terça-feira, 31 de maio de 2011

As Escrituras e a Tradição

O texto a seguir são partes digitadas do vídeo que coloquei na última postagem onde um Ortodoxo defende a relação das Sagradas Escrituras com a Sagrada Tradição, refutando a heresia da "Sola Scriptura". Algumas partes foram cortadas para se referir somente ao assunto proposto. Outro detalhe importante: por ter sido feito por um ortodoxo, algumas partes da argumentação é mais importante e faz sentido para a Igreja Ortodoxa, e não para a Católica. Um exemplo, talvez o principal, são as traduções bíblicas. É claro que uma grande quantidade de traduções foi feita enquanto não houve o cisma, no entanto, muitos lugares de origem ocidental realmente não tiveram traduções bíblicas (por motivos diversos que podem ser tratados posteriormente), apesar de existirem traduções para a lingua vernácula antes da "reforma" protestante.

Entre a Escritura e a Tradição não há nenhum conflito ou contradição.  A falsa oposição entre elas apareceu apenas no século XVI quando o protestantismo proclamou o princípio da "Sola Scriptura", dizendo que a Bíblia é a única fonte de doutrina, suficiente para a salvação.

O significado inicial de Sola Scriptura, tal como Lutero entendeu, se refere a rejeição das supostas inovações Católicas - O próprio Lutero tirou da tradição Católica idéias de Santo Agostinho (A predestinação, o ensino sobre o Filoque, etc). Lutero, por exemplo, reconhecia o batismo dos bebês, apesar dos neoprotestantes considerá-lo antibíblico. Foram os discípulos neoprotestantes de Lutero que deram um caráter exclusivista para o princípio "Sola Scriptura", rejeitando qualquer idéia de Tradição. Apesar disso, protestantes e neoprotestantes também têm sua tradição, e espero que quem for honesto reconheça isso, pois é um fato. Eles interpretam a Bíblia a partir da perspectiva estrita de alguns pontos de doutrina que não estão escritos na Bíblia, de alguns livros, catecismos ou revistas publicados pela sua denominação ou da opinião de pessoas consideradas carismáticas. Assim, o princípio da Sola Scriptura, como veremos, não funciona, porque os critérios de interpretação da Bíblia estão fora dela. Se a Bíblia pudesse ser interpretada somente através dela seria impossível a aparição de inúmeras denominações e interpretações todas afirmando se basear "Somente nas Escrituras", mas, ao mesmo tempo, se contradizendo.

Apesar de terem sua tradição, os protestantes e neoprotestantes não reconhecem a Santa Tradição, trazendo contra nós falsos argumentos, que não se referem à Tradição, mas a "tradições humanas" como as chama a Bíblia. Em três lugares da Escritura, onde a tradição parece ser condenada, o Senhor se refere claramente aos "ensinamentos dos homens" (Mateus 15, 2-6; Marcos 7, 3-13 e Colossenses 2,8), E se os neoprotestantes preferem citar Mateus, eu vou citar Marcos 7, 8: ""Porque, afastando-se da Lei de Deus, vocês mantém as regras dos homens: lavar os copos e jarros, e muitos outros como estes.". Aqui podemos ver claramente não só a condenação de uma tradição, mas também o seu conteúdo: a lavagem de copos e garrafões e outros hábitos irrelevantes para a salvação. Mas quando nós falamos sobre a Tradição, nos referimos a outra coisa e quero que entendam claramente isso. Nós não consideramos parte da Tradição aquele elemento  que contradiz a Revelação e a Divina Escritura. Escritura e Tradição não podem ser vistas como duas fontes complementares de doutrina, mas como duas realidades que estão numa relação de mútua interioridade (cada uma contém a outra). Se fizermos uma analogia a Santíssima Trindade, podemos dizer que a Escritura e a Tradição são um só ser, esse ser é a Verdade única e imutável, e, ao mesmo tempo, elas são distintas. É por isso que a sua separação e contraposição pode ser comparada com a separação e contraposição das Pessoas da Santíssima Trindade. Vou expandir a idéia mais tarde e quero que entendam a analogia da Santíssima Trindade somente como uma comparação.

Como a Bíblia ensina, a nossa salvação trazida por Cristo foi realizada objetivamente pela paixão, morte e ressurreição de Cristo e, subjetivamente, pela nossa cooperação com Deus e a Igreja que ele fez, não com a base nas idéias pessoais ou de algum grupo, mas baseada na Sua Pessoa Divino-Humana (Mateus 16, 16; 1 Timóteo 3, 15-16). Ele prometeu que Sua Igreja sempre vai existir, por isso nem "as portas do inferno prevaleverão contra ela". (Mateus 16, 18). Quando Ele levantou ao céu, Ele prometeu que vai estar conosco até o fim do mundo (Mat 16, 16) e que o Espírito Santo será enviado no mundo para levar-nos a toda a verdade (Mateus 28, 20). Esta verdade é a respeito de Cristo e é o próprio Cristo (João 14, 6), que "ontem, hoje e sempre é o mesmo" (Hebreus 13, 8) e nossa fé nEle é a fé que tem sido dada para sempre aos santos (Judas 1, 3). Tendo isso em conta, é evidente que a verdade da fé não pode ser uma no primeiro século, outra no quarto, outra no século XVI e outra no século XXI. Ela deve ser a mesma até o fim do mundo. Quem admitir que a verdade pode ser mudada está longe da verdade, pois ele está contrariando as Escrituras. É por isso que consideramos que a verdade deve ser a mesma em todos os tempos e lugares e sua manutenção intecta é devida a presença eterna de Cristo e do Espírito Santo na Igreja do Deus Vivo, que é o "pilar e sustentáculo da verdade" ( 1 Tomóteo 3, 15). E se a verdade é uma só, também a Igreja só pode ser uma, porque uma cabeça não pode ter vários corpos, uma cabeça tem um só corpo (Efésios 1, 22-23; 2, 3-6). Deduzimos que a Igreja de Cristo e sua doutrina deve existir a partir do momento da sua criação até o fim do mundo, sem interrupção. Então, pode pretender ao nome de "Igreja de Cristo" só aquela assembléia cristã que tem existido, sem interupção e consideramos que essas condições só nossa Igreja corresponde a partir dos primeiros séculos, sendo a mesma Igreja dos apóstolos e dos primeiros cristãos. Foi nesta Igreja que a Bíblia foi escrita e interpretada junto com muitos outros
ensinamentos necessários para a salvação. Foi nela que o Espírito Santo guiou os santos bispos a estabelecer corretamente o canon bíblico (o número dos livros bíblicos, seus autores e sua ordem), rejeitando todos os apócrifos heréticos. E isso aconteceu a partir do século IV até mais tarde, quando a Igreja tinha as mesmas cerimônias e organizações.

