segunda-feira, 29 de novembro de 2010
10 coisas que muitos católicos deveriam saber, mas não sabem.
1 - Ser católico não é fazer parte de uma religião que a família sempre seguiu e continuar vivendo como se nem mesmo Deus existisse.
2 - Maria é chamada Mãe de Deus, não porque ela possui a mesma natureza Divina ou porque gerou a natureza Divina, e sim porque gerou a natureza humana da Segunda Pessoa da Trindade, Jesus, quando se fez carne. Ou seja, ao chamá-la de Mãe de Deus estamos simplesmente reafirmando a Divindade de Jesus.
3 - As imagens são apenas representações de algo.
4 - Sincretismo religioso, principalmente na forma que acontece com as religiões afro, não fazem parte de fato do catolicismo, e isso só faz escandalizar.
5 - Um católico não pode ser espírita, e vice-versa. O Espiritismo, apesar de se utilizar de aparências cristãs, é apenas na aparência mesmo. Tal religião nega boa parte dos ensinamentos cristãos a respeito de Jesus, Deus, da natureza humana, das conseqüências do pecado e a esperança da ressurreição. Tais negações foram feitas também por diversos movimentos, mas os cristãos primitivos sempre os combateram, reafirmando sua fé, e não se enganaram com as aparências, afinal, ao contrário de muitos hoje, eles conheciam a doutrina apostólica.
5 - Não existe Bíblia sem a Igreja. Foi a Igreja que escreveu a Bíblia (os livros Neotestamentários), bem como é responsável por sua preservação e reconhecimento dos livros que devem ser considerados inspirados.
6 - Há uma falta de maturidade por parte de alguns em relação aos santos cristãos, pois estes algumas vezes recebem glórias que somente deveriam ser dadas a Deus. De veneração, passa a algo muito parecido com a adoração, o que causa também muito escândalo.
7 - Qualquer imagem de Jesus Cristo, Maria ou outros santos não devem (e não servem pra isso) ser utilizados de amuleto de sorte ou objeto contra o mal. Tais imagens em sí não oferecem nada, além de que o cristão deve depositar sua confiança na providencia divina.
8 - Um católico não deve crer necessariamente em qualquer suposta aparição ou visão de Jesus ou algum santo. Não estou a dizer que não se deve acreditar em nenhuma, mas que deve-se avaliar o que afirmam de acordo com as Escrituras, a Tradição e o Magistério da Igreja.
9 - Jesus Cristo é Totalmente Deus e Totalmente homem. (Sim, alguns que se dizem católicos não acreditam em tais doutrinas)
10 - Se você não crê nas doutrinas Católicas já estabelecidas, e sabe que a Igreja ensina o contrário do que você acredita, não adianta insistir, você não é católico. O nome "católico" veio da organização primitiva, onde os primeiros cristãos possuíam crenças comuns e universais. Desde o inicio, os que não acreditavam nesses ensinos universais recebidos pela tradição não eram considerados católicos, afinal, possuíam crenças particulares e diferentes das quais a Igreja recebeu pela tradição apostólica.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Critério para estabelecer a veracidade do material histórico
Bart D. Ehrman
Nota do blog: Apesar de não concordar com muita coisa que Ehman diz, ele também nos passa várias informações interessantes. Já postei sobre os métodos para estabelecer a veracidade do material histórico, mas achei interessante colocar o que ele disse.
1 – Quanto mais antigo, melhor. Como as tradições sobre Jesus mudaram com o tempo à medida que as histórias sobre eles eram contadas e recontadas, e como as fontes escritas foram alteradas, ampliadas e editadas, faz sentido que as fontes mais antigas sejam mais confiáveis do que as posteriores. Como regra, Evangelhos do século VIII não são tão confiáveis quanto os do século O (embora possam ser uma leitura extremamente agradável).
João é o último dos quatro Evangelhos do Novo Testamento e tende a ser menos confiável historicamente do que os outros. Ele apresenta visões de Jesus que representam desdobramentos posteriores da tradição – por exemplo, a de que foi o cordeiro da Páscoa que morreu no dia em que os cordeiros da Páscoa foram sacrificados, ou a de que ele alegava ser igual a Deus. Isso não significa que possamos descartar completamente tudo o que se encontra em João. Pelo contrário, também precisamos aplicar ao seu relato os outros critérios. Mas, em geral, quanto mais antigo, melhor.
Nosso mais antigo Evangelho remanescente é o de Marcos, e ele pode conter informações mais confiáveis do que João. Mas Marcos não foi a única fonte dos Evangelhos posteriores. Provavelmente foi fonte de outro Evangelho que pode ter sido produzido na mesma época que o de Marcos, mas não preservado. Em um capítulo anterior, chamei atenção para o fato de que Mateus e Lucas tiraram muitas de suas histórias de Marcos, que utilizaram como fonte. Há em Mateus e Lucas muitas outras tradições que não são encontradas em Marcos. A maioria delas, mas não todas, são falas de Jesus, como, por exemplo, o Pai- Nosso e as bem-aventuranças (presentes em Mateus e Lucas, mas não em Marcos). Como os Evangelhos não poderiam ter tirado essas tradições de Marcos, onde as conseguiram? Há bons motivos para acreditar que Mateus não as tirou de Lucas, nem Lucas as recebeu de Mateus. Assim, desde o século XIX os estudiosos sustentam que ambos as conseguiram em uma outra fonte. Os estudiosos alemães que conceberam essa ideia chamaram essa outra fonte de Quelle, a palavra alemã para “fonte”. Essa “fonte” adicional desconhecida é chamada simplesmente de Q. [1]
Q, portanto, é a fonte do material presente em Mateus e Lucas, mas não em Marcos. Aparentemente, esse material é originário de um Evangelho perdido ao qual os dois autores do Evangelhos psoteriores tiveram acesso. Não sabemos tudo o que havia em Q (ou não havia em Q_, mas sempre que Mateus e Lucas concordam literalmente em uma história não presente em Marcos, acredita-se que ela seja originária de Q. Portanto, Marcos e Q são nossas fontes mais antigas. Mateus usou mais uma ou mais de uma fonte escrita ou oral para seu Evangelho, e nós as chamamos de fontes matianas, ou M. As fontes de material exclusivo de Lucas são chamadas de L. Portanto, antes dos Evangelhos de Mateus e Lucas havia quatro fontes disponíveis: Marcos, Q, M, e L(tanto M quanto L possivelmente são fontes múltiplas). Esses são nossos materiais mais antigos para reconstruir a vida de Jesus. [2]
2 – Quanto mais, melhor. Suponha que haja uma história sobre Jesus encontrada em apenas uma fonte; é possível que o ŕoprio autor dessa fonte tenha inventado a tradição. Mas e quando uma história é encontrada de forma independente em mais de uma fonte? Ela não pode ter sido inventada por nenhuma das fontes, já que são independentes; deve ser anterior a ambas. Portanto, histórias encontradas em muitas fontes independentes têm maior probabilidade de serem mais antigas, e possivelmente autênticas. (Observação: se a mesma história for encontrada em Mateus, Marcos e Lucas, essas não são três fontes para a história, mas uma fonte: Mateus e Lucas a receberam de Marcos.)
Por exemplo: tanto Mateus quanto Lucas indicam de modo independente que Jesus foi criado em Nazaré, mas suas histórias sobre como ele chegou lá diferem, de modo que uma é oriunda de M, e a outra, de L. Marcos informa a mesma coisa. Assim como João, que não usa nenhum dos Sinóticos coo fonte. Conclusão? Ela é confirmada independentemente: Jesus provavelmente veio de Nazaré. Outro exemplo: Jesus é associado a João Batista no início de Marcos, no começo de Q (tanto Mateus quanto Lucas preservam partes da proclamação de João que não aparecem em Marcos) e no começo de João. Conclusão? Jesus provavelmente está acssociado a João Batista no inicio de seu ministério.
3 – É melhor remar contra a corrente. Algo que vimos repetidamente é que foram criadas discrepâncias em nossos relatos sobre Jesus porque diferentes contadores de histórias e autores mudaram as tradições para fazer com que elas se adequassem melhor a seus próprios pontos de vista. Como podemos lidar com tradições sobre Jesus que claramente não se coadunam com os interesses cristãos, ou seja, não fortalecem os pontos de vista e as perspectivas das pessoas que contam as histórias? Tradições assim não teriam sido inventadas pelos contadores de histórias cristãos, portanto é muito provável que sejam históricamente precisas. Algumas vezes isso é confusamente chamado de “critério da dessemelhança”. Qualquer tradição sobre Jesus que seja diferente daquilo que os primeiros cristãos provavelmente queriam dizer sobre ele tem maior probabilidade de ser autêntica. Vamos considerar os dois exemplos anteriores. É possível entender porque os cristãos queriam dizer que Jesus vinha de Belém: era de lá que deveria vir o filho de Davi (Miqueias 5:2). Mas quem inventaria uma história em que o Salvador vinha de Nazaré, uma cidadezinha de que ninguém tinha ouvido falar? Essa tradição não fortalece nenhum interesse cristão. Ou então vejamos João Batista. Em Marcos, nosso relato mais antigo, João batiza Jesus. Por que os cristão iriam inventar isso? Lembre-se de que, de acordo com a tradição cristã inicial, uma pessoa espiritualmente superior batizava aquela espiritualmente inferir. Um cristão inventaria a ideia de que Jesus foi batizado por outra pessoa, sendo, portanto, inferior a ela? Além disso, João batizava “para perdoar os pecados” (Marcos 1:4). Alguém iria querer alegar que Jesus precisava ser perdoado por seus pecados? Parece altamente improvável. Conclusão? É provável que Jesus eralmente era associado a João Batista no início de seu ministério, e é provável que tenha sido batizado por ele.
