sua relação com Jesus é satisfatória do ponto de vista existencial.

Como cristão, ele satisfazia tanto seu próprio teste para a verdade na pessoa de Jesus – a prova empírica – e a prova existencial proposta pelos ateus. É por isso que ele dizia que não podia ser perdedor, e jogo não era um jogo de azar em que ele pudesse perder, qual fosse o teste que ele empregasse."

Texto retirado do livro "A morte da Razão - Uma resposta aos neoateus" 

sábado, 21 de janeiro de 2012

Divindade de Jesus – A importância da questão. - Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.

Um texto interessante para a reflexão:

1.    A divindade de Cristo é a doutrina cristã de maior destaque. Define-se cristão basicamente como uma pessoa que acredita nisso. E nenhuma outra religião tem uma doutrina sequer semelhante a essa. Os budistas não acreditam que Buda era Deus. Os muçulmanos não acreditam que Maomé era Deus. Eles afirmam: “Não existe outro Deus além de Alá, e Maomé é seu profeta”.

2.    A diferença essencial entre o cristianismo ortodoxo, tradicional, bíblico, apostólico, histórico e o cristianismo revisionista, modernista e liberal está na crença sobre a divindade de Cristo. A revisão essencial modernista procura ver Cristo simplesmente como o homem ideal, ou “o homem em favor de outros”; como profeta, rabino, filósofo, mestre, assistente social, psicólogo, psiquiatra, reformador, sábio ou mago, mas não como Deus encarnado.

3.    Essa doutrina serve como uma chave-mestra, que destranca todas as outras portas doutrinárias do cristianismo. Os cristãos crêem em todas as suas muitas doutrinas não porque raciocinaram e as encontraram como conclusões de um inquérito teológico, ou como resultado de experiências místicas, mas com base na autoridade divina daquele que as ensinou, como estão registradas na Bíblia e como foram transmitidas pela Igreja. Se Cristo fosse apenas humano, poderia ter cometido erros. Portanto, qualquer pessoa que quiser discordar dos ensinos pouco populares de Cristo terá de negar a divindade dele. E com certeza haverá aspectos de Seus ensinamentos que todos consideraremos ofensivos – se observarmos a totalidade desses ensinos, em vez de atermo-nos àqueles que consideramos aceitáveis ou familiares.

4.    Se Cristo é divino, então sua encarnação foi o evento mais importante da história. É o divisor de águas, e mudou tudo. Se Cristo é o Filho de Deus, possui a mesma essência divina; se é o Cordeiro que tira o pecado do mundo, então, quando morreu na cruz, a porta do céu, fechada pelo pecado, foi aberta para nós pela primeira vez desde o Éden. Nenhum evento na história poderia ser mais importante para todos os seres humanos.

5.    A divindade de Cristo é uma doutrina que possui uma qualidade existencial incisiva e sem paralelos. Se Cristo possui a mesma natureza divina do Pai, se está à destra de Deus, se Ele e o Pai são um, então Jesus é Deus, e como tal é onipotente e onipresente; Ele está presente agora mesmo, e pode transformar nossa vida neste instante como nenhuma outra pessoa poderia fazer. Somente Deus pode responder ao clamor desesperado do salmista: Cria em mim um coração puro, ó Deus (Sl 51.10). Apenas Deus pode criar. Existe até uma palavra especial em hebraico para essa ação: é bara’.

6.    Se Cristo é divino, Ele tem direito sobre toda nossa vida, incluindo nosso íntimo e nossos pensamentos. Se Cristo é divino, nossa obrigação absoluta é acreditar em tudo que Ele diz e obedecer a todas as suas ordens. Se Cristo é divino, o significado de liberdade passa a ser nossa conformidade para com Ele.

Fonte: "Manual de defesa da fé" de Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.

Comentários do blog:

Não sei se concordo com tudo que está escrito. Por exemplo, ele coloca a divindade de Jesus como crucial para o cristianismo. Creio que apesar de ser crucial, a ressurreição talvez seja mais ainda, pois a divindade dEle só pode ser evidenciada através dessa ressurreição. Sem ela é vã a fé cristã.

Por isso, a própria necessidade de se acreditar em tudo o que Jesus disse vem inicialmente de sua autoridade divina que nos é provada por meio da ressurreição. Deus poderia ter escolhido outros meios, mas esse é o que nós podemos saber disso.

Esse seria o ponto de principal discordância. Talvez não discordância, mas um comentário complementar.

Outro ponto seria que, mesmo que Ele não fosse Deus (o que discordo) não significaria necessariamente que ele poderia errar em ensino, pois não é necessário que seja Deus, bastaria que fosse enviado por Ele e seja guiado pelo seu Poder.

Se você nunca pensou nas consequências da Divindade ou não de Jesus, é um bom momento para pensar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O deus dos palpiteiros - Olavo de Carvalho

Se há um Deus onipotente, onisciente e onipresente, é óbvio que não podemos conhecê-Lo como objeto, ou mesmo como sujeito externo, mas apenas como fundamento ativo da nossa própria autoconsciência, maximamente presente como tal no instante mesmo em que esta, tomando posse de si, se pergunta por Ele. Tal é o método de quem entende do assunto, como Platão, Aristóteles, Sto. Agostinho, S. Francisco de Sales, os místicos da Filocalia, Frei Lourenço da Encarnação ou Louis Lavelle.

Quando um Richard Dawkins ou um Daniel Dennett examinam a questão de um “Ser Supremo” que teria “criado o mundo” e chegam naturalmente à conclusão de que esse Ser não existe, eles raciocinam como se estivessem presentes à criação enquanto observadores externos e, pior ainda, observadores externos de cuja constituição íntima o Deus onipresente tivesse tido a amabilidade de ausentar-se por instantes para que pudessem observá-Lo de fora e testemunhar Sua existência ou inexistência.

Esse Deus objetivado não existe nem pode existir, pois é logicamente autocontraditório. Dawkins, Dennett e tutti quanti têm toda a razão em declará-lo inexistente, pois foram eles próprios que o inventaram. E ainda, por uma espécie de astúcia inconsciente, tiveram o cuidado de concebê-lo de tal modo que as provas empíricas da sua inexistência são, a rigor, infinitas, podendo encontrar-se não somente neste universo mas em todos os universos possíveis, de vez que a impossibilidade do autocontraditório é universal em medida máxima e em sentido eminente, não dependendo da constituição física deste ou de qualquer outro universo.

Se você não “acredita” no Deus da Bíblia, isso não faz a mínima diferença lógica ou metodológica na sua tentativa de investigar a existência ou inexistência d’Ele, quando essa tentativa é honesta. Qualquer que seja o caso, você só pode discutir a existência de um objeto previamente definido se o discute conforme a definição dada de início e não mudando a definição no decorrer da conversa, o que equivale a trocar de objeto e discutir outra coisa. Se Deus é definido como onipotente, onisciente e onipresente, é desse Deus que você tem de demonstrar a inexistência, e não de um outro deus qualquer que você mesmo inventou conforme as conveniências do que pretende provar.