Grandes diferenças entre a Igreja do século quando foi proclamado o canone bíblico e a nossa Igreja de hoje não existem. Nesta Igreja, a Bíblia era escrita, interpretada e transmitida adiante, com muitos outros ensinamentos baseados na mesma fé e pregação apostólicas. O principio da Sola Scriptura não existia e não tinah como existir. Os Santos Padres que estabeleceram o canon bíblico foram aceitando e difundindo muitos ensinamentos que não estavam claramente expressos na Bíblia, mas que foram retirados da Santa Tradição, e, mesmo assim, em acordo com a Bíblia:

- O texto e a cerimônia da Sagrada Eucaristia que não são mencionados na Bíblia.

- A tripla imersão no batismo, sugerida na Didaquê, escritura do primeiro século, que, muitas vezes era incluida no canon, sabemos que os protestantes de hoje batisam com uma só imersão, e seria interessante saber de onde tiraram isso.

- A veneração das reliquias, claramente mencionada no século II, vinculada ao martírio de S. Policarpo de Esmirna, discipulo direto de São João Teólogo.

- O sinal da cruz, confirmado no século II.

De onde os protestantes têm a Bíblia? Em que eles estão baseados, quando dizem que um Evangelho pertence a Mateus ou a Marcos? De onde eles sabem que existem 27 livros autênticos no Novo Testamento e não menos ou mais? Nós dizemos que todas essas informações e, às vezes, até a maneira de interpretar as Escrituras, eles plagiaram da Santa Tradição da nossa Igreja.

Daqui derivam outras perguntas: Por que tiraram apenas uma parte da Tradição da Igreja e com base em que critérios eles consideram que, no estabelecimento do Canon bíblico a Tradição da nossa Igreja foi correta e em outras, a mesma Tradição errou? E se esta Igreja errou em alguma coisa, tendo "mancha ou ruga" (Efésios 5, 27), então ela não é mais Igreja e o que Cristo estabeleceu foi derrotado pelo diabo e Cristo era um mentiroso, pois fez falsas profecias (Mateus 16, 18). E se o que Ele criou não foi destruído, então essa Igreja existiu e existe e é a ela que devemos pertencer, porque todas as outras supostas "igrejas" são mentirosas.

Quero detalhar alguns aspectos sobre a relação Escritura-Tradição-Igreja. Depois da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos (Atos 2, 1-4), os cristãos perseveraram "na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações." (Atos 2, 42). A atividade de cada apóstolo não era limitada a pregação, porque os apóstolso não espalhavam Bíblais pelo mundo, como os protestantes fazem, mas eles espalhavam a Igreja de Cristo, em toda a sua integridade. "A sabedoria de Deus, de muitos tipos, foi dada a conhecer através da Igreja" (Efésios 3, 10), não através da Bíblia. E a Igreja incluiu e inclui batismo, eucaristia, sacerdócio, pregação e muitas outras coisas das quais, me desculpem, os protestantes, às vezes, nunca ouviram falar.

É claro que uma ênfase especial na missão dos apóstolos era dada a pregação da "palavra de Deus" e esta expressão se refere, em primeiro lugar, a pregação oral. (Atos 6, 2-7; 11,1; 13,7-44; 16, 32; 18, 11). a "Palavra de Deus" mão se referia a palavra escrita (as Escrituras), como os protestantes dizem, considerando apenas a Bíblia como "Palavra de Deus". As Escrituras mostram claramente que a pregação oral era a Palavra de Deus e ela "crescia e se multiplicava" (Atos 12, 21), ou seja, foi passada adiante em formas enriquecidas pela ação do Espírito Santo.

Outro aspecto extremamente importante e crucial na pregação da Palavra de Deus coexiste em que os apóstolos exortavam os seus discípulos a manter e passar adiante o que receberam do Senhor. Aqui aparece a noção de "Tradição", como revelação completa dada a Igreja através dos apóstolos e transmitida adiante sem alterações. Vejam alguns textos bíblicos que falam sobre esse significado da tradição (paradosis) e da necessidade de guardá-la: "Louvo-vos, irmãos, que vos lembreis de mim em todas as coisas, e mantenham as tradições como lhes entreguei. Porque as recebi do Senhor e o que recebi repassei para vós" (1 Coríntios 11, 2-23); "Irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa" (2 Tessalonissenses 2, 15); "Agora, o compando-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos apartei de todo irmão que anda desordenadamente, e não seguindo a Tradição que de nós recebeu" (2 Tessalonisenses 3,6); "Essas coisas, que vós aprendestes, recebestes, ouvistes, e vistes em mim, façam: o Deus da paz estará convosco" (Filipenses 4, 9); Não disse "o que lestes". Vemos que a transmissão da doutrina por meio oral e a retransmissão dela inalterada não era apenas uma alternativa para a palavra escrita, mas, na maioria das vezes, a única maneira de pregar o Evangelho, porque:

1) Cristo não escreveu nada (com exceção de algumas palavras na areia) e não ordenou aos apóstolos que escrevessem alguma coisa.

2) Assim como no Antigo Testamento, até Moisés, ninguém escreveu nada, também os Santos Apóstolos não escreveram nada nos quase 20 anos de pregação e São João escreveu seus cinco livros no final da sua vida, após 60 anos de pregação ora, que representa mais de uma geração. Surge a pergunta: Esse povo sabia que "Deus é amor" (1 João 4, 8)? A Epístola de S. João não estava escrita ainda.

3) Por causa de alguns problemas concretos de algumas comunidades, mas, sobretudo, por causa das heresias daquele tempo. os apóstolos escreveram apenas uma parte da doutrina, sem dizer ou deixar claro que o que eles escreveram continha tudo, mas pelo contrário, claramente mostraram que a atividade e, especialmente, a doutrina de Jesus, diretamente ou através dos apóstolos dada, é muito mais vasta, que "nem mesmo o próprio mundo poderia conter os livros que deveriam ser escritos". Em Atos 20, 35, São Paulo, que não conheceu diretamente a Cristo, apresenta um ensinamento dele que não aparece em nenhum dos quatro evangelhos: "Há mais felicidade em dar do que em receber". Mas o que chama a atenção é que, antes disso, em Atos 20, 31, São Paulo diz que, durante três anos, nunca parou, dia e noite, a exortar os seus apóstolos de Eféso, mas não encontramos na Bíblia o conteúdo dessas pregações sistemáticas durante três anos. E se essas pregações continham centenas de ensinamentos que vieram diretamente de Jesus, mas que não estão escritos no Evangelho, como o versiculo acima? Este caso não é o único, porque também não temos, na Bíblia, o conteúdo da pregação durante um ano e meio, de Corinto (Atos 18, 11), que não é o mesmo que o das duas epístolas aos Coríntios que temos. Certamente, São Paulo disse aos coríntios muito mais sobre a Eucaristia do que ele disse depois, em alguns versículos do capítulo 11, da primeira epístola. Podemos pensar o mesmo sobre a celebração do domingo, sobre o qual, nas epístolas, ele fala apenas um pouco (1 Coríntios 16, 2).