4 – Tem de se encaixar no contexto. Como Jesus foi um judeu que viveu na Palestina do século I, qualquer tradição sobre ele tem de se encaixar em seu próprio contexto histórico para que seja plausível. Muitos de nossos Evangelhos posteriores – escritos nos éculos III e ou IV, em oturas regiões do mundo – dizem coisas que não fazem sentido no contexto dele. Elas podem ser eliminadas como historicamente implausíveis. Mas há implausibilidades até mesmo em nossos quatro Evangelhos canônicos. No Evangelho segundo João, capítulo 3, Jesus tem uma famosa conversa com Nicodemos, na qual diz: “Vós deveis nascer de novo.” A palavra grega traduzida como “de novo” na verdade tem dois significados: pode indicar apenas “uma segunda vez”, mas também “do alto”. Sempre que ela é empregada em outros momentos em João, significa “do alto” (João 19.11, 23). É o que Jesus parece querer dizer em João 3 quando conversa com Nicodemos: uma pessoa precisa nascer do alto para ter vida eterna no céu acima. Nicodemos, porém, entende errado e acha que Jesus se refere ao outro sentido da palavra, que ele tem de nascer uma segunda vez. “Como pode um homem nascer, sendo já velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer?”, pergunta ele, frustrado. Jesus o corrige: não está falando de um segundo nascimento físico, e sm de um nascimento celestial, do alto.
Essa conversa com Nicodemos se baseia no fato de que uma determinada palavra grega tem dois significados (um dublo sentido). Em o duplo sentido, a conversa não faz sentido. O problema é este: Jesus e esse líder judeu em Jerusalém não estariam falando em grego, mas em aramaico. Contudo, a palavra aramaica para “do alto” não significa também “segunda vez”. É um duplo sentido que existe apenas em grego. Por essa razão, essa conversa não pode ter acontecido – pelo menos não como é descrita no Evangelho segundo João.
Esses são, portanto, alguns dos critérios empregados pelos estudiosos para tratar das várias tradições sobre Jesus, especialmente quando encontradas nos Evangelhos do Novo Testamento. A aplicação atenta e religiosa desses critérios pode produzir resultados positivos. Nós provavelmente podemos saber algumas coisas sobre o Jesus histórico
1 – Ver Gálatas 4:4; Romanos 15:7; 1 Coríntios 9:5; Gálatas 1:19; 1 Corintios 15:5; 1 Corintios 11:22-25; 1 Corintios 7:10-11 e 1 Corintios 9:14.
2 – Para mais informações, ver meu New Testament: A historical introduction, capitulo 7.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O inferno não é arbitrariamente imposto aos condenados
Peter Kreeft
Alguns subtenderam que o inferno é imposto aos perdidos contra a vontade deles. Mas essa idéia seria contrária à razão fundamental da existência do inferno: nossa livre escolha e o respeito de Deus por ela.
Os condenados não se alegrarão no inferno, mas mesmo assim eles o escolhem, ao preferirem o egoismo, em vez do amor; o eu, em vez de Deus; o pecado, em vez do arrependimento [e do perdão divino]. Não pode haver céu sem amor doado. A coisa que os perdidos desejam - a felicidade nos seus próprios termos egoístas - é impossível até para Deus conceder. Ela não existe. Não pode existir.
Se o inferno é escolhido livremente pelos pecadores, então o problema see torna não a conciliação entre o inferno e o amor de Deus, mas a condição entre o inferno e a sanidade mental humana. Quem, em sã consciência, preferiria o inferno ao céu? Contudo, todos nós fazemos isso vez ou outra ao pecarmos, pois todo pecado reflete a nossa preferência pelo inferno.
Os céticos objetam dizendo que não é possível escolhermos livremente o inferno ao céu; só loucos fariam isso. Os cristãos respondem que isso é precisamente o que o pecado é: loucura. uma recusa deliberada do júbilo e da verdade.
Talvez o ensino mais chocante do cristianismo não seja o da doutrina do inferno, mas a doutrina do pecado, pois significa que a humanidade está espiritualmente insana [ao ponto de continuar em sua marcha para o inferno, sem atentar para a salvação em Cristo oferecida por Deus]
Alguns subtenderam que o inferno é imposto aos perdidos contra a vontade deles. Mas essa idéia seria contrária à razão fundamental da existência do inferno: nossa livre escolha e o respeito de Deus por ela.
Os condenados não se alegrarão no inferno, mas mesmo assim eles o escolhem, ao preferirem o egoismo, em vez do amor; o eu, em vez de Deus; o pecado, em vez do arrependimento [e do perdão divino]. Não pode haver céu sem amor doado. A coisa que os perdidos desejam - a felicidade nos seus próprios termos egoístas - é impossível até para Deus conceder. Ela não existe. Não pode existir.
Se o inferno é escolhido livremente pelos pecadores, então o problema see torna não a conciliação entre o inferno e o amor de Deus, mas a condição entre o inferno e a sanidade mental humana. Quem, em sã consciência, preferiria o inferno ao céu? Contudo, todos nós fazemos isso vez ou outra ao pecarmos, pois todo pecado reflete a nossa preferência pelo inferno.
Os céticos objetam dizendo que não é possível escolhermos livremente o inferno ao céu; só loucos fariam isso. Os cristãos respondem que isso é precisamente o que o pecado é: loucura. uma recusa deliberada do júbilo e da verdade.
Talvez o ensino mais chocante do cristianismo não seja o da doutrina do inferno, mas a doutrina do pecado, pois significa que a humanidade está espiritualmente insana [ao ponto de continuar em sua marcha para o inferno, sem atentar para a salvação em Cristo oferecida por Deus]
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Lutero: o exorcista fujão.
Num dia do mês de janeiro de 1544, muitas pessoas se reuniram em torno de uma jovem de dezoito anos, na sacristia da igreja paroquial de Wittenberg.
A jovem se encontrava sob o domínio do maligno e Lutero quis ajudá-la. Todos rezavam, porém o demônio não saía do corpo da infeliz.
Irritado, Lutero aplicou um vigoroso pontapé na moça e fugiu em direção à porta da sacristia, temendo a reação do diabo, a vingança do seu espírito nojento. De fato a jovem avançou, a fim de lhe infligir um castigo.
Lutero, naquela afobação, tentou abrir a porta, mas não conseguiu, a chave não se movia. Nervoso, agoniado, com o rabudo a uivar atrás de si, ele corria de um lado para o outro.
Pelas janelas também não podia escapulir, pois eram gradeadas. Então alguém passou um machado por sua vidraça quebrada e assim ocorreu a libertação do exorcista, graças ao arrombamento da porta.
Mais tarde, o suave diácono Forschell ouviu esta notícia: o pontapé de Lutero na jovem havia enxotado o diabo...
"Lutero e a Igreja do Diabo", de Fernando Jorge, p. 184, 185.
A jovem se encontrava sob o domínio do maligno e Lutero quis ajudá-la. Todos rezavam, porém o demônio não saía do corpo da infeliz.
Irritado, Lutero aplicou um vigoroso pontapé na moça e fugiu em direção à porta da sacristia, temendo a reação do diabo, a vingança do seu espírito nojento. De fato a jovem avançou, a fim de lhe infligir um castigo.
Lutero, naquela afobação, tentou abrir a porta, mas não conseguiu, a chave não se movia. Nervoso, agoniado, com o rabudo a uivar atrás de si, ele corria de um lado para o outro.
Pelas janelas também não podia escapulir, pois eram gradeadas. Então alguém passou um machado por sua vidraça quebrada e assim ocorreu a libertação do exorcista, graças ao arrombamento da porta.
Mais tarde, o suave diácono Forschell ouviu esta notícia: o pontapé de Lutero na jovem havia enxotado o diabo...
"Lutero e a Igreja do Diabo", de Fernando Jorge, p. 184, 185.
domingo, 21 de novembro de 2010
Inerrância Bíblica, alguns comentários sobre.
O que vou colocar aqui é o que postei como comentário em outro blog, mas achei interessante que os leitores soubessem do que tenho refletido referente à inerrância bíblica e sua inspiração.
