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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Livro inédito no Brasil: A Verdade Sobre o Papado - Rafael Merry del Val

Finalmente este livro que traduzi foi publicado. Ele pode ser encontrado aqui: http://www.editoraloreto.com/produto/a-verdade-sobre-o-papado/

É um dos melhores livros já publicados no Brasil sobre este tema.

O que você irá aprender com este livro:
  • Antes de tudo, o conteúdo deste livro é uma verdadeira aula de como tratar seriamente determinado assunto;
  • As provas de que Jesus organizou sua Igreja sob a autoridade de São Pedro e de seus sucessores;
  • Que São Pedro esteve sim em Roma, e foi lá que ele morreu;
  • Textos patrísticos que comprovam que esta foi a crença ininterrupta dos primeiros cristãos;
  • Que as mentiras protestantes a respeito do Papado são completamente refutadas com uma análise séria das Escrituras e dos textos Patrísticos;
  • Que Pedro é, sem qualquer sombra de dúvidas, a Rocha sobre a qual a Igreja foi construída.




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

São Pedro, Bispo de Roma – Autor desconhecido.

Depois de demonstrado que São Pedro pregou mesmo em Roma, cabe-nos provar ter sido ele o primeiro bispo daquela cidade sem par na Igreja.

Não abusaremos da paciência dos leitores com infindável lista de autorizadas personagens que dão testemunho em tal sentido. Contentar-nos-emos de mostrar, com documentos respeitáveis, que varões como Santo Irineu, Caio, São Cipriano, Optato, Santo Agostinho, São Jerônimo, Suplício Severo, o autor anônimo do Carmen Adversus Marcionem abonam o ponto de vista católico.

Antes de tudo, lembramos que todos os catálogos de bispos de Roma, sem exceção alguma, catálogos organizados com o maior escrúpulo, tanto no ocidente como no Oriente, colocam sempre o nome de São Pedro à frente dos chefes que teve a Igreja.

Se os norteasse com um profundo amor à verdade, há muito que devia ter cessado o clamor de certa classe de protestantes contra os direitos de São Pedro ao título de bispo de Roma.

Fechando os olhos a tantas razões alegadas pela Igreja, o protestante persiste na sua negação invocando, a seu favor, um argumento tirado do silêncio do apóstolo São Paulo. Na verdade, afirmaram eles, se São Pedro fosse o bispo de Roma no tempo das missões apostólicas de São Paulo, infalivelmente teria este último feito referência ao mesmo, quando escreveu a sua conhecida epístola aos romanos…

À primeira vista, semelhante argumento parece de grande alcance, pois não se concebe que o bravo evangelizador dos gentios, numa epístola em que saúda mais de vinte irmãos na fé com morada em Roma, silenciasse o nome do bispo daquela cidade. Não lhe ficaria bem enviar cumprimentos a tantas ovelhas, pondo à margem o pastor.

Outra, porém, é a verdade. Basta lembrar por ora, que São Paulo também escreveu aos cristãos de Éfeso e não faz qualquer alusão ao bispo daquela terra. Por igual enviou epístola aos coríntios, aos gálatas, aos tessalonicenses, aos colossenses, aos hebreus… e em nenhuma delas faz menção dos pastores colocados à frente daquelas comunidades.

Como explicar tudo isto? Primeiramente, é bem possível que os portadores dessas mensagens, que eram pessoas de sua inteira confiança, levassem especiais recomendações, orais ou escritas, para os bispos das referidas paragens. Depois, convém ter presente que eram maus tempos, constantes as perseguições religiosas, e tudo aconselhava a não pôr em evidência o nome do bispo local num documento público. Etc.

Podemos acrescentar a tudo isto que é sempre desaconselhável englobar o nome do chefe de uma diocese na enumeração de simples fiéis.

Quem leu o que aí fica devia naturalmente esperar que o protestante pusesse ponto final nas suas contestações à estada de São Pedro em Roma e à sua consequente investidura episcopal naquela cidade.

Mas o que sucede é que o homem continua no mesmo pensamento: passa de um galho para outro e, sem se dar por achado, lança o seguinte argumento: “Se Pedro ali tivesse a sede do seu episcopado, São Paulo não invadiria anarquicamente diocese alheia”, pois ele tinha por princípio “não edificar sobre fundamento alheio”.

Antes de tudo, meu amigo, este sistema de conduta não foi sempre adotado por São Paulo; e a prova é que ele pregou o Evangelho nas igrejas de Damasco, Antioquia e Jerusalém, que não haviam sido fundadas por ele. Além disto, o argumento apresentado contra nós, se provasse alguma causa, provaria exatamente o contrário dos seus desejos.

Leia com atenção todo o capítulo XV da citada epístola aos romanos. Nela, efetivamente, declara São Paulo que não costumava pregar a Boa Nova onde Cristo já havia sido anunciado, a fim de não edificar em cima de alicerce de outra pessoa (vers. 20).

“Por isso mesmo, continua ele, me via embaraçado, muitas vezes, para ir ver-vos e não tenho podido fazê-lo até agora. Entretanto, já não tenho motivo para me demorar, por mais tempo, nestas terras; e desejando ir ver-vos há muitos anos, logo que me ponha de viagem para a Espanha, espero ver-vos de passagem” (vers. 22-24).

Conforme se vê, as palavras do apóstolo das gentes nos levam a uma conclusão bem diferente das que os protestantes desejam. E qual será esta a conclusão? Paulo comunica que, tencionando ir à Espanha, verá, de passagem, os romanos, com os quais, de há muito, desejava entrar em relações. Não demorará entre eles porque não gosta de edificar em cima de alicerce de outrem. Quer isto dizer, implicitamente, que ali outro já havia edificado antes dele. Aliás, ele já o tinha feito sentir no começo da sua epístola: “vossa fé é conhecida em todo o mundo” (I, 8). Já havia afirmado que “os romanos estavam cheios de caridade, cheios de toda a ciência” (XV, 14). E pouco depois dirá que eram tão submissos a seus superiores eclesiásticos que “a obediência deles era notória em toda parte” (XVI, 19).

De tudo isto se conclui que, antes de Paulo aparecer em Roma, já existia por lá uma cristandade tão florescente que a sua boa fama corria em todo o mundo cristão. Mas quem teria fundado tamanho bloco de discípulos do Salvador na capital do maior império do mundo?

– São Pedro, respondem-nos todos os documentos dignos de respeito.

Pois bem, negando a viagem de Pedro a Roma, os nossos irmãos separados saíram atrás de um possível fundador, lançando mão de todos os recursos da imaginação, já que a História não os favorecia; e ainda hoje estão embaraçados nessa busca eternamente frustrada.

Em lugar de assim procederem, o que lhes competia era pensar como todos os espíritos razoáveis, admitindo que, sendo Roma a capital do Império e a cidade mais corrompida da Europa, onde enxameavam as religiões mais extravagantes, fosse evangelizada e convertida pelo príncipe dos apóstolos, o imediato representante do divino Mestre.

Como se percebe, o exame da epístola aos romanos o que deixa de entrever é exatamente o contrário da tese protestante.

São Pedro em Roma – Autor desconhecido

Depois de haver fundado as igrejas de Jerusalém e Antioquia, as mais célebres da Ásia, partiu S. Pedro para o Ocidente com o propósito de fixar-se em Roma, até então baluarte do paganismo e destinada a tornar-se o centro da vida cristã.
Na cidade dos Césares estabeleceu ele a sua cátedra episcopal. Derramando nela seu sangue por amor do divino Mestre, inaugurou a dinastia dos Papas, que já conta vinte séculos de existência. É exatamente isto que pretendemos demonstrar contra os sofismas do protestantismo. É fora de dúvida que o príncipe dos apóstolos, tendo-se libertado da prisão em Jerusalém, escolheu Roma para sua residência episcopal. Sobre a certeza deste fato, em toda a antiguidade cristã, não pairou sequer a sombra de uma contestação.
Foi somente no século quatorze que apareceu o primeiro a pô-lo em dúvida, aliás interesseiramente. Com o intuito de defender Luiz de Baviera contra o Papa João XXII, Marcílio de Pádua lançou no ar a dúvida, que os protestantes breve converteram em negação formal, como quem aproveita toda a arma para atingir o fim que tem em mira.
Para que saiba, entretanto, quanto é fora de contestação a estada de São Pedro em Roma, bastam os seguintes testemunhos, todos de imenso valor.
São Cipriano que viveu no século terceiro da nossa era e foi bispo primaz da África, numa sua epístola a Antoniano, diz: “Tendo ficado vaga a sede de Fabiano, isto é, a sede de Pedro, e da dignidade da cátedra, foi Cornélio criado bispo” (Epístola X ad Antonianum).
Orígenes, o maior luminar da Escola de Alexandria, falecido em 254, atesta que São Marcos escreveu o seu Evangelho a pedido dos “romanos que tinham ouvido a pregação de São Pedro” (Coment. In Genes., tomo 3).
Tertuliano, morto depois de 222, entre outras alusões à estada de São Pedro em Roma, diz o seguinte: “Oh! Igreja feliz à qual deram os apóstolos, juntamente com seu sangue, o tesou re sua doutrina, onde Pedro se assemelhou ao Mestre no gênero de morte. Etc.” Escrevendo contra os hereges, o vigoroso polemista apelava para o fato da estada de São Pedro em Roma, sem medo de ser contestado.
Há, porém, entre quase uma dezena de outros documentos comprovando a tese da Santa Igreja, dois, pelo menos, de uma força demonstrativa extraordinária. São os testemunhos deixados por Santo Irineu e Santo Inácio.
Santo Irineu morreu em 202, após haver sido educado na escola de Policarpo, que, por sua vez, fica distanciado dos apóstolos apenas por uma geração. Pois este venerando varão, na sua obra “Contra as Heresias”, repetidas vezes fala na presença de São Pedro em Roma. Acha-se isto no III livro, c. I, n. I da citada obra. Eis o trecho decisivo: “Encontrando-se entre os hebreus, redigiu Mateus o Evangelho na língua deles, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundavam a Igreja”.
Não podemos, entretanto, deixar sem especial menção o testemunho de Eusébio, tristemente adulterado por protestantes. Assim reza o texto de Irineu: “Fundando, portanto, e instituindo a Igreja, os bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo entregaram o episcopado a Lino… A este sucedeu Anacleto. Depois deste, em terceiro lugar, Clemente ocupou o episcopado (transmitido) pelos apóstolos” (Adversus Hereses, III, 3)
Vejamos agora o que diz Eusébio na sua História Eclesiástica: “Depois de Pedro, Lino foi o primeiro a exercer o episcopado na Igreja Romana”. É ainda Irineu quem, no seu livro Chronicon, em texto sagazmente omitido por protestantes, escreveu o seguinte: “Como o apóstolo Pedro houvesse fundado a igreja de Antióquia, foi enviado para Roma, e aí, pregando o Evangelho, permaneceu bispo desta cidade por vinte e cinco anos. Depois de Pedro, Lino foi o primeiro a reger a Igreja de Roma.” (Hist. Ecclesiae, livro III, cap. 4)
Diante do exposto, como preservar negando verdades tão meridianas? Negar a verdade conhecida por tal é pecado contra o Espírito Santo, atitude indigna de um discípulo do Salvador.
Santo Inácio, martirizado no ano 107, de viagem para Roma, escreveu várias epístolas a diferentes igrejas, confortando-as na Fé e obediência aos superiores eclesiásticos. Numa dessas cartas, dirigida aos romanos, diz textualmente: “Tudo isto não vos ordeno como Pedro e Paulo, eles eram apóstolos, enquanto eu sou um condenado à morte.”
Parece claro, em tal linguagem, haver nos romanos, já então, um perfeito conhecimento daqueles dois arautos do Evangelho…
[Continua…]

Pedro nos Atos dos Apóstolos – Autor Desconhecido

Não querendo dar-se por vencido, o protestante volta à fala, dizendo que a melhor prova de que Pedro não recebeu especial autorização para dirigir a Igreja é que nunca fez uso dessa investidura.

A crermos em suas palavras, os “Atos”, livro em que São Lucas nos deixou os fatos mais salientes da atividade dos apóstolos, nada nos dirão acerca do exercício do primado de São Pedro. Mas, como tudo isso anda longe da verdade!

Admitindo-se, por hipótese, que Pedro jamais houvesse posto em prática os direitos da sua primazia, poderíamos concluir daí que esse direito não lhe pertencesse? Não e não. Onde já se viu que uma lei deixasse de existir só porque alguém deixou de se utilizar das vantagens que ela lhe oferecia?

Ora, as palavras de Cristo valem por uma lei, dando a Simão-Pedro o direito de governar a Igreja, fazendo-lhe as vezes aqui na terra; se Pedro não tivesse exercido esse direito, poderíamos assim explicar o fato: que não tivesse havido precisão de exercitá-lo.

Repetimos o que acima deixamos dito: o não-uso de um direito concedido por Deus não serve de prova de sua não-existência.

