terça-feira, 30 de agosto de 2011

Dicas para seres um militante ateu intelectualmente realizado

Com que então tu viste a luz e decidiste entregar a tua vida à militância ateísta. Muito bem. Agora que vais lutar por um mundo melhor (livre do crenças religiosas, principalmente o Cristianismo) há certas coisas que não podes dizer ou pensar. Podes pensar, mas tens que ter o cuidado de nunca dizê-las.
Há certos chavões e atitudes que podem fazer toda a diferença na tua vida. Ficam aqui algumas dicas que te podem ajudar a seres um militante ateu intelectualmente realizado:



1) Sempre que te apresentarem evidências da existência de Deus, diz que é um “argumento homem-palha“, “circularidade de raciocínio” ou “falácia da bifurcação“. Se alguma coisa for transcrita de outro lugar, diz que é “quote-mining“. Se a afirmação for de um evolucionista, diz que “foi tirada do contexto“.

2) Sempre que um Cristão disser que “coisas criadas implicam um criador”, rejeita esse argumento de senso comum, dizendo: “Isso é o velho argumento do relógio de William Paley“. Toma o cuidado de nunca dizeres como é que isso refuta o que o Cristão disse.

3) Sempre que um Cristão te disser que, ao aceitar Cristo, tens tudo a ganhar e nada a perder, diz que isso é a velha “aposta de Pascal“.

4) Sempre que um Cristão te disser que existem dezenas de historiadores antigos que referem o Senhor Jesus como Figura Histórica, diz que “os relatos foram todos adulterados pela Igreja Católica“. Atenção: nunca digas que a Igreja tinha pouco ou nenhum controle sobre a composição do Novo Testamento uma vez que, em vez de andarem a adulterar Textos que consideram Sagrados, os Cristãos andavam em fuga pelas suas vidas.

5) Mete na tua cabeça que a Bíblia está cheia de contradições e erros, mesmo sem leres as passagens em questão. Aprende a respeito da Bíblia, não a lê-la, mas a partir de sites ateístas.

6) Diz que, em tempos, já foste um “Cristão genuíno” que “ia sempre à igreja” e até ensinava lições às crianças e aos adolescentes (uma das coisas que há de bom nisto de ser ateu é que podes mentir à vontade, já que não acreditas em valores morais absolutos). Se um cristão contestar esta tua afirmação, dizendo: “Mas se deixaste de acreditar em Deus é porque nunca foste um cristão de verdade”… diz que isso é a falácia do “Nenhum escocês de verdade“.

Nunca reveles que, ao contrário da falácia do escocês, a Bíblia tem um critério segundo o qual pode-se ver que quem deixa a Igreja nunca foi Cristão (1 João 2:19.

7) Decora os ensinamentos dos grandes militantes ateus da tua década. Aprende aquilo que tipos como Sam Harris, Richard Dawkins e Christopher Hitchens dizem a respeito da religião e vai dizê-lo nos blogues dos Cristãos.

Ah… uma coisa muito importante: não te dês ao trabalho de fazer distinções entre as religiões. Cristianismo e Islamismo são a mesma coisa, tanto em doutrina como em valores.

8 ) Quando estiveres a debater com um Cristão no chat ou num blogue e ele te fizer alguma pergunta, responde-lhe com 2 ou 3 links (Se possível, textos grandes e que não estejam na língua materna do Cristão com quem estás a debater). Depois, quando ele te disser que isso é uma boa maneira de fugires ao debate, diz que ele só está é a dar desculpas.

9) Diz que “nenhum ser humano pode ter certezas absolutas de nada” e completa dizendo: “Só a ciência [que é feita por seres humanos] nos pode dar certezas absolutas“.

10) Quando estiveres a debater com um Cristão, faz com que os teus argumentos sejam acompanhados de insultos (como “burro“, “estúpido“, “ignorante“) e tácticas intimidatórias (como “vou pôr o que tu disseste na comunidade das pérolas cristãs“). Isso dá mais força ao teu argumento e se tiveres a sorte de apanhar um Cristão mais inseguro, poderás fazer com que ele pare de debater e ficarás apto para dizer que ganhaste o argumento.

11) Não te esqueças de ter à mão certos clichés como “vai estudar!” ou “até uma criança de 5 anos percebe isto!“.

12) Culpa o Cristianismo pela Santa Inquisição e pelas Cruzadas. Se algum cristão te responder à letra e disser que regimes ateístas como o Comunismo, em menos de 200 anos, foram responsáveis pela morte de mais pessoas do que todas as guerras religiosas em 2000 anos, diz que um ateu não pode ser culpado por aquilo que outro ateu faz.

13) Diz aos Cristãos que os cientistas já mostraram que Deus não foi preciso para o Universo e a Vida aparecerem. Se algum cristão disser que há muitos cientistas que acreditam em Deus, diz que esses “não são verdadeiros cientistas“.

Se te perguntarem como é que distingues um verdadeiro cientista dum falso cientista, diz com confiança “os verdadeiros cientistas não acreditam em fantasmas do céu”. Se o Cristão te mostrar a circularidade dessa alegação, rejeita-a escrevendo “LOL!!”

14) Finalmente, mas não menos importante, procura desenvolver boas relações com militantes ateus mais experientes. Procura fazer-te amigo daqueles ateus que já dominam estes princípios. Usa e abusa de conceitos como a moralidade, a lógica e a justiça.

Não te esqueças: ser ateu é dizer que Deus não existe mas ao mesmo tempo utilizar conceitos que só fazem sentido se Deus existe.

P.S.: Imprime uma cópia deste texto e leva-o sempre como um guia de bolso.

Retirado do blog http://darwinismo.wordpress.com

domingo, 14 de agosto de 2011

Novo Testamento - As ferramentas e o texto

Por Ben Witherington III


Para pessoas modernas como nós, é difícil imaginar o mundo antes das máquinas de impressão. De fato, é difícil para alguns de nós imaginar o mundo antes dos computadores, da internet, da TV ou, antes, das modernas bibliotecas, jornais ou revistas de notícias. Entretanto, o NT não só foi escrito antes de todas essas invenções, como o foi numa época em que a alfabetização ainda era restrita a uma parcela muito pequena da população. Além disso, foi escrito muito antes do registro sonoro de alguma coisa dita por alguém. Os antigos raramente esperavam uma transcrição ao pé da letra de uma fala, exceto ocasionalmente, quando se tratava de atas legais ou pronunciamentos do rei. Mesmo assim,obter a reprodução ao pé da letra de discursos proferidos durante um julgamento era novidade da época de Júlio César. Tiro, o famoso secretário e companheiro de viagens de Cícero, foi muito elogiado por causa da adaptação de uma “recente” invenção, a “taquigrafia” (espécie de escrita abreviada), que lhe permitia anotar ipsis litteris os discursos feitos nas cortes de Roma, no primeiro século antes de Cristo.

No mundo do NT, a palavra falada reinava soberana. Aliás, o NT foi escrito numa cultura predominantemente oral, na qual a escrita não tinha a primeira nem a última palavra. Pense, por exemplo, no que Platão disse antes da época do NT, quando menciona a advertência de Sócratis contra a substituição das tradições orais pela palavra escrita, porque as pessoas deixariam de usar a memória (Fedro, 274-275)! Os mesmos sentimentos são também expressos por autores que escreveram mais próximos da época do NT, como Xenofonte (Simpósio, 3.5) e Diógenes Laércio (7.45.56). Papias, um dos primeiros pais da igreja, que viveu no final do primeiro século d.C. e início do segundo, é famoso por sua observação sobre quanto ele preferia a palavra viva e as testemunhas vivas a qualquer escrita.

Devemos dar atenção à advertência de H. Gamble, de que “fazer uma distinção marcante entre os modos oral e escrito é anacrônico, no sentido que pressupõe tanto a moderna noção de estabilidade de um texto quanto os modernos hábitos de leitura. Os manuscritos, como eram todos os textos anteriores à invenção da imprensa, eram muito menos estáveis que os atuais textos impressos, porque estavam sujeito a modificações acidentais ou propositais, a cada nova transcrição. Além disso, na antiguidade, quase toda leitura, pública ou privada, era eita em voz alta; os textos eram rotineiramente convertidos no modo oral. Sabendo disso, os escritores antigos escreviam tanto para o ouvido quanto para os olhos” [1].