Não faz muito tempo que deixei de defender a inerrância bíblica da forma que os fundamentalistas propõem. O que não quer dizer que creio que a Bíblia é cheia desses erros, principalmente os apontados no manual de contradições bíblicas do Geisler. Uma coisa que me chama atenção nessa questão é que, para estes, a inerrância plena se dá somente nos autógrafos. Mas se não os possuímos, como é que podemos dizer que os autógrafos são inerrantes da maneira que desejam apresentar?
Eu partilho do pensamento de que Jesus é a Palavra no sentido estrito e que as Escrituras são a Palavra, pois elas refletem a Jesus Cristo. Mas ainda isso me faz indagar: se Jesus não erra e as escrituras são um reflexo dessa Palavra, então como elas não seriam inerrantes da mesma forma que Jesus é inerrante? Creio que depende de como vemos a Bíblia como esse reflexo e como vemos Jesus como inerrante. Por exemplo, se ela é um reflexo de Jesus, então ela é humana e espiritual (sua mensagem espiritual). É claro que como cristão acredito que Jesus não errou em sua mensagem espiritual, portanto a Bíblia também não erra na mensagem de salvação para a humanidade.
A questão é se “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, ou como chamo aqui, de "escrita secular". Mas se Jesus errou de alguma forma como homem, no sentido de que possuía as crenças de sua época a respeito do mundo secular, então a Bíblia poderia sim ter errado nessas questões.
Por exemplo, Jesus falou que o menor grão é o grão de mostarda. É claro que Jesus estava a falar do menor grão em que os palestinos possivelmente conheciam. Será que Jesus também não estava errado nisso, de acordo com o conhecimento secular limitado? Esse é um exemplo de conhecimento secular limitado que todo ser humano possui.
Sinceramente, até agora não vi nenhum problema para pensar que Jesus não poderia ser limitado dessa forma, afinal, Ele é totalmente Deus e totalmente homem, isso significa que assim como um palestino no primeiro século [totalmente homem], Jesus era limitado nessas questões seculares assim como nós que somos totalmente humanos. Sem pecado, porém ainda limitado nas questões seculares como qualquer ser humano. Veja que não estou a falar que Jesus foi limitado na questão de sua mensagem que Ele disse ter sido revelada pelo Pai.
Então, se a Bíblia reflete essa Palavra, ela deveria refletir Jesus até mesmo em suas limitações. O que faria da inerrância não algo de que “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, mas que a Bíblia contém a mensagem verdadeira de Jesus revelada aos homens escrita por pessoas com as limitações de conhecimento secular humano.
Claro que devemos fazer diferenciação de Inspiração Bíblica com o de Inerrância, mas a questão da inerrância vai depender do que temos por inspiração.
Como até o momento não vi nem mesmo nas próprias escrituras a exposição do conceito de inspiração que os fundamentalistas defendem, nem mesmo argumentos lógicos apropriados, penso que nos casos em que mostrei não é contraditório crer na inspiração e em erros bíblicos, na verdade, pelos motivos apresentados, os tipos de erros e características humanas já eram de se esperar na Bíblia sem afetar também sua característica espiritual, esta sim inerrante.
Assim, pelas palavras escritas pelos homens inspirados por Deus, a Palavra de Deus vem à tona, da mesma forma que a Palavra de Deus veio à tona através da humanidade de Jesus.
Não faz muito tempo que deixei de defender a inerrância bíblica da forma que os fundamentalistas propõem. O que não quer dizer que creio que a Bíblia é cheia desses erros, principalmente os apontados no manual de contradições bíblicas do Geisler. Uma coisa que me chama atenção nessa questão é que, para estes, a inerrância plena se dá somente nos autógrafos. Mas se não os possuímos, como é que podemos dizer que os autógrafos são inerrantes da maneira que desejam apresentar?
Eu partilho do pensamento de que Jesus é a Palavra no sentido estrito e que as Escrituras são a Palavra, pois elas refletem a Jesus Cristo. Mas ainda isso me faz indagar: se Jesus não erra e as escrituras são um reflexo dessa Palavra, então como elas não seriam inerrantes da mesma forma que Jesus é inerrante? Creio que depende de como vemos a Bíblia como esse reflexo e como vemos Jesus como inerrante. Por exemplo, se ela é um reflexo de Jesus, então ela é humana e espiritual (sua mensagem espiritual). É claro que como cristão acredito que Jesus não errou em sua mensagem espiritual, portanto a Bíblia também não erra na mensagem de salvação para a humanidade.
A questão é se “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, ou como chamo aqui, de "escrita secular". Mas se Jesus errou de alguma forma como homem, no sentido de que possuía as crenças de sua época a respeito do mundo secular, então a Bíblia poderia sim ter errado nessas questões.
Por exemplo, Jesus falou que o menor grão é o grão de mostarda. É claro que Jesus estava a falar do menor grão em que os palestinos possivelmente conheciam. Será que Jesus também não estava errado nisso, de acordo com o conhecimento secular limitado? Esse é um exemplo de conhecimento secular limitado que todo ser humano possui.
Sinceramente, até agora não vi nenhum problema para pensar que Jesus não poderia ser limitado dessa forma, afinal, Ele é totalmente Deus e totalmente homem, isso significa que assim como um palestino no primeiro século [totalmente homem], Jesus era limitado nessas questões seculares assim como nós que somos totalmente humanos. Sem pecado, porém ainda limitado nas questões seculares como qualquer ser humano. Veja que não estou a falar que Jesus foi limitado na questão de sua mensagem que Ele disse ter sido revelada pelo Pai.
Então, se a Bíblia reflete essa Palavra, ela deveria refletir Jesus até mesmo em suas limitações. O que faria da inerrância não algo de que “a Bíblia não possui erro algum em sentido nenhum”, mas que a Bíblia contém a mensagem verdadeira de Jesus revelada aos homens escrita por pessoas com as limitações de conhecimento secular humano.
Claro que devemos fazer diferenciação de Inspiração Bíblica com o de Inerrância, mas a questão da inerrância vai depender do que temos por inspiração.
Como até o momento não vi nem mesmo nas próprias escrituras a exposição do conceito de inspiração que os fundamentalistas defendem, nem mesmo argumentos lógicos apropriados, penso que nos casos em que mostrei não é contraditório crer na inspiração e em erros bíblicos, na verdade, pelos motivos apresentados, os tipos de erros e características humanas já eram de se esperar na Bíblia sem afetar também sua característica espiritual, esta sim inerrante.
Assim, pelas palavras escritas pelos homens inspirados por Deus, a Palavra de Deus vem à tona, da mesma forma que a Palavra de Deus veio à tona através da humanidade de Jesus.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Ficção científica em torno a Jesus
José Antonio Pagola
A margem de todo este trabalho de investigação científica foi aparecendo durante estes anos um número incontável de publicações, escritos e romances de ficção científica com os dados aceitos pelos peritos e exegetas.
Em alguns casos trata-se de obras vinculadas a correntes esotéricas e gnósticas que ganharam nova força no marco da chamada “Nova Era” (New Age). Nelas apresentam-se diversas imagens: Jesus segundo o esoterismo tradicional; Jesus segundo a religiosidade gnóstica; Jesus segundo o “segredo” dos templários; Jesus segundo a Sociedade teosófica; Jesus segundo a antroposofia de R. Steiner; A vida mística de Jesus, de H. S. Lewis, segundo a ordem dos Rosa-cruzes (Amorc); Jesus e o movimento esotérico do Santo Graal. Jesus segundo a Fraternidade Branca Universalç Jesus e os extraterrestres... A posição dos investigadores diante deste tipo de literatura é unânime: a imagem de Jesus exposta nestas obras nada tem a ver com o Jesus que viveu na Galiléia no inicio do século I.
Por outro lado, publicam-se numerosas obras preparadas em poucos meses por autores que não se dedicam à investigação histórica de Jesus, mas provêm do campo do jornalismo, da literatura fantástica, da história oculta... Junto com estas obras sobre Jesus publicam também obras sobre óvnis, segredos das pirâmides do Egito, mistérios da história etc. São livros que trazem títulos como os seguintes: Jesus viveu e morreu na Chachemira, a história secreta de Jesus; Jesus, o homem sem evangelhos; Jesus e Maria Madalena; Jesus, esse grande desconhecido. Sem entrar na análise crítica de cada uma destas obras, de quase todas pode-se fazer as seguintes observações:
- Estas obras são escritas por autores que não levam em consideração a investigação moderna: seus retratos arbitrários de Jesus não se baseiam absolutamente nos dados dos peritos, mas antes os contradizem. É impressionante observar com que audácia escrevem amparando-se numa frívola referência geral à “investigação recente” ou aos últimos dados dos cientistas, sem poder trazer o nome de nenhum investigador sério sobre a matéria.
- Os leitores não iniciados não podem nem sequer suspeitar o uso arbitrário que se faz constantemente das fontes, sem tomar em consideração nenhum critério de historicidade. Por exemplo, Dan Brown, em seu romance O Código da Vinci, para provar que Maria Madalena estava casada com Jesus, baseia-se no Evangelho [apócrifo] de Filipe, afirmando que este escrito é anterior e mais original e seguro do que os evangelhos canônicos; o leitor não iniciado ignora que um perito de tanto prestígio como o alemão Hans-Josef Klauck conclui seu estudo sobre o evangelho de Filipe dizendo que “ninguém tenta datá-lo antes do século II”.
- Nestas obras fazem-se afirmações provocativas contra aquilo que afirmam os investigadores de primeira mão. Afirma-se que “Jesus foi essênio”; os especialistas concluem que a atuação e a mensagem de Jesus teriam encontrado em Qumran uma rejeição frontal. Afirma-se que o matriônio de Jesus com Maria Madalena é “o segredo mais importante e mais bem guardado de todos os tempos”; nenhum investigador competente podia tê-lo descoberto antes de chegar Dan Brown. Diz-se que “Judas foi assassinado por Pedro” (Michel Benoit); nenhum especialista o havia suspeitado.
- Em escritos deste gênero selecionam-se episódios de importância absolutamente secundária apenas por seu potencial sensacionalista (os amores de Jesus e Maria Madalena, a atuação de Judas, os “ensinamentos secretos” de Jesus...). Ao mesmo tempo, ignora-se o que historicamente constitui o núcleo do ensinamento de Jesus e de sua atuação: sua mensagem sobre Deus, sua defesa dos pobres, sua crítica aos poderosos, seu chamado à conversão ou seu projeto de um mundo mais justo para todos.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Salmo 23 - Iavé não me faltará!
“IAVÉ, MEU PASTOR, NUNCA ME FALTARÁ”
Esta é uma tradução que provavelmente mais se aproxima do original em hebraico.
Arrisquei interpretar este salmo especial da maneira mais pessoal possivel. Tomara abençoe voce.
“O Senhor é o seu pastor e por isto, nunca, ELE lhe faltará, pois, você O tem e Ele o/a tem. E, se ELE nunca lhe faltará, do que mais você precisa ou tem falta??
Ele faz você andar como que por verdes pastos e Ele é a brisa que refrigera a sua alma e te faz repousar em segurança ao som de águas tranqüilas.
Ele te toma pela mão e te guia por caminhos retos e justos.
É possível que você ande por caminhos que pareçam caminhos de morte, mas, o Senhor te sustenta e você toma o rumo da vida.
Não poucas vezes você se verá diante de inimigos, mas, o Senhor, antes lhe alimentará e lhe servirá um cálice de revigoramento.
E daqui até o ultimo dia de sua vida o Senhor te perseguirá com bondade e misericórdia. Elas te encontrarão e na passagem te fará companhia por toda eternidade.”
Esta é uma tradução que provavelmente mais se aproxima do original em hebraico.
Arrisquei interpretar este salmo especial da maneira mais pessoal possivel. Tomara abençoe voce.
“O Senhor é o seu pastor e por isto, nunca, ELE lhe faltará, pois, você O tem e Ele o/a tem. E, se ELE nunca lhe faltará, do que mais você precisa ou tem falta??
Ele faz você andar como que por verdes pastos e Ele é a brisa que refrigera a sua alma e te faz repousar em segurança ao som de águas tranqüilas.
Ele te toma pela mão e te guia por caminhos retos e justos.
É possível que você ande por caminhos que pareçam caminhos de morte, mas, o Senhor te sustenta e você toma o rumo da vida.
Não poucas vezes você se verá diante de inimigos, mas, o Senhor, antes lhe alimentará e lhe servirá um cálice de revigoramento.
E daqui até o ultimo dia de sua vida o Senhor te perseguirá com bondade e misericórdia. Elas te encontrarão e na passagem te fará companhia por toda eternidade.”
Carlos Bregantim
O que é a Crítica Textual?
Wilson Paroshi
A ciência que procura reestabelecer o texto original de um trabalho escrito cujo autógrafo [1] não mais exista é denominada crítica textual. Conhecida nos meios seculares por ecdóica [2], sua aplicação não se restringe ao NT, sendo extensível a qualquer peça de literatura cujo texto original tenha sido eventualmente alterado no processo de cópia e recópia, sobretudo antes da invenção da imprensa no século XV. Por sinal, os princípios metodológicos são basicamente os mesmos, exceto, obviamente, aqueles relacionados a características e circunstâncias particulares, se bem que tais exceções muitas vezes podem assumir um papel determinante. [3]
Quanto ao material com que trabalham os críticos textuais, este inclui, no caso específico do NT, não somente as cópias manuscritas dos livros apostólicos na língua original, o grego, mas também antigas versões, bem como citações de passagens bíblicas de antigos escritores. A prática da crítica textual, portanto, exige um conhecimento especializado dos diferentes manuscritos [4] e das respesctivas famílias textuais, conhecimento da paleografia grega e do cânon crítico [5], além do vocabulário e da teologia do autor cujo livro se examina. Só assimserão exequíveis a reconstituição da história do texto sagrado da forma mais completa possível e a consequente edição de um texto que busque refletir com exatidão os termos do original.
Visto ser necessário o estabelecimento de um texto confiável antes de passar a outros estudos, a crítica textual costumava a ser chamada de baixa crítica, como que a representar os níveis primários na estrutura do estudo crítico, em contraposição à alta crítica [6], que estuda os problemas de composição, incluindo-se o autor, a data, o lugar e as circunstâncias em que foi escrito o material em questão. Es expressões “baixa crítica” e “alta crítica”, porém, têm dado margem a objeções por parecerem indicar diferentes graus de importância. Em vista disso, em tempos recentes têm sido substituídas respectivamente pelas expressões “crítica textual” e “crítica histórica”, que melhor descrevem a natureza e os objetivos de ambas as ciências. [7].
Talvez convenha destacar ainda que a crítica bíblica, como tal, incluindo-se a textual e mesmo a histórica, não significa propriamente essa ou aquela opinião, nem representa esse ou aquele grupo de opiniões formuladas em relação à Palavra de Deus. Significa, sim, um temperamento, atitude ou disposição intelectual que se move na direção da verdade desconhecida, mas conhecível, com respeito e devoção e livre de preconceitos ou pressuposições estranhas às Escrituras Sagradas. Isso não significa, todavia, que tenha sido sempre assim. Grandes abusos já foram cometidos por muitos dos que se engajam nesse tipo de trabalho, por estarem repletos de ideias preconcebidas contra o cristianismo tradicional e seu conteúdo teológico. A crítica bíblica, porém, quando devidamente aplicada, está a serviço da fé, com o objetivo de descobrir, tanto quanto possível, seus fundamentos racionais e verdadeiros e assim fazê-los passar de “presunções religiosas” a “certezas científicas”. [8]
Definição do problema
Quando lemos hoje o NT, será que de fato estamos lendo aquilo que Lucas, João, Paulo e os outros autores escreveram tantos séculos atrás? Não teria a ordem de Cristo em Apocalipse 22.18 e 19, proibindo qualquer alteração no texto desse livro, sido contrariada com relação tanto ao próprio Apocalipse quanto aos demais livros do NT? Tais perguntas não se destinam meramente a levantar dúvidas quanto aos documentos em que baseamos a fé, mas a chamar-nos a atenção sobretudo para o tipo e o tamanho do problema com que lida a crítica textual. E tal problema torna-se ainda mais evidente quando nos lembramos, em primeiro lugar, de que todos os autógrafos do NT desapareceram por completo e mais nenhuma colação [9] com eles pode ser possível.
De fato, seria extraordinário poder ir a uma biblioteca ou museu e ver, por exemplo, uma das cartas de Paulo tal como a ditou ou mesmo escreveu. Seria por demais emocionante encontrar o autógrafo de Gálatas e ler na última página: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6.11; cf. Rm 16.22; 1Co 16.21; Cl 4.18), ou ver ainda como era a assinatura com que o apóstolo terminava suas epístolas (veja 2Ts 3.17). Mas que emocionante, porém, o acesso aos originais do NT serviria principalmente para colocar a autenticidade dos escritos sagrados do cristianismo acima de toda e qualquer suspeita. Mas isso não é possível, e as oportunidades de ainda vir a acontecer, acredito serem reduzidas ao mínimo.
A razão para a perda prematura dos autógrafos neotestamentários certamente foi a pouca durabilidade do material em que, conforme o uso da época, escreviam-se livros e cartas: o papiro, o qual não era mais durável que nosso moderno papel. Muito provavelmente, os mss. Originais do NT foram lidos e relidos pelos cristãos apostólicos até se desfazerem por completo e literalmente caírem aos pedaços. Seja como for, perderam-se todos. Providencialmente, porém, antes que se tornassem ilegíveis ou desaparecessem, foram copiados. Isso leva-nos ao segundo fator que evidencia a seriedade do problema em questão: os erros introduzidos no texto mediante o processo de cópias manuais.