Mas será mesmo exato que os outros apóstolos não deram sinais de reconhecer essa primazia? Será ainda exato que a história da Igreja não contenha certos vestígios de haver ela sido posta em ação? O protestante acha isto tão indubitável que escreveu o seguinte: “a ausência do sol ao meio dia não é mais notável do que a ausência da supremacia oficial de São Pedro nas páginas do Novo Testamento”.

Vamos aos fatos. Não terão os apóstolos dado mostras de reconhecer a primazia de São Pedro? Por que então todos os evangelistas, sem exceção de um só, todas as vezes que falam nos Doze ou os mencionam pelos respectivos nomes, dão a Pedro o lugar de honra e primazia? Não lhe parece que tal prioridade seja altamente significativa, especialmente depois das antigas contendas para saberem qual deles era o maior? Outrora queriam saber qual deles era o primeiro: agora é o próprio São Mateus quem nos afirma no seu Evangelho: “Primeiro, Simão que se chama Pedro” (X, 2).

Recordemos os primeiros capítulos dos “Atos”, onde São Lucas relata os mais notáveis sucessos da Igreja primitiva. Que é que neles se lê? Lá aprendemos que foi São Pedro o primeiro a anunciar o Evangelho aos judeus, depois da morte do Salvador; por sinal que com seus primeiros sermões converteu três mil pessoas (II, 41). Que foi São Pedro quem admitiu na Igreja os primeiros gentios (X, 9 e seguintes). Que foi Pedro quem operou o primeiro milagre em confirmação da fé em Jesus Cristo (III, e seguintes).

Dizem-nos os “Atos” que, da mesma forma que o povo fazia com o Salvador, fazia com Pedro, no sentido de levarem até ele grande número de enfermos para que os curasse (V, 15).

Acha pouco tudo isto? Pois ouça mais. Leia os “Atos” (I, 15 e seguintes) e lá verá que foi São Pedro o apóstolo que promoveu e presidiu a eleição de um novo apóstolo para substituir a Judas. Pelos “Atos” (II, 14; IV, 8) verá também que foi São Pedro o primeiro a tomar a defesa de seus colegas contra o sinédrio, que queria impedi-los de pregar. Leia nos “Atos” (VIII, 20) Pedro condenando, com pasmosa autoridade, o primeiro herege simoníaco.

Se Pedro é preso por ordem de Herodes, toda a Igreja se põe em oração até vê-lo milagrosamente salvo (Atos XII, 3). Parece pouco tudo isto? Pois escute: quando, em Jerusalém, se reúne o primeiro concílio para decidir acerca de uma questão importantíssima, é Pedro o primeiro que toma a palavra e põe termo à controvérsia (Atos XV, 7 e seguintes).

Sempre Pedro é visto como chefe supremo, na defesa da fé e dos bons costumes, na propagação da Igreja, na promulgação das leis, no dom dos milagres, no papel de imediato representante de Jesus Cristo.

São Paulo, campeão antipapal? [Parte II] – Autor Desconhecido

Parece, mas não é…
Focalizemos logo o verbo [pareciam] que, à primeira vista, parece uma bomba atômica, capaz de botar por terra a estátua de S. Pedro e, na realidade, é apenas um sofisma embarcado no equívoco de uma palavra. É que o protestante toma aí o verbo [parecer] no sentido de ter a aparência de uma coisa sem, na realidade, ser essa mesma coisa. Veio daí a ardilosa conclusão tirada por ele: que Pedro, Tiago e João eram exteriormente considerados colunas da Igreja, mas de verdade não o eram.
Ora, qualquer exegeta medíocre sabe que o verbo [videri], parecer, vez por outra se apresenta com o sentido de [ser considerado o que] verdadeiramente é. Eis o que quis dizer São Paulo: “Dizeis que meu evangelho e minha doutrina não são dignos de fé. Pois ficai sabendo que em Jerusalém eu os expus à apreciação daqueles que para vós são os depositários do verdadeiro cristianismo, tidos e havidos como colunas da Igreja. Condenaram-me por isto? Repreenderam-me? Não. Aquelas autoridades não acharam em mim o que condenar e, dessa forma, aprovaram todos os meus ensinamentos. Além disto, Pedro, Tiago e João, aos quais cabia o direito de examinar minha doutrina, reconheceram o apostolado que Deus me tinha confiado e, em sinal de amizade, me apertaram a mão”.
Se o protestante quiser ler outras passagens do Novo Testamento nas quais [parece] se apresenta no sentido de ter [as aparências de uma coisa ou pessoa que é realmente], leia o evangelho de S. Marcos, capítulo décimo, versículo 42; ou o evangelho de S. Lucas, capítulo vinte e dois, versículo 24, para não irmos mais longe.
O protestante da epístola de S. Paulo aos gálatas quer concluir que o apóstolo das gentes fala de Pedro como de um simples colega, e não de um chefe.
Aqui, como em outros casos da vida, vai grande distância entre o ser e o parecer. Parece, realmente, exprimir isto mesmo, mas um exame desapaixonado dos documentos revela o contrário. Nessa passagem da epístola aos gálatas, o objetivo do Apóstolo não é nem a chefia de Pedro sobre a Igreja nascente, nem tão pouco uma divisão sistemática e exclusivista do campo destinado à evangelização.
Por que, caro protestante? Porque . Paulo, ao escrever a citada epístola, já sabia ter sido Pedro quem batizara os primeiros gentios, abrindo para eles as portas da Santa Igreja. Alguns anos para trás, ele, S. Paulo, ouvira dos lábios de S. Pedro a seguinte declaração: “Sabeis que, desde os primeiros dias, Deus ordenou que, por minha boca, ouvissem os gentios a palavra do Evangelho” (Sobre isto leia Atos XV, 7).
Por outro lado, é absolutamente inexato que Paulo houvesse limitado sua pregação aos gentios. E a prova disto é que, em todas as suas excursões apostólicas, sua primeira tarefa era pregar a Boa Nova aos israelitas. Só depois de repelido por estes é que se voltava para os pagãos, quase sempre mais bem dispostos e generosos. Para se convencer disto, queira ler os capítulos 13, 14, 17, 18, 19, 20, 21 dos Atos.
Considerando, historicamente, os doze anos por ele vividos até então a serviço do Evangelho, Paulo faz ver aí como Deus tinha abençoado sua pregação aos gentios por meio de numerosos milagres e conversões, da mesma forma que era abençoado o ministério de Pedro entre os israelitas. Note bem isto: por que aí S. Paulo compara sua carreira apostólica com a de S. Pedro? Não é fora de qualquer dúvida que também os outros apóstolos haviam pregado o Evangelho aos israelitas? Por que destacar aqui somente a Pedro quando se dirige aos gálatas que só ele, Paulo, havia evangelizado e convertido?
A mais plausível explicação é que, pelo fato de ser Pedro o chefe supremo da Igreja, ao menos de nome todos os cristãos deviam conhecê-lo e seguir-lhe a direção.
Agora falaremos do discutido episódio de Antioquia.
Conforme sabemos através do Novo Testamento, achavam-se os apóstolos Pedro e Paulo naquela cidade, cujos cristãos, na sua maioria, tinham vindo do judaísmo. Procurando acomodar-se às exigências do meio, viviam ali os dois citados apóstolos com os novos cristãos sem se preocuparem com leis mosaicas, já então suprimidas pelo Evangelho.
A esse tempo, chegam de Jerusalém alguns cristãos convertidos do judaísmo, ardentes de zelo pela lei mosaica. Temendo cair no desagrado deles e assim afastá-los do cristianismo, pouco a pouco Pedro foi se afastando das refeições a que compareciam os cristãos daquela terra. Além disto, embora sabendo que os ritos mosaicos de nada adiantavam à vida cristã, condescendia com a fraqueza dos judeus-cristãos e diante deles cumpria as referidas prescrições rituais. Era assim, aliás, que procediam os outros apóstolos, sobretudo S. Tiago, bispo de Jerusalém.
Por iguais razões, S. Paulo tinha circuncidado a seu caro discípulo Timóteo; e, numa de suas viagens a Jerusalém, entrou no templo, purificou-se de acordo com as prescrições de Moisés e ofereceu as oblações legais.
Por aí se vê que o retraimento de Pedro significava somente uma condescendência paternal, um ato de caridade para com seus compatriotas recém convertidos ao cristianismo. Mas naquela cidade as circunstâncias eram diferentes das de Jerusalém; e Paulo, que pregava o Evangelho quase sempre aos gentios, previu a campanha de difamação que seus inimigos breve iriam mover contra ele, apoiados no exemplo do chefe dos apóstolos.
Com efeito, muitos judeus e até Barnabé, fiel companheiro de Paulo, já estavam voltando às práticas rituais do judaísmo; também eles tinham deixado de comer com os gentios convertidos.
Em tão sombrias circunstâncias, percebeu Paulo que o caminho a seguir era mostrar, publicamente, que a atitude de Pedro, justificável em Jerusalém, não era bem conforme ao espírito do Evangelho, desde que o Divino Mestre nos havia libertado das peias mortificante do mosaísmo.
Um dia, portanto, num dos ágapes dos cristãos ao qual Pedro comparecera, Paulo o adverte publicamente, como se vê de sua epístola aos gálatas (capítulo II, versículo 13): “Se tu, sendo judeu, vives como os gentios (batizados) e não como judeu, por que obrigas (com teu exemplo) os outros a judaizarem?”.
Agora pergunto ao protestante: haverá, nessa admoestação pública, qualquer contestação do primado apostólico? De modo algum. Aí Paulo não desobedece a nenhuma ordem dada por Pedro, não se insurge contra sua doutrina, não nega sua autoridade. Não lhe falou aí como um superior, cheio de autoridade, porém à maneira de filho mais velho, fazendo-lhe ver a necessidade de viver de acordo com o que ele próprio, Pedro, ensinava noutros lugares.
Eis a única significação dessa passagem da epístola aos gálatas. Ouça lá como o genial Santo Agostinho comenta este episódio, transformando-o em novo argumento a favor as suprema autoridade de Pedro: “Com santa e piedosa humildade, Pedro aceita a observação feita por Paulo (que assim agiu) inspirado na liberdade do amor. Deixou assim aos seus sucessores um raro exemplo de consentirem em ser corrigidos pelos súditos, quando se desviarem do reto caminho…”

“Tu es Petrus” – Pe. Leonel Franca

Texto extraído do livro “Catolicismo e Protestantismo” do pe. Leonel Franca.

O argumento tirado do primeiro versículo não colhe, diz o sr. Ernesto, porque a pedra sobre a qual Cristo diz há de construir a sua Igreja não é o Apóstolo mas o próprio Cristo. “Em resumo: nosso Salvador não disse a S. Pedro: ‘tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja’, mas disse-lhe: tu és um fragmento de pedra (isto é o que significa o seu nome), da pedra que confessaste; e sobre esta pedra, que sou eu, edificarei a minha Igreja; em outros termos: ‘edificarei a minha Igreja sobre mim e não sobre ti’. E fragmentos da mesma pedra são todos os santos que constituem a Igreja”.

O leitor confrontando a paráfrase do sr. Oliveira com o texto evangélico já percebeu tudo o que lhe enxertou desastradamente a sua exegese tendenciosa, “fragmento de pedra que confessaste… sobre esta pedra que sou eu” não existem absolutamente em toda a perícope evangélica onde Jesus Cristo não fala uma só vez de si, mas só de Pedro e a Pedro. Ora, toda esta interpretação visivelmente apaixonada já nos havíamos excluído nestes termos: Quem quer que leia despreocupadamente o passo de S. Mateus para logo se persuadirá que, em todo ele, Cristo só se dirige a Pedro: tibi dico, tu es, tibi dabo, quidquid ligaveris. Não há como isolar um inciso em que o Salvador entrasse a falar de si. Todos os membros do texto se articulam, se compaginam num todo, cuja continuidade não é possível interromper sem lhe quebrar as harmonias divinas.

Mas entre PETRUS e PETRA há diferença que passa entre seixo de rocha, fragmento de pedra e pedra. Não há tal. Esta diferença só existe na versão grega. O nome PETRA, feminino, não se adaptava à designação de um homem. O tradutor grego, helenizando o original KEFAS preferiu a forma PETRUS. Todas as outras versões, onde não havia este inconveniente, conservaram, como pode observar o francês moderno, a identidade da forma verbal nos dois incisos do versículo. Pode verificar-se na versão armena, etiópica, cóptica, persa, caldaica, siríaca, arábica e eslava. […]

Cristo falava aramaico. Ora, em aramaico nenhuma diferença verbal há entre Pedro e pedra. Traduzindo à letra, o texto original de S. Mateus dizia: tu és Pedra (Kefa) e sobre esta Pedra (Kefa) edificarei a minha Igreja. Desfaz-se assim a última aparência de arrimo a que se abordoa, desesperada, a exegese protestante. Como poder, com efeito, afirmar razoavelmente a diversidade na significação de duas palavras idênticas, usadas na mesma frase, e referindo-se uma à outra por um demonstrativo enfático?