4) Mais do que isso, os apóstolos preferiam falar com os seus discípulos, diretamente, cara a cara, as epístolas sendo apenas uma alternativa para os casos em que a reunião e a conversa direta não eram possíveis. Vejam apenas dois exemplos, ambos a partir do final do século apostólico, em que vemos os apóstolos, mesmo naquela época, preferiam a palavra oral, não a escrita: "Apesar de ter mais coisas que vos escrever, não o quis fazer com papel e tinta, mas espero estar entre vós e conversar de viva voz, para que a vossa alegria seja perfeita." (2 João 1, 12) Se a alegria não era completa, também a graça não era completa, segundo São Paulo. "Tinah muitas coisas para te escrever, mas não quero fazê-lo com tinta e pena. Espero ir ver-te em breve e então falaremos de viva voz." (3 João 1,13-14).

5) Os apóstolos não podiam pretender aos primeiros cristãos ter ou ler a Bíblia, pois isso era técnicamente impossível. Foi apenas nos séculos II e III que as igrejas das cidades grandes começaram a recolher os livros do Novo Testamento adotando também a tradução grega do Antigo Testamento (Septuaginta), mas esse processo de colheita era muito difícil por causa do grande custo dos pergaminhos ou papiro e das grandes distâncias entre as igrejas. que tinham um certo livro herdado dos apóstolos. A possibilidade de algumas pessoas terem uma parte dos livros bíblicos era extremamente reduxida (também a maioria não sabia ler). Se aceitarmos a concepção errada dos protestantes podemos concluir que os primeiros cristãos não podiam ser salvos, já que não liam nem estudavam a Bíblia. E se é assim que aconteceu nos primeiros séculos e mais tarde com a Bíblia, então uma pergunta aparece: Como e de que forma os cristãos recebiam a palavra salvadora? A resposta é muito simples: na Igreja. onde os bispos ordenados e ajudados pelo Espírito Santo (Atos 20, 28) estavam passando de geração em geração o "tesouro" recebido pelos apóstolos (2 Timóteo 1, 13-14).

Essa sucessão apostólica incluía o direito de sacrificar a Eucaristia e o direito de pregar o Evangelho, realidades que nem a Igreja primária, nem depois, foram separadas. Irineu de Lyon, discípulo de S. Policarpo de Esmirna, que foi discípulo de São João, que era o "apóstolo amado" do Senhor, disse: "A nossa fé está de acordo com a Eucaristia". Duas gerações depois de S. João, a fé e a Eucaristia estavam unidas. Assim também são hoje, na nossa Igreja. Não falei sobre a sucessão apostólica gratuitamente, porque, na Igreja, esta sucessão pode ser vista em toda parte e permanentemente. Lógica e teologicamente, está claro que a quebra desta sucessão sacramental e doutrinária significa a separação da Igreja Apostólica, cuja cabeça é Cristo. Ficaríamos felizes em ver esta sucessão no protestantismo também, mas não temos chance. Ao enfatizar o papel da sucessão sacramental, não quero dizer que os leigos não conheciam a "palavra de Deus", mas que a Bíblia era lida e pregada somente na Bíblia; Igreja é a comunhão de cristãos, reunidos em torno da Eucaristia e guiada pelo Espírito Santo, mas também o lugar concreto onde esses livros (que nem todos tinham mas que estavam a disposição de todos) estavam guardados.

O mito que diz que a Igreja proibia os leigos de lerem a Bíblia é uma grande mentira. Os protestantes também desinformam com outro mito: que a Igreja proibia a tradução da Bíblia para os outros povos. Havia a tradução siríaca, nos séculos 4-5, a tradução gótica, no século 9, a tradução eslava, no século 15, a tradução romena. Quando Lutero apareceu na face da Terra, todos o grandes povos antigos tinham a Bíblia traduzida em suas línguas.

Vou fazer algumas especificações sobre a natureza e o conteúdo da Tradição. Por Santa Tradição, entendemos a revelação completa, dada a Igreja, através dos apóstolos e passada adiante inalterada. Então, a Tradição não é um conjunto de ensinamentos ou costumes, mas a "respiração do Espírito Santo na Igreja", presente na doutrina da Igreja, na oração e na vivência dos seus membros. Nós já argumentamos que a Bíblia é apenas [uma parte] desta revelação a sua importância e autoridade não são devidas ao seu conteúdo exaustivo (como dizem os evangélicos, que a Bíblia contém tudo) mas ao fato de a Bíblia ser aquela parte ao fato de a Bíblia ser aquela parte da revelação que foi escrita diretamente pelos apóstolos, testemunhas oculares auditivas do Senhor e em sua base, todos os outros elementos da Tradição podem ser certificados. E por isso que a Bíblia tem autoridade: por ser uma fonte de primeira mão, não porque conteria tudo e fora dela não haveria nada. Então, a Bíblia não e não pode ser considerada auto-suficiente, separada da memória viva da Igreja, que é a Tradição. Tirar a Bíblia do contexto da Tradição Igreja é tirar um versículo do contexto de um livro bíblia. Assim como separar o versículo de um contexto pode levar a perdição, também separar a Bíblia da Tradição leva a perdição. Então, a Bíblia, como ela mesma diz, só pode ser interpretada através da Tradição. Vejam alguns trechos bíblicos sobre isso: "Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos falaram da parte de Deus conforme eram movidos pelo Espírito Santo" (2 Pedro 1, 20-21). Então, a Bíblia não se interpreta por si mesma ou em particular, como os protestantes dizem, mas sua interpretação só pode ser feita por "homens santos", "guiados pelo Espírito Santo". Para nós, eles são Santos Padres, que os batistas, Às vezes, plagiam, sem ter a coragem e sinceridade de dizer que certos ensinos pertencem a João Crisóstomo ou a S. Vasilios, mas nem mesmo a eles, mas ao Espírito Santo, que falou, através deles, devido a sucessão herdada dos apóstolos, mas também devido a santidade deles. Até o eunuco da Etiópia reconheceu que não poderia compreender corretamente o texto da Escritura sem guia (Atos 8, 31), especialmente porque, na Bíblia, há "muitas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis torcem, para sua própria perdição" (2 Pedro 3, 16).

A Tradição da Igreja não só nos deu a Bíblia, mas também a chave da sua significação, sem a qual é impossível não errar, atraindo a perda da alma. A Santa Tradição tem os seguintes elementos básicos:

1) A Bíblia, elemento infalível e com máxima autoridade, com base na qual as outras fontes são verificadas.

2) Os antigos símbolos de fé e confissões, incluindo os mártires (Mateus 10, 19-20). Cristo disse que na hora do martírio, não vão ser os cristãos quem falarão, mas o Espírito Santo falará através deles. Isso significa que eles serão revelados. E se os evangelistas foram revelados e são obedecidos, também os mártires devem ser escutados.

3) As decisões canônicas e dogmáticas dos Concílios Locais e Ecumênicos.

4) Os escritos dos Santos Padres, universalmente reconhecidos pela Igreja (por meio do principio "consensum patrum" = os escritos que não contradizem a Escritura e não se contradizem entre si, mas são baseadas no consenso teológico, como obra do Espírito Santo, que falou através deles, com palavras diferentes, mas da mesma forma.