As cópias dos autógrafos, por sua vez, converteram-se em originais no que diz respeito a outras cópias, e assim sucessivamente. Durante esse processo de cópias e recópias manuais, que se estendeu por 14 séculos até a invenção da imprensa, inevitavelmente muitos e variados erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade humana. E, à medida que aumentavam as cópias, mais se multiplicavam as divergência entre elas, pois cada escriba acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo escriba anterior. E essas variantes textuais [10] têm suscitado sério problema para os estudiosos do NT – dando margem para que os céticos questionem sua pureza textual: “Qual a forma correta do texto, ou que dizia exatamente o original?”. A essa pergunta é que tratam de responder os críticos textuais. Seu objetivo é examinar criticamente a tradição manuscrita, avaliar as variantes e reconstruir o texto que possua a maior soma de probabilidades de ser o original ou a forma primitiva do autógrafo.
Esse oobjetivo, por si só, já traduz tuda a importância da crítica textual, pois, se os mss. Apresentam divergências e nós não podemos recorrer aos originais para verificar a forma correta, então a credibilidade do texto sagrado que chegou até nós aparentemente estaria por demais ameaçada. Consequentemente, o próprio corpo doutrinário e ético do cristianismo estaria ameaçado, além da própria historicidade de seus documentos originais, o que seria ainda pior. Sir. Edwiyn Hoskyns e Noel Davey colocaram a questão da seguinte forma:
A crítica textual, portanto, lida com um problema básico e de tremendas implicações. Dela dependem todas as demais ciências bíblicas que corporalizam a religião cristã, pois lana os fundamentos sobre os quais toda e qualquer investigação deva ser construída. Sem um texto grego fidedigno, não mais próximo do original quanto possível, não há como se fazer confiável crítica histórica ou literária, exegese, teologia, nem mesmo sermão, para não falar em tradução. Consiste num “pré-requisito para todos os outros trabalhos bíblicos e teológicos”. [12]
Dificuldades Técnicas
O problema do qual se ocupa a crítica textual do NT aumenta consideravelmente quando se verifica a dimensão dos três principais obstáculos que necessitam ser transpostos para a restauração do texto apostólico, o que, à primeira vista, afigura-se um esforço completamente inútil. Uma análise mais criteriosa, porém, revelará que, se por um lado tais obstáculos dificultam os trabalhos textuais, por outro, proporcionam maior solidez e confiabilidade às conclusões finais.
O primeiro deles consiste na distância entre as cópias mais completas e os autógrafos. O NT estava completo, ou essenciamente completo, por volta do ano 100, sendo que a maioria dos livros já existia cerca de 20 a 50 anos antes dessa data, e, de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes remontam aproximadamente aos meados do século IV. A distância em relação aos autógrafos, portanto, chega a perto de três séculos, o que, se por um lado pode consistir num problema, por outro faz com que o NT seja a obra mais bem documentada da antiguidade.
Os clássicos tanto gregos quanto latinos, cuja autenticidade quase ninguém põe em dúvida, levam grande desvantagem quanto ao tempo que separa os mais antigos mss. De seus originais em relação aos escritos neotestamentários. A cópia mais antiga que existe de Eurípedes foi escrita 1.600 anos depois da morte do poeta. No caso de Sófocles, o intervalo é de 1.400 anos, o mesmo acontecendo com Ésquilo e Tucídides. Quanto a Platão, o intervalo não é muito menor: encontra-se ao redor dos 1.300 anos. Entre os latinos, embora levem vantagem sobre os gregos, a situação não é muito diferente. Enquanto Catulo o intervalo é de 1.600 anos e em Lucrécio de mil anos, Terêncio e Lívio reduzem-se para 700 e 500 anos respectivamente. Só Virgílio aproxima-se do NT, pois há um ms. Completo de suas obras que pertence ao século IV, sendo que o autor faleceu no ano 8 a.C.
Quão diferente, porém, é a situação do NT nesse aspecto. Além dos famosos mss. Do século IV, escritos em pergaminho, existem ainda consideráveis fragmentos em papiros de praticamente todos os livros do NT, que nos fazem recuar até o século III, ou, como em alguns casos, até meados do século II. Enfim, embora dispondo apenas de cópias posteriores, podemos citar o veredicto pronunciado por Sir Frederic G. Kenyon, destacado estudioso da primeira parte deste século e grande autoridade em mss. Antigos:
O segundo obstáculo é o grande número de documentos disponíveis. Existem atualmente cerca de 5.500 mss. Gregos completos ou fragmentários do NT, sem falar nos quase 13.000 mss. Das versões e nos milhares de citações dos antigos Pais da Igreja. Os problemas e dificuldades da crítica textual, portanto, surgem mais por uma superabundância de evidências do que propriamente por uma insuficiência delas. Todavia, novamente a limitação se torna em vantagem, pois, apesar de a multiplicidade de mss. Oferecer ensejo para os mais variados erros de transcrição, oferece também muito mais elementos de comparação. Frederic F. Bruce declarou:
Há ainda outro fator a ser observado. O elevado número de documentos existentes faz com que o NT tenha muito mais apoio textual que qualquer outro livro dos tempos antigos, seja em se tratando das obras de Homero, dos autores trágicos áticos, de Platão, de Cícero ou de César. A situação normal no que diz respeito às grandes obras da literatura clássica é que nosso conhecimento do textodelas depende de poucos e recentes mss., de maneira que estamos muito mais bem equipados para observar as etapas primitivas da história textual do NT que de qualquer outra obra da literatura antiga.
O terceiro e maior obstáculo é a elevada cifra de variantes existentes. A consequência natural da multiplicação dos mss. Do NT pelo espaço de 1.400 anos foi o surgimento de incontáveis variações textuais. À primeira vista, os números são assutadores. Até o momento, já foram calculadas cerca de 250.000 variantes, [15] ou seja, mais variantes entre todos os mss. Que as palavras que o NT contém. Só um estudo de 150 mss. Gregos do evangelho de Lucas revelou mais de 30.000 textos divergentes. [16] É opinião unânime entre os críticos textuais que não possuímos nenhum ms. Que tenha preservado sem nenhuma variação o texto original dos 27 livros do NT, nem sequer de apenas um deles. [17] Merril M. Parvis, porém, vai mais longe, afirmando que “não há uma só frase no NT na qual a tradição manuscrita seja totalmente uniforme”. [18]
Apesar das enormes dificuldades advindas desse fato, devemos notar que quase a totalidade das variantes diz respeito a questões de pouca ou nenhuma importância. São variações na ordem relativa de palavras numa frase, no uso de diferentes preposições, conjunções e partículas, nas preposições que acompanham determinados verbos ou em simples modificações de natureza gramatical, muitas das quais até nem poderiam ser representadas numa tradução portuguesa. Em outras palavras, “o número de variantes que se revestem de importância, especialmente no que diz respeito à doutrina, é assaz reduzido”. [19]
Se os nímeros são assustadores, essa declaração é, no mínimo confortadora, e sua veracidade pode ser atestada mediante o exame de qualquer aparato crítico [20] de uma edição técnica do NT grego. Além disso, há mais de um século duas das maiores autoridades no assunto, B. F. Westcott e F. J. ª Hort, já afirmavam que apenas a milésima parte do texto do NT ainda não estava criticamente assegurada. [21] E, mais recentemente, Bruce destacou que as poquissimas variantes que subsistem passíveis de certa dúvida não afetam “nenhum ponto importante, seja em matéria de fato histórico, seja em questão de fé e prática” [22].
1. Autógrafo: termo técnico que designa o manuscrito original de uma obra.
2. O temro “ecdótica” foi introduzido na ciência literária por D. Henri Quentin, em sua obra Essais de Critique Textuelle: Ecdotique, publicada em Paris em 1926.
3. Veja Kurt & Barbara ALAND, The texto of the New Testament, p. 34.
4. A partir de agora serão usadas as abreviaturas ms. E mss. respectivamente para “manuscrito” e “manuscritos”.
5. Cânon crítico: certos critérios científicos estabelecidos pelos críticos textuais para propiciar uma escolha inteligente entre dois ou mais textos divergentes.
6. A expressão “alta crítica” foi pela primeira vez aplicada à literatura bíblica por J. G. Eichhorn, no prefácio da segunda edição de sua obra Einleitung in das Alte Testament (1787): “Tenho sido obrigado a dedicar a maior parte de meus labores num campo até o momento inteirament eesquecido: a investigação da constituição interior de cada livro do AT mediante a ajuda da crítica mais alta – nome novo para os não-humanistas”.
7. Veja George Eldon LADD, The New Testament and criticism, p. 55.
8. H. E. DANA, El Nuevo Testamento ante la crítica, p. 10.
9. Colação: confronto da cópia de um ms. Com o original ou outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para a escolha do texto exato.
10. Variantes: assim chamadas as diferentes formas conhecidas do mesmo texto, conforme encontradas nos diversos mss.
11. The riddle of the New Testament, p. 35.
12. J. Harold GREENLEE, Introduction to New Testament textual criticism, p. 17.
13. The Bible and archaeology, p. 288.
14. The New Testament documents, p. 19.
15. Heinrich ZIMMERMANN, Los métodos histórico-críticos em el Nuevo Testamento, p. 21.
16. M. M. PARVIS, The interpreter's dictionary of the Bible, p. 595.
17. Alfred WIKenhauser, Introdución al Nuevo Testamento, p, 73.
18. Op. Cit., p. 595.
19. B. P. BITTENCOURT, O Novo Testamento: Canôn, língua, texto, p. 74.
20. Aparato crítico: conjunto de sinais e termos técnicos destacando as variantes do texto bíblico e seus respectivos testemunhos.
21. The New Testament in the original Greek, p. 545.
22. Op. Cit., p. 20.
A ciência que procura reestabelecer o texto original de um trabalho escrito cujo autógrafo [1] não mais exista é denominada crítica textual. Conhecida nos meios seculares por ecdóica [2], sua aplicação não se restringe ao NT, sendo extensível a qualquer peça de literatura cujo texto original tenha sido eventualmente alterado no processo de cópia e recópia, sobretudo antes da invenção da imprensa no século XV. Por sinal, os princípios metodológicos são basicamente os mesmos, exceto, obviamente, aqueles relacionados a características e circunstâncias particulares, se bem que tais exceções muitas vezes podem assumir um papel determinante. [3]
Quanto ao material com que trabalham os críticos textuais, este inclui, no caso específico do NT, não somente as cópias manuscritas dos livros apostólicos na língua original, o grego, mas também antigas versões, bem como citações de passagens bíblicas de antigos escritores. A prática da crítica textual, portanto, exige um conhecimento especializado dos diferentes manuscritos [4] e das respesctivas famílias textuais, conhecimento da paleografia grega e do cânon crítico [5], além do vocabulário e da teologia do autor cujo livro se examina. Só assimserão exequíveis a reconstituição da história do texto sagrado da forma mais completa possível e a consequente edição de um texto que busque refletir com exatidão os termos do original.
Visto ser necessário o estabelecimento de um texto confiável antes de passar a outros estudos, a crítica textual costumava a ser chamada de baixa crítica, como que a representar os níveis primários na estrutura do estudo crítico, em contraposição à alta crítica [6], que estuda os problemas de composição, incluindo-se o autor, a data, o lugar e as circunstâncias em que foi escrito o material em questão. Es expressões “baixa crítica” e “alta crítica”, porém, têm dado margem a objeções por parecerem indicar diferentes graus de importância. Em vista disso, em tempos recentes têm sido substituídas respectivamente pelas expressões “crítica textual” e “crítica histórica”, que melhor descrevem a natureza e os objetivos de ambas as ciências. [7].
Talvez convenha destacar ainda que a crítica bíblica, como tal, incluindo-se a textual e mesmo a histórica, não significa propriamente essa ou aquela opinião, nem representa esse ou aquele grupo de opiniões formuladas em relação à Palavra de Deus. Significa, sim, um temperamento, atitude ou disposição intelectual que se move na direção da verdade desconhecida, mas conhecível, com respeito e devoção e livre de preconceitos ou pressuposições estranhas às Escrituras Sagradas. Isso não significa, todavia, que tenha sido sempre assim. Grandes abusos já foram cometidos por muitos dos que se engajam nesse tipo de trabalho, por estarem repletos de ideias preconcebidas contra o cristianismo tradicional e seu conteúdo teológico. A crítica bíblica, porém, quando devidamente aplicada, está a serviço da fé, com o objetivo de descobrir, tanto quanto possível, seus fundamentos racionais e verdadeiros e assim fazê-los passar de “presunções religiosas” a “certezas científicas”. [8]
Definição do problema
Quando lemos hoje o NT, será que de fato estamos lendo aquilo que Lucas, João, Paulo e os outros autores escreveram tantos séculos atrás? Não teria a ordem de Cristo em Apocalipse 22.18 e 19, proibindo qualquer alteração no texto desse livro, sido contrariada com relação tanto ao próprio Apocalipse quanto aos demais livros do NT? Tais perguntas não se destinam meramente a levantar dúvidas quanto aos documentos em que baseamos a fé, mas a chamar-nos a atenção sobretudo para o tipo e o tamanho do problema com que lida a crítica textual. E tal problema torna-se ainda mais evidente quando nos lembramos, em primeiro lugar, de que todos os autógrafos do NT desapareceram por completo e mais nenhuma colação [9] com eles pode ser possível.
De fato, seria extraordinário poder ir a uma biblioteca ou museu e ver, por exemplo, uma das cartas de Paulo tal como a ditou ou mesmo escreveu. Seria por demais emocionante encontrar o autógrafo de Gálatas e ler na última página: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6.11; cf. Rm 16.22; 1Co 16.21; Cl 4.18), ou ver ainda como era a assinatura com que o apóstolo terminava suas epístolas (veja 2Ts 3.17). Mas que emocionante, porém, o acesso aos originais do NT serviria principalmente para colocar a autenticidade dos escritos sagrados do cristianismo acima de toda e qualquer suspeita. Mas isso não é possível, e as oportunidades de ainda vir a acontecer, acredito serem reduzidas ao mínimo.
A razão para a perda prematura dos autógrafos neotestamentários certamente foi a pouca durabilidade do material em que, conforme o uso da época, escreviam-se livros e cartas: o papiro, o qual não era mais durável que nosso moderno papel. Muito provavelmente, os mss. Originais do NT foram lidos e relidos pelos cristãos apostólicos até se desfazerem por completo e literalmente caírem aos pedaços. Seja como for, perderam-se todos. Providencialmente, porém, antes que se tornassem ilegíveis ou desaparecessem, foram copiados. Isso leva-nos ao segundo fator que evidencia a seriedade do problema em questão: os erros introduzidos no texto mediante o processo de cópias manuais.
As cópias dos autógrafos, por sua vez, converteram-se em originais no que diz respeito a outras cópias, e assim sucessivamente. Durante esse processo de cópias e recópias manuais, que se estendeu por 14 séculos até a invenção da imprensa, inevitavelmente muitos e variados erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade humana. E, à medida que aumentavam as cópias, mais se multiplicavam as divergência entre elas, pois cada escriba acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo escriba anterior. E essas variantes textuais [10] têm suscitado sério problema para os estudiosos do NT – dando margem para que os céticos questionem sua pureza textual: “Qual a forma correta do texto, ou que dizia exatamente o original?”. A essa pergunta é que tratam de responder os críticos textuais. Seu objetivo é examinar criticamente a tradição manuscrita, avaliar as variantes e reconstruir o texto que possua a maior soma de probabilidades de ser o original ou a forma primitiva do autógrafo.
Esse oobjetivo, por si só, já traduz tuda a importância da crítica textual, pois, se os mss. Apresentam divergências e nós não podemos recorrer aos originais para verificar a forma correta, então a credibilidade do texto sagrado que chegou até nós aparentemente estaria por demais ameaçada. Consequentemente, o próprio corpo doutrinário e ético do cristianismo estaria ameaçado, além da própria historicidade de seus documentos originais, o que seria ainda pior. Sir. Edwiyn Hoskyns e Noel Davey colocaram a questão da seguinte forma:
Se o exame do significado de importantes palavras gregas que aparecem muitas vezes nos documentos do NT suscita grave problema histórico, visto que apontam para um acontecimento histórico particular na Palestina; se não pode haver uma compreensão do NT à parte da possibilidade de delinear o significado dessa história particular, pelo menos em seus traços mais gerais; e, além disso, se essa história deve ser reconstruiída a partir dos documentos do NT, uma vez que não dispomos de outras fontes de informação: torna-se evidente que nenhuma reconstrução da história é possível a menos que o historiador crítico possa ter razoavel confiança de que o texto do NT não sofreu alterações sérias durante os 14 séculos em que foi copiado por escribas. Não se pode empreender um sério trabalho de investigação histórica tendo por base textos suspeitos de extrema corrupção. [11]
A crítica textual, portanto, lida com um problema básico e de tremendas implicações. Dela dependem todas as demais ciências bíblicas que corporalizam a religião cristã, pois lana os fundamentos sobre os quais toda e qualquer investigação deva ser construída. Sem um texto grego fidedigno, não mais próximo do original quanto possível, não há como se fazer confiável crítica histórica ou literária, exegese, teologia, nem mesmo sermão, para não falar em tradução. Consiste num “pré-requisito para todos os outros trabalhos bíblicos e teológicos”. [12]
Dificuldades Técnicas
O problema do qual se ocupa a crítica textual do NT aumenta consideravelmente quando se verifica a dimensão dos três principais obstáculos que necessitam ser transpostos para a restauração do texto apostólico, o que, à primeira vista, afigura-se um esforço completamente inútil. Uma análise mais criteriosa, porém, revelará que, se por um lado tais obstáculos dificultam os trabalhos textuais, por outro, proporcionam maior solidez e confiabilidade às conclusões finais.
O primeiro deles consiste na distância entre as cópias mais completas e os autógrafos. O NT estava completo, ou essenciamente completo, por volta do ano 100, sendo que a maioria dos livros já existia cerca de 20 a 50 anos antes dessa data, e, de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes remontam aproximadamente aos meados do século IV. A distância em relação aos autógrafos, portanto, chega a perto de três séculos, o que, se por um lado pode consistir num problema, por outro faz com que o NT seja a obra mais bem documentada da antiguidade.
Os clássicos tanto gregos quanto latinos, cuja autenticidade quase ninguém põe em dúvida, levam grande desvantagem quanto ao tempo que separa os mais antigos mss. De seus originais em relação aos escritos neotestamentários. A cópia mais antiga que existe de Eurípedes foi escrita 1.600 anos depois da morte do poeta. No caso de Sófocles, o intervalo é de 1.400 anos, o mesmo acontecendo com Ésquilo e Tucídides. Quanto a Platão, o intervalo não é muito menor: encontra-se ao redor dos 1.300 anos. Entre os latinos, embora levem vantagem sobre os gregos, a situação não é muito diferente. Enquanto Catulo o intervalo é de 1.600 anos e em Lucrécio de mil anos, Terêncio e Lívio reduzem-se para 700 e 500 anos respectivamente. Só Virgílio aproxima-se do NT, pois há um ms. Completo de suas obras que pertence ao século IV, sendo que o autor faleceu no ano 8 a.C.
Quão diferente, porém, é a situação do NT nesse aspecto. Além dos famosos mss. Do século IV, escritos em pergaminho, existem ainda consideráveis fragmentos em papiros de praticamente todos os livros do NT, que nos fazem recuar até o século III, ou, como em alguns casos, até meados do século II. Enfim, embora dispondo apenas de cópias posteriores, podemos citar o veredicto pronunciado por Sir Frederic G. Kenyon, destacado estudioso da primeira parte deste século e grande autoridade em mss. Antigos:
O intervalo, então, entre as datas da composição original e a mais antiga evidência subsistente torna-se tão reduzido de sorte que é praticamente desprezível, e o derradeiro fundamento para qualquer dúvida de que nos hajam as Escrituras chegado às mãos substancialmente como foram escritas já não mais persiste. Tanto a autenticidade quanto a integridade geral dos livros do NT podem considerar-se firmados de modo absoluto e final. [13]
O segundo obstáculo é o grande número de documentos disponíveis. Existem atualmente cerca de 5.500 mss. Gregos completos ou fragmentários do NT, sem falar nos quase 13.000 mss. Das versões e nos milhares de citações dos antigos Pais da Igreja. Os problemas e dificuldades da crítica textual, portanto, surgem mais por uma superabundância de evidências do que propriamente por uma insuficiência delas. Todavia, novamente a limitação se torna em vantagem, pois, apesar de a multiplicidade de mss. Oferecer ensejo para os mais variados erros de transcrição, oferece também muito mais elementos de comparação. Frederic F. Bruce declarou:
Felizmente, se o grande número de mss. Aumenta o índice de erros escribais, aumenta, em medida idêntica, os meios para a correção desses erros, de modo que a margem de dúvida deixada no processo de restauração dos termos exatos do original não é tão grande como se poderia temer; pelo contrário, é, na verdade, marcadamente reduzida. [14]
Há ainda outro fator a ser observado. O elevado número de documentos existentes faz com que o NT tenha muito mais apoio textual que qualquer outro livro dos tempos antigos, seja em se tratando das obras de Homero, dos autores trágicos áticos, de Platão, de Cícero ou de César. A situação normal no que diz respeito às grandes obras da literatura clássica é que nosso conhecimento do textodelas depende de poucos e recentes mss., de maneira que estamos muito mais bem equipados para observar as etapas primitivas da história textual do NT que de qualquer outra obra da literatura antiga.
O terceiro e maior obstáculo é a elevada cifra de variantes existentes. A consequência natural da multiplicação dos mss. Do NT pelo espaço de 1.400 anos foi o surgimento de incontáveis variações textuais. À primeira vista, os números são assutadores. Até o momento, já foram calculadas cerca de 250.000 variantes, [15] ou seja, mais variantes entre todos os mss. Que as palavras que o NT contém. Só um estudo de 150 mss. Gregos do evangelho de Lucas revelou mais de 30.000 textos divergentes. [16] É opinião unânime entre os críticos textuais que não possuímos nenhum ms. Que tenha preservado sem nenhuma variação o texto original dos 27 livros do NT, nem sequer de apenas um deles. [17] Merril M. Parvis, porém, vai mais longe, afirmando que “não há uma só frase no NT na qual a tradição manuscrita seja totalmente uniforme”. [18]
Apesar das enormes dificuldades advindas desse fato, devemos notar que quase a totalidade das variantes diz respeito a questões de pouca ou nenhuma importância. São variações na ordem relativa de palavras numa frase, no uso de diferentes preposições, conjunções e partículas, nas preposições que acompanham determinados verbos ou em simples modificações de natureza gramatical, muitas das quais até nem poderiam ser representadas numa tradução portuguesa. Em outras palavras, “o número de variantes que se revestem de importância, especialmente no que diz respeito à doutrina, é assaz reduzido”. [19]
Se os nímeros são assustadores, essa declaração é, no mínimo confortadora, e sua veracidade pode ser atestada mediante o exame de qualquer aparato crítico [20] de uma edição técnica do NT grego. Além disso, há mais de um século duas das maiores autoridades no assunto, B. F. Westcott e F. J. ª Hort, já afirmavam que apenas a milésima parte do texto do NT ainda não estava criticamente assegurada. [21] E, mais recentemente, Bruce destacou que as poquissimas variantes que subsistem passíveis de certa dúvida não afetam “nenhum ponto importante, seja em matéria de fato histórico, seja em questão de fé e prática” [22].
1. Autógrafo: termo técnico que designa o manuscrito original de uma obra.
2. O temro “ecdótica” foi introduzido na ciência literária por D. Henri Quentin, em sua obra Essais de Critique Textuelle: Ecdotique, publicada em Paris em 1926.
3. Veja Kurt & Barbara ALAND, The texto of the New Testament, p. 34.
4. A partir de agora serão usadas as abreviaturas ms. E mss. respectivamente para “manuscrito” e “manuscritos”.
5. Cânon crítico: certos critérios científicos estabelecidos pelos críticos textuais para propiciar uma escolha inteligente entre dois ou mais textos divergentes.
6. A expressão “alta crítica” foi pela primeira vez aplicada à literatura bíblica por J. G. Eichhorn, no prefácio da segunda edição de sua obra Einleitung in das Alte Testament (1787): “Tenho sido obrigado a dedicar a maior parte de meus labores num campo até o momento inteirament eesquecido: a investigação da constituição interior de cada livro do AT mediante a ajuda da crítica mais alta – nome novo para os não-humanistas”.
7. Veja George Eldon LADD, The New Testament and criticism, p. 55.
8. H. E. DANA, El Nuevo Testamento ante la crítica, p. 10.
9. Colação: confronto da cópia de um ms. Com o original ou outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para a escolha do texto exato.
10. Variantes: assim chamadas as diferentes formas conhecidas do mesmo texto, conforme encontradas nos diversos mss.
11. The riddle of the New Testament, p. 35.
12. J. Harold GREENLEE, Introduction to New Testament textual criticism, p. 17.
13. The Bible and archaeology, p. 288.
14. The New Testament documents, p. 19.
15. Heinrich ZIMMERMANN, Los métodos histórico-críticos em el Nuevo Testamento, p. 21.
16. M. M. PARVIS, The interpreter's dictionary of the Bible, p. 595.
17. Alfred WIKenhauser, Introdución al Nuevo Testamento, p, 73.
18. Op. Cit., p. 595.
19. B. P. BITTENCOURT, O Novo Testamento: Canôn, língua, texto, p. 74.
20. Aparato crítico: conjunto de sinais e termos técnicos destacando as variantes do texto bíblico e seus respectivos testemunhos.
21. The New Testament in the original Greek, p. 545.
22. Op. Cit., p. 20.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Deus está no homem; o homem em Deus
Santo Agostinho
"E como invocarei o meu Deus - meu Deus e meu Senhor -, se ao invocá-lO, O invoco sem dúvida dentro de mim? E que lugar há em mim, para onde venha o meu Deus, para onde possa descer o Deus que fez o céu e a terra? Pois será possível - Senhor meu Deus - que se oculte em mim alguma coisa que Vos possa conter? É verdade que o céu e a terra que criastes e no meio dos quais me criastes, Vos encerram?
Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contém? E assim, se existo, que motivo pode haver para Vos pedir que venhais a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis? Não estou no inferno e, contudo, também Vós lá estais, pos "se descer ao inferno, aí estais presente" [1].
Por conseguinte, não existiria, meu Deus, de modo nenhum existiria, se não tivésseis em mim. Ou antes, existiria eu se não estivesse em Vós "de quem, por quem e em quem todas as coisas subsistem"? Assim é, Senhor, assim é. Para onde Vos hei de chamar, se existo em Vós? Ou donde podereis vir até mim? Para que lugar, fora do céu e da terra, me retirarei a fim de que venha depois a mim o meu Deus que disse: "Encho o céu e a terra"?
[1] - Sl 138,8
"E como invocarei o meu Deus - meu Deus e meu Senhor -, se ao invocá-lO, O invoco sem dúvida dentro de mim? E que lugar há em mim, para onde venha o meu Deus, para onde possa descer o Deus que fez o céu e a terra? Pois será possível - Senhor meu Deus - que se oculte em mim alguma coisa que Vos possa conter? É verdade que o céu e a terra que criastes e no meio dos quais me criastes, Vos encerram?
Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contém? E assim, se existo, que motivo pode haver para Vos pedir que venhais a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis? Não estou no inferno e, contudo, também Vós lá estais, pos "se descer ao inferno, aí estais presente" [1].
Por conseguinte, não existiria, meu Deus, de modo nenhum existiria, se não tivésseis em mim. Ou antes, existiria eu se não estivesse em Vós "de quem, por quem e em quem todas as coisas subsistem"? Assim é, Senhor, assim é. Para onde Vos hei de chamar, se existo em Vós? Ou donde podereis vir até mim? Para que lugar, fora do céu e da terra, me retirarei a fim de que venha depois a mim o meu Deus que disse: "Encho o céu e a terra"?
[1] - Sl 138,8
As catacumbas
Ralfh O Muncasterf
Qualquer pessoa que visite Roma hoje pode ver as catacumbas, onde os primeiros cristãos enterraram os seus mortos, fora da cidade de Roma. As covas das catacumbas são um testemunho espantoso da grande quantidade de mártires cristãos que deram a vida por anunciar o evangelho de Jesus, no princípio da igreja. Dezenas de milhares de cristãos antigos foram sepultados em mais de 60 labirintos subterrâneos, onde túmulos individuais e criptas familiares foram lavrados em estreitas passagens de rochas. (Cinco das catacumbas estão atualmente abertas ao público.) Centenas de quilômetros de túneis estão conectados por grandes acres de terra - como os fios de uma teia de aranha. Em alguns casos há muitos níveis de passagens para economizar espaço, que era muito limitado para os cristãos durante a época da perseguição.
Contrariando a crença popular, as catacumbas não eram usados como escondeirijos durante a perseguição; no entanto, às vezes eram usadas como locais de refúgio para a celebração da Ceia do Senhor.
De pé em uma das "áreas de adoração" abertas, ou mesmo em uma grande "cripta familiar", um visitante não pode deixar de sentir o espírito e o poderoso compromisso com Jesus em uma época tão próxima de sua crucificação, quanto as pessoas teriam evidências fortes e diretas de sua ressurreição. As evidências da fé em Jesus Cristo em seus primeiros anos estão por toda parte. Os símbolos predominantes em todas as catacumbas são:
+ O Bom Pastor - um pastor com um cordeiro em torno de seu pescoço, que simbolizava Cristo e as almas que Ele estava salvando, encontrados em afrescos, em sarcófagos, e nos revestimentos dos túmulos.
+ O suplicante - a figura de uma pessoa em oração, com os braços abertos, simbolizando a alma dos mortos vivendo eternamente em paz.
+ O monograma de Cristo - as letras gregas chi e rho, que representavam as duas primeiras letras de "Cristo", indicando que um cristão foi sepultado ali;
+ O peixe - as letras gregas "IXTHYS", que colocadas verticalmente, formavam um acróstico que significava "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador";
+ A pomba levando um ramo de oliveira - simbolizando a alma alvançando a paz divina;
+ As letras gregas alfa e ômega - representando Cristo como o princípio e o fim.
Os milhares de mártires nas catacumbas são frequentemente identificados pela abreviatura grega "MPT" (que significa mártir).
Em fevereiro de 313, Constantino acabou com a perseguição aos cristãos. No entanto, as catacumbas continuaram a ser usadas como um cemitério até o século seguinte. A igreja acabou voltando à prática de sepultar os mortos acima do nível da terra. Com o passar do tempo, as pessoas esqueceram das catacumbas, e uma vegetação espessa cresceu nas entradas, ocultando-as de vista. Somente no final dos anos de 1500 é que Antônio Bósio (1575 0 1629) iiniciou a busca e exploração científica das antigas catacumbas. O mais importante é a evidência irrefutavel que as catacumbas nos proporcionam hoje, de que os primeiros cristãos se mantiveram fiéis à verdade ensinada pelo Senhor Jesus.
As pessoas que viveram perto da época da ressurreição de Jesus tinham a grande habilidade de julgar a veracidade da exatidão histórica dos eventos. Muitos acreditavam, sem nenhuma sombra de dúvida, que Jesus Cristo havia ressuscitado dos mortos. E os primeiros cristãos - que viveram tão perto da época de Jesus e estavam em uma boa posição para conhecer as testemunhas - escolheram honrar a Jesus e morreram por anunciar o evangelho, em vez de se curvarem diante de algum outro "deus". Evidências históricas e arqueológicas apóiam o amplo martírio que eles sofreram. O fato de tantos cristãos terem morrido no início de sua fé para contar a história traz uma credibilidade especialmente forte que permite a verificação de que a crucificação e a ressurreição de Jesus são absolutamente verdadeiras.
Qualquer pessoa que visite Roma hoje pode ver as catacumbas, onde os primeiros cristãos enterraram os seus mortos, fora da cidade de Roma. As covas das catacumbas são um testemunho espantoso da grande quantidade de mártires cristãos que deram a vida por anunciar o evangelho de Jesus, no princípio da igreja. Dezenas de milhares de cristãos antigos foram sepultados em mais de 60 labirintos subterrâneos, onde túmulos individuais e criptas familiares foram lavrados em estreitas passagens de rochas. (Cinco das catacumbas estão atualmente abertas ao público.) Centenas de quilômetros de túneis estão conectados por grandes acres de terra - como os fios de uma teia de aranha. Em alguns casos há muitos níveis de passagens para economizar espaço, que era muito limitado para os cristãos durante a época da perseguição.
Contrariando a crença popular, as catacumbas não eram usados como escondeirijos durante a perseguição; no entanto, às vezes eram usadas como locais de refúgio para a celebração da Ceia do Senhor.
De pé em uma das "áreas de adoração" abertas, ou mesmo em uma grande "cripta familiar", um visitante não pode deixar de sentir o espírito e o poderoso compromisso com Jesus em uma época tão próxima de sua crucificação, quanto as pessoas teriam evidências fortes e diretas de sua ressurreição. As evidências da fé em Jesus Cristo em seus primeiros anos estão por toda parte. Os símbolos predominantes em todas as catacumbas são:
+ O Bom Pastor - um pastor com um cordeiro em torno de seu pescoço, que simbolizava Cristo e as almas que Ele estava salvando, encontrados em afrescos, em sarcófagos, e nos revestimentos dos túmulos.
+ O suplicante - a figura de uma pessoa em oração, com os braços abertos, simbolizando a alma dos mortos vivendo eternamente em paz.
+ O monograma de Cristo - as letras gregas chi e rho, que representavam as duas primeiras letras de "Cristo", indicando que um cristão foi sepultado ali;
+ O peixe - as letras gregas "IXTHYS", que colocadas verticalmente, formavam um acróstico que significava "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador";
+ A pomba levando um ramo de oliveira - simbolizando a alma alvançando a paz divina;
+ As letras gregas alfa e ômega - representando Cristo como o princípio e o fim.
Os milhares de mártires nas catacumbas são frequentemente identificados pela abreviatura grega "MPT" (que significa mártir).
Em fevereiro de 313, Constantino acabou com a perseguição aos cristãos. No entanto, as catacumbas continuaram a ser usadas como um cemitério até o século seguinte. A igreja acabou voltando à prática de sepultar os mortos acima do nível da terra. Com o passar do tempo, as pessoas esqueceram das catacumbas, e uma vegetação espessa cresceu nas entradas, ocultando-as de vista. Somente no final dos anos de 1500 é que Antônio Bósio (1575 0 1629) iiniciou a busca e exploração científica das antigas catacumbas. O mais importante é a evidência irrefutavel que as catacumbas nos proporcionam hoje, de que os primeiros cristãos se mantiveram fiéis à verdade ensinada pelo Senhor Jesus.
As pessoas que viveram perto da época da ressurreição de Jesus tinham a grande habilidade de julgar a veracidade da exatidão histórica dos eventos. Muitos acreditavam, sem nenhuma sombra de dúvida, que Jesus Cristo havia ressuscitado dos mortos. E os primeiros cristãos - que viveram tão perto da época de Jesus e estavam em uma boa posição para conhecer as testemunhas - escolheram honrar a Jesus e morreram por anunciar o evangelho, em vez de se curvarem diante de algum outro "deus". Evidências históricas e arqueológicas apóiam o amplo martírio que eles sofreram. O fato de tantos cristãos terem morrido no início de sua fé para contar a história traz uma credibilidade especialmente forte que permite a verificação de que a crucificação e a ressurreição de Jesus são absolutamente verdadeiras.
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