Mais. Reduzir o nome de Kefas a um fragmento de pedra, e “fragmentos da mesma pedra são todos os santos que constituem a Igreja”, diz o pastor, é falsificar todo o sentido do Evangelho. Se não era Simão esta pedra fundamental da Igreja por que lhe mudou Cristo o nome em Pedra? Tu te chamarás Cefas, isto é, Pedra, disse-lhe Cristo no primeiro dia que o viu (João 1, 42); tu és Pedra, repete-lhe Cristo agora. Porventura os nomes impostos por Deus são palavras vazias, figuras sem significado, sombras sem realidade? Como! Tanto aparato de circunstâncias, tanta gravidade de palavras, tanta solenidade de fórmulas (Bem-aventurado és tu… E eu te digo: tu és Pedro), para dizer que Pedro será um “fragmento”, uma pedrinha no grande edifício do Reino de Deus! Mas “fragmento”, pedrinha são todos os fiéis, todos os membros da sociedade cristã. E qual seria, neste caso, o significado desta cena, uma das mais graves, das mais majestosas, das mais solenes do Evangelho? Algo parecido com o parturiunt montes!! Não! Não! Ante a exegese protestante revolta-se a consciência cristã num brado da mais justificada indignação.

São Pedro e os Papas – Autor Desconhecido.

Como chave de ouro desta série de argumentos, examinaremos o testemunho do próprio São Pedro.

A sua atitude humilde em face das observações de São Paulo, afirma o pastor protestante, bem nos mostra que “ele (Pedro) inteiramente ignorava possuir a posição e os títulos pomposos que, em nome dele, os papas assumem. Nas suas epístolas, – a crer em nosso ardente contraditor, – nada existe “que se pareça com um decreto do Vaticano”. Em palpável contraste com o autoritarismo vanglorioso das bulas papais, escreve São Pedro: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, esta é a rogativa que faço aos presbíteros, eu, presbítero como eles.” (Páginas 242-243)

Parece-lhe então, meu amigo, que esta humilde linguagem de São Pedro afaste a hipótese de ser ele o chefe visível e universal da Igreja? Pois, a mim não acontece a mesma coisa. Para lho demonstrar, lembro que São Pedro não escrevia para protestantes, preocupados em negar-lhe a autoridade, porém a cristãos que de boa fé haviam abraçado o Evangelho, cristãos que em Pedro reconheciam o continuador de Jesus Cristo e nem por sonho pensavam em pô-lo em dúvida.

– Mas, que contraste entre os apóstolos e as bulas papais! – dirá o pastor protestante.
Está-se vendo que o senhor nunca leu uma bula papal. Como São Pedro, o Papa ainda hoje se dirige aos bispos, saudando-os com o doce nome de irmãos; e assim é que se assina? Servo dos servos de Deus. Estas expressões nada encerram de autoritarismo vangloriosos.

– Mas os Papas – atalhará o pastor – dão ordens terminantes, ameaçam castigos, lançam excomunhões.

Pois não é assim que procedem as autoridades cônscias de seu dever? Foi assim mesmo que, na hora precisa, procedeu o humilde São Pedro. Quando o Sinédrio pretendia algemar a Igreja nascente, impondo o silêncio aos seus apóstolos, eis como, em nome de todos, São Pedro rebate as pretensões do poder civil: “Não podemos! Antes de obedecer aos homens, é necessário (obedecer) a Deus.” (Atos IV, 20; V, 29)

Veja com que severidade São Pedro julga e repreende a Ananias e Safira; veja como o Espírito Santo, confirmando a sentença dada por ele, fulmina de morte os dois culpados (V, 1-11). Veja também o desassombro com que ele rejeita as sacrílegas propostas de Simão Mago e lhe exprobra a miserável oferta (VIII, 18-24). Pois os papas, no decurso dos séculos, não fizeram outra coisa: fustigaram os vícios, condenaram os malfeitores, defenderam a liberdade da Igreja contra os caprichos dos poderosos do mundo.
Seguindo o exemplo de S. Pedro, os Papas, sem deixarem de ser humildes, têm defendido a causa do Evangelho contra o erro, contra o vício, contra a força.

Para se convencer disto, basta abrir a história com sincero desejo de tirar dela as lições que dela se desprendem.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O Ídolo Contemporâneo - Parte II

Por
Rev. Padre Jacques-Marie-Louis Monsabré

Diz-se aí, senhores, que as palavras Deus, Providência e Imortalidade são velhas e intoleráveis; nada mais verdadeiro. O ídolo contemporâneo, submetido à pressão das ideias e dos atos que por um lado nos representam a Deus, e por outro lado a alma humana, cai por terra, quebra-se, esmigalha-se, e protesta contra as temerárias pretensões dos seus fabricadores. Antes de vos dar os pormenores desta consoladora catástrofe, não vos impressionou, como a mim, este fato singular, a saber: que temos a ideia precisa de seres, essencialmente diferentes da matéria, a ideia de forças superiores à matéria? Seja qual for a origem desta ideia, como a poderíamos alcançar, se nada existiu e nada existe além da natureza? É-me absolutamente impossível admitir, que um ser possa nunca formar ideia do que não existe, ideia que, na hipótese de se formar, deveria por fim ser rejeitada quando a inteligência fosse esclarecida pela verdade. E, pois, que nos dizem que somos o ludibrio de uma ilusão, afirmo que a ilusão é improdutível, e que é absolutamente impossível que possamos formar ideia de coisas, cujos elementos não existiram, não existem, não existirão nunca. Estudai as quimeras que o espírito humano concebe, e vereis que se compõem de elementos realmente existentes na natureza: mas na hipótese de que a matéria é o único ser atual e possível, como poderia eu conceber as quimeras, Deus e a alma, se a essência que lhes atribuo está fora de tudo que existe ou pode existir? Não sei, senhores, se vos apresento bem esta dificuldade que o senso comum desde logo opõe ao materialismo; mas eu vejo-a, compreendo-a, e sinto que dissipa completamente do meu espírito todas as dúvidas. Analisemo-la, porém, e deste modo compreendereis melhor a sua força. Deus representa para nós o necessário, o infinito, a suprema perfeição, o motor de todos os mundos, o ordenador inteligente de todos os mundos, o Criador e Senhor da nossa vida. Se Deus não existe, é absolutamente necessário que a matéria corresponda a todas estas ideias, porque é impossível suprimi-las sem dar um desmentido ao espírito humano e sem cair no mais espantoso caos. Não é este o intento dos fabricadores e dos pontífices do grande ídolo; sentem, já vo-lo disse, a fatalidade que atribui à matéria tudo o que se nega a Deus. Logo, a matéria deve ser necessária, infinita, a perfeição suprema, a onipotência inteligente. O peso destas perfeições esmaga e aniquila a matéria. Como seria necessário o ser tantas vezes divisível e diviso, suscetível de aumento e diminuição, incessantemente mutável, o ser que posso imaginar como não existindo, ou existindo de um modo diferente, aumentar, diminuir, mudar, consoante apraz ao meu pensamento? Dominado pela minha potência avassaladora, só por meio dela é que esse ser lograria a ter consciência de si. É um ser necessário! E não possui meio algum de manifestar a sua necessidade, e não a conhece senão sob uma forma contingente e mediante fenômenos contingentes! Estranho ser necessário! Como seria infinito? O infinito não se concebe senão suprimindo simultaneamente o limite e o número. Ora, a matéria está sujeita aos números. Na matéria não só se multiplicam seres distintos, mas cada ser e cada parte do ser se resolve numa inumerável quantidade de seres que escapam à observação experimental. A soma de todas estas quantidades finitas, não produz senão um número finito. Repugna à inteligência um número atualmente infinito, composto de unidades sucessivas. Afirmar a possibilidade de tal número seria o mesmo que destruir os fatos, porque um número infinito na matéria produziria o pleno absoluto, o pleno no seu máximo de densidade; e nesta hipótese o vácuo seria um absurdo, o espaço uma quimera, as formas confundir-se-iam, os movimentos estacionariam, o mundo não seria mais do que uma grande massa informe, uma noite, um repouso imenso. As mesmas dificuldades com referência à perfeição. É impossível admitir a perfeição suprema no ser do qual posso afirmar o mais e o menos, no ser onde não vejo senão mudanças contínuas; e o meu espírito busca um ser no qual, segundo a expressão da Escritura, não há nem sombra nem vicissitude. Dir-me-ão: a matéria está sempre em ação; seja. Mas por mais que atue, nunca logrará elevar-se às regiões sublimes onde o meu espírito contempla a suprema perfeição. À medida que a matéria for aperfeiçoando, o meu espírito subirá mais acima; e, se eu mesmo não sou mais do que matéria, lançar-me-ei, em nome dum ser impossível, a uma luta perpétua. Como admitir perfeição suprema num ser essencialmente contraditório? Se ainda não vedes claramente, senhores, como são profundos os golpes que estas grandes ideias abrem no ídolo, descei das esferas da metafísica às humildes regiões do senso comum, e ponde a matéria em presença do movimento universal, da imensa variedade dos seres e da ordem do mundo. Se Deus não existe, é forçoso que seja a matéria a causa de todas estas maravilhas, e, todavia, a matéria, segundo a confissão dos seus adoradores, é originariamente indiferente e cega. Quando “por um esforço inato, a matéria organiza os seus elementos dispersos, e adquire propriedades e perfeições que não tinha” , escrava de leis fatais que a impelem a progredir, sofre a tirania de todas as circunstâncias fortuitas que determinarão as suas formas. “Singular causa, diz com razão um crítico moderno, que viola todas as leis da lógica, e que está em perpétua contradição consigo mesma: ininteligente, produz uma obra que revela inteligência; cega, realiza a harmonia; imprevidente, a tudo prevê; fortuita, cria a ordem; inconsciente, restabelece a solidariedade; fatal, opera como se fora dotada de vontade própria; inanimada, produz a alma e a vida; privada de razão, de entranhas e de sentimentos, opera prodígios de gênio e de amor”. A matéria é tudo, a matéria pode tudo, a matéria faz tudo; eis aqui, senhores, as proposições mais incompreensíveis que se podem conceber, se não é que as explicações com que pretendem justificá-las não são ainda mais incompreensíveis. Como é que a matéria move o universo? Nada mais simples: o movimento, dizem, é essencial à matéria. Quer dizer, senhores, afirma-se, sem provas, o contrário do que o espírito naturalmente concebe quando une estes dois elementos: matéria e movimento; o contrário precisamente do que a experiência ensina e comprova. Naturalmente concebemos que a matéria é movida; experimentalmente apenas observamos séries de movimentos, cujo princípio escapa à ação dos sentidos. Nestes movimentos observamos uma diminuição contínua em proveito da estabilidade dos corpos, de onde se segue que, se nos é lícito determinar a essência da matéria, apoiados na observação das suas tendências, nunca devemos dizer: o movimento é essencial à matéria, mas sim: o estado estático é essencial à matéria. Sobre este ponto os melhores físicos estão de acordo com a tendência natural do nosso espírito a admitir na matéria um movimento adquirido. Segundo eles, a inércia da matéria é o resultado principal da experiência e o fundamento da mecânica: a física deve sempre fazer entrar nos seus cálculos a matéria como coeficiente da inércia” . E de mais, senhores, já vistes, quando desenvolvíamos as provas da existência de Deus, como era absurda a consequência logicamente deduzida do movimento essencial da matéria: cada átomo deveria possuir, como primeiro motor, o plano harmônico de todas as evoluções do movimento; o infinitamente pequeno tornar-se-ia, por esta vasta concepção do todo, num infinitamente grande . Quereis unir a força e a matéria? Pois bem: o que é a força? É uma série de movimentos produzidos por outros movimentos? É a mesma questão. É uma qualidade inerente à matéria? Mas na matéria há uma qualidade que tende ao repouso e que é a negação daquela. É o calor, a eletricidade, o magnetismo? Estes fenômenos são efeitos do movimento e não causas. É um axioma, uma fórmula, uma abstração? Isto não significa nada . É um ser distinto da matéria? De duas uma: este ser ou é múltiplo como os elementos, ou é único. Se é múltiplo, é forçoso que seria determinado e ordenado ao movimento do todo por uma força superior; se é único, é simples, imenso, inteligente, onipotente; o materialismo não o pode admitir sem se contradizer, sem renegar o seu ídolo. Logo, a inércia é essencial à origem de todo o movimento: primeiro mistério. A indiferença e a uniformidade produziram a imensa variedade dos seres: segundo mistério. Diz-se, senhores, que tudo começou por um período atômico e que a mecânica presidiu à origem das coisas. Abster-me-ei de perguntar ao átomo primitivo e à mecânica original de onde procedem: esta pergunta poderia embaraça-los. Estudemos, pois, aqueles seres tais como nos são propostos. Os átomos constitucionais são idênticos e indiferentes à mecânica indeterminada. Pergunto: a conclusão natural que o senso comum deduz destes princípios não é porventura que devem produzir seres perfeitamente semelhantes, na hipótese de que alguma coisa produziram?E digo, na hipótese de produzirem alguma coisa, porque a afinidade eletiva que se supõe nos átomos, está em manifesta contradição com a semelhança completa e indiferença que se lhes atribui. Não tem ao menos o mérito dos átomos de Epicuro, com os quais se pode conceber uma certa variedade nos seres. De mais, a indeterminação original da mecânica não se pode converter por si em determinação. Ponhamos, porém, de parte esta dificuldade. Admitamos que as causas primordiais, cuja apresentação acabo de fazer-vos, produzem todos os seres orgânicos. Eis a vida; essas causas não vão mais longe. “Não há nada semelhante à vida, senão a mesma vida” . Nasce sempre, e por toda a parte, de m gérmen vivo que se alimenta de um blastema, gerado também por um ser vivo. Para o seu desenvolvimento, a vida necessita ainda de princípios orgânicos que possa assimilar; as substâncias inorgânicas, elementares no estado de indiferença química, não a podem sustentar . Diz alguém “que uma garrafa com carbonato de amoníaco, cloreto de potássio, fosfato de soda, de cal, de magnésio, de ferro, de ácido sulfúrico e sílica é, de um modo ideal, o princípio vital completo” . Desafio a quem quer que seja a que faça passar esse ideal à realidade. Mas as gerações espontâneas? Não as estudei de perto, senhores, mas apelo para as experiências decisivas que enterram para sempre aquela hipótese ; apelo para o testemunho de sábios conscienciosos que me afirmam “que a matéria sem espontaneidade nada pode gerar” , “que a geração espontânea é impossível” , “que todas as experiências rejeitam tal hipótese” , que as forças físico-químicas estão condenadas a uma esterilidade absoluta; “que é necessário admitir, em todo o ser vivo, uma ideia que se desenvolve e manifesta pela organização” . Há mais, senhores; não só todo o gérmen protesta contra o átomo primitivo e contra a mecânica primordial, mas os próprios gérmens protestam contra os gérmens. Com efeito, estes gérmens são todos determinados em espécies distintas que nunca se confundem . Ideou-se, bem o sei, um romance científico, abundante em hipóteses, onde a luta pela existência e a seleção natural exercem um papel extravagante, e onde se infere a possibilidade das variedades nas espécies, a possibilidade das suas transformações sucessivas e, da possibilidade das transformações de uma espécie em outra, a possibilidade das transformações de um reino em outro . Mas a experiência bem longe de justificar estas afirmações audaciosas, pelo contrário, desmente-as. Na verdade, diz-nos a experiência que a seleção artificial só produz variedades; que os esforços livres, inteligentes e calculados do homem para um fim indeterminado desfazem-se constantemente contra a imutabilidade da espécie; que a natureza caprichosa reconduz sempre ao primitivo tipo os produtos da arte humana, desde que a arte humana os abandona. Daqui concluímos, com a experiência, que a seleção natural, resultado de circunstâncias fortuitas, não pode operar nenhuma transformação radical, que os tipos são irreformáveis, que o “plano da organização é invariável na determinação dos limites da espécie, que a espécie não sai da espécie” , numa palavra, que o poder soberano dos átomos idênticos e da mecânica indeterminada são contos que servem para conciliar o sono. Estamos, senhores, na presença de um terceiro mistério de onipotência não menos ininteligível e repugnante que os precedentes: o mistério da harmonia produzida pela ininteligência. Não negamos que a matéria possa tornar-se inteligente; isto seria negar o homem e as suas obras; mas para isto é necessário que a matéria se eleve, por uma longa série de transformações, até ao cérebro humano, produtor do pensamento. Antes de examinar o proceder deste órgão maravilhoso, pergunto ao materialismo se as obras do homem não são precedidas de uma obra inteligente, se não existe uma harmonia preexistente aos nossos atos intelectuais. Não, responde-me o materialismo pela boca dos seus mais conspícuos doutores; a natureza procede cegamente, sem desígnio e sem ordem; ao lado das coisas que parecem manifestar um plano, há as exceções e as monstruosidades; “a harmonia é um ideal do homem que aplica ao universo o seu modo de ver as coisas” . É fácil responder a estas afirmações mais que audaciosas. Se há exceções e monstruosidades na natureza são evidentemente desprovidas de valor em comparação dos fatos precisos e determinados nos quais se manifesta um desígnio meditado; quando muito, aquelas exceções provam o limitado alcance do nosso espírito que não pode explica-las. Aos olhos do verdadeiro sábio, a exceção confirma a lei; a monstruosidade faz sobressair os esplendores da ordem pelo poder do contraste. Quanto ao dizer-se que nos enganamos afirmando a inteligência onde vemos a ordem, é impossível, porque somos obrigados, não pela imaginação, mas pela força analógica do senso comum a reconhecer uma inteligência onde quer que vejamos a harmonia e a ordem. É escusado repetir aqui, senhores, o que já ponderei acerca da harmonia do mundo e dos desígnios superiores que ela nos revela. É necessário fechar os olhos de propósito, para não ver coisas tão evidentes, e para não compreender que, se trabalhamos a fim de que as nossas obras sejam realizadas com número, peso e medida, nada mais fazemos do que imitar essa obra admirável na presença da qual todo o homem reto e sincero tem o sentimento do seu nada. “Analisai a molécula. É um modelo de simetria que apresenta um tipo geométrico; os corpos simples para que formem os compostos não se podem combinar senão em números proporcionais determinados e invariáveis” . Uma potência matemática preside a toda a combinação , o sábio descobre-a no infinitamente pequeno, o povo contempla-a no infinitamente grande. E nos seres vivos “um plano de admirável harmonia dispõe as partes de modo que se adaptam perfeitamente ao fim para o qual o todo existe . Que maravilhosa arte nos tecidos! Só no homem há trinta, e nos seus admiráveis enlaçamentos cada molécula ocupa seguramente o lugar que lhe é devido. Que sábia previdência na lei das uniões e na lei do amor, convergindo não somente à propagação da espécie, mas ainda à conservação, à proteção, a educação de seres frágeis que se preparam para as lutas da vida! Os materialistas invocam a fixidez das leis , a federação dos elementos atômicos, o consensus necessário das suas tendências invencíveis , como se todas estas coisas não supusessem uma inteligência que fez a lei, organizou a federação dos elementos e regula as suas tendências. Agrada-me sobremaneira aquele sábio, quando exclama: “Foi a lei, isto é, a inteligência, a ideia, o espírito, o amor que formou o mundo” , e aquele outro que, no seu arrebatamento, esquece as áridas fórmulas da ciência e canta, como se fora poeta, os gloriosos hinos dos elementos e o espírito divino que os fecunda . Bem vedes, senhores, que há inteligência antes do cérebro humano. Se a matéria não pensa senão por meio deste órgão, é forçoso aceitar este absurdo enorme: a ininteligência é mãe da harmonia. Ó divindade miserável! Ídolo falaz do materialismo, eis-te esmagado pelo universo inteiro. O movimento, a variedade dos seres, a vida, a harmonia, tudo pesa sobre ti e te reduz a pó; quero, porém, descarregar os derradeiros golpes sobre a tua teoria do cérebro humano de que te glorias como se fora a tua obra prima. Não é agora, senhores, ocasião oportuna de fazer uma longa demonstração da espiritualidade da alma: esta questão tratar-se-á a seu tempo. Também não me deterei em refutar esses sofismas vulgares com que os materialistas obstinadamente nos apresentam, como causas das nossas operações intelectuais e morais, as condições orgânicas e as funções concomitantes. Limitar-me-ei a consignar os fatos perante os quais é forçoso admitir, ainda uma vez mais, a impotência absoluta da matéria. Em todos os nossos atos, ainda nos mais nobres e levantados, temos a consciência de que somos limitados, e, por conseguinte, dependentes. E se apenas dependemos da matéria, é à matéria que devemos atribuir a consciência do nosso eu, as nossas ideias, os nossos juízos, os nossos raciocínios, a nossa vontade, o sentimento do dever, isto é, devemos derivar, contra os princípios da razão, o imutável do variável, o uno do divisível, o livre do fatal, o meritório do irresponsável. O ser vivo, incessantemente movido pelo princípio que o anima, perde e adquire, algo desaparece e renova-se a ponto de que, da matéria que possuía no começo de um período matematicamente medido pela ciência, não lhe resta a mínima molécula logo que aquele período termina. Por mais nobre que seja a massa de que é formado o cérebro humano, é certo que a cada momento se transforma. E sendo assim, deveríamos, sob a impressão constante de um trabalho que remova o nosso cérebro, modificar constantemente a afirmação da nossa existência. E não é assim. A afirmação da nossa existência é sempre a mesma. Há vinte, quarenta, sessenta anos, e mais ainda talvez, que nós dizemos: eu. Eu imputável que subsiste através da incessante mutabilidade do nosso organismo. Como explicar isto, senhores? Havemos de dizer que cada átomo antes de se ausentar teve o cuidado de dizer adeus e fazer as suas confidências ao átomo que o vem substituir? Seria uma loucura afirmar tal. O eu subsiste e afirma-se precisamente, porque há em nós uma substância simples e imutável que une as fases mutáveis da nossa existência, e a matéria sempre transformada e sempre substituída, não pode ser aquela substância. Do mesmo modo, senhores, a matéria divisível não pode ser a substância que vê em nós as ideias e realiza a unidade dos nossos juízos e raciocínios. A preciosa massa cerebral, por muito impressionável que seja, não pode receber senão as imagens que lhes são apresentadas e, supondo que as conserva, tais imagens nunca nos representariam senão seres particulares, indivíduos determinados. Se em mim há apenas impressões cerebrais, verei, quiçá, tal árvore, tal animal, tal homem, mas ser-me-á absolutamente impossível, exprimindo por uma só palavra um gênero, uma espécie na sua totalidade, ver a árvore, o animal, o homem em geral, e por maioria de razão se se tratar de coisas material e atualmente irrepresentáveis, com o necessário, o possível, o infinito, o absoluto, o futuro e outras. Não é o divisível, mas o uno que forma as ideias e sobe tudo o que as enlaça em nossos juízos e raciocínios. Quando dizemos: este homem é justo, onde é que se realiza o laço desta proposição? Quando afirmamos que tal conclusão está contida em tais e tais premissas, onde é que se pronuncia esta afirmação? É em cada molécula da substância cerebral? Mas como, se não há mais do que um juízo e raciocínio? Quem opera a intelecção de uma substância tão divisível e divisa, senão a unidade que a governa, a unidade que aquela massa não é, nem pode ser. Dizem: a matéria está sujeita a leis inflexíveis. Que seja. Mas, não obstante, eu sou livre. Se determino marchar para a direita e não para a esquerda, marcho; levantar o braço e não tê-lo imóvel, levanto-o; abrir os olhos, e não tê-los fechados, abro-os; realizar um dado pensamento e não outro, realizo-o. Em todos estes atos eu tenho a consciência de que é a minha vontade que se cumpre. E se eu fosse apenas matéria seria tão escravo da necessidade que não somente não poderia praticar atos livres, mas, o que é mais, nunca poderia saber o que significa a palavra liberdade. Ora, se a fatalidade da matéria repugna à liberdade, a consequência necessária é, que a irresponsabilidade repugna à ideia de mérito ou demérito. Entretanto, senhores, é incontestável que existe em nós a noção e o sentimento daquelas duas coisas, porque temos a noção e o sentimento do dever. Domina a nossa vida, regula, dirige e qualifica os nossos atos, uma lei de que não somos autor e que por isso mesmo não podemos alterar. Se ajustamos as nossas ações com esta lei, praticamos o bem, merecemos; se a transgredimos, praticamos o mal, desmerecemos. Ora, com que direito afirmamos das nossas ações que “esta é meritória e aquela é má” se acima de nós nada há, se depois de nós só há matéria? Não nos dizem porventura que a matéria é o joguete duma inflexível necessidade? Como posso eu adquirir mérito ou demérito se estou sujeito a violências tais de que não posso escapar? O respeito, o amor, a liberalidade, a caridade e a dedicação outros tantos efeitos são da lei fata; o desprezo, o ódio, o assassinato, o egoísmo, não são crimes, não, mas produtos da necessidade. Isto é, decerto, uma inaudita monstruosidade, mas tão criminosa como a existência de um nó no tronco de uma árvore, ou de um tumor no músculo de um animal. Se o materialismo quiser ser consequente, deve admitir que o vício e a virtude são produtos como o vitriolo e o açúcar, que é tão contrário à moral o ser perverso como o ser zarolho ou corcovado . Mas o materialismo revolta-se algumas vezes contra estas consequências, e acusa-nos, quando lhas lançamos em rosto, que lhe movemos uma guerra desleal e que fugimos, por medo, das refutações científicas. Sois testemunhas, senhores, de que eu também fugi destas refutações. Se para esmagar o ídolo contemporâneo não tivera mais argumentos do que o deduzido da ideia do dever, ainda assim não sairia do terreno científico. Os dados do senso íntimo serão porventura tão científicos como os da experiência física? A ciência, a verdadeira ciência, não consistirá acaso em conhecer os princípios e ver neles as conclusões? Se nos princípios do materialismo vejo a destruição de toda a moral, terei ainda a necessidade de procurar novos argumentos? Não tenho o direito de dizer, que quando um princípio destrói o que deve ser, é um princípio falso, visto como os princípios são regras de ser? É por isto, senhores, que os materialistas se veem obrigado a capitular, ainda que contra a vontade. Conhecendo a sua flagrante contradição com a consciência do gênero humano, o materialismo deserta do erro e admite a ideia do dever. Há mais de sessenta séculos que a consciência do gênero humano fala, e nos diz que é necessário cumprir o dever ainda mesmo com detrimento da matéria. Ouvistes? Ainda mesmo com detrimento da matéria! Pois bem, nada mais atroz e insensato do que esse axioma universal da moral, se a matéria é o nosso único criador e senhor. A sabedoria, a justiça, o dever exige que a respeitemos, que lhe prestemos culto, que sigamos docilmente os seus movimentos. E, todavia, nada mais baixo e vil! “Não há inteligência, não há faculdades superiores; tudo é sensibilidade, tudo embrutecimento, tudo terreno”, segundo a enérgica e bela expressão de Bossuet. Bem pelo contrário, foi sempre glorioso, e sê-lo-á sempre, o elevar-se o homem acima da matéria, resistir ao ardor do seu sangue e à violência dos seus instintos em obséquio à justiça, sofrer pela justiça, morrer pela justiça, desprezar a matéria tanto quanto é necessário para manifestar uma grande dedicação. Quando a miséria solta os seus gemidos, quem é mais belo, mais amável, mais digno de louvor, o epicurista que fica indiferente, e que, fiel à máxima egoísta dos pagãos, não sente dor nem piedade em presença do desgraçado, ou o homem generoso que liberaliza o seu dinheiro, emprega o seu tempo, as suas forças e arrisca a sua vida para salvar a vida de um dos seus irmãos? Quando a pátria invadida solta o grito de alarme e chama os seus filhos, qual é o herói, cujos feitos gloriosos mais tarde cantará? É o covarde que, pro amor da sua querida matéria, vai escondê-la e procura ele mesmo subtrair-se às balas e aos golpes do inimigo, ou o homem valente que voa para se alistar nas fileiras dos bravos, e se expõe às fadigas de uma campanha sangrenta e oferece impávido e o seu peito generoso ao fogo do inimigo? Ó matéria, ídolo bestial e frágil, a minha grandeza será tanto maior quanto mais entranhado for o desprezo que te votar. Não só me roubas a honra se te sirvo, mas ainda se em teus braços procuro a felicidade, ela me foge com obstinada ironia . Assim, pois, ó matéria, se tu não podes satisfazer as aspirações da minha alma, como posso eu suportar o jugo da tua divindade? Vai, vai! Eu não tenho necessidade de ti, basta-me o meu grande Deus. Ó Deus! Se tu não existiras, que profundo e espantoso abismo não se abriria para engolir o que há de mais nobre, e grande, e respeitável sobre a terra! Que valor teriam as orações dos santos? De que serviriam as sublimes contemplações das almas absorvidas no ideal? De que serviria o sangue dos mártires do dever? De que serviriam os gemidos e a derradeira esperança da justiça oprimida? De que serviriam as lágrimas dos abandonados? O nada, o nada seria o termo de tudo isto! O nada!... em quanto os perversos estimulados pela irresponsabilidade dos seus crimes devastariam o mundo! Que horror! Não, não, meu grande Deus, nós não queremos ser órfãos. Só tu podes sustentar o universo de que és Pai. Vinde a nós, e repeti-nos a grande palavra do deserto: Eu Sou o que Sou: Ego Sum qui Sum. Sim, força infinita, causa universal, existência necessária, perfeição suprema, inteligência soberana, criador e ordenador do mundo, senhor da nossa vida, tu és o que és, e a matéria é o que não é, porque sem ti seria nada. Vede, Senhor: eis-me aqui, de joelhos, com os olhos e mãos levantadas ao céu: contigo n´so calcamos aos pés os membros rotos do ídolo da falsa ciência, e em lugar da cega multidão que a toda hora exclama: Não há Deus, Non est Deus! Nós, teus filhos, cantamos com o coração transportado e com a alma comovida: Creio em Deus: Credo in Deum.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Panorama do dogma Católico - Pe. Monsabré

Meus senhores; da ideia primordial e fundamental de ser fluem duas ideias que em todos os tempos preocuparam vivamente o espírito humano, e que foram o objeto das suas mais levantadas e constantes aspirações; a ideia do infinito e a ideia do finito. Não há doutrina filosófica nem religiosa, cujos artigos não possam agrupar-se em roda desta simples proposição: Dados estes dois termos, finito e infinito, explicar as suas relações. Com efeito, a vida humana, a vida do mundo inteiro, depende da solução deste problema. Os mesmos que se gloriam de não lhe ligar importância, veem-se colocados diante dele, impelidos pela força invencível das ideias que são como que o fundo do nosso espírito, e pelas aspirações que nos estimulam a conhecer o que somos e a determinar o nosso lugar, as nossas funções e os nossos destinos na universalidade dos seres.

Às questões: o que é o infinito? O que é o finito? Quais as suas relações? Nós respondemos com sistemas, a Igreja católica responde com o seu símbolo, e, independentemente dos sinais externos que as impõe ao obséquio da nossa fé, as soluções que a fé nos subministra são tão evidentemente divinas, que eclipsam todas as soluções inventadas pela nossa inteligência.

Mas não nos antecipemos, nem deduzamos conclusão alguma antes que o aspecto geral do dogma católico haja produzido o seu efeito em nossas almas. Humilde guarda deste esplêndido edifício, quero que, antes de tudo, admireis o seu conjunto; depois comunicaremos reciprocamente as nossas reflexões.

O infinito é Deus, ser primário, necessário, real, pessoal, subsistente em si mesmo e por si mesmo, tendo na sua mesma essência a razão suficiente do seu ser, bem como a razão suficiente do ser de todas as coisas. Só ele é Deus; não há nem pode haver outro. O seu ser, a sua essência, a sua substância, a sua natureza, a sua existência, a sua vida, os seus atributos, as suas operações são um mesmo ato: ato tão simples, tão puro, que nem o podemos conceber, nem exprimir. Se chamamos a Deus o Ser Vivo, o Forte, o Todo-Poderoso, o Senhor, o Eterno, o Altíssimo, estes nomes são realmente verdadeiros, santos terríveis, admiráveis; mas nem cada um deles de per si, nem todos simultaneamente exprimem a plenitude da verdade, e da santidade, e da majestade, e da beleza que constitui o ser divino. Com uma palavra, cujos abismos profundos em vão tentamos sondar. Deus se definiu a si mesmo: Eu sou o que sou. Ego sum qui sum ; o ser na sua mais transcendente e incompreensível expressão. Se o comparais à multiplicidade dos seres, está presente em todos os lugares sem se dividir. Se o comparais ao tempo, é eterno sem que os instantes o meçam nem se sucedam em seu seio.

Não tem faculdades que o distingam da sua substância, e é por isso que opera com uma perfeição infinita, e nada adquire nas suas operações. Sabe tudo que é, e tudo que não é; tudo que pode ser, e tudo que será. A verdade não aparece n’Ele como em límpido espelho que reflete; mas Ele é a verdade mesma . A sua ciência não é causada pelo que existe, senão tudo que existe é causado pela sua ciência ; ciência eterna, imutável, simultânea, direta, imediata, que não pode nunca se enganar. A sua vontade é soberana, mas duma soberania absoluta. Nada há que possa dobrá-la ou torná-la mutável; ainda mesmo que, cedendo às nossas orações, modifique as suas obras, os seus decretos permanecem imutáveis ; previra tudo. É livre no meio da instante necessidade. Não tem outra medida além do seu poder, e o seu poder é sem medida.

É sábio, e como vê todas as coisas num só princípio, ordena todas as coisas a um único fim: Ele mesmo; todos os meios se combinam harmonicamente sob a sua direção; nem a ignorância nem a má vontade alteram os seus desígnios.

É Santo, não duma santidade adquirida com esforço e trabalhada, que não se pode conservar nem aumentar senão à custa dos mais rudes sacrifícios, mas duma santidade tranquila, inalterável, plena, essencialmente isenta de todo o mal, e constantemente manifestada pelo amor invariável e eficaz de toda a retidão e de todo o bem.

É justo, e, na imensa variedade de direitos que parecem se contradizer, dá a cada um o que lhe pertence. Não há merecimento que não premie, nem falta que não castigue. Os nossos cálculos mesquinhos não podem se enganar pelas dilações da sua paciência; mas em nada se altera a perfeita integridade da sua justiça que será plenamente realizada nas derradeiras conclusões do seu governo.

É Bom, não só porque é o bem supremo, mas porque sendo o bem supremo, deseja comunicar-se, e liberalizar do seu ser e das suas perfeições benefícios constantemente renovados, e compadecer-se de todas as misérias tanto quanto o permite a sua inalterável natureza.

É, alfim, perfeito, e, por mais perfeito que o concebamos, nunca poderemos assinar limites à sua perfeição. É o Infinito!

Este infinito, senhores, vive, não essa vida comum a todos os seres vivos e que parte de dentro para fora; mas uma vida sem igual cujo movimento parte de dentro e termina dentro; uma vida em que as origens dependem dos princípio, sem que possa afirmar-se que aquelas são posteriores a estes; uma vida que multiplica o número sem quebrar a unidade, as pessoas sem multiplicar a natureza, a família sem dividir nem aumentar a substância. Não mais que um infinito; e todavia são três, Padre, Filho e Espírito Santo, três que subsistem numa mesma essência, e existem com uma mesma existência: as três pessoas são Deus e portanto um só Deus. Eis o dogma dos dogmas, o mistério dos mistérios. Explicá-lo é impossível: ouso apenas narrar o que admiro.

O Pai inacessível é o princípio do movimento vital, a origem da família divina. Vê-se a si mesmo, manifesta a si mesmo a sua perfeição, e o ato pelo qual se vê e se conhece é tão perfeito, que subsiste por isso mesmo que é produzido. O Filho é gerado. Chama-se Verbo, imagem do Pai, esplendor da sua glória, figura da sua substância, porque representa com toda a perfeição possível o princípio donde procede. São dois, contemplam-se, admiram-se, amam-se, e estes dois amores comunicando-se um ao outro encontram-se, e pelo fato de se encontrarem, subsistem num só amor; é o Espírito Santo. Chama-se dom, caridade, bondade, benignidade, suavidade, unção divina.

São três: Padre, Filho, Espírito Santo: distintos pelas relações, pela subsistência, pelas propriedades pessoais; idênticos pela essência, pela substância, pela natureza. Distintos, e toda via um existe no outro; dependentes pela origem, porque o Filho é gerado pelo Padre, o Espírito Santo procede do Padre e do Filho; dependentes pela missão, porque o Padre envia o Filho, o Padre e o Filho enviam o Espírito Santo. Mas, não obstante tudo isto, as três divinas pessoas são perfeitamente iguais. Oh! Vida! Oh! Processões admiráveis! Não se pode dizer que começam, porque são necessárias e eternas; não se pode dizer que saem fora de Deus, porque são imanentes; não se pode dizer que mudam a natureza divina, porque são tranquilas e imaculadas; não se pode dizer que diminuem ou dividem as perfeições, porque são indivisíveis. No seu movimento espontâneo há tanta ordem, tanta beleza, tanta glória e tão acabado cúmulo de todos os bens, que tornam Deus, ser supremo, o supremo bem-aventurado. Oh! Infinito! Eu te admiro cheio de assombro, eu te adoro com o mais profundo respeito!

Eis o infinito, senhores; mas donde está o finito? Procuremo-lo desde já na sua origem eterna. O finito está no infinito, e pode dizer-se que a primeira relação que tem com ele, é o ser conhecido, visto, ordenado por ele, antes de subsistir fora dele. Não podemos dar ao finito o seu nome próprio em quanto permanecer em estado de ideia; porque esta ideia é, substancialmente, a mesma essência divina, e formalmente o que Deus quer manifestar da sua essência na sua obra, por participação e imitação. Unido a esta ideia há um decreto eterno, livre, eficaz, donde depende a existência de todas as coisas. O que é que insta pela execução deste decreto? É a beleza dos mundos que Deus concebe? Arrebatado pelas sublimes harmonias das coisas que vê em si mesmo, julga porventura adicionar algo à sua felicidade fazendo-as passar da ideia à realidade? Não, senhores. Deus seria sempre o supremo bem, ainda que tivesse conservado eternamente no seu seio todos os seres. Mas Deus é bom e deseja comunicar-se porque é o soberano bem; o seu amor impele-o a associar outros seres à sua felicidade: Vai criar.

Vai criar! E dando a outros a existência nada perderá da sua própria. Vai criar! E comunicando o seu ser e a sua perfeição, nem aquele nem esta perderão algo. Vai criar! E por mais que prodigalize os frutos da sua bondade e da sua onipotência, não se confundirá com eles, nada adquirirá deles, será sempre tudo sem eles, e eles nada serão sem Ele.