5) Os vestígios liturgicos: ícones, hinografia, etc. Na Igreja primária, existia uma definição simples para os ícones: "A Bíblia dos analfabetos".

Os critérios em base do qual que os elementos 2, 3, 4, 5 são aceitos ou rejeitados na Tradição é o mesmo critério base do qual os livros bíblicos foram aceitos e pregados. Este critério foi formulado no século 4 por São Vicênio de Leryn: "A verdadeira Tradição é o que todas as pessoas acreditaram sempre e em todos os lugares". A ação do Espírito Santo consiste nesta concordância universal no espaço e no tempo, que faz da Tradição uma espécie de filtro, que só aceita o que é útil e em concordância com o ensinamento oral e escrito herdado de Cristo e dos apóstolos, rejeitando todos os escritos contrários a esses ensinamentos.

Esta revelação não é só informação, assim como também a Bíblia não é só informação e nem a Tradição é só informação, mas também espiritu=ação viva do Espírito Santo, na Igreja. O espírito da Tradição precede e dá valor à informação.

1) Através da Tradição, nos é transmitido o espírito apostólico da leitura e interpretação da Bíblia e, apenas depois, aparece a informação (o conteúdo dessas interpretações). Primeiro, foi transmitido o espírito da compreensão e formulação dos dogmas cristãos e, apenas depois, encontramos o conteúdo desses dogmas formulado na Tradição. Em conclusão, a Igreja poderá formular outros dogmas também, se for preciso. E o espírito da compreensão dos dogmas  que vai nos manter longe das formulações erradas e contraditórias. Os protestantes, tendo isso em conta, não foram e não são capazes de operar conforme a informação dos dogmas, porque não tem mais o espírito da Tradição dogmática. O espírito e modelo da oração foram transmitidas pelos apóstolos aos seus discípulos e gravitavam em torno da Eucaristia.

Muito antes da oficialização do cristianismo como religião (313) as orações e praticas litúrgicas dos cristãos eram semelhantes e, às vezes, idênticas, como o texto e forma das que vemos hoje, mesmo sem nem existirem na Bíblia. Tudo isso demonstra, mais uma vez, a ação do Espírito Santo na Igreja não somente através da letra da Bíblia mas também através da letra e espirito da Tradição da nossa Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

terça-feira, 17 de maio de 2011

As escrituras e a Tradição descritas por um ortodoxo.

Bom, discordo dele quanto a questão da não validade dos sacramentos e sacerdócio Católico, entretante ele refuta as principais objeções protsetantes e demonstra, como várias vezes já foi demosntrado em outros meios, que a Sola Scriptura não faz sentido algum, pelo contrário, nem a Bíblia nem a Igreja desde o principio acreditava em algo do tipo.






domingo, 1 de maio de 2011

Quatro perguntas que os protestantes não conseguem responder de forma satisfatória.

Achei interessante essas quatro perguntas que encontrei enquanto fazia uma pesquisa na internet. Antes de me tornar católico já havia perguntado algo parecido. Originalmente são cinco, no entanto a primeira pergunta pode ser respondida de maneira parecida tanto por católicos quanto por protestantes.

Depois, tentei encontrar alguma resposta protestante. Não achei nenhuma. Pode ter passado desapercebido, ou posso não ter pesquisado da maneira correta, no entanto resolvi postar e ver se algum protestante quer tentar responder.

A resposta pode ser enviada da forma que desejar. Por e-mail (jonadabe.rios@hotmail.com), em seu blog (indicando o link nos comentários) ou até mesmo comentando diretamente aqui.

Vamos às perguntas:

1 - Por favor, diga-me porquê você aceita apenas uma parte da Bíblia (afinal, a lista de livros que compõem o Novo e o Antigo Testamento foi determinada ao mesmo tempo - aliás, junto com o título de Mãe de Deus para Nossa Senhora - e você aceita apenas parte do Antigo Testamento), e com que autoridade você o faz.

2 - Por favor, diga-me porque a Bíblia teria precisado de quase 1600 anos para ser entendida corretamente, se ela é teoricamente algo que qualquer um pode ler e entender.

3 - Por favor, explique como alguém pode saber se entendeu a Bíblia corretamente, se ele só pode confiar na Bíblia, e em mais nada; afinal existem cerca de 30.000 seitas protestantes no mundo, cada uma entendendo a Bíblia de maneira diferente e todas achando que estão certas.

4 - Por favor, prove usando apenas a Bíblia que ela é o que você considera que ela seja (ou seja, a única fonte de Verdade Revelada, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles). Claro que todo mundo sabe que a Bíblia é Palavra de Deus, boa para o ensino, etc. e tal, mas por favor, tente provar que ela é a única fonte de Palavra de Deus, composta pelos livros que você aceita, todos eles e só eles.

Gostaria de avisar que não irei tentar responder raciocinios em circulos ou pregações. Um exemplo disso é quando se pressupõe a heresia da Sola Scriptura sem apresentar fundamentos. Assim, antes de tentarem defender a Sola Scriptura, peço que tenham um pouco de paciência (e para alguns, vergonha na cara), e leiam os seguintes artigos do Veritatis:


Caso a resposta dada leve em consideração os argumentos Católicos apresentados, terei o prazer de postar no blog antes de tentar responder.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O deus dos palpiteiros - Olavo de Carvalho

Se há um Deus onipotente, onisciente e onipresente, é óbvio que não podemos conhecê-Lo como objeto, ou mesmo como sujeito externo, mas apenas como fundamento ativo da nossa própria autoconsciência, maximamente presente como tal no instante mesmo em que esta, tomando posse de si, se pergunta por Ele. Tal é o método de quem entende do assunto, como Platão, Aristóteles, Sto. Agostinho, S. Francisco de Sales, os místicos da Filocalia, Frei Lourenço da Encarnação ou Louis Lavelle.

Quando um Richard Dawkins ou um Daniel Dennett examinam a questão de um “Ser Supremo” que teria “criado o mundo” e chegam naturalmente à conclusão de que esse Ser não existe, eles raciocinam como se estivessem presentes à criação enquanto observadores externos e, pior ainda, observadores externos de cuja constituição íntima o Deus onipresente tivesse tido a amabilidade de ausentar-se por instantes para que pudessem observá-Lo de fora e testemunhar Sua existência ou inexistência.

Esse Deus objetivado não existe nem pode existir, pois é logicamente autocontraditório. Dawkins, Dennett e tutti quanti têm toda a razão em declará-lo inexistente, pois foram eles próprios que o inventaram. E ainda, por uma espécie de astúcia inconsciente, tiveram o cuidado de concebê-lo de tal modo que as provas empíricas da sua inexistência são, a rigor, infinitas, podendo encontrar-se não somente neste universo mas em todos os universos possíveis, de vez que a impossibilidade do autocontraditório é universal em medida máxima e em sentido eminente, não dependendo da constituição física deste ou de qualquer outro universo.