O método dos Dawkins e Dennetts baseia-se num erro lógico tão primário, tão grotesco, que basta não só para desqualificá-los intelectualmente nesse domínio em particular, mas para lançar uma sombra de suspeita sobre o conjunto do que escreveram sobre outros assuntos quaisquer, embora seja possível que pessoas incompetentes numa questão que julgam fundamental para toda a humanidade revelem alguma capacidade no trato de problemas secundários, onde sua sobrecarga emocional é menor.

Longe de poder ser investigado como objeto do mundo exterior, Deus também é definido na Bíblia como uma pessoa, e como uma pessoa sui generis que mantém um diálogo íntimo e secreto com cada ser humano e lhe indica um caminho interior para conhecê-La. Só se você procurar indícios dessa pessoa no íntimo da sua alma e não os encontrar de maneira alguma, mesmo seguindo precisamente as indicações dadas na definição, será lícito você declarar que Deus não existe. Caso contrário você estará proclamando a inexistência de um outro deus, no que a Bíblia concordará com você integralmente, com a única diferença de que você imagina, ou finge imaginar, que esse deus é o da Bíblia.

Quando o inimigo da fé faz um esforço para ater-se à definição bíblica, ele o faz sempre de maneira parcial e caricata, com resultados ainda piores do que no argumento da “criação”. Dawkins argumenta contra a onisciência, perguntando como Deus poderia estar consciente de todos os pensamentos de todos os seres humanos o tempo todo. A pergunta é aí formulada de maneira absurda, tomando as autoconsciências como objetos que existissem de per si e questionando a possibilidade de conhecer todos ao mesmo tempo ex post facto.

Mas a autoconsciência não é um objeto. É um poder vacilante, que se constitui e se conquista a si mesmo na medida em que se pergunta pelo seu próprio fundamento e, não o encontrando dentro de seus próprios limites, é levado a abrir-se para mais e mais consciência, até desembocar numa fonte que transcende o universo da sua experiência e notar que dessa fonte, inatingível em si mesma, provém, de maneira repetidamente comprovável, a sua força de intensificar-se a si próprio.

Dez linhas de Louis Lavelle sobre este assunto, ou o parágrafo em que Aristóteles define Deus como noesis noeseos, a autoconsciência da autoconsciência, valem mais do que todas as obras que Dawkins e Dennett poderiam escrever ao longo de infinitas existências terrestres. Um Deus que desde fora “observasse” todas as consciências é um personagem de história da carochinha, especialmente inventado para provar sua própria inexistência.

Em vez de perguntar como esse deus seria possível, sabendo de antemão que é impossível, o filósofo habilitado parte da pergunta contrária: como é possível a autoconsciência? Deus não conhece a autoconsciência como observador externo, mas como fundamento transcendente da sua possibilidade de existência. Mas você só percebe isso se, em vez de brincar de lógica com conceitos inventados, investiga a coisa seriamente desde a sua própria experiência interior, com a maturidade de um filósofo bem formado e um extenso conhecimento do status quaestionis.

O que mata a filosofia no mundo de hoje é o amadorismo, a intromissão de palpiteiros que, ignorando a formulação mesma das questões que discutem, se deleitam num achismo inconseqüente e pueril, ainda mais ridículo quando se adorna de um verniz de “ciência”.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090318dc.html

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Precisamos de algum conhecimento de 2 mil anos atrás que não podemos fazer melhor hoje?

Me deparei com esta pergunta em um comentário aqui no blog, que, segundo quem comentou, é a pergunta que devemos fazer. A primeira coisa que pensei é que parece que muita gente se importa mesmo é com perguntas e respostas rápidas e fáceis.

É bom notar que tal pessoa já pressupõe algumas coisas. (1) Que o conhecimento atual sobre qualquer assunto que seja é melhor do que o antigo, (2) e por isso podemos dar melhores explicações sobre as questões ultimas da vida com o conhecimento atual.

Minha resposta a essa pergunta é que se as evidencias apontarem para a veracidade de tal conhecimento, então sim, precisamos, e muito. Caso contrário, não precisamos desse conhecimento, ou necessitamos dele da mesma forma de todos os outros tipos de conhecimento.

O conhecimento que supostamente foi ensinado por Jesus Cristo, não é um tipo de conhecimento como outros, feitos por meios de pensamentos e questionamentos filosóficos. Segundo Jesus, o tipo de conhecimento ensinado ao mundo é um conhecimento [revelado] diretamente pelo Pai ao Filho (Jesus), de modo que, sozinhos e tateando, nunca conseguiríamos.

Essa revelação não foi meramente um conjunto de ensinamentos filosóficos e morais, como alguns parecem crer, mas algo que supostamente pode mudar a vida de cada pessoa.

É claro que se fosse apenas outros tipos de conhecimentos não revelados, como os de vários outros lideres religiosos e filósofos, realmente não precisaríamos. A maioria delas dizem praticamente a mesma coisa: devemos ser bons, amar ao próximo e fazer boas obras (normalmente diferem do que seriam tais boas obras). Outras afirmam que devemos se desapegar ao mundo material, pois ele é mau ou é uma ilusão.

Poderíamos, então, a partir daí, observar a lógica de cada ensino e seguir o que consideramos mais coerente, ou seguir o que consideramos coerente em todas essas cosmovisões formando mais uma.

Mas segundo o conhecimento supostamente revelado por Jesus, nós estamos caídos. Nós estamos distantes de Deus, e nossas obras não podem nos levar de volta Àquele que nos faz totalmente humanos, pois é a razão de nossa vida. Presos por nossas próprias más vontades, não desejávamos amar a Deus, e, sozinhos, não tinha como ser reconciliados com Ele. Toda a criação estava caída, sujeita a morte e ao pecado.

Então, o próprio Deus interveio em nossa história. Ele não deixaria sua criação se corromper cada vez mais.

Jesus foi o ponto central nessa nossa história. Ele não só nos deixou uma filosofia de vida supostamente verdadeira, mas ressuscitou dos mortos para cumprir a promessa divina de que não deixaria sua criação.

Não só a nova criação do mundo, mas do ser humano. Nós podemos nascer de novo e sermos considerados filhos de Deus. Podemos nos reconciliar com o Senhor do Universo.

Então, se isso for verdade, então realmente precisamos de tal conhecimento. Não por ser um conhecimento como qualquer outro, mas por ser algo que pode mudar totalmente a nossa vida.

Dessa forma, não penso que a pergunta principal seja se precisamos de algum conhecimento antigo que não podemos fazer melhor hoje, pois não podemos fazer o que essa suposta revelação nos mostra, e sim outra pergunta: como posso saber se os acontecimentos há cerca de 2 mil anos referentes a Jesus foram verdadeiros?

Aos que já fizeram essa pergunta, acrescento outra: você tem feito sua busca com sinceridade?

sábado, 22 de janeiro de 2011

O Sol se levanta todas as manhãs.

Um video muito interessante, com um trecho do livro "Ortodoxia".

Chesterton é um dos melhores escritores que conheço, talvez o melhor.

Além de suas idéias incriveis, a forma que dá segmento ao texto é muito boa, apesar de nem sempre ser fácil entendê-lo.

A biografia de Chesterton se encontra aqui.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Richard Dawkins: desonesto ou surdo?