Essas atitudes em relação à oralidade e as dimensões desse modo de comunicação prevaleceram durante toda a época do NT, e simplesmente salientam o quão espantoso é o fato de os 27 documentos que constituem o NT terem chegado até nós. Então, como esses 27 documentos foram gerados numa época anterior à produção de textos em massa e à disseminação da alfabetização? É uma história notável, e infelizmente, sabemos muito pouco sobre ela. Mas o que sabemos merece ser contado e, espero, bem contado.

Nós, que estamos acostumados a ler a Bíblia, gostamos de repetir a frase “No princípio era o Verbo”. Logo ficará bem claro quanto essa frase é verdadeira. Antes que houvesse quaisquer palavras escritas para compor os livros do NT, havia palavras faladas – milhares delas. Provavelmente, o NT é apenas a ponta do iceberg de uma abundância de palavras sobre Jesus que foram comunicadas no primeiro século d.C. Podemos quase sentir a frustração do autor do evangelho de João, quando diz: “Jesus, na verdade, realizou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão registrados neste livro” (Jo 20.30). Por que eles não foram registrados? Porque um rolo de papiro tinha um determinado tamanho, e o papiro era caro. Além disso, escrever e copiar um texto à mão era uma tarefa extremamente tediosa. Essas são limitações que raramente experimentamos na maioria dos lutares hoje.

Vejamos a questão sob outro ângulo. Os evangelhos abrangem, basicamente, o período da história em que Jesus exerceu seu ministério na Terra Santa, aproximadamente de 27 a 30 d.C. Não encontramos em nenhum lugar dos evangelhos uma passagem que mencione Jesus ou qualquer um dos discípulos escrevendo enquanto aqueles eventos ocorriam. Provavelmente, a narrativa da história na forma escrita surgiu mais tarde.Semelhantemente, todas as epístolas de Paulo foram escritas para congregações que já haviam sido fundadas e tinham recebido a palavra oralmente muito antes de receberem qualquer comunicação por escrito. De fato, as cartas de Paulo funcionam como uma espécie de substituto das conversas orais que ele gostaria de ter tido, se pudesse estar presente. Tanto isso é verdade que as cartas trazem as marcas características desse tipo de comunicação – elas refletem padrões e técnicas da antiga retórica Greco-romana, a arte oral da persuasão. No caso dos evangelhos e das epístolas, a Palavra era oral muito antes de ser escrita. Hoje em dia, invertemos o processo quando lemos o texto do NT em voz alta e, em seguida, proclamamos ou discursamos com base no que foi lido. Portanto, é justo dizer que, quando contamos a história do NT, estamos contando a história de um fenômeno de segunda ordem, a história do resíduo literário de um movimento primordialmente oral que cresceu fundamentado na pregação e no ensino, na oração e no louvo e em outras formas de comunicação oral. No período inicial da história cristã, não foi principalmente por intermédio dos textos que a Palavra se espalhou, mas sim pela proclamação oral. A exceção à regra foi o uso das Escrituras Hebraicas ou, mais freqüentemente, sua tradução grega, a Septuaginta, como podemos ver na passagem [2] de 2 Timóteo 3,16. Precisamos ter essas coisas em mente agora que vamos examinar os maravilhosos e desafiadores textos do NT.

AS FERRAMENTAS DO OFÍCIO E SEUS USUÁRIOS

Apesar das afirmações tão seguras de inúmeras introduções ao NT, não sabemos muito sobre quem realmente escreveu alguns dos seus livros. Quando digo “escreveu”, estou me referindo a quem realmente fez os apontamentos. E, mesmo quando temos certeza de quem foi a fonte de determinado documento, por exemplo, de que a carta aos Romanos saiu da mente de Paulo, somos informados de que a pessoa que efetivamente redigiu o documento foi um desconhecido chamado Tércio (Rm 16.22). [3]

Vemos, então,que foi necessário certo trabalho de equipe para escrever alguns documentos do NT, e que teremos de discutir as relações entre os autores e escribas, e entre os que passavam adiante as tradições e os editores, antes de terminarmos. Alguns documentos, tais como os três primeiro evangelhos, são formalmente anônimos, já que o nome do autor não é mencionado em nenhuma parte do livro. Tampouco são mencionadas os nomes dos escribas. Os sobrescritos desses evangelhos refletem tradições posteriores da igreja a respeito da autoria ou fontes primária do material.

Também temos, é claro, um documento como Hebreus, que é claramente anônimo, embora tenham surgido várias hipóteses sobre quem seria seu autor. Só quando o nome do autor é mencionado no próprio documento (como ocorre na maioria das cartas do NT) é que temos um ponto de partida concreto para definir quem produziu um determinado livro do NT. Mas o que realmente sabemos é que, fosse quem fosse, a pessoa que produziu o primeiro exemplar de cada um desses documentos sabia ler e escrever grego, que, obviamente, é a língua em que foi escrito todo o NT, pois era a língua franca do mundo Greco-romano. [4] Portanto, vamos primeiramente examinar a habilidade e o ofício de escrever em grego na antiguidade.

Como a taxa de alfabetização nunca ultrapassou cerca de dez por cento, durante a época em que os documentos do NT foram redigidos, [5] É lógico que a maioria das pessoas, quando desejava que alguma coisa fosse escrita, recorria a um escriba, um escritor profissional. Normalmente, essas habilidades profissionais eram requisitadas para a elaboração de documentos muito práticos – contratos, testamentos, cartas comerciais, certidões de casamento e assemelhados. Os livros do NT não eram nada disso. Porém, numa cultura predominantemente oral, com alta taxa de anafalbetismo, não é de admirar que os escribas, ou amanuenses, fossem fáceis de encontrar e aceitassem escrever quase todo tipo de documento, mediante remuneração. Contudo, não devemos nos apressar em concluir que todos os documentos do NT foram escritos por escribas. E por quê?

Os variados níveis de habilidade na redação do grego do NT mostram que, com certeza, esses documentos não foram todos redigidos por profissionais fluentes em grego, embora isso tenha ocorrido algumas vezes, como no caso de Romanos. Também é interessante observar que o próprio conteúdo dos documentos do NT os teria enquadrado como um tipo de literatura que, normalmente, só era lida pela elite letrada. Esse não era o tipo de documento prático ou comercial que pessoas comuns da sociedade Greco-romana teriam redigido ou mandado copiar.

Além da classe dos escribas, a alfabetização também era encontrada entre pessoas que não pertenciam à elite da sociedade, como soldados, médicos, comerciantes, artesãos e engenheiros. Podemos conjeturar com certo grau de segurança que pelo menos dois dos maiores documentos do NT, Lucas e Atos, foram escritos por alguém que não era um escriba mas era letrado por causa de sua profissão (i.e. , era médico). Uma suposição igualmente razoável é a de que um documento como Apocalipse foi escrito por alguém cuja primeira língua era o aramaico, mas que tinha o grego como segunda língua, porquanto ele escreve em grego com certa dificuldade. [6] O NT como um todo provavelmente não é resultado do trabalho de escribas; e, como a maioria ou todos os documentos foram elaborados para serem lidos em voz alta, o objetivo de seus redatores não foi produzir literatura pura, no sentido moderno do termo. Eram texto com funções predominantemente não-literárias. [7]

Então, como se iniciou o processo? Depois de um período em que as histórias do evangelho foram divulgadas em diversos contextos e de diversas maneiras, e exortações de vários tipos foram feitas oralmente na igreja primitiva, chegou um momento em que fatores ligados à distância espacial e temporal provocaram certa urgência de colocar várias coisas por escrito. No caso dos evangelhos, a urgência se devia, provavelmente, ao fato de que as testemunhas oculares e auditivas estavam morrendo, por volta da segunda metade do primeiro século d.C., e se fazia necessário preservar as tradições que elas haviam transmitido oralmente.

Certamente, não é impossível que, em alguns lugares, essa necessidade tenha surgido mais cedo e tenha gerado coisas como: (1) uma coleção de ditos de Jesus em aramaico, feita pela igreja de Jerusalém; (2) uma coleção de histórias de milagres envolvendo Jesus; (3) um esboço em aramaico de grande parte da história do evangelho; [8] (4) uma narrativa por escrito da última semana de vida terrena de Jesus; e (5) um documento composto, principalmente, dos ensinamentos de Jesus, a que tanto o primeiro quanto o terceiro evangelista tiveram acesso, e que hoje chamamos de Q. [9] Esses antigos percussores dos nossos evangelhos não existem mais, e a maioria dos estudiosos acredita que nenhum evangelho em grego tenha sido produzido ou estivesse disponível na forma escrita antes de 60 d.C. Isso significa que as cartas, e em particular as cartas paulinas, são os mais antigos documentos do NT, cronologicamente falando, [10] e as cartas são os documentos do NT mais nitidamente ligados aos escribas.