Criou! Povoa-se o céu, o espaço imenso abre o seu seio, o tempo começa. O Verbo, palavra de Deus, produz o mundo. E a cada palavra que pronuncia sucedem-se os seres, como ondas harmoniosas, cujo movimento, e vida, e beleza, e glória se engrandecem até tocar os limites do mundo angélico. O número, o peso, a medida, distribuem, regulam, determinam todas as perfeições sobre a escala progressiva que une em formoso conjunto estes dois polos da criação: a matéria e o espírito. Que distância entre o grosseiro elemento sujeito a leis inflexíveis e as inteligências puras, cujos coros harmoniosos recebem uns dos outros os raios do eterno Sol!

Mas nesta distância não há abismo algum que não esteja povoado.

As substâncias incorpóreas de que Deus rodeou o seu trono, superiores ao mundo visível pela perfeição da sua natureza e das suas operações, decrescem e diminuem em perfeição desde o mais abrasado serafim até ao mundo dos anjos, aproximando-se das criaturas sobre as quais devem exercer a sua alta e salutar missão. Por outra parte, o átomo saído dos confins do nada, sobe sem cessar transformado sucessivamente pelo movimento e pela vida, até unir-se imediatamente com o espírito, e até ligar e completar num só ser a perfeição do finito.

Este ser, depois de cuja aparição Deus exclama: Todas as coisas são boas, perfeitamente boas, cuncta sunt valde bona, é o homem, laço maravilhoso, concorrência sublime de todas as vidas. Os seus pés estão fixos na terra, mas a sua fronte levantada olha para o céu. É matéria como o mundo que tem sob os seus pés; mas é também espírito como os anjos que descem até ele. Gravita, vegeta e sente; mas também pensa e quer; é livre, conhece a verdade e ama o bem. É medido pelo tempo e pelo espaço, mas participa do eterno, do necessário, do universal, do inteligível. Recebe as impressões do mundo inferior, mas transforma-as, e faz pensar e orar nele todos os seres de que é rei e pontífice. Contempla as coisas que passam, e sente-se arrastado por suas correntes; mas também alimenta em seu coração o desejo e a esperança certa da imortalidade.

Sua imortalidade é a vida no infinito, porque, entendei-o bem, senhores, Deus não abandona o homem aos caprichos do azar e à mercê dum cego destino; convida-o para o seu seio, e para o levar a si, respeitando o seu livre alvedrio, cobre-o com a sua providência, senhora de todos os seus movimentos, que excita com soberana autoridade, e dirige com arte infinita, e o faz caminhar para o fim supremo, onde se consuma juntamente a glória do Criador e a felicidade das criaturas. Deus eleva este fim supremo, por um dom gratuito da sua bondade, acima de todas as legítimas exigências da natureza. Quer ser conhecido, amado, possuído, não nas representações sempre incompletas da sua infinita beleza, mas face a face, tal como é, em todo o esplendor da sua glória e em toda a perfeição da sua essência. Oceano sem praias, quer que a alma humana se engolfe em suas ondas luminosas, para a inebriar com as suas castas e eternas delícias.

Mas para que esta união se possa realizar, é necessário que a natureza sofra aqui uma transformação que a prepare para a sua transformação suprema. A inteligência, o amor, a liberdade, a imortalidade, imagem e semelhança de Deus, não bastam para que o homem, atravessando todas as esferas do infinito, seja um dia consumado no infinito e como que participante da sua vida bem-aventurada. Vem, pois, princípio de toda a vida, de toda a felicidade, vem e faze que a criatura se assemelhe a ti tanto mais, quanto és tu o mesmo que a animas com a graça. A graça, semente misteriosa que transforma o homem num novo ser; a graça, inefável geração que permite ao homem dizer a Deus: “Meu Pai”, porque se torna participante da natureza divina; a graça, dom sobrenatural que penetra a alma e torna imediata e formalmente justa, santa, agradável a Deus, capaz de merecer por suas obras a visão e a posse da eterna beleza; a graça, princípio e raiz de hábitos e de operações divinas; a graça, força, luz, rio sagrado que vai diretamente ao oceano da perfeição; a graça, habitação de Deus na alma; a graça, começo da glória e da eterna beatitude.

Oh, senhores, que fecunda doutrina! Não vos parece que resolve desde já com esplendor incomparável, estas questões que nos torturam: Que é o infinito? Que é o finito? Quais as suas relações? O infinito é o Deus perfeito, autor, motor e consumador de todas as coisas, o finito é a criatura de Deus, essencialmente dependente, não só na sua origem e nos seus movimentos, mas também nos seus destinos. A suma das soluções parece completa, e entretanto, senhores, vós os sabeis, o dogma católico contém outras afirmações que, sob as misteriosas dobras das que acabais de ouvir, mais se aproximam da nossa miséria.

A nossa miséria é o pecado. Começou nos céus pela revolta dos espíritos orgulhosos que pretendiam igualar-se ao Altíssimo, entrou, pelas sugestões destes malditos, na humanidade cuja glória e felicidade invejavam. O pai dos homens perdeu livremente a graça da salvação espiritual e corpórea, bem como os privilégios que devia transmitir aos seus descendentes; e desde então nascemos deserdados e feridos de morte. A nossa fronte despojada do seu diadema inclina-se tristemente sobre a natureza ingrata e rebelde ao nosso domínio; o mundo exterior esforça-se por nos atrair a si; a nossa carne revolta-se contra as altas e puras aspirações do nosso espírito; a nossa liberdade esmorecida rende-se e capitula nesta luta; o dever traído acusa-nos; de justos, felizes, impassíveis e imortais que éramos, tornamo-nos pecadores, miseráveis, condenados ao sofrimento e à morte.

E Deus podia deixar-nos neste estado para satisfazer a sua justiça, podia exercer a sua bondade sobre seres novos e fazê-los entrar gloriosamente no seu plano primitivo contra o qual nos revoltamos. Mas não; a vitória do pecado seria aniquilada pela perfeição divina. Surge um novo plano; não disse bem, senhores, devia dizer: revela-se um desígnio oculto e completa as manifestações da bondade de Deus sobre as criaturas, porque o pecado estava previsto e a economia da redenção decretada nos eternos conselhos. O Verbo Divino, querendo unir-se ao finito para nos fazer compreender a harmonia das perfeições divinas – a sabedoria, a onipotência, a justiça e a misericórdia -, tinha empenhado, desde toda a eternidade, a sua palavra ao Pai celestial.

No mesmo tempo em que o gênero humano se tornava prevaricador, Deus lhe revelava o complemento da sua obra fazendo-lhe aparecer, no futuro das idades, a figura radiante do Verbo encarnado. Os séculos, os espaços, os homens, o mundo, tudo se ordena a Ele. A graça do renascimento e da salvação, que deve substituir a graça original perdida para sempre, depende dos seus merecimentos. À questão: quais as relações entre o infinito e o finito? Foi necessário responder desde então: O finito é purificado, regenerado, santificado, divinizado pelo infinito, vivendo com ele numa só pessoa, Jesus Cristo, Filho único de Deus, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Quarenta séculos de preparações precedem o seu nascimento. As tradições, os oráculos, as maravilhas, os desejos, as virtudes, os crimes, as revoluções, as catástrofes convergem para o seu berço, e quando veio a plenitude dos tempos, o Espírito Santo fecunda, pelas suas castas operações, o seio duma Virgem, e o coro dos anjos canta no céu: Ó terra, eu te anuncio uma grande alegria, hoje nasceu o Salvador do mundo. O Verbo encarnou. “Comércio admirável! Exclama a Igreja, o Criador do gênero humano assume um corpo como o nosso, e nascendo milagrosamente duma Virgem comunica-nos a sua divindade” .

Com efeito, senhores, a Encarnação do Verbo revela-nos o duplo mistério do infinito abatido até à nossa miséria, e o mundo divinizado pela mais íntima união que pode se conceber. Não se trata desse concurso universal que o Senhor da vida presta às criaturas, nem da união moral que se estabelece entre Deus e o justo, cheio de graça; não se trata da confusão de duas substâncias que se penetram para formar uma nova substância, nem da ação circunscrita, transitória, intermitente dum espírito superior sobre um espírito inferior, como na inspiração profética; mas sim da mais perfeita das uniões que Deus pode realizar com uma criatura; trata-se da união profunda, contínua, permanente, sublime, incompreensível da natureza divina com a natureza humana; união que, segundo a expressão do Apóstolo, resume todos os mundos, torna divinas, infinitas, no sentido mais estrito e completo, todas as ações duma natureza finita; união que permite a um filho do homem dizer a um Deus o que lhe diz o Pai que o gerou desde toda a eternidade: Meu filho. União, alfim, em virtude da qual o gênero humano tem direito de dizer ao Filho de Deus: Somos teus irmãos.

Nasceu este amável e pequenino irmão, e, ainda que no seu pobre presepe nos oferece a imagem da maior debilidade e da mais profunda indigência, é rico e possui todas as perfeições. A sua alma, banhada na luz que é a nossa bem-aventurança, vê todos os segredos divinos, a sua ciência não tem aurora, e entretanto parece crescer em sabedoria ao passo que cresce em idade. É a inteligência suprema, e entretanto não quer ensinar ao mundo senão o que o seu Pai lhe ensinou. Vive no meio dos seus, e os seus não o reconhecem, entretanto passa fazendo o bem; a sua onipotência é a humilde serva do seu amor. Está engolfado nas delícias da união divina, entretanto digna-se assumir as nossas misérias, mesmo até a semelhança de pecado. Foi por causa desta semelhança que o Deus que o ama como a si mesmo o fere sem piedade. Sofre, chora, geme, queixa-se, enchem-no de ignomínias, sua sangue por todos os poros do seu corpo sacrossanto, é cravado numa cruz infame; morre amaldiçoado e desonrado: Consummatum est: Tudo está consumado. As perfeições divinas brilham no coração martirizado do Filho de Deus, como um fogo amortecido, desde largo tempo, pelos nossos crimes; a sabedoria e a onipotência, reveladas por obras indizíveis, conciliam a justiça e o amor compassivo; o gênero humano está salvo, e Jesus Cristo, seu Salvador, é para sempre o seu Senhor, o seu rei, a sua vida.

Assim como Deus não abandona o mundo que criou, assim também o Homem-Deus não deixa entregue aos seus caprichos o mundo que regenerou. Governa-o, é o seu reino, reino cujos elementos preparou durante a sua vida mortal, e ao qual pôs o selo do Espírito Santo; vivifica-o, é o seu corpo. Ainda que sentado no céu à direita de seu Pai, Jesus Cristo está presente na sua Igreja. A soberania e a autoridade infalível do Chefe está representada nesta Igreja santa, católica e apostólica; e a torrente purpúrea do seu sangue corre de forma superabundante na mesma Igreja. Jesus Cristo informa os nossos passos no caminho da verdade e da lei, enquanto que invisivelmente nos comunica, como a cabeça aos membros do corpo, as correntes da vida. Anima-nos, comunica-nos a plenitude da graça, apodera-se do princípio das nossas ações, das nossas próprias ações, transforma-as, apropria-se delas e imprime-lhes o selo da divindade. Somos n’Ele um mesmo corpo, cujos membros estão, dum modo sublime, numa perpétua comunhão de orações, de boas obras e de merecimentos; do céu à terra, da terra aos abismos onde os justos esperam a hora do seu resgate.

Por meio de sinais sensíveis, sagrados e eficazes, Jesus Cristo, cabeça da humanidade cristã, chama a si os seus membros, e dá-se-lhes a conhecer. Uma matéria humilde se une às palavras, e eis o sacramento; a vida divina precipita-se na alma desde que o sinal se põe em contato com o corpo. Um sacramento faz-nos nascer para a graça, outro nos comunica os encantos e o vigor da adolescência espiritual. Um sacramento nos alimenta, outro nos purifica das nossas faltas, um outro apaga as culpas até às últimas relíquias, e nos prepara a entrada tranquila na eternidade. Um sacramento dá à sociedade espiritual o seu chefe, o seu rei: o sacerdote; um outro santifica as fontes da vida, e enche a sociedade temporal de famílias segundo o coração de Deus.

São sete como as cores da luz, sete como as notas da música; mas o sacramento central onde real e substancialmente reside o eterno Sol, o Verbo por meio do qual Deus canta as suas perfeições infinitas, ordena a si todos os outros, já como preparação, já como simbolismo. A Eucaristia é como que a nota dominante que modula a escala misteriosa dos signos divinos.

Assim é que chegamos ao termo da nossa peregrinação sobre a terra; ainda ali se nos apresenta o Homem-Deus, Jesus Cristo. É Ele o vencedor da morte; o Sol da vida que projetará a sua luz até ao fundo de todos os sepulcros humanos, reunirá o pó disperso dos nossos corpos e lhe comunicará a virtude da própria ressurreição. É ele que nos ensinará a cantar esta formidável sátira das supremas derrotas da morte: O mors, ubi est victoria tua? O mors, ubi est stimulus tuus? Ó morte, onde está tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ele presidirá ao nosso juízo e pronunciará a nossa sentença, levará aos céus os benditos de seu Pai, e condenará os malditos aos suplícios eternos. Ele reunirá num lugar todas as gentes espalhadas pela superfície da terra, para uma palingenesia gloriosa, revestirá suas almas duma luz indefectível e torná-las-á dignas moradas, e para sempre, dos nossos corpos ressuscitados e imortais. Ele entoará este grito triunfal, eternamente repetido pelos inumeráveis exércitos dos escolhidos. Louvado seja Deus: Alleluia.

Eis aqui, senhores, todo o dogma católico. Recolhei-vos por instantes, eu vo-lo suplico, antes de ouvirdes as conclusões que vou deduzir da consideração deste maravilhoso conjunto. Prometo-vos que será breve.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

São Jerônimo e a Virgindade de Maria

Por Emmanuel-Marie O.P.

Encontramos já no final do quarto século um certo Helvidius atribuindo outras maternidades à Virgem. Segundo ele, Maria deixou de ser virgem após o nascimento de Jesus.

Não se conhece as elucubrações deste Helvidius a não ser pela refutação feita por São Jerônimo no tratado chamado Adversus Helvidium, e através de menções que ele fez em seu comentário ao primeiro Evangelho.
Explicando, por exemplo, o texto de São Mateus 13, 55-56 (“Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?”), São Jerônimo declara: “Em Jesus Cristo, eles (os judeus, e depois os hereges) viam apenas um homem, e pensavam que ele era filho de um carpinteiro. Vos espanta que eles se enganassem sobre os irmãos quando se enganam sobre o pai? Esta questão foi exaustivamente exposta em meu opúsculo contra Helvidius”[1]

E, um pouco antes, no verso “Eis aqui minha mãe e meus irmãos” (Mt 12, 49), ele afirma: “É minha mãe quem me gera a cada dia na alma dos fiéis, são meus irmãos quem faz as obras de meu Pai. Portanto, Jesus não negou sua mãe, como pretendem Marcião e Manes para que se pudesse crer que o que nasceu foi um fantasma, mas ele colocou os seus apóstolos antes da parentela para que nós também, quando tivermos que colocar as afeições na balança, prefiramos o espírito em relação à carne. Tua mãe e teus irmãos te procuram. Alguns, baseando-se em divagações dos apócrifos (sequentes deliramenta apocryphorum), supõem que o Senhor tinha irmãos, filhos de José com uma outra esposa, e imaginam uma certa boa mulher chamada Escha (quandam Escham mulierculam configentes). Mas, e sobre isto trata nosso trabalho contra Helvidius, nós compreendemos que estes irmãos do Senhor não eram filhos de José, mas os primos e primas do Salvador, filhos de Maria, tia materna do Senhor, que é a mãe de Tiago o Menor, José e Judas, assim como vemos em outra passagem do evangelho[2]. Os primos são chamados de irmãos, coisa que toda a Escritura demonstra[3]”.

1 — Adversus Helvidium, PL 23, 188 a, 196 c.
2 — Voir Mc 15, 40 et par. ; Jn 19, 25.
3 — Commentaire sur saint Matthieu, Sources Chrétiennes 242, p. 262-263.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Maria permaneceu sempre virgem

Por Irmão Emmanuel-Marie O.P., Le sel de la terre nº 41

É impossível que Jesus tenha tido irmãos e irmãs no sentido estrito da palavra, uma vez que os Evangelhos afirmam claramente a virgindade perpétua de Maria, sua mãe, e que este é um dogma de fé atestado desde os primórdios da Igreja através do consentimento unânime de toda a Tradição.
Mateus afirma que Maria concebeu pelo Espírito Santo [antes] de viver junto com José (Mt 1, 18), afirmando que ainda não haviam se conhecido (no sentido conjugal) [até que] ela deu à luz um filho (Mt 1, 25). Mas estas observações escritas para enfatizar o milagre da intervenção divina na concepção de Jesus não implicam que Maria e José a partir de então viveram o caminho comum dos casados e que Maria teve outros filhos. O reconhecimento de determinado estado antes deste ou aquele evento não implica, por si só, que deve ser outro o estado após este evento.

Ademais, se compararmos os vários textos do Evangelho relacionados com a concepção e nascimento de Jesus, fica claro que Cristo era seu único filho.

No relato da Anunciação, a Virgem objeta ao anjo que lhe fez o anuncio: "Como se fará isso, pois não conheço homem?" (Lc 1, 34). Esta bem formulada pergunta pressupõe que Maria deseja a todo preço permanecer virgem. E isso é tão verdadeiro que, para descartar esse incômodo argumento, alguns críticos não hesitaram em rejeitar a autenticidade deste verso [COMENTÁRIO MEU: Assim como alguns rejeitam a autenticidade de versos que atestam a Divindade de Cristo. Eles pressupõem que milagres não podem acontecer e já descartam este fato, assim como ALGUNS protestantes pressupõem erroneamente que isso seria exaltar demasiadamente Maria, e já descartam qualquer obra que Deus tenha feito em sua vida].

Por outro lado, o texto da Infância de Cristo, especialmente o episódio do reencontro de Jesus no Templo (Lc 2, 40-52), mostra que havia apenas um Menino com Maria e José, doze anos após o nascimento em Belém. A lenda dos irmãos e irmãs de Jesus não se sustentam com os fatos.
Jesus ainda é chamado por seus compatriotas “o filho de Maria” (Mc 6, 3). Se abstrairmos as razões providenciais para esta expressão, que sublinham a ausência de paternidade terrena e, portanto, a singular e miraculosa geração de Cristo, deve-se notar que esta pergunta é surpreendente no contexto antigo onde as afiliações eram feitas através de menções ao pai (Ex: Mt 16, 17; Mc 1, 19). Entretanto, esta referência justifica-se pela morte do pai e quando a viúva não tinha outro filho (Assim como o jovem falecido de Naim, que é designado como "filho único de sua mãe, que era viúva" Lc 7, 12). Esta expressão pode ser considerada como um indicativo de que, por um tempo considerável, Jesus foi conhecido em sua região como o único filho de uma viúva.
Finalmente, o fato de Jesus agonizante ter confiado sua mãe a João, e que, "dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa" (Jo 19, 26-27) só pode ser explicado se Cristo a tenha deixado sem irmãos carnais.

A expressão “seu filho primogênito”
Quanto ao termo “primogênito” (prwtovtokos) relatado por São Mateus (1, 25) e Lucas (2, 7), isso não implica que houve outros, ao contrário do que os críticos da virgindade perpétua de Nossa Senhora querem dizer. Significa apenas que Jesus era o primeiro filho de Maria e teve, portanto, de acordo com a Lei Mosaica, que ser apresentado ao Senhor e resgatado certo tempo após o nascimento (Num 8, 17; 18, 15-16).

Na Lei de Moisés, o termo “primogênito” significa simplesmente a primeira criança do sexo masculino “que abre a madre”, sem presumir a existência ou a esperança de outros. É uma tradução da palavra hebraica bekhor, que significa “primícia” (Ex 11, 5; Dt 15, 19; Nm 10, 36; LV 2, 14). Todos os primogênitos (esta lei inclui até mesmo os animais) “pertencem a Deus”, porque, diz o Senhor, "todo primogênito entre os israelitas, homem ou animal, é meu, eu os consagrei a mim no dia em que feri os primogênitos no Egito" (Nm 8, 17)

É sob esta mesma lei que os levitas foram “atribuídos” a Javé. Os levitas, de fato, foram “substitutos para aqueles que abrem a madre da mãe, o primogênito de todos”, eles “tomaram o lugar dos primogênitos dos israelitas” que Deus tinha reservado a si (Nm 8, 16-17; Nm 3, 45-51).
Fica claro, então, que é fazendo referência ao resgate legal que os evangelistas chamam Jesus de “primogênito” da Virgem. Entretanto, em relação a Cristo, o termo também evoca uma primogenitura de uma ordem diferente da carnal, bem superior a esta, sobre a qual São Paulo declara que Cristo é o “primogênito de toda a criação, pois nele que todas as coisas foram criadas” (Col 1, 15-16). “Primogênito dos mortos, [...] porque Deus quis habitar nele toda a plenitude da divindade” (Col 1, 18) e porque é, por sua própria ressurreição, “primícia” dos ressuscitados; “primeiro entre muitos irmãos”, isto faz referência a quem Deus predestinou para fazer imagem de seu Filho, os quais chamou, justificou e glorificou após seu Cristo (Rm 8, 29-30).

São Jerônimo, em seu comentário a Mateus 1, 25, dá a mesma explicação: “De acordo com esta passagem, diz ele, alguns suspeitam, o que é o cúmulo da perversão, que Maria também teve outro filho. Eles dizem se emprega o termo primogênito a quem tem irmãos. Mas as Santas Escrituras referem-se geralmente aos primogênitos não como aqueles que tiveram outros irmãos, mas ao primeiro nascido” (Saint Jérôme, Commentaire sur saint Matthieu, Livre I, dans : Sources Chrétiennes nº 242 (traduction Émile Bonnard), Paris, Cerf, 1977, p. 81-83.). Esta interpretação foi confirmada pela descoberta no Egito de uma inscrição judaica do reinado de Augusto: o epitáfio de uma mãe que morreu no nascimento de sua “criança primogênita” (prwtovtokou tevknou). É óbvio que nenhum outro poderia nascer da mãe morta (Ver o artigo do padre FREY em Biblica, 1930, p. 385-390.)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Refutando as mentiras contra a Inquisição

Muitos tentam usar a Inquisição como um fator a ser pesado contra a Igreja Católica. Entretanto, a maioria dos que a usam ou são completos desconhecedores do assunto ou são falsários desonestos. Eis um texto interessante de Jacques-Marie-Louis Monsabré que demonstra a falsidade destas acusações:

***

A Inquisição não pode ser uma arma perigosa contra o catolicismo, a não ser que provasse que a Igreja, abusando do seu poder legislativo e coercitivo, ordenara atos bárbaros e monstruosos, tão contrários à lei natural como ao espírito evangélico, e que deste modo errara gravemente na direção geral dos costumes cristãos. Para provar isto, os inimigos da religião obstinam-se em confundir a própria instituição do tribunal eclesiástico com o uso que dele se fez na Espanha, e, mercê a esta confusão, criaram e conservam uma multidão de prejuízos, que aparecem até no espírito daqueles que se dizem sinceramente cristãos.

Um exame sério e imparcial da Inquisição na Espanha destrói este processo desleal. Basta ler os decretos reais, para nos convencermos que a Inquisição Espanhola era um tribunal intimamente ligado com o despotismo político.

“Crê-se que o tribunal da Inquisição era puramente eclesiástico, diz Mr. de Maistre... É um erro. Era um tribunal puramente real; era o rei quem designava o Inquisidor geral, e este quem nomeava os inquisidores particulares com anuência do rei. O regulamento constitutivo deste tribunal foi publicado no ano de 1484, por Torquemada, de harmonia com o rei. Isto foi formalmente confessado pelas cortes ultra-liberais de 1812: ‘Os reis rejeitavam sempre os conselhos que lhes davam contra este tribunal, porque são em todos os casos os senhores absolutos de nomear, suspender ou reconduzir os inquisidores’. Assim, no seu testamento, Carlos V, muito autocrata, recomenda com instância a Inquisição ao seu sucessor, a fim de que possa cumprir os seus deveres de soberano”.

Depois de citar estes testemunho, Mgr. Hefelé acrescenta: “Os estatutos que, em 1484, foram dados à Inquisição, indicam de si a justiça dos assertos que acabamos de citar a respeito do caráter político da mesma Inquisição, e provam indubitavelmente, que era realmente uma instituição do Estado. Com efeito, encontram-se a cada passo as seguintes expressões: Suas Altezas(Fernando e Isabel) querem, ordenam; Suas Altezas perdoam; não é a vontade de Suas Altezas; tal é a ordem dos Príncipes sereníssimos; o Rei e a Rainha acham bem: etc., etc., ao passo que nunca de faz menção do poder eclesiástico, da sua vontade nem das suas ordens.