Que Dawkins é muito prepotente diante dos seus argumentos toscos, e que ele faz muita tempestade em copo d'água (sem contar de criticar muita coisa que ele desconhece, assim como os minidawkins que se vê por aí) isso eu já sabia.

Mas não prestar atenção nos argumentos de quem está debatendo?

Digo "não prestar atenção" pra não afirmar logo que estava fingindo que não viu algo para apenas conintinuar afirmando a qualquer custo em um debate o suposto erro do outro debatedor e assim dar a impressão aos desavisados (ou ateus fanáticos) de que está certo.

E isso já percebi não só com Dawkins, mas até mesmo com pessoas que tive a oportunidade de debater.

E poucos foram os ateus sensatos que souberam de alguma forma mostrar os motivos de sua crença, pois mesmo sem concordar, não foram motivos tolos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Terry Eagleton - Reflexões sobre o neo-ateismo

Achei interessante um ateu admitir, no final do video, que possui crença. É dificil pra muitos ateus admitirem o fato de também possuirem crenças, isso porque possuem uma visão equivocada sobre o que é crer. Além da visão equivocada, muitos (na verdade suspeito que a maioria) possuem problemas volitivos, em vez de intelectuais. Junta isso com o "espantalho divino" que é convenientemente criado e uma falta de entendimento dos argumentos para a existencia de Deus (que leva a perguntas como "se tudo que existe possui uma causa, então qual é a causa de Deus?"), mais uma pitadinha de pedantismo, surge o neo-ateismo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Palavra de Deus encarnada

José Antonio Pagola


Assim é chamado Jesus numa espécie de "prólogo" com o qual inicia o evangelho de João. Depois a expressão desaparece inclusive neste mesmo evangelho. Ninguém volta a falar assim nas primeiras gerações cristãs. No entanto, esta expressão servirá mais tarde para aprofundar a partir da fé cristã, o próprio núcleo do mistério encerrado em Jesus.

Na terminologia deste prólogo está ressoando a categoria grega de Logos, a fé judaica na "Palavra" de Deus e a meditação sapiencial sobre a "Sabedoria". Como se sabe, na cultura grega sente-se a realidade como impregnada de racionalidade e sentido; a realidade não é algo caótico e incoerente; nela há Logos; as coisas têm sua "lógica" interna. Por outro lado, de acordo com a fé judaica, Deus não tem imagem visível, não pode ser pintado nem esculpido; mas tem voz; com a força de sua "Palavra" cria o universo e salva seu povo. Por isso, segundo a tradição sapiencial de Israel, o mundo e a história humana não constituem uma realidade absurda, porque tudo é sustentado e dirigido pela "Sabedoria" de Deus.

Este precioso hino joânico realça sobretudo a fé judaica. A Palavra está já "no princípio" de tudo. Não devemos entender esta Palavra como algo criado. Esta Palavra é o próprio Deus falando, comunicando-se, revelando-se na criação e na história apaixonante da humanidade. Tudo é criado e dirigido por essa Palavra. Por toda parte podemos intuir suas pegadas. Nessa Palavra está a "vida" e a "luz verdadeira" que ilumina toda pessoa que vem a este mundo. No mundo há também trevas, mas "a luz brilha nas trevas".

Tudo isto é crido pelos judeus e pode ser aceito por muitas pessoas de cultura grega. O insólito é a audaz proclamação que vem em seguida: "A Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós". Agora podemos captar a Palavra de Deus feita carne neste profeta da Galiléia chamado Jesus. Não é fácil. De fato, ele veio ao mundo e o mundo não o reconheceu; nem sequer os seus o receberam. Mas em Jesus Cristo nos está sendo oferecida a "graça" e a "verdade". Ninguém pode nos falar como ele. Deus assumiu carne em Jesus. Em suas palavras, seus gestos e em sua vida inteira estamos nos encontrando com Deus. Deus é assim, como diz Jesus; olha as pessoas como Jesus as olha; acolhe, defende, ama, perdoa como Jesus o faz. Deus se parece com Jesus. E não é só isso. Jesus é Deus falando-nos a partir da vida frágil e vulnerável deste ser humano.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O inferno não é arbitrariamente imposto aos condenados

Peter Kreeft

Alguns subtenderam que o inferno é imposto aos perdidos contra a vontade deles. Mas essa idéia seria contrária à razão fundamental da existência do inferno: nossa livre escolha e o respeito de Deus por ela.

Os condenados não se alegrarão no inferno, mas mesmo assim eles o escolhem, ao preferirem o egoismo, em vez do amor; o eu, em vez de Deus; o pecado, em vez do arrependimento [e do perdão divino]. Não pode haver céu sem amor doado. A coisa que os perdidos desejam - a felicidade nos seus próprios termos egoístas - é impossível até para Deus conceder. Ela não existe. Não pode existir.

Se o inferno é escolhido livremente pelos pecadores, então o problema see torna não a conciliação entre o inferno e o amor de Deus, mas a condição entre o inferno e a sanidade mental humana. Quem, em sã consciência, preferiria o inferno ao céu? Contudo, todos nós fazemos isso vez ou outra ao pecarmos, pois todo pecado reflete a nossa preferência pelo inferno.

Os céticos objetam dizendo que não é possível escolhermos livremente o inferno ao céu; só loucos fariam isso. Os cristãos respondem que isso é precisamente o que o pecado é: loucura. uma recusa deliberada do júbilo e da verdade.

Talvez o ensino mais chocante do cristianismo não seja o da doutrina do inferno, mas a doutrina do pecado, pois significa que a humanidade está espiritualmente insana [ao ponto de continuar em sua marcha para o inferno, sem atentar para a salvação em Cristo oferecida por Deus]

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Salmo 23 - Iavé não me faltará!

“IAVÉ, MEU PASTOR, NUNCA ME FALTARÁ”

Esta é uma tradução que provavelmente mais se aproxima do original em hebraico.

Arrisquei interpretar este salmo especial da maneira mais pessoal possivel. Tomara abençoe voce.

“O Senhor é o seu pastor e por isto, nunca, ELE lhe faltará, pois, você O tem e Ele o/a tem. E, se ELE nunca lhe faltará, do que mais você precisa ou tem falta??

Ele faz você andar como que por verdes pastos e Ele é a brisa que refrigera a sua alma e te faz repousar em segurança ao som de águas tranqüilas.

Ele te toma pela mão e te guia por caminhos retos e justos.

É possível que você ande por caminhos que pareçam caminhos de morte, mas, o Senhor te sustenta e você toma o rumo da vida.

Não poucas vezes você se verá diante de inimigos, mas, o Senhor, antes lhe alimentará e lhe servirá um cálice de revigoramento.

E daqui até o ultimo dia de sua vida o Senhor te perseguirá com bondade e misericórdia. Elas te encontrarão e na passagem te fará companhia por toda eternidade.” 

Carlos Bregantim

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Deus está no homem; o homem em Deus

Santo Agostinho

"E como invocarei o meu Deus - meu Deus e meu Senhor -, se ao invocá-lO, O invoco sem dúvida dentro de mim? E que lugar há em mim, para onde venha o meu Deus, para onde possa descer o Deus que fez o céu e a terra? Pois será possível - Senhor meu Deus - que se oculte em mim alguma coisa que Vos possa conter? É verdade que o céu e a terra que criastes e no meio dos quais me criastes, Vos encerram?

Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contém? E assim, se existo, que motivo pode haver para Vos pedir que venhais a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis? Não estou no inferno e, contudo, também Vós lá estais, pos "se descer ao inferno, aí estais presente" [1].

Por conseguinte, não existiria, meu Deus, de modo nenhum existiria, se não tivésseis em mim. Ou antes, existiria eu se não estivesse em Vós "de quem, por quem e em quem todas as coisas subsistem"? Assim é, Senhor, assim é. Para onde Vos hei de chamar, se existo em Vós? Ou donde podereis vir até mim? Para que lugar, fora do céu e da terra, me retirarei a fim de que venha depois a mim o meu Deus que disse: "Encho o céu e a terra"?

[1] - Sl 138,8

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O inferno não é ódio divino - Peter Kreeft

Muitos crêem que, por existir o inferno, Deus deve ser um Ser irado, vingativo e odioso [que descarregará sua fúria sobre os pecadores]. Quem pensa assim, ignora a possibilidade de que a consciência dos pecadores sobre o amor de Deus por eles desprezado possa constituir-se uma tortura no inferno. Esse amor poderia torturá-los devido ao egoismo com o qual os pecadores condenados insistiram e apegaram-se [levando-os à destruição e ao afastamento total daquele que é a própra vida e o próprio amor].

Assim como a beleza de uma ópera pode ser uma tortura para alguém que tenha uma inveja cega de seu compositor, as chamas do inferno podem ser feitas do ódio dos condenados pelo amor singular de Deus.
A expressão bíblica "a ira de Deus" (A) pode ser uma metáfora, como "o senhor arrependeu-se" ou um antropomorfismo, como "a forte destra de Deus"; ou seja, pode não ser literal. Se não for uma metáfora, mas literalmente ira (ódio), (B) pode ser uma projeção do ódio do pecador condenado para com Deus, em vez de ódio do próprio Deus. Se a expressão referir-se literalmente à ira de Deus, e não a uma projeção subjetiva humana, (C) é uma ira associada à santidade e à justiça de Deus, e não um ressentimento ardente da parte dele; é uma medida dele contra o pecado, não contra os pecadores.

Deus pratica o que prega: ama os pecadores, e odeia o pecado, removendo-o, assim como os cirurgiões, por amarem seus pacientes, odeiam o câncer que os ameaça e eliminam-no. Todo pecado deve encontrar seu destino necessário: a exclusão do céu. Apenas os que não se dissociarem de seus pecados terão esse destino. Logo, os condenados ao inferno serão aqueles que se recusarem a abandonar seus pecados, arrependendo-se e sendo salvos por Cristo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Invocação ou louvor?

Sois grande, Senhor, e infinitamente digno de ser louvado" [1]. "É grande o vosso poder e incomensurável vossa sabedoria." [2] O homem, fragmentozinho da criação, quer louvar-Vos; o homem que publica a sua mortalidade, arrastando o testemunho do seu pecado e a prova de que Vós resistis aos soberbos. Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inqueto, enquanto não repousar em Vós.
Concedei, Senhor, que eu perfeitamente saiva se primeiro Vos deva invocar ou louvar, se primeiro, Vos deva conhecer ou invocar.

Mas quem é que Vos invoca se antes não Vos conhece? Esse, na sua ignorância, corre perigo de invocar a outrem. - Ou, porventura não sois antes invocado para depois serdes conhecido? "Mas como invocarão Aquele em quem não acreditam? Ou como hão de acreditar, sem que alguém lhes pregue?" [3] "Louvarão ao Senhor, aqueles que O buscarem" [4]. Na verdade os que O buscam, encontrá-lO-ão e aqueles que O encontram, hão de louvá-lO.

Que eu Vos procure, Senhor, invocando-Vos; e que Vos invoque, crendo em Vós, pois nos fostes pregado. Senhor, invoca-Vos a fé que me destes, a fé que me inspirastes por intermédio da humanidade de Vosso Filho e pelo ministério do Vosso pregador. [5]

Santo Agostinho

[1] -Sl 95.4
[2] -Sl 146.5
[3] -Rm 10.14
[4] -Sl 21.7
[5] - Referência a Santo Ambrósio que contribuiu para a conversão de Agostinho.

sábado, 2 de outubro de 2010

Um mal além do bem e do mal?

Não vejo sentido em todo esse discurso moral ateísta, sendo que a moralidade só faz real sentido quando há um padrão absoluto para a moral, algo como uma lei, e, por este motivo, um legislador.

Debatendo com um ateu, que acabou me indicando um vídeo, só acabei confirmando ainda mais esse fato. Ele havia citado um video onde Dawkins critica o Papa Bento XVI (no que respondi que a própria critica de Dawkins pode ser utilizada contra seu ateísmo):


Depois acabou me indicando o vídeo abaixo:


Mas eles só confirmaram o que eu havia dito, que segundo o naturalismo filosófico o que chamamos de “moral” é consenso de opinião, e não que há moral absoluta pra dizer que alguma atitude não é boa:

"Eu decido e sou autor do que decido ser moral. Posso acessar uma situação e decidir se é moral de acordo com meus padrões ou imoral de acordo com os meus padrões." (assim como hitler, stalin, estupradores, assassinos, os pedófilos, ...)

"Eu não gosto de ser morto e nem que roubem minhas coisas, então eu encontro outras pessoas que também preferem não ser mortas ou roubadas, então nós entramos num acordo em que ninguem mate, roube ou force ninguem a nada."

Mas logo após ele se contradiz, colocando nada menos do que algo utilizado nos argumentos para uma lei moral:

"E é natural perceber: 'EI, se eu vou viver com todas essas pessoas tenho que fazer compromissos'".

Segundo o naturalismo filosófico o fato de você não gostar de ser morto nem que o roubem não implica que você deve (um dever que ele sabe que possuimos) fazer compromissos. Compromissos esses que não deveriam chamar de morais, mas de preferência.

Ele deveria seguir o que diz e falar: "Eu quero fazer um compromisso, se vou viver com essas pessoas. Mas não tenho nenhuma obrigação (dever)".

Caso contrario vai estar contradizendo sua própria cosmovisão. Mas é natural também se indignar com isso que chamam de gosto.

O ateísmo precisa de explicações pra isso e até hoje vi poucas boas explicações. Até hoje também não conheci nenhuma sociedade em que as pessoas prefiram uma traidora da fiel, ou um covarde na guerra pra defender sua terra a um heroi que morreu defendendo-a. (estou falando de chamar tais coisas de algo de "bem" ou "mal")

E quanto mais ele tenta explicar, mais piora pra seu ateísmo:

"Eu não tenho a habilidade ou o direito de ir fazendo tudo que eu quero sem pensar nas consequencias para as outras pessoas."

Por que não? Se como disse que é questão de gosto e não há moral absoluta, ele pode muito bem gostar de ir fazendo tudo que quer sem pensar nas consequencias para as outras pessoas. E o que as pessoas podem fazer? Só dizer que não gostam, mas não dizer que o que ele faz não é bom, moralmente falando. Um estuprador pode dizer que segundo os seus padrões pode decidir o que é moral e imoral.

Aí vai citando mais outros valores que só fazem sentido se existir uma moral absoluta:

Entretanto, ainda comparando a moral atéia com a moral teísta, eu não tenho nada contra a vida particular de adultos fazendo alguma coisa com o consentimento do outro, sem afetar ninguem mais. Sendo qualquer coisa que lhes agrade.

Por que uma pessoa que gosta, segundo seus próprios padrões, deveria fazer uma coisa só com o consentimento da outra? Ele pode ter algo contra pessoas que fazem coisas sem o consentimento da outra, mas não pode dizer que é imoral de fato, mas só segundo o seu padrão, assim como a outra pessoa acha o que faz moral, segundo o padrão pessoal. Bom.. foi o que ele disse...

Quase no final:

"Nós melhoramos desde essa época. Nós constituimos um entendimento melhor olhando para esse passado."

Melhoramos? A partir de que padrão ele diz isso? O padrão subjetivo dele? Do padrão subjetivo, que ele mesmo admite que é o gosto, das pessoas? Mas aí eles não podem dizer que melhoraram apenas que mudaram de gosto. Nada mais.

Segundo o ateísmo deveriam dizer: Eu gosto da record e você gosta da globo.

Pra finalizar, quero deixar uma coisa clara: não estou afirmando que o ateismo leva a imoralidade, estou dizendo que o ateísmo não permite que algo seja considerado imoral de forma absoluta, nem que se critique atitudes como as que Dawkins criticou como imorais.

Dawkins poderia usar essa oportunidade pra falar do que o naturalismo implica: "Bom... esses padres gostam de abusar crianças de acordo com seus próprios padrões, eu não. Mas eu gosto de chocolate e eles de creme com passas...".

Só teria que explicar de forma satisfatória (e não com contradições como as do video), segundo o ateísmo, porque todas as pessoas sabem que isso é errado, até mesmo tais padres, e ainda se indginam como isso não sendo bom (não relacionado a sobrevivencia da sociedade, mas a moral. Como algo que não está além do bem e do mal).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O eterno hoje.

“Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Hoje te gerei.” (Hebreus 5.5)

“Como poderiam ter passado inumeráveis séculos, se Vós, que sois o Autor e o Criador de todos os séculos, ainda não os tínheis criado? Que tempo poderia existir se não fosse estabelecido por Vós? E como poderia esse tempo decorrer, se nunca tivesse existido?

Sendo pois, Vós, o obreiro de todos os tempos – se é que existiu algum tempo antes da criação do céu e da terra – por que razão se diz que Vos abstínheis de toda a obra? Efetivamente fostes Vós que criastes esse mesmo tempo, nem ele podia decorrer antes de o criardes! Porém, se antes da criação do céu e da terra não havia tempo, para que perguntar o que fazíeis então? Não podia haver então, onde não havia tempo. Não é no tempo que Vós precedeis o tempo, pois, de outro modo, não serieis anterior a todos os tempos.

Precedeis, porem, todo o passado, alteando-Vos sobre ele com a Vossa eternidade sempre presente. Dominais todo o futuro porque esta ainda por vir. Quando ele chegar, já será pretérito. Vós, pelo contrario, permaneceis sempre o mesmo e os Vossos anos não morrem.

Os Vossos anos não vão e nem vem. Porém os nossos vão e vem, para que todos venham. Todos os Vossos anos estão conjuntamente parados, porque estão fixos, nem os anos que chegam expulsam os que vão, porque estes não passam. Quanto aos nossos anos, só poderão existir todos, quando todos não existirem. Os vossos anos são como um só dia, e o Vosso dia não se repete de modo que possa chamar-se quotidiano, mas e um perpétuo hoje, porque este Vosso hoje não se afasta do amanha, nem sucede o ontem. O vosso hoje e a eternidade. Por isso gerastes coeterno Vosso Filho a quem dissestes: ‘Eu hoje te gerei’.

Criastes todos os tempos e existis antes de todos os tempos. Não é concebível um tempo em que se possa dizer que não havia tempo.”. (Santo Agostinho)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Para compreender a Santíssima Trindade

(Estudos de D. Estevão Bettencourt – Teólogo de renome nacional e internacional, um dos tradutores da Bíblia de Jerusalém e TEB, dedicou sua vida aos estudos bíblicos, foi muito respeitado no meio acadêmico, deixou uma das maiores Escolas de Teologia do Brasil – Mater Ecclesiae)

Deus pode ser conhecido mediante a razão natural. Todavia os filósofos se detiveram em noção fria e temerosa de Deus. Escrevia Aristóteles († 322aC): “Seria um absurdo querer alguém amar a Deus” (Ética maior 2,2 1208).

Deus, porém, se revelou aos homens na mensagem judeu-cristã (bíblica), dando-lhes a conhecer que Deus é pessoal (possuidor de inteligência e vontade) e não força neutra; é Pai, é Amor, é tão rico que se afirma 3 vezes (como Pai, Filho e Espírito Santo).


• O Antigo Testamento

No AT a necessidade de incutir a unicidade de Deus impedia a revelação da trindade de pessoas em Deus. Os israelitas tendiam mesmo a afastar cada vez mais Deus dos homens, substituindo o nome de Deus por locuções como “Ele, o Altíssimo, o Eterno, o Nome...”.

Verdade é que Deus fala algumas vezes como se fosse um sujeito plural:

Gn1,26 ...Façamos...

Gn3,22 ...como um de nós...

Gn11,7 ...Desçamos e confundamos...

Is 6,8 ...Quem enviaremos...

Trata-se de formas de plural intensivo, que designam o valor do sujeito que fala, não, porém, a sua pluralidade.

Contudo não podemos deixar de observar a tendência, dos autores do AT, a conceber como se fossem pessoas certos conceitos ou atributos de Deus; é o que dá especialmente em relação à Sabedoria, à Palavra e ao Espírito de Deus.

1.1 # Sabedoria

A sabedoria como tal é um atributo de Deus e do homem. Todavia nos livros sapienciais ela foi sendo concebida como pessoa; assim em...

Jó 28,1-28
Br 3,4 – 4
Pr 8,12-36
Eclo 24,5-32
Sb 7,22-26

A sabedoria “sai da boca do Altíssimo, e, como a neblina, cobre a terra...reina sobre todos os povos e nações” (Eclo 24,3-6). Só Deus sabe onde ela habita; só Deus conhece o caminho que leva a ela (cf. Jó 28,23). Desde a eternidade, ela foi estabelecida, antes das montanhas e dos mares, foi gerada; assistia a Deus, como mestre-de-obra, na criação do mundo; todo tempo ela brincava na presença de Deus e se alegrava com os homens (cf. Pr 8,22-31). Ela apareceu sobre a terra e no meio dos homens conviveu (cf.Br 3,38). É um “espírito inteligente, santo, imaculado, amigo do bem, todo-poderoso...É “um reflexo de luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus, uma imagem da sua bondade” (Sb 7,22-26).

Embora esses textos insinuem ser a Sabedoria uma pessoa distinta de Deus, sabemos que a mentalidade judaica não os podia entender senão como figuras literárias, que personificam poeticamente um atributo de Deus. No NT, porém, São Paulo alude a esses textos e identifica a Sabedoria com a 2ª pessoa da SS. Trindade ou o Cristo Jesus:

1Cor 1,24 “Cristo é o poder e a sabedoria de Deus”

Hb 1,3 “Cristo é o resplendor da glória de Deus e a imagem da sua substância; sustenta todas as coisas pela sua palavra poderosa”

Cl 1,15 “Cristo é a imagem do Deus invisível”

O apóstolo, ilustrado pela revelação do Cristo Jesus, releu os textos do AT de modo a descobrir neles uma revelação antecipada da segunda pessoa da SS.Trindade.

1.2 # A Palavra

A Palavra (dabar), para que os semitas, tinha mais importância do que para nós. Atribuíam-lhe eficácia própria, que durava para além do momento em que era proferida.

Assim a palavra de Deus é tida como criadora:

Gn 1,3.6.9.11.14s.20.24 “Deus disse...E assim se fez”

Sl 33,6 “O céu foi feita pela palavra do Senhor”

Sb 9,1 “Deus dos pais,...que tudo criaste com tua palavra”

Sl 147,15 “O Senhor envia suas ordens à terra e sua palavra corre velozmente”

A eficácia atribuída à palavra de Deus explica tenha sido ela concebida como pessoa ao lado do próprio Deus; assim, por exemplo, nos seguintes textos:

Is 55,10s “Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem ter regado a terra..., tal ocorre com a palavra de minha boca; ela não torna a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da minha missão para a qual a enviei”

Sb 18,14s “Quando um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite mediava seu rápido percurso, tua palavra onipotente precipitou-se do trono real dos céus”
Sb 16,12 “Não os curou nem erva, nem ungüento, mas a tua palavra, Senhor, que a tudo cura”

Nesses textos não há, segundo os judeus que os escreveram, senão personificação
Poética ou figura literária. Todavia o apóstolo São João desenvolveu a concepção
judaica, apresentado a segunda pessoa da SS.Trindade como a Palavra (Lógos, em
grego); cf. Jo 1,1.14: “No princípio existia o Lógos, e o Lógos estava com Deus e o Lógos
era Deus... E o Lógos se fez carne, em habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a
glória do Unigênito do Pai”.

1.3 # O Espírito de Deus

O termo hebraico ruah (em latim, spiritus, espírito) significa “vento, brisa silenciosa,
Tempestade...”. Está associado a idéia de vida. Em conseqüência, as intervenções de
Deus em favor do seu povo na história são atribuídas ao ruah (força vivificante) de Deus. É este quem transforma os homens, tornando-os capazes de façanhas excepcionais; tenham-se em vista o caso de Sansão (Jz 13,25;14,6).

O Messias prometido pelos profetas seria portador de ruah:

Is 11,1-5
Is 42,1-3
Is 61,1s
Jl 3,1-4

Essa força vivificante de Deus seria dada a todos os homens:

Is 32,15-20
Is 44,3-5

E produziria novas criaturas:

Ez 11,19
Ez 18,31
Ez 36,26
Ez 37,1-10

Nota-se também a tendência a personificar o Espírito entre os judeus; cf.Is 63,10s ; 2Sm 23,2. Isto, porém, sem ultrapassar os termos de uma figura poética. O NT mais uma vez desenvolveu o pensamento judaico, apresentando o Espírito como a terceira pessoa da SS.Trindade, cf. Jo 14,25 / Jo 16,7.13 / At 2,1-22.


• O Novo Testamento

Jesus explicitou as noções judaicas, falando abertamente do Pai e do Espírito, que com o Filho constituem um só Deus em 3 pessoas (obs: 3 pessoas numa única divindade).

A SS.Trindade aparece em algumas fórmulas marcantes:

Mt 28,18s
“Ide e fazei com que todas as naçõesmse tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” – Temos aqui a fórmula tal como era aplicada na liturgia do Batismo; a justaposição mediante a preposição e significa a igualdade de natureza da 3 pessoas divinas.

Mt 3,16 / Mc 1,11 / Lc 3,22
No Batismo de Jesus, o Pai se fez ouvir apontando o Filho e o Espírito Santo se manifesta sob forma de pomba (a pomba era, nas literaturas antigas, um sinal que servia para identificar).

Lc 1,20-35
Na anunciação do anjo a Maria, o Pai é dito “o Altíssimo, o Senhor Deus”; o Espírito Santo é identificado com o “Poder do Altíssimo”. Este recobre Maria com a sua sombra, como as asas de um pássaro recobrem uma criatura, simbolizando a ação divina fecundante e vivificante (cf. Sl 17,8 ; Sl 57,2 ; Gn 1,2); em conseqüência, Maria recebe em seu seio o Filho de Deus, ao qual ela deverá dar a natureza humana, para que Ele nasça como Filho de Deus e (enquanto homem) como Filho de Maria.

2Cor 13,13
“A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” – Nesta fórmula, Deus(Pai) é tido como o Amor (pois, na verdade, foi como Amor que Ele quis identificar-se no NT, cf. 1Jo 4,16). Esse Amor tem um sorriso (graça)para os homens, que é o Filho feito homem, manifestação do Pai. Essa graça se comunica a cada homem mediante o Espírito Santo, ao qual, portanto, é atribuída a comunhão.

Gl 4,6
“Porque sois filhos, enviou Deus em nossos corações e o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai!” (cf.Rm 8,15) – Este texto nos diz que o Espírito Santo, nos faz filhos no Filho e, consequentemente, com o Filho nos leva a clamar a palavra por excelência: Abbá, Pai.
Somos assim inseridos na vida trinitária; a consciência deste fato era tão viva para os antigos cristãos que aprendiam a dizer Abbá desde os primeiros dias da sua conversão, ficando essa palavra aramaica, mesmo fora da Palestina, como a palavra mais típica e fundamental da mensagem cristã.

Ef 2,18
“Por Cristo...num só Espírito temos acesso ao Pai”. – Neste texto é apresentado o papel de cada uma das pessoas trinitárias na obra da salvação do homem: O Espírito Santo é sempre aquele que nos faz filhos ou aquele que nos atinge em nosso íntimo. Ele nos leva ao Pai (que é o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Último) mediante o Filho (que é nosso Pontífice ou Mediador – o único). “Ao Pai pelo Filho no Espírito Santo” é a fórmula clássica da piedade cristã. Vivemos no “Espírito Santo” (cf.1Cor 12,3 ; Rm8,9.11), pois é o Espírito que anima e vivifica o corpo de Cristo que é a Igreja.

Tt 3,4-6
“Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram..., fomos lavados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele ricamente derramou sobre nós por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador”. – Como se vê, o Pai é o Amor, que tem a iniciativa de nos salvar, o Filho é o Mediador, e o Espírito Santo é a força de Deus que nos recria, fazendo-nos consortes da vida trinitária.

Hb 2,3s:
“A salvação começou a ser anunciada pelo Senhor. Depois foi-nos fielmente transmitida pelos que a ouviram, testemunhando Deus juntamente com eles..., pelos dons do Espírito Santo distribuídos segundo a sua vontade”... – Deus (Pai) é o princípio de toda salvação; o Filho é a palavra, que na terra anuncia essa Boa-Nova do Pai; o Espírito Santo é Aquele que em nossos corações explana e interpreta a mensagem.

Tal é a doutrina dos escritos do NT. Tem aspecto vivencial, procurando enfatizar o significado salvífico das verdades da fé. – Desde o séc. II os cristãos se viram diante de séria interrogação: como conciliar a unidade de Deus (tão incutida pela AT e pela razão) com a trindade de suas Pessoas? Ou há 3 deuses ou as Pessoas Divinas não passam de aspectos ou facetas de um único Deus – tal era o dilema que se impunha à reflexão dos cristãos.

É para este problema que nos voltamos agora...

As primeiras tentativas de conciliar unidade e trindade em Deus foram falhas: tendiam a subordinar o Filho do Pai (o Espírito Santo era menos estudado). Tal teoria nos séc. II e III tomou o nome de monarquianismo ( defendia a monarquia divina).

No séc. IV, o subordinacionismo foi reapresentado por Ário de Alexandria a partir de 315: afirmava ser o filho a primeira e mais excelente criatura do Pai. Tendo sida concebida a paz aos cristãos em 313, compreendeu-se a controvérsia tenha tomado vulto que nunca tivera. Em conseqüência, reuniu-se o primeiro Concílio Ecumênico da história em Nicéia (Asia Menor) no ano de 325, o qual reuniu uma profissão de fé, que afirmava:

“Cremos... em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Pai como Unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por quem foi feito tudo que há no céu e na terra” (DS 125[54]).

Vê-se que o texto acentua a identidade de substância do Pai e do Filho para afirmar que o Filho não foi criado (quem cria, tira do nada), mas gerado (quem gera se prolonga no filho gerado); o Filho é Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

Todavia a disputa não se encerrou em 325. Entre outras questões, restava a das relações com do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Após decênios de debates, reuniu-se o Concílio de Constantinopla I em 381, que acrescentou à profissão nicena de fé os dados referentes ao Espírito Santo:

“Cremos no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai (cf.Jo 15,26), com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o qual falou pelos profetas” (DS 150[86]).

Afirmando que o Espírito Santo é adorado com o Pai e o Filho, os padres conciliares queriam incutir a identidade de substância (ou a Divindade) do Espírito Santo com o Pai e o Filho.

Só foi possível aos teólogos chegar à formulação exata do dogma após recorrerem à distinção entre ousia (essência, natureza) e hypóstasis (pessoa). Aquela é única (a Divindade); as pessoas porém são 3, sem esfacelar nem retalhar a natureza divina, como 3 são os ângulos de um triângulo sem esfacelar a superfície do triângulo.


• As Processões em Deus

Os teólogos tentaram, desde os primeiros séculos, penetrar de algum modo no mistério da vida de Deus Uno e Trino. Não há dúvida, esta escapa à plena compreensão da inteligência humana, que é sempre finita. Como quer que seja, a reflexão teológica pode mostrar não somente que o mistério da SS.Trindade não é um absurdo, mas também que grande harmonia e conveniência existem nesse mistério.*

*Obs: Há quem diga popurlamente: Se 1+1+1=3, como é que Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo não são 3 deuses? Na mesma linguagem popular pode-se responder: 1+1+1=3, mas 1x1x1=1! – Assim se desfaz a objeção mal concebida.

Eis como, em síntese, se pode ilustrar o mistério da SS.Trindade.

A S.Escritura, ao falar do Pai e do Filho, supõe procedência (ou processão) do Filho em relação ao Pai. No tocante ao Espírito Santo, diz Jesus: “O Espírito da verdade, que procede do Pai...(Jo 15,26).*

*Obs: Não confundir processão com procissão, que é uma cerimônia religiosa. Processão vem de proceder e só se usa na linguagem teológica trinitária.

Vejamos pois o que é uma processão:

- É simples a origem de um ser a partir de outro. Não implica relação de causalidade entre um e outro. Por exemplo, a luz e o calor procedem de uma lâmpada acesa (há relação de causalidade no caso); a estrada de Rio-São Paulo procede do ponto A (não há relação de causalidade entre o A e a estrada, mas há uma processão ou procedência).

Há 2 tipos de processão: a Transeunte e a Imanente

Na processão Transeunte, o termo que procede sai do princípio donde procede. É o que ocorre quando alguém escreve uma carta (esta sai para fora da pessoa que escreve); quando alguém confecciona uma obra de arte...

Na processão Imanente, o termo que procede permanece no sujeito donde procede. É o que acontece com nossas ações vitais: o conhecer, o querer, o ver, o ouvir... A ação permanece no sujeito como perfeição deste. Por exemplo, quando admiro uma paisagem, nada sai de mim; não obstante, realizo uma atividade, olhando, refletindo, imaginando..., que me enriquece interiormente.

Dentre as ações imanentes, as mais nobres são as da vida intelectiva: o conhecer intelectivo e o querer (que decorre do conhecimento).

Observemos o que ocorre em nós: nosso eu é dotado de intelecto (mediante o qual somos chamados a conhecer a verdade) e de vontade (mediante a qual queremos e amamos a verdade, que é um bem).*

Obs: A filosofia ensina que o Ser, na mediada em que é considerado pela inteligência, é verdade e, na medida em que é desejado pela vontade, é um Bem.

Assim nossa vida é uma contínua procura da verdade (mediante a inteligência), que suscita em nós momentos de gozo e deleite (amor).

Transponhamos essa realidade para Deus, já que somos imagem e semelhança dele.

Em Deus não existem só processões transeuntes (criação do mundo e do homem), mas há processões imanentes. Sim; em Deus há um conhecer intelectivo e um quere (que é também amor). Todavia Deus não conhece a verdade pouco a pouco, mas num único ato de Deus conhece toda verdade; consequentemente, com um único ato Deus ama todo o Bem.

E qual é o objetivo do conhecimento e do amor de Deus?

- É o próprio Deus. Deus não depende de criatura alguma para conhecer e amar; toda criatura começa no tempo, só Deus é eterno. Isto quer dizer: desde toda eternidade Deus se conhece cabal e exaustivamente e, conhecendo-se, projeta uma imagem de Si, igual ao próprio Deus que a projeta (não há retalhamento e nem diminuição nesta imagem); é um segundo eu em Deus, é Deus de Deus ou a segunda pessoa da SS.Trindade. A Sagrada Escritura dá a essa pessoa os nomes de Filho, Logos (conceito, palavra), Imagem (todo Filho é imagem e palavra de seu pai) – cf.Mc 1,11 (Filho); Jo 1,1(Logos); Cl 1,15 (Imagem). Tal é a primeira processão existente em Deus; a de ser entendida a semelhança do que se dá quando projetamos nossos conceitos e os contemplamos mentalmente; também tem analogia com a geração ou com o relacionamento existente entre Pai e Filho.*

*Obs: É de notar, aliás, que o mesmo verbo conceber se aplica tanto à concepção de noções ou idéias quanto à concepção de um filho. O pensador concebe um projeto mental; a mãe concebe um filho.

Mas a vida de Deus – como a de qualquer um de nós – não é só conhecimento. Este suscita o amor. Por isso o conhecimento que Deus tem de si, suscita o amor de Deus a esse bem, que é Ele mesmo. O amor em Deus não é um ato parcelado ( em Deus nada pode ser parcelado), mas é o próprio Deus que ama, ou ainda: é o amor que o Pai tem ao Filho e que o Filho tem ao Pai. Esse amor é chamado Espírito Santo. Tal é a segunda processão existente em Deus: é a terceira pessoa ou do terceiro eu, que procede do Pai e do Filho; na falta de outro nome, essa processão é chamada “espiração”, pois tem por termo o Espírito.

Vemos assim que em Deus deve haver duas processões em três pessoas. Não pode haver nem mais nem menos. É importante salientar que essas processões não implicam temporalidade (antes e depois), nem hierarquia, nem dependência. No único e permanente instante da eternidade, Deus se conhece gerando o seu Filho igual ao Pai, e Deus se ama, produzindo o Amor Subsistente.

Há, pois, uma só natureza em Deus, duas processões e três pessoas. As processões, sendo imanentes, não dividem nem retalham a única natureza divina; não constituem 3 deuses, mas um só Deus ou uma só natureza divina, que se afirma 2 vezes.

A analogia assim exposta é a que mais se aproxima da vida de Deus. Os antigos escritores da Igreja propunha outras, que a seu modo ilustram a SS.Trindade.

Imaginemos um lençol de água debaixo da terra; é algo de grande, mas invisível e insondável aos olhos da criatura. Esse lençol se manifesta mediante um “olho de água”, que revela aos poucos a quantidade e qualidade de água oculta. Por sua vez, esse olho de água dá origem a um córrego, que irriga e “vivifica” toda a terra vizinha. – Ora o lençol de água invisível representa o Pai; o olho de água, o Filho ou o Logos, que diz que há no lençol; o córrego representa o Espírito Santo, que comunica a todos os homens a vida decorrente da água oculta.

Imaginemos outrossim um tronco de planta com suas raízes invisíveis. É portador de uma vida, que se manifesta na flor. Esta, por sua vez, exala um suave perfume, que impregna todo o ambiente. Ora o tronco com suas raízes significa o Pai; a flor que fala e revela, simboliza o Filho; o suave odor representa o Espírito Santo. – Estas duas últimas é o princípio sem princípio; é o Deus invisível também chamado “Abismo” e “Silêncio”. O Filho é a imagem ou palavra do Pai; pelo Filho é que o Pai se dá a conhecer aos homens; Ele é também o mediador e o Pontífice. O Espírito Santo é Deus que atinge cada homem na sua intimidade e lhe fala ao coração; é o Artífice da santificação de cada um.

Há outra maneira de figurar a SS.Trindade, muito usual na arte latina: É a do triângulo eqüilátero. Este apresenta uma só área, que é focalizada diversamente a partir de cada um dos seus ângulos: A,B e C; estes são iguais entre si, mas ocupam posições diversas e inconfundíveis dentro da unidade da figura.


• As missões divinas

Em sua vida íntima, Deus é uno e trino. Conhecemos tal mistério através de sua manifestação na história da salvação. Esta nos ensina que existe um Pai, o qual nos enviou o seu Filho (mistério da encarnação na plenitude dos tempos; cf. Gl4,4). O Pai e o Filho, por sua vez, nos enviaram o Espírito Santo como dom por excelência, como hóspede invisível de cada coração em estado de graça; cf. Jo 14,26. – Ao falar-nos desses “envios” ou dessas “missões”, a S.Escritura dá-nos a entender que são o eco temporal das eternas processões existentes em Deus.

O estudo das missões divinas dá ao tratado da SS.Trindade uma nota muito viva e concreta. O mistério de Deus aparece profundamente inserido dentro da trama da história dos homens.

O Pai não é enviado, porque não procede. É Ele quem envia o Filho como Salvador, nascido de Maria. “Quando chegou a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, para reunir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” (Gl 4,4s). Esta é a missão visível do Filho, que não implica subordinação da segunda em relação à primeira, e que torna Deus, de modo novo e mais íntimo, presente às criaturas.

O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é-nos enviado por ambos: ... de modo visível, sob formas de línguas de fogo, no dia de Pentecostes (cf. At 2); ... de modo invisível à guisa de hóspede interior, no dia do Batismo de cada cristão: “Porque sois filhos, enviou Deus em nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai! De modo que já não és escravo, mas filho. E, se és filho, és também herdeiro, graças a Deus” Gl 4,6s).

O Espírito Santo é o dom que o Pai e o Filho nos entregam como conseqüência da vitória de Cristo; Ele é o “outro Paráclito (Consolador)”, na ausência de Cristo (cf. Jo 14,16).

Vê-se assim que a santificação dos homens se faz por comunhão com a vida das 3 pessoas divinas; por obra do Espírito Santo, o cristão é feito filho no Filho e, com o Filho, volta ao Pai. A piedade cristã deve saber orientar-se diante desta verdade; especialmente a sua oração há de se mover dentro do esquema: Ao Pai por Cristo no Espírito Santo.

As doxologias (fórmulas de glorificação) antigamente rezavam “Glória ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo”. No século IV, porém, surgiu a heresia ariana, que subordinava o Filho ao Pai, prevalecendo-se, entre outras coisas, de tal fórmula. Em conseqüência, os autores católicos enfatizaram outra redação: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”, frase em que são postas exatamente no mesmo plano as 3 pessoas divinas. Esta outra maneira de rezar tem seu fundamento teológico e acabou prevalecendo sobre a anterior. Todavia não nos deveria levar a esquecer o papel que toca a cada Pessoa trinitária na santificação do cristão.


• As apropriações

Chamamos “propriedades” certos predicados que convêm, de maneira exclusiva, a uma Pessoa divina: assim a inascibilidade e a paternidade, ao Pai; a filiação, o ser Palavra, o ser imagem, ao Filho; a espiração passiva, o ser Amor e o ser Dom, ao Espírito Santo.

Na Liturgia e na Sagrada Escritura, ocorre também apropriações. Apropriação é o ato de atribuir a determinada Pessoa Divina um predicado comum as três; essa apropriação se faz na base da semelhança que tal predicado comum tem com alguma propriedade.

Na verdade, as três pessoas são igualmente poderosas e criaram o mundo; todavia parece que o ato de criar tem especial afinidade com o Pai, porque este é o Princípio sem princípio ou o Alfa em Deus. – Ao Filho é apropriada a Sabedoria (1Cor 1,24), não porque só Ele seja sábio, mas porque Ele é a palavra do Pai. – Ao Espírito Santo é apropriada a santificação implica consumação no amor. São numerosas as apropriações que a piedade cristã tem efetuado em seus hinos e textos litúrgicos.