É importante ressaltar a esta altura que, com toda certeza, não devemos pensar em “livros”, no sentido moderno da palavra, quando falamos dos documentos do NT. Em primeiro lugar, naquela época eles não eram manufaturados em forma de livro ou códice, mas sim escritos em rolos de papiro. Em segundo lugar, evidentemente, eles não eram produzidos em massa. Inicialmente, apenas algumas cópias devem ter sido feitas, por causa do tempo necessário e do custo elevado. Em alguns casos, como nas cartas, talvez tivesse sido feito apenas um exemplar.

Quando nos referimos à cultura literária daquela época, estamos falando de pequenos círculos da elite letrada do mundo Greco-romano, que tinha dinheiro para mandar reproduzir documentos e fazer cópias para os amigos, além de ter tempo para lê-los ou mandar que alguém o fizesse em voz alta. A cultura liveira, no sentido moderno de publicações para as massas, não existia. Os autores da antiguidade, normalmente, dependiam de patronos abastados para poderem custear a produção e a circulação de suas obras. Na minha opinião, Teófilo, mencionado no início de Lucas e Atos, provavelmente era o patrono de Lucas, que escrevia para ele e seu círculo de amizades.

Mas como a escrita era feita, e em que tipos de materiais? A forma padrão de produzir um documento na antiguidade era escrever em papiro. Normalmente um rolo tinha de 20 a 25 centímetros de altura e até 10,5 metros de comprimento. Em geral, só se escrevia de um lado, já que o papiro não é um material muito denso. O texto era disposto em duas colunas de 5 a 10 centímetros de largura, com cerca de 25 a 45 linhas por coluna. Além disso, por causa do custo e do espaço necessário, normalmente não havia pontuação nem divisão de palavras, sentenças e parágrafos. Tudo era escrito em letras maiúsculas, e, portanto, uma linha desse texto ficava mais ou menos assim: SÓUMANÃODISSESEUNOME. É claro que podemos ler “Só uma não disse seu nome” ou “Só um anão disse seu nome”. Questões de interpretação surgem simplesmente pela falta de separação entre as letras ou pela ausência de pontuação. Além disso, não havia capítulos nem versículos nos manuscritos originais do NT antes do início da Idade Média!

“A leitura na Antiguidade geralmente era feita em voz alta, mesmo em particular. A razão disso é que os textos eram redigidos em escrita contínua [...] sem divisões entre palavras, frases, orações, parágrafos e sem pontuação, de modo que era necessário pronunciar e ouvir as sílabas para poder organizá-las em padrões semânticos reconhecíveis. Dessa forma, quase todos os textos antigos eram compostos tendo em vista o modo como soariam quando seriam lidos em voz alta.” [11] Foi só no próximo fim do primeiro século d.C. que a forma de  texto chamada códice ou caderno de notas se popularizou, e parece que os antigos cristãos estavam entre os primeiros a reconhecer sua utilidade e adotá-la. [12]

Numa época em que não existiam direitos autorais, o que acontecia quando um patrono recebia um manuscrito era o seguinte: “A publicação [...] consistia em entregar esse original a um patrono amigo, o qual, então, o disponibilizaria para ser copiado por outras pessoas interessadas. Desse modo, as cópias eram multiplicadas em série, uma de cada vez. Uma vez que o texto estivesse em circulação e disponível para a cópia, qualquer um que estivesse interessado e tivesse acesso a ele poderia mandar fazer uma cópia. Assim, os livros eram produzidos e adquiridos por meio de um processo informal e não regulado”. [13]

A maioria das composições da antiguidade eram escritas com uma pena e tinta sobre o papiro, embora às vezes fosse usada pele de ovelhas para produzir pergaminho ou velo, um tipo de pele animal altamente refinada. A qualidade da superfície de escrita, a tinta e as penas variavam. Cícero, que escreveu por volta de 54 a.C., resume muito bem a situação: “Para esta carta, usarei uma boa pena, uma tinta bem misturada e um papel polido de marfim, pois você escreve que quase não conseguiu ler minha última carta [...] porque eu costumo usar a primeira pena que me aparece, sem me preocupar se é boa ou não” (Carta a Quinto 2.15.1). A cana de junco era a melhor pena da antiguidade e foi substituída pelas penas de pássaros (calamos) por volta do sétimo século d.C. A tinta era feita com carbono ou fuligem diluídos em água.

Mesmo depois de ter comprado os pedaços de papiro necessários, a pessoa ainda não estava pronta para tomar nota de um ditado ou escrever. O papiro tinha de ser preparado para a escrita, e um dos principais motivos é que não existia papel pautado. O escriba ou escritor pegava uma régua e um disco de chumbo e traçava linhas finas no papel. Ele precisava também de um apontador de pena, que era uma pedra abrasiva, e uma faca para fazer novas pontas, à medida que ia escrevendo. Nem o papiro, nem as penas, nem a tinta, nem os instrumentos para fazer linhas e apontar a pena eram baratos.

Mas, por que o papiro era tão caro? Em primeiro lugar, porque quase todo ele era produzido num único lugar, o Egito, e perto do Nilo, para que se pudesse colher o tipo de junco apropriado. Além disso, ainda havia o processo exigido para sua produção. Plínio, o Velho, diz que a cana do papiro, que tem perfil triangular, tinha de ser fatiada com uma agulha (!) em tiras largas e muitos finas. O miolo do talo ou da cana era a porção mais “carnuda” e, portanto, a parte mais útil. A casca verde provavelmente deveria ser eliminada.

As tiras, assim que eram cortadas, tinham de ser quase imediatamente colocadas sobre uma prancha de madeira umidecida com água do Nilo. Ocasionalmente, era adicionado um tipo de goma de farinha suave para auxiliar o processo, mas, normalmente, a própria seiva do junco era suficiente para unir as tiras e formar uma peça de papiro. Quando a peça de papiro estava pronta, as pontas eram aparadas para deixar as bordas retas. As tiras eram dispostas horizontal e verticalmente, formando um padrão de linhas cruzadas e, em essência, entrelaçadas. A peça de papiro recém-produzida era, então, pendurada ou estendida para secar ao sol. Por último, umas vinte peças de papiro eram costuradas umas às outras para formar um rolo (Plinio, Natural History 13.74-77). Quando um rolo ou peça de papiro chegava às mãos do escriba, este ainda tinha de alisá-lo com uma concha ou um pedaço de marfim. Era preciso tomar cuidado para que o papel não ficasse polido demais a ponto de não absorver a tinta com facilidade.

Em vista de todo o exposto, entende-se por que as pessoas comuns recorriam a um escriba quando precisavam ter algum documento redigido ou, se pudessem arcar com a despesa, contratavam um secretário pessoal, como mostra, por exemplo, a relação entre Cícero e Tiro. Em geral, quanto mais longo o documento maior a necessidade de um escriba profissional, e, pelos padrões antigos, muitos documentos do NT são realmente longos. Todos os evangelhos, Atos, as maiores cartas de Paulo e Apocalipse podem ser classificados como documentos muito longos, pelos padrões antigos. Até mesmo algumas cartas que consideramos curtas (e.g., Filipenses, Tiago, 1Pedro) eram muito grandes para uma carta, pelos padrões antigos. Vários autores do NT eram prolixos (v., p. ex., At 20.7-11) e, como muitos documentos do NT são apenas substitutos de uma conversação ou proclamação oral, eles também são muito longos. Os primeiros cristãos, que produziram esses documentos, obviamente tinham muito o que dizer!