Se você não “acredita” no Deus da Bíblia, isso não faz a mínima diferença lógica ou metodológica na sua tentativa de investigar a existência ou inexistência d’Ele, quando essa tentativa é honesta. Qualquer que seja o caso, você só pode discutir a existência de um objeto previamente definido se o discute conforme a definição dada de início e não mudando a definição no decorrer da conversa, o que equivale a trocar de objeto e discutir outra coisa. Se Deus é definido como onipotente, onisciente e onipresente, é desse Deus que você tem de demonstrar a inexistência, e não de um outro deus qualquer que você mesmo inventou conforme as conveniências do que pretende provar.

O método dos Dawkins e Dennetts baseia-se num erro lógico tão primário, tão grotesco, que basta não só para desqualificá-los intelectualmente nesse domínio em particular, mas para lançar uma sombra de suspeita sobre o conjunto do que escreveram sobre outros assuntos quaisquer, embora seja possível que pessoas incompetentes numa questão que julgam fundamental para toda a humanidade revelem alguma capacidade no trato de problemas secundários, onde sua sobrecarga emocional é menor.

Longe de poder ser investigado como objeto do mundo exterior, Deus também é definido na Bíblia como uma pessoa, e como uma pessoa sui generis que mantém um diálogo íntimo e secreto com cada ser humano e lhe indica um caminho interior para conhecê-La. Só se você procurar indícios dessa pessoa no íntimo da sua alma e não os encontrar de maneira alguma, mesmo seguindo precisamente as indicações dadas na definição, será lícito você declarar que Deus não existe. Caso contrário você estará proclamando a inexistência de um outro deus, no que a Bíblia concordará com você integralmente, com a única diferença de que você imagina, ou finge imaginar, que esse deus é o da Bíblia.

Quando o inimigo da fé faz um esforço para ater-se à definição bíblica, ele o faz sempre de maneira parcial e caricata, com resultados ainda piores do que no argumento da “criação”. Dawkins argumenta contra a onisciência, perguntando como Deus poderia estar consciente de todos os pensamentos de todos os seres humanos o tempo todo. A pergunta é aí formulada de maneira absurda, tomando as autoconsciências como objetos que existissem de per si e questionando a possibilidade de conhecer todos ao mesmo tempo ex post facto.

Mas a autoconsciência não é um objeto. É um poder vacilante, que se constitui e se conquista a si mesmo na medida em que se pergunta pelo seu próprio fundamento e, não o encontrando dentro de seus próprios limites, é levado a abrir-se para mais e mais consciência, até desembocar numa fonte que transcende o universo da sua experiência e notar que dessa fonte, inatingível em si mesma, provém, de maneira repetidamente comprovável, a sua força de intensificar-se a si próprio.

Dez linhas de Louis Lavelle sobre este assunto, ou o parágrafo em que Aristóteles define Deus como noesis noeseos, a autoconsciência da autoconsciência, valem mais do que todas as obras que Dawkins e Dennett poderiam escrever ao longo de infinitas existências terrestres. Um Deus que desde fora “observasse” todas as consciências é um personagem de história da carochinha, especialmente inventado para provar sua própria inexistência.

Em vez de perguntar como esse deus seria possível, sabendo de antemão que é impossível, o filósofo habilitado parte da pergunta contrária: como é possível a autoconsciência? Deus não conhece a autoconsciência como observador externo, mas como fundamento transcendente da sua possibilidade de existência. Mas você só percebe isso se, em vez de brincar de lógica com conceitos inventados, investiga a coisa seriamente desde a sua própria experiência interior, com a maturidade de um filósofo bem formado e um extenso conhecimento do status quaestionis.

O que mata a filosofia no mundo de hoje é o amadorismo, a intromissão de palpiteiros que, ignorando a formulação mesma das questões que discutem, se deleitam num achismo inconseqüente e pueril, ainda mais ridículo quando se adorna de um verniz de “ciência”.

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090318dc.html

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Bíblia e o Celular.

Acabaram de me enviar pela milésima vez aquele texto onde se pergunta como seria se tratássemos a Bíblia do jeito que tratamos o celular.

Por isso resolvi fazer uma brincadeira com a pessoa que me enviou (e não gostou nada, por sinal), e mostrar que as pessoas usam a Bíblia sim como o célular.

Mas é bom destacar: É só uma brincadeira, e não estou a zombar da Bíblia (Livro que foi inspirado pelo próprio Deus). O objetivo é criticar algumas formas de uso.

Mas então, não é que utilizamos a Bíblia como o celular?

Se carrega no bolso ou na bolsa pra dizer que tem, apenas porque todo mundo tem que ter.

Várias vezes ao dia são dada certas olhadas, no entanto nada profundo ou contextualizado.

Muitas vezes se olha pra ver se tem um SMS do céu.

Tem a versão de brinquedo para se dar de presente as crianças.

Tem que se levar a Igreja e dar 10% do seu salário para ter crédito com Deus.

A qualidade do sinal vai depender da denominação que freqüenta.

Só [eu] e meu [grupo] sabe usar direitinho e tem o melhor sinal.

Se escolhe a operadora pelas vantagens e promoções.

As operadoras ganham muito dinheiro dando sinal.

Não se sabe onde e como foi fabricada, ou se ignora, mas pensam que caiu do céu pronta para a venda.

Por utilizá-la para futilidades, muitos acabam enjoando.

Possui várias versões: Almeida, Almeida Corrigida, Almeida Corrigida e Fiel, Almeida Corrigida e Fiel Atualizada, e por aí vai...

Existe uma feita para cada tipo de pessoa: Bíblia da mulher, do homem, criança, empresário, bíblia gay, do Paraguai (onde é incompleta).

Você pode comprar capas personalizadas proteger.

Alguns fazem coleção de Bíblias, mas nunca usam.

Outros roubam dinheiro de otários utilizando de forma errada seus serviços.

Nela encontramos alguns telefones de emergência:

- Está triste, prestes a perecer e amargurado? Ligue Pr 31, 6
- Estão zombando de você? Ligue Sl 80, 6
- Em caso de emergência, disque Sl 91, na superstição de que o Salmo tem algum poder especial.

Novamente: É só uma brincadeira, e não estou zombando da Bíblia (Livro que foi inspirado pelo próprio Deus). O objetivo é criticar algumas formas de uso, principalmente as formas supersticiosas que tiram o devido valor das Sagradas Escrituras.

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Se você vê mais semelhanças, pode colocar nos comentários rsrsrs

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O dia original da "Queima do Alcorão"

Normalmente muitos muçulmanos desavisados, outros nem tanto, afirmam que a Bíblia foi modificada com o tempo, e que por isso não podemos confiar nela. Muitos do que afirmam isso, que nem sempre são muçulmanos, apelam para escritores como Bart Ehrman, crendo que o mesmo tenha demonstrado o "consenso" de que a Bíblia, em especial o Novo Testamento, não é digna de confiança.

O problema é que boa parte nem mesmo entendeu a proposta do livro. Muitos se empolgaram mesmo foi com o titulo tendencioso, diferente do original, e a partir daí tiveram uma idéia falsa.

O ruim nisso é que pouco se sabe sobre a história da Igreja e a composição das escrituras, muito menos o que significa a inspiração da Bíblia.

Isso tem feito muitos abandonarem a fé na Bíblia e na Igreja, embora quem conheça de fato as doutrinas da Igreja não a abandona, isso porque boa parte das criticas são infundadas e não são direcionadas as doutrinas em si, e sim a certos tipos de espantalhos mal feitos em questões como a Divindade de Jesus e os escritos de Paulo, por exemplo.

Segue aí um vídeo interessante, e engraçado, sobre o Alcorão. Há muito o que estudar sobre o assunto, mas os muçulmanos devem rever as afirmações que aceitam sem contestar, principalmente de uma falsa base histórica contra a Igreja.

terça-feira, 29 de março de 2011

Lutero, “católico”? Nem sonhando.

Por Thomas Ricci, 30Giorni

Tradução montfort.org.br

Entrevista com Theobald Beer, 81 anos, um sacerdote católico, autor de um livro que revoluciona a tese mais difundida acerca de Lutero. Dissipou muitos estereótipos: o monge de Wittenberg despreza Santo Agostinho, não é occanista, é contradito por Melanchthon. Mas, o problema real é a sua falsa cristologia.

O trono de José Lortz e seus discípulos, incluindo os eminentes professores, como Erwin Iserloh e Peter Manns, começa a ruir? Sua interpretação de Lutero, durante décadas, considerado o melhor no campo católico, está sofrendo fortes críticas por parte de muitas áreas novas e inexploradas da pesquisa. Um livro em particular, tem feito uma reviravolta de todo o ambiente “luteranófilo” despertando a ira da escola lortziana: se trata de “Der Wechsel und Streit Fröhliche”, “O Intercâmbio e a Feliz Disputa”, lançado na Alemanha Oriental já 1974 e republicado no Ocidente em 1980 por Johannes Verlag, editora suiça dirigida pelo teólogo Hans Urs von Balthasar. O autor é Theobald Beer, um sacerdote católico já ancião, agora com 81 anos, que foi pároco durante quase quarenta anos em Leipzig, desde 1949 cidade da República Democrática Alemã.

Theobald Beer é um personagem singular, simpatissíssimo. Vive sozinho em Regensburg (República Federal da Alemanha), a antiga Ratisbona, Bispado da Baviera Oriental. Ele mora em um apartamento modesto, repleto de livros em todas as paredes, os quais se destacam os volumes da Ausgabe Weimarer de textos de Martinho Lutero. “Eu comprei para meu irmão que morava em Mônaco, no oeste. Eu sei que certamente não poderia pagá-lo”, diz ele, entristecido. Por seu livro recebeu o doutoramento em teologia honoris causa em 1977 na Universidade de Regensburg.

O sr. objeta que Lutero tenha construído uma cristologia falsa. Não é apenas uma acusação gratuita…

Theobald Beer: Não é uma acusação minha. É um fato. Os textos de Lutero sobre esta questão são inequívocos. Num texto de 1509, especificamente as anotações De vera religione di Agostino, Lutero diz: “Cristo é feito (factus) à imagem de Deus, hipostaticamente (ou seja, como uma substância real ndr), mas um acréscimo (additus) a esta”. Bem, os padres da igreja diriam àqueles que afirmassem isso sobre Cristo, anathema sit.
A afirmação de Lutero está, entre outras coisas, em claro contraste com Santo Agostinho, que, ao contrário, argumenta que Cristo é Imago Dei e não factus ad imagem Dei, como se fosse qualquer parte da criação de Deus.

A idéia de um Lutero profundamente “agostiniano” é, portanto, falsa…

Beer: Não resta a menor dúvida. Lutero rejeita Agostinho. Há inúmeras passagens em que ele comenta Santo Agostinho com ironia.

Pois então, quem é Cristo para Lutero?

Beer: Respondo com as palavras do próprio Lutero. Em uma anotação de 1511, ele escreve: “Quando perguntei que coisa – atenção: Lutero não diz quem é Cristo, mas, que coisa é Cristo – lógicamente respondo que ele é pessoa. (Lutero rejeitava a lógica ndr.). O teólogo ao contrário disse: Cristo é a rocha, pedra angular “. Lutero explica o que ele quis dizer com isso. Cristo é a rocha que nos protege da ira de Deus.

Cristo como “função” e não como “pessoa”?

Beer: Exatamente. Lutero faz uso da palavra hipostáse, mas a anula acrescentando a expressão sed additus. Lutero diz abertamente que Cristo não é uma pessoa; sobrando apenas a função de cobertura da ira de Deus. Cessando a “função” também Cristo deixa de ser.

As interpretações em voga na Alemanha são prevalentemente do tipo “histórica”, e particularmente atendendo uma atmosfera ecumênica. Francamente, cheguei a ler uma interpretação “supraconfessional” ou “preconfessional” de Lutero. Ao contrário, o sr. concentra sua análise sobre a cristologia de Lutero, sobre a questão “Quem é Cristo para Lutero”. Por quê?

Beer: A Cristologia é o cerne da questão. A partir da posição que ele assume frente a Cristo, depende todo o resto. Lutero não compreende a profunda unidade presente na encarnação. Em 1508, ele escreveu: “Se dizemos que Cristo é composto (compositus) e se se entende o termo em seu sentido estrito (proprie), então ele está certo. Se, ao contrário, se afirma que Cristo é constituído (constitutus), então ele é falso”. Como se vê, Lutero tende a divisão. Não foi por acaso que um dos seus contemporâneos, Hieronymus Dungersheym, o acusou de arianismo. Também Scbwenckfeld, um nobre da Silésia, que foi inicialmente ligado à Lutero, em um ponto escreveu-lhe: “Seu discípulo Vadian em St. Gallen está sustentando que a humanidade em Cristo é uma adição. Mas isso não está de acordo com o que dizem os padres da Igreja”. O próprio Lutero, em 1511, andava fazendo afirmações como esta: Cristo é feito pelo Pai, nascido pela Mãe.

Como é que ninguém percebeu esses gravíssimos erros cristológicos?

Beer: A pouco se acorda da condição de atribuir a Melanchthon esses erros, que se sabe ter “propagado” Lutero na Alemanha. Na verdade Melanchthon é um humanista cristão que apoia exatamente o oposto de Lutero. Quanto a questão da redenção e da criação, Lutero diz: humanitate nihil cooperande (Yves Congar notou que se trata de uma espécie de monergismo, que equivale a dizer que a humanidade de Cristo não coopera com a justificação), Melanchthon fala ao contrário, de natura conditrix; a natureza humana de Cristo participa da criação. Mas ninguém se preocupa em confrontar os dois autores.
Claro que também há razões bem objectivas que explicam esse atraso. As anotações milequinhentistas de Lutero ficaram à margem de numerosos textos, e só foram descobertos por volta de 1900! E elas são a prova decisiva. Para entendê-las, é necessário também conhecer Santo Agostinho, Pedro Lombardo, Tauler, Gabriele Biel, este último um teólogo excelente. O desconhecimento destes autores é um obstáculo para muitos. O Concílio de Trento não sabia desses textos, ou, de outra forma, Lutero teria sido diretamente condenado.


Seu livro suscitou uma inflamada controvérsia, especialmente nos círculos católicos.

Beer: As revisões críticas que recebi desconsideram a maior parte do que Lutero escreveu sobre o tema da cristologia. Para esses críticos vale o critério que posto que não deve ser, não pode ser. Lutero não pode ter escrito essas coisas a respeito de Cristo: e ainda assim ele o fez. Lutero não poderia ter utilizado fontes neoplatônicas para seu pensamento, mas ainda assim o fez, com a Theologia Deutsch. Lutero não poderia ter feito extensa referência a Hermes Trismegisto: mas isso é exatamente o que ele fez!
Lutero está repleto de referências anti-bíblicas e é estranho que não se queira ver.

E os protestantes, que dizem sobre os especialistas católicos que estudam Lutero?

Beer: Eu poderia citar o nome de proeminentes estudiosos protestantes que têm me perguntado: “mas porque a Igreja Católica deve repetir todos os disparates que fizemos no passado?”. Certa vez, um exegeta protestante me disse: “Quando eu vejo os exegetas católicos que adotam os mesmos princípios que nós havíamos abandonado, me dá um medo infernal. Penso se seremos punidos por isso”.


Com seu livro, o sr. pensa ter dificultado o diálogo ecumênico?

Beer: O verdadeiro ecumenismo eu o conheci em minhas conversas com os protestantes do leste. Além disso, não se pode fazer ecumenismo se nem mesmo se pode falar de Lutero.

T.R.

[De "30 Giorni", ano I, n. 04 de junho de 1983, pp 56-58, apud Contro la leggenda nera]

---> Comentários do Blog:

Já faz um tempo que tenho me espantado cada vez mais com a capacidade que certas pessoas tiveram para esconder a verdadeira face de Lutero. A imagem apresentada dele, como de um bom católico que só queria reformar a Igreja. Hoje muitos historiadores já não consideram o que muitos chamam de "reforma protestante" como uma reforma, e sim uma revolução protestante. Também já se sabe que uma reforma de fato passou a ocorrer antes da "reforma protestante", que erroneamente passou a ser chamada contra-reforma, como se fosse apenas uma reação.

Quando me tornei católico, tinha essa mesma ideia. Deixei de ser protestante pelas evidencias históricas e bíblicas, além da total falta de fundamento do protstantismo (engraçado que quando um católico me falou que o protestantismo não tem fundamento, cheguei a me sentir quase ofendido, tamanha a "arrogância" dele). Achava que pela falta de comunicação e a diferença da velocidade de informações em relação a os tempos atuais, por exemplo, teriam sido uma das principais causas da falta de entendimento. Isso porque a imagem que hoje ainda se apresenta de Lutero, que já está a mudar, era de um bom católico, e suas doutrinas normalmente apresentadas eram bem parecidas com as da Igreja.

Com o tempo vi que varios estudiosos protestantes sabem disso, mas não divulgam, alias, ainda fazem questão de dar a entender a mesma idéia de Lutero como quase um santo.

Infelizmente, vários malabarismos intelectuais têm sido feitos por certas pessoas, com afirmações de que não devemos dar credito em muitas coisas que Lutero disse, pois podem estar descontextualzadas, e que ele passava por muita pressão (tadinho, rs). Ora, é pelo fogo que se prova as obras de cada um. É claro que na época havia um certo perigo em algumas questões, pois boa parte das pessoas viviam com medo do diabo, purgatório, inferno, e assim vai, porém, não esse fato não justifica a defesa de erros teolóticos e blasfêmias. Mesmo que ele pensasse, ora, todos pensam coisas ruin é óbvio, mas porque dizer ou escrever? Isso significa apenas que se pensava e acreditava seriamente nisso.

Pode-se tentar demonstrar as causas, mas não se pode mudar o fato de que ele disse tais coisas absurdas, como citarei no final do comentário. Assim, penso que até mesmo os protestantes (os que forem honestos) devem mostrar de fato como o "reformador" era. Principalmente porque ele não era esse coitado apresentado em filmes e certos livros de "história". Ele teve o apoio de vários poderosos. Em um filme, coitado, enquanto ele estava em um lugar escondido traduzindo a bíblia (que supostamente ninguém lia), houve revoltas que posteriormente foram criticadas por ele. A história de fato mostra que ele incitou várias revoltas.

Enfim, há muito o que se dizer sobre a revolução protestante. Quem se interessar no assunto indico o os livros de Daniel Rops sobre o tema. Deixo, então, algumas poucas (mas fortes) citações de do "Papa" Lutero:.

 "Cristo Adúltero. Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte [do poço de Jacó] de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela?" Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer"


"Deus age sempre como um louco"


"Certamente Deus é grande e poderoso, e bom e misericordioso, e tudo quanto se pode imaginar nesse sentido, mas é estúpido"


“Não devemos ceder aos ímpios papistas (...) Nossa soberba contra o Papa é necessária (...) Não havemos de ceder nem a todos os anjos do céu, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a cem imperadores, nem a mil Papas, nem a todo mundo (...) a ninguém, cedo nulli.” 

domingo, 20 de março de 2011

Testemunha do massacre da igreja de Bagdá, ocorrido em 31 de outubro de 2010

Já havia postado um video sobre esse massacre, mas só hoje vi esse testemunho de alguém que estava lá.

O vídeo que me refiro é esse: http://porquecreio.blogspot.com/2010/11/video-do-massacre-na-catedral-catolica.html

Fica aí registrado para nós, que negamos a Cristo por qualquer tentação:


quarta-feira, 9 de março de 2011

Pretextos da revolução protestante e sua refutação

Bom, já há algum tempo não chamo mais a "reforma" protestante de reforma. De fato ela não foi. Alias, vários protestantes hoje em dia também não chamam mais de reforma, e sim de revolução, como alguns hoje que pregam uma nova revolução protestante, quando criticam (com razão) o que as igrejas evangélicas se tornaram.

Esses dias encontrei na internet um texto bem interessante sobre a "reforma" protestante, e como já faz um tempo que não posto sobre nenhum assunto, resolvi colocar esse texto aqui.

Sugiro também a leitura do livro, que está disponível para download no link que será citado no final do texto.


Pretexto - A Igreja Católica encontrava-se em uma fase de decadência. Os abusos proliferavam. A venda de cargos eclesiásticos, a vida de luxo em que vivia o alto clero, a corrupção de muitos prelados escandalizavam os fiéis. A reforma foi uma reação contra este estado de coisas, com o objetivo de restaurar a Igreja e restabelecer a sua simplicidade primitiva.

Refutação - Descontados todos os exageros apresentados por certos livros de História, lamentavelmente havia na época muitos abusos, e era grande a decadência dos costumes eclesiásticos. A par, aliás, de muita virtude e muita santidade. Entretanto, os historiadores modernos reconhecem que isto não foi verdadeiramente a causa da revolução protestante.

A verdadeira reforma católica, e que corrigiu verdadeiramente os abusos existentes, teve início antes de Lutero começar a difundir os seus erros. Portanto, quando explodiu a Pseudo-reforma, as condições da Igreja haviam melhorado sensivelmente. Os verdadeiros reformadores católicos já haviam iniciado a sua obra regeneradora.

Ademais, a vida corrupta de Lutero e de outros falsos reformadores desmente essa alegação, pois de fato eles contribuíram para aumentar a decadência dos costumes, permitindo a introdução do divórcio e até autorizando a bigamia, além de abolir o celibato eclesiástico.

Finalmente, o que os protestantes atacavam não eram os eventuais abusos, mas a própria instituição hierárquica do clero e o que a doutrina católica tinha de mais essencial. A doutrina de Lutero mostra bem que ele pregava uma nova religião, e não uma reforma na Igreja Católica.


Pretexto - A Bíblia, palavra de Deus, era desconhecida dos fiéis. Os padres escondiam a Bíblia, para impor ao povo simples uma religião que não correspondia aos verdadeiros ensinamentos de Cristo, e assim conservar os seus privilégios pessoais.

Refutação - Em qualquer época histórica, a Igreja recomenda aos fiéis cautela na leitura da Bíblia, dada a grande dificuldade de interpretação de certos textos.

Isto entretanto não significa que naquela época os fiéis não pudessem ler os Livros Sagrados. Muito antes de Lutero, com o desenvolvimento da imprensa, a Bíblia era largamente difundida pelos vários países da Europa. Desde o aparecimento da imprensa até 1520, surgiram 156 edições da Bíblia am latim. Para atender ao público que não entendia o latim, foram feitas numerosas traduções para a língua vernácula. Entre 1466 e 1520 surgiram 22 edições da Bíblia traduzida para o alemão. A primeira tradução italiana surgiu em 1471; a holandesa em 1477; a francesa em 1487; e a espanhola em 1485. A tiragem de cada edição variava de 250 a 1600 exemplares.

Portanto, a afirmação de que foram os protestantes que possibilitaram ao povo a leitura da Bíblia não passa de uma das muitas invenções criadas pelo ódio à Igreja Católica, sem qualquer fundamento histórico.


Pretexto - A Religião, como aliás toda a sociedade humana, é fruto da economia. As grandes transformações econômicas do século XVI tiveram grandes repercussões no terreno religioso, dando origem à reforma protestante.

Refutação - Essa tese corresponde à interpretação marxista da História. O materialismo histórico é que coloca a economia como sendo o eixo em torno do qual giram os acontecimentos humanos.

Se esta tese fosse verdadeira, a reforma protestante deveria ter estourado na Itália, que era sem dúvida a mais "avançada" região européia da época. A Itália prosperava enormemente, e seus homens de negócio manobravam grande parte da economia de então. Basta lembrar o exemplo dos Médicis, para se ter uma idéia do desenvolvimento econômico da Península. A burguesia italiana era uma das mais prósperas e importantes do século XVI. Pelo contrário, a revolução protestante encontrou seus primeiros sucessos na Alemanha, menos desenvolvida economicamente naquele tempo.

Convém lembrar ainda que os grandes homens de negócio, os que manobravam as grandes fortunas, até o século XVII eram em sua maioria católicos.


Pretexto - A reforma foi uma conseqüência da ambição dos príncipes alemães, que queriam apoderar-se dos bens da Igreja e subtrair-se à autoridade do Imperador.

Refutação - É certo que a ambição dos príncipes alemães contribuiu poderosamente para a consolidação e expansão do protestantismo, como também é certo que alguns deles procuraram tirar vantagens políticas e econômicas da luta religiosa. Mas é historicamente certo também que a maioria dos príncipes que apoiaram Lutero agiu por razões religiosas.

Além disso, a posição dos príncipes que apoiavam a revolução protestante não era tão cômoda como parece. Na Alemanha, por exemplo, os príncipes protestantes tiveram que travar uma guerra prolongada com o Imperador Carlos V. Portanto, apoiar os protestantes não era tão vantajoso assim. Inclusive corriam o risco de perderem os próprios bens, em caso de derrota.

Por outro lado, houve na mesma época príncipes católicos que, apesar de perseguir os protestantes, também confiscaram bens eclesiásticos, como foi o caso do Rei Francisco I, da França.

Pretexto - O protestantismo foi fruto da revolta das classes humildes contra as oligarquias eclesiásticas e civis dominantes na época.

Refutação - Esta tese pode ser refutada apenas pela demonstração de que havia protestantes em todas as classes sociais, desde os camponeses até a mais alta nobreza. A parte mais propulsora do protestantismo era precisamente a formada pelo alto clero, alta burguesia e alta nobreza. Basta citar o exemplo da Inglaterra, em que o Rei Henrique VIII, com o apoio do episcopado e da nobreza, levou toda a nação à apostasia.


Pretexto - O Papa Leão X, com o objetivo de conseguir dinheiro para a construção da Basílica de São Pedro, iludia o povo ignorante com a venda de indulgências. Lutero revoltou-se contra isso e procurou esclarecer o povo. Em conseqüência, foi excomungado e expulso da Igreja.

Refutação - Indulgência, no sentido mais amplo da palavra, significa perdão da culpa ou pena merecida. Em linguagem teológica tem sentido mais restrito, e significa o perdão da pena que se deveria sofrer no Purgatório pelos pecados já cometidos, e já perdoados quanto á culpa.

Deus, ao perdoar os pecados, pode reservar-lhe certa pena ou castigo a sofrer no Purgatório. Para evitar essa pena, temos dois modos: um é praticar boas obras na graça de Deus; o outro é alcançar indulgências. Por estas, a autoridade eclesiástica perdoa-nos no todo ou em parte essa pena, aplicando em nosso favor as satisfações de Cristo e dos santos.

Para lucrar as indulgências, além dos requisitos que prescreve quem as concede, é necessário estar na graça de Deus. A doutrina das indulgências sempre foi aceita e posta em prática na Igreja.

O Papa Leão X, para conseguir fundos para a construção da Basílica de São Pedro, concedeu uma indulgência plenária a quem, estando nas disposições necessárias para lucrar a indulgência, entregasse uma esmola para esse fim. Lutero, que não admitia a necessidade da cooperação do homem na obra da salvação, não aceitava a doutrina da Igreja sobre as indulgências. Pode ter havido abusos, mas foi contra a própria doutrina católica a respeito desse ponto que Lutero se revoltou.

Aliás, a "questão das indulgências" foi mero pretexto para a revolta. Vários anos antes, Lutero já defendia e propagava idéias abertamente heréticas. Por detrás da questão das indulgências estava a negação de vários outros pontos doutrinários.

http://www.revolucao-contrarevolucao.com/verartigo.asp?id=26