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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Panorama do dogma Católico - Pe. Monsabré

Meus senhores; da ideia primordial e fundamental de ser fluem duas ideias que em todos os tempos preocuparam vivamente o espírito humano, e que foram o objeto das suas mais levantadas e constantes aspirações; a ideia do infinito e a ideia do finito. Não há doutrina filosófica nem religiosa, cujos artigos não possam agrupar-se em roda desta simples proposição: Dados estes dois termos, finito e infinito, explicar as suas relações. Com efeito, a vida humana, a vida do mundo inteiro, depende da solução deste problema. Os mesmos que se gloriam de não lhe ligar importância, veem-se colocados diante dele, impelidos pela força invencível das ideias que são como que o fundo do nosso espírito, e pelas aspirações que nos estimulam a conhecer o que somos e a determinar o nosso lugar, as nossas funções e os nossos destinos na universalidade dos seres.

Às questões: o que é o infinito? O que é o finito? Quais as suas relações? Nós respondemos com sistemas, a Igreja católica responde com o seu símbolo, e, independentemente dos sinais externos que as impõe ao obséquio da nossa fé, as soluções que a fé nos subministra são tão evidentemente divinas, que eclipsam todas as soluções inventadas pela nossa inteligência.

Mas não nos antecipemos, nem deduzamos conclusão alguma antes que o aspecto geral do dogma católico haja produzido o seu efeito em nossas almas. Humilde guarda deste esplêndido edifício, quero que, antes de tudo, admireis o seu conjunto; depois comunicaremos reciprocamente as nossas reflexões.

O infinito é Deus, ser primário, necessário, real, pessoal, subsistente em si mesmo e por si mesmo, tendo na sua mesma essência a razão suficiente do seu ser, bem como a razão suficiente do ser de todas as coisas. Só ele é Deus; não há nem pode haver outro. O seu ser, a sua essência, a sua substância, a sua natureza, a sua existência, a sua vida, os seus atributos, as suas operações são um mesmo ato: ato tão simples, tão puro, que nem o podemos conceber, nem exprimir. Se chamamos a Deus o Ser Vivo, o Forte, o Todo-Poderoso, o Senhor, o Eterno, o Altíssimo, estes nomes são realmente verdadeiros, santos terríveis, admiráveis; mas nem cada um deles de per si, nem todos simultaneamente exprimem a plenitude da verdade, e da santidade, e da majestade, e da beleza que constitui o ser divino. Com uma palavra, cujos abismos profundos em vão tentamos sondar. Deus se definiu a si mesmo: Eu sou o que sou. Ego sum qui sum ; o ser na sua mais transcendente e incompreensível expressão. Se o comparais à multiplicidade dos seres, está presente em todos os lugares sem se dividir. Se o comparais ao tempo, é eterno sem que os instantes o meçam nem se sucedam em seu seio.

Não tem faculdades que o distingam da sua substância, e é por isso que opera com uma perfeição infinita, e nada adquire nas suas operações. Sabe tudo que é, e tudo que não é; tudo que pode ser, e tudo que será. A verdade não aparece n’Ele como em límpido espelho que reflete; mas Ele é a verdade mesma . A sua ciência não é causada pelo que existe, senão tudo que existe é causado pela sua ciência ; ciência eterna, imutável, simultânea, direta, imediata, que não pode nunca se enganar. A sua vontade é soberana, mas duma soberania absoluta. Nada há que possa dobrá-la ou torná-la mutável; ainda mesmo que, cedendo às nossas orações, modifique as suas obras, os seus decretos permanecem imutáveis ; previra tudo. É livre no meio da instante necessidade. Não tem outra medida além do seu poder, e o seu poder é sem medida.

É sábio, e como vê todas as coisas num só princípio, ordena todas as coisas a um único fim: Ele mesmo; todos os meios se combinam harmonicamente sob a sua direção; nem a ignorância nem a má vontade alteram os seus desígnios.

É Santo, não duma santidade adquirida com esforço e trabalhada, que não se pode conservar nem aumentar senão à custa dos mais rudes sacrifícios, mas duma santidade tranquila, inalterável, plena, essencialmente isenta de todo o mal, e constantemente manifestada pelo amor invariável e eficaz de toda a retidão e de todo o bem.

É justo, e, na imensa variedade de direitos que parecem se contradizer, dá a cada um o que lhe pertence. Não há merecimento que não premie, nem falta que não castigue. Os nossos cálculos mesquinhos não podem se enganar pelas dilações da sua paciência; mas em nada se altera a perfeita integridade da sua justiça que será plenamente realizada nas derradeiras conclusões do seu governo.

É Bom, não só porque é o bem supremo, mas porque sendo o bem supremo, deseja comunicar-se, e liberalizar do seu ser e das suas perfeições benefícios constantemente renovados, e compadecer-se de todas as misérias tanto quanto o permite a sua inalterável natureza.

É, alfim, perfeito, e, por mais perfeito que o concebamos, nunca poderemos assinar limites à sua perfeição. É o Infinito!

Este infinito, senhores, vive, não essa vida comum a todos os seres vivos e que parte de dentro para fora; mas uma vida sem igual cujo movimento parte de dentro e termina dentro; uma vida em que as origens dependem dos princípio, sem que possa afirmar-se que aquelas são posteriores a estes; uma vida que multiplica o número sem quebrar a unidade, as pessoas sem multiplicar a natureza, a família sem dividir nem aumentar a substância. Não mais que um infinito; e todavia são três, Padre, Filho e Espírito Santo, três que subsistem numa mesma essência, e existem com uma mesma existência: as três pessoas são Deus e portanto um só Deus. Eis o dogma dos dogmas, o mistério dos mistérios. Explicá-lo é impossível: ouso apenas narrar o que admiro.

O Pai inacessível é o princípio do movimento vital, a origem da família divina. Vê-se a si mesmo, manifesta a si mesmo a sua perfeição, e o ato pelo qual se vê e se conhece é tão perfeito, que subsiste por isso mesmo que é produzido. O Filho é gerado. Chama-se Verbo, imagem do Pai, esplendor da sua glória, figura da sua substância, porque representa com toda a perfeição possível o princípio donde procede. São dois, contemplam-se, admiram-se, amam-se, e estes dois amores comunicando-se um ao outro encontram-se, e pelo fato de se encontrarem, subsistem num só amor; é o Espírito Santo. Chama-se dom, caridade, bondade, benignidade, suavidade, unção divina.

São três: Padre, Filho, Espírito Santo: distintos pelas relações, pela subsistência, pelas propriedades pessoais; idênticos pela essência, pela substância, pela natureza. Distintos, e toda via um existe no outro; dependentes pela origem, porque o Filho é gerado pelo Padre, o Espírito Santo procede do Padre e do Filho; dependentes pela missão, porque o Padre envia o Filho, o Padre e o Filho enviam o Espírito Santo. Mas, não obstante tudo isto, as três divinas pessoas são perfeitamente iguais. Oh! Vida! Oh! Processões admiráveis! Não se pode dizer que começam, porque são necessárias e eternas; não se pode dizer que saem fora de Deus, porque são imanentes; não se pode dizer que mudam a natureza divina, porque são tranquilas e imaculadas; não se pode dizer que diminuem ou dividem as perfeições, porque são indivisíveis. No seu movimento espontâneo há tanta ordem, tanta beleza, tanta glória e tão acabado cúmulo de todos os bens, que tornam Deus, ser supremo, o supremo bem-aventurado. Oh! Infinito! Eu te admiro cheio de assombro, eu te adoro com o mais profundo respeito!

Eis o infinito, senhores; mas donde está o finito? Procuremo-lo desde já na sua origem eterna. O finito está no infinito, e pode dizer-se que a primeira relação que tem com ele, é o ser conhecido, visto, ordenado por ele, antes de subsistir fora dele. Não podemos dar ao finito o seu nome próprio em quanto permanecer em estado de ideia; porque esta ideia é, substancialmente, a mesma essência divina, e formalmente o que Deus quer manifestar da sua essência na sua obra, por participação e imitação. Unido a esta ideia há um decreto eterno, livre, eficaz, donde depende a existência de todas as coisas. O que é que insta pela execução deste decreto? É a beleza dos mundos que Deus concebe? Arrebatado pelas sublimes harmonias das coisas que vê em si mesmo, julga porventura adicionar algo à sua felicidade fazendo-as passar da ideia à realidade? Não, senhores. Deus seria sempre o supremo bem, ainda que tivesse conservado eternamente no seu seio todos os seres. Mas Deus é bom e deseja comunicar-se porque é o soberano bem; o seu amor impele-o a associar outros seres à sua felicidade: Vai criar.

Vai criar! E dando a outros a existência nada perderá da sua própria. Vai criar! E comunicando o seu ser e a sua perfeição, nem aquele nem esta perderão algo. Vai criar! E por mais que prodigalize os frutos da sua bondade e da sua onipotência, não se confundirá com eles, nada adquirirá deles, será sempre tudo sem eles, e eles nada serão sem Ele.

Criou! Povoa-se o céu, o espaço imenso abre o seu seio, o tempo começa. O Verbo, palavra de Deus, produz o mundo. E a cada palavra que pronuncia sucedem-se os seres, como ondas harmoniosas, cujo movimento, e vida, e beleza, e glória se engrandecem até tocar os limites do mundo angélico. O número, o peso, a medida, distribuem, regulam, determinam todas as perfeições sobre a escala progressiva que une em formoso conjunto estes dois polos da criação: a matéria e o espírito. Que distância entre o grosseiro elemento sujeito a leis inflexíveis e as inteligências puras, cujos coros harmoniosos recebem uns dos outros os raios do eterno Sol!

Mas nesta distância não há abismo algum que não esteja povoado.

As substâncias incorpóreas de que Deus rodeou o seu trono, superiores ao mundo visível pela perfeição da sua natureza e das suas operações, decrescem e diminuem em perfeição desde o mais abrasado serafim até ao mundo dos anjos, aproximando-se das criaturas sobre as quais devem exercer a sua alta e salutar missão. Por outra parte, o átomo saído dos confins do nada, sobe sem cessar transformado sucessivamente pelo movimento e pela vida, até unir-se imediatamente com o espírito, e até ligar e completar num só ser a perfeição do finito.

Este ser, depois de cuja aparição Deus exclama: Todas as coisas são boas, perfeitamente boas, cuncta sunt valde bona, é o homem, laço maravilhoso, concorrência sublime de todas as vidas. Os seus pés estão fixos na terra, mas a sua fronte levantada olha para o céu. É matéria como o mundo que tem sob os seus pés; mas é também espírito como os anjos que descem até ele. Gravita, vegeta e sente; mas também pensa e quer; é livre, conhece a verdade e ama o bem. É medido pelo tempo e pelo espaço, mas participa do eterno, do necessário, do universal, do inteligível. Recebe as impressões do mundo inferior, mas transforma-as, e faz pensar e orar nele todos os seres de que é rei e pontífice. Contempla as coisas que passam, e sente-se arrastado por suas correntes; mas também alimenta em seu coração o desejo e a esperança certa da imortalidade.

Sua imortalidade é a vida no infinito, porque, entendei-o bem, senhores, Deus não abandona o homem aos caprichos do azar e à mercê dum cego destino; convida-o para o seu seio, e para o levar a si, respeitando o seu livre alvedrio, cobre-o com a sua providência, senhora de todos os seus movimentos, que excita com soberana autoridade, e dirige com arte infinita, e o faz caminhar para o fim supremo, onde se consuma juntamente a glória do Criador e a felicidade das criaturas. Deus eleva este fim supremo, por um dom gratuito da sua bondade, acima de todas as legítimas exigências da natureza. Quer ser conhecido, amado, possuído, não nas representações sempre incompletas da sua infinita beleza, mas face a face, tal como é, em todo o esplendor da sua glória e em toda a perfeição da sua essência. Oceano sem praias, quer que a alma humana se engolfe em suas ondas luminosas, para a inebriar com as suas castas e eternas delícias.

Mas para que esta união se possa realizar, é necessário que a natureza sofra aqui uma transformação que a prepare para a sua transformação suprema. A inteligência, o amor, a liberdade, a imortalidade, imagem e semelhança de Deus, não bastam para que o homem, atravessando todas as esferas do infinito, seja um dia consumado no infinito e como que participante da sua vida bem-aventurada. Vem, pois, princípio de toda a vida, de toda a felicidade, vem e faze que a criatura se assemelhe a ti tanto mais, quanto és tu o mesmo que a animas com a graça. A graça, semente misteriosa que transforma o homem num novo ser; a graça, inefável geração que permite ao homem dizer a Deus: “Meu Pai”, porque se torna participante da natureza divina; a graça, dom sobrenatural que penetra a alma e torna imediata e formalmente justa, santa, agradável a Deus, capaz de merecer por suas obras a visão e a posse da eterna beleza; a graça, princípio e raiz de hábitos e de operações divinas; a graça, força, luz, rio sagrado que vai diretamente ao oceano da perfeição; a graça, habitação de Deus na alma; a graça, começo da glória e da eterna beatitude.

Oh, senhores, que fecunda doutrina! Não vos parece que resolve desde já com esplendor incomparável, estas questões que nos torturam: Que é o infinito? Que é o finito? Quais as suas relações? O infinito é o Deus perfeito, autor, motor e consumador de todas as coisas, o finito é a criatura de Deus, essencialmente dependente, não só na sua origem e nos seus movimentos, mas também nos seus destinos. A suma das soluções parece completa, e entretanto, senhores, vós os sabeis, o dogma católico contém outras afirmações que, sob as misteriosas dobras das que acabais de ouvir, mais se aproximam da nossa miséria.

A nossa miséria é o pecado. Começou nos céus pela revolta dos espíritos orgulhosos que pretendiam igualar-se ao Altíssimo, entrou, pelas sugestões destes malditos, na humanidade cuja glória e felicidade invejavam. O pai dos homens perdeu livremente a graça da salvação espiritual e corpórea, bem como os privilégios que devia transmitir aos seus descendentes; e desde então nascemos deserdados e feridos de morte. A nossa fronte despojada do seu diadema inclina-se tristemente sobre a natureza ingrata e rebelde ao nosso domínio; o mundo exterior esforça-se por nos atrair a si; a nossa carne revolta-se contra as altas e puras aspirações do nosso espírito; a nossa liberdade esmorecida rende-se e capitula nesta luta; o dever traído acusa-nos; de justos, felizes, impassíveis e imortais que éramos, tornamo-nos pecadores, miseráveis, condenados ao sofrimento e à morte.

E Deus podia deixar-nos neste estado para satisfazer a sua justiça, podia exercer a sua bondade sobre seres novos e fazê-los entrar gloriosamente no seu plano primitivo contra o qual nos revoltamos. Mas não; a vitória do pecado seria aniquilada pela perfeição divina. Surge um novo plano; não disse bem, senhores, devia dizer: revela-se um desígnio oculto e completa as manifestações da bondade de Deus sobre as criaturas, porque o pecado estava previsto e a economia da redenção decretada nos eternos conselhos. O Verbo Divino, querendo unir-se ao finito para nos fazer compreender a harmonia das perfeições divinas – a sabedoria, a onipotência, a justiça e a misericórdia -, tinha empenhado, desde toda a eternidade, a sua palavra ao Pai celestial.