Não dissemos nada até agora sobre a caligrafia, mas, na antiguidade, assim como hoje, as pessoas diferentes tinham diferentes estilos e modelos de escrita manual. Era crucial para ao escriba ter uam caligrafia bonita e legível, e não borrar a página enquanto escrevia. Falando em termos práticos, isso significava que o contratante preferia ter um destro para escrever em latim ou grego e um canhoto para escrever em aramaico ou hebraico, porque as duas primeiras línguas se escrevem da esquerda para a direita, enquanto as últimas são escritas da direita para a esquerda. Observe como Paulo acrescenta, de tempos em tempos, uma nota de próprio punho, em letras grandes, no fim do documento. Em Gálatas 6.11 está escrito: “Vede com que grandes letras vos escrevo de próprio punho”. [14] Como o espaço era precioso, ele teria preferido uma letra menor e mais concisa para redigir a maior parte do documento, para não desperdiçar espaço demais.

O ideal era que o escriba conhecesse tanto o autor quanto seu público. Os povos antigos acreditavam que as cartas deveriam ou refletir a personalidade do autor e, até certo ponto, levar em conta também o leitor. [15] Um secretário poderia ou não ter aprendido a técnica da estenografia; se não tivesse, o processo de composição poderia ser muito demorado. Muitos têm sugerido que, em alguns trechos do NT, principalmente nas cartas de Paulo, em que temos uma frase incompleta, isso talvez tenha ocorrido porque o escriba não sabia estenografia e não conseguia acompanhar a velocidade do ditado. E é claro que, se um assunto fosse urgente, poderia não haver tempo ou papiro à mão para tomar notas estenográficas e depois escrever o texto completo. O que podemos afirmar com certeza é que, normalmente, não era prática corrente do primeiro século os secretários redigirem documentos para os autores, exceto, talvez, quando se tratasse de matéria meramente formal, como um comunicado de que alguma coisa fora recebida. [16] Quando um secretário escrevia em nome de alguém, era costume informar isso no documento (v. Cícero, Carta aos amigos, 8.1.1).

Quando uma pessoa, que não fosse o autor, era mencionada no inicio de um documento, normalmente tinha algo a ver com o documento. Por exemplo, em 1Coríntio 1.1, Sóstenes, um cristão, foi provavelmente o escriba que redigiu esse documento para Paulo. [17] Já em 1 e 2Tessalonicenses, poderíamos considerar seriamente a questão da co-autoria envolvendo Paulo, Timóteo e Silvano, diante do modo como o documento começa. Não era costume dizer “nós” num documento como esse, a menos que se tratasse realmente de “nós”. Da mesma forma, no evangelho de João (21.24) o “nós” [implícito] significa, no mínimo, uma pessoa falando pela comunidade da qual o discípulo amado fazia parte.

Quando se tratava de cartas, o procedimento normal era fazer duas cópias, uma para o remetente e a outra para ser enviada (Cícero, Carta aos amigos 9.26.1). Nas terras de Roma, antes de Augusto, não havia serviço de correio regular para ser usado por pessoas comuns, nem mesmo um serviço postal oficial do governo. Desse modo, quando as pessoas tinham uma carta para enviar, aproveitavam alguma viagem que seus amigos, parentes ou pessoas com quem mantinham relações de negócios estivessem para fazer e pediam-lhes que entregassem a correspondência ao destinatário. No caso dos cristãos, essa tarefa parece ter ficado a cargo de outros cristãos; e, no caso de Paulo, aparentemente o encarregado era algum de seus colaboradores. Romanos 16.1,2 e Colossenses 4.7-9 não parecem indicar que Paulo confiaria seus documentos a uma pessoa qualquer que estivesse viajando na direção certa. A questão das redes sociais dos primeiros cristãos precisa ser considerada quando pensamos na disseminação das boas novas em várias formas escritas. Naturalmente, a rapidez com que um documento chegava a um grupo de pessoas ou a um indivíduo dependia do modo e da velocidade do meio de transporte, assim como outros fatores. Muitas vezes, as mensagens escritas não chegavam ao destinatário, e as conseqüências podiam ser desastrosas. Existe um famoso ditado inglês que diz: “Por causa de um prego, a ferradura se perdeu. Por causa do mensageiro, a mensagem se perdeu. Por causa da mensagem, perdeu-se a batalha. Por causa da batalha, perdeu-se a guerra; e tudo por causa de um prego”. Parece claro que alguns importantes documentos cristãos da época do NT realmente estão perdidos para nós. Por exemplo, em 1Coríntios 5.9, Paulo menciona que já havia escrito àquela igreja, advertindo-os de que não se associassem com pessoas imorais. Isso significa que houve uma carta aos coríntios anterior a 1Coríntios. Mas ela, provavelmente, perdeu-se nas areias do tempo. O que temos no NT é só uma amostra representativa da comunicação e do discurso dos primeiros cristãos. Talvez ainda encontremos alguns dos documentos perdidos desse período.

Fonte: História e histórias do Novo Testamento.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Não foi o dogma católico da Virgindade de Maria importado do paganismo? Não nasceram todos os deuses de mães virgens: Mitra da Pérsia, Adônis, Osíris e Chrisna?


Não. Ainda que algumas vezes haja traços de semelhança entre o Cristianismo e as várias religiões pagãs, não se dá isso com a Virgindade de Maria.

O racionalista Harnack escreve:

“A conjectura de Usener de que a idéia da virgindade de Maria é um mito pagão, recebido pelos cristãos, é inteiramente contradito pelo desenvolvimento da tradição cristã” (History of Dogma, I, 100).

Antes de mais nada. Mitra nem sequer teve mãe humana: era invariavelmente considerado “filho de uma rocha”, representada por uma pedra cônica que figurava a abóbada celeste, onde apareceu a primeira vez o deus da luz.

Adônis, ou Tamuz (Ez. 8, 14), era um semideus que representava a luz do sol.

Vários mitos o fazem o filho de Ciniras, de Fênix, e do Rei Teias da Assíria e de sua filha Mirra.

Osíris era filho, ou de “Seb”, Terra, e de “ Nuit”, Firmamento, ou do coração do “Atum”, que foi o primeiro dos deuses e o primeiro dos homens.

Chrisna, o mais popular entre os avatares ou encarnações de Vishnu, não nasceu de mãe virgem, pois a mãe deste deus preto, antes dele nascer, já tinha dado muitos filhos a seu marido Vasudeva.

As lendas que o fazem semelhante a Jesus Cristo foram extraídas de documentos posteriores muitos séculos ao Cristianismo e aos Evangelhos (Trisdall: Mystic Christs, 27)

Os antigos mitos pagãos foram tomados da natureza e representam a sucessão do dia e da noite, das várias estações do ano, o mistério da vida e sua transmissão de criatura a criatura.

Não são datados, nem localizados, e pertencem geralmente a períodos vagos e imaginados, anteriores a aparição do homem sobre a terra.

Mas o que se conta de Jesus Cristo – desde o seu nascimento até a sua Ascensão ao Céu – tem todas as características não de um mito, mas de história.

Lugares, datas, pessoas, contemporâneos, sucessos, tudo especificado, tudo não entretecido com a textura de história universal, que ela não pode prescindir dos fatos da vida de Jesus Cristo, contados pelo Evangelho.

Fonte: Caixa de Perguntas, p. 203, 204, Rev. Bertrand L. Conway.

Não falou Jesus Cristo com severidade à Virgem, nas “Bodas de Cana”, quando lhes disse: “Mulher, que tenho eu contigo?”

A versão católica é mais exata: “Mulher, que me vai a mim e a ti nisso?”

O P. Lagrange diz que os árabes da Palestina usam desta mesma expressão “que a Ti?” com duas significações diferentes.

Algumas vezes significa: “Cuida de ti; atende aos teus negócios”. Em outras, se é acompanhada de um sorriso, significa: “Não te aflijas, que tudo terminará bem”>

Certamente com esta segunda significação a empregaria então Jesus Cristo, como o indica o milagre que pouco depois operou, convertendo a água em delicioso vinho.

O emprego da palavra “Mulher”, em vez de “Mãe”, também não significa desrespeito ou aspereza, como que para indicar a infinita distância que mediava entre Ela , simples criatura, e Ele, Filho de Deus. Semelhante interpretação não é admissível, porque não é verdadeira.

Era simplesmente um modo solene de alguém se dirigir às senhoras, por isso vemos que Jesus Cristo usou novamente dele na hora mais solene de sua vida: moribundo na cruz (Jô 19, 26).

Alguns comentadores protestantes, como: Westcott, Bloomfield, Ellicott, Alford, Trench, admitem que o Senhor não falou com aspereza sua Mãe nesta passagem.

Trench escreve: “É verdade que não há severidade nem aspereza alguma na palavra “Mulher”, com que Jesus Cristo se dirigiu a sua Mãe, por mais que soe assim a muitos ouvidos ingleses. Atenda-se que foi esta precisamente a palavra que o Senhor escolheu nos momentos mais ternos e mais solenes de sua vida, os últimos momentos: ‘Mulher, eis aí teu filho’. Não há nesse vocábulo severidade alguma; há, sim, ao contrário, certa solenidade; e deve havê-la, quando se sente em verdade a dignidade da mulher. O mesmo se diga da expressão ‘Mulher, que tenho eu contigo?’ ... Estas palavras parecem-nos revestidas de certa severidade. Se de fato houve, Jesus Cristo envolveu-a certamente em um tom de voz, que mitigou toda a dureza exterior da frase, pois vemos que logo a seguir acedeu de bom grado ao pedido de sua Mãe, a que aparentemente se recusara” (On Miracles, Ser. 1)

Fonte: Caixa de perguntas, p. 197, 198, Rev. Bertrand L. Conway.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A Noite de São Bartolomeu - B. L. Conway

Não mandaram Carlos IX da França e Catarina de Medicis, sua mãe, a pedido do Papa, degolar cem mil huguenotes, a 24 de Agosto de 1572, dia de S. Bartolomeu? Não foi o Papa Pio V, com a Corte da França, o instigador deste crime, e não mandou o Papa Gregório XIII cantar um solene Te Deum em Roma pelo bom êxito que tivera?

Os Papas nada tiveram com a matança do dia de S. Bartolomeu.

Pio V não planeou com Catarina de Medicis, nem ela incitou a Corte da França; Gregório XIII nunca a aprovou.

Mandou cantar um Te-Deum em Roma por ter saído salvo dela o Rei com a Família Real, e isso a instantes rogos da Corte da França.

As congratulações do papa não são de estranhar.

Ainda hoje é praxe, quando um rei, um príncipe, um presidente da república, sai ileso de um grande perigo, ou atentado, saudarem-no, congratularem-se com ele os outros soberanos, príncipes e governos.

A matança foi um crime político de Catarina de Médicis, por ela planejado na tarde anterior, para evitar as possíveis conseqüências do frustrado assassínio de Coligny, ocorrido a 33 de Agosto, 2 dias antes.

Catarina de Médicis não morria de amores pela religião católica. Era livre-pensadora da escola de Machiavelli, criada nas péssimas tradições dos tiranos da Itália e rainha de uma das Cortes então mais corruptas da cristandade.

A grande aspiração de sua vida era governar pessoalmente a França e robustecer o seu poder, colocando os seus filhos no trono da Inglaterra, Espanha e Polônia.

Para conseguir os seus fins, não trepidava em inimizar os príncipes católicos com os príncipes huguenotes, ciumenta de uns e de outros.

Quando Coligny começou a fazer-lhe sombra e a minar-lhe a influencia, ela, com seu filho Carlos, deliberou tirar-lhe a vida.

Hoje ninguém sustenta que a matança de S. Bartolomeu foi premeditada. Foi planejado e executado com tanta rapidez, que a Corte da França não sabia como defender-se perante as outras Cortes da Europa.

No mesmo dia em que se deu a matança o rei Carlos escreveu ao seu Embaixador na Inglaterra, notificando-lhe que se dera um encontro sangrento entre a facção do Duque de Guisa e a de Coligny, acusando-o de haver assassinado seu pai.

Como o Duque de Guisa recusasse aceitar toda a responsabilidade daquele crime infame, o Rei escreveu no dia seguinte, dizendo que a assumia a ele.

Declarava que tinha ordenado a matança, para evitar, frustrar, uma conspiração de Coligny e seus amigos, em que ele devia perecer com toda a Família Real.

Toda a Europa admitiu esta enorme mentira diplomática, menos a Alemanha e Suíça.

Como conseqüência, Carlos IX recebeu mensagens congratulatórias do Senado de Veneza, do Duque da Toscana, de Filipe II da Espanha e de Isabel da Inglaterra.

É verdade que Pio V urgiu freqüentemente com a Corte da França, que tomasse medidas enérgicas contra os huguenotes, que ele, com toda a razão, considerava inimigos da Igreja e do Estado.

Escreveu a Carlos e a Catarina, que “declarassem guerra aos inimigos da Igreja e os destruíssem a todos sem dar tréguas aos rebeldes, para libertar de vez a França de sedições e cenas sangrentas.”

Não nos arvoramos em juízes das razões políticas que motivaram este particular interesse do Papa pela conservação da monarquia francesa; se bem que pensamos que uma decisão enérgica teria evitado o derramamento de sangue, que se lhe seguiu.

O Papa insistia em que era necessário obter uma vitória decisiva até submeter completamente os rebeldes e sentia-se incomodado, quando lhe notificavam que as vitórias do Rei enriqueciam e fortificavam os inimigos.

Mas uma coisa é guerra oficialmente declarada, e outra são assassínios pessoais.

Nem um só Bispo esteve presente, quando a “junta” maquinou a matança; nem um só a aprovou depois de perpetrada.

O Cardeal de Lorena, que tantas vezes nos pintam a abençoar as adagas dos assassinos de Paris, estava em Roma, quando se deu a catástrofe.

Todos os historiadores, católicos e protestantes, estão de acordo que a inspiradora e autora deste tristíssimo acontecimento foi Catarina de Médicis.

Um escritor protestante, que publicou recentemente a sua vida, diz: “Sobre  Catarina pesará sempre a responsabilidade da matança de S. Bartolomeu”. E acrescenta: “Ninguém, que conheça alguma coisa do seu caráter através de suas cartas, ou tenha estudado com atenção a sua tortuosa política de governo, pode suspeitar, sequer por um momento, que andou nisto alguma coisa que se parecesse com fanatismo religioso” (Van Dyck: Catherine de Medicis, 2., 88)

Quanto ao número de mortos durante as seis semanas que durou a matança, nada se sabe de positivo; tudo é conjectural; e os cálculos fazem-nos lembrar dos geólogos modernos acerca da idade do mundo. Basta dizer que vão de 2.000 a 110.000.

Lorde Acton e Van Dyck calculam de 3.000 e 4.001, em Paris; e outros tantos nas Províncias.

Segundo um antigo livros de contas do Hotel da Cidade de Paris, citado pelo P. Caveirac na sua “Apologia de Luiz XIV”, foram sepultado os cadáveres de 1.190 vitimas, no Cemitério dos Inocentes.

O “Martirologio Huguenote”, publicado em 1581, só apresenta 786 nomes.

Sabe-se, pelo “Relatório de Beauviller”, mensageiro do rei da França, pelas cartas ao embaixador francês De Ferals, do Cardeal de Borbão e do Núncio, que a Corte Francesa não vacilou em mentir ao Papa, informando-o de que a matança tinha sido um justo castigo imposto aos conspiradores.

Brantôme diz nas “Memórias” que quando o Papa, mais tarde, teve conhecimento da verdadeira causa do morticínio, chorou lágrimas amargas e condenou-o como “ilegal e proibido por Deus”.

Fonte: Caixa de Perguntas, B. L. Conway, p. 387-389

terça-feira, 31 de maio de 2011

As Escrituras e a Tradição

O texto a seguir são partes digitadas do vídeo que coloquei na última postagem onde um Ortodoxo defende a relação das Sagradas Escrituras com a Sagrada Tradição, refutando a heresia da "Sola Scriptura". Algumas partes foram cortadas para se referir somente ao assunto proposto. Outro detalhe importante: por ter sido feito por um ortodoxo, algumas partes da argumentação é mais importante e faz sentido para a Igreja Ortodoxa, e não para a Católica. Um exemplo, talvez o principal, são as traduções bíblicas. É claro que uma grande quantidade de traduções foi feita enquanto não houve o cisma, no entanto, muitos lugares de origem ocidental realmente não tiveram traduções bíblicas (por motivos diversos que podem ser tratados posteriormente), apesar de existirem traduções para a lingua vernácula antes da "reforma" protestante.

Entre a Escritura e a Tradição não há nenhum conflito ou contradição.  A falsa oposição entre elas apareceu apenas no século XVI quando o protestantismo proclamou o princípio da "Sola Scriptura", dizendo que a Bíblia é a única fonte de doutrina, suficiente para a salvação.

O significado inicial de Sola Scriptura, tal como Lutero entendeu, se refere a rejeição das supostas inovações Católicas - O próprio Lutero tirou da tradição Católica idéias de Santo Agostinho (A predestinação, o ensino sobre o Filoque, etc). Lutero, por exemplo, reconhecia o batismo dos bebês, apesar dos neoprotestantes considerá-lo antibíblico. Foram os discípulos neoprotestantes de Lutero que deram um caráter exclusivista para o princípio "Sola Scriptura", rejeitando qualquer idéia de Tradição. Apesar disso, protestantes e neoprotestantes também têm sua tradição, e espero que quem for honesto reconheça isso, pois é um fato. Eles interpretam a Bíblia a partir da perspectiva estrita de alguns pontos de doutrina que não estão escritos na Bíblia, de alguns livros, catecismos ou revistas publicados pela sua denominação ou da opinião de pessoas consideradas carismáticas. Assim, o princípio da Sola Scriptura, como veremos, não funciona, porque os critérios de interpretação da Bíblia estão fora dela. Se a Bíblia pudesse ser interpretada somente através dela seria impossível a aparição de inúmeras denominações e interpretações todas afirmando se basear "Somente nas Escrituras", mas, ao mesmo tempo, se contradizendo.

Apesar de terem sua tradição, os protestantes e neoprotestantes não reconhecem a Santa Tradição, trazendo contra nós falsos argumentos, que não se referem à Tradição, mas a "tradições humanas" como as chama a Bíblia. Em três lugares da Escritura, onde a tradição parece ser condenada, o Senhor se refere claramente aos "ensinamentos dos homens" (Mateus 15, 2-6; Marcos 7, 3-13 e Colossenses 2,8), E se os neoprotestantes preferem citar Mateus, eu vou citar Marcos 7, 8: ""Porque, afastando-se da Lei de Deus, vocês mantém as regras dos homens: lavar os copos e jarros, e muitos outros como estes.". Aqui podemos ver claramente não só a condenação de uma tradição, mas também o seu conteúdo: a lavagem de copos e garrafões e outros hábitos irrelevantes para a salvação. Mas quando nós falamos sobre a Tradição, nos referimos a outra coisa e quero que entendam claramente isso. Nós não consideramos parte da Tradição aquele elemento  que contradiz a Revelação e a Divina Escritura. Escritura e Tradição não podem ser vistas como duas fontes complementares de doutrina, mas como duas realidades que estão numa relação de mútua interioridade (cada uma contém a outra). Se fizermos uma analogia a Santíssima Trindade, podemos dizer que a Escritura e a Tradição são um só ser, esse ser é a Verdade única e imutável, e, ao mesmo tempo, elas são distintas. É por isso que a sua separação e contraposição pode ser comparada com a separação e contraposição das Pessoas da Santíssima Trindade. Vou expandir a idéia mais tarde e quero que entendam a analogia da Santíssima Trindade somente como uma comparação.

Como a Bíblia ensina, a nossa salvação trazida por Cristo foi realizada objetivamente pela paixão, morte e ressurreição de Cristo e, subjetivamente, pela nossa cooperação com Deus e a Igreja que ele fez, não com a base nas idéias pessoais ou de algum grupo, mas baseada na Sua Pessoa Divino-Humana (Mateus 16, 16; 1 Timóteo 3, 15-16). Ele prometeu que Sua Igreja sempre vai existir, por isso nem "as portas do inferno prevaleverão contra ela". (Mateus 16, 18). Quando Ele levantou ao céu, Ele prometeu que vai estar conosco até o fim do mundo (Mat 16, 16) e que o Espírito Santo será enviado no mundo para levar-nos a toda a verdade (Mateus 28, 20). Esta verdade é a respeito de Cristo e é o próprio Cristo (João 14, 6), que "ontem, hoje e sempre é o mesmo" (Hebreus 13, 8) e nossa fé nEle é a fé que tem sido dada para sempre aos santos (Judas 1, 3). Tendo isso em conta, é evidente que a verdade da fé não pode ser uma no primeiro século, outra no quarto, outra no século XVI e outra no século XXI. Ela deve ser a mesma até o fim do mundo. Quem admitir que a verdade pode ser mudada está longe da verdade, pois ele está contrariando as Escrituras. É por isso que consideramos que a verdade deve ser a mesma em todos os tempos e lugares e sua manutenção intecta é devida a presença eterna de Cristo e do Espírito Santo na Igreja do Deus Vivo, que é o "pilar e sustentáculo da verdade" ( 1 Tomóteo 3, 15). E se a verdade é uma só, também a Igreja só pode ser uma, porque uma cabeça não pode ter vários corpos, uma cabeça tem um só corpo (Efésios 1, 22-23; 2, 3-6). Deduzimos que a Igreja de Cristo e sua doutrina deve existir a partir do momento da sua criação até o fim do mundo, sem interrupção. Então, pode pretender ao nome de "Igreja de Cristo" só aquela assembléia cristã que tem existido, sem interupção e consideramos que essas condições só nossa Igreja corresponde a partir dos primeiros séculos, sendo a mesma Igreja dos apóstolos e dos primeiros cristãos. Foi nesta Igreja que a Bíblia foi escrita e interpretada junto com muitos outros
ensinamentos necessários para a salvação. Foi nela que o Espírito Santo guiou os santos bispos a estabelecer corretamente o canon bíblico (o número dos livros bíblicos, seus autores e sua ordem), rejeitando todos os apócrifos heréticos. E isso aconteceu a partir do século IV até mais tarde, quando a Igreja tinha as mesmas cerimônias e organizações.

Grandes diferenças entre a Igreja do século quando foi proclamado o canone bíblico e a nossa Igreja de hoje não existem. Nesta Igreja, a Bíblia era escrita, interpretada e transmitida adiante, com muitos outros ensinamentos baseados na mesma fé e pregação apostólicas. O principio da Sola Scriptura não existia e não tinah como existir. Os Santos Padres que estabeleceram o canon bíblico foram aceitando e difundindo muitos ensinamentos que não estavam claramente expressos na Bíblia, mas que foram retirados da Santa Tradição, e, mesmo assim, em acordo com a Bíblia:

- O texto e a cerimônia da Sagrada Eucaristia que não são mencionados na Bíblia.

- A tripla imersão no batismo, sugerida na Didaquê, escritura do primeiro século, que, muitas vezes era incluida no canon, sabemos que os protestantes de hoje batisam com uma só imersão, e seria interessante saber de onde tiraram isso.

- A veneração das reliquias, claramente mencionada no século II, vinculada ao martírio de S. Policarpo de Esmirna, discipulo direto de São João Teólogo.

- O sinal da cruz, confirmado no século II.

De onde os protestantes têm a Bíblia? Em que eles estão baseados, quando dizem que um Evangelho pertence a Mateus ou a Marcos? De onde eles sabem que existem 27 livros autênticos no Novo Testamento e não menos ou mais? Nós dizemos que todas essas informações e, às vezes, até a maneira de interpretar as Escrituras, eles plagiaram da Santa Tradição da nossa Igreja.

Daqui derivam outras perguntas: Por que tiraram apenas uma parte da Tradição da Igreja e com base em que critérios eles consideram que, no estabelecimento do Canon bíblico a Tradição da nossa Igreja foi correta e em outras, a mesma Tradição errou? E se esta Igreja errou em alguma coisa, tendo "mancha ou ruga" (Efésios 5, 27), então ela não é mais Igreja e o que Cristo estabeleceu foi derrotado pelo diabo e Cristo era um mentiroso, pois fez falsas profecias (Mateus 16, 18). E se o que Ele criou não foi destruído, então essa Igreja existiu e existe e é a ela que devemos pertencer, porque todas as outras supostas "igrejas" são mentirosas.

Quero detalhar alguns aspectos sobre a relação Escritura-Tradição-Igreja. Depois da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos (Atos 2, 1-4), os cristãos perseveraram "na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações." (Atos 2, 42). A atividade de cada apóstolo não era limitada a pregação, porque os apóstolso não espalhavam Bíblais pelo mundo, como os protestantes fazem, mas eles espalhavam a Igreja de Cristo, em toda a sua integridade. "A sabedoria de Deus, de muitos tipos, foi dada a conhecer através da Igreja" (Efésios 3, 10), não através da Bíblia. E a Igreja incluiu e inclui batismo, eucaristia, sacerdócio, pregação e muitas outras coisas das quais, me desculpem, os protestantes, às vezes, nunca ouviram falar.

É claro que uma ênfase especial na missão dos apóstolos era dada a pregação da "palavra de Deus" e esta expressão se refere, em primeiro lugar, a pregação oral. (Atos 6, 2-7; 11,1; 13,7-44; 16, 32; 18, 11). a "Palavra de Deus" mão se referia a palavra escrita (as Escrituras), como os protestantes dizem, considerando apenas a Bíblia como "Palavra de Deus". As Escrituras mostram claramente que a pregação oral era a Palavra de Deus e ela "crescia e se multiplicava" (Atos 12, 21), ou seja, foi passada adiante em formas enriquecidas pela ação do Espírito Santo.

Outro aspecto extremamente importante e crucial na pregação da Palavra de Deus coexiste em que os apóstolos exortavam os seus discípulos a manter e passar adiante o que receberam do Senhor. Aqui aparece a noção de "Tradição", como revelação completa dada a Igreja através dos apóstolos e transmitida adiante sem alterações. Vejam alguns textos bíblicos que falam sobre esse significado da tradição (paradosis) e da necessidade de guardá-la: "Louvo-vos, irmãos, que vos lembreis de mim em todas as coisas, e mantenham as tradições como lhes entreguei. Porque as recebi do Senhor e o que recebi repassei para vós" (1 Coríntios 11, 2-23); "Irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa" (2 Tessalonissenses 2, 15); "Agora, o compando-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos apartei de todo irmão que anda desordenadamente, e não seguindo a Tradição que de nós recebeu" (2 Tessalonisenses 3,6); "Essas coisas, que vós aprendestes, recebestes, ouvistes, e vistes em mim, façam: o Deus da paz estará convosco" (Filipenses 4, 9); Não disse "o que lestes". Vemos que a transmissão da doutrina por meio oral e a retransmissão dela inalterada não era apenas uma alternativa para a palavra escrita, mas, na maioria das vezes, a única maneira de pregar o Evangelho, porque:

1) Cristo não escreveu nada (com exceção de algumas palavras na areia) e não ordenou aos apóstolos que escrevessem alguma coisa.

2) Assim como no Antigo Testamento, até Moisés, ninguém escreveu nada, também os Santos Apóstolos não escreveram nada nos quase 20 anos de pregação e São João escreveu seus cinco livros no final da sua vida, após 60 anos de pregação ora, que representa mais de uma geração. Surge a pergunta: Esse povo sabia que "Deus é amor" (1 João 4, 8)? A Epístola de S. João não estava escrita ainda.

3) Por causa de alguns problemas concretos de algumas comunidades, mas, sobretudo, por causa das heresias daquele tempo. os apóstolos escreveram apenas uma parte da doutrina, sem dizer ou deixar claro que o que eles escreveram continha tudo, mas pelo contrário, claramente mostraram que a atividade e, especialmente, a doutrina de Jesus, diretamente ou através dos apóstolos dada, é muito mais vasta, que "nem mesmo o próprio mundo poderia conter os livros que deveriam ser escritos". Em Atos 20, 35, São Paulo, que não conheceu diretamente a Cristo, apresenta um ensinamento dele que não aparece em nenhum dos quatro evangelhos: "Há mais felicidade em dar do que em receber". Mas o que chama a atenção é que, antes disso, em Atos 20, 31, São Paulo diz que, durante três anos, nunca parou, dia e noite, a exortar os seus apóstolos de Eféso, mas não encontramos na Bíblia o conteúdo dessas pregações sistemáticas durante três anos. E se essas pregações continham centenas de ensinamentos que vieram diretamente de Jesus, mas que não estão escritos no Evangelho, como o versiculo acima? Este caso não é o único, porque também não temos, na Bíblia, o conteúdo da pregação durante um ano e meio, de Corinto (Atos 18, 11), que não é o mesmo que o das duas epístolas aos Coríntios que temos. Certamente, São Paulo disse aos coríntios muito mais sobre a Eucaristia do que ele disse depois, em alguns versículos do capítulo 11, da primeira epístola. Podemos pensar o mesmo sobre a celebração do domingo, sobre o qual, nas epístolas, ele fala apenas um pouco (1 Coríntios 16, 2).

4) Mais do que isso, os apóstolos preferiam falar com os seus discípulos, diretamente, cara a cara, as epístolas sendo apenas uma alternativa para os casos em que a reunião e a conversa direta não eram possíveis. Vejam apenas dois exemplos, ambos a partir do final do século apostólico, em que vemos os apóstolos, mesmo naquela época, preferiam a palavra oral, não a escrita: "Apesar de ter mais coisas que vos escrever, não o quis fazer com papel e tinta, mas espero estar entre vós e conversar de viva voz, para que a vossa alegria seja perfeita." (2 João 1, 12) Se a alegria não era completa, também a graça não era completa, segundo São Paulo. "Tinah muitas coisas para te escrever, mas não quero fazê-lo com tinta e pena. Espero ir ver-te em breve e então falaremos de viva voz." (3 João 1,13-14).

5) Os apóstolos não podiam pretender aos primeiros cristãos ter ou ler a Bíblia, pois isso era técnicamente impossível. Foi apenas nos séculos II e III que as igrejas das cidades grandes começaram a recolher os livros do Novo Testamento adotando também a tradução grega do Antigo Testamento (Septuaginta), mas esse processo de colheita era muito difícil por causa do grande custo dos pergaminhos ou papiro e das grandes distâncias entre as igrejas. que tinham um certo livro herdado dos apóstolos. A possibilidade de algumas pessoas terem uma parte dos livros bíblicos era extremamente reduxida (também a maioria não sabia ler). Se aceitarmos a concepção errada dos protestantes podemos concluir que os primeiros cristãos não podiam ser salvos, já que não liam nem estudavam a Bíblia. E se é assim que aconteceu nos primeiros séculos e mais tarde com a Bíblia, então uma pergunta aparece: Como e de que forma os cristãos recebiam a palavra salvadora? A resposta é muito simples: na Igreja. onde os bispos ordenados e ajudados pelo Espírito Santo (Atos 20, 28) estavam passando de geração em geração o "tesouro" recebido pelos apóstolos (2 Timóteo 1, 13-14).

Essa sucessão apostólica incluía o direito de sacrificar a Eucaristia e o direito de pregar o Evangelho, realidades que nem a Igreja primária, nem depois, foram separadas. Irineu de Lyon, discípulo de S. Policarpo de Esmirna, que foi discípulo de São João, que era o "apóstolo amado" do Senhor, disse: "A nossa fé está de acordo com a Eucaristia". Duas gerações depois de S. João, a fé e a Eucaristia estavam unidas. Assim também são hoje, na nossa Igreja. Não falei sobre a sucessão apostólica gratuitamente, porque, na Igreja, esta sucessão pode ser vista em toda parte e permanentemente. Lógica e teologicamente, está claro que a quebra desta sucessão sacramental e doutrinária significa a separação da Igreja Apostólica, cuja cabeça é Cristo. Ficaríamos felizes em ver esta sucessão no protestantismo também, mas não temos chance. Ao enfatizar o papel da sucessão sacramental, não quero dizer que os leigos não conheciam a "palavra de Deus", mas que a Bíblia era lida e pregada somente na Bíblia; Igreja é a comunhão de cristãos, reunidos em torno da Eucaristia e guiada pelo Espírito Santo, mas também o lugar concreto onde esses livros (que nem todos tinham mas que estavam a disposição de todos) estavam guardados.

O mito que diz que a Igreja proibia os leigos de lerem a Bíblia é uma grande mentira. Os protestantes também desinformam com outro mito: que a Igreja proibia a tradução da Bíblia para os outros povos. Havia a tradução siríaca, nos séculos 4-5, a tradução gótica, no século 9, a tradução eslava, no século 15, a tradução romena. Quando Lutero apareceu na face da Terra, todos o grandes povos antigos tinham a Bíblia traduzida em suas línguas.

Vou fazer algumas especificações sobre a natureza e o conteúdo da Tradição. Por Santa Tradição, entendemos a revelação completa, dada a Igreja, através dos apóstolos e passada adiante inalterada. Então, a Tradição não é um conjunto de ensinamentos ou costumes, mas a "respiração do Espírito Santo na Igreja", presente na doutrina da Igreja, na oração e na vivência dos seus membros. Nós já argumentamos que a Bíblia é apenas [uma parte] desta revelação a sua importância e autoridade não são devidas ao seu conteúdo exaustivo (como dizem os evangélicos, que a Bíblia contém tudo) mas ao fato de a Bíblia ser aquela parte ao fato de a Bíblia ser aquela parte da revelação que foi escrita diretamente pelos apóstolos, testemunhas oculares auditivas do Senhor e em sua base, todos os outros elementos da Tradição podem ser certificados. E por isso que a Bíblia tem autoridade: por ser uma fonte de primeira mão, não porque conteria tudo e fora dela não haveria nada. Então, a Bíblia não e não pode ser considerada auto-suficiente, separada da memória viva da Igreja, que é a Tradição. Tirar a Bíblia do contexto da Tradição Igreja é tirar um versículo do contexto de um livro bíblia. Assim como separar o versículo de um contexto pode levar a perdição, também separar a Bíblia da Tradição leva a perdição. Então, a Bíblia, como ela mesma diz, só pode ser interpretada através da Tradição. Vejam alguns trechos bíblicos sobre isso: "Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos falaram da parte de Deus conforme eram movidos pelo Espírito Santo" (2 Pedro 1, 20-21). Então, a Bíblia não se interpreta por si mesma ou em particular, como os protestantes dizem, mas sua interpretação só pode ser feita por "homens santos", "guiados pelo Espírito Santo". Para nós, eles são Santos Padres, que os batistas, Às vezes, plagiam, sem ter a coragem e sinceridade de dizer que certos ensinos pertencem a João Crisóstomo ou a S. Vasilios, mas nem mesmo a eles, mas ao Espírito Santo, que falou, através deles, devido a sucessão herdada dos apóstolos, mas também devido a santidade deles. Até o eunuco da Etiópia reconheceu que não poderia compreender corretamente o texto da Escritura sem guia (Atos 8, 31), especialmente porque, na Bíblia, há "muitas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis torcem, para sua própria perdição" (2 Pedro 3, 16).

A Tradição da Igreja não só nos deu a Bíblia, mas também a chave da sua significação, sem a qual é impossível não errar, atraindo a perda da alma. A Santa Tradição tem os seguintes elementos básicos:

1) A Bíblia, elemento infalível e com máxima autoridade, com base na qual as outras fontes são verificadas.

2) Os antigos símbolos de fé e confissões, incluindo os mártires (Mateus 10, 19-20). Cristo disse que na hora do martírio, não vão ser os cristãos quem falarão, mas o Espírito Santo falará através deles. Isso significa que eles serão revelados. E se os evangelistas foram revelados e são obedecidos, também os mártires devem ser escutados.

3) As decisões canônicas e dogmáticas dos Concílios Locais e Ecumênicos.

4) Os escritos dos Santos Padres, universalmente reconhecidos pela Igreja (por meio do principio "consensum patrum" = os escritos que não contradizem a Escritura e não se contradizem entre si, mas são baseadas no consenso teológico, como obra do Espírito Santo, que falou através deles, com palavras diferentes, mas da mesma forma.

5) Os vestígios liturgicos: ícones, hinografia, etc. Na Igreja primária, existia uma definição simples para os ícones: "A Bíblia dos analfabetos".

Os critérios em base do qual que os elementos 2, 3, 4, 5 são aceitos ou rejeitados na Tradição é o mesmo critério base do qual os livros bíblicos foram aceitos e pregados. Este critério foi formulado no século 4 por São Vicênio de Leryn: "A verdadeira Tradição é o que todas as pessoas acreditaram sempre e em todos os lugares". A ação do Espírito Santo consiste nesta concordância universal no espaço e no tempo, que faz da Tradição uma espécie de filtro, que só aceita o que é útil e em concordância com o ensinamento oral e escrito herdado de Cristo e dos apóstolos, rejeitando todos os escritos contrários a esses ensinamentos.

Esta revelação não é só informação, assim como também a Bíblia não é só informação e nem a Tradição é só informação, mas também espiritu=ação viva do Espírito Santo, na Igreja. O espírito da Tradição precede e dá valor à informação.

1) Através da Tradição, nos é transmitido o espírito apostólico da leitura e interpretação da Bíblia e, apenas depois, aparece a informação (o conteúdo dessas interpretações). Primeiro, foi transmitido o espírito da compreensão e formulação dos dogmas cristãos e, apenas depois, encontramos o conteúdo desses dogmas formulado na Tradição. Em conclusão, a Igreja poderá formular outros dogmas também, se for preciso. E o espírito da compreensão dos dogmas  que vai nos manter longe das formulações erradas e contraditórias. Os protestantes, tendo isso em conta, não foram e não são capazes de operar conforme a informação dos dogmas, porque não tem mais o espírito da Tradição dogmática. O espírito e modelo da oração foram transmitidas pelos apóstolos aos seus discípulos e gravitavam em torno da Eucaristia.

Muito antes da oficialização do cristianismo como religião (313) as orações e praticas litúrgicas dos cristãos eram semelhantes e, às vezes, idênticas, como o texto e forma das que vemos hoje, mesmo sem nem existirem na Bíblia. Tudo isso demonstra, mais uma vez, a ação do Espírito Santo na Igreja não somente através da letra da Bíblia mas também através da letra e espirito da Tradição da nossa Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

terça-feira, 17 de maio de 2011

As escrituras e a Tradição descritas por um ortodoxo.

Bom, discordo dele quanto a questão da não validade dos sacramentos e sacerdócio Católico, entretante ele refuta as principais objeções protsetantes e demonstra, como várias vezes já foi demosntrado em outros meios, que a Sola Scriptura não faz sentido algum, pelo contrário, nem a Bíblia nem a Igreja desde o principio acreditava em algo do tipo.






domingo, 1 de maio de 2011

Quatro perguntas que os protestantes não conseguem responder de forma satisfatória.

Achei interessante essas quatro perguntas que encontrei enquanto fazia uma pesquisa na internet. Antes de me tornar católico já havia perguntado algo parecido. Originalmente são cinco, no entanto a primeira pergunta pode ser respondida de maneira parecida tanto por católicos quanto por protestantes.

Depois, tentei encontrar alguma resposta protestante. Não achei nenhuma. Pode ter passado desapercebido, ou posso não ter pesquisado da maneira correta, no entanto resolvi postar e ver se algum protestante quer tentar responder.

A resposta pode ser enviada da forma que desejar. Por e-mail (jonadabe.rios@hotmail.com), em seu blog (indicando o link nos comentários) ou até mesmo comentando diretamente aqui.

Vamos às perguntas:

1 - Por favor, diga-me porquê você aceita apenas uma parte da Bíblia (afinal, a lista de livros que compõem o Novo e o Antigo Testamento foi determinada ao mesmo tempo - aliás, junto com o título de Mãe de Deus para Nossa Senhora - e você aceita apenas parte do Antigo Testamento), e com que autoridade você o faz.

2 - Por favor, diga-me porque a Bíblia teria precisado de quase 1600 anos para ser entendida corretamente, se ela é teoricamente algo que qualquer um pode ler e entender.

3 - Por favor, explique como alguém pode saber se entendeu a Bíblia corretamente, se ele só pode confiar na Bíblia, e em mais nada; afinal existem cerca de 30.000 seitas protestantes no mundo, cada uma entendendo a Bíblia de maneira diferente e todas achando que estão certas.

4 - Por favor, prove usando apenas a Bíblia que ela é o que você considera que ela seja (ou seja, a única fonte de Verdade Revelada, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles). Claro que todo mundo sabe que a Bíblia é Palavra de Deus, boa para o ensino, etc. e tal, mas por favor, tente provar que ela é a única fonte de Palavra de Deus, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles.

Gostaria de avisar que não irei tentar responder raciocinios em circulos ou pregações. Um exemplo disso é quando se pressupõe a heresia da Sola Scriptura sem apresentar fundamentos. Assim, antes de tentarem defender a Sola Scriptura, peço que tenham um pouco de paciência (e para alguns, vergonha na cara), e leiam os seguintes artigos do Veritatis:


Caso a resposta dada leve em consideração os argumentos Católicos apresentados, terei o prazer de postar no blog antes de tentar responder.