A Inquisição de Portugal era igualmente considerada pelo governo deste país como uma instituição política, como vemos da lei de 20 de março de 1790, sendo ministro de D. José I o Marquez de Pombal. Nessa lei diz-se: “Eu El-rei faço saber aos que este alvará virem: que eu fui informado, de que ao mesmo tempo em que todos os Tribunais de que se compõem Minha Corte, como depositários da Minha Real Jurisdição, ou seja contenciosa ou seja voluntária, em razão de representarem vivamente no exercício uma e outra Jurisdição a Minha Real Pessoa; expedindo no Meu Nome as causas, e Negócios das suas respectivas inspeções, foram sempre, e são tratados por Majestade; e que sendo o Conselho Geral do Santo Ofício um dos tribunais mais conjuntos e imediatos à Minha Real Pessoa, pelo seu instituto e ministério; se introduziu o abuso de se lhe dar o tratamento, que compete ao seu Presidente como se pratica com o Senado da Câmara de Lisboa, que representa o Congresso do Povo, e isto sendo de mais a mais do Meu Conselho todos os Deputados, que constituem o Corpo do mesmo Conselho Geral; exercitando nele a Minha Real Jurisdição, não só para os procedimentos Criminais, e extremos contra todos, os que delinqüirem contra a Religião, mas também para a expedição das Causas Cíveis dos Privilegiados que gozam do seu foro; constando, aliás, que o sobredito foi um dos meios com que as intrigas dos Denominados Jesuítas pretenderam deprimir a autoridade do dito tribunal do Santo Ofício. E querendo Eu abolir um tão estranho abuso: Hei por bem Ordenar que ao dito Conselho Geral se fale, escreva e requeira por Majestade; como se praticou sempre inalteravelmente com os dois Tribunais da Mesa da Consciência, e Ordens, a Bula da Cruzada pelo exercício e concurso de ambas as duas Jurisdições: e que sem este tratamento não se responda, nem defira a Carta, ou Requerimento algum, tendo entendido o mesmo Conselho Geral que as Causas e Negócios pertencentes à Jurisdição Temporal de que lhes foi cometido o exercício, devem ser expedidos no Meu Real Nome, como o praticam os dois Tribunais assim referidos, e todos os mais da Minha Corte.

Pelo que: mando ao Conselho Geral do Santo Ofício; à Mesa do Desembargo do Paço; Real Mesa Censória; Regedor da Casa da Suplicação; Governador da Relação e Casa do Porto; Desembargadores das ditas Casas; Conselhos da Minha Real Fazenda e do Ultramar; Mesa da Consciência e Ordens; Senado da Câmara e a todos os Corregedores, Provedores, Ouvidores, Juízes, Justiças, Oficiais e mais Pessoas dos Meus Reinos e Senhorios, que cumpram e guardem este Meu Alvará, como nele se contém, e lhe façam dar a mais inteira e plenária observância. E valerá como Carta passada pela Chancelaria, ainda que por ela não há de passar, e posto que o seu efeito haja de durar mais de um e muitos anos, não obstante as Ordenações em contrário, que derrogo para este efeito ficando aliás sempre em seu vigor. E se registrará em todos os lugares, onde se registram semelhantes alvarás, mandando-se o Original para o Meu Real Arquivo da Torre do Tombo. Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda a 20 de maio de 1790. Com Assinatura de El-Rei e a do Ministro”. (Coleção de leis portuguesas, Lisboa, 1829, tom. II, p. 397).

Não é, pois, possível a confusão, tanto que os Papas não cessaram de protestar contra as tendências políticas e excessos da Inquisição Espanhola, quer declarando sub-reptícia a bula obtida pelos reis para a instituição deste tribunal, quer censurando abertamente os seus rigores exagerados, quer instituindo juízes de apelação para examinar e cassar as sentenças reais, quer absolvendo os que tinham sido condenados. Fernando e Isabel, na sua pragmática de 2 de agosto de 1498, queixam-se nestes termos: “Algumas pessoas condenadas como heréticas pelos Inquisidores ausentaram-se dos nossos reinos e foram para outros, onde, por meio de falsos relatórios e formalidades indevidas, obtiveram sub-repticiamente isenções, absolvições, comissões, seguranças e outros privilégios, a fim de se eximirem das condenações e apenas em que incorreram e permanecem nos seus erros, o que todavia não os impede de procurarem voltar a estes reinos; por isso,  querendo extirpar um tão grande mal, avisamos àqueles condenados que não tenham a ousadia de voltar. Que não voltem aos nossos reinos e senhorios, por nenhum caminho, de nenhum modo, por nenhuma causa ou razão qualquer, que seja, sob pena de morte e perda de seus bens, na qual pena queremos e ordenamos que incorram por este mesmo fato; um terço dos bens será para a pessoa que os denunciar, outro terço para a justiça, o terceiro para nossa Câmara”.

É evidente, segundo estes documentos autênticos, que a instituição eclesiástica não é de modo algum responsável do que se pode censurar à Inquisição Espanhola, e que as censuras dirigidas à Igreja, por causa desta Inquisição, são injustas.

Mostramos qual o espírito da Igreja na repressão. Para que sejamos justos, diremos que a Inquisição Espanhola não é tão negra como a pintam os seus detratores, gentes pouco sérias e cujo retrato traçamos repetindo as palavras de Balmes (Vid. Conf. 58ª, 2ª parte). Mgr. Hefelé, no consciencioso capítulo que consagra a este tribunal (Le Cardinal Ximenes, cap. XVIII), atenua consideravelmente as acusações contra ele, servindo-se, principalmente, das confissões do seu principal acusador, Llorente.

E de mais, não é verdade que os reis da Espanha imaginaram a Inquisição unicamente para assegurar o triunfo do absolutismo. Era nas mãos do governo um meio de fazer prevalecer a nacionalidade espanhola na sua luta contra o judaísmo e islamismo. Assim, a Inquisição ainda que detestada pelas primeiras leis do Estado, era extremamente popular, a ponto de que toda a cidade de Saragoça se levantou quando o inquisidor Pedro d’Ambues foi assassinado, chegando o tumulto a tomar tais proporções que só o arcebispo o pôde apaziguar depois de ter prometido à multidão que os assassinos não escapariam aos rigores da justiça.

Felipe II, o mais caluniado soberano da Espanha, não era tão despótico como aí se apresenta. Fiel às recomendações de seu pai Carlos V, estava sumamente empenhado em preservar os seus estados da invasão do protestantismo. Ora “o resultado da invasão do protestantismo na Espanha, diz Balmes, teria sido, como nos outros países, a guerra civil; e esta guerra ter-nos-ia sido muito mais fatal que a outro povo, porque as nossas circunstâncias eram infinitamente críticas. A unidade da monarquia espanhola não poderia resistir às perturbações e estragos de uma dissensão interna; as suas diversas partes eram tão heterogêneas entre si e tão pouco ligadas umas às outras que o menor abalo bastaria para quebrar a ligação. As leis, os costumes dos reinos de Navarra e Aragão diferiam extremamente dos de Castella; um vivo sentimento de independência, entretido pelas freqüentes reuniões das suas cortes particulares, abrir-se-ia no coração destes povos indomáveis; aproveitar-se-iam certamente da primeira ocasião para sacudir um jugo aceite de má vontade. A monarquia ver-se-ia miseravelmente fracionada, no tempo em que era necessário cuidar dos negócios da Europa, da África e da América. Estávamos ainda em presença dos mouros; os judeus ainda não tinham tempo de se esquecer da Espanha; certamente uns e outros, para se levantarem ,se teriam aproveitado das nossas discórdias. Da política de Felipe II dependia não somente a tranqüilidade, mas talvez a existência da monarquia espanhola. Todavia, acusam aquele príncipe de tirano; se ele procedesse de outro modo acusá-lo-iam de incapaz”.

2º Não é verdade que a Inquisição Espanhola tivesse por ofício obrigar os mouros e os judeus a mudar de religião. Perseguia os apóstatas que depois de batizados voltavam ao judaísmo ou ao islamismo e, sobretudo, os judaizantes, isto é, os que hipocritamente faziam profissão da fé cristã em público e, em segredo, praticavam o judaísmo, tornando-se cúmplices de todos os crimes que o povo acusava os seus correligionários.

3º Não é verdade que a Inquisição Espanhola inventasse torturas extraordinárias para castigar os hereges. Pelo contrário, procurava mitigar os cruéis processos da justiça de então. O próprio Llorente confessa que, ao passo que as prisões eram em toda a Europa masmorras negras e úmidas, verdadeiros focos de infecção, onde se respirava uma ar fétido e pestilencial, os presos da Inquisição tinham casas bem ventiladas e com luz onde se podiam mover. Os presos da Inquisição não eram algemados, nem lhes eram postas coleiras de ferro. Perguntava-se aos presos da Inquisição se o carcereiro os tratava bem, e havia todo o cuidado para com os enfermos. Não se permitia, contrariamente ao costume usado nos tribunais civis, que fosse repetida a tortura no curso do mesmo processo.

4º Não é verdade que a Inquisição Espanhola fosse um monstro insaciável, sempre prestes, à primeira suspeita, para se cevar nas suas vítimas. Concedia, como todos os tribunais deste gênero, três admoestações. Ordenava que os filhos dos hereges fossem tratados com bondade, ainda mesmo depois de expirarem os tais prazos de espera; que ninguém fosse preso se num excesso de cólera blasfemasse de Deus. Se alguém era acusado de propósito como herético, consultavam-se os médicos para ver se os seus discursos seriam efeito de uma doença mental. Exigiam que os juízes estivessem de acordo para prender alguém, e ninguém era preso sem que o seu crime fosse evidente.

5º Não é verdade que a Inquisição Espanhola procurasse, nos processos, não tanto a verdade como a ocasião de condenar o acusado, e que empregasse todos os ardis para punir os próprios inocentes. Os seus estatutos (1496, art. 8) impunham castigo público às falsas testemunhas tanto de defesa como de acusação; recomendavam aos inquisidores que desconfiassem do acusador tanto como do acusado, e que tratassem este com benevolência; permitiam ao acusado escolher um procurador entre os advogados do Santo Ofício, e exigiam dele juramento de guardar segredo e defender sincera e lealmente o seu cliente (Art. 23). Se o acusado era pobre, o advogado era pago pelo fisco. O acusador devia também prestar juramento de que não era levado por nenhum sentimento de ódio, e ameaçavam-no com penas gravíssimas se se tornasse culpado de calúnia. Os processos verbais eram lidos duas vezes ao acusado em presença de duas testemunhas eclesiásticas. Enfim, era ordenado aos inquisidores que procurassem diligentemente tudo que podia desculpar o acusado e, terminado o processo, deviam perguntar ao acusado se queria que se procedesse a novas diligências.

6º Não é verdade os inquisidores espanhóis condenando os acusados apresentassem despesas enormes para se apossarem dos seus bens. Havia todos os trimestres contas rigorosas, e os bens confiscados eram para o tesouro. Por mais de uma vez, os inquisidores, de harmonia com as instruções da Santa Sé, tiravam ao fisco uma presa com que contava, a fim de que os bens confiscados fossem empregados na glória de Deus e, em particular, nas despesas da guerra nacional contra os mouros (1º Estatuto de Torquemada, 1494).

7º Finalmente, não é verdade que a Inquisição Espanhola condenasse à morte um número incalculável de hereges. A cifra de 30.000 vítimas de Llorente, no espaço de trezentos anos, é o resultado de um cálculo de probabilidades que não tem fundamento em nenhum documento particular ou oficial. Para Llorente basta um dado qualquer, às vezes incerto, para estabelecer as cifras segundo a maior ou menor importância. De mais, sabe-se que Llorente queimou peças autênticas de processos, sem dúvida para que não fosse contraditado nas suas apreciações. Apesar disso traiu a sua má fé. Se o cálculo de Llorente fosse verdadeiro, seria necessário subtrair dele as condenações por blasfêmia contra Deus, a magia, a usura, o contrabando de guerra, a bigamia, a libertinagem contra a natureza, a sedição contra o Santo Ofício, o que reduz consideravelmente o número dos hereges.

Apesar destas atenuações importantes da acusação de fanatismo, de injustiça, de crueldade, de barbaridade, de infâmia contra a Inquisição Espanhola, não é nossa intenção defender todos os seus atos e dizemos com Balmes: “Sem desprezar as circunstâncias excepcionais em que esta instituição se encontrou, penso que teria feito muito melhor, a exemplo da Inquisição de Roma, evitar, tanto quanto possível, a efusão de sangue. A Inquisição podia perfeitamente velar pela conservação da fé, prevenir os males de que a religião estava ameaçada pelos mouros e judeus, preservar a Espanha do protestantismo, sem desenvolver esse rigor excessivo que lhe mereceu graves censuras, admoestações da parte dos soberanos Pontífices, provocou reclamações dos povos, foi causa de que tantos acusados e condenados apelassem para Roma, e forneceu aos adversários do catolicismo um pretexto para tachar de crueldade, uma religião que tem horror à efusão de sangue. Repito, a religião católica não é responsável por nenhum excesso que em seu nome se possa cometer; e, quando se fala de Inquisição, não se deve considerar principalmente a da Espanha, mas a de Roma. Lá onde reside o Soberano Pontífice, onde se sabe como deve ser entendido o princípio da intolerância, qual o uso que dele se deve fazer, é também onde a Inquisição foi doce e indulgente ao extremo. Roma é o lugar do mundo onde a humanidade menos sofreu por motivos de religião. Ora, falando assim, não excetuo nenhum país, não só aqueles que não tiveram Inquisição como aqueles onde existiu, tanto os países católicos como os protestantes. Este fato incontestável, basta para fazer compreender a todo o homem de boa fé qual é, nesta matéria, o espírito do catolicismo”. (Cf. Hefelé, Le cardinal Ximenes, cap. XVIII; Balmes, Le protestantisme compare au catholicisme, cap. XXXVI e XXXVII, e nota 9).