No mesmo tempo em que o gênero humano se tornava prevaricador, Deus lhe revelava o complemento da sua obra fazendo-lhe aparecer, no futuro das idades, a figura radiante do Verbo encarnado. Os séculos, os espaços, os homens, o mundo, tudo se ordena a Ele. A graça do renascimento e da salvação, que deve substituir a graça original perdida para sempre, depende dos seus merecimentos. À questão: quais as relações entre o infinito e o finito? Foi necessário responder desde então: O finito é purificado, regenerado, santificado, divinizado pelo infinito, vivendo com ele numa só pessoa, Jesus Cristo, Filho único de Deus, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Quarenta séculos de preparações precedem o seu nascimento. As tradições, os oráculos, as maravilhas, os desejos, as virtudes, os crimes, as revoluções, as catástrofes convergem para o seu berço, e quando veio a plenitude dos tempos, o Espírito Santo fecunda, pelas suas castas operações, o seio duma Virgem, e o coro dos anjos canta no céu: Ó terra, eu te anuncio uma grande alegria, hoje nasceu o Salvador do mundo. O Verbo encarnou. “Comércio admirável! Exclama a Igreja, o Criador do gênero humano assume um corpo como o nosso, e nascendo milagrosamente duma Virgem comunica-nos a sua divindade” .

Com efeito, senhores, a Encarnação do Verbo revela-nos o duplo mistério do infinito abatido até à nossa miséria, e o mundo divinizado pela mais íntima união que pode se conceber. Não se trata desse concurso universal que o Senhor da vida presta às criaturas, nem da união moral que se estabelece entre Deus e o justo, cheio de graça; não se trata da confusão de duas substâncias que se penetram para formar uma nova substância, nem da ação circunscrita, transitória, intermitente dum espírito superior sobre um espírito inferior, como na inspiração profética; mas sim da mais perfeita das uniões que Deus pode realizar com uma criatura; trata-se da união profunda, contínua, permanente, sublime, incompreensível da natureza divina com a natureza humana; união que, segundo a expressão do Apóstolo, resume todos os mundos, torna divinas, infinitas, no sentido mais estrito e completo, todas as ações duma natureza finita; união que permite a um filho do homem dizer a um Deus o que lhe diz o Pai que o gerou desde toda a eternidade: Meu filho. União, alfim, em virtude da qual o gênero humano tem direito de dizer ao Filho de Deus: Somos teus irmãos.

Nasceu este amável e pequenino irmão, e, ainda que no seu pobre presepe nos oferece a imagem da maior debilidade e da mais profunda indigência, é rico e possui todas as perfeições. A sua alma, banhada na luz que é a nossa bem-aventurança, vê todos os segredos divinos, a sua ciência não tem aurora, e entretanto parece crescer em sabedoria ao passo que cresce em idade. É a inteligência suprema, e entretanto não quer ensinar ao mundo senão o que o seu Pai lhe ensinou. Vive no meio dos seus, e os seus não o reconhecem, entretanto passa fazendo o bem; a sua onipotência é a humilde serva do seu amor. Está engolfado nas delícias da união divina, entretanto digna-se assumir as nossas misérias, mesmo até a semelhança de pecado. Foi por causa desta semelhança que o Deus que o ama como a si mesmo o fere sem piedade. Sofre, chora, geme, queixa-se, enchem-no de ignomínias, sua sangue por todos os poros do seu corpo sacrossanto, é cravado numa cruz infame; morre amaldiçoado e desonrado: Consummatum est: Tudo está consumado. As perfeições divinas brilham no coração martirizado do Filho de Deus, como um fogo amortecido, desde largo tempo, pelos nossos crimes; a sabedoria e a onipotência, reveladas por obras indizíveis, conciliam a justiça e o amor compassivo; o gênero humano está salvo, e Jesus Cristo, seu Salvador, é para sempre o seu Senhor, o seu rei, a sua vida.

Assim como Deus não abandona o mundo que criou, assim também o Homem-Deus não deixa entregue aos seus caprichos o mundo que regenerou. Governa-o, é o seu reino, reino cujos elementos preparou durante a sua vida mortal, e ao qual pôs o selo do Espírito Santo; vivifica-o, é o seu corpo. Ainda que sentado no céu à direita de seu Pai, Jesus Cristo está presente na sua Igreja. A soberania e a autoridade infalível do Chefe está representada nesta Igreja santa, católica e apostólica; e a torrente purpúrea do seu sangue corre de forma superabundante na mesma Igreja. Jesus Cristo informa os nossos passos no caminho da verdade e da lei, enquanto que invisivelmente nos comunica, como a cabeça aos membros do corpo, as correntes da vida. Anima-nos, comunica-nos a plenitude da graça, apodera-se do princípio das nossas ações, das nossas próprias ações, transforma-as, apropria-se delas e imprime-lhes o selo da divindade. Somos n’Ele um mesmo corpo, cujos membros estão, dum modo sublime, numa perpétua comunhão de orações, de boas obras e de merecimentos; do céu à terra, da terra aos abismos onde os justos esperam a hora do seu resgate.

Por meio de sinais sensíveis, sagrados e eficazes, Jesus Cristo, cabeça da humanidade cristã, chama a si os seus membros, e dá-se-lhes a conhecer. Uma matéria humilde se une às palavras, e eis o sacramento; a vida divina precipita-se na alma desde que o sinal se põe em contato com o corpo. Um sacramento faz-nos nascer para a graça, outro nos comunica os encantos e o vigor da adolescência espiritual. Um sacramento nos alimenta, outro nos purifica das nossas faltas, um outro apaga as culpas até às últimas relíquias, e nos prepara a entrada tranquila na eternidade. Um sacramento dá à sociedade espiritual o seu chefe, o seu rei: o sacerdote; um outro santifica as fontes da vida, e enche a sociedade temporal de famílias segundo o coração de Deus.

São sete como as cores da luz, sete como as notas da música; mas o sacramento central onde real e substancialmente reside o eterno Sol, o Verbo por meio do qual Deus canta as suas perfeições infinitas, ordena a si todos os outros, já como preparação, já como simbolismo. A Eucaristia é como que a nota dominante que modula a escala misteriosa dos signos divinos.

Assim é que chegamos ao termo da nossa peregrinação sobre a terra; ainda ali se nos apresenta o Homem-Deus, Jesus Cristo. É Ele o vencedor da morte; o Sol da vida que projetará a sua luz até ao fundo de todos os sepulcros humanos, reunirá o pó disperso dos nossos corpos e lhe comunicará a virtude da própria ressurreição. É ele que nos ensinará a cantar esta formidável sátira das supremas derrotas da morte: O mors, ubi est victoria tua? O mors, ubi est stimulus tuus? Ó morte, onde está tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ele presidirá ao nosso juízo e pronunciará a nossa sentença, levará aos céus os benditos de seu Pai, e condenará os malditos aos suplícios eternos. Ele reunirá num lugar todas as gentes espalhadas pela superfície da terra, para uma palingenesia gloriosa, revestirá suas almas duma luz indefectível e torná-las-á dignas moradas, e para sempre, dos nossos corpos ressuscitados e imortais. Ele entoará este grito triunfal, eternamente repetido pelos inumeráveis exércitos dos escolhidos. Louvado seja Deus: Alleluia.

Eis aqui, senhores, todo o dogma católico. Recolhei-vos por instantes, eu vo-lo suplico, antes de ouvirdes as conclusões que vou deduzir da consideração deste maravilhoso conjunto. Prometo-vos que será breve.

sábado, 22 de outubro de 2016

Paradoxos do Cristianismo: Jesus Cristo, Deus e Homem - ROBERT HUGH BENSON

O presente texto é o primeiro capítulo do livro "Paradoxos do Cristianismo" de Robert Hugh Benson, onde há uma ótima reflexão sobre o assunto.

***

Um sábio materialista anunciou um dia ao mundo estupefato que os mistérios da Igreja são brinquedos de criança, comparados com os mistérios da natureza. Naturalmente que ele, afirmando isto, errara redondamente e o seu erro não tem justificação alguma. No estudo da natureza criada, de que era profundo conhecedor, encontrara numerosas anomalias e paradoxos sobrepostos uns aos outros, e vira que o seu escasso conhecimento de teologia, limitado pelos primeiros e mais rudimentares princípios, não lhe permitia encarar as coisas por outro prisma.

Nós, na altura de compreendermos como os mistérios da natureza estão inteiramente contidos no círculo da vida criada, enquanto os mistérios da graça se ligam ao supremo mistério da incriada e eterna Vida de Deus, nós, digo, podemos ao certo assegurar que, se a Natureza é paradoxal, a Graça o é num grau incalculavelmente maior. Em cada paradoxo que encontramos no mundo material, acharemos o centro da atmosfera espiritual, dentro da qual respiramos e onde se movem as nossas almas, que, por um processo por si mesmo paradoxal, são obrigadas sob a limitação que lhes impõe a matéria.

Ao defrontarmos estes mistérios, não temos outro campo visual além do minúsculo espelho do sobrenatural ou aquele débil fio de esperança que chamamos "vida espiritual". Como se explica, por exemplo, que, enquanto a religião é num sentido a luz que clareia a nossa escura existência, noutro é o único ponto escuro num mundo de prazeres? E ainda, num sentido, é a única que torna a vida digna de ser vivida, e em outro, o único obstáculo para o nosso prazer? Que significam estes mistérios Gozosos e Dolorosos contradizendo-se uns aos outros e que têm por resultado (como no rosário) outros mistérios que são Gloriosos? Voltemo-nos a considerar a paixão fundamental destes mistérios, paixão que é chamada amor, e vejamos se aí existe algo de inexplicável. Que paixão é esta que transforma a alegria em dor e a dor em alegria? Esse impulso que leva o homem a fazer sacrifício de sua vida para salvá-la, que para si transforma as alegrias em complacências, lhe torna leve o jugo da Cruz, que o leva a encontrar o centro além do próprio eu, a procurar o seu prazer na privação de todo o bem-estar? Que poder é esse que pode muitas vezes encher-nos de alegria antes de nos metermos à obra e que recompensa a nossa fadiga com as trevas da desolação?

I - Se, pois, a nossa vida interior está cheia de paradoxos e de aparentes contradições, - e não há alma que tenha feito qualquer progresso que o não tivesse verificado - naturalmente deveríamos atender a que a Vida Divina de Jesus Cristo sobre a terra, que outra coisa não foi senão a Luz Central e Objetiva do Mundo, refletida em nós mesmos, deve ser cheia das mais estupefacientes anomalias. Examinemos os testemunhos escritos referentes a esta vida e vejamos se as cousas não são precisamente assim. Para melhor nos convencermos, suponhamos que este exame venha de um observador alheio completamente à tradição cristã.

a) Começa ele a ler atentamente e termina convencido de que esta Vida é uma vida como todas as outras; que este Homem não difere de outro homem, e, prosseguindo na leitura, encontra centenas de argumentos que servem para corroborar a sua teoria. De fato, vem ele a achar-se em presença de um indivíduo nascido de uma mulher, sujeito à vida comum, às inclemências da fome e da sede, e que, com o correr do tempo, aumenta em sabedoria; de um indivíduo que trabalha numa oficina de carpinteiro, sofre e se alegra como todos os outros homens, e que, como todos, tem amigos e inimigos; de um indivíduo que se vê abandonado por uns e insultado por outros, que, numa palavra, passa por todas as privações impostas pela humanidade; que morre como todos os outros homens e é, finalmente, depositado numa sepultura.

O observador encontra uma suficiente e adequada explicação dos fatos maravilhosos de que se compõe a Vida deste Homem na sua poderosa e magnífica humanidade. E é induzido a concluir que a fascinação emanada da simples, mas perfeita personalidade do herói, tenha sido condição tão grande para abrir os olhos aos cegos para que possam contemplar a beleza de sua face, e os ouvidos aos surdos para que possam ouvir a sua palavra.

Penetrando na leitura, não tardará, porém, a topar com problemas que o fazem duvidoso. Se este Homem, porquanto perfeito e sublime, é igual aos demais homens, como é que dizem que sua santidade se manifesta pelos muitos atos diversos dos outros Santos? Os homens aspirantes à perfeição, quanto mais se aproximam dela, melhor se dão conta das próprias imperfeições: os outros Santos mais se aproximavam de Deus e mais lamentavam a distância que dele os separava. Os outros mestres de vida espiritual, cônscios de suas deficiências, convidavam os discípulos a desviarem deles os seus olhares para o fixarem na Lei Eterna, objeto de suas mesmas aspirações.

Este Homem, ao contrário, parece vasar todos os sistemas. Tomando posições em face do mundo, Ele ordena aos homens que O imitem, e não como fazem os outros diretores espirituais; evitar os seus pecados cometidos; longe de indicar uma meta posta antes ou depois de si, aponta para si mesmo como Caminho que conduz ao Pai; longe de adorar uma Verdade, para a qual Ele tende com esforço, não hesita em afirmar que esta existe em si mesmo; longe de descrever a Vida a que espera chegar um dia, ordena aos seus ouvintes que olhem para Ele como para a própria Vida; longe de maldizer com os seus amigos as faltas que o agravam, desafia os inimigos a acharem nele a menor mancha de pecado. Há nele uma extraordinária sabedoria vinda de sua própria essência, que nada tem que ver com o conceito comum de individualidade.

Suponhamos agora, ao contrário, que o nosso observador se preste a ler o Evangelho partindo de um outro conceito, isto é, o de se achar em erro, pretendendo encontrar algum quê de humano na vida de Cristo. " Jamais homem algum tem falado como este". " Quem é este Homem a quem até os ventos obedecem?" dirá ele fazendo coro com o Evangelho. E prosseguirá, interrogando: " Como pode Cristo ser um homem se não nasceu de um pai humano?"

Se ressuscitou depois de três dias de morto? Se dele narram maravilhas que não podem ser atribuídas a um homem semelhante aos demais homens?

E começa a argumentar. "Aqui nos achamos", diz para consigo mesmo, "frente a frente com a realidade da antiga fábula, com a vinda de Deus entre os homens, com a solução de todos os problemas. E ei-lo ainda uma vez desorientado. Como pode um Deus sentir-se cansado com a jornada de longos caminhos, trabalhar numa pobre carpintaria e morrer numa Cruz? Como pode o Verbo Eterno ficar silencioso e obediente durante trinta anos? O Ser Infinito nascer numa manjedoura? A Fonte da Vida sujeitar-se à morte e à morte de Cruz?

O averiguador destes fatos debate-se desesperadamente entre uma e outra teoria. Apela para as mesmas palavras de Deus, e a sua perplexidade aumenta a cada expressão. Se Cristo é Deus, como pode proclamar: " Eu e o Pai somos um ?" Se Cristo é Deus, como pode dizer : "O Pai é maior do que Eu"? Se Cristo é homem, como pode assegurar : "Antes que Abraão fosse, eu sou" ? Se Cristo é Deus, como pode chamar-se a si mesmo "o Filho do Homem"?

b) Tornemos a considerar o ensinamento espiritual de Jesus Cristo, e uma vez mais acharemos que os problemas e os paradoxos se sucedem e se sobrepõem uns aos outros. Este homem, que veio ao mundo para aliviar as dores dos homens, para dar descanso aos fatigados, este Homem, que oferece aos seus seguidores um jugo doce e suave, diz ao mesmo tempo que ninguém o pode seguir e ser seu discípulo, se não renunciar a si mesmo, tomar cada dia a sua Cruz e subir a montanha com Ele. O médico das almas e dos corpos, que passou operando o bem, dando o exemplo de uma grande atividade no servir a Deus, não hesita em declarar que Maria, na sua silenciosa passividade, escolhera a melhor parte e que esta não lhe poderá ser outorgada. A uma certa altura vemos Cristo dirigir-se aos seus discípulos com os olhos cintilantes de belicoso ardor e dizer-lhes: quem não possui espada venda os seus vestidos e compre uma; e outra vez: embainhai a vossa espada, porque o meu Reino não é deste mundo. Em uma ocasião vemos o Pacificador baixar a sua benção sobre aqueles que fazem a paz, e, em outra, declarar que não veio trazer a paz, mas a guerra: vemos, ainda, este homem, que chama bem-aventurados os que choram, ordenar aos Seus discípulos que se alegrem e exultem. Onde encontrar um conjunto mais complexo de paradoxos, de problemas e de perplexidades? Tanto na pessoa como na doutrina de Cristo, parece não se encontrar certeza nem solução. - Que vos parece do Cristo? De quem o julgais filho?

II - a) A doutrina católica, e somente esta, oferece a chave destes problemas - chave como todas as outras chaves, entretanto tão complicada como o mecanismo da fechadura que só pode abrir. Um depois do outro, forcejam os heréticos por arrebatá-la e, um depois do outro, esperam ansiosos o seu desmoronamento na confusão. Cristo é Deus - exclama o herege - por isso tirai do Evangelho tudo que fala de sua Humanidade. Deus não pode derramar o próprio sangue, sofrer e morrer; Deus não pode experimentar as dores do homem; Deus não pode afligir-se e fatigar-se. Cristo é homem - exclama a crítica moderna -  por isso arrancai do Evangelho o seu nascimento imaculado e a Sua Ressurreição gloriosa. Ninguém no mundo, fora de um católico, pode aceitar os Evangelhos tais quais foram escritos, porque é somente quem crê que Cristo é ao mesmo tempo Deus e homem, que se inclina diante dos paradoxos chamados Encarnação, que aceita o estupendo mistério de uma só pessoa e duas naturezas, finita e infinita, que crê que o Eterno veio ao mundo, que o Criador Encarnado se dignou unir-se à sua mesma criação - somente este homem pode dizer-se Católico, pode sem reserva aceitar o misterioso fenômeno da vida de Cristo.

b) Consideremos os mistérios da nossa vida e, mediante um confronto inadequado, nos poremos em condição de melhor compreender.

Porque até nós temos uma dúplice natureza. Como Deus e o Homem formam o Cristo, a alma e o corpo formam o homem - e, como as duas naturezas de Cristo, a sua perfeita Divindade unida à sua perfeita Humanidade, são base dos problemas que a Sua Vida representa, assim a nossa afinidade com o lodo, de que foi feito o nosso corpo, e com o Pai da Vida, que infundiu em nós uma alma imortal, explica as contradições da nossa própria experiência.

Se fossemos unicamente animais irracionais, poderíamos ser felizes como o são os animais do campo: se somente fossemos puros espíritos extasiados na contemplação de Deus, nossa seria a alegria dos anjos. Admitindo, porém, uma só destas verdades, necessariamente terminaríamos abismando-nos na confusão. Vivendo como animais do campo, não poderíamos encontrar a alegria de que eles gozam, porque a nossa parte imortal no-lo impediria. Descurando ou resistindo às legítimas aspirações do nosso corpo, o nosso espírito imortal vê-se arrastado pela baixeza do mesmo corpo ultrajado. Somente a admissão das duas naturezas em Cristo permite resolver os problemas contidos no Evangelho. Somente a aceitação das duas naturezas nos põe na possibilidade de viver segundo os juízos de Deus.

O nosso modo de ser, física e espiritualmente, se eleva ou se abaixa, enquanto uma ou outra parte recebe tendências favoráveis às suas inclinações: umas vezes a nossa religião é um peso para a nossa carne e vezes outras dá-se o contrário; é o exercício que delicia a nossa alma; - umas vezes é a causa única que dá valor à nossa vida, vezes outras é a causa única que impede de gozarmos as delícias que a mesma nos oferece. Alteram-se, em nós, estes estados irresistíveis de ânimo quando o equilíbrio entre as nossas duas naturezas é oscilante e instável. Concluindo, a nós não é reservada nem a felicidade dos animais irracionais, nem a dos anjos, mas a própria dos homens, sendo nós superiores a uns e inferiores a outros, e destinados a ser coroados por Aquele que, participando da mesma Humanidade, está à direita de Deus-Pai. E isto basta como introdução. Vemos que o supremo paradoxo da Encarnação, o qual por si só compendia todos os fenômenos do Evangelho, é a chave de todas as demais dificuldades. Prosseguindo, veremos que ele é também a chave dos outros paradoxos da religião e das dificuldades que apresenta a história do Catolicismo, a Igreja Católica, que é a continuação e difusão da Vida de Cristo sobre a terra. A Igreja Católica, este estranho conjunto de mistérios e de lugares comuns, esta união da terra com o céu, da argila com o fogo, só pode  por isso ser compreendida por aquele que a aceita como Divina e Humana, visto não ser ela outra coisa senão a representação mística, em termos humanos, d' Aquele que, sendo Deus infinito e Eterno Criador, se mostrar em semelhança de servo; d' Aquele que, sem deixar o seio do Pai, desceu do céu para a nossa salvação.

sábado, 24 de setembro de 2016

Série Cristológica: A Personalidade de Cristo.

Segue abaixo o esquema das postagens de uma série sobre Cristologia que traduzirei dos textos de Anscar Vonier.

Minha opinião sobre o que ele escreveu? Eu já li vários textos sobre Cristologia de vários autores renomados, mas pouca coisa é do mesmo nível que encontrei nestes textos. Se o que ele fez é só um resumo da Suma, quão profundo não deve ser o que o próprio São Tomás de Aquino escreveu?


"Meu livro é um resumo pouco convencional dos principais pontos da terceira parte da Suma Teológica. Apesar disso, tenho certeza que consegui expressar o espírito deste grande santo e pensador medieval e terei obtido um enorme sucesso se as seguintes páginas criarem o desejo no leitor de ir à própria Suma." (Anscar Vonier)

1 - A Metafísica da Encarnação.
2 - O Cristo dos Evangelhos, da Teologia Cristã e da Experiência Cristã.
3 - Cristo e a ciência da religião comparada.
4 - Cristo, o Maravilhoso.
5 - Uma tentativa de definir "Personalidade".
6 - A continuação da natureza humana em Cristo.
7 - "Antes que Abração existisse, Eu Sou"
8 - Quão Divina é a natureza humana de Cristo.
9 - O Verbo se fez carne.
10 - A hipótese escolastica.
11 - "Instrumentum conjunctum Divinitatis".
12 - O Objetivo da União Hipostática.
13 - As duas vontates e duas operações em Cristo.
14 - O conhecimento de Cristo.
15 - Em Cristo.
16 - Cristo em tudo e todos.
17 - Cristo, o Forte.
18 - Mal entendidos a respeito do Evangelh.
19 - O Caráter de Cristo.
20 - O lugar de Cristo no mundo.
21 - A Ligação entre a vida mortal de Cristo e a Eucaristia.
22 - A Majestade da Presença Eucarística.
23 - O Sangue de Cristo.
24 - O otimismo da Encarnação.
25 - Cristo, o Herói.
26 - Conclusão.

A Personalidade de Cristo - (1) A Metafísica da Encarnação, ou: por que estudar Cristologia é importante?

Desde o início da vida terrena de Nosso Senhor tem-se substituído o elemento pessoal por algo puramente legal. Sua personalidade é misteriosa, e todo sucesso de Sua religião encontra-se em confiar nEle, em segui-lo e em entendê-lo, tendo como principal preceito o princípio pessoal de amor pelos outros. Em outras palavras, em vez de disciplinas legais materiais, Ele estabeleceu as grandes observâncias do coração humano, do entendimento recíproco, da ajuda mútua e do amor ao próximo. “Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo.” (Gálatas VI, 2).

É o grande trunfo de sua graça manter os homens em unidade de fé religiosa sem impor-lhes qualquer obrigação de uniformidade prática em sua ascética externa. É Ele mesmo, em Sua própria Pessoa, que é a Força unificadora do Cristianismo. Seus primeiros discípulos seguiram-no, na simplicidade de seu novo amigo, levados por seu carisma inefável. Sem dúvida orgulhavam-se de ser seguidores de tão grande rabi, embora ainda não tivessem observância externas para criar uma escola. Assim, como poderiam ser seguidores de um mestre sem jejuar, enquanto os discípulos de João e dos fariseus jejuavam frequentemente? Em outras palavras, como alguém poderia ser discípulo de outra pessoa a não ser que ele carregue em si a insígnia da maestria deste mestre no caminho da abstinência, da purificação ou da oração?

Os homens conseguem unir seus semelhantes ligando-se através de certas austeridades exteriores; nenhum homem pode ser mestre de outro de fato sem colocar no pescoço do discípulo o julgo de ferro da observância corpórea; mesmo que fosse o objetivo do novo rabi ter uma escola cuja única observância fosse acreditar, ter confiança Nele e ter amizade e amor pelos outros. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (João XIII, 35). “Jesus respondeu-lhes: "Podem porventura jejuar os convidados das núpcias, enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não lhes é -possível jejuar. Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão.” (Marcos II, 19-20). O jejum é importante na formação de um Cristão, mas você não é um discípulo de Cristo simplesmente porque você jejua quatro vezes na semana, enquanto os discípulos de João jejuam três vezes e os Fariseus duas. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.

Na atração que leva a Cristo, bem como fidelidade a Ele, há todo o júbilo de um casamento; o apego e o companheirismo são inevitáveis, pois o banquete é formoso e jubiloso; o trabalho árduo virá após a festa, mas a lembrança deste banquete estará eternamente na memória.

A paz e a prosperidade da causa cristã residem nisso. Toda conversão e toda santidade devem estar associadas à Pessoa de Cristo e às pessoas a quem estamos ligados. A santidade pode realmente variar um pouco. Para alguns, a Pessoa de Cristo é um elemento predominante; para outros, seus pensamentos – vivos pensamentos – estão mais direcionados às pessoas que podem ver visivelmente; mas há certos indivíduos em que seus esforços espirituais são direcionados à realização escrupulosa de um sistema de observância em si mesmo, sem um propósito pessoal, e a religião Cristã está em perigo quando algum tipo de observância começa a desenvolver-se sem este elemento pessoal.

O espírito do cristianismo, apesar de sua pureza ascética, é diametralmente oposto a essa concepção material de vida ética, e os sucessos temporários que se podem obter são os arautos da catástrofe final. É privilégio exclusivo de Nosso Senhor ser Lei, ou melhor, ser uma substituição a toda lei. A princípio, ninguém gostaria disso, pois a alma humana ressente-se por estar obrigada a alguém. Entretanto, como Nosso Senhor é uma Pessoa Divina, não uma pessoa qualquer, pois é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não há justificativa para este ressentimento.

Os Fariseus ressentiam-se mais com a Pessoa de Nosso Senhor do que com Sua doutrina, pois leis abstratas ou observâncias externas nunca despertaram o ódio e a inveja, assim como nunca despertaram amor e simpatia na mesma medida em que uma pessoa pode fazê-lo.

Portanto, as grandes doutrinas teológicas acerca da Pessoa de Nosso Senhor têm uma intima ligação com Sua posição espiritual, pois Ele é uma Personalidade e sua graça não é nada mais que uma graça de amor e entendimento mútuo. Não há lucro tirado dos Evangelhos que não seja aperfeiçoamento do espírito e do coração. Alguém pode até inventar um sistema ascético achar quem submeta-se, mas nenhum homem pode fazer de sua própria personalidade a irrevogável voz da consciência e o alimento que sacia completamente o coração e a alma. Nosso Senhor é o Único que poderia fazê-lo.

Nenhum homem tem o poder de fazer das relações de outros homens que são seus seguidores a insígnia de seus verdadeiros discípulos; Nosso Senhor é o único que pode, e ninguém questiona Sua autoridade e direito para fazê-lo.  Portanto, os ensinos da teologia cristã sobre a Pessoa de Nosso Senhor devem ser de intenso interesse para cada seguidor de Cristo, e o fato dEle ser uma Pessoa Divina deveria encher-nos de imensa alegria.

A vida dos santos mostra em incontáveis almas um amor intenso e pessoal a Cristo.  Isso é fato histórico. Disso pode-se perguntar: tamanha amizade com alguém que não é deste mundo seria possível se Ele não fosse uma Personalidade Divina Viva? Em outras palavras, o amor pessoal a Cristo, tal como a história revela, é uma prova psicológica de sua realidade Divina?

Uma coisa é certa: isso não existe em nenhum outro lugar a não ser na Igreja. As personalidades das religiões não cristãs não fazem parte da consciência humana assim como Cristo o faz.

Seria um grande engano, portanto, considerar as verdades metafísicas da União Hipostática como verdades inférteis e sem aplicação prática; elas são, pelo contrário, indispensáveis para qualquer explicação racional da posição de Nosso Senhor em relação à raça humana. Há em Cristo certo tipo de multiplicidade de presença espiritual que faz dEle o amigo espiritual pessoal de milhões de almas; Ele tem um tipo de universalidade de presença e ação que não interfere de modo algum na intensa individualidade de Sua relação com cada alma. Tal é o Cristo da experiência e da história. Em sua humanidade Ele tem para todos os propósitos práticos a ilimitada característica de sua própria Divindade; Ele é, verdadeiramente, o Amigo Universal, e nenhum outro jamais conseguiu ser o amigo pessoal que todo ser humano pode ter.

Ora, um indivíduo de caráter tão universal só pode ter uma explicação: a União Hipostática, ou a Personalidade Divina, o mistério de uma natureza humana existindo através de uma Pessoa Divina. Em nossos dias mais do que em qualquer outro tempo, os pensadores temem o governo onde um só comande, por mais santo que possa ser. Para eles, não parece ser possível a um indivíduo ser tão grande a ponto de dar satisfação ao espírito de uma raça inteira.

Assim, encontramos com frequência em teólogos modernos a substituição do ideal pelo individual. Tais esforços são tudo, menos censuráveis; o fato é que nenhum indivíduo meramente humano poderia dar um completo ideal para a humanidade, ser um fator vivificante, uma ideia prática para toda a raça humana. Entretanto, estes teólogos modernos erram gravemente ao aplicar isso a Cristo. Não há, pois, a necessidade de substituir um Cristo ideal por um Cristo histórico, justamente porque o Cristo dos Evangelhos, o Cristo da Teologia Católica, possui de fato e uma Personalidade Infinita. Nele não há nenhuma limitação. Sem esta Personalidade infinita, dada as preocupações da raça humana, um Cristo ideal seria de fato preferível a um Cristo histórico pessoal.

Este é o motivo pelo qual digo que os grandes princípios metafísicos subjacentes à União Hipostática são de imensa importância prática. Com isto eu não quero dizer que aquelas almas santas façam destas grandes verdades um estudo utilitarista: elas simplesmente possuem a Cristo, e alegram-se nesta posse. Entretanto, a metafísica da Encarnação é indispensável ao filósofo que começa a lidar com a relação entre Cristo e a humanidade.

[Continua...]

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Os dois nascimentos do Filho de Deus

O Nascimento é o único evento da carreira de Cristo em que se pode dizer que ocorreu duas vezes, uma na eternidade, outra no tempo. Em nenhuma outra circunstância na história do Filho de Deus podemos usar esta clara distinção da época ou duração, como atribuímos à circunstância do nascimento; Ele nasceu duas vezes, com toda exatidão da expressão.

Suponha que um homem deve iniciar duas raças, com um intervalo de tempo entre dois eventos; certamente seria contra toda a lógica e toda a verdade dizer que seriam uma raça pois foram iniciadas pela mesma pessoa. Assim, seria contrário a todas as leis do pensamento dizer que Cristo tem somente um nascimento, pois a mesma Pessoa, Cristo, nasceu em ambas as ocasiões.

[Continua...]

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Igreja em face do tempo presente - A. D. Sertillanges


“Deus fez no meio de nós uma obra que, desprendida de qualquer outra causa e só dele dependendo, enche todos os tempos e todos os lugares”17. É nestes termos que Bousset julga poder apresentar aos seus contemporâneos a Igreja eterna. Ele sabe que a Igreja reivindica como fundamento os milagres evangélicos, e que esta manifestação exterior serve como que de selo ao ato do nascimento dela. Mas, depois que esses milagres a fundaram e a sustentaram no seu crescimento, no seu surto de conquista, e na sua resistência aos poderes, ela própria pretende, como manifestação exterior também do mesmo Deus, o mesmo brilho que por ela como por eles se faz reconhecer.
   
Nisso, ela não os suplanta, continua-os, visto como eles já estão nela. Com eles ela revela o divino no homem. Ela é uma síntese de milagres e um milagre a mais.

Propriamente, esse milagre novo consiste na existência entre nós de um organismo social humano-divino e que leva uma vida humano-divina, mostrando portanto Deus em sociedade com o homem e o homem em sociedade com Deus.

Esse organismo, nos seus primórdios, no momento em que todo recém-nascido exerce o mais poderosamente a sua força assimiladora, deslumbra o mundo pagão. A sua unidade, a sua constituição já forte, a evidência do seu fermento intenso, a vida do Espírito nela, brilhavam, e às almas chamadas e predestinadas persuadiam de que a sua pátria ali estava. Como dissemos, isso fez mais para a conversão do mundo do que os milagres particulares relatados nos Atos. Esses “sinais” apagavam-se, de alguma sorte, ante o sinal por excelência.

Hoje em dia, embora o trabalho do Espírito seja menos visível, em compensação são mais visíveis os seus resultados. E a Igreja pretende que esse sinal baste, normalmente, para convencer uma alma atenta e reta. Não nos podemos admirar disto. Se Deus age deveras em cooperação com o homem, e com o homem social, que evolve no visível, isso deve ver-se. Que Deus seja aqui como em toda parte o “Deus oculto” a título de causa invisível em si mesma e que quer ser discreta, isso não impede que fenômenos em que ele desempenha um papel essencial não possam deixar de revelar a sua presença, se já o coração o procura.

É preciso para isso o coração, porque sempre, nas coisas morais, é requerido este ponto de partida, e porque, aliás, sendo a fé uma graça, semente de vida eterna, não se vê que, para se revelar, possa o Bem soberano assim oferecido desprezar as disposições morais de quem se abeira dele. Assente, porém, isto, a convicção deve ser possível, ou melhor, normalmente falando, a negação impossível. “É impossível que os que amam a Deus d e todo o seu coração desconheçam a Igreja, tão evidente é ela”, escreveu Pascal.


A vida divina da Igreja faz-se reconhecer, a quem quer vê-la, pela sua perpetuidade e pelos seus caracteres. A Igreja é a eternidade no tempo, e a eternidade é simultaneamente uma perpetuidade, pois envolve o tempo, e uma superioridade de natureza em relação às nossas durações mutáveis. As durações igualam os seres. Nossas durações, as nossas, são durações fragmentárias e reduzidas às nossas medidas; a duração de Deus é imutável e infinita no seu ser, que é o do próprio Deus. Se, pois, Deus vive deveras com o homem na terra, graças à encarnação continuada e socializada, a vida assim constituída será dotada conjuntamente de uma perpetuidade indefectível e de uma superioridade relativa sempre, visto que o homem faz parte dela, mas suficiente para indicar que o homem, aqui, não está só; que o Autor de seu ser retomou a obra na sua base, para levá-la mais alto.


Perpetuidade, dizemos primeiro. Para quem sabe ver, há aí um fato surpreendente. Pela sua própria definição e pelas suas próprias declarações mil vezes repetidas, a Igreja é obrigada a ser perpétua. Estranha obrigação essa. O profeta que assim se enfeita com o futuro arrisca-se cada hora a ser desmentido. Por isso o adversário, sentindo o lado fraco que contra a instituição e a doutrina uma tal pretensão lhe oferece, apressa-se, ele, a profetizar a morte da Igreja, a declarar iminente essa morte, a mostrá-la, já assente, por assim dizer, nos seus pródomos certos.

A tática é boa. Não há maneira mais segura de arruinar moralmente a Igreja, de que lançar o descrédito sobre toda a sua duração, do que provar –se se provasse – que essa duração terá um termo. Se a Igreja deve morrer, ela nada é. Se a Igreja está não somente no tempo, o que deve ser, porém é súdita do tempo, é que está abandonada ao tempo assim como tudo o mais, e não está suspensa à eternidade. Por outros termos: se a Igreja morrer, se morrer numa data qualquer antes do fim do homem – e o homem, em verdade, não morre-, é que ela é humana somente, é que não é humano-divina, é que não é o que pretende ser, e para encurtar razões, é que não é nada.

Mas a Igreja não se perturba com esse perigo, e já há dois mil anos que escuta calmamente os que a ameaçam dele. Passado tal não seria uma garantia do futuro? Creram-no grandes historiadores, impressionados não somente com o fato, mas com o estado d’alma que o acompanha, com essa prodigiosa certeza por entre tantos reveses, com essa tranquilidade no curso e de períodos históricos movimentados em extremo, diversos e fecundos em surpresas.

Uma tal força psicológica é por si só um fenômeno surpreendente. Um poder tão seguro de si mesmo e do seu futuro, tão decidido no que faz e tão pouco inquieto com as contradições, com os ataques, com os obstáculos, com todas as ciladas que, entretanto, com a sua vasta experiência, ele sabe armadas sob os passos de todas as instituições: é um desafio. Que audácia o pretender assim fazer exceção sozinho!

E, não há dizer, o fato responde; sempre respondeu ao sentimento que a nossa Igreja tem dele, como se esse sentimento houvesse partido do próprio fato. A Igreja circula entre os acontecimentos como o sonâmbulo à beira do telhado. O sonâmbulo não cai, guiado que é por um espírito interior, numa feliz ignorância do perigo que tangencia. Acordai-o, tirai-lhe a sua inconsciente segurança, feita de certeza vital: ele está perdido. Assim a Igreja se perdesse a sua fé. Porém não a pode perder. O seu Espírito interior a um só tempo lhe comunica o sentimento da sua perenidade e lhe dá em toda parte segurança de si.

A Igreja entende sobreviver a tudo o que pretende ser o futuro, e já enterrou muitos dos que lhe meditavam ou aguardavam a perda. Tempestades não lhe têm faltado; mas os tornados no oceano e as tempestades de areia do Saara não afetam a estabilidade da terra. A Igreja esposou a terra; ela é a própria terra encimada pela cruz, a terra viva, santificada por uma Presença invisível, e ela não tem medo. Um dia, a terra morrerá, mais numa apoteose que a Igreja diz sua. Ela não teme esse acontecimento, espera-o. Do lado de cá, profeta de si mesma, projetando o que ela é sobre o que amanhã será, a Igreja diz: O futuro é meu, porque em mim está esse futuro já adquirido com Aquele que o regula. O tempo não me contém; eu, a Igreja, é que contenho o tempo, pelo meu Espírito, seu princípio eterno. Beber na taça do tempo a duração eterna é a sorte de todo aquele que adere a mim e comunga com a minha alma secreta. Muitas coisas me fazem sofrer, mas nenhuma me desconcerta nem me inquieta. A adversidade retempera-me. Um fracasso significa para mim: recomeça; como um êxito significa: prossegue. Por cima da cabeça de meus inimigos e para além dos obstáculos, eu olho uma finalidade visível a mim, mas tão exigente que eu não posso desviar dela meus olhares nem minha marcha. Completar meu Cristo na terra, o Cristo coletivo, a assembleia universal a que ele chamou seu corpo: é esse o meu trabalho. Trabalho de todos os tempos, sem dúvida! E é por isso que eu não morro.

Quer se arrazoe, quer se desarrazoe sobre isso, a força íntima assim manifestada tem algo de único. Supõe, ao que parece, no invisível, fora das nossas durações indecisas e fugazes, uma cumplicidade.

Procura-se a explicação disso num iluminismo feliz da nossa fé, e, por outra parte, em contingências históricas cada uma das quais se presta a explicações naturais. Está bem. Mas o iluminismo da Igreja é muito positivo; a ingenuidade não é coisa dessa avó, que sabe aonde vai, e que impressiona o observador justamente pela certeza imperturbável do que faz.

Explicação indigente é o menos que aqui possa dizer-se. Na verdade, a explicação é nula; por quanto, se a misticidade pode realmente ter seus desvios, a Igreja, que controla a misticidade com um rigor severo, deve ser chamada sobremística, e escapa ao perigo porque deve prevê-lo. Ela não sonha; a sua certeza é serena; é bem em pleno despertar e de posse de toda experiência humana que ela diz: Há em mim algo de sobre-humano; eu, que assisto ou presido a tantas mortes, sei que não morro.

Quanto às contingências históricas, estas existem. Não se trata de negar as causalidades inerentes a uma vida que está na terra, embora não proceda unicamente da terra. Cada um dos casos apresentados por essa extraordinária história é suscetível de explicações que se afiguram suficientes, e que o seriam, tomado à parte esse caso. Mas o que assim se não explica é a repetição indefinida de contigências semelhantes e semelhantemente previstas, de tal modo que a instituição que lhes é objeto possa dizer tranquilamente que elas se repetirão sempre, sem que nada, até agora, desminta.

Difícil é, nestas condições, fugir à observação de Pascal: “E tudo isso se faz pela força que o predissera”. A predição não é muito menos extraordinária que o fato. O fato confirma a predição. Digamos que há aí um só fato ao mesmo tempo espiritual e histórico, profético e efetivo. E segue-se que a explicação da Igreja, quanto à sua perpetuidade, está na própria Igreja. A Igreja é o vivente imortal que seu Cristo predisse ao constituí-la; ela recebeu a imortalidade com o ser, e é por isso que afronta o tempo; é por isso que, por assim dizer, devora os ferozes acontecimentos feitos para devorá-la, e prossegue através de tudo os seus destinos tranquilos. Isso não são hábitos de homem.

Ademais, quando se fala de perpetuidade a respeito de uma sociedade religiosa, não se trata de uma perpetuidade exclusivamente política ou administrativa. Isso seria uma mera conservação de quadros. Para que a Igreja seja verdadeiramente perpétua, é preciso que se conservem, como fazendo parte dela mesma, e sem alteração essencial: o seu pensamento, isto é, o seu dogma; a sua prática, isto é, a sua moral e a sua liturgia; a sua organização, isto é, o seu sacerdócio e os chefes do seu sacerdócio – bispos, representantes dos Doze, Papa, sucessor de Pedro, e lugar-tenente de Cristo. É tudo isso que não deve perecer.

E quantas ocasiões para que isso tenha perecido! Pode-se dizer que tudo é ocasião para isso; porque o histórico se move no acidental. É clássico este adágio: Em história, tudo resulta sempre diversamente do que se previra. De sorte que, se não houvesse aí um princípio interno de indefectibilidade, de continuidade, tudo iria sempre a esmo, quer dizer, ao aniquilamento sem remédio; os dogmas desvanecer-se-iam em opiniões de indivíduos e de grupos (como no protestantismo); a prática moral e os sacramentos, a autoridade e as disciplinas mais essenciais teriam a mesma sorte; nada resistiria dessa contextura imensa, que, ao contrário, idêntica a si mesma vemos atravessar assim os séculos como os azares.

Todas as religiões têm mudado profundamente e têm-se esmigalhado em seitas: a Igreja de Jesus Cristo é fiel à sua tradição unitária, memória onde – sem prejuízo das adaptações que são o sinal da vida e que o serviço exige – se acham consignadas uma vez por todas as confidências de Deus à humanidade e as criações da sua graça.

Bem longe que o tempo deteriore a Igreja, ao contrário, ele lhe traz constantemente materiais novos; aumenta-lhe todos os órgãos e diferencia-os, sem prejudicar a ideia vital. Quem lê hoje S. Paulo reconhece nele a sua fé, a sua regra de vida, a sua prática ritual, o seu sacerdócio, a sua organização essencial; mas que riqueza aumentada! Que adaptação sempre mais perfeita aos problemas novos! Que manifestação obtida para o que o grão continha! Já não é mais o “grão de mostarda”, é verdadeiramente a grande “árvore”.

E, se há crises e atrasos, falhas no funcionamento, não há razão para nos admirarmos; é a parte do homem. Jesus Cristo prometeu Jesus Cristo prometeu à sua Igreja uma duração indefectível; não lhe prometeu uma saúde indefectível; ela tem as suas doenças, “que não levam à morte”. Cabe a nós fazer que ela melhore, pois a saúde, a nossa de fiéis e chefes é que proporciona a dela. Mas não se precisa de nós para que ela viva; ou, pelo menos, se de certa maneira a vida dela depende de nós, o Senhor dos corações aí está para que não falta o “restinho” em que Israel pode subsistir, reserva dos tempos melhores e penhor do triunfo eterno.


Observarei que a vitalidade da Igreja, condição da sua perenidade, é visível hoje mais do que nunca, primeiro porque o seu desenvolvimento interno está mais adiantado, a sua diferenciação aumentada ao mesmo tempo que a sua unidade reforçada (duplo sinal característico do progresso), o seu surfo de penetração no coração das raças desdobrado com vigor novo; mas também porque, por esse mesmo fato e em ração de circunstâncias históricas providenciais, o princípio católico se manifesta mais independente de tudo o que não é ele.

Uma substância reconhece-se melhor quando é isolada. Os concluíos do Império constantiniano, o equilíbrio ofensivo do Sacerdócio e do Império, a aparência de misto político constituído pelo poder temporal, tudo isso pereceu. A Igreja é pura; pode-se ver o que ela é. E que é ela? É isso mesmo: um poder espiritual independente e que, a despeito das aparências superficiais que eu assinalo, sempre o foi. E pensar-se-á que isto não seja nada? Augusto Comte via nisso um fenômeno de primeira grandeza, depois de reconhecer aí uma condição de futuro da sociedade humana. A lua suspensa à noite no céu claro já não nos admira, porém KEPLER, Newton, Laplace ou Poincaré passaram anos a calcular esse equilíbrio delicado, irmão de um sono tranquilo.

A Igreja – tem-se acaso pensado nisto? – é a única sociedade religiosa assim independente que jamais se haja mostrado na humanidade. Não seria isto um prodígio? É um prodígio nisto que uma sociedade espiritualmente independente deve ter em si tudo o que uma autarquia dessa espécie exige para sobreviver, para não se misturar com coisa alguma de dissolvente, para se não deixar absorver por coisa alguma de envolvente ou de insinuante, e assim manter no mundo um poder alheio ao mundo, como seria em física um corpo liberto das forças cósmicas, inacessível às influências que tudo transformam.

As “autarquias econômicas” de que nos falam agora, onde é que se realizam? Unicamente lá onde a natureza proveu a isso, dando ao grupo que a ele aspira tudo o que é preciso à sua vizinhança e sem temor da vizinhança. Se a Igreja pode ser e é uma autarquia espiritual perfeita, é que portanto tem em si, a título independente e garantido contra toda alteração, contra todo desvio, tudo o que uma vida religiosa perpétua e universal comporta. Deve ela poder ir a toda parte sem se misturar em parte alguma; ocupar-se de tudo e influir em tudo sem que nada a contamine; durar sempre sem que à falta de uma condição temporal – entendo entre as que são alheias ao seu próprio funcionamento – possa deixá-la cair. Pese-se um tal requisito.

No curso das idades, acontecimentos não têm faltado para porem à prova essa alta independência e para aboli-la. Ela sempre se mostrou superior a eles. Os poderes têm feito tudo para captar essa força e para escravizá-la; as lutas épicas em razão disso por ela sustentadas são bastante conhecidas: ela tem-se saído delas constantemente vitoriosa. Agora, todos querem tratar com ela; e ela se presta a isso; porque, se ela é independente de todos quanto à sua vida, entende de não ser independente de ninguém quanto à ação; quer dizer que está disposta a uma colaboração universal. Mas, se às vezes os que tratam com a Igreja o fazem no velho espírito de envolvimento de que eu falava, ela tem com que desmanchar e desmancha todos esses ardis terrenos. Aos vorazes, poderá ela abandonar algumas penas de suas asas; mas não interromperá o seu voo.

Em pequenos círculos inteligentes, porém míopes, as pessoas deixam-se levar a dizer que “Musolini meteu no bolso Pio XI”, que “Hitler repete a história”, etc. Isso são palavras pouco sérias. Elevem-se antes esses tais à contemplação deste espetáculo: um soberano sem Estados, investido – por quem? – de um poder ante o qual o universo se inclina, que diz sim, que diz não aos mais poderosos como aos mais pequenos, e que da minúscula “Cidade”, território de teoria, quase irrisório se a irradiação dele não fosse tão solene, marca encontro para o futuro, sobre documentos autênticos, a tantos poderes que a ele não corresponderão.

Quanto durará Mussolini? Quanto Hitler? Quanto os regimes e as combinações políticas que temos sob os olhos?* não sei; mas o Papa aí estava de tal forma antes deles, que, sem se arriscar, pode-se dizer que aí estará depois deles e depois dos que lhe aguardam a herança. Todas essas sortes de poderes têm passado, estendendo a mão a Pedro para engodá-lo, para utilizá-lo; eles têm passado, e Pedro fica. Há aí um princípio de vida, sem dúvida, e no entanto cumpriria dizer qual.


A independência, que é um indício de força e, nas condições em que a Igreja a manifesta, de força propriamente sobre-humana, essa independência poderia conceber-se sem ação conquistadora? Vimos essa ação nos seus primórdios; foi fulminante. É normal que hoje em dia o seja menos, e sabemos o motivo; porém ela é mais evidente do que nunca. O reflorescimento missionário é mesmo assinalado, na ora atual, por um caráter extremamente impressionante e por um grande alcance de futuro: entendo a sua catolicidade intrínseca, se assim posso dizer, pelo acesso de todas as raças de homens ao sacerdócio e ao episcopado católicos, até aqui mais ou menos reservados, não de direito, por certo, mas de fato, só à raça branca.

No interior dos nossos grupos cristãos, a multiplicação das obras católicas deixar-nos-ia estupefatos, se soubéssemos ver. Poderíamos nós supor o menor começo delas, ou mesmo o antegozo, se não fora a Igreja? Não entendo dizer que a Igreja faça tudo; às vezes faz-se melhor do que ela; mas foi ela quem lançou tudo; o que ela mesma não faz, procede dela quanto à origem primeira e quanto às influências que sofre: emulação, concursos, exemplos.

Diversas tanto quanto as necessidades espirituais e temporais do homem, diversas tanto quanto a vida, a que é que se podem comparar as obras de criação ou de inspiração católica? Noutras partes há reflexos delas: da Igreja vem a luz. Há migalhas esparsas: nela está o pão.

Por certo! Muito mais haveria ainda por fazer do que o que a Igreja faz. Somos impacientes, e mui sinceramente podemos ficar impressionados com as lentidões seculares da Igreja mais do que com a sua ação secular. Mas, além de, aqui, intervirem as liberdades, e os acontecimentos, e os meios resistentes, não nos deveríamos precatar contra uma confusão dos valores e das escalas que os medem? Não é no absoluto, é comparativamente que convém julgar, quando se pede à experiência a resposta a esta pergunta: a Igreja é da mesma natureza que as outras potências deste mundo, ou de natureza superior?

No absoluto, tudo é lento daquilo que se move através do humano. O próprio Deus deve evitar os métodos “catastróficos”, inimigos da sua sabedoria, que é “número, peso e medida”. A Igreja, agente da Providência, e bem decidida a com ela se manter em contato, a não precedê-la, procura nos fatos passo a passo seguidos os vestígios de seu Deus, e é assim que ela marcha. A gente apressada censura-lhe isso: mas a gente apressada é a mais apta a perder o tempo que a gente calma utiliza em toda a extensão. A Igreja realiza milagres de atividade precisamente porque não se apressa, não compromete nada, nunca se obriga ao recuo, olha longe e sem impaciência no sentido do futuro; em suma, porque conduz a ação temporal num espírito superior ao tempo.


Falar-nos-ão de tantas misérias na Igreja? Consinto, contanto que se acrescente: e tanta santidade. Pode-se desconhecer a força santificante e purificadora da Igreja sob suas duas formas essenciais: a forma mística e a forma educativa ou moral?

Misticamente, a vida sacramental sublima, purifica e arrasta à obra boa uma multidão de corações. Cristo tem um império ao qual nem de longe qualquer império deste mundo pode ousar comparar-se. A despeito da carne, do mundo e de Satanás, três potências adversas. Ele obtém de seus fiéis efeitos de virtude e de ação espiritual que os meios antecristãos ou não cristãos não podem pensar em conhecer; ou, se a eles chegam, devem-no ainda a Ele pelos caminhos desviados que havemos descrito.

Mesmo onde quer que a lei cedeu, aquilo que subsiste de vida sacramental: batismos, primeiras comunhões, casamentos, ritos funerários, cerimônias públicas e privadas, ainda conserva uma armadura tal qual a uma civilização indecisa; o futuro aí está em expectativa, e bem longe que só haja nisso um legado do passado. Muito errados andaríamos em subestimar esses “restos”.

Moralizadora, a Igreja o é em nome do céu e em vista do céu; mas o terreno de onde se alça o voo para o céu é a terra. O Reino de Deus é temporal, dizíamos, precisamente porque é eterno. Por isso a Igreja é uma educadora de atenção sempre vigilante, e de psicologia admirável, de experiência consumada, utilizando todos os recursos da alma e da vida, envolvendo esta toda, como se, gerado por ela, o cristão nunca acabasse de nascer, e lhe vivesse no amplo seio.

Um dos mais altos e dos mais preciosos caracteres da Igreja, como educadora, é a sua arte de tirar o bem do mal. Ela reergue o pecador e não o desanima; sem pactuar, longe disto! Ela sabe compadecer-se e compreender. Salva e utiliza assim uma multidão de valores que uma sociedade sem alma abandona às forças do mal, e depois rejeita.

Quem dirá o de que assim se privam grupos talvez muito apressados em denegrir e em combater neste ponto a vida católica! Os grandes pecadores que se tornaram santos, e obras como Betânia, o Bom Pastor, ou Nossa Senhora da Caridade, ou as simples capelanias de prisões, sem falar de tantos outros sinais, deveriam no entanto fazer refletir. A Igreja faz beleza com as fealdades, e com a força revirada das paixões faz energias puras. Pedro, sobre o Lago, pede a Jesus para afastar-se dele porque ele é um pecador; mas a Toda-Pureza não tem destes pudores hipócritas; ela só se afasta convidando, como uma mãe diante do filho que tropeça, e todo o surto do arrependimento chama o homem para sobre o coração dela.


Não se quer que a santidade, que o poder santificador da Igreja prove a sua divindade, porque, primeiro, ao gosto do censor não há bastante bem nela, e há demasiado mal. Objeção tal não surpreende; fá-la muitas vezes a si mesmo o crente, e grande necessidade tem então de se lembrar da advertência de seu Senhor: “Bem aventurado aquele que se não escandalizar de mim” (Mt XI, 6). Mas no fundo desta dificuldade, como de muitas outras, há simplesmente isto: Exige-se que a Igreja seja humana ou divina, à escolha; não se quer que ela seja o que é; humana e divina, conjuntamente, com todas as consequências. Se uma vez se consente nesta última situação, compreende-se que, pela sua divindade, deve haver na Igreja grandes efeitos de Graça, e bem cego quem os não vê; mas, pela sua humanidade, deve ela oferecer também todas as misérias humanas, digo todas, visto haver nela todo o homem.

Quanto mais humanidade há na Igreja, tanto mais divindade deve nela haver para que ela sequer subsista; porém, quanto mais divindade há, isto é, sabedoria, respeito do homem, cuidado de deixar à obra um cunho de livre esforço e de responsabilidade, tanto mais imperfeições e taras devem nela encontrar-se.

Sem dúvida, poderia acontecer que esta última condição, a só olhar a ela, abolisse a primeira, e que de alguma sorte o humano afastasse a Deus. Mas isto é uma suposição inteiramente gratuita. A malícia do homem não iguala o poder de Deus. A Igreja tem em si, quando preciso, com que se reformar de dentro, mediante reconcentração do seu Espírito em individualidades que bem se devem chamar providenciais, embora em aparência nascidas do acaso, já que, à maneira da providência eterna, surgem sempre. Sempre o acaso, isto não será a providência?

Quanto a recusar a hipótese, exigindo o divino puro, sob pena de absolutamente não mais ver a Deus, isto é ditar a Deus o seu proceder. Melhor é, sem dúvida, fazer por dentro este gesto simplíssimo, a bem dizer profundíssimo e por isto quase heroico, de se inclinar perante Deus. Então, a objeção se esvai.

Pode ela, é verdade, dar lugar a outra. A santidade, na Igreja, não provaria a sua divindade, porque tudo o que se vê é explicável pelo homem. Mas na realidade, como observava Santo Agostinho, é mais difícil fazer um santo ou converter um pecador do que ressuscitar um morto, o que não é obra de homem. A despeito da audácia de uma tal fórmula, pode-se dizer que é tão difícil fazer um santo como fazer um Deus: um raio de sol ou um sol não são obra semelhante? É ao contato de Deus e do homem que a santidade jorra; reconhece-o um puro filósofo, como Bergson, e é esse, reconhece-o ele mais ou menos também, um dom especial da Igreja. A conclusão está bem próxima.

A santidade da Igreja é divindade latente. Brilha em certos pontos, em certas vidas, brilha amplamente, embora menos sensivelmente para a desatenção, no funcionamento geral da obra. Santidade concentrada ou santidade difusa, santidade brilhante ou humilde santidade, é sempre Deus que aflora, esse Deus que a humanidade procurava, que o seu capricho fabricava, e que um dia irrompeu nela mesma. Perguntava Santo Agostinho: “Que vale Juno em face de uma velhinha que é uma fiel cristã?”. Não é preciso mais do que estar atento a tudo isso para vê-lo; mas é preciso olhá-lo com os olhos da alma, e não com o espírito só.

Tendo-o reconhecido, e tendo-se capacitado de que, para a Igreja, fazer cristãos quer dizer humanos completos, em Deus, e juntos, bem pronto se está para confessar que a Igreja e a civilização são solidárias, de tal sorte que o milagre religioso vem aqui ao encontro do fato humano e nele se reforça.

Não se ignora, conquanto às vezes se goste de esquecer ou se esqueça por inadvertência, o que a Igreja fez no passado. Nenhum historiador recusaria dizer que ela, a Madre Igreja, foi quem carregou nos joelhos a civilização moderna. Mas o que ela fez no passado, está armada para fazê-lo muito mais ainda, desenvolvida como jamais o foi; rica de funções, de pessoal e de obras: capaz de atingir, de alto a baixo da escala dos espíritos, das situações sociais e das almas, todos os elementos humanos em busca de progresso e de felicidade.

O gênio moral que habita a Igreja é o fermento animador e o sal conservador das civilizações. O sentido da vida, as leis do indivíduo, da família, dos grupos profissionais e especialistas de qualquer especialidade, da sociedade nacional e internacional, com todos os seus meios psicológicos e místicos, no terreno moral, fazem parte do seu depósito. Ela nos ajuda a adaptá-los às circunstâncias diversas. A sua ciência moral é uma consequência do seu dogma, e a sua maternidade goza do dom de conselho.

“Alma das nações”, como dizem os Papas da Idade Média, ela pode fornecer aos nossos grupos, no espiritual, todas as suas normas de ação e todas as impulsões que os guiam. Ela consolida o reinado das leis, fazendo-as partir da Razão divina e ir ter aos seus juízos; humaniza-as banhando a justiça no amor. Aos fatos de autoridade ela dá por princípio a autoridade serviço público da parte de Deus; aos fatos de subordinação dá a obediência ao poder como a Deus; aos fatos individuais que preparam a matéria social dá a vida depósito divino e atividade em marcha para Deus. Estão aí bases firmes.

A construção poderá em seguida inspirar-se nas largas vistas de governo que são as da Igreja. A Igreja é eminentemente democrática quanto à definição e à apreciação dos seus valores sociais; canoniza os santos e não os chefes, os humildes virtuosos e não os fortes. É, entretanto, aristocrática pelas suas Igrejas particulares que os bispos governam, e é monárquica em razão de Cristo e da sua representação visível, o Papa. Pode assim dar modelos de governo a todos os Estados, como lhes dita seus fins supremos.

O sentido social é nela tão forte que o cidadão, comungando na sua larga vida, hauriria nela um espírito cívico em harmonia com o que seria então a sua vida espiritual. Numa grande cidade de que a gente gosta, a gente se sente confirmado a um tempo no seu sentimento social e na sua personalidade; oceano e remeiro harmonizam-se; no seio da Igreja universal animada de caridade e agrupada em torno de Cristo, cada um se tranquiliza na sua própria força e na força coletiva; é um em si e um com todos; sente a humanidade dentro e fora, com Deus em toda parte.

Como então, em particular, a eucaristia, que é como que a encarnação de Cristo em todos nós, poderia não nos unir? Grande é a inconsciência humana; todavia, não se podem negar os vastos efeitos desse sacramento no conjunto das sociedades cristãs. Não seria preciso mais do que fidelidade para reforçar essa ação e combater o esfacelamento, os antagonismos criados no corpo social pelo choque dos sentimentos e dos interesses, privados dos seus limites e do seu freio. É certamente no dogma, na moral e no culto católicos que o acionamento desse freio e o sentido desses limites são incomparavelmente mais bem assegurados.

Afirmando o Deus vivo, e pondo-nos com ele em vida comum; reintegrando-o, se assim posso dizer, em todas as suas funções, em relação a tantas religiões e filosofias que o dissolvem – Deus criador, Deus legislador, Deus providência, Deus justo e remunerador, Deus amor, - o catolicismo está em força para estabelecer a criatura na sua consciência e na sua solidez interior, nas suas atividades autênticas e nas suas relações verdadeiras. É o fundamento da vida que doravante é firme.

Trata-se da vida internacional, que a civilização deve considerar hoje em dia como por assim dizer idêntica a si mesma? A Igreja é competente pra isso tanto em relação ao princípio como do ponto de vista dos meios de realização. Pode-se dizer que, aos olhos da Igreja, a sociedade internacional é o fim dos Estados, a título de síntese humana em Deus e em Jesus Cristo, na razão que nos liga e no destino sobrenatural que são agora obra dos melhores! Penetre em toda parte e impregne tudo a cidade cristã, “alma das nações”, e a cidade universal está feita.

A comunidade internacional é para a Igreja um fim, pela boa razão de que é um começo, e de que sempre os princípios e os fins se correspondem. É da comunhão dos homens em Deus e em Cristo que tudo parte na vida católica. Se tudo parte disso no empreendimento e na intenção, a isso não deve tudo chegar na execução? Unidade espiritual, unidade moral, unidade jurídica, unidade política sob uma forma qualquer: pode isto dissociar-se sempre? Abordando o homem na sua unidade, o homem total, a Igreja ao pode deixar de querer a livre realização, pelo homem, do cosmos humano, como pela sua providência Deus realiza o cosmos universal.

O grande obstáculo à união dos povos está, de um lado, na materialização das almas, que multiplica as competições pela partilha das riquezas deste mundo, e, de outro, nos desvios do próprio ideal, que muitíssimas vezes se extravia, ou se particulariza, ou se exacerba. O exemplo das guerras de religião ou de prestígio aí está para nos mostrar que o idealismo nem sempre trabalha pela paz. Talvez que a catolicidade tenha aqui censuras a se fazer. Porém, fiel ao seu princípio de justiça e de amor, elevando e unificando ao mesmo tempo os homens, como a gente se aproxima em galgando um píncaro, a Igreja tem tudo o que é preciso para preparar o futuro do verdadeiro gênero humano, da sociedade humana definitiva.


Em suma, a Igreja em toda parte faz dominar o espírito, e, por via de consequência, a unidade de espírito, ligando-nos ao Espírito supremo.  Ora, é uma verdade essencial, por demais desconhecida das nossas febres “soi-disant” realizadoras, que todo trabalho civilizador tem origem no espírito. As simples técnicas, sabemos o que delas se faz; elas dão força à barbaria tanto quanto aos valores humanos. Das nossas multidões materializadas tendem elas a fazer uma massa de indivíduos que, espiritualmente, já não são pessoas. A Igreja desejaria fazer deles pessoas sagradas, de boa mente diria com Bergson: deuses.


E não é essa uma razão para que ela despreze as técnicas. Nunca a ouviremos maldizer das invenções, das organizações, das máquinas, dos processos e dos engenhos quase milagrosos que, pelo contrário, ela gosta de glorificar benzendo-os. Porém ela sabe e repete que todos esses valores, servos do espírito, e do espírito santificado, não o substituem; os efeitos deles dependem deste mais do que deles mesmos; pois sem ele, através da ruína do homem, eles só redundam no nada de si. Dividem o indivíduo de si mesmo corrompendo-o; dividem-no de outrem pela inveja, mesmo quando já não é pela necessidade.

Não se diga, pois, que por sua missão a Igreja, suposto que faça um trabalho útil, só o destine à salvação eterna. É verdade que a Igreja tem este escopo e não tem segredos para a organização deste mundo; mas a organização deste mundo depende dela porque depende dos homens, e, nos homens, depende justamente dessas virtudes, desses valores morais que os devem conduzir à salvação eterna.

“As coisas que vemos não foram feitas de coisas que se veem”, diz a Epístola aos Hebreus (XI, 3). A civilização visível tem fontes invisíveis; reside nos corações; a forma dos nossos pensamentos, dos nossos desejos, das nossas ações individuais, das nossas relações, das nossas reações mútuas em todas as ordens e em todos os cenários será a forma dela. A Igreja, que age sobre tudo isso na medida em que se lhe é fiel, trabalha em tudo, se bem que por si mesma se mantenha fora dos nossos trabalhos. Ela é a eternidade no tempo, dizemos nós incessantemente, a eternidade que anima o tempo, sem que a meçam os nossos relógios.

Nos nossos dias de perturbação e de progressos materiais em tão violento contraste, não é inútil relembrar estas coisas. O mundo moderno é um instrumento admirável, mas desafinado; os sons individuais persistem belos e possantes, porém a música peca.

Muitos não veem a cauã dos nossos males e atribuem-na a algum erro de método ou de organização. Pelam para os peritos, e muitas vezes estes procuram simplesmente meios para favorecer e exasperar a loucura dos homens. Sem dúvida há em nós defeitos de organização, defeitos de método; mas por detrás disso, e pela razão mesmo de haver isso, há outra coisa. Há os apetites desencadeados, uma febre absurda de vida a toda velocidade, como de quem se persuade de ter apenas um curto instante para gozar. Há os nossos laços afrouxados pela ausência das virtudes sociais: justiça, amor, que por sua vez dependem das nossas virtudes individuais.

Tornando-nos bons, nós nos tornamos um bem de todos; a solidariedade, que se estabelece pela boa vontade mútua, não é então uma cadeia de elos ocos, assume valor ao mesmo tempo que coerência. De nada serve estar ligado a outrem se nada lhe trazer de benéfico! – talvez infligindo-lhes taras! – nem amar o próximo como a si mesmo, tal como o quer o Evangelho, se nada se tem de si que amar.

Abdicação ou absurda presunção, isto é, abdicação retardada e cataclisma: tal é a alternativa imposta a um mundo que recusa as leis da vida e que, por uma extensão que o fato consagra tanto quanto a fé atesta, recusa as suas próprias leis sobrenaturais.

A medida que o sentimento de Deus e o sentimento da nossa unidade espiritual em Deus, tal como a concebe e a organiza Igreja, se vai enfraquecendo, vê-se proporcionalmente baixar o sentimento dos homens da unidade interior e da comunidade moral. Não há mais, dentro e fora, senão forças esparsas ou bloqueadas para fins utilitários. Não há mais senão funções.

É em Deus criador que se acham originariamente a ideia do homem, a ideia da humanidade, a ideia do universo, território e matéria de civilizações: é aí que cumpre reencontrá-las, e o caminho normal dessa ascensão, desse retorno espiritual, é a Igreja. O olhar para a matéria vem depois. O estatuário pensa em bloco; mas pensa primeiro na forma de arte da estátua e na forma do monumento que ele decora.

É por isso que Cristo homem, iniciador e chefe permanente da Igreja, Cristo na sua pessoa e na doutrina que a exprime propondo-a, é o ponto de partida ideal da civilização; a sua perfeição domina-a toda desde as mais antigas idades; ela é sua regra também para o futuro. Graças ao Homem-Deus, a Igreja casa em si o ideal e o real, o terrestre e o celeste. Obriga segundo Deus e convida segundo o homem, cuja imagem autêntica apresenta; é assim inspiradora perfeita do trabalho humano, e o seu socorro mais eficaz. É preciso céu e terra para a germinação do que quer que seja, planta ou homem.

Por seu turno, esses espelhos vivos de Cristo que se chamam os santos são, em nome dele, modelos e agentes de civilização que se não deveriam desconhecer. Que não deve a humanidade a homens como S. Paulo, Santo Agostinho, S. Bernardo, S. Francisco e S. Domingos, Santo Inácio e S. João Batista de La Salle, S. Francisco de Sales e S. Vicente de Paulo?  O que eles trazem nem sempre é brilhante e mensurável a título imediato; mas é um trabalho de fonte, e na medida em que a fonte lhes recebe a mensagem, torna-se, por igualdade de valor inato ou técnico, um elemento de verdadeira civilização.

Os chefes de estado que foram santos, como S. Luís, ou chefes militares como Sonis, como Foch, filósofos como Alberto Magno e S. Tomás de Aquino, artistas como Haydb, sábios como Linné ou Newton, não foram sublimados, em igualdade de gênio ou de poder, pela sua fé ativa e pela retidão da sua vida? Assim, generalizando, uma sociedade cristã é sublimada em todos os seus valores de civilização temporal, além da salvaguarda proporcionada ao que constituía esse fundo.

Felizmente, resta-nos muito daquilo que a Igreja verteu nas almas de nossos pais. A nossa civilização é um lençol d’água cuja superfície mostra uma triste escuma que terá sempre suas camadas inferiores; mas entre as duas, circula uma corrente pura e forte, formada das altas consciências cristãs e dos herdeiros, talvez inconscientes, do passado cristão.

É por isso que não há razão alguma para desesperar; mas é preciso despertar os dorminhocos e reconduzir os transviados, para que o milagre de Deus no meio de nós não seja vão, justamente no momento em que a sua oportunidade e as suas possibilidades de manifestação mais se patenteiam.

Quanto mais a humanidade dura, tanto mais necessidade tem daquilo que lhe permite tomar valor, começando por se desprender de si mesma. Quanto mais tempo há, tanto mais empréstimos à eternidade se fazem mister; quanto mais humanidade há, tanto mais divindade se torna mais necessária hoje do que nunca. Cumpre que ela nos batize, se não somos batizados, que nos confirme, nos faça comungar juntos e com Deus, nos ordene, nos perdoe também, nos case de um casamento puro e fecundo com a natureza santificada, e, se preciso, visto que as nações e as civilizações morrem, nos unja antes da paz do túmulo e da vinda a lume dos séculos novos..

Mas também, sempre mais necessário, a Igreja está sempre mais disponível. Ela é forte; pode carregar as desventuras do mundo e suas culpas, tanto quanto as suas virtudes e as suas venturas.


Quer se queira quer não, deve-se pois convir que as suas afirmações relativas a si mesma são justificadas; ela é “o estandarte levantado sobre as nações” de que fala o Concílio de Trento, e pelo qual a construção divina se reconhece. Só o dogma da Igreja explica o fato da Igreja. Fora isso, não há explicação pertinente. A gente dos primeiros séculos estava segura disso. Quando sucede duvidarmos disso, é que nossos olhos estão menos frescos. Deus queira que acontecimentos mais graves não nos refresque, mostrando-nos tragicamente aquilo que nos falta depois que acreditáramos tê-lo. Nossos pais, mais humildes, compreendiam que não o tinham.

   


17 – Bousset, Oração fúnebre de Ana de Gonzaga.
* - Pergunta que foi formulada ao tempo em que foi escrito este livro. A resposta, ao tempo em que aparece esta tradução, já está dada pelo desfecho da grande guerra. (Nota do Tradutor).

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Igreja em face dos césares - A. D. Sertillanges


A Igreja em face dos séculos antigos para se prender neles, em face de si mesma para se constituir, em face do seu meio natural para nele se apoiar, para se distinguir dele na medida necessária e com isso conquistá-lo: tal é a visão de que até aqui penetramos os nossos olhares.

A que reservávamos para sob este título: A Igreja em face dos Césares, deve mostrar-nos a obra de Cristo em luta com as potências deste mundo de que ela mais poderia ter que temer, se algo de sobre-humano não estivesse nela, prontinho a medir-se com o humano levado ao máximo – e armado – representado por esta palavra tradicional: César. Insistindo sobre o sentido ampliado, e de alguma sorte simbólico, deste termo, poder-se-ia dizer: a Igreja não esperou estar em face dos Césares para experimentar César. Um César domestico faz-se ver apressado, desde o tempo de Jerusalém, a zombar da familiazinha heroica, depois de lhe haver matado o Mestre.

A Paixão foi antes de tudo um crime judeu; o Império só indiretamente tomou parte nela, trazendo-lhe uma cumplicidade administrativa, se assim posso dizer, cobrindo com sua assinatura uma sentença imposta por outros. A Paixão continua sob as mesmas responsabilidades enquanto o judaísmo continua sendo a moldura política do cristianismo nascente. Nascida na cruz do Rei dos Judeus, a Igreja aí fica. Predisse-o o Salvador: “O servo não está acima do amo”. “Se eles assim trataram a lenha verde, que farão da lenha seca?” (Jo XIII, 16; Lc XXIII, 31).

Sob Herodes Antipas, João Batista e Jesus pereceram. Sob Agripa Iº, Estevão, Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, o irmão do Senhor, perecem por sua vez. Outros são flagelados. No ano 34 aproximadamente, a perseguição é bastante forte para dispersar o rebanho – que, como vimos, aproveita isso para enxamear, especialmente em Antioquia.

As razões da atitude adotada pelo sinédrio para com a seita nova não são todas elas religiosas, nem judias. A política romana já entra aí por alguma coisa. Acaso Caifás não disse, perfidamente é certo, mas apoiado em aparências plausíveis: “É melhor que morra um homem do que todo o povo?”. Desde esse momento, pois, temiam-se dificuldades da parte dos Romanos. A sinceridade religiosa e a independência ardente dos discípulos de Cristo fazem deles uns perturbadores, ao olhos de uma administração já sobrecarregada de querelas e maçada com as combinazioni judaicas.

Quando, pelo fim do século I, o êxodo da Igreja for consumado, Jerusalém destruída e todo poder político de Israel abolido, as pequenas dificuldades locais cederão à grande tormenta cujas causas temos de dizer.


Em principio, entre os Antigos, o homem que pratica uma religião diversa da do seu país está em situação daquele que se põe a serviço dum exército estrangeiro ou que muda de pátria. Mas a fusão dos Estados ou suas combinações políticas, por meio do direito de cidade diversamente praticado, leva a compor, em religião como em tudo o mais. Estabelece-se uma larga tolerância, que não é um progresso religioso, que é um ceticismo disfarçado nos dirigentes e uma superstição agravada nos outros. Os que creem na pluralidade dos deuses não se incomodam com a existência de mais alguns. Desde que o interesse e o instinto social se acham postos a coberto, a introdução de divindades novas excita apenas uma curiosidade benévola, ou um sorriso indiferente, ou um vago temor reverencial.

Num sistema mitológico complicado, em que os censos são sempre provisórios, há sempre uma porta aberta; ninguém se admira de ver passarem a ele divindades novas – que aliás muitíssimas vezes só são novas de nome. Que importa seja Deméter chamada Ísis pelos Egípcios e introduzida em Roma sob esse vocábulo estrangeiro, como uma filha que volta a habitar na casa dos pais depois do casamento?

Os judeus e os cristãos têm princípios inteiramente outros e estados de espírito inteiramente diversos. Aos olhos deles, a Divindade não é um patrimônio nacional, nem tão pouco – menos ainda – uma confederação indeterminada em número e em forma. O Deus deles é Deus; os outros são meros demônios ou sonhos, cujo culto é pura impiedade e puerilidade, excitando sucessivamente ou ao mesmo tempo a risota e a indignação virtuosa.

Compreende-se a reação hostil que tais concepções devem provocar, e a solidariedade que deve estabelecer-se entre os cultos pagãos mais divididos, quando se trata de troçar semelhante intolerância. Plínio e Tácito chamam os judeus uma raça célebre pelo seu desprezo dos deuses, e que considera como profano tudo o que os outros têm como sagrado14. Em regime pagão, e dada a confusão permanente do espiritual com o temporal, isso quase não se perdoa.

Todavia, acha-se jeito de arranjar-se finalmente com os judeus. A não ser que se tornem cidadãos romanos, caso em que as dificuldades sobrevém e se resolvem de diversas maneiras assaz arbitrárias, eles beneficiam da tolerância geral. As perseguições consistem pra eles, as mais das vezes, em imposições de tributo. O dinheiro é o preço da sua liberdade. Tudo se compra junto a gente para quem o espiritual é antes de tudo negócio temporal, negócio de Estado. A irreligião só é perseguida a título de anarquia: já não se é anarquista quando se paga para a administração da ordem. Os judeus tornam-se excelentes servidores de Júpiter Capitolino, desviando em proveito dele o didracma que os Ben-Israel pagavam ao Templo antes da destruição do santuário. Vespasiano, em todo o caso, assim decide.

Mas o cristianismo não é por muito tempo confundido com sua mãe, a sinagoga. Mãe desnaturada, esta retoma muitas vezes à sua conta o papel de Judas. Interesseira, odienta, ela não quer ligar a sua sorte política à de gente que a abandona cada vez mais, que goza dos seus privilégios e a compromete pelos seus excessos de zelo. Sucede serem judeus os primeiros a denunciar os cristãos às autoridades romanas.

Isso não é muito necessário. Para desvantagem deles, cedo se discerne gente tão extraordinária como esses cristãos. O seu gênero de vida separado, intenso e tão oposto ao século, expõe-nos às represálias de sentimentos melindrados e de malevolências exacerbadas por toda sorte de interesses comprometidos. Toquei neste último ponto a propósito das conquistas da Igreja.

Calúnias atrozes circulam. Os ritos mais sagrados, que se julga bom manter secretos por prudência, tornam-se por esse fato ocasião de acusações infames. Os ágapes noturnos são convertidos em saturnais capazes de fazer corar as saturnais; a eucaristia vira antropofagia: é uma criança que degolam para comerem.

Essas invenções odiosas e tolas acham crédito junto às massas como nos nossos dias o anticlericalismo. Deus sabe o que se chega a fazer engolir, mesmo alhures! Conheci um astrônomo persuadido da existência de uma comunicação subterrânea entre um convento de homens e um convento de mulheres, em seu país. Haviam-lhe dito isso. Sem dúvida haviam colhido isso nos astros. Gente mui grave, como Tácito, como Suetônio, são os astrônomos daquele tempo15. Consideram os cristãos como dignos de todos os castigos, por motivo político sem dúvida alguma, mas também por causa de vícios privados acreditados sobre a autoridade dos dizem. O dicuntur e o ferunt dos Romanos não têm menos poder do que os nossos parece, dizem.

Essas calúnias são bastante espalhadas para que S. Justino diga que consagra a sua apologia “àqueles a quem o gênero humano inteiro odeia e persegue”. O gênero humano é o mundo romanizado que eu descrevi, e é certo que nossos primeiros pais, com suas ideias tão diferentes em tudo, tão definidas, tão nobremente intransigentes, devem fazer aí uma figura difícil de olhar a sangue-frio. Ou as pessoas se rendem, ou se opõem, o que quer dizer que ou são hostis ou são odiadas, sem matizes intermediários.

Pensai que a vida social, impregnada de paganismo, é quase impossível aos fiéis. Viver é apostatar: não há senão esquivar-se ou morrer – a não ser que se vença. Os nascimentos, os casamentos, as festas de família, os atos da vida agrícola: semeaduras, colheitas, vindimas, tudo, na ordem privada, serve de pretexto a atos religiosos: libações, incenso oferecido aos deuses ou banquetes mais ou menos rituais. Quando vos convidam à sua mesa, num dia de festa, escrevem-vos, como achamos num papiro do século II: Tomai lugar “à mesa do Senhor Serápis, a 16 do mês”.

Caráter semelhante têm os divertimentos populares. As instituições civis e militares supõem juramentos religiosos; as funções inauguram-se ou correm risco de inaugurar-se de maneira ritual. Recusar-se a tudo isso, é irritar o gênero humano em grau verdadeiramente insuportável.

E a misantropia complica-se aqui de rebelião, visto como, ao mesmo tempo que se recusam as ações cotidianas, recusa-se a participação nos serviços públicos, que têm o caráter de um dever. Todos os cultos cedem ante a vida romana; todos com ela se acomodam fácil ou respeitosamente; só o cristianismo se enrija: convida a que o quebrem.

Por outro lado, a sobriedade das suas crenças faz os cristãos passarem como racionalistas aos olhos de pessoas que porfiam em complicar e em subtilizar. A ideia nítida que eles têm o Deus uno fá-los passar por ímpios – como Sócrates, - nisto que o Deus que eles adoram só parece definir-se pela  negação dos outros. Afirmar uma coisa sobre mil não é, “grosso modo”, negar tudo? Desprezar o panteão inteiro, salvo um Deus, é uma impiedade manifesta. É bem ruim o caso dos cristãos.

É tão ruim o caso deles, que eles são acusados de maneira a não acharem saída senão para o túmulo. A tolerância romana, tão ampla, tão universal até então, chega a dizer: sede tudo que quiserdes, menos cristãos.


A partir de que época o cristianismo é considerado juridicamente como religio illicita, não se sabe bem. Isso pode ser muito cedo. Em todo caso, no tempo de Tarjano (98-117) a questão não se presta mais a dúvida. O simples fato de ser cristão basta ao juiz. Não há necessidade de articular outra acusação. Magia, incesto, infanticídio, lesa-majestade ou sacrilégio, todas estas imputações absurdas ou atrozes com que o povo os agrava já não têm mais que se justificar no pretório. “Que é que recitais nas vossas tabuinhas? Clama os juízes o veemente Tertuliano. Fulano, cristão? E por que também não: e homicida?” Poder-se-lhe-ia responder: é inútil; os cristãos, como tais, estão fora da lei do Estado, lei que é religiosa ao mesmo tempo que política, porque é política.

Isso não é de admirar. E será abusivo? Sim, evidentemente, em si, visto que se persegue a verdade. Ao invés de sacrificar o cristianismo a um dogma social inferior, a atitude correta seria escutar, convencer-se, visto haver de quê, e render-se. Mas isso de maneira alguma prova que tal magistrado, tal imperador não possa estar, ele “subjetivamente”, muito em regra com a sua consciência.

O cristianismo instaura uma revolução: deve esperar pela sorte dos revolucionários, isto é, pela oposição não somente das pessoas mal intencionadas, mas também dos homens de ordem no sentido estrito do termo, dos conservadores e dos sectários políticos que ele não tiver conseguido imediatamente converter. Quando os homens de ordem são Nero ou Domiciano, devem-se ver coisas piores!

Coisa surpreendente: é sob um sapientíssimo imperador, Marco Aurélio, que os tempos se tornam os mais duros para o cristianismo. As cenas horríveis e gloriosas dos mártires de Lião, as de Cartago, datam do fim desse reinado. Há para isso razões gerais e razões locais; porém os preconceitos do Imperador, tanto mais inextirpáveis quanto são refletidos, a recusa de examinar os fatos, pois a teoria acalma a consciência, a aplicação cega das leis do império, devem entregar os cristãos, sob esse imperador, aos rigores de uma serenidade sem entranhas. Só depois desse alto filósofo, e, ó ironia! Sob um dos imperadores mais odiosos que Roma teve, Cômodo, é que a tranquilidade volta.

Para compreender isso, importa obervar que, a respeito de semelhante problema, os imperadores não são tudo. Um imperador nunca é tudo. Mesmo um Estado centralizado ao máximo, a centralização só relativa pode ser. Entre nós, a sorte do pequeno editor ou do funcionário não depende tanto do governo como do prefeito, dos “comitês” locais, do deputado, até mesmo de um intrigante sem mandato. A política local pesa sobre o indivíduo mais do que a política geral do Estado, e o tirante é mais de temer do que o tirano.

Quando há contra vós, notadamente, isso a que se chama “as leis existentes”, nunca estais em segurança, porquanto, tivesse o poder central intenção de deixar dormir o instrumento de suplício, desde o momento que ele não pode ou não quer suprimi-lo, a gente se arrisca sempre a ver o cutelo desprender-se, mesmo quando a mão dele permanece inerte.

Portanto, mesmo com bons imperadores, os cristãos vivem sob a ameaça constante, e, periodicamente, sob a ação do martírio. Quando César esquece a razão de Estado ou acha nela motivo de tolerância, o que sucede, nem por isso nossos pais deixam de ficar sendo uma caça perseguida, em todo caso disponível, visto como não merece aos olhos de quem quer que seja, no mundo político, a menor benevolência. Ao primeiro sobressalto de ódio popular, graças ao menor incidente local, ou em razão de uma malevolência individual um pouco poderosa, tudo é posto novamente em questão, e a morte trabalha.


Isso explica suficientemente os fatos até o fim do século II. Depois, intervém um elemento moral inteiramente novo: o medo. As pessoas se lembram das palavras de Domiciano: “Eu preferiria suportar um rival em Roma a suportar um bispo cristão”. Semelhante sentimento mostra o quanto está mudada a situação entre a Igreja cristã e o Império. A Igreja tornou-se uma potência. A arrogância serena de um Marco Aurélio ou a segurança de um Adriano já não são admissíveis. A Filosofia acaba de mostrar o que vale. O sincretismo religioso desacredita-se, e, sob os olhares da autoridade romana, o rebanho de Cristo estende-se de maneira a mais inquietadora. O tempo vai chegar em que o perseguido de ontem será o vencedor; o leãozinho, que fora tomado como caça vulgar, mostrar-se-á o “leão de Judá” e pulo irresistível. Antes disso, deve ser tentado o esforço supremo. Tentam-no, e a perseguição de Diocleciano, a que se chamou a era dos mártires, datando a 9 de Agosto de 284, é o ponto culminante desse período.

Não se põe nela, aliás, grande continuidade; procede-se por acessos. Quanto ao resultado, este dá razão à palavra de Tertuliano, tão ousada, tão consciente do milagre na sua forma mais trágica, senão mais alta: “Sanguis martyrum sêmen christianorum; o sangue dos mártires é semente de cristãos”.

Cumpre relembrar as leis dessa germinação cruenta, dizer por que as crueldades dos Césares resultam às avessas, como é que não descoroçoam o lealismo dos cristãos, mas do que nunca afeiçoados ao Império à medida que dele sofrem, e que atitude enfim sabem guardar heroicamente homens em quem o ódio devia produzir naturalmente o ódio, mas em quem, ao contrário, produz o amor e o triunfo social do amor.


II


As razões do triunfo dos vencidos, na luta desigual da Igreja com o Império, são antes de tudo de ordem sobrenatural. Aqui, como também quando se tratava de um extraordinário crescimento – as duas questões, ademais, são conexas – não se pode afastar o milagre. Quem quer que pense nisso com o sentimento do real e do possível humano parece dever consentir nisto. Não é necessário e não é eficaz, aqui, raciocinar; basta ver, mas ver com os olhos da alma.

Todavia, o sobrenatural tem seus meios naturais, que nem por isso são as suas causas; ele segue uma marcha; para agir num plano superior ao homem, toma seus pontos de apoio no homem. Há, pois, razão para inquirir das causas humanas que intervieram aqui, o que redunda em perguntar que caminhos seguiu a Providência em favor do seu miraculoso.

Bem parece que as razões de vitória devem ser buscadas antes de tudo nos sentimentos que a perseguição excita, quer nos expectadores generosos – e isto, já o dissemos – quer nos próprios perseguidos. Milagre de generosidade em ambos os casos, milagre de graça, com a cooperação da natureza.

Os que desdenham os sentimentos, ligando orgulhosamente toda a marcha do mundo a sistemas políticos, ou, baixamente, a fatalidades econômicas, recebem aí um desmentido. O martírio, dominante dos sentimentos inebriados e cantantes da alma cristã primitiva, desempenha um papel capital na harmonia pautada por Cristo; e, admitido o ponto de partida, concebe-se que essa harmonia seja destinada a expandir-se em ondas cada vez mais longas no concerto, embalde dissonante, deste mundo: “O exemplo da morte dos mártires nos toca, escreveu Pascal, porque são nossos membros”.

O martírio é o heroísmo do amor, e, após as nítidas declarações do Salvador, o amor aparece como o centro da doutrina e a pedra de toque da prática. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”: esta palavra do Mestre, que ele aplicou a si mesmo, aplicam-na a si os verdadeiros cristãos. Prontinhos a lhe provarem o sabor delicado e áspero, eles haurem nelas esse sentido do supremo que favorece o estado nascente de todos os grandes movimentos humanos, e, com maioria de razão, de uma obra antes de tudo divina.

Do ponto de vista da “salvação”, isto é, do êxito pessoal da vida, de que nenhum de nós tem o direito de se desinteressar, visto que a vontade providencial coincide aqui com o mais decisivo interesse, visto que cada um recebeu o encargo de si mesmo antes de ser encarregado de outrem – deste ponto de vista, digo, pessoal, mas não egoísta, o martírio é o meio por excelência. Ele une a Cristo na morte, e portanto na vida ao máximo, constituindo um ato último, de todos os mais vital; e por isso mesmo nos une a Cristo na sua ressurreição, já que, para nós como para ele, a morte é uma mera passagem.

A teoria do batismo de sangue, que é primitiva, e que parece ser considerada no início como uma evidência, estabelece o candidato ao martírio na segurança de uma glória celeste imediata e fá-lo repudiar o medo. “Não temais os que matam o corpo e depois nada mais têm a fazer”, disse o Senhor. Esse sublime “nada mais”, esse “depois disso” dizem muita coisa sobre o desdém daquilo que passa em relação àquilo que fica. Que é matar o corpo, se não é libertar a alma, que os seus pecados passados e os seus receios de futuro oprimiam?

Tem-se o direito de pensar que a glória humana religiosamente encarada, isto é, como uma nobre emulação para o bem e como uma alegria de, a título de herói, existir no pensamento de seus irmãos, na lembrança perpétua da Igreja, não é estranha a esse apetite de morrer. Chama-se aos mártires os bem-aventurados, os benditos, os atletas, os magnânimos. Invocam-nos; eles conferem indulgências por meio do bilhete de paz (libellus pacis); conservam-se os seus restos mortais; visitam-se-lhes os túmulos; erigem-se altares sobre suas ossadas; celebram-se-lhes os aniversários; poesias, como as de Pindaro sobre os atletas dos jogos, eternizam esses atletas da alma. Tudo isso torna-se um apelo magnífico aos grandes corações.

O amor ao risco, de que nos têm falado eloquentemente, e de que um esporte novo, como ontem a aviação, basta para exaltar os voos mais belos do que os de engenhos toda via admiráveis, acha aí matéria bem diversa. A cada instante e como pelo efeito de um contágio irresistível, veem-se guardas de prisão ou algozes juntar-se ao rebanho de suas vítimas, e declarar que também querem morrer.

Essa persuasão de que morrer é um lucro, quando é por Cristo, torna mais fácil sem dúvida a nossos pais o cumprimento, mesmo nessas circunstâncias extremas, do preceito evangélico: Amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos perseguem. Quando, no dizer dos Atos (V, 41), os apóstolos sofreram o suplicio do flagelo, logo no inicio do seu ministério em Jerusalém, “lá se iam alegres por terem sido julgados dignos de sofrer o opróbrio pelo nome de Cristo”. Quando se nutrem tais sentimentos, a cólera já não tem lugar; pensa-se tranquilamente no algoz; pensa-se nele tristemente, pelo seu erro, se é de boa fé, e, no caso contrário, pelo seu crime.

Os dois casos aqui se apresentam, e não o ignoram os cristãos. No conjunto, estes atribuem a resistência do mundo ao poder de Satanás, artífice de malícia e de erro no meio dos homens. Estes últimos são vítimas dele, antes de serem seus colaboradores. É, pois, sobre ele que se faz recair a detestação. Digamos mais simplesmente, como o dirá mais tarde Agostinho: o cristão odeia o mal amando quem o faz.

César, isto é, o Estado, se beneficia desse sentimento. Sente-se que ele é escravo do Maligno, já que a idolatria – essencialmente diabólica para nossos pais – é a lei social; mas ama-se a César como criatura de Deus, de Deus que fez os governos, tendo feito os povos; ama-se como benfeitor temporal, visto como, fora da religião, ele protege e desenvolve a vida coletiva, de que os cristãos não entendem de se abstrair. Ama-se também a César instintivamente, como se ama o seu meio natural, o seu berço ampliado, a sua pátria de corpo e de alma.

Daí esse lealismo, que é bem impressionante em homens perseguidos de morte, e que não se desmente. S. Paulo disse: “Submeta-se toda alma aos poderes superiores, pois não há poder que não venha de Deus... Aquele, pois, que se opõe aos poderes resiste à ordem de Deus” (Rm XIII, 1). É verdade que ele assim falava num período de calma; mas era no dia seguinte às atrocidades de Nero, e o epistoleiro incomparável poderia ter visto sua página iluminada pelas tochas vivas em que se consumiam seus irmãos. Pedro, por seu turno, repete: “Temei a Deus, honrai o rei” (I Pe II, 17), esse rei que ia crucificá-lo.

Tertuliano faz notar que nunca os cristãos estiveram metidos nas sedições; que jamais os conspiradores, os Albinos, os Cássios, os Nigros, os tiveram por cúmplices. “César, escreve ele fortemente, é mais César para nós do que para os outros romanos, tendo sido, como foi, constituído César por nosso Deus”16. Estas são grandes palavras; são e serão sempre de tradição na Igreja.

Mas isso não impede que se seja oprimido pelo Império romano como por um poder satânico ao mesmo tempo que divino. Ele é divino como emanado d’Aquele que tudo rege, e como executor das suas vontades relativas à ordem social; é satânico porque mistura à justiça de suas exigências políticas a injustiça das suas pretensões religiosas e dos seus furores.

Estes dois pontos de vista são em toda parte reconhecíveis na atitude cristã das origens. A ele se liga uma teologia que causa estranheza a certos espíritos e que, no entanto, é das mais racionais. De um lado se diz: obedecei aos chefes políticos por causa de Deus; em certas circunstâncias se diz: “é melhor obedecer a Deus do que aos homens” (At V, 29). Isto não se contradiz. Há objetos a cujo respeito a consciência individual está ligada a Deus por intermédio do poder social. Outros há em que ela mesma é juiz, sentindo Deus dentro – como é o caso da lei natural – ou encontrando-o numa autoridade de ordem à parte, como a autoridade religiosa, que o representa diretamente, sem ter de passar pelo estado.

Essas competências diversas fazem a diversidade da atitude cristã. Onde quer que César seja juiz, obedece-se a César. Onde quer que a consciência seja juiz, obedece-se à consciência. E esse dualismo é tanto mais acentuado quanto há aí uma oposição mais completa entre o que a consciência exige e o que é reclamado abusivamente por um poder opressor, que nem por isso decaiu dos seus direitos.

A política cristã sabe assim conciliar tudo: o indivíduo e o Estado, Deus e o homem, insistindo no sentido do estado quando este está apegado aos seus deveres e é respeitador dos seus limites, e pendendo para o lado da consciência quando o Estado abusa, e exige fora do direito. Este último termo da alternativa é o que nos ocupa; é por isso que essa época de sofrimento e de ardor é o ponto de partida histórico disso a que se tem chamado, depois, os direitos do homem. O indivíduo imortal, filho de Deus e cidadão da cidade eterna, erguendo-se humildemente em face das forças coletivas que a palavra César representa aos nossos olhos, foi o cristianismo primitivo quem criou essa grandeza.

Não a conhecia a antiguidade. As suas ideias covardes sobre a natureza do ser humano e sobre os seus destinos não lhe permitiam fazer dele outra coisa senão uma abelha subordinada à colmeia, ou um pato selvagem elemento do triângulo enterrado no céu azul. Exceder em relação ao seu grupo; fazer bando à parte no espiritual e reservar o seu “quanto a mim” mesmo no caso em que o espiritual parece tocar no temporal e por este motivo interessa uma autoridade ciosa e exclusiva, é uma ideia que se não tolera numa sociedade ou materialista ou, em todo caso, mal segura dos porvires humanos, como é o caso de toda a antiguidade.

Se o homem não passa de um átomo pensante, destinado a desvanecer-se amanhã no grande todo em cuja obra a vida efêmera colabora, quem ousará conceber que esse serzinho se erga contra o todo representado pelos poderes sociais, e diga “não” ao que fica, ele que passa? Ao que é quase infinito em amplitude, em relação ao que ele pode justificar de existência? Dir-se-á a esse vermezinho: Submete-te! Se a tua consciência protesta, deixa-a formar pela consciência do grupo, que não é menos teu educador do que tua fonte, visto que dele emanaste em corpo e alma.

Diversamente sucede na hipótese espiritualista, e sobretudo cristã. Sucede mesmo, direi, ao inverso, visto como então já não é o indivíduo que passa, é o grupo; já não é o indivíduo que é pequeno, é esse corpo social constituído de nossos pós, vivificado por um tempo pela vibração de nossas almas, mas que deve esboroar-se mais cedo ou mais tarde, no mínimo quando o planeta arrefecido rolar, féretro triste, em volta do seu sol inútil, contemplando-o as almas de longe, do alto de sua glória.

A dignidade do indivíduo, tal como o cristianismo concebeu e impôs ao mundo, é fundo da política moderna, na medida em que esta é ciosa do progresso e não sonha com retrogradações opressivas.

Logo no inicio, não parece esperar-se semelhante conversão do mundo. O pequenino rebanho, tão heroico espiritualmente, ainda não sonha com uma ação política de que a sua vida espiritual seja a alma. A grande máquina romana parece dever durar sempre e oprimir sempre os eleitos. É uma condição a que as pessoas se submetem como a uma vontade providencial. Faz-se o melhor que se pode para ser um bom cidadão, sendo cristão; mas se, apesar disso ou por causa disso, é preciso sofrer, sofre-se, e se é preciso morrer, morre-se. Faz-se como quando se tratou de gozar saúde por dever e se cai doente. Os que suportam melhor a doença são os mesmos que melhor sabem usar da saúde. Assim os cristãos fiéis às leis e os melhores servidores do Império, como dizem incansavelmente os apologistas, são os mais resignados a esse paradoxo atroz que faz deles uns pretensos revoltosos.

Só mais tarde, quando a sociedade cristã toma corpo e nela se introduzem elementos pertencentes a todos os setores, ao exercito, à política, à magistratura, tanto quanto ao povo, que forneceu os primeiros subsídios, só nesse momento, isto é, a partir do século III, surgem esperanças novas.

Desde o tempo de Marco Aurélio, um Meliton sonhava com uma espécie de aliança entre o cristianismo e o Império, encarregando-se o primeiro, em troca de uma proteção sincera, de fornecer ao segundo os valores morais que aumentariam imensamente a prosperidade. Orígenes retoma este tema uns cinquenta anos depois, com muito mais razão de alimentar esperanças, o que não impede que ele mesmo, torturado em 249, por ocasião da perseguição de Décio, possa perceber que os tempos ainda não estão maduros.

Pode-se mesmo imaginar que tais estados de espírito não entram por pouco na recrudescência das perseguições. Porque o que, no fundo, eles oferecem ao Império é lhe infudirem uma alma nova. Ora, o Império não quer saber disto. A sua alma lhe basta. Ele crê que ela corresponde às suas origens e ao seu fim. A Igreja, se o orgulho dele lhe permitisse levá-la em conta, parecer-lhe-ia aos que estão contentes com este mundo que fecham os ouvidos aos gritos de apelo que nos vêm de lá de cima

A Igreja não é deste mundo, e por esta razão age sobre este mundo a fundo, tentando arrancá-lo a si mesmo para fazê-lo chegar a mais alto do que ele. Para isto é preciso abalar-lhe as raízes. É a epopeia do Cedro na Légende dês siècles:

Et frissonnant, brisant Le dur rocher de marbre,
Dressante ses Brás ainsi qu’um vaisseau ses agres,
Fendant la vieille terre aicule dês forêts,
Le grand cèdre, arrachant aux profondes crevasses
Son trone, et as Racine, et ses ongles vivaces,
S’envola comme un sobre et formidable oiseau.

E, trêmulo, quebrando a dura rocha marmórea,
Erguendo os braços qual nau que ergue os seus maçames,
Fendendo a vetusta terra avoenga das matas,
O grande cedro, arrancando às rachaduras fundas
O tronco, e a raiz, e as suas unhas vivazes
Evolou-se qual ave lúgubre e formidanda.


Isso vai bem nos poemas; mas quando se trata da vida de um Estado, as raízes existem, o solo também, e o selvícola, César, é sempre tentado a bradar, como João no poema:


Joveaux Venus, laissez La nature tranquille. (Recém-vindos, deixai tranquila a natureza.)


Mas sim! O paganismo, aos seus próprios olhos, é “natureza”.

Não importa; a perturbação salutar lançada nos Estados pagãos, primeiro pela existência e depois pela ação social da Igreja, terá o seu resultado. Despertando as consciências retas, agrupando-as, a Igreja criará um Estado no Estado. No espiritual, entende-se! Porque no temporal seria uma grave censura; nós não somos separatistas. Mas no espiritual, é verdade; um grupo cristão num Estado pagão ou paganizante, é um Estado no Estado, e esse Estado, mais ativo se é fiel à alma que traz, tende a encerrar o outro, a envolvê-lo com sua influência para enriquecê-lo de seus dons, para que, tendo posto à frente das suas preocupações “O reino de Deus e a sua justiça”, tudo o mais lhe seja “dado por acréscimo”.

É o que o mundo novo, que vai suceder ao Império, experimentará pouco a pouco, no positivo, e também, ai! Quanto a contra prova. Mil desfalecimentos, de fato, limitarão constantemente os efeitos de uma política cristã difícil de conceber após o longo reinado dos preconceitos, mas difícil ainda de aplicar a uma matéria sempre parcialmente rebelde. É por isso que as lutas que acabamos de descrever não cessarão com as circunstâncias em que as vimos desenrolar-se. Elas são de todos os tempos. E, como já várias vezes insinuei, há outros Césares em luta com a Igreja que não os soberanos ou os ditadores; os poderes coletivos também intervém, e esses imensos poderes anônimos que são as civilizações. Em toda parte onde a Igreja encontra isso a que o seu Fundador chamava o mundo, isto é, não somente as potências do mal, mas o que praticamente dá no mesmo, de ver que as culturas humanas pretendem orgulhosamente bastar-se, os laicismos de todos os jaezes, quer se abriguem nas Sorbonas, nos tribunais, nas bancas, nas ofic
inas ou nas escolas, quer inspirem os sistemas filosóficos, sociais, econômicos, literários, artísticos, etc., a Igreja ergue-se como adversária, porgue vê em conflito o temporal e o eterno, o insuficiente e o Único Necessário. Então, é a batalha; em todo caso, é a divisão, visível ou latente. “A procissão – Escreve Ernesto Hello – passa levando a cruz, e as criaturas dividem-se à sua passagem. As criaturas dividem-se e nem sempre sabem que é a cruz que as divide”.

Não importa, o mundo não está acabado, e a esperança é sempre possível. O reino de Cristo, por mais combatido que seja, subsiste. O que os seus inícios nos fizeram é ver ampliado sob nossos olhos e pode aguardar com confiança o futuro.

A que ponto chegamos sobre isto? E que testemunho traz o tempo atual em favor da Igreja cristã, consideradas as suas aquisições e as suas carências, as suas provações e as suas necessidades?


É a nossa última questão.


14 – Plinio, Hist. Ant., XIII, 4; Tácito, Hist., V, 2, 5, 13.
15 – Cf. Tácito, Anais, XV, 44.
16 – Tertuliano, Apologeticum, 33.