terça-feira, 19 de abril de 2016
Imperdível: Escapulários Artesanais!
Os escapulários são feitos de lã natural e os tamanhos (além de outras possíveis características) podem ser acertados através do e-mail que está na foto.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
SEDE HOMENS!
Note o que ele já fala daquela época!
* Estas linhas foram escritas a pedido dos jovens bacharéis para o elegante álbum que mandaram imprimir, comemorativo de sua formatura.
Perdoai-me. Mas começo esta minha singela oração – se oração se pode chamar – pecando contra a modéstia que aconselham os preceitos da retórica, se bem que não me pareça pecar contra a modéstia que nos aconselha a ascese cristã. É que, senhores, começo falando de mim mesmo, falando até de um fato íntimo de família: não mo leveis a mal.
Quando fui levado à pia batismal, meu pai, profundamente cristão, querendo, sem dúvida, manifestar a Deus N. S. a sua gratidão por ver aumentada a descendência, e querendo, também, atrair sobre ela as bênçãos do alto, fez o voto de que, para o novo filho, ele havia de escolher um padrinho, não entre seus amigos e conhecidos, pessoas, talvez, de nome, talvez de posição, mas, sim, entre pessoas humildes do povo, um pobre qualquer que a divina Providência lhe deparasse. Chegou, assim, o dia do batismo e fomos à igreja sem padrinho. E foi ali, do meio da turba dos pobrezinhos que recebiam o pão da esmola – era uma terça-feira dedicada a Santo Antônio – que meu pai escolheu aquele de quem fiquei sendo afilhado. Era um homem pobre, de cor até, mas um homem honesto.
Este belo gesto de meu pai – por que não o louvar? – me veio à mente, em toda a grandeza da sua significação, quando, semanas atrás, recebi, lá em Petrópolis, cheio de admiração, o vosso honroso convite, senhores bacharéis, para vir ser seu vosso paraninfo, o vosso padrinho nesta solenidade, em que, qual outro batismo, recebeis a túnica branca, a toga viril, com a qual entrais, jubilosos, na efebia da vossa existência. Sim, distintos jovens, quisestes externar a Deus n. S. a vossa gratidão pelos muitos benefícios recebidos neste primeiro percurso da vossa vida que hoje terminais; quisestes, de certo, atrair as bênçãos do alto sobre a nova fase da vossa existência que iniciais agora e, por isso, este gesto, aliás incompreensível, de, deixando de escolher o vosso paraninfo de entre todos conterrâneos vossos, filhos ilustres deste glorioso Estado, ricos pelos seus merecimentos, ricos pelas suas virtudes, ricos pelo seu saber de posição, fostes buscar, lá ao longe, um pobre de saber, um pobre de virtudes, um pobre sem nome algum, um mendigo de Cristo, um pobre filho do poverelo de Assim.
Gestos assim, tão cheios de nobreza, tão cheios de elevação e generosidade, só os pode ter ou a crença sincera – como meu pai – ou a juventude não corrompida, a juventude radiosa – como vós.
Meus parabéns, queridos afilhados. E nesse vosso gesto eu vejo, esperançoso, uma garantia para a vossa vida futura.
É que entrais nela, não deslumbrados pela grandeza das exterioridades, mas, selando este dia da vossa vitória e do vosso triunfo, com a nota simpática da renúncia, da modéstia e da humildade. Parabéns!
Eis por que, sem vacilar, aceitei o vosso convite que tanto me desvanece: não quisera privar-vos de tão grande merecimento.
E deixai-me que continue na mesma analogia. Assim como eu me contentava com os presentinhos humildes de meu padrinho, feitos por suas próprias mãos, na oficina do seu trabalho, de certo vos contentareis também com o humilde presente que vos trago, feito por minhas próprias mãos, na minha pobre cela, tenda também do meu labutar cotidiano. Eu me contentava, sim, com a insignificâncias daquelas dádivas, porque as via feitas com sinceridade, com boa vontade, com amor. Oh! Isso, meus afilhados caríssimos, deveis, por força, reconhecer também na pequenez do meu presente: a boa vontade, a sinceridade, o amor, com que vo-lo dou. Recebei, pois, guardai nas vossas almas boas, o presente que da minh’alma sai, o desejo grande, o desejo imenso, o desejo infinito, quase, que sinto de concorrer para a vossa verdadeira felicidade, desejo vazado na singeleza desta oração, que é vossa, porque meditada para vós, para vós escrita, em horas que para vós roubei dos meus outros não poucos trabalhos.
E para que este desejo se converta em esplêndida realidade, eis um conselho – pois, sem dúvida, esperais um conselho do vosso paraninfo – eis um conselho, um só, para que o graveis, profundamente, nas vossas almas moças, e nelas possais medir, com coragem e ânimo, as suas exigências fortes e suaves, e, para que não haja desfalecimentos, as suas conseqüências e seus frutos ubérrimos também.
Afilhados da minh’alma, ouvi-me:
SEDE HOMENS!
***
Quando o jovem romano deixava solenemente a toga pretesta, orlada de púrpura, e envergava – cheio de si – a veste inteiramente cândida, a toga viril – que hoje recebeis – dizia-se, então: é homem!
Não serei eu, vosso paraninfo, paraninfo sincero, quem fomente a vossa possível vaidade, própria dos vossos anos, dizendo-vos: sois homens!
Não, queridos afilhados, perdoai-me, não sois homens ainda. Hoje é que começais a tornar-vos homens.
É verdade, o trabalho da vossa educação propriamente dita hoje se conclui. A educação que recebestes, quer na tranqüilidade suavíssima do lar, de uma mãe extremosa, de um pai vigilante, quer no convívio mais agitado do ginásio, dos vossos superiores e mestres capacíssimos, recebe, neste momento, a sua coroa.
Permiti-me, por isso, um parêntesis: Pais e mães que me ouvis – e que aos ausentes chegue a minha voz – superiores e mestres, receei os meus parabéns por este vosso trabalho importantíssimo que hoje findais. Recebei também os meus agradecimentos, pois à educação forte e suave que soubestes dar aos vossos folhos e discípulos é que devo esta brilhante turma de afilhados, que é, hoje, o meu orgulho.
E continuemos. Mas começa agora – digo começa, não porque só agora deva ter o seu início, mas, porque, isolada, vem mais à luz a sua importância – começa, agora, repito, outra educação muito mais valiosa, porque só de vós depende, a educação que vós deveis dar a vós mesmos. Sim, é esta auto-educação, da qual, infelizmente, se fala tão pouco à mocidade que entra na vida, que vos levará, afilhados queridos, à plenitude da virilidade.
E eu tremo! Não mo leveis a mal, meus afilhados, é um sinal de que vos quero bem. Eu tremo! Pois em que meio há de se realizar essa auto-educação? Eu tremo. Perdoai-me a minha fraqueza, se fraqueza é. Pois eu tremo, como treme o agricultor, que transplanta do viveiro recatado para o campo aberto o jovem cedro, que ficará ali exposto a chuvas demasiadas, capazes de lhe apodrecer as raízes; exposto aos raios inclementes do sol, que o podem ressecar; exposto à violência dos vendavais, que o podem abater. Entretanto o agricultor sabe a riqueza de seiva que se esconde no cedrozinho; sabe que ali está, em potência, um cedro gigantesco que pode afrontar, vitorioso, uma existência de séculos, e abrigar, sob sua opulenta fronte, gerações e gerações de homens.
Eu também sei, afilhados meus amigos, que riqueza de seiva forte, de seiva vigorosa em vós se oculta. Eu também sei que em vós existe latente o homem completo, capaz de afrontar, vitorioso, os vendavais da vida, capaz de abrigar sob a ramaria de seus préstimos e de suas realizações, boas porções da humanidade.
Eu sei tudo isso, e, entretanto, eu tremo, porque sei também que, jovens cedros, sois transplantados para o campo aberto da vida, nas grandes cidades, com os seus perigos e seduções; nas academias, cujo ambiente, em geral, não será favorável ao vosso desenvolvimento. Pois ali encontrareis – por que não o dizer e o dizer francamente? – ao lado de muito mestre competente, de muito mestre digno, de muito mestre mestre, o mestre mercenário, o mestre indigno, o mestre satã, cujo maior prazer será roubar ou perturbar, ao menos, a vossa fé; destruir ou abalar, ao menos, os vossos princípios sobre a moral, sobre a justiça, sobre a liberdade, sobre a família, e que, em troca, com um riso diabólico de uma vitória fácil e inglória, vos entregará ao vosso próprio e deplorável atrofiamento. E como se não bastasse, encontrareis ainda no campo aberto onde deveis medrar e crescer – salvo honrosas exceções, que, seja dito a bem a verdade, são cada vez mais numerosas – a turba multa de colegas sem escrúpulos que vos hão de empurrar, se não pela estrada larga da perdição completa, ao menos pela estrada batida e, por isso, estéril, em que se anda uma vida fôrra de qualquer obrigação, fôrra de qualquer responsabilidade, como se esta existência fosse uma pândega perene.
Encontrareis ainda o perigo dos livros que a vossa opinião, já então abalada da liberdade, vos dará licença de os ler todos; assim como o louco que julgasse ter liberdade de examinar, por própria experiência, numa drogaria, todas as poções, para ver quais as salutares, quais as venenosas. Encontrareis o cinema e o teatro modernos, na sua missão corruptora. Eis o campo aberto em que deveis medrar e crescer. E eu tremo!
É preciso que um sol benéfico, que um sol amigo ilumine o vosso transplantio e então vós, queridos afilhados, hoje, jovens cedros, sereis amanhã os cedros gigantescos, os homens completos que eu em vós desejo ver.
E este sol amigo, este sol desenvolvedor de energias, realizador de esperanças, é o IDEAL que deve iluminar a vossa vida.
Levantai a vossa fronte, na qual se vê estampada a grandeza da vossa raça, a grandeza dos vossos destinos; levantai-a para um ideal digno de vós, e haveis de vencer, haveis de vos desenvolver, haveis de vos tornar homens completos que eu para vós sonho, afilhados da minh’alma.
“Uma mocidade sem ideal é uma mocidade morta”, já escreveu alguém. Sede idealistas, no sentido sadio da palavra. “O ideal – o pensamento é de um escritor castelhano – é uma terra de promissão, com que se sonha através do deserto da vida. Como o sol, ele ilumina os nossos passos e infunde, com seu fogo, calor à existência. O homem sem ideal é um autômato, que se move e fala no cenário da vida, mas sem alma. O ideal pode às vezes enganar, mas estimula sempre. A apatia não corre risco de fracasso, por ser uma árvore sem frutos. Mas Jesus, ao se lhe deparar uma figueira sem figos, amaldiçoou-a. O homem sem ideal é também uma planta estéril. Quem corre atrás de um ideal há de lutar a cada passo, porém a luta é sinal de vida. A indiferença, inimiga de qualquer cometimento, sempre diz: Basta! O ideal, móvel de todo o progresso, sempre diz: Avante! E, por isso, a ciência é o ideal que engendra os sábios; a beleza, o ideal que faz surgir os artistas; a pátria, o ideal que forja os heróis; a religião, o ideal que inspira os Santos”. E o grande Pasteur dizia: “Feliz o homem que, tendo um ideal, consegue dedicar-se-lhe inteiramente”.
Saí, meus amigos, para o deserto da vida, guiados pela coluna luminosa de um ideal, ela vos há de guiar, com segurança, à Canaã suspirada da vossa felicidade.
E o vosso ideal, já vo-lo disse, é serdes homens. Ideal amplo, não há dúvida, que abrange em si todas as vossas nobres possibilidades, todas as vossas aspirações dignificantes.
Sede homens!
***
E se não levais a mal que eu analise convosco este ideal sublime que é, por assim dizer, o fim mesmo da nossa missão cá na terra, eu vos direi:
SEDE HOMENS DE CORAÇÃO! - Homens que não conhecem somente a força, a dureza, o despotismo, mas que sabem exercer a brandura, a amabilidade, o amor, contudo sem sentimentalismo. Oh! se os homens experimentassem a força prodigiosa que se esconde na, assim chamada, fraqueza de coração! Quão diversas seriam as relações da sociedade. Educai o vosso coração! Não permitais que a brutalidade lhe abafe as vozes e as exigências. Sabei, sempre, amar com ternura, com carinho, vossos pais, irmãos, e todos os que vos rodeiam. Não vos envergonheis nunca de acariciar a criancinha, o pobre, de estender a mão ao mendigo; e, se preciso for, de abraçar o vosso empregado, o vosso operário. A isto não se chama descer, mas subir. Sede o esteio da fraqueza da mulher, o bastão da velhice. Amais os homens como irmãos, segundo o preceito de Cristo, e passai por este mundo, semeando o bem. Educai o vosso coração, ou, melhor, não sofrais que ele se perverta, pois eu sei que ele é bom. Interessai-vos pelas classes pobres, pelas classes que trabalham. Tratai-as, desde já, com simpatia, com amor, para que elas não procurem, revoltadas, fazer justiça pelas suas próprias mãos. Diversidade de classes, havê-la-á sempre, mas o que não é preciso haver é esta inimizade e ódio que as separam. Afilhados meus, talvez não avaliais bastante a importância deste conselho, entretanto, se houvesse mais homens de influência que fossem homens de coração, estariam resolvidos muitos dos problemas sociais que preocupam os que pensam. Lembrai-vos de um Ozanam, revolucionando pelo seu grande coração, cheio de caridade, os meios universitários de Paris.
Mas o vosso dever sobretudo, afilhados caríssimos, SEDE HOMENS DO DEVER! Por ele sacrificai as vossas comodidades, os vossos interesses, o vosso egoísmo. Para ele educai-vos com generosidade. O cumprimento do dever perpasse como um fio de aço que não conhece ruptura, por toda a vossa existência, quer estejais sós, quer na família, quer na sociedade. O dever que custa, que mortifica, que aborrece, que martiriza e que mata até, deveis abraçá-lo sem hesitação. Nunca, meus amigos, brincar com o dever. Oxalá ressoe sempre, aos vossos ouvidos, no momento da dificuldade, a voz providencial de um outro Barroso: “A família, a pátria, Deus n. S., esperam que cada um cumpra o seu dever!” A obediência a esta voz nos levará, com certeza, a um outro Riachuelo humilde, desconhecido, como o afluente do Paraná – pois é o dever que mais custa o que por ninguém é observado – onde alcançareis a ivtória gloriosa. Oxalá nunca transijais com este imperativo das vossas consciências bem formadas, para que, na hora suprema, possais exclamar em verdade como o heróis de Trafalgar: “Louvado seja Deus! Cumpri sempre o meu dever!”.
Em última análise, meus amigos, é a voz da consciência que toma partido pelo dever. Mesmo quando por ignorância ou fraqueza ela se cala e somos admoestados pela voz de um superior ou de um amigo, é a consciência ainda que nos diz da legitimidade desta admoestação. Pois bem, a voz da consciência pode soar em vão, por poderosa que seja, quando falta ao homem uma vontade enérgica, decidida. Eis por que vos digo: SEDE HOMENS DE VONTADE! Sede homens de energia! Com ela, sereis um forte, um onipotente quase! Educai a vossa vontade, este presente régio com que Deus vos enriqueceu liberalmente. Fortificai-a cada vez mais: ela será capaz de milagres. Que não conseguiam os grandes homens à força de uma vontade férrea? Um Francisco de Sales de temperamento colérico que, pela energia em se vencer e dominar, chega a parecer o homem mais pacato do mundo. Um Elihu Burrit, aprendiz de ferreiro, que, aos 16 anos, resolveu realizar um milagre de força de vontade, consagrando ao estudo das línguas todo o minuto livre que lhe dava a forja ou a bigorna. E, assim, conseguiu aprender 18 línguas e mais de 30 dialetos. – Não foi a força de vontade que transformou Abraam Lincoln de carpinteiro e moleiro, que fora, até aos 20 anos, no grande presidente que pacificou o país e libertou do jugo da escravidão mais de 4 milhões de homens? Lede a vida do nosso grande Mauá; é uma escola de vontade, de energia. Abri o hagiológio cristão: cada página vos prega energia, cada página vos prega força de vontade.
E vendo-vos, cheios de vontade decidida e enérgica, necessário é que eu ponha em movimento esse moinho maravilhoso e vos diga também: SEDE HOMENS DE AÇÃO.
Ação! Ação! Eis o grito moderno levado até ao exagero pela filosofia de Nietzsche, em contraposição ao nirvana do pessimismo de Shopenhauer. Ação! Ação! Trabalho, atividade, também vos digo eu, meus afilhados, mas no sentido razoável da palavra. “Já é hora de surgir do sono” exclamar-vos-ei com São Paulo, principalmente hoje, quando todas as potências do mal estão em plena atividade, procurando subverter os últimos fundamentos da sociedade bem formada. Trabalhai em todas as modalidades possíveis do bem.
Não digamos com o budista “que todo o mal vem da ação”; digamos, antes, que todo o mal vem da indolência, da inércia, e acrescentemos com Cristo: “Meu Pai celeste sempre opera e eu não cesso de operar!”
O poeta árabe Imuru, querendo ouvir a pinião do ídolo Tebala, sobre certo empreendimento, tirou, diante dele, três vezes, a sorte, mas por três vezes ouviu a resposta: nada faças, descansa! – indignado o poeta, que se lhe aconselhasse a inércia quando ele queria operar, segurou os dados e os arremessou brutalmente na cara do ídolo. Não há perigo, meus afilhados, de que os nossos deuses aconselhem a indolência, quando tudo nos clama pela ação. Aí está a ação católica – para falar de uma só modalidade – alastrando-se por todo o mundo, já com frutos prometedores. Fazei vossas as palavras daquele admirável aviador francês J. D’Armoux, cuja vida é um exemplo para a mocidade moderna: “quero – escrevia ele, paralítico em uma cama – dois ritmos na vida: a suprema intensidade no trabalho e o ardor contínuo, mas sereno, a todas as horas do dia.” Fazei vossa a oração deste jovem herói: “Meu Deus, dai-me horror aos minutos perdidos!”
Mas para que a vossa atividade, a vossa ação sejam proveitosas, devo dizer-vos também:
SEDE HOMENS DE CONCENTRAÇÃO. – Sem a concentração e a reflexão que lhe é afim, o vosso trabalho seria prejuízo, e vós dispersaríeis forças de vossa alma que, unidas, operam maravilhas. Sede homens de concentração, homens de pensamento, nesta época dissipada, superficial e frívola em que vivemos. Esta concentração dos antigos resumiam naquela frase concisa: Age quod agis – Faze bem e inteiramente o que estás fazendo. E com esta consideração é que compreendemos como na idade média, apesar de faltarem todos estes meios sem número que auxiliam os que se dedicam à atividade intelectual nos nossos dias, havia, contudo, homens da envergadura de um Alberto Magno, de um Boaventura, de um Aquino, espíritos gigantes, cujo saber provoca admiração até dos sábios modernos. É que – como escreve Krier – o silêncio, a solidão, a união com Deus e uma vida ilibada davam-lhes ao espírito forças e asas para se levantarem dos seus manuais, poucos e deficientes, às regiões elevadas do saber. – Quem está concentrado, reflete. E Rui Barbosa dizia que o estudo é útil, somente, quando, pela reflexão, se assimila a matéria, quando ela se transforma em propriedade nossa. – Fazei como Balmes, o grande filósofo espanhol, que, durante o estudo, envolvia sua cabeça na ampla capa e, assim velado, ficava largos intervalos, a meditar sobre o que lera. Depois descobria-se e, como de um outro mundo de idéias, voltava para a atividade da vida. Meus afilhados, sede homens de pensamento, homens de concentração – em qualquer carreira que seguirdes – e vereis que de revelações, que de forças novas haveis de perceber nas vossas almas, e como vos sentireis com animo de vos aproveitar delas.
E mostrando-vos um ideal tão elevado do homem completo, nem me sinto com a coragem de vos chamar a atenção para uma faceta desta integridade a que aspirais.
Não, não vos direi – por me parecer desnecessário – que deveis ser HOMENS DE MORAL IRREPREENSÍVEL. Não vos direis que deveis detestar o vício que mata a felicidade, dando em troca um gozo baixo e passageiro. Não vos direi que deveis detestar o vício que destrói a energia, degrada a virilidade e a robustez do homem, e, por conseguinte, das nações. Não vo-lo direi – porque já o sabeis – que é justamente neste ponto que se mostra o verdadeiro homem, o homem de energia, que tem força para vencer as suas paixões e apetites inconfessáveis.
Sabeis muito bem – não é necessário que eu vo-lo lembre – que pertenceis ao sexto forte, e que deveis mostrar a vossa força respeitando o fraco.
O homem que se dix do sexo forte, mas que se deixa escravizar pelas seduções – quando criminosas – do sexo fraco, a que sexo pertencerá?!
Cercai de veneração a mulher, caros afilhados, para que um dia possais encontrar uma mulher digna de vós. Lembrai-vos de que tendes uma irmã, uma mãe, para as quais exigis, com razão, o respeito dos outros. E se não puderdes cercar de respeito a toda e qualquer mulher, cercai-a, ao menos, de compaixão. Não vos esqueçais do protótipo da mulher, a Imaculada, sob cujo manto fostes educados. Com estes princípios firmes, sereis vós colunas inabaláveis da nossa querida família brasileira, que na hora presente ameaça ruir.
E hoje se fala tanto em patriotismo, que pareceria uma falta, se eu não vos dissesse também:
SEDE HOMENS DA PÁTRIA! – Sim, caros afilhados, sede brasileiros e sereis lídimos patriotas, patriotas, daqueles que servem a pátria e não daqueles – infelizmente legiões – que são por elas servidos; patriotas dos que enriquecem a pátria e não dos que, às multidões, são enriquecidos por ela. Sede patriotas dos que sabem defender os interesses da pátria e não dos que, sob o manto do patriotismo, defendem os próprios interesses. Sacrificai-vos pela pátria, mas não sofrais que ela seja por vós sacrificada.
Sede patriotas! Mas o patriotismo, em vossa idade, consiste, como já disse d. Aquino Correia, principalmente em valorizardes a porção do Brasil que sois vós mesmos. Sabei ser brasileiros, sabei ser grandes, para que não desmereçais a grandeza do Brasil.
E eu, no meu justo desvanecimento de padrinho que vos ama, já me transporto ao futuro, onde vos vejo – engenheiros, médicos, advogados, militares e que sei mais? – cumprindo galhardamente, como homens completos, a vossa missão.
Mas, não vos comparei ao cedro? E o cedro secular e o cedro gigantesco não conhece, enfim, o seu declínio? Falta-lhe seiva, falta-lhe força e, um dia, o gigante tomba na estrada, ficando apenas o atestado de uma grandeza que passou. Será este o vosso destino? Oh! não – exclamareis com o poeta pagão, na consciência da vossa grandeza – “non omnis moriar!” eu não morrerei inteiramente. Emudecerá a minha vós, meus ouvidos fechar-se-ão, meus olhos deixarão de brilhar, minhas mãos se tornarão intertes, meu coração já não pulsará e eu tombarei sobre a estrada da vida. Contudo, non omnis moriar! Não morrerei inteiramente! Alguma coisa que em mim pensa, que em mim reflete, que em mim quer, que em mim sente, que em mim odeia, que em mim ama, há de se desprender de mim e, alçando o vôo, voltar para a sua origem divina donde saiu.
É por isso que eu vos digo, afilhados meus, em último lugar: SEDE HOMENS DE FÉ! De fé luminosa, de fé esclarecida, de fé racional, de fé operosa. Vivei esta fé integralmente – sem desânimo, sem respeito humano – na vossa vida particular, na vossa vida pública. Eu quisera neste instante (e é a primeira vez que me vem este desejo) despir, por momentos, este meu hábito que tanto me orgulho, para não parecer sermão este meu conselho. Falo-vos como homem que raciocina, que reflete.
Deus é a maior realidade, diante da qual não se pode passar indiferente, dizia há pouco, diante da assembléia ilustre, o nosso ilustre amigo Tristão de Ataíde, o grande apóstolo leigo da nossa terra. Para com este Deus, quer queiramos, quer não, nós temos as nossas obrigações, das quais devemos prestar contas, um dia. Procurar conhecê-las e realizá-las, eis a tarefa do homem. Que só o pode elevar e enobrecer. Não vos esqueçais – gravai profundamente nas vossas almas grandes – que a religião é, em primeiro lugar, uma exigência da razão e não do coração, como, com desprezo, se diz. Tirai daí as conseqüências.
Afilhados da minh’alma. Afilhados que eu estimo, que eu desejo inteiramente felizes, quando a luz da ciência, a luz da amizade, a luz da glória, a luz da fama, a luz do prazer começarem a perder o brilho diante do vosso olhar baço, oh, então brilhe mais radiosa ainda a luz da vossa fé, conservada e vivida generosamente, durante toda a vossa vida, iluminando naquele momento supremo a senda da felicidade eterna.
Sem esta fé, podereis, talvez, ser grandes homens, mas de uma grandeza perecedora; nunca, porém, homens completos, cuja grandeza não pode perecer.
E se quereis, por fim, o vosso modelo, o vosso guia, eu repetirei a frase lapidar e inspirada do governador romano Pôncio Pilatos, frase cujo sentido profundo ele mesmo, no seu apoucamento, não podia compreender:
ECCE HOMO! – Eis o Homem por excelência, o Homem perfeito, o protótipo de todo homem: Jesus Cristo, nosso Senhor! O Homem de coração divino; o Homem do dever e da vontade até ao sacrifício supremo; o Homem que realizou o maior trabalho neste mundo, reformando-o; o Homem de pensamento criador de maravilhas; o Homem, contra cuja vida pura nunca puderam dizer coisa alguma os seus próprios inimigos; o Homem que soube, sem alardes, amar a sua pátria, que soube amar a Deus n. S., seu Pai. – ECCE HOMO! Eis o Homem! – Segui-o, afilhados meus, e atingireis a idade do homem perfeito, do homem completo de que fala o grande apóstolo São Paulo.
E termino, como comecei.
Quando eu recebia os presentes pobres de meu padrinho pobre – um carrinho de madeira, um cavalinho de pau, um banco, ou qualquer outra bagatela – ficava esquecido, horas inteiras, a brincar com eles, a examiná-los, tirando dali proveito para minha idade infantil.
Meus afilhados, eu não me iludo: o presente que vos dou – esta minha pobre oração – é bem humilde e modesto. É um presente pobre de um padrinho pobre.
Mas não vos esqueçais do amor e da sinceridade com que vo-lo dou. Por isso mais tarde, nas horas de lazer, em meio de vossa vida agitada de acadêmicos, tomais nas vossas mãos – assim como eu fazia em pequeno – o presente do vosso padrinho, que é um pedaço do seu coração, examinai-o e, talvez, com a experiência que então vos tiver dado a vida e com a vossa boa vontade, achareis nele algum estimulo que ajudar vos possa a conseguir, sem desfalecimentos, o vosso sublime ideal.
E, então – é de novo o meu justo orgulho de paraninfo que fala (pois a minha missão não termina com estas palavras, antes começa: levarei os vossos nomes, um por um, no breviário de minhas orações, onde, cotidianamente, vos recomendarei a Deus n. S., seguindo, com interesse todos os passos, lutas e triunfos da vossa vida) – e, então, repito, quando novos Diógenes, de lanterna em mão, procurarem pelo Brasil a fora, homens, homens completos dos quais a família, a pátria e a religião precisam, 37, com toda a certeza – a minha confiança e esperança em vós mo dizem – ao menos 37 homens completos, da nova geração, se hão de encontrar, que sois vós, distintos bacharéis de 1932, do Ginásio de Santo Antônio, de S. João Del-Rei, vós, minha alegria, vós, meu orgulho, vós, minha coroa.
Afilhados da minh’alma, ouvi-me:
SEDE HOMENS!
Meus afilhados
Exigis do padrinho pobre, que tanta coisa já vos disse no dia do vosso batismo glorioso, algumas linhas ainda, algum pensamento, algum conselho para vosso “Álbum”. Não posso dizer que não a afilhados que tanto estimo e dos quais me orgulho tanto.
Mas que conselho vos darei ainda?
Pois bem, afilhados meus amigos – é quase um corolário de tudo o que vos disse – conservai sempre a vossa liberdade. Longe de vós qualquer escravidão que avilta o homem que o degrada sempre.
Mas, entendei bem – eu vo-lo peço – em que consiste a liberdade verdadeira.
Nunca a confundais com a liberdade – se liberdade se pode chamar – que gozam as feras nas florestas ou os loucos pelas estradas.
Sede livres, mas da liberdade que gozam os verdadeiros filhos de Deus, que não são escravos da carne nem do orgulho, que não são escravos da ira ou da indolência, que não são escravos da adulação, que não são escravos do dinheiro, nem de um partido, nem do respeito humano, mas que só se submetem, e livremente, à razão, à autoridade, a Deus n. S., certos de que é essa tríplice sujeição que lhes dará a verdadeira liberdade que eleva o homem e que o dignifica também.
Sede livres, afilhados de minh’alma, para que possais voar, como a águia, às alturas maravilhosas da felicidade, que eu tão deveras vos desejo.
Mas se algum dia, desgraçadamente – o que não espero, nem posso imaginar – algum de vós, por fraqueza ou por descuido, cair num aduar de modernos muros, ficai sabendo todos que o vosso padrinho, como aqueles frades brancos das Mercês, não poupará canseiras, nem orações, nem sacrifícios, nem a própria vida, para comprar ao cativo a sua carta de alforria.
Crede, queridos afilhados, na amizade sincera de vosso padrinho.
Frei Henrique G. Trindade, O. F. M.
Petrópolis, 28/11/1932.
***
* Estas linhas foram escritas a pedido dos jovens bacharéis para o elegante álbum que mandaram imprimir, comemorativo de sua formatura.
SEDE HOMENS!
Quando fui levado à pia batismal, meu pai, profundamente cristão, querendo, sem dúvida, manifestar a Deus N. S. a sua gratidão por ver aumentada a descendência, e querendo, também, atrair sobre ela as bênçãos do alto, fez o voto de que, para o novo filho, ele havia de escolher um padrinho, não entre seus amigos e conhecidos, pessoas, talvez, de nome, talvez de posição, mas, sim, entre pessoas humildes do povo, um pobre qualquer que a divina Providência lhe deparasse. Chegou, assim, o dia do batismo e fomos à igreja sem padrinho. E foi ali, do meio da turba dos pobrezinhos que recebiam o pão da esmola – era uma terça-feira dedicada a Santo Antônio – que meu pai escolheu aquele de quem fiquei sendo afilhado. Era um homem pobre, de cor até, mas um homem honesto.
Este belo gesto de meu pai – por que não o louvar? – me veio à mente, em toda a grandeza da sua significação, quando, semanas atrás, recebi, lá em Petrópolis, cheio de admiração, o vosso honroso convite, senhores bacharéis, para vir ser seu vosso paraninfo, o vosso padrinho nesta solenidade, em que, qual outro batismo, recebeis a túnica branca, a toga viril, com a qual entrais, jubilosos, na efebia da vossa existência. Sim, distintos jovens, quisestes externar a Deus n. S. a vossa gratidão pelos muitos benefícios recebidos neste primeiro percurso da vossa vida que hoje terminais; quisestes, de certo, atrair as bênçãos do alto sobre a nova fase da vossa existência que iniciais agora e, por isso, este gesto, aliás incompreensível, de, deixando de escolher o vosso paraninfo de entre todos conterrâneos vossos, filhos ilustres deste glorioso Estado, ricos pelos seus merecimentos, ricos pelas suas virtudes, ricos pelo seu saber de posição, fostes buscar, lá ao longe, um pobre de saber, um pobre de virtudes, um pobre sem nome algum, um mendigo de Cristo, um pobre filho do poverelo de Assim.
Gestos assim, tão cheios de nobreza, tão cheios de elevação e generosidade, só os pode ter ou a crença sincera – como meu pai – ou a juventude não corrompida, a juventude radiosa – como vós.
Meus parabéns, queridos afilhados. E nesse vosso gesto eu vejo, esperançoso, uma garantia para a vossa vida futura.
É que entrais nela, não deslumbrados pela grandeza das exterioridades, mas, selando este dia da vossa vitória e do vosso triunfo, com a nota simpática da renúncia, da modéstia e da humildade. Parabéns!
Eis por que, sem vacilar, aceitei o vosso convite que tanto me desvanece: não quisera privar-vos de tão grande merecimento.
E deixai-me que continue na mesma analogia. Assim como eu me contentava com os presentinhos humildes de meu padrinho, feitos por suas próprias mãos, na oficina do seu trabalho, de certo vos contentareis também com o humilde presente que vos trago, feito por minhas próprias mãos, na minha pobre cela, tenda também do meu labutar cotidiano. Eu me contentava, sim, com a insignificâncias daquelas dádivas, porque as via feitas com sinceridade, com boa vontade, com amor. Oh! Isso, meus afilhados caríssimos, deveis, por força, reconhecer também na pequenez do meu presente: a boa vontade, a sinceridade, o amor, com que vo-lo dou. Recebei, pois, guardai nas vossas almas boas, o presente que da minh’alma sai, o desejo grande, o desejo imenso, o desejo infinito, quase, que sinto de concorrer para a vossa verdadeira felicidade, desejo vazado na singeleza desta oração, que é vossa, porque meditada para vós, para vós escrita, em horas que para vós roubei dos meus outros não poucos trabalhos.
E para que este desejo se converta em esplêndida realidade, eis um conselho – pois, sem dúvida, esperais um conselho do vosso paraninfo – eis um conselho, um só, para que o graveis, profundamente, nas vossas almas moças, e nelas possais medir, com coragem e ânimo, as suas exigências fortes e suaves, e, para que não haja desfalecimentos, as suas conseqüências e seus frutos ubérrimos também.
Afilhados da minh’alma, ouvi-me:
SEDE HOMENS!
***
Quando o jovem romano deixava solenemente a toga pretesta, orlada de púrpura, e envergava – cheio de si – a veste inteiramente cândida, a toga viril – que hoje recebeis – dizia-se, então: é homem!
Não serei eu, vosso paraninfo, paraninfo sincero, quem fomente a vossa possível vaidade, própria dos vossos anos, dizendo-vos: sois homens!
Não, queridos afilhados, perdoai-me, não sois homens ainda. Hoje é que começais a tornar-vos homens.
É verdade, o trabalho da vossa educação propriamente dita hoje se conclui. A educação que recebestes, quer na tranqüilidade suavíssima do lar, de uma mãe extremosa, de um pai vigilante, quer no convívio mais agitado do ginásio, dos vossos superiores e mestres capacíssimos, recebe, neste momento, a sua coroa.
Permiti-me, por isso, um parêntesis: Pais e mães que me ouvis – e que aos ausentes chegue a minha voz – superiores e mestres, receei os meus parabéns por este vosso trabalho importantíssimo que hoje findais. Recebei também os meus agradecimentos, pois à educação forte e suave que soubestes dar aos vossos folhos e discípulos é que devo esta brilhante turma de afilhados, que é, hoje, o meu orgulho.
E continuemos. Mas começa agora – digo começa, não porque só agora deva ter o seu início, mas, porque, isolada, vem mais à luz a sua importância – começa, agora, repito, outra educação muito mais valiosa, porque só de vós depende, a educação que vós deveis dar a vós mesmos. Sim, é esta auto-educação, da qual, infelizmente, se fala tão pouco à mocidade que entra na vida, que vos levará, afilhados queridos, à plenitude da virilidade.
E eu tremo! Não mo leveis a mal, meus afilhados, é um sinal de que vos quero bem. Eu tremo! Pois em que meio há de se realizar essa auto-educação? Eu tremo. Perdoai-me a minha fraqueza, se fraqueza é. Pois eu tremo, como treme o agricultor, que transplanta do viveiro recatado para o campo aberto o jovem cedro, que ficará ali exposto a chuvas demasiadas, capazes de lhe apodrecer as raízes; exposto aos raios inclementes do sol, que o podem ressecar; exposto à violência dos vendavais, que o podem abater. Entretanto o agricultor sabe a riqueza de seiva que se esconde no cedrozinho; sabe que ali está, em potência, um cedro gigantesco que pode afrontar, vitorioso, uma existência de séculos, e abrigar, sob sua opulenta fronte, gerações e gerações de homens.
Eu também sei, afilhados meus amigos, que riqueza de seiva forte, de seiva vigorosa em vós se oculta. Eu também sei que em vós existe latente o homem completo, capaz de afrontar, vitorioso, os vendavais da vida, capaz de abrigar sob a ramaria de seus préstimos e de suas realizações, boas porções da humanidade.
Eu sei tudo isso, e, entretanto, eu tremo, porque sei também que, jovens cedros, sois transplantados para o campo aberto da vida, nas grandes cidades, com os seus perigos e seduções; nas academias, cujo ambiente, em geral, não será favorável ao vosso desenvolvimento. Pois ali encontrareis – por que não o dizer e o dizer francamente? – ao lado de muito mestre competente, de muito mestre digno, de muito mestre mestre, o mestre mercenário, o mestre indigno, o mestre satã, cujo maior prazer será roubar ou perturbar, ao menos, a vossa fé; destruir ou abalar, ao menos, os vossos princípios sobre a moral, sobre a justiça, sobre a liberdade, sobre a família, e que, em troca, com um riso diabólico de uma vitória fácil e inglória, vos entregará ao vosso próprio e deplorável atrofiamento. E como se não bastasse, encontrareis ainda no campo aberto onde deveis medrar e crescer – salvo honrosas exceções, que, seja dito a bem a verdade, são cada vez mais numerosas – a turba multa de colegas sem escrúpulos que vos hão de empurrar, se não pela estrada larga da perdição completa, ao menos pela estrada batida e, por isso, estéril, em que se anda uma vida fôrra de qualquer obrigação, fôrra de qualquer responsabilidade, como se esta existência fosse uma pândega perene.
Encontrareis ainda o perigo dos livros que a vossa opinião, já então abalada da liberdade, vos dará licença de os ler todos; assim como o louco que julgasse ter liberdade de examinar, por própria experiência, numa drogaria, todas as poções, para ver quais as salutares, quais as venenosas. Encontrareis o cinema e o teatro modernos, na sua missão corruptora. Eis o campo aberto em que deveis medrar e crescer. E eu tremo!
É preciso que um sol benéfico, que um sol amigo ilumine o vosso transplantio e então vós, queridos afilhados, hoje, jovens cedros, sereis amanhã os cedros gigantescos, os homens completos que eu em vós desejo ver.
E este sol amigo, este sol desenvolvedor de energias, realizador de esperanças, é o IDEAL que deve iluminar a vossa vida.
Levantai a vossa fronte, na qual se vê estampada a grandeza da vossa raça, a grandeza dos vossos destinos; levantai-a para um ideal digno de vós, e haveis de vencer, haveis de vos desenvolver, haveis de vos tornar homens completos que eu para vós sonho, afilhados da minh’alma.
“Uma mocidade sem ideal é uma mocidade morta”, já escreveu alguém. Sede idealistas, no sentido sadio da palavra. “O ideal – o pensamento é de um escritor castelhano – é uma terra de promissão, com que se sonha através do deserto da vida. Como o sol, ele ilumina os nossos passos e infunde, com seu fogo, calor à existência. O homem sem ideal é um autômato, que se move e fala no cenário da vida, mas sem alma. O ideal pode às vezes enganar, mas estimula sempre. A apatia não corre risco de fracasso, por ser uma árvore sem frutos. Mas Jesus, ao se lhe deparar uma figueira sem figos, amaldiçoou-a. O homem sem ideal é também uma planta estéril. Quem corre atrás de um ideal há de lutar a cada passo, porém a luta é sinal de vida. A indiferença, inimiga de qualquer cometimento, sempre diz: Basta! O ideal, móvel de todo o progresso, sempre diz: Avante! E, por isso, a ciência é o ideal que engendra os sábios; a beleza, o ideal que faz surgir os artistas; a pátria, o ideal que forja os heróis; a religião, o ideal que inspira os Santos”. E o grande Pasteur dizia: “Feliz o homem que, tendo um ideal, consegue dedicar-se-lhe inteiramente”.
Saí, meus amigos, para o deserto da vida, guiados pela coluna luminosa de um ideal, ela vos há de guiar, com segurança, à Canaã suspirada da vossa felicidade.
E o vosso ideal, já vo-lo disse, é serdes homens. Ideal amplo, não há dúvida, que abrange em si todas as vossas nobres possibilidades, todas as vossas aspirações dignificantes.
Sede homens!
***
E se não levais a mal que eu analise convosco este ideal sublime que é, por assim dizer, o fim mesmo da nossa missão cá na terra, eu vos direi:
SEDE HOMENS DE CORAÇÃO! - Homens que não conhecem somente a força, a dureza, o despotismo, mas que sabem exercer a brandura, a amabilidade, o amor, contudo sem sentimentalismo. Oh! se os homens experimentassem a força prodigiosa que se esconde na, assim chamada, fraqueza de coração! Quão diversas seriam as relações da sociedade. Educai o vosso coração! Não permitais que a brutalidade lhe abafe as vozes e as exigências. Sabei, sempre, amar com ternura, com carinho, vossos pais, irmãos, e todos os que vos rodeiam. Não vos envergonheis nunca de acariciar a criancinha, o pobre, de estender a mão ao mendigo; e, se preciso for, de abraçar o vosso empregado, o vosso operário. A isto não se chama descer, mas subir. Sede o esteio da fraqueza da mulher, o bastão da velhice. Amais os homens como irmãos, segundo o preceito de Cristo, e passai por este mundo, semeando o bem. Educai o vosso coração, ou, melhor, não sofrais que ele se perverta, pois eu sei que ele é bom. Interessai-vos pelas classes pobres, pelas classes que trabalham. Tratai-as, desde já, com simpatia, com amor, para que elas não procurem, revoltadas, fazer justiça pelas suas próprias mãos. Diversidade de classes, havê-la-á sempre, mas o que não é preciso haver é esta inimizade e ódio que as separam. Afilhados meus, talvez não avaliais bastante a importância deste conselho, entretanto, se houvesse mais homens de influência que fossem homens de coração, estariam resolvidos muitos dos problemas sociais que preocupam os que pensam. Lembrai-vos de um Ozanam, revolucionando pelo seu grande coração, cheio de caridade, os meios universitários de Paris.
Mas o vosso dever sobretudo, afilhados caríssimos, SEDE HOMENS DO DEVER! Por ele sacrificai as vossas comodidades, os vossos interesses, o vosso egoísmo. Para ele educai-vos com generosidade. O cumprimento do dever perpasse como um fio de aço que não conhece ruptura, por toda a vossa existência, quer estejais sós, quer na família, quer na sociedade. O dever que custa, que mortifica, que aborrece, que martiriza e que mata até, deveis abraçá-lo sem hesitação. Nunca, meus amigos, brincar com o dever. Oxalá ressoe sempre, aos vossos ouvidos, no momento da dificuldade, a voz providencial de um outro Barroso: “A família, a pátria, Deus n. S., esperam que cada um cumpra o seu dever!” A obediência a esta voz nos levará, com certeza, a um outro Riachuelo humilde, desconhecido, como o afluente do Paraná – pois é o dever que mais custa o que por ninguém é observado – onde alcançareis a ivtória gloriosa. Oxalá nunca transijais com este imperativo das vossas consciências bem formadas, para que, na hora suprema, possais exclamar em verdade como o heróis de Trafalgar: “Louvado seja Deus! Cumpri sempre o meu dever!”.
Em última análise, meus amigos, é a voz da consciência que toma partido pelo dever. Mesmo quando por ignorância ou fraqueza ela se cala e somos admoestados pela voz de um superior ou de um amigo, é a consciência ainda que nos diz da legitimidade desta admoestação. Pois bem, a voz da consciência pode soar em vão, por poderosa que seja, quando falta ao homem uma vontade enérgica, decidida. Eis por que vos digo: SEDE HOMENS DE VONTADE! Sede homens de energia! Com ela, sereis um forte, um onipotente quase! Educai a vossa vontade, este presente régio com que Deus vos enriqueceu liberalmente. Fortificai-a cada vez mais: ela será capaz de milagres. Que não conseguiam os grandes homens à força de uma vontade férrea? Um Francisco de Sales de temperamento colérico que, pela energia em se vencer e dominar, chega a parecer o homem mais pacato do mundo. Um Elihu Burrit, aprendiz de ferreiro, que, aos 16 anos, resolveu realizar um milagre de força de vontade, consagrando ao estudo das línguas todo o minuto livre que lhe dava a forja ou a bigorna. E, assim, conseguiu aprender 18 línguas e mais de 30 dialetos. – Não foi a força de vontade que transformou Abraam Lincoln de carpinteiro e moleiro, que fora, até aos 20 anos, no grande presidente que pacificou o país e libertou do jugo da escravidão mais de 4 milhões de homens? Lede a vida do nosso grande Mauá; é uma escola de vontade, de energia. Abri o hagiológio cristão: cada página vos prega energia, cada página vos prega força de vontade.
E vendo-vos, cheios de vontade decidida e enérgica, necessário é que eu ponha em movimento esse moinho maravilhoso e vos diga também: SEDE HOMENS DE AÇÃO.
Ação! Ação! Eis o grito moderno levado até ao exagero pela filosofia de Nietzsche, em contraposição ao nirvana do pessimismo de Shopenhauer. Ação! Ação! Trabalho, atividade, também vos digo eu, meus afilhados, mas no sentido razoável da palavra. “Já é hora de surgir do sono” exclamar-vos-ei com São Paulo, principalmente hoje, quando todas as potências do mal estão em plena atividade, procurando subverter os últimos fundamentos da sociedade bem formada. Trabalhai em todas as modalidades possíveis do bem.
Não digamos com o budista “que todo o mal vem da ação”; digamos, antes, que todo o mal vem da indolência, da inércia, e acrescentemos com Cristo: “Meu Pai celeste sempre opera e eu não cesso de operar!”
O poeta árabe Imuru, querendo ouvir a pinião do ídolo Tebala, sobre certo empreendimento, tirou, diante dele, três vezes, a sorte, mas por três vezes ouviu a resposta: nada faças, descansa! – indignado o poeta, que se lhe aconselhasse a inércia quando ele queria operar, segurou os dados e os arremessou brutalmente na cara do ídolo. Não há perigo, meus afilhados, de que os nossos deuses aconselhem a indolência, quando tudo nos clama pela ação. Aí está a ação católica – para falar de uma só modalidade – alastrando-se por todo o mundo, já com frutos prometedores. Fazei vossas as palavras daquele admirável aviador francês J. D’Armoux, cuja vida é um exemplo para a mocidade moderna: “quero – escrevia ele, paralítico em uma cama – dois ritmos na vida: a suprema intensidade no trabalho e o ardor contínuo, mas sereno, a todas as horas do dia.” Fazei vossa a oração deste jovem herói: “Meu Deus, dai-me horror aos minutos perdidos!”
Mas para que a vossa atividade, a vossa ação sejam proveitosas, devo dizer-vos também:
SEDE HOMENS DE CONCENTRAÇÃO. – Sem a concentração e a reflexão que lhe é afim, o vosso trabalho seria prejuízo, e vós dispersaríeis forças de vossa alma que, unidas, operam maravilhas. Sede homens de concentração, homens de pensamento, nesta época dissipada, superficial e frívola em que vivemos. Esta concentração dos antigos resumiam naquela frase concisa: Age quod agis – Faze bem e inteiramente o que estás fazendo. E com esta consideração é que compreendemos como na idade média, apesar de faltarem todos estes meios sem número que auxiliam os que se dedicam à atividade intelectual nos nossos dias, havia, contudo, homens da envergadura de um Alberto Magno, de um Boaventura, de um Aquino, espíritos gigantes, cujo saber provoca admiração até dos sábios modernos. É que – como escreve Krier – o silêncio, a solidão, a união com Deus e uma vida ilibada davam-lhes ao espírito forças e asas para se levantarem dos seus manuais, poucos e deficientes, às regiões elevadas do saber. – Quem está concentrado, reflete. E Rui Barbosa dizia que o estudo é útil, somente, quando, pela reflexão, se assimila a matéria, quando ela se transforma em propriedade nossa. – Fazei como Balmes, o grande filósofo espanhol, que, durante o estudo, envolvia sua cabeça na ampla capa e, assim velado, ficava largos intervalos, a meditar sobre o que lera. Depois descobria-se e, como de um outro mundo de idéias, voltava para a atividade da vida. Meus afilhados, sede homens de pensamento, homens de concentração – em qualquer carreira que seguirdes – e vereis que de revelações, que de forças novas haveis de perceber nas vossas almas, e como vos sentireis com animo de vos aproveitar delas.
E mostrando-vos um ideal tão elevado do homem completo, nem me sinto com a coragem de vos chamar a atenção para uma faceta desta integridade a que aspirais.
Não, não vos direi – por me parecer desnecessário – que deveis ser HOMENS DE MORAL IRREPREENSÍVEL. Não vos direis que deveis detestar o vício que mata a felicidade, dando em troca um gozo baixo e passageiro. Não vos direi que deveis detestar o vício que destrói a energia, degrada a virilidade e a robustez do homem, e, por conseguinte, das nações. Não vo-lo direi – porque já o sabeis – que é justamente neste ponto que se mostra o verdadeiro homem, o homem de energia, que tem força para vencer as suas paixões e apetites inconfessáveis.
Sabeis muito bem – não é necessário que eu vo-lo lembre – que pertenceis ao sexto forte, e que deveis mostrar a vossa força respeitando o fraco.
O homem que se dix do sexo forte, mas que se deixa escravizar pelas seduções – quando criminosas – do sexo fraco, a que sexo pertencerá?!
Cercai de veneração a mulher, caros afilhados, para que um dia possais encontrar uma mulher digna de vós. Lembrai-vos de que tendes uma irmã, uma mãe, para as quais exigis, com razão, o respeito dos outros. E se não puderdes cercar de respeito a toda e qualquer mulher, cercai-a, ao menos, de compaixão. Não vos esqueçais do protótipo da mulher, a Imaculada, sob cujo manto fostes educados. Com estes princípios firmes, sereis vós colunas inabaláveis da nossa querida família brasileira, que na hora presente ameaça ruir.
E hoje se fala tanto em patriotismo, que pareceria uma falta, se eu não vos dissesse também:
SEDE HOMENS DA PÁTRIA! – Sim, caros afilhados, sede brasileiros e sereis lídimos patriotas, patriotas, daqueles que servem a pátria e não daqueles – infelizmente legiões – que são por elas servidos; patriotas dos que enriquecem a pátria e não dos que, às multidões, são enriquecidos por ela. Sede patriotas dos que sabem defender os interesses da pátria e não dos que, sob o manto do patriotismo, defendem os próprios interesses. Sacrificai-vos pela pátria, mas não sofrais que ela seja por vós sacrificada.
Sede patriotas! Mas o patriotismo, em vossa idade, consiste, como já disse d. Aquino Correia, principalmente em valorizardes a porção do Brasil que sois vós mesmos. Sabei ser brasileiros, sabei ser grandes, para que não desmereçais a grandeza do Brasil.
***
E eu, no meu justo desvanecimento de padrinho que vos ama, já me transporto ao futuro, onde vos vejo – engenheiros, médicos, advogados, militares e que sei mais? – cumprindo galhardamente, como homens completos, a vossa missão.
Mas, não vos comparei ao cedro? E o cedro secular e o cedro gigantesco não conhece, enfim, o seu declínio? Falta-lhe seiva, falta-lhe força e, um dia, o gigante tomba na estrada, ficando apenas o atestado de uma grandeza que passou. Será este o vosso destino? Oh! não – exclamareis com o poeta pagão, na consciência da vossa grandeza – “non omnis moriar!” eu não morrerei inteiramente. Emudecerá a minha vós, meus ouvidos fechar-se-ão, meus olhos deixarão de brilhar, minhas mãos se tornarão intertes, meu coração já não pulsará e eu tombarei sobre a estrada da vida. Contudo, non omnis moriar! Não morrerei inteiramente! Alguma coisa que em mim pensa, que em mim reflete, que em mim quer, que em mim sente, que em mim odeia, que em mim ama, há de se desprender de mim e, alçando o vôo, voltar para a sua origem divina donde saiu.
É por isso que eu vos digo, afilhados meus, em último lugar: SEDE HOMENS DE FÉ! De fé luminosa, de fé esclarecida, de fé racional, de fé operosa. Vivei esta fé integralmente – sem desânimo, sem respeito humano – na vossa vida particular, na vossa vida pública. Eu quisera neste instante (e é a primeira vez que me vem este desejo) despir, por momentos, este meu hábito que tanto me orgulho, para não parecer sermão este meu conselho. Falo-vos como homem que raciocina, que reflete.
Deus é a maior realidade, diante da qual não se pode passar indiferente, dizia há pouco, diante da assembléia ilustre, o nosso ilustre amigo Tristão de Ataíde, o grande apóstolo leigo da nossa terra. Para com este Deus, quer queiramos, quer não, nós temos as nossas obrigações, das quais devemos prestar contas, um dia. Procurar conhecê-las e realizá-las, eis a tarefa do homem. Que só o pode elevar e enobrecer. Não vos esqueçais – gravai profundamente nas vossas almas grandes – que a religião é, em primeiro lugar, uma exigência da razão e não do coração, como, com desprezo, se diz. Tirai daí as conseqüências.
Afilhados da minh’alma. Afilhados que eu estimo, que eu desejo inteiramente felizes, quando a luz da ciência, a luz da amizade, a luz da glória, a luz da fama, a luz do prazer começarem a perder o brilho diante do vosso olhar baço, oh, então brilhe mais radiosa ainda a luz da vossa fé, conservada e vivida generosamente, durante toda a vossa vida, iluminando naquele momento supremo a senda da felicidade eterna.
Sem esta fé, podereis, talvez, ser grandes homens, mas de uma grandeza perecedora; nunca, porém, homens completos, cuja grandeza não pode perecer.
***
E se quereis, por fim, o vosso modelo, o vosso guia, eu repetirei a frase lapidar e inspirada do governador romano Pôncio Pilatos, frase cujo sentido profundo ele mesmo, no seu apoucamento, não podia compreender:
***
E termino, como comecei.
Quando eu recebia os presentes pobres de meu padrinho pobre – um carrinho de madeira, um cavalinho de pau, um banco, ou qualquer outra bagatela – ficava esquecido, horas inteiras, a brincar com eles, a examiná-los, tirando dali proveito para minha idade infantil.
Meus afilhados, eu não me iludo: o presente que vos dou – esta minha pobre oração – é bem humilde e modesto. É um presente pobre de um padrinho pobre.
Mas não vos esqueçais do amor e da sinceridade com que vo-lo dou. Por isso mais tarde, nas horas de lazer, em meio de vossa vida agitada de acadêmicos, tomais nas vossas mãos – assim como eu fazia em pequeno – o presente do vosso padrinho, que é um pedaço do seu coração, examinai-o e, talvez, com a experiência que então vos tiver dado a vida e com a vossa boa vontade, achareis nele algum estimulo que ajudar vos possa a conseguir, sem desfalecimentos, o vosso sublime ideal.
E, então – é de novo o meu justo orgulho de paraninfo que fala (pois a minha missão não termina com estas palavras, antes começa: levarei os vossos nomes, um por um, no breviário de minhas orações, onde, cotidianamente, vos recomendarei a Deus n. S., seguindo, com interesse todos os passos, lutas e triunfos da vossa vida) – e, então, repito, quando novos Diógenes, de lanterna em mão, procurarem pelo Brasil a fora, homens, homens completos dos quais a família, a pátria e a religião precisam, 37, com toda a certeza – a minha confiança e esperança em vós mo dizem – ao menos 37 homens completos, da nova geração, se hão de encontrar, que sois vós, distintos bacharéis de 1932, do Ginásio de Santo Antônio, de S. João Del-Rei, vós, minha alegria, vós, meu orgulho, vós, minha coroa.
Afilhados da minh’alma, ouvi-me:
SEDE HOMENS!
Meus afilhados
Exigis do padrinho pobre, que tanta coisa já vos disse no dia do vosso batismo glorioso, algumas linhas ainda, algum pensamento, algum conselho para vosso “Álbum”. Não posso dizer que não a afilhados que tanto estimo e dos quais me orgulho tanto.
Mas que conselho vos darei ainda?
Pois bem, afilhados meus amigos – é quase um corolário de tudo o que vos disse – conservai sempre a vossa liberdade. Longe de vós qualquer escravidão que avilta o homem que o degrada sempre.
Mas, entendei bem – eu vo-lo peço – em que consiste a liberdade verdadeira.
Nunca a confundais com a liberdade – se liberdade se pode chamar – que gozam as feras nas florestas ou os loucos pelas estradas.
Sede livres, mas da liberdade que gozam os verdadeiros filhos de Deus, que não são escravos da carne nem do orgulho, que não são escravos da ira ou da indolência, que não são escravos da adulação, que não são escravos do dinheiro, nem de um partido, nem do respeito humano, mas que só se submetem, e livremente, à razão, à autoridade, a Deus n. S., certos de que é essa tríplice sujeição que lhes dará a verdadeira liberdade que eleva o homem e que o dignifica também.
Sede livres, afilhados de minh’alma, para que possais voar, como a águia, às alturas maravilhosas da felicidade, que eu tão deveras vos desejo.
Mas se algum dia, desgraçadamente – o que não espero, nem posso imaginar – algum de vós, por fraqueza ou por descuido, cair num aduar de modernos muros, ficai sabendo todos que o vosso padrinho, como aqueles frades brancos das Mercês, não poupará canseiras, nem orações, nem sacrifícios, nem a própria vida, para comprar ao cativo a sua carta de alforria.
Crede, queridos afilhados, na amizade sincera de vosso padrinho.
Frei Henrique G. Trindade, O. F. M.
Petrópolis, 28/11/1932.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Alguns esclarecimentos.
Como sabem, tínhamos feito um projeto para publicar o livro "A Maternidade Divina" de Dom Anscar Vonier.Pouco depois ficamos sabendo de uma página que publicou um texto chamando-o de herege. Apesar do título do artigo ter dado a entender certa malícia e dado a impressão que o Papa Pio XII fez uma encíclica condenando diretamente a Dom Vonier, apesar da imensa caridade de quem postou e não nos passou o artigo a ponto de ficarmos sabendo somente por terceiros e apesar de termos visto Dom Vonier dizer exatamente o contrário de algumas acusações, imprimimos o texto para que o padre avaliasse, pois o original era do padre Penido, um padre respeitadíssimo. E mesmo se não fosse o padre Penido, iríamos imprimir e mandar por honestidade.
A conclusão foi que já tinha sido emitido reservas a respeito de D. Vonier, mas que seus livros eram excelentes. O padre também leu a biografia e viu que ele jamais foi um herege ou infiltrado. As reservas foram por causa do desejo dele tornar a teologia mais acessível ao laicato e que, por isso, alguns deslizes foram cometidos no livro “O Mistério da Igreja”.
O livro que seria publicado, a Maternidade Divina, sequer trata do assunto. Os seus vários livros, com ampla publicação em diversos países, todos têm o imprimatur.
O cancelamento, portanto, não foi por conta de qualquer erro ou por se ter descoberto que Dom Vonier seria um herege, mas por causa da vocação do mosteiro que iria publicar. Digo isso para que fