Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.
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III– São Bartolomeu foi um ato de proscrição política.
I. A culpabilidade pessoal de Coligny. II. O massacre não foi premeditado. III. Massacres nas províncias.
I. As virtudes guerreiras de Coligny, a apologia que Voltaire fez deste personagem, e o culto que lhe dedicaram os protestantes, fizeram por demais esquecer suas ofensas contra o rei, contra a pátria e contra a religião. Pegando em armas contra o Estado, Coligny tornara-se criminoso de lesa-majestade. A prova de sua rebelião não interrupta acha-se no Diário de suas receitas e despesas, por onde se vê que esbulhou os súditos do rei para mover guerra contra o monarca; nos papéis do almirante, onde se podem ler suas conspirações; nas Memórias de Villeroy, de Brantôme, de Tavannes e de Montluc. Percorrendo-as, ficar-se-á persuadido que Coligny se tornará insuportável a Carlos IX e a Catarina de Medicis, ao mesmo tempo que se declarava o inimigo encarniçado dos Guises, o cumplice e o instigador de Poltrot, assassino do duque, cuja morte tanta alegria lhe causara... Por certo, depois de tantos motivos de queixa, não é necessário procurar na religião um pretexto para esta proscrição inteiramente política [1].
Julgamos suficiente porém lembrar as últimas circunstâncias que precipitaram o desfecho de uma crise tão longa.
“Durante os reinados de Francisco II e de Carlos IX (1560-1574), Catarina de Medicis - que de fato governava o reino – introduziu, na direção dos negócios, um maquiavélico e perigoso sistema de balança, que consistia em enfraquecer uns pelos outros, por meio da astúcia ou da força, tanto os defensores como os inimigos do Catolicismo, sistema impossível e aliás perigoso; impossível, porque em parte alguma as ideias de conciliação e tolerância em matéria de religião eram aceitas; perigosíssimo, pois a força de poupar ou favorecer os partidos contrários, acabava-se fatalmente por congrega-los contra si mesmos, por originar reações violentas e não ter outro meio de sair da confusão e do caos senão as catástrofes[2]”.
Esta política de partido intermediário manifestara-se no colloquio de Poissy (1561). Inspirou o edito de janeiro de 1562 que assegurava aos reformados o livre exercício de seu culto, permitindo-lhes as predicas fora das cidades. Fiel a esta mesma política, a rainha não assina, em 1570, a paz de São Germano, que concedia tais vantagens aos protestantes que os católicos, logo em seguida Às suas vitórias de Jarnac e de Moncontour, se julgaram traídos. Quatro cidades fortificadas estavam entregues aos protestantes por dois anos; ficavam admitidos a todos os empregos, de modo que se pôde dizer que “a realeza capitulou como um vencido”.
O almirante Coligny triunfava com todas aquelas concessões; o rei o temia e era influenciado por ele, a tal ponto que Catarina de Medicis ficara apavorada com o ascendente do almirante. É então que a situação veio a complicar-se com um projeto de guerra contra a Espanha, guerra cuja realização muito se empenhava Coligny. A ela, porém, se opunha a rainha mãe. Desesperada por ver que o almirante era mais rei do que o rei, armou o braço de um assassino.
Em 22 de agosto de 1572, ao voltar do conselho, Coligny recebeu um tiro de bacamarte. O almirante foi somente ferido, Carlos IX o visita, consola, jura vinga-lo. Por outro lado, os protestantes ficam furiosos e vomitam ameaças. Catarina de Medicis resolve uma vingança mais completa. No conselho efetuado no dia seguinte, com o duque de Anjou e alguns chefes católicos, foi decidida a morte do almirante e de seus principais aderentes. Depois, tomada esta decisão, a rainha mãe foi ter com Carlos IX e mostrou-lhe o perigo iminente a que ia ficar exposto se não fizesse matar Coligny e os chefes do partido protestante. Assustado, exasperado, o rei declara que quer a morte não só de alguns protestantes, mas de todos. É assim que o massacre geral foi exigido e ordenado pelo rei. É verdade que no dia seguinte, 24 de agosto, quando às duas horas da madrugada, o dobre do sino deu o sinal, o rei, por uma contra-ordem, proibiu o massacre geral e até a morte de Coligny. Mas já era tarde: o sangue e a morte corriam pelas ruas da capital, onde a carnificina durou três dias [3].
II. Muito se discutiu a questão de saber se o massacre fora premeditado ou se foi resolvido subitamente. Os autores protestantes, para pintar a perseguição com cores mais negras, não deixaram de afirmar que a matança era preparada desde muito tempo. “Os panfletos contemporâneos fazem mesmo remontar a decisão até a entrevista de Bayonna, em 1565; alguns escritores, à paz de São Germano, 8 de agosto de 1570[4].
Outros autores, e partilhamos sua opinião, querem que a resolução não tenha sido tomada, se não no dia precedente, de tarde. Estes têm a seu favor: 1º o testemunho da rainha Margarida, esposa do rei de Navarra (mais tarde, Henrique IV); o 2º de Tavannes que, nas suas Memórias, afirma que se lançou mão dessa medida só em consequência dos receios que inspiravam os chefes dos protestantes, depois da ferida de Coligny (22 de agosto de 1572); 3º o do duque de Anjou, irmão de Carlos IX (e seu sucessor, sob o nome de Henrique III), relatado por seu médico Miron. Este descreve o conselho reunido em 23 de agosto, no qual a rainha Catarina de Medicis fez prevalecer o seu desígnio de matar Coligny, e o rei, numa grande cólera, propôs o massacre de todos os protestantes da França; 4º Esta opinião tem a seu favor a autoridade de Brantôme, e La Popelinère e de Mathieu, autores contemporâneos; 5º Enfim a crítica moderna, após estudo dos diversos documentos históricos, apega-se de preferência ao mesmo parecer. “Todas essas atestações, escreveu Banguenault de Puchesse, são concordantes e naturais, enquanto é preciso recorrer a suposições muito improváveis para sustentar a tese da dificílima preparação de um acontecimento no qual o acaso tem um papel muito mais preponderante do que o cálculo”[5].
Resumindo os testemunhos dos embaixadores da época, Cavali, Walsingham, o núncio Salviati, Cuniga, outro sábio crítico, Jorge Gandy, conclui assim: “Chega; a falta de premeditação que esses testemunhos e muitos outros afirmam é provada até a evidência”[6].
Acrescentemos quão pouco verosímil é que essa resolução tenha ficado secreta durante sete anos, como o querem os protestantes que a fazem remontar à entrevista de Bayonna e, pelo contrário, quanto se harmoniza melhor o conjunto dos fatos com a opinião de uma determinação súbita, que deixa tudo por conta do imprevisto e do furor das paixões populares.
III. Massacres se deram também nas províncias, em diversas cidades e em épocas diferentes: em Meaux, em 25 de agosto; em La Charité, em 26; em Orleans, em 27; em Angers e Saumur, em 29; em Lyão, em 30; em Troyes, em 4 de setembro; em Burges, em 15; em Ruão, em 17; em Romans, em 20; em Tolosa, 23; em Bordéus, somente em 3 de outubro e em Poitiers, no dia 27.
A respeito desses massacres, apresenta-se logo esta questão: pelo rei terão sido dadas ordens para estender às províncias as sangrentas execuções que se realizaram na capital? Os historiadores não estão de acordo. Segundo certos, a palavra escapada a Carlo IX, num momento de cólera, deve ser tomada ao pé da letra, e suas ordens secretas foram mandadas aos governadores das províncias, pedindo-lhes uma proscrição geral dos hereges. É a opinião dos protestantes Papyre-Masson, Davila, Maimbourg, acompanhados pelos adversários do Catolicismo. As Memórias do Estado da França afirmam que ordens neste sentido foram igualmente expedidas aos governadores das cidades.
Durante certo tempo foi de uso entre os defensores da Igreja negar essas asserções. Mas hoje seria difícil pretender que Carlos IX não tenha enviado ordem alguma. Sua correspondência já publicada, insere em 27, 30 e 31 de agosto, cartas que se diz que retira mandados verbais que o receio de sinistros acontecimentos pudera decidir a transmitir ao governador de Lyão, assim como a outros governadores e tenentes regionais.
Depois disso, não é muito possível duvidar da existência de certas ordens verbais expedidas nas províncias, quer pelo próprio rei, quer em nome dele pelos cortesões.
Agora, vem a propósito outras perguntas: em que momento foram dadas aquelas ordens? Estendiam-se a todo o reino? Qual era o seu teor? Pode-se atribuir-lhes os massacres dos protestantes efetuados nas províncias. Aqui também diferem as respostas com os autores.
1º Os historiadores que pretendem que São Bartolomeu foi uma coisa preparada desde muito tempo, foram obrigados, para ser consequentes, a sustentar que aquelas comunicações foram mandadas antes dos massacres de Paris. Para os partidários da opinião mais acreditada e verosímil, que não houve premeditação, é claro que não pôde haver ordens dadas muito tempo antes da execução. A resolução do massacre tendo sido tomada só na tarde de 23 de agosto, é nesse mesmo dia e uma hora bastante avançada, que o rei esteve no caso de dar suas instruções de viva voz a alguns fidalgos que estavam presentes.
2º As ordens verbais não foram expedidas a todos os governadores das províncias. O autor pouco suspeito das Memórias do Estado da França o atesta, dizendo ele mesmo que essas ordens “foram despachadas aos governadores das cidades notáveis onde havia numerosas pessoas da região”.
3º Eram as ordens despidas de toda a compaixão, prescrevendo a morte de todos os hereges, como o querem os escritores partidários de uma carnificina universal? À primeira vista, seria para estranhar que Carlos IX, que, em paris, não queria tirar a vida se não dos principais chefes, tenha ordenado nas províncias um massacre geral. Mas, a deposição de Tavannes e a do Martyriológio dos protestantes concordam neste ponto que o rei queria ferir só “os chefes dos facciosos” Se, numa efervescência popular, as execuções foram além, devem-se responsabilizar as paixões excitadas e aquele furor brutal que se manifesta em todas as arruaças.
4º Enfim, a verdade histórica obriga a reconhecer que aquelas ordens orais, de qualquer natureza que tenham sito, foram revogadas quase logo que foram dadas. Desde o dia 24 de agosto, Carlos IX se apressou em escrever a todos os governadores das províncias para lhes transmitir novas instruções. Nelas lê-se textualmente: “Tanto mais que é grandemente para recear que semelhante execução levante meus súditos uns contra os outros e se façam grandes matanças em meu reino, de que eu teria extremo pesar, rogo-vos fazer publicar por todos os lugares de vosso governo que cada um tenha que ficar sossegado e em segurança na sua própria casa, e veja a não pegar em armas e a não ofender a ninguém, sob pena de vida[7];
Portanto, se o sangue correm em diversos pontos do reino, é preciso concluir que foi anterior ou contrariamente às instruções escritas e positivas do rei.
Notas
[1] - Para mais informações, consultar a obra do padre Lefortier, La Saint-Barthélemy. O estudo desta questão, por Jorge Gandy, na Reuve des questions historiques, t. I, 1866.
[2] – Ver a obra de Carlos Buet, l’Amiral de Coligny et les guerres de religion au XVI siècle, um estudo sobre o Caractère de Coligny por D. d’Aussy (Revue des questions historiques, t. XXXVIII, julho de 1885, e o bem documentado trabalho do barão Kervin de Lettenhove, les huguenots et les Guerres, 6 vol. Publicados de 1883 a 1885.
[3] – Reuve des questions historiques, loc. cit., 1866.
[4] – A narrativa que damos é o resumo muito breve do extenso trabalho publicado na Revue des questions historiques, t. I.
[5] – Henrique Bordier, no seu livro la Saint-Barthélemy et la critique moderne (1879), esforça-se por fazer prevalecer esta opinião, aliás pouco fundada; porque a paz de São Germano oferecia demasiadas garantias ao partido protestante para não parecer uma verdadeira conciliação. – Heitor de la Ferrière, no seu livro la Saint-Barthélemy; la veille, le jour, le lendemain (1892), refere diversos testemunhos favoráveis a uma premeditação.
[6] – Baguenault de Puchesse, la Saint-Barthélemy, questions controverses (2º série), publicadas pela Sociedade Bibliográfica.
[7] – Jorge Gandy, la Saint-Barthélemy, segundo a recente obra de Heitor de La Ferrière; Revue des questions historiques, t. XLI (fascículo de abril de 1892).
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sábado, 18 de julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
quarta-feira, 1 de julho de 2015
A Noite de São Bartolomeu - PARTE 2 - A religião católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu.
Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.
Partes anteriores: Parte 1
II – A religião católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu.
1º A religião não estava diretamente interessada na questão; 2º nem a santa sé interveio, nem eclesiástico algum fazia parte do conselho real; 3º no massacre, não aparece participação alguma da Igreja; 4º a Igreja não aprovou o massacre.
É preciso não ter mais sentimento algum de justiça para acusar a religião católica dos males sofridos pelos Franceses durante as infelizes guerras que assolaram a França nos reinados dos três irmãos, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, e ainda mais para lhe atribuir a resolução de Carlos IX.
Por certo, não queremos pretender que a Igreja se desinteressou da grande questão religiosa que agitou a França no século XVI, nem que ela ficou expectadora indiferente na luta que se travava debaixo de seus olhos.
Naquela época, a religião católica era a religião do Estado na França. Guarda do direito dos reis e dos povos, protetora nata da fé e da moral cristã, tinha por missão e dever de opor-se à Reforma e às suas intrigas, e assim o fez energicamente. E pois que a heresia protestante atacava com as armas na mão, a Igreja podia, por sua vez, invocar contra ela a força do braço secular. Ninguém pode lhe imputar a crime sua intervenção nas lutas religiosas daquela época agitada.
Mas importa muito determinar de que modo interveio. Será verdade, como pretenderam seus adversários, que a Igreja seja responsável por São Bartolomeu? Será verdade que por conselhos, manejos, tenha escandalosamente triunfado? Não, ela não interveio neste fato, nem como motivo, nem como conselho, nem como agente.
1º Antes de tudo, notemos que o verdadeiro motivo do massacre não foi a religião. Se, no principio da Reforma na França, a crença contribuíra por alguma coisa na luta entre a Liga e os calvinistas, a questão, em 1572, era mais política do que religiosa. Não se tratava mais de dogmas, porém de rebelião. Três revoltas anteriores, muitas cidades subtraídas à obediência real, cercos sustentados, tropas estrangeiras introduzidas no reino, quatro batalhas travadas contra o exército do rei, o duque de Guise assassinado: tais eram os motivos de queixa do rei e de sua mãe. Por isso, Carlos IX, depois de São Bartolomeu, escreveu a Schomberg, seu embaixador na Alemanha, falando dos protestantes: “Não me era mais possível aturá-los”.
Em parte alguma é invocado o motivo religioso, e vê-se, pelo contrário, que os editos reais recomendavam não molestar de modo algum os membros da religião reformada. O martirologio dos protestantes refere que os matadores diziam aos transeuntes, ao mostrar os cadáveres: “São eles que nos quiseram constranger para matar o rei!”.
2º Mas será possível admitir que a Santa Sé excitou o rei da França para exterminar os protestantes, sob pretexto de conservar ao catolicismo sua supremacia religiosa? Interveio a Igreja como conselho?
Voltaire, naturalmente copiado por numerosos historiadores, acusa disto São Pio V, um papa, um dominicano, portanto um inquisidor, e enfim um santo. Que há de verdadeiro nesta afirmação?
Carlos IX reinava na França havia já seis anos, quando subiu ao trono de São Pedro um papa de grande virtude: São Pio V. Teve este dois grandes fins: deter os progressos sempre crescentes da Reforma na Europa, e alistar os príncipes cristãos numa cruzada contra os Turcos. Para alcançar estes fins compreendia muito bem a necessidade que tinha do concurso da França, e por isso multiplicou os avisos e conselhos a Carlos IX, em vista de reduzir a heresia e assegurar ao rei socorros e alianças.
Desses conselhos faz a fé a correspondência pontifical. De conselhos sanguinários, porém, de maquinações pérfidas, de conluios urdidos na sombra, não há vestígio e nem prova. Além disso, sabe-se como a corte da França não fez caso dos conselhos do Papa e assinou a paz de São Germano (1570), que fazia dos protestantes um poder político no Estado.
Pio V morreu três meses antes do massacre de São Bartolomeu. Gregório XIII lhe sucedeu em 13 de maio de 1572, e seguiu a mesma norma de conduta que seu predecessor, procurando aproximar a Espanha da França, a fim de alcançar uma pacificação religiosa que permitiria dirigir os esforços comuns contra a ambição da Turquia. O historiador francês, H. Martin, que não se pode suspeitar de parcialidade em favor da Igreja, reconhece que Gregório XIII, “não só não favoreceu as intrigas que precederam São Bartolomeu, mas nem delas teve conhecimento”.
Pois do lado de Roma nenhum conselho de perseguição ou de represálias sangrentas. Mas o rei da França neste ponto teria sido influenciado pelo clero católico?
Nos conselhos reais, segundo a narrativa do duque de Anjou (mais tarde Henrique III), intervieram o rei, a rainha, a senhora de Nemours, o marechal de Tavannes, o duque de Nevers, Birague, de Retz etc., porém nenhum cardeal, nenhum bispo, nenhum sacerdote. Os Essais sur l’Histoire générale andam errados julgando que se trata dos cardeais de Biraguee e de Retz; são os marechais desses nomes que são designados. O cardeal de Birague revestiu a púrpura só em 1578 e o de Retz em 1587.
3º A religião católica que não interviera em nada nos conselhos, tão pouco aparece como agente no massacre. Falou-se em sacerdotes, em frades, de milícia inteira de burel, que teria andado em volta com os matadores e que, como diz Voltaire, como contam os romancistas, imolava suas vítimas com a espada numa das mãos e o crucifixo na outra. Falou-se daquelas famosas cruzes brancas que adornavam os chapéus dos assassinos, aqueles punhais bentos pelo cardeal Lorena...
Onde está a verdade? Em Paris, por uma especial proteção da Providência, não se vê nenhum sacerdote no massacre, a não ser João Rouillard, cônego da catedral e conselheiro do parlamento, que foi arrastado no lugar do massacre para dele ser vítima. Os escritores protestantes, na verdade, citam os nomes de alguns sacerdotes que tomaram parte nos massacres das províncias. Mas a ser isso verdade, a conduta repreensível deles, no final das contas, não pode ser imputada à Igreja.
Eis o que a imparcial e verídica história pôde afirmar: o clero católico, durante os massacres, desempenhou o papel que lhe competia. Em lugar de matar ou ferir, salva. Basta lembrar o nobre procedimento do bispo de Liseux, Hennuyer, que, por sua energia, salvou todos os protestantes de sua diocese.
O martiriológio dos protestantes, que não se pode lançar a suspeita de querer fazer o elogio dos católicos, cita muitos fatos como o precedente. “Em Tolosa, diz ele, os conventos serviram de asilo aos calvinistas; em Burgues, os católicos pacíficos salvaram alguns; em Romans, de sessenta que foram presos, conseguiram soltar quarenta, e dos mais só pereceram sete; em Troyes, em Bordéus, muitos foram igualmente salvos por sacerdotes.”
Em Paris, os huguenotes perseguidos acharam também protestores católicos, e em Nimes, esquecendo-se da Miguelada, houve corações muito generosos para defender os calvinistas de uma carnificina demais autorizada pelo exemplo, mas de nenhum modo permitido pela Religião.
Como, depois disso, acusar a Igreja e seus ministros de terem banhado as mãos no sangue dos hereges? Quanto as cruzes brancas, não passavam elas de um emblema, de um sinal. Além disso, o cardeal Carlos Lorena achava-se em Roma desde três meses antes do massacre. Como poderia então benzer os punhais destinados a um massacre que foi improvisado? Portanto, a cena introduzida por Chérnier no seu “Carlos IX”, e por Scribe nos seus “Huguenotes”, merece ser desterrada por entre as fábulas.
4º Mas, obsetar-se-á, se a Igreja não preparou a São Bartolomeu, se o papa não foi dela nem conselheiro nem cumplice, não se pode negar que Gregório XIII a tenha altamente aprovado e dela se tenha regozijado. É certo que em Roma, ao receber a notícia desse nefando golpe de Estado, renderam-se a Deus solenes ações de Graças; Gregório XIII foi em procissão da igreja São Marcos até a de São Luiz, indicou um jubileu, mandou cunhar medalhas comemorativas, e encomendou ao pintor Vasari, para o Vaticano, frescos destinados a perpetuar a lembrança de um acontecimento que a corte romana concebia uma grande alegria.
Que esses fatos materiais sejam verdadeiros, não o discutimos. Mas, para conhecer-lhes o verdadeiro caráter e julgar-lhes a significação, é necessário e justo lembrar suas circunstâncias e explicar seus motivos.
Depois de ter recebido a notícia dos acontecimentos de Paris, o sumo Pontífice foi em procissão da igreja de São Marcos à igreja de São Luiz dos franceses; ali mandou cantar um Te Deum de ação de graças, ordenou procissões, marcou um jubileu, mandou ou deixou cunhar uma medalha comemorativa do massacre. É ainda verdade que o pregador Muret fez um elogio público na presença do papa, e o pintor Vasari representou as diversas cenas desse fato em três quadros que ainda adornam uma das salas do Vaticano. Mas que pretendia celebrar a corte de Roma com essas demonstrações? Aquilo que lhe tinham revelado as notícias recebidas. Ora, continham o que se publicara por toda a parte na França e fora dela: que o rei e a família real acabavam de escapar ao maior perigo, sufocando uma nova conspiração tramada pelos huguenotes.
Neste ponto, não há dúvida possível; Carlos IX numa carta dirigida, em 24 de agosto, ao senhor de Ferralz, seu embaixador em Roma, contava resumidamente o fato, deixando ao senhor de Beauvillé, portador da missiva, o cuidado de dar mais pormenores ao embaixador e ao papa Gregório XIII. Os pormenores eram os que tinham sido mandados aos governadores das províncias.
A correspondência oficial de Salviati, núncio do papa em Paris, mostra que ele ignorava completamente os projetos da corte. Nos seus relatórios particulares, endereçados ao conselho de Estado, fala da rebelião geral dos protestantes que obrigou a corte da França a lançar mão de uma resolução extrema para se pôr a salvo do perigo. Um curiosíssimo documento, conservado no Vaticano, veio recentemente confirmar todas essas afirmações. É o resumo manuscrito (1) em latim, de um leito de justiça realizado no parlamento de Paris. Encontra-se aí um trecho que explica de um modo, que se poderia dizer definitivo, o massacre de São Bartolomeu: “Nesta augusta assembleia, o rei Carlos declarou que, graças a Deus, descobrira as ciladas que o almirante Gaspard de Coligny armava ao governo do rei, chegando ao ponto de ameaçar toda a família real com uma catástrofe e com morte, e que tendo tratado ele e a seus cúmplices como mereciam, queria que, no futuro, não se imputasse este fato a crime àueles que foram os fiéis ministros de uma tão justa vingança, visto que tinham procedido só por vontade, mandato e ordem do rei.”
Este mesmo documento relata que as execuções feitas em 24 de agosto não foram mais do que justas represálias contra as conspirações da facção protestante que devia, duas horas mais tarde, matar os membros da família real. Demonstra em segundo lugar que as execuções ordenadas por Carlos IX só assumiram o caráter de massacre pela intervenção do povo de Paris, irritado contra as facções. Menciona enfim a proibição expressa feita pelo rei ao mesmo povo de París, “de homicídios, combates, pilhagem e saque dos bens dos huguenotes”, sem a intervenção do parlamento e dos magistrados públicos.
Tais foram as notificações feitas ao Papa, donde resulta que Roma entendeu celebrar não o assassinato dos hereges, mas a exterminação dos rebeldes, a libertação do reino e, sem dúvida, como consequência ulterior, o fim de uma horrorosa guerra civil. O próprio Muret, na sua famosa pratica pronunciada em 23 do dezembro seguinte, não celebrava outra coisa.
As medalhas comemorativas, cunhadas em 1572, tendo a legenda: Ugonotorum strages, com a imagem de um anjo exterminador, armado de uma espada e perseguindo guerreiros, significavam a repressão de hereges rebeldes. As pinturas de Vasari não tinham outro sentido e deviam simplesmente transmitir à posteridade a memória de um fato que, aos olhos da corte de Roma, assumia um caráter providencial: a salvação da vida e do trono de Carlos IX, a vitória sobre a heresia, o fim das dissensões internas que desolavam a França.
Brantôme conta que, mais tarde, Gregório XIII, melhor informado sobre os massacres de Paris e das províncias, chorou amargamente: “Lamento, dizia ele, a morte de tantos inocentes que não deixaram de perecer de envolta com os culpados; é possível que a muito deles Deus tenha concedido a graça de se arrependerem” (Lefortier, La Saint-Barthéleby. Pode-se consultar também o estudo feito por Jorge Gándy na Revue des questions historiques, t. I, 1886).
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II – A religião católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu.
1º A religião não estava diretamente interessada na questão; 2º nem a santa sé interveio, nem eclesiástico algum fazia parte do conselho real; 3º no massacre, não aparece participação alguma da Igreja; 4º a Igreja não aprovou o massacre.
É preciso não ter mais sentimento algum de justiça para acusar a religião católica dos males sofridos pelos Franceses durante as infelizes guerras que assolaram a França nos reinados dos três irmãos, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, e ainda mais para lhe atribuir a resolução de Carlos IX.
Por certo, não queremos pretender que a Igreja se desinteressou da grande questão religiosa que agitou a França no século XVI, nem que ela ficou expectadora indiferente na luta que se travava debaixo de seus olhos.
Naquela época, a religião católica era a religião do Estado na França. Guarda do direito dos reis e dos povos, protetora nata da fé e da moral cristã, tinha por missão e dever de opor-se à Reforma e às suas intrigas, e assim o fez energicamente. E pois que a heresia protestante atacava com as armas na mão, a Igreja podia, por sua vez, invocar contra ela a força do braço secular. Ninguém pode lhe imputar a crime sua intervenção nas lutas religiosas daquela época agitada.
Mas importa muito determinar de que modo interveio. Será verdade, como pretenderam seus adversários, que a Igreja seja responsável por São Bartolomeu? Será verdade que por conselhos, manejos, tenha escandalosamente triunfado? Não, ela não interveio neste fato, nem como motivo, nem como conselho, nem como agente.
1º Antes de tudo, notemos que o verdadeiro motivo do massacre não foi a religião. Se, no principio da Reforma na França, a crença contribuíra por alguma coisa na luta entre a Liga e os calvinistas, a questão, em 1572, era mais política do que religiosa. Não se tratava mais de dogmas, porém de rebelião. Três revoltas anteriores, muitas cidades subtraídas à obediência real, cercos sustentados, tropas estrangeiras introduzidas no reino, quatro batalhas travadas contra o exército do rei, o duque de Guise assassinado: tais eram os motivos de queixa do rei e de sua mãe. Por isso, Carlos IX, depois de São Bartolomeu, escreveu a Schomberg, seu embaixador na Alemanha, falando dos protestantes: “Não me era mais possível aturá-los”.
Em parte alguma é invocado o motivo religioso, e vê-se, pelo contrário, que os editos reais recomendavam não molestar de modo algum os membros da religião reformada. O martirologio dos protestantes refere que os matadores diziam aos transeuntes, ao mostrar os cadáveres: “São eles que nos quiseram constranger para matar o rei!”.
2º Mas será possível admitir que a Santa Sé excitou o rei da França para exterminar os protestantes, sob pretexto de conservar ao catolicismo sua supremacia religiosa? Interveio a Igreja como conselho?
Voltaire, naturalmente copiado por numerosos historiadores, acusa disto São Pio V, um papa, um dominicano, portanto um inquisidor, e enfim um santo. Que há de verdadeiro nesta afirmação?
Carlos IX reinava na França havia já seis anos, quando subiu ao trono de São Pedro um papa de grande virtude: São Pio V. Teve este dois grandes fins: deter os progressos sempre crescentes da Reforma na Europa, e alistar os príncipes cristãos numa cruzada contra os Turcos. Para alcançar estes fins compreendia muito bem a necessidade que tinha do concurso da França, e por isso multiplicou os avisos e conselhos a Carlos IX, em vista de reduzir a heresia e assegurar ao rei socorros e alianças.
Desses conselhos faz a fé a correspondência pontifical. De conselhos sanguinários, porém, de maquinações pérfidas, de conluios urdidos na sombra, não há vestígio e nem prova. Além disso, sabe-se como a corte da França não fez caso dos conselhos do Papa e assinou a paz de São Germano (1570), que fazia dos protestantes um poder político no Estado.
Pio V morreu três meses antes do massacre de São Bartolomeu. Gregório XIII lhe sucedeu em 13 de maio de 1572, e seguiu a mesma norma de conduta que seu predecessor, procurando aproximar a Espanha da França, a fim de alcançar uma pacificação religiosa que permitiria dirigir os esforços comuns contra a ambição da Turquia. O historiador francês, H. Martin, que não se pode suspeitar de parcialidade em favor da Igreja, reconhece que Gregório XIII, “não só não favoreceu as intrigas que precederam São Bartolomeu, mas nem delas teve conhecimento”.
Pois do lado de Roma nenhum conselho de perseguição ou de represálias sangrentas. Mas o rei da França neste ponto teria sido influenciado pelo clero católico?
Nos conselhos reais, segundo a narrativa do duque de Anjou (mais tarde Henrique III), intervieram o rei, a rainha, a senhora de Nemours, o marechal de Tavannes, o duque de Nevers, Birague, de Retz etc., porém nenhum cardeal, nenhum bispo, nenhum sacerdote. Os Essais sur l’Histoire générale andam errados julgando que se trata dos cardeais de Biraguee e de Retz; são os marechais desses nomes que são designados. O cardeal de Birague revestiu a púrpura só em 1578 e o de Retz em 1587.
3º A religião católica que não interviera em nada nos conselhos, tão pouco aparece como agente no massacre. Falou-se em sacerdotes, em frades, de milícia inteira de burel, que teria andado em volta com os matadores e que, como diz Voltaire, como contam os romancistas, imolava suas vítimas com a espada numa das mãos e o crucifixo na outra. Falou-se daquelas famosas cruzes brancas que adornavam os chapéus dos assassinos, aqueles punhais bentos pelo cardeal Lorena...
Onde está a verdade? Em Paris, por uma especial proteção da Providência, não se vê nenhum sacerdote no massacre, a não ser João Rouillard, cônego da catedral e conselheiro do parlamento, que foi arrastado no lugar do massacre para dele ser vítima. Os escritores protestantes, na verdade, citam os nomes de alguns sacerdotes que tomaram parte nos massacres das províncias. Mas a ser isso verdade, a conduta repreensível deles, no final das contas, não pode ser imputada à Igreja.
Eis o que a imparcial e verídica história pôde afirmar: o clero católico, durante os massacres, desempenhou o papel que lhe competia. Em lugar de matar ou ferir, salva. Basta lembrar o nobre procedimento do bispo de Liseux, Hennuyer, que, por sua energia, salvou todos os protestantes de sua diocese.
O martiriológio dos protestantes, que não se pode lançar a suspeita de querer fazer o elogio dos católicos, cita muitos fatos como o precedente. “Em Tolosa, diz ele, os conventos serviram de asilo aos calvinistas; em Burgues, os católicos pacíficos salvaram alguns; em Romans, de sessenta que foram presos, conseguiram soltar quarenta, e dos mais só pereceram sete; em Troyes, em Bordéus, muitos foram igualmente salvos por sacerdotes.”
Em Paris, os huguenotes perseguidos acharam também protestores católicos, e em Nimes, esquecendo-se da Miguelada, houve corações muito generosos para defender os calvinistas de uma carnificina demais autorizada pelo exemplo, mas de nenhum modo permitido pela Religião.
Como, depois disso, acusar a Igreja e seus ministros de terem banhado as mãos no sangue dos hereges? Quanto as cruzes brancas, não passavam elas de um emblema, de um sinal. Além disso, o cardeal Carlos Lorena achava-se em Roma desde três meses antes do massacre. Como poderia então benzer os punhais destinados a um massacre que foi improvisado? Portanto, a cena introduzida por Chérnier no seu “Carlos IX”, e por Scribe nos seus “Huguenotes”, merece ser desterrada por entre as fábulas.
4º Mas, obsetar-se-á, se a Igreja não preparou a São Bartolomeu, se o papa não foi dela nem conselheiro nem cumplice, não se pode negar que Gregório XIII a tenha altamente aprovado e dela se tenha regozijado. É certo que em Roma, ao receber a notícia desse nefando golpe de Estado, renderam-se a Deus solenes ações de Graças; Gregório XIII foi em procissão da igreja São Marcos até a de São Luiz, indicou um jubileu, mandou cunhar medalhas comemorativas, e encomendou ao pintor Vasari, para o Vaticano, frescos destinados a perpetuar a lembrança de um acontecimento que a corte romana concebia uma grande alegria.
Que esses fatos materiais sejam verdadeiros, não o discutimos. Mas, para conhecer-lhes o verdadeiro caráter e julgar-lhes a significação, é necessário e justo lembrar suas circunstâncias e explicar seus motivos.
Depois de ter recebido a notícia dos acontecimentos de Paris, o sumo Pontífice foi em procissão da igreja de São Marcos à igreja de São Luiz dos franceses; ali mandou cantar um Te Deum de ação de graças, ordenou procissões, marcou um jubileu, mandou ou deixou cunhar uma medalha comemorativa do massacre. É ainda verdade que o pregador Muret fez um elogio público na presença do papa, e o pintor Vasari representou as diversas cenas desse fato em três quadros que ainda adornam uma das salas do Vaticano. Mas que pretendia celebrar a corte de Roma com essas demonstrações? Aquilo que lhe tinham revelado as notícias recebidas. Ora, continham o que se publicara por toda a parte na França e fora dela: que o rei e a família real acabavam de escapar ao maior perigo, sufocando uma nova conspiração tramada pelos huguenotes.
Neste ponto, não há dúvida possível; Carlos IX numa carta dirigida, em 24 de agosto, ao senhor de Ferralz, seu embaixador em Roma, contava resumidamente o fato, deixando ao senhor de Beauvillé, portador da missiva, o cuidado de dar mais pormenores ao embaixador e ao papa Gregório XIII. Os pormenores eram os que tinham sido mandados aos governadores das províncias.
A correspondência oficial de Salviati, núncio do papa em Paris, mostra que ele ignorava completamente os projetos da corte. Nos seus relatórios particulares, endereçados ao conselho de Estado, fala da rebelião geral dos protestantes que obrigou a corte da França a lançar mão de uma resolução extrema para se pôr a salvo do perigo. Um curiosíssimo documento, conservado no Vaticano, veio recentemente confirmar todas essas afirmações. É o resumo manuscrito (1) em latim, de um leito de justiça realizado no parlamento de Paris. Encontra-se aí um trecho que explica de um modo, que se poderia dizer definitivo, o massacre de São Bartolomeu: “Nesta augusta assembleia, o rei Carlos declarou que, graças a Deus, descobrira as ciladas que o almirante Gaspard de Coligny armava ao governo do rei, chegando ao ponto de ameaçar toda a família real com uma catástrofe e com morte, e que tendo tratado ele e a seus cúmplices como mereciam, queria que, no futuro, não se imputasse este fato a crime àueles que foram os fiéis ministros de uma tão justa vingança, visto que tinham procedido só por vontade, mandato e ordem do rei.”
Este mesmo documento relata que as execuções feitas em 24 de agosto não foram mais do que justas represálias contra as conspirações da facção protestante que devia, duas horas mais tarde, matar os membros da família real. Demonstra em segundo lugar que as execuções ordenadas por Carlos IX só assumiram o caráter de massacre pela intervenção do povo de Paris, irritado contra as facções. Menciona enfim a proibição expressa feita pelo rei ao mesmo povo de París, “de homicídios, combates, pilhagem e saque dos bens dos huguenotes”, sem a intervenção do parlamento e dos magistrados públicos.
Tais foram as notificações feitas ao Papa, donde resulta que Roma entendeu celebrar não o assassinato dos hereges, mas a exterminação dos rebeldes, a libertação do reino e, sem dúvida, como consequência ulterior, o fim de uma horrorosa guerra civil. O próprio Muret, na sua famosa pratica pronunciada em 23 do dezembro seguinte, não celebrava outra coisa.
As medalhas comemorativas, cunhadas em 1572, tendo a legenda: Ugonotorum strages, com a imagem de um anjo exterminador, armado de uma espada e perseguindo guerreiros, significavam a repressão de hereges rebeldes. As pinturas de Vasari não tinham outro sentido e deviam simplesmente transmitir à posteridade a memória de um fato que, aos olhos da corte de Roma, assumia um caráter providencial: a salvação da vida e do trono de Carlos IX, a vitória sobre a heresia, o fim das dissensões internas que desolavam a França.
Brantôme conta que, mais tarde, Gregório XIII, melhor informado sobre os massacres de Paris e das províncias, chorou amargamente: “Lamento, dizia ele, a morte de tantos inocentes que não deixaram de perecer de envolta com os culpados; é possível que a muito deles Deus tenha concedido a graça de se arrependerem” (Lefortier, La Saint-Barthéleby. Pode-se consultar também o estudo feito por Jorge Gándy na Revue des questions historiques, t. I, 1886).
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sábado, 27 de junho de 2015
A Noite de São Bartolomeu - PARTE I
Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.
Noção Geral e questões a examinar.
Entende-se por São Bartolomeu o massacre dos huguenotes ou protestantes, que teve lugar na França, na noite de 24 de agosto, festa de são Bartolomeu, em 1572, por ordem de Carlos IX, influenciado pelos conselhos de sua mãe, Catarina de Medicis.
Este massacre começou em Paris, depois do sino de Saint-Germain-l’Auxerrois ter dado o sinal. Coligny, chefe do partido huguenote, foi uma das primeiras vítimas. O sangue correu em toda a capital; segundo alguns, houve dois mil mortos; segundo outros, dez e até vinte mil. Vê-se que a diferença é grande, e a verdade deve estar entre os extremos.
Nos dias seguintes, sempre pelas ordens do rei, semelhantes cenas se renovaram em diferentes pontos do país: Meaux, Orleans, Lyão, Burges, Tolosa, Bordéus etc. Alguns historiadores pretendem que, nas províncias, houve de quinze a vinte mil vítimas. Veremos o que se deve pensar a este respeito.
Tal é o fato da São Bartolomeu... Mesmo sem aceitar os exageros a respeito dele, foi por demais verdadeiro, e é uma pátina que se desejaria poder apagar dos anais da história francesa, segundo uma palavra não do chanceler de l’Hospital, a quem muitas vezes foi atribuída, mas do presidente de Thou: “Excidat illa dies aevo! Pereça para sempre a memória daquele dia!”
O ódio dos protestantes e ditos filósofos misturou, de tal modo, o nome da Igreja Católica a este fato histórico que, por tanto ouvir, muitas pessoas passaram a acreditar que São Bartolomeu era obra da Igreja. Importa destruir este preconceito. Por outra parte, sob a pena dos escritores protestantes, dos romancistas e outros homens de juízo errôneo, o número das vítimas aumentou de modo sistemático. Não nos será difícil demonstrar que aí também o exagero se deu livre curso.
Para proceder com ordem:
1 – Examinaremos rapidamente as causas que prepararam este acontecimento deplorável;
2 – Mostraremos que a Religião Católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu;
3 – Foi um golpe de Estado, um ato de proscrição, obra da política de Carlos IX e de Catarina de Medicis;
4 – Finalmente, que a noite de São Bartolomeu fez muito menos vítimas do que se tem escrito. É o que vamos demonstrar em outros tantos artigos, onde aparecerá claramente que a Igreja deve ser justificada de qualquer acusação de intervenção no odioso massacre da noite de São Bartolomeu, e convém andar desconfiado a respeito dos números em que se calculam as vítimas.
I – AS CAUSAS QUE PREPARARAM E EXPLICAM A SÃO BARTOLOMEU.
I. Princípios da Reforma.
II. Violências e crimes dos protestantes na França.
I – Recentes trabalhos, publicados por investigadores e eruditos, permitem colocar hoje, em plena luz, o acontecimento que deixou uma impressão tão dolorosa na história da Filha primogênita da Igreja, no século XVI. Esses autores remontam às fontes, e acharam, nos próprios historiadores da Reforma, declarações que merecem ser recolhidas.
Primeiro, julgamos que não surpreenderemos nossos leitores afirmando que da Reforma procederam as desordens que tão profundamente transtornaram a Europa no século XVI. A doutrina de Lutero e Calvino continha em gérmen todos os princípios de revolta, de anarquia, de luta sangrenta.
1º O protestantismo arrastava consigo a corrupção dos costumes. O livre exame, a salvação atribuída somente à fé, sem as obras, a rejeição da autoridade da Igreja e de toda moral importuna, já, ainda em tempo dos reformadores – e os próprios Lutero e Calvino disso gemeram – tinham causado uma depravação geral.
2º O protestantismo impelia para o socialismo, a pilhagem e para a anarquia. Na livre interpretação da sagrada Escritura, cada um achava não só uma desculpa, mas uma aprovação de todos os excessos. Pois: “Naqueles tempos, diz Bousset[1], toda a Alemanha estava em fogo. Os camponeses, revoltados contra os senhores, tinham pegado em armas e imploravam o socorro de Lutero. Além de que seguiam a doutrina dele, pretendia-se que um livro dele, a Liberdade cristã, muito contribuíra a lhes inspirar a rebelião, pela maneira ousada com que falava contra os legisladores e contra as leis.”
“Lutero, diz Luiz Blanc, levava direitinho a Munzer. Milhões de vozes estavam prontas a proferir, contra os reis e os príncipes, o grito que soltara contra Roma[2]”. A violência dos novos bárbaros não conheceu mais limites: matanças nos campos de batalha, cidades desmanteladas, mosteiros destruídos, igrejas incendiadas e saqueadas, tesouros de escultura e pintura destruídos; tais foram os resultados da Reforma na Alemanha. Melanchton dizia que as ondas do Elba não chegariam para chorar todas as infelicidades e desventuras da Religião e do Estado.
3º O protestantismo queria a destruição do catolicismo. É um erro considerável, explorado pelos inimigos da Igreja, acreditar que os protestantes reclamavam simplesmente um lugar ao sol, ao lado dos católicos, que eram inofensivos e tolerantes em excesso. Lutero dissera: “Quem cooperar com o braço ou os bens para a ruína dos bispos e da hierarquia episcopal, é bom filho de Deus, verdadeiro cristão, e observa os mandamentos do Senhor”. Seus discípulos obedeceram e provam-no seus sangrentos triunfos na Alemanha, na Dinamarca e na Inglaterra.
II – Na França, como em outros lugares, os protestantes queriam acabar com a religião católica e substituir-lhe o calvinismo. No século XVI formavam um Estado no Estado; tentavam apoderar-se do poder e pactuavam com os inimigos da pátria. “O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou Miguelada, efetuada pelos huguenotes, a sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, em 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França.[3]”.
“As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas”.[4]
Assim, é preciso reconhecer que o massacre de Vassy, no qual quarenta e dois protestantes, segundo La Popelinère, sucumbiram numa luta travada entre eles e os católicos, era já vingado e de sobra. Deve-se então ficar surpreendido que a velha fé dos Francos, tão arraigada no solo do reino cristianíssimo, ficasse indignada e, mais do que a Alemanha e a Inglaterra, se tivesse defendido contra as usurpações, os concluios e manejos da Reforma?
É neste verdadeiro ponto de vista histórico, que convém colocar-se para julgar lealmente o fato da São Bartolomeu e, sem pretender desculpá-lo, patentear pelo menos as muitas circunstâncias atenuantes.
Notas:
1 – Bousset, Histoire des Variations, liv. II, cap. XI. (Possui PDF em espanhol).
2 – Luiz Blanc, Histoire de la Révolution française, t. I.
3 – Jorge Gandy, Revue des questions historiques, 1866, t. I. - J. J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse).
4 – Carlos Buet, François de Guise.
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Noção Geral e questões a examinar.
Entende-se por São Bartolomeu o massacre dos huguenotes ou protestantes, que teve lugar na França, na noite de 24 de agosto, festa de são Bartolomeu, em 1572, por ordem de Carlos IX, influenciado pelos conselhos de sua mãe, Catarina de Medicis.
Este massacre começou em Paris, depois do sino de Saint-Germain-l’Auxerrois ter dado o sinal. Coligny, chefe do partido huguenote, foi uma das primeiras vítimas. O sangue correu em toda a capital; segundo alguns, houve dois mil mortos; segundo outros, dez e até vinte mil. Vê-se que a diferença é grande, e a verdade deve estar entre os extremos.
Nos dias seguintes, sempre pelas ordens do rei, semelhantes cenas se renovaram em diferentes pontos do país: Meaux, Orleans, Lyão, Burges, Tolosa, Bordéus etc. Alguns historiadores pretendem que, nas províncias, houve de quinze a vinte mil vítimas. Veremos o que se deve pensar a este respeito.
Tal é o fato da São Bartolomeu... Mesmo sem aceitar os exageros a respeito dele, foi por demais verdadeiro, e é uma pátina que se desejaria poder apagar dos anais da história francesa, segundo uma palavra não do chanceler de l’Hospital, a quem muitas vezes foi atribuída, mas do presidente de Thou: “Excidat illa dies aevo! Pereça para sempre a memória daquele dia!”
O ódio dos protestantes e ditos filósofos misturou, de tal modo, o nome da Igreja Católica a este fato histórico que, por tanto ouvir, muitas pessoas passaram a acreditar que São Bartolomeu era obra da Igreja. Importa destruir este preconceito. Por outra parte, sob a pena dos escritores protestantes, dos romancistas e outros homens de juízo errôneo, o número das vítimas aumentou de modo sistemático. Não nos será difícil demonstrar que aí também o exagero se deu livre curso.
Para proceder com ordem:
1 – Examinaremos rapidamente as causas que prepararam este acontecimento deplorável;
2 – Mostraremos que a Religião Católica não teve parte alguma no massacre de São Bartolomeu;
3 – Foi um golpe de Estado, um ato de proscrição, obra da política de Carlos IX e de Catarina de Medicis;
4 – Finalmente, que a noite de São Bartolomeu fez muito menos vítimas do que se tem escrito. É o que vamos demonstrar em outros tantos artigos, onde aparecerá claramente que a Igreja deve ser justificada de qualquer acusação de intervenção no odioso massacre da noite de São Bartolomeu, e convém andar desconfiado a respeito dos números em que se calculam as vítimas.
I – AS CAUSAS QUE PREPARARAM E EXPLICAM A SÃO BARTOLOMEU.
I. Princípios da Reforma.
II. Violências e crimes dos protestantes na França.
I – Recentes trabalhos, publicados por investigadores e eruditos, permitem colocar hoje, em plena luz, o acontecimento que deixou uma impressão tão dolorosa na história da Filha primogênita da Igreja, no século XVI. Esses autores remontam às fontes, e acharam, nos próprios historiadores da Reforma, declarações que merecem ser recolhidas.
Primeiro, julgamos que não surpreenderemos nossos leitores afirmando que da Reforma procederam as desordens que tão profundamente transtornaram a Europa no século XVI. A doutrina de Lutero e Calvino continha em gérmen todos os princípios de revolta, de anarquia, de luta sangrenta.
1º O protestantismo arrastava consigo a corrupção dos costumes. O livre exame, a salvação atribuída somente à fé, sem as obras, a rejeição da autoridade da Igreja e de toda moral importuna, já, ainda em tempo dos reformadores – e os próprios Lutero e Calvino disso gemeram – tinham causado uma depravação geral.
2º O protestantismo impelia para o socialismo, a pilhagem e para a anarquia. Na livre interpretação da sagrada Escritura, cada um achava não só uma desculpa, mas uma aprovação de todos os excessos. Pois: “Naqueles tempos, diz Bousset[1], toda a Alemanha estava em fogo. Os camponeses, revoltados contra os senhores, tinham pegado em armas e imploravam o socorro de Lutero. Além de que seguiam a doutrina dele, pretendia-se que um livro dele, a Liberdade cristã, muito contribuíra a lhes inspirar a rebelião, pela maneira ousada com que falava contra os legisladores e contra as leis.”
“Lutero, diz Luiz Blanc, levava direitinho a Munzer. Milhões de vozes estavam prontas a proferir, contra os reis e os príncipes, o grito que soltara contra Roma[2]”. A violência dos novos bárbaros não conheceu mais limites: matanças nos campos de batalha, cidades desmanteladas, mosteiros destruídos, igrejas incendiadas e saqueadas, tesouros de escultura e pintura destruídos; tais foram os resultados da Reforma na Alemanha. Melanchton dizia que as ondas do Elba não chegariam para chorar todas as infelicidades e desventuras da Religião e do Estado.
3º O protestantismo queria a destruição do catolicismo. É um erro considerável, explorado pelos inimigos da Igreja, acreditar que os protestantes reclamavam simplesmente um lugar ao sol, ao lado dos católicos, que eram inofensivos e tolerantes em excesso. Lutero dissera: “Quem cooperar com o braço ou os bens para a ruína dos bispos e da hierarquia episcopal, é bom filho de Deus, verdadeiro cristão, e observa os mandamentos do Senhor”. Seus discípulos obedeceram e provam-no seus sangrentos triunfos na Alemanha, na Dinamarca e na Inglaterra.
II – Na França, como em outros lugares, os protestantes queriam acabar com a religião católica e substituir-lhe o calvinismo. No século XVI formavam um Estado no Estado; tentavam apoderar-se do poder e pactuavam com os inimigos da pátria. “O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou Miguelada, efetuada pelos huguenotes, a sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, em 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França.[3]”.
“As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas”.[4]
Assim, é preciso reconhecer que o massacre de Vassy, no qual quarenta e dois protestantes, segundo La Popelinère, sucumbiram numa luta travada entre eles e os católicos, era já vingado e de sobra. Deve-se então ficar surpreendido que a velha fé dos Francos, tão arraigada no solo do reino cristianíssimo, ficasse indignada e, mais do que a Alemanha e a Inglaterra, se tivesse defendido contra as usurpações, os concluios e manejos da Reforma?
É neste verdadeiro ponto de vista histórico, que convém colocar-se para julgar lealmente o fato da São Bartolomeu e, sem pretender desculpá-lo, patentear pelo menos as muitas circunstâncias atenuantes.
Notas:
1 – Bousset, Histoire des Variations, liv. II, cap. XI. (Possui PDF em espanhol).
2 – Luiz Blanc, Histoire de la Révolution française, t. I.
3 – Jorge Gandy, Revue des questions historiques, 1866, t. I. - J. J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse).
4 – Carlos Buet, François de Guise.
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A Boa Imprensa
Texto retirado de uma das publicações da "Raio de Sol", uma folha de propaganda católica da década de 30. Decidi transcrevê-lo para mostrar que as dificuldades da imprensa católica não é de hoje e que os mesmos problemas que enfrentamos eles também enfrentaram. Os medos também são semelhantes, e os sentimos na pele por causa da nossa iniciativa em publicar os livros de Dom Anscar Vonier. O bom, caríssimos, é que os meios de ajuda também não mudaram muito e são, inclusive, mais fáceis.
QUANTOS BENS TRAZ A BOA IMPRENSA! É um dos mais poderosos baluartes da sociedade e da Igreja. O bom periódico, a boa revista, o bom livro, os bons escritos... mas principalmente o bom diário, o bom periódico e a boa revista são de uma importância capital para defesa dos bons e derrota dos maus. Não me abalançarei a afirmar que é a arma principal, porque há muitas coisas principais e acima de tudo estará sempre a religião; digo, porém, afoitamente que a boa imprensa é principalíssima e capitalíssima. A boa imprensa diz resolutamente a verdade a defende e propaga em todas as partes. O periódico, a revista, o livro são eloquentes pregadores e apóstolos do bem. A boa imprensa desmascara o mal e lhe põe a calva à mostra, desacredita-o e o confunde e é benemérito apologista contra o erro. A boa imprensa recomenda, enaltece e põe no lugar que lhes é devido os homens de bem, os que o merecem, os que são dignos de confiança e de recomendação e que se hão de dedicar à defesa dos interesses da boa causa. A boa imprensa denuncia e desacredita os cidadãos perversos e perniciosos, revelando-nos suas más intenções, seus planos tenebrosos, seus sofismas, suas astúcias e perversidades. A boa imprensa forma a consciência pública e dita as normas da honradez da religião, da moralidade, contribuindo para a formação do critério seguro e reto de proceder. A boa imprensa é a única que está em alturas de opor resistência eficaz aos péssimos efeitos da imprensa má e anticlerical. A boa imprensa é a tutela da ordem, defensora e amparo da verdade, escudo da justiça, da pátria, da autoridade e da religião. A boa imprensa é absolutamente necessária na sociedade para defesa e triunfo do bem e destruição do mal. Deves por este motivo estimar grandemente os bons escritores e jornalistas católicos, deves apreciar muitíssimo os bons periódicos, as boas revistas, os bons livros. Não basta contudo estimar e apreciar os escritores e as publicações católicas; é necessário, é indispensável, é urgente e de boa justiça favorecê-los. Os maus favorecem a má imprensa; e tu, que fazes em prol da boa imprensa? Tu, meu amigo, que és cristão? Tu, que és honrado, que fazes a favor da imprensa honesta? Tu, que és amigo dos escritores e jornalistas honrados, que fazes pelos teus amigos? Refletiste alguma hora em como esses beneméritos apóstolos têm renunciado a medrar e a enriquecer, entrando a combater nas fileiras do periódico católico, da revista católica, onde se medra pouco e se ganha menos ainda, em vez de se meterem nos arraiais da má imprensa, em que teriam maiores lucros e apetitosas propinas? Não reparaste talvez em como muitos deles, no louvável intuito de advogarem os teus interesses, que são os de tua religião, da moralidade e da ordem, sacrificam generosamente os seus próprios interesses? Pois então, meu caro amigo, agora é mostrares a tua gratidão e a nobreza do teu coração, favorecendo-os e estimando-os na prática. Perguntar-me-ás: de que maneira? Indicar-te-ei aqui nove maneiras de favorecer na prática e eficazmente a boa imprensa, sobretudo os periódicos:
1 – Lendo-os. É o mínimo que da tua boa vontade podemos exigir. Escrevemos para defender os teus interesses; é portanto muito natural e justo que leias os escritos dos teus advogados. Dizes que não te interessam assuntos de religião. O fato é que lês artigos que tratam de religião quando algum periódico ou livro perverso a combate; e te recusas a ler um periódico ou um livro bom que a defende e explica?
2 – Comprando-os. É excelente método este, e se todos os católicos comprassem os jornais, revistas e livros, que escrevem os seus irmãos, certo é que destarte lhes prestariam poderoso auxílio. Fica receia que o seu trabalho seja balado e estéril, sobre ser penoso e caro, porque gastará tempo e dinheiro na impressão e não chegará talvez a refazer ao menos os gastos. Treme e hesita o jornalista, afana-se na sua tarefa ingrata, sacrifica-se, põe todo o seu empenho, o melhor dos seus recursos e do seu talento em procurar a prosperidade do seu periódico, e afinal não se livra de uns assomos de desalento, quando se lembra de que seus irmãos não o comprarão. Se nos fora lícito imprimir coisas luxuriosas, chulas, livres e intrigantes, então sim havíamos de encontrar ledores em barda!
3 – Assinando-os. Melhor que a compra avulsa é a assinatura, porque fornece recursos mais seguros ao periódico, que terá maior importância e vida quanto for mais avultado o número dos seus assinantes.
4 – Fazendo-lhes donativos. Não digo esmolas, ainda que alguns periódicos e periodistas receberiam com gratidão qualquer importância que se lhes desse, mesmo a título de esmola. Ponhamos porém a mira um pouco mais alto: gratificai os jornalistas e mais escritores, os periódicos e as revistas. Não dais dinheiro para outras obras pias? Obra muito pia, muito religiosa e muito cristã é a boa imprensa. Quantas vezes não acontece auxiliarem os católicos obras de caridade e beneficência duvidosas e suspeitas, e não desembolsarem um cetil para a grandiosa e importantíssima obra de caridade, misericórdia e beneficência e de muitos outros bens que em si encerra ou produz!
5 – Deixando legados. Não lestes alguma vez nos vossos jornais como algum inglês, algum norte-americano, algum francês ou alemão deixou determinado no seu testamento que se entregasse avultada quantia a certos escritores de livros, e sobretudo a bibliotecas e periódicos? E não eram doações de somenos importância: importavam bem sim em centenas e milhares de reais. Desta maneira se pôde ir adiante e sustentar eficazmente a boa imprensa.
6 – Fornecendo-lhes anúncios, comunicados, correspondências, artigos avulsos e outros subsídios de que vivem os periódicos. Não mandeis anúncios, nem correspondência, nem coisa alguma que forneça recursos aos periódicos anti-clericais; reservai tudo isso para a boa imprensa.
7 – Propagando a sua leitura e conseguindo novos assinantes. Nas rodas dos vossos amigos, nas vossas salas de visitas, nos vossos círculos, clubes, lazeres e reuniões, entre as pessoas que frequentais, procurai que se leia e se compre o bom jornal, a boa revisto, o bom livro.
8 – Falando a favor deles. Relevai os seus senões e deslises e ponde em relevo as suas boas qualidades; não imagineis que não haja defeitos e grandes defeitos nos jornais adversos e que os bons não tenham coisa que preste. Não vos excuseis com dizerdes que comprais de preferência o mau jornal por achardes a boa imprensa desenxabida e sem noticiário. As mais das vezes não vai grande diferença entre uns e outros, quando, pelo contrário, a instrução ministrada pelos bons jornais é infinitamente superior e mais sã que a dos jornais contrários. Pelo que diz respeito a escritores, a má imprensa pode limpar as mãos à parede, que os tem às vezes muito ordinários, reles e bisonhos, mas eles são frívolos e mangões se vão incensando mutuamente; a boa imprensa por outro lado tem nas suas fileiras escritores de escól, que não raramente riscam muito acima dos seus adversários, ou pelo menos não têm nada que invejar-lhes, mas a desgraça é que nos deixamos enganar e atordoar pelos zabumbas dos visinhos da frente. Se... fulano dos anzóis, por exemplo, não vendesse a sua pena libertina à imprensa perversa e não a prostituísse com o seu estilo pedantesco e sediço, com a sua perpétúa mania de bolsar blasfêmias, chalaças e injúrias contra Deus e a Religião, não seria certamente tão encomiado pela turba dos seus atuais aduladores. Se Galdós não fora um deles, mas antes houvesse posto a sua pena a serviço da boa imprensa, não seria hoje um dos seus da Mitologia literária. Autores há de mão cheia nos arraiais da Boa Imprensa, muito superiores a ele e muitíssimo mais dignos de admiração e de elogios.
9 – Auxiliando enfim a “agência de informações” católica.* É necessária e urgente. Entretanto favoreçamos por todos os meios os nossos periódicos “A Cruz”, “A união” e o nosso suspirado “Diário” católico. E o meu prezado leitor compre e espalhe as dúzias, centenas, aos milhares, estes “Raios de Sol”, certo de que exercerá assim um frutuoso Apostolado e uma grande obra de misericórdia, que lhe merecerá as bênçãos do céu e a gratidão de centenas e milhares de almas, em boa hora por eles iluminadas; faça-se apóstolo e Legionário da Boa Imprensa, não leia e não propague senão a Boa Imprensa.
* A imprensa católica atual é outra, e boa parte da antiga já não existe, mas não é difícil identificá-la.
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domingo, 14 de junho de 2015
A falsidade absoluta da lenda da papisa Joana
Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.
Entre São Leão IV e Bento III (855), uma calúnia, acreditada pela ignorância e pela má fé, coloca na Sé apostólica a famosa papisa Joana. Os escritores hostis ao papado pretenderam, sem citar em apoio à sua opinião um só testemunho contemporâneo, que uma mulher, por nome Joana, originária de Moguncia e de gênio distinto, conseguira dissimular seu sexo e entrar nas ordens sob o nome de João da Inglaterra. Alcançando, graças a seus talentos, as mais altas dignidades eclesiásticas, teria sido eleita, como papa, em 855, sob o nome de João VIII. A fábula toma agora as proporções de uma obscenidade grosseira. Durante uma procissão solene, a papisa Joana dá à luz na mesma igreja de São João de Latrão. Nada dizemos da vergonhosa cerimônia da sedia cujos pormenores não podem ser escritos por uma pena honesta.
Durante três séculos, nenhum historiador falou nessa fábula tão ridícula quão inverossímil, de uma mulher elevada ao soberano pontificado. Ainda mesmo que o caso fosse verdadeiro, para a Igreja não resultaria nem responsabilidade nem vergonha. Seria uma surpresa e nada mais. Mas nenhum testemunho sério e contemporâneo autoriza a reconhece-lo como autêntico. Na sua História da Igreja, o cardeal Hergenroether, cuja competência e autoridade são indiscutíveis, contenta-se com dizer: “É uma fábula desde muito tempo reduzida ao nada, que Leão IV tivesse como sucessor a papisa Joana”.
Mas pode-se perguntar: qual foi, portanto, a origem de semelhante boato, e de que modo se pôde propagar? Num trabalho publicado em 1863, o doutor Doellinger, cuja ciência histórica é incontestável, rejeita a opinião que faria remontar ao século XI a origem da lenda, e seria mais verdadeiro dizer que data só do meado do século XIII. Segundo Barônio, a fábula da papisa não seria mais do que uma sátira da indolência de João VIII, particularmente no procedimento de Fócio. O O. Secchi, sábio jesuíta de Roma, não vê nisso senão uma calúnia inventada pelos Gregos. Em suma, as explicações soçobram todas perante o silêncio da tradição, e, apesar dos trabalhos históricos empreendidos em nossos dias, nada se descobriu que remonte além do século XIII. É no livro dos “Sete dons do Espírito Santo”, escrito pelo Dominicano Estevam de Borbone, lá pelo meado do século XIII, que apareceu, pela primeira vez, a notícia da papisa Joana; outro Dominicano, Martinho o Polaco, por muito tempo capelão do papa, propagou-a na sua “Crônica dos papas”. Cita-se também certo manuscrito de Anastácio, o Bibliotecário, onde esta lenda teria aparecido, não no texto, mas na margem e em caracteres diferentes dos da obra, o que revela uma interpolação. A mesma narrativa passou nas diversas Crônicas dos século XIV e XV, redigidas, as mais das vezes, por frades dominicanos ou franciscanos. Os autores da “História literária da França” admiram-se e com razão de que os propagadores mais ingênuos e talvez os inventores de uma história tão injuriosa para o papado, se encontram precisamente nas fileiras de uma milícia tão fiel à Santa Sé.
Em todo o caso, a lenda progrediu muito. No concílio de Constança, João Huss se aproveitou dela a favor de sua doutrina sobre o papado e não foi rebatido. O mesmo João Gerson lembra a história de um papa feminino para mostrar que a Igreja pode se enganar sobre uma questão de fato. O caso parecia portanto admitido sem contestação.
Concebe-se então que, na segunda metade do século XV, os Gregos se valessem dessa fábula; era um achado precioso para os inimigos da Santa Sé e para a causa do cisma. Explica-se do mesmo modo que, no século XVI, os discípulos de Lutero e de Calvino explorassem esse conto com uma animosidade prodigiosa e lançassem mão de tal invenção para dela se fazer uma arma contra o papado.
Contudo, vários dos mais doutos e mais conscienciosos entre os protestantes, tais como Blondel, Casaubon, Bayle, não se demoraram em combate-la. Chamier, Dumoulin, Bochart, Basnage e outros homens instruídos, de diversas seitas, não hesitaram em tratar a história da papisa Joana como pura invenção de copista ou de comentador. O pastor Jurieu a qualifica de fábula monstruosa, e Bayle de simples historieta.
Os escritores católicos, Eneas Sylvius, em seguida papa, sob o nome de Pio II; Onufro Pavini, Belarmino, Florimundo de Rémond, de Launoy, o P. Labbe e muitos outros, refutaram amplamente a velha lenda. Mas desprezam-se essas fontes preciosas de erudição. O século XVIII ressuscitou a questão que foi de novo abafada pela Revolução. Uma monstruosa compilação em nossa época: “Os crimes dos papas e dos reis”. Repetiu e desenvolveu a velha lenda da papisa. Quantos ignorantes e papalvos, em nossos dias, julgam ainda fazer dela um argumento contra a Igreja!
Depois do histórico da questão, vamos às provas de que a pretensa papisa Joana não é mais do que uma fábula insustentável.
1 – Esse fantasma não acha lugar para se colocar entre Leão IV e Bento III. Leão IV morreu em 17 de julho de 855; Bento VIII foi, com toda a verossimilhança, eleito no mesmo mês e sagrado em 29 de setembro do mesmo ano. Então, em que fica o reinado da papisa?
2 – Já dissemos: Nenhum contemporâneo fala de tal papisa Joana; os três séculos seguintes observam o mesmo silêncio a respeito, e é somente no século XIII que esta fábula é consignada por escrito na crônica interpolada de Martinho, o Polaco.
3 – Como todas as fábulas e lendas, a da papisa Joana é diversamente contada. Essa mulher elevada sobre a cadeira de São Pedro, nasce ora em Atenas, ora em Moguncia, ora na Inglaterra. No princípio, não se lhe conhecia o nome e não era douta; ocupava o cargo de simples secretário; em seguida, chamou-se Inez, Gilberta e Joana, este último nome sendo mais parecido com o de João, usado naquela época por alguns papas cuja reputação ficava equivoca ou eivada de fraqueza.
4 – Quanto a famosa pedra monumental de uma das ruas de Roma, com uma inscrição de letras iniciais e enigmáticas; quanto à estátua descoberta na mesma rua em que o cortejo pontifical evitava de passar, estátua representando uma mulher e perto dela um menino, é necessário todo um sistema preconcebido de interpretação para ver nisso tudo uma alusão à papisa Joana, e os arqueólogos indicaram-lhes uma significação histórica e completamente romana fora dessa falsa história.
Para concluir, somos do parecer do ministro protestante David Blondel, o qual, refutando esta fábula, declara que “não se deve aplicar o espírito em pesquisas inúteis sobre um assunto que não merece consideração alguma”. “Os protestantes”, diz Bayle, “puderam objetar legitimamente o conto da papisa enquanto não estava refutado. Dele não eram os inventores; achavam-no em várias obras compostas por bons papistas; mas desde que foi refutado por razões indiscutíveis, tiveram que abandoná-lo.”
A questão é, portanto, julgada. Hoje, para qualquer espírito instruído e sério a fábula da papisa Joana não é mais do que uma prova da baixeza a que pode resvalar o espírito de partido eivado de preconceitos contra a Igreja e contra a verdade.
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Entre São Leão IV e Bento III (855), uma calúnia, acreditada pela ignorância e pela má fé, coloca na Sé apostólica a famosa papisa Joana. Os escritores hostis ao papado pretenderam, sem citar em apoio à sua opinião um só testemunho contemporâneo, que uma mulher, por nome Joana, originária de Moguncia e de gênio distinto, conseguira dissimular seu sexo e entrar nas ordens sob o nome de João da Inglaterra. Alcançando, graças a seus talentos, as mais altas dignidades eclesiásticas, teria sido eleita, como papa, em 855, sob o nome de João VIII. A fábula toma agora as proporções de uma obscenidade grosseira. Durante uma procissão solene, a papisa Joana dá à luz na mesma igreja de São João de Latrão. Nada dizemos da vergonhosa cerimônia da sedia cujos pormenores não podem ser escritos por uma pena honesta.
Durante três séculos, nenhum historiador falou nessa fábula tão ridícula quão inverossímil, de uma mulher elevada ao soberano pontificado. Ainda mesmo que o caso fosse verdadeiro, para a Igreja não resultaria nem responsabilidade nem vergonha. Seria uma surpresa e nada mais. Mas nenhum testemunho sério e contemporâneo autoriza a reconhece-lo como autêntico. Na sua História da Igreja, o cardeal Hergenroether, cuja competência e autoridade são indiscutíveis, contenta-se com dizer: “É uma fábula desde muito tempo reduzida ao nada, que Leão IV tivesse como sucessor a papisa Joana”.
Mas pode-se perguntar: qual foi, portanto, a origem de semelhante boato, e de que modo se pôde propagar? Num trabalho publicado em 1863, o doutor Doellinger, cuja ciência histórica é incontestável, rejeita a opinião que faria remontar ao século XI a origem da lenda, e seria mais verdadeiro dizer que data só do meado do século XIII. Segundo Barônio, a fábula da papisa não seria mais do que uma sátira da indolência de João VIII, particularmente no procedimento de Fócio. O O. Secchi, sábio jesuíta de Roma, não vê nisso senão uma calúnia inventada pelos Gregos. Em suma, as explicações soçobram todas perante o silêncio da tradição, e, apesar dos trabalhos históricos empreendidos em nossos dias, nada se descobriu que remonte além do século XIII. É no livro dos “Sete dons do Espírito Santo”, escrito pelo Dominicano Estevam de Borbone, lá pelo meado do século XIII, que apareceu, pela primeira vez, a notícia da papisa Joana; outro Dominicano, Martinho o Polaco, por muito tempo capelão do papa, propagou-a na sua “Crônica dos papas”. Cita-se também certo manuscrito de Anastácio, o Bibliotecário, onde esta lenda teria aparecido, não no texto, mas na margem e em caracteres diferentes dos da obra, o que revela uma interpolação. A mesma narrativa passou nas diversas Crônicas dos século XIV e XV, redigidas, as mais das vezes, por frades dominicanos ou franciscanos. Os autores da “História literária da França” admiram-se e com razão de que os propagadores mais ingênuos e talvez os inventores de uma história tão injuriosa para o papado, se encontram precisamente nas fileiras de uma milícia tão fiel à Santa Sé.
Em todo o caso, a lenda progrediu muito. No concílio de Constança, João Huss se aproveitou dela a favor de sua doutrina sobre o papado e não foi rebatido. O mesmo João Gerson lembra a história de um papa feminino para mostrar que a Igreja pode se enganar sobre uma questão de fato. O caso parecia portanto admitido sem contestação.
Concebe-se então que, na segunda metade do século XV, os Gregos se valessem dessa fábula; era um achado precioso para os inimigos da Santa Sé e para a causa do cisma. Explica-se do mesmo modo que, no século XVI, os discípulos de Lutero e de Calvino explorassem esse conto com uma animosidade prodigiosa e lançassem mão de tal invenção para dela se fazer uma arma contra o papado.
Contudo, vários dos mais doutos e mais conscienciosos entre os protestantes, tais como Blondel, Casaubon, Bayle, não se demoraram em combate-la. Chamier, Dumoulin, Bochart, Basnage e outros homens instruídos, de diversas seitas, não hesitaram em tratar a história da papisa Joana como pura invenção de copista ou de comentador. O pastor Jurieu a qualifica de fábula monstruosa, e Bayle de simples historieta.
Os escritores católicos, Eneas Sylvius, em seguida papa, sob o nome de Pio II; Onufro Pavini, Belarmino, Florimundo de Rémond, de Launoy, o P. Labbe e muitos outros, refutaram amplamente a velha lenda. Mas desprezam-se essas fontes preciosas de erudição. O século XVIII ressuscitou a questão que foi de novo abafada pela Revolução. Uma monstruosa compilação em nossa época: “Os crimes dos papas e dos reis”. Repetiu e desenvolveu a velha lenda da papisa. Quantos ignorantes e papalvos, em nossos dias, julgam ainda fazer dela um argumento contra a Igreja!
Depois do histórico da questão, vamos às provas de que a pretensa papisa Joana não é mais do que uma fábula insustentável.
1 – Esse fantasma não acha lugar para se colocar entre Leão IV e Bento III. Leão IV morreu em 17 de julho de 855; Bento VIII foi, com toda a verossimilhança, eleito no mesmo mês e sagrado em 29 de setembro do mesmo ano. Então, em que fica o reinado da papisa?
2 – Já dissemos: Nenhum contemporâneo fala de tal papisa Joana; os três séculos seguintes observam o mesmo silêncio a respeito, e é somente no século XIII que esta fábula é consignada por escrito na crônica interpolada de Martinho, o Polaco.
3 – Como todas as fábulas e lendas, a da papisa Joana é diversamente contada. Essa mulher elevada sobre a cadeira de São Pedro, nasce ora em Atenas, ora em Moguncia, ora na Inglaterra. No princípio, não se lhe conhecia o nome e não era douta; ocupava o cargo de simples secretário; em seguida, chamou-se Inez, Gilberta e Joana, este último nome sendo mais parecido com o de João, usado naquela época por alguns papas cuja reputação ficava equivoca ou eivada de fraqueza.
4 – Quanto a famosa pedra monumental de uma das ruas de Roma, com uma inscrição de letras iniciais e enigmáticas; quanto à estátua descoberta na mesma rua em que o cortejo pontifical evitava de passar, estátua representando uma mulher e perto dela um menino, é necessário todo um sistema preconcebido de interpretação para ver nisso tudo uma alusão à papisa Joana, e os arqueólogos indicaram-lhes uma significação histórica e completamente romana fora dessa falsa história.
Para concluir, somos do parecer do ministro protestante David Blondel, o qual, refutando esta fábula, declara que “não se deve aplicar o espírito em pesquisas inúteis sobre um assunto que não merece consideração alguma”. “Os protestantes”, diz Bayle, “puderam objetar legitimamente o conto da papisa enquanto não estava refutado. Dele não eram os inventores; achavam-no em várias obras compostas por bons papistas; mas desde que foi refutado por razões indiscutíveis, tiveram que abandoná-lo.”
A questão é, portanto, julgada. Hoje, para qualquer espírito instruído e sério a fábula da papisa Joana não é mais do que uma prova da baixeza a que pode resvalar o espírito de partido eivado de preconceitos contra a Igreja e contra a verdade.
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segunda-feira, 11 de maio de 2015
Nova publicação patrística imperdível!
Como sabem, me interesso muito pelos estudos dos Pais da Igreja. Sem os estudar é impossível saber qual era a crença dos cristãos primitivos nos mais variados aspectos. Todos os seus livros estão repletos de alusões implícitas e explícitas sobre o conjunto de doutrina dos primeiros cristãos. Até mesmo ao tratar de assuntos que aparentemente não são controversos nos deparamos com dicas e referências importantes. Assim, por exemplo, nas cartas que Santo Inácio de Antioquia escreveu para consolar algumas igrejas católicas, encontramos alusões claras de muitos ensinos católicos que vão desde a hierarquia eclesiástica até a intercessão dos santos.
Não será diferente com este maravilho trabalho realizado pela Editora Concreta. Além de aprender sobre o que os primeiros cristãos ensinavam sobre a paciência, trazendo para os dias de hoje um tesouro imenso que às vezes ou é esquecido ou fica disponível somente para quem sabe latim, o leitor irá mergulhar mais a fundo neste tesouro da fé.
Seja você católico ou, infelizmente, protestante, se não tem paciência para estudar os textos dos primeiros cristãos, não poderá fazer qualquer afirmação sobre esta época da vida da Igreja, exceto por meio de terceiros que poderão ser confiáveis ou não.
Saiba mais neste vídeo:
Ou diretamente na página da editora: https://editoraconcreta.com.br/crowdpublish/campaigns/sobre-a-paciencia-tertuliano-s-cipriano-e-s-agostinho-edicao-bilingue/
Eu já fiz o meu pedido! Contribua também e aumente o acesso aos textos patrísticos em nosso país que, comparado com outros, ainda é pequeno.
Não será diferente com este maravilho trabalho realizado pela Editora Concreta. Além de aprender sobre o que os primeiros cristãos ensinavam sobre a paciência, trazendo para os dias de hoje um tesouro imenso que às vezes ou é esquecido ou fica disponível somente para quem sabe latim, o leitor irá mergulhar mais a fundo neste tesouro da fé.
Seja você católico ou, infelizmente, protestante, se não tem paciência para estudar os textos dos primeiros cristãos, não poderá fazer qualquer afirmação sobre esta época da vida da Igreja, exceto por meio de terceiros que poderão ser confiáveis ou não.
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sábado, 9 de maio de 2015
Alexandre VI e César Bórgia: Mitos e verdades.
Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.
Nenhuma reputação foi mais vilipendiada do que a de Alexandre VI e dos Bórgias. Depois das ignomínias infligidas a este personagem e à sua família, vieram as indagações históricas e críticas, guiadas pela sinceridade e pela boa fé. Projetaram-se algumas luzes sobre a questão que nos ocupa; contudo, não podemos afirmar que a última palavra foi dita sobre o caso.
Limitemo-nos: 1º a expor com toda franqueza e lealdade o problema histórico com as conclusões que hoje parecem fato averiguado; 2ª acrescentemos alguns reparos que talvez facilitem uma justa apreciação dos personagens e dos fatos.
1 - Quem foi ao certo Alexandre VI? Terá sido, não só na juventude, mas sendo cardeal e papa, um monstro de crueldade e de luxúria, o Nero da Roma cristã, como falam Henrique Martin (Histoire de France, t. VII) e outros depois dele?
Observemos primeiro que não se deve julgá-lo segundo o romance, o panfleto ou o teatro. Ora, vamos ver a que fontes se foram documentar os historiadores de Alexandre VI e dos Bórgias. O primeiro autor consultado é Burchard, inimigo figadal da Itália e do papa, mestre de cerimônia da corte de Roma desde 1483, morto bispo de Cittá di Castello: é autor de um Diarium, jornal escrito tanto sem boa fé quanto sem crítica, que interpolações protestantes ainda alteraram, tornando-o mais parcial e odioso. O segundo é Guichardin. Sua má fé é tamanha que o incrédulo Bayle dizia dele: "Guichardin merece o ódio; torna-se culpado das mentiras dos noveleiros." O próprio Voltaire o acusa de impostura e mentira. Eis contudo as fontes onde os historiadores e os romancistas foram procurar informações.
A darmos crédito no que dizem esses autores, a juventude de Rodrigo Bórgia, nascido em Valência, na Espanha, em 1431, se passa nos prazeres. Criado cardeal em 1456, por seu tio Calixto III, continua a ter costumes mais do que livres. Papa, desonra o trono pontifical, prodigaliza honras e benefícios a seu indigno filho César Bórgia, admite a uma intimidade escandalosa sua filha Lucrécia, semeia o veneno e a morte nas fileiras do Sacro Colégio para se apoderar das riquezas de suas vítimas, e morre ele próprio de uma bebedeira mortífera que mandara preparar para cardeais que, a seu parecer, não morriam bastante depressa.
Depois dos exageros da panfletagem e do romance, veio uma reação história. Procurou-se, valendo-se de outras fontes, reabilitar completamente Alexandre VI. Os desmandos de Rodrigo Bórgia não foram mais do que um erro e faltas de mocidade, cometidas em uma época em que era brilhante oficial da Espanha. Seus filhos César, Lucrécia e mais três outros, teriam nascido de uma esposa ilegítma, Julia Farnese, mulher de uma origem ilustre, irmã do cardeal deste nome, que veio a ser Paulo III. A celebre Vannoza, em lugar de ser a cortesã desavergonhada, mãe de cinco filhos adulterinos, não seria senão Joana Gaetani, avó dos jovens Bórgias, inteiramente dedicada à educação deles. Feito cardeal e eleito papa sob o nome de Alexandre VI, Rodrigo Bórgia, seria um modelo de zelo e de atividade; seus costumes, impolutos sobre o trono pontifical, o defenderiam contra qualquer ataque. Além disso, certos escritores, acompanhando a Revista de Dublin, pretenderam que Cesar e Lucrécia Bórgia, assim como seus irmãos, pediam muito be
m não ser mais do que sobrinhos de Alexandre VI, filhos de seu irmão Pedro Luiz Bórgia.
Não é mais possível ser partidário desse sistema histórico. Alexandre VI teve fraquezas e faltas que qualidades reais não podem fazer esquecer. Se Burchard foi parcial e exagerado, se Guichardin se mostrou muitas vezes de má fé, outros escritores e analistas, mais sinceros e insuspeitos, Pavini, Raynaldi, Muratori e os Bollandistas, gemeram sobre as irregularidades de Rodrigo Bórgia; não desculparam nem o cardeal nem o papa. A sua pretensa carreira militar não é mais do que um romance, pois foi nomeado cardeal por seu tio aos vinte e cinco anos; não contratou casamento regular; Rinaldi, continuador de Baronio, escreve relativamente à eleição de Alexandre VI em 1492: "Os cardeais, comprados pelo ouro, elegeram um papa de costumes corruptos". A julgar pelas cartas e testemunhos de vários embaixadores, essa escolha foi manchada de simonia, e um escandaloso nepotismo assinalou a elevação do novo papa. Enfim, sua corte pontifical ofereceu o espetáculo de um grande luxo e de festas brilhantes que os cronistas conta
ram com malignidade. Tal parece ser o verdadeiro Alexandre VI, no dizer da história imparcial.
O sábio cardeal Hergenroether, na sua História da Igreja (1888), não hesita em dar de Alexandre VI a seguinte apreciação: "Ele tinha as qualidades de um brilhante soberano; era um espírito culto, protetor das artes e das ciências, benigno e benévolo para com o povo, duro e severo para com os grandes, corajoso e resoluto nos perigos, sagaz e hábil nas negociações, não recuando perante meio algum, familiarizado com a política de interesse, que dominava então na maior parte das cortes. Mas tinha um passado absolutamente manchado e ficavam-lhe vários filhos de uma união adúltera: não viveu senão no mundo para satisfazer sua paixão, enriquecer e engrandecer sua família e, por muito tempo ainda continuou sobre o trono pontifical o seu primeiro gênero de vida. Se muitos dos crimes que lhe foram imputados por seus inimigos são imaginários, ficam ainda bastantes para votar sua memória à execração moral, e é já um grande motivo de censura que se possa ter dado fé à narração escandalosa de tantas aventuras. Parecia que o espírito mundano, a sede de prazeres tivessem abafado nele o senso moral; e é assim que seu pontificado serviu para desacreditar a cadeira de São Pedro aos olhos do mundo inteiro, tanto mais que sua política, sempre aplicada em arranjar principados para seus filhos, era muitas vezes equívoca e desonesta".
Dessas afirmações, os testemunhos são irrecusáveis. Cesar Bórgia, duque de Valência; João, duque de Candia; Lucrécia, duquesa de Ferrara e Godofredo são perfeitamente os filhos de Rodrigo e de Vannoza, como atestam inscrições tumulares na igreja de Santa Maria del Pollo, em Roma, e a data de seu nascimento revela claramente a desordem de uma vida escandalosa sob a púrpura.
O ilustre doutor L. Pastor, em sua notável História dos Papas, tão documentada, não conclui de outro modo o seu estudo sobre o célebre pontífice: "Qualquer tentativa de salvar a memória de Alexandre VI, diz ele, seria doravante a defesa de uma causa desesperada". É, contudo, permitido fazer algumas reservas e acrescentar com o cardeal Hergeroether: "Em compensação, deve-se desterrar para o domínio das fábulas as relações incestuosas de Alexandre com Lucrécia e o que se diz da vida constantemente imoral dela. Muitas das acusações dirigidas contra Alexandre e tiradas de Burchard, Joves, Pontanus, Sannazar e Guichardin, foram combatidas com sucesso por Raynal, Roscoe, Capefigue e Chantrel." Por seu lado, L. Pastor acrescenta: "Nem tão pouco César Bórgia é o autor de todos os assassinatos que lhe foram imputados".
2 - Na impossibilidade em que estamos de discutir detalhadamente e tratar longamente todos os pontos agitados em ardentes polêmicas contra Alexandre VI, contentar-nos-emos com algumas observações.
Primeiro, poderíamos, com L. Pastor, o historiador mais informado e o melhor dos guias no meio das questões complexas e delicadas suscitadas pelos feitos dos papas naquela época, deter-nos um instante para contemplar a pintura dos costumes italianos no fim do século XV. Ao mesmo tempo que um sopro de indiferença e incredulidade e uma sede ardente de gozo material solapavam a sociedade, a literatura, as artes, abriam de par em par as portas da corrupção. Disso resultou um obscurecimento geral do senso moral, ao qual não escaparam de modo suficiente pontífices às vezes tão pouco preparados à sua sublime missão. Alexandre VI e César Bórgia, tais como nos representam os documentos contemporâneos, não são mais, desde então, exceções monstruosas como nos aparecem estudados à luz que ilumina hoje o trono pontificial.
Lembremos ainda que Alexandre VI, ao lado de faltas indesculpáveis, teve qualidades apreciáveis. Eleito papa, ocupa-se em restabelecer a ordem em Roma e consagra-se com ardor ao governo da Igreja. - Como rei, organiza uma polícia severa, publica regulamentos para a administração da justiça, dá à cidade de Roma um governo superior às facções, confia a César Bórgia, a quem revestiu da púrpura cardinalícia, o cuidado de defender os domínios pontificais, pela força das armas, contra os príncipes italianos. Este último ato foi imputado como crime ao papa e seu delegado. É esquecer então que essas funções militares estavam admitidas pelos costumes da época. O próprio Júlio II embainhou a espada e revestiu a couraça para defender a Itália. Esse César Bórgia, de quem não pretendemos defender a memória, era contudo amado pelos povos e, depois da morte de Alexandre VI, as cidades da Romanha não quiseram obedecer senão a ele somente. "Devia essa vantagem, dis Guichardin, ao cuidado que tivera em fazer administrar exatam
ente a justiça e em livrar a paz dos bandidos que o pilhavam". A Lucrécia Bórgia atribuem-se todos os crimes, mesmo o assassinato. Historiadores da Itália, Giraldi, Sardi, Libanori, a chamam de uma mulher perfeita e sem repreensão; dizem que possuía a beleza, a virtude, todos os dotes do espírito. Roscoe a justifica de todas as calúnias atribuídas contra ela. Quem merece mais confiança?Seus tardios detratores ou seus contemporâneos?
Como pontífice, Alexandre VI não foi inativo. Dá provas de uma solicitude universal, convida os cristãos para uma cruzada contra os Turcos, trabalha em fazer voltar para o grêmio da Igreja os hussitas da Bohêmia, continua com Ximenes a reforma das ordens religiosas, funda as universidades de Pisa, de Toledo, de Salamanca e de Lisboa, combate os abusos das indulgências e empreende reformar sua corte pontifical. Estes fatos advogam muito a favor dele.
O Bullario de Alexandre VI tem um notável valor, a lista de suas cartas e de seus outros escritos atesta juntamente sua atividade, sua habilidade e sua energia. "De noite, segundo Roscoe, Alexandre dormia apenas duas horas; passava à mesa como uma sombra, sem parar; nunca recusava ouvir as solicitações dos pobres; pagava as dívidas dos infelizes e mostrava-se sem dó para a prevaricação".
Entre outras censuras feitas a Alexandre VI, alguns não deixaram de lhe atribuir uma grande parte de responsabilidade na morte, em Florença, do Dominicano Jerônimo Savonarola. Questão delicada e também muito complexa. Certamente o papa Alexandre VI interveio neste processo. As pregações violentas do monge, as denúncias de que foi o objeto, davam ao papa o direito de chamá-lo para Roma. A recusa de Savonarola em responder a esta convocação, sua obstinação em não querer ligar o convento de Florença à província toscana, posta sob a regra conventual, provocaram, da parte do papa, uma breve ameaça; em seguida, com a data de 12 de maio de 1947, um novo breve de excomunhão formal. Tinha Alexandre VI o direito de dar a Savonarola ordem para entrar numa ordem menos severa? Era legítima a excomunhão? Obedecia a um rancor pessoal contra o frade audacioso que falava de Roma e da corte romana como de uma Babilônia de confusão e de crimes, que atacava o pontífice romano, sua eleição, seus vícios manifestos, e não receara e
screver: "Aquele homem não é cristão; sequer acredita em Deus; ultrapassou o limite da infidelidade de da incredulidade"? Eis outras tantas questões difíceis de resolver.
Em todo o caso, Alexandre VI pediu para que o monge fosse julgado em Roma: a corte de Florença recusou, e só concedeu a admissão de dois delegados do papa entre os juízes florentinos. É esse tribunal que, em 22 de maio de 1498, condenou à morte o Dominicano Savonarola, cuja execução teve lugar no dia seguinte. O frade confessara nos tormentos: protestou na fogueira.
Estranho século, diremos nós, e muito triste o estado da Igreja, numa época em que fatos e cenas semelhantes se podiam realizar, de modo a deixar a Savonarola a reputação, entre alguns de herege e excomungado impenitente; entre outros, de mártir e santo. Segundo L. Pastor, a reforma tentada por Savonarola não parece sem excesso, e o fim trágico de sua carreira tormentosa não aparece isento de censura. Sua resistência ao papa e seus ataques contra Alexandre VI podem ser desculpados, mas não justificados.
Finalmente, contra a opinião de Guichardin e de Tomasi sobre a morte de Alexandre VI, que representam como vítima de um veneno preparado para alguns cardeais, oporemos esta simples narrativa do próprio Burchard: "No sábado, 12 de agosto de 1503, de manhã, o papa sentiu-se indisposto, depois das vésperas, às três ou quatro horas da tarde. Declarou-se uma febre que não o largou mais. Em 16 de agosto fizeram-lhe sangrias; em 17 tomou remédios; na sexta-feira, 18 de agosto, às seis ou sete horas da manhã, confessou-se a D. Pedro, bispo de Culm que, em seguida, celebrou a Missa diante dele e, depois de ter comungado, administrou o sacramento da Eucaristia ao papa sentado na cama. Cinco cardeais estavam presentes. Na hora das vésperas Alexandre VI recebeu a extrema-unção das mãos do bispo de Culm e, na presença ele e do datário, expirou."
A respeito da morte de Alexandre VI, Voltaire escreveu: "Atrevo-me a dizer a Guichardin: a Europa foi enganada por vós, e vós fostes pela vossa paixão. Éreis o inimigo do papa, e demais acreditastes no vosso ódio."
Concluímos com o senhor de l'Êpinois: "Alexandre VI foi culpado, não há dúvidas, mas principalmente culpado por ter vivido ele, sacerdote, cardeal e papa, como viviam no seu tempo a maior parte dos príncipes e, como muitas vezes antes e depois dele, viveram os homens do mundo que, miseráveis na sua vida privada, puderam todavia, graças à sua inteligência e às suas vistas políticas, apresentar-se com certo brilho na vida pública.
Mas essas faltas não podem perturbar a vida do cristão... A Igreja vive no tempo e é servida por homens sujeitos a todas as fraquezas do tempo; porém, nela o elemento divino subsiste inatacável, indefectível. Os piores papas nunca lavraram contra a fé um só decreto que a possa alterar. Eles restam sempre, neste ponto de vista, assim como foi sempre Alexandre VI, os vigários infalíveis de Jesus Cristo... A personalidade humana deste papa desaparece, o caráter divino é posto em evidência, pois a fé no Vigário de Jesus Cristo não faliu. Esta prova da infalibilidade pontifical é assaz eloquente para consolar-nos das fraquezas de um papa como Alexandre VI" [1].
A impressão que se desprende deste estudo rápido de uma das épocas mais tristes da história da Igreja, é que o pontificado de Alexandre VI tornou quase inevitável o grande movimento de reforma que, no século seguinte, ia tão cruelmente abalar a Igreja e a Europa.
"Só se poderiam admirar dessa conclusão severa aqueles que se teriam esquecido da célebre máxima de Cícero dada por Leão XIII como divisa aos pesquisadores desinteressados perante os quais se abrem hoje de par em par as portas dos arquivos do Vaticano: 'Ne quid falsi audeat; ne quid veri non audeat'. Nada dizer que seja falso, nada omitir que seja verdadeiro"[2]
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Notas:
1 - Conclusão de H. de l'Êpinois.
2 - Conclusão do visconde de Meaux, Alexandre VI e Savonarola (1898).
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Nenhuma reputação foi mais vilipendiada do que a de Alexandre VI e dos Bórgias. Depois das ignomínias infligidas a este personagem e à sua família, vieram as indagações históricas e críticas, guiadas pela sinceridade e pela boa fé. Projetaram-se algumas luzes sobre a questão que nos ocupa; contudo, não podemos afirmar que a última palavra foi dita sobre o caso.Limitemo-nos: 1º a expor com toda franqueza e lealdade o problema histórico com as conclusões que hoje parecem fato averiguado; 2ª acrescentemos alguns reparos que talvez facilitem uma justa apreciação dos personagens e dos fatos.
1 - Quem foi ao certo Alexandre VI? Terá sido, não só na juventude, mas sendo cardeal e papa, um monstro de crueldade e de luxúria, o Nero da Roma cristã, como falam Henrique Martin (Histoire de France, t. VII) e outros depois dele?
Observemos primeiro que não se deve julgá-lo segundo o romance, o panfleto ou o teatro. Ora, vamos ver a que fontes se foram documentar os historiadores de Alexandre VI e dos Bórgias. O primeiro autor consultado é Burchard, inimigo figadal da Itália e do papa, mestre de cerimônia da corte de Roma desde 1483, morto bispo de Cittá di Castello: é autor de um Diarium, jornal escrito tanto sem boa fé quanto sem crítica, que interpolações protestantes ainda alteraram, tornando-o mais parcial e odioso. O segundo é Guichardin. Sua má fé é tamanha que o incrédulo Bayle dizia dele: "Guichardin merece o ódio; torna-se culpado das mentiras dos noveleiros." O próprio Voltaire o acusa de impostura e mentira. Eis contudo as fontes onde os historiadores e os romancistas foram procurar informações.
A darmos crédito no que dizem esses autores, a juventude de Rodrigo Bórgia, nascido em Valência, na Espanha, em 1431, se passa nos prazeres. Criado cardeal em 1456, por seu tio Calixto III, continua a ter costumes mais do que livres. Papa, desonra o trono pontifical, prodigaliza honras e benefícios a seu indigno filho César Bórgia, admite a uma intimidade escandalosa sua filha Lucrécia, semeia o veneno e a morte nas fileiras do Sacro Colégio para se apoderar das riquezas de suas vítimas, e morre ele próprio de uma bebedeira mortífera que mandara preparar para cardeais que, a seu parecer, não morriam bastante depressa.
Depois dos exageros da panfletagem e do romance, veio uma reação história. Procurou-se, valendo-se de outras fontes, reabilitar completamente Alexandre VI. Os desmandos de Rodrigo Bórgia não foram mais do que um erro e faltas de mocidade, cometidas em uma época em que era brilhante oficial da Espanha. Seus filhos César, Lucrécia e mais três outros, teriam nascido de uma esposa ilegítma, Julia Farnese, mulher de uma origem ilustre, irmã do cardeal deste nome, que veio a ser Paulo III. A celebre Vannoza, em lugar de ser a cortesã desavergonhada, mãe de cinco filhos adulterinos, não seria senão Joana Gaetani, avó dos jovens Bórgias, inteiramente dedicada à educação deles. Feito cardeal e eleito papa sob o nome de Alexandre VI, Rodrigo Bórgia, seria um modelo de zelo e de atividade; seus costumes, impolutos sobre o trono pontifical, o defenderiam contra qualquer ataque. Além disso, certos escritores, acompanhando a Revista de Dublin, pretenderam que Cesar e Lucrécia Bórgia, assim como seus irmãos, pediam muito be
m não ser mais do que sobrinhos de Alexandre VI, filhos de seu irmão Pedro Luiz Bórgia.
Não é mais possível ser partidário desse sistema histórico. Alexandre VI teve fraquezas e faltas que qualidades reais não podem fazer esquecer. Se Burchard foi parcial e exagerado, se Guichardin se mostrou muitas vezes de má fé, outros escritores e analistas, mais sinceros e insuspeitos, Pavini, Raynaldi, Muratori e os Bollandistas, gemeram sobre as irregularidades de Rodrigo Bórgia; não desculparam nem o cardeal nem o papa. A sua pretensa carreira militar não é mais do que um romance, pois foi nomeado cardeal por seu tio aos vinte e cinco anos; não contratou casamento regular; Rinaldi, continuador de Baronio, escreve relativamente à eleição de Alexandre VI em 1492: "Os cardeais, comprados pelo ouro, elegeram um papa de costumes corruptos". A julgar pelas cartas e testemunhos de vários embaixadores, essa escolha foi manchada de simonia, e um escandaloso nepotismo assinalou a elevação do novo papa. Enfim, sua corte pontifical ofereceu o espetáculo de um grande luxo e de festas brilhantes que os cronistas contaram com malignidade. Tal parece ser o verdadeiro Alexandre VI, no dizer da história imparcial.
O sábio cardeal Hergenroether, na sua História da Igreja (1888), não hesita em dar de Alexandre VI a seguinte apreciação: "Ele tinha as qualidades de um brilhante soberano; era um espírito culto, protetor das artes e das ciências, benigno e benévolo para com o povo, duro e severo para com os grandes, corajoso e resoluto nos perigos, sagaz e hábil nas negociações, não recuando perante meio algum, familiarizado com a política de interesse, que dominava então na maior parte das cortes. Mas tinha um passado absolutamente manchado e ficavam-lhe vários filhos de uma união adúltera: não viveu senão no mundo para satisfazer sua paixão, enriquecer e engrandecer sua família e, por muito tempo ainda continuou sobre o trono pontifical o seu primeiro gênero de vida. Se muitos dos crimes que lhe foram imputados por seus inimigos são imaginários, ficam ainda bastantes para votar sua memória à execração moral, e é já um grande motivo de censura que se possa ter dado fé à narração escandalosa de tantas aventuras. Parecia que o espírito mundano, a sede de prazeres tivessem abafado nele o senso moral; e é assim que seu pontificado serviu para desacreditar a cadeira de São Pedro aos olhos do mundo inteiro, tanto mais que sua política, sempre aplicada em arranjar principados para seus filhos, era muitas vezes equívoca e desonesta".
Dessas afirmações, os testemunhos são irrecusáveis. Cesar Bórgia, duque de Valência; João, duque de Candia; Lucrécia, duquesa de Ferrara e Godofredo são perfeitamente os filhos de Rodrigo e de Vannoza, como atestam inscrições tumulares na igreja de Santa Maria del Pollo, em Roma, e a data de seu nascimento revela claramente a desordem de uma vida escandalosa sob a púrpura.
O ilustre doutor L. Pastor, em sua notável História dos Papas, tão documentada, não conclui de outro modo o seu estudo sobre o célebre pontífice: "Qualquer tentativa de salvar a memória de Alexandre VI, diz ele, seria doravante a defesa de uma causa desesperada". É, contudo, permitido fazer algumas reservas e acrescentar com o cardeal Hergeroether: "Em compensação, deve-se desterrar para o domínio das fábulas as relações incestuosas de Alexandre com Lucrécia e o que se diz da vida constantemente imoral dela. Muitas das acusações dirigidas contra Alexandre e tiradas de Burchard, Joves, Pontanus, Sannazar e Guichardin, foram combatidas com sucesso por Raynal, Roscoe, Capefigue e Chantrel." Por seu lado, L. Pastor acrescenta: "Nem tão pouco César Bórgia é o autor de todos os assassinatos que lhe foram imputados".
2 - Na impossibilidade em que estamos de discutir detalhadamente e tratar longamente todos os pontos agitados em ardentes polêmicas contra Alexandre VI, contentar-nos-emos com algumas observações.
Primeiro, poderíamos, com L. Pastor, o historiador mais informado e o melhor dos guias no meio das questões complexas e delicadas suscitadas pelos feitos dos papas naquela época, deter-nos um instante para contemplar a pintura dos costumes italianos no fim do século XV. Ao mesmo tempo que um sopro de indiferença e incredulidade e uma sede ardente de gozo material solapavam a sociedade, a literatura, as artes, abriam de par em par as portas da corrupção. Disso resultou um obscurecimento geral do senso moral, ao qual não escaparam de modo suficiente pontífices às vezes tão pouco preparados à sua sublime missão. Alexandre VI e César Bórgia, tais como nos representam os documentos contemporâneos, não são mais, desde então, exceções monstruosas como nos aparecem estudados à luz que ilumina hoje o trono pontificial.
Lembremos ainda que Alexandre VI, ao lado de faltas indesculpáveis, teve qualidades apreciáveis. Eleito papa, ocupa-se em restabelecer a ordem em Roma e consagra-se com ardor ao governo da Igreja. - Como rei, organiza uma polícia severa, publica regulamentos para a administração da justiça, dá à cidade de Roma um governo superior às facções, confia a César Bórgia, a quem revestiu da púrpura cardinalícia, o cuidado de defender os domínios pontificais, pela força das armas, contra os príncipes italianos. Este último ato foi imputado como crime ao papa e seu delegado. É esquecer então que essas funções militares estavam admitidas pelos costumes da época. O próprio Júlio II embainhou a espada e revestiu a couraça para defender a Itália. Esse César Bórgia, de quem não pretendemos defender a memória, era contudo amado pelos povos e, depois da morte de Alexandre VI, as cidades da Romanha não quiseram obedecer senão a ele somente. "Devia essa vantagem, dis Guichardin, ao cuidado que tivera em fazer administrar exatam
ente a justiça e em livrar a paz dos bandidos que o pilhavam". A Lucrécia Bórgia atribuem-se todos os crimes, mesmo o assassinato. Historiadores da Itália, Giraldi, Sardi, Libanori, a chamam de uma mulher perfeita e sem repreensão; dizem que possuía a beleza, a virtude, todos os dotes do espírito. Roscoe a justifica de todas as calúnias atribuídas contra ela. Quem merece mais confiança?Seus tardios detratores ou seus contemporâneos?
Como pontífice, Alexandre VI não foi inativo. Dá provas de uma solicitude universal, convida os cristãos para uma cruzada contra os Turcos, trabalha em fazer voltar para o grêmio da Igreja os hussitas da Bohêmia, continua com Ximenes a reforma das ordens religiosas, funda as universidades de Pisa, de Toledo, de Salamanca e de Lisboa, combate os abusos das indulgências e empreende reformar sua corte pontifical. Estes fatos advogam muito a favor dele.
O Bullario de Alexandre VI tem um notável valor, a lista de suas cartas e de seus outros escritos atesta juntamente sua atividade, sua habilidade e sua energia. "De noite, segundo Roscoe, Alexandre dormia apenas duas horas; passava à mesa como uma sombra, sem parar; nunca recusava ouvir as solicitações dos pobres; pagava as dívidas dos infelizes e mostrava-se sem dó para a prevaricação".
Entre outras censuras feitas a Alexandre VI, alguns não deixaram de lhe atribuir uma grande parte de responsabilidade na morte, em Florença, do Dominicano Jerônimo Savonarola. Questão delicada e também muito complexa. Certamente o papa Alexandre VI interveio neste processo. As pregações violentas do monge, as denúncias de que foi o objeto, davam ao papa o direito de chamá-lo para Roma. A recusa de Savonarola em responder a esta convocação, sua obstinação em não querer ligar o convento de Florença à província toscana, posta sob a regra conventual, provocaram, da parte do papa, uma breve ameaça; em seguida, com a data de 12 de maio de 1947, um novo breve de excomunhão formal. Tinha Alexandre VI o direito de dar a Savonarola ordem para entrar numa ordem menos severa? Era legítima a excomunhão? Obedecia a um rancor pessoal contra o frade audacioso que falava de Roma e da corte romana como de uma Babilônia de confusão e de crimes, que atacava o pontífice romano, sua eleição, seus vícios manifestos, e não receara e
screver: "Aquele homem não é cristão; sequer acredita em Deus; ultrapassou o limite da infidelidade de da incredulidade"? Eis outras tantas questões difíceis de resolver.
Em todo o caso, Alexandre VI pediu para que o monge fosse julgado em Roma: a corte de Florença recusou, e só concedeu a admissão de dois delegados do papa entre os juízes florentinos. É esse tribunal que, em 22 de maio de 1498, condenou à morte o Dominicano Savonarola, cuja execução teve lugar no dia seguinte. O frade confessara nos tormentos: protestou na fogueira.
Estranho século, diremos nós, e muito triste o estado da Igreja, numa época em que fatos e cenas semelhantes se podiam realizar, de modo a deixar a Savonarola a reputação, entre alguns de herege e excomungado impenitente; entre outros, de mártir e santo. Segundo L. Pastor, a reforma tentada por Savonarola não parece sem excesso, e o fim trágico de sua carreira tormentosa não aparece isento de censura. Sua resistência ao papa e seus ataques contra Alexandre VI podem ser desculpados, mas não justificados.
Finalmente, contra a opinião de Guichardin e de Tomasi sobre a morte de Alexandre VI, que representam como vítima de um veneno preparado para alguns cardeais, oporemos esta simples narrativa do próprio Burchard: "No sábado, 12 de agosto de 1503, de manhã, o papa sentiu-se indisposto, depois das vésperas, às três ou quatro horas da tarde. Declarou-se uma febre que não o largou mais. Em 16 de agosto fizeram-lhe sangrias; em 17 tomou remédios; na sexta-feira, 18 de agosto, às seis ou sete horas da manhã, confessou-se a D. Pedro, bispo de Culm que, em seguida, celebrou a Missa diante dele e, depois de ter comungado, administrou o sacramento da Eucaristia ao papa sentado na cama. Cinco cardeais estavam presentes. Na hora das vésperas Alexandre VI recebeu a extrema-unção das mãos do bispo de Culm e, na presença ele e do datário, expirou."
A respeito da morte de Alexandre VI, Voltaire escreveu: "Atrevo-me a dizer a Guichardin: a Europa foi enganada por vós, e vós fostes pela vossa paixão. Éreis o inimigo do papa, e demais acreditastes no vosso ódio."
Concluímos com o senhor de l'Êpinois: "Alexandre VI foi culpado, não há dúvidas, mas principalmente culpado por ter vivido ele, sacerdote, cardeal e papa, como viviam no seu tempo a maior parte dos príncipes e, como muitas vezes antes e depois dele, viveram os homens do mundo que, miseráveis na sua vida privada, puderam todavia, graças à sua inteligência e às suas vistas políticas, apresentar-se com certo brilho na vida pública.
Mas essas faltas não podem perturbar a vida do cristão... A Igreja vive no tempo e é servida por homens sujeitos a todas as fraquezas do tempo; porém, nela o elemento divino subsiste inatacável, indefectível. Os piores papas nunca lavraram contra a fé um só decreto que a possa alterar. Eles restam sempre, neste ponto de vista, assim como foi sempre Alexandre VI, os vigários infalíveis de Jesus Cristo... A personalidade humana deste papa desaparece, o caráter divino é posto em evidência, pois a fé no Vigário de Jesus Cristo não faliu. Esta prova da infalibilidade pontifical é assaz eloquente para consolar-nos das fraquezas de um papa como Alexandre VI" [1].
A impressão que se desprende deste estudo rápido de uma das épocas mais tristes da história da Igreja, é que o pontificado de Alexandre VI tornou quase inevitável o grande movimento de reforma que, no século seguinte, ia tão cruelmente abalar a Igreja e a Europa.
"Só se poderiam admirar dessa conclusão severa aqueles que se teriam esquecido da célebre máxima de Cícero dada por Leão XIII como divisa aos pesquisadores desinteressados perante os quais se abrem hoje de par em par as portas dos arquivos do Vaticano: 'Ne quid falsi audeat; ne quid veri non audeat'. Nada dizer que seja falso, nada omitir que seja verdadeiro"[2]
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Notas:
1 - Conclusão de H. de l'Êpinois.
2 - Conclusão do visconde de Meaux, Alexandre VI e Savonarola (1898).
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sábado, 2 de maio de 2015
Vida e obra de Dom Anscar Vonier – Parte 4
Isso sim é catolicidade! Além de ser realmente engraçado! Acrescento outra coisa: um grande monge católico, alemão, que refuta demonstra muito bem a incoerência dos protestantismo, com o nome de Martinho. Mas não é Lutero, é Martinho Vonier!
"[...] É por conta disso que temos a curiosa anomalia de uma comunidade na Inglaterra, pertencente a uma congregação italiana, numa casa dependente de um mosteiro francês, composta por alemães!" E mais! "[...] Apesar do nome aparentemente francês, Anscar Vonier era alemão puro. Sua família migrou para a Alemanha do Tirol que, naquela época, fazia parte do Império Austriaco."
Leia o restante aqui: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/05/02/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-4/
"[...] É por conta disso que temos a curiosa anomalia de uma comunidade na Inglaterra, pertencente a uma congregação italiana, numa casa dependente de um mosteiro francês, composta por alemães!" E mais! "[...] Apesar do nome aparentemente francês, Anscar Vonier era alemão puro. Sua família migrou para a Alemanha do Tirol que, naquela época, fazia parte do Império Austriaco."
Leia o restante aqui: https://anscarvonier.wordpress.com/2015/05/02/vida-e-obra-de-dom-anscar-vonier-parte-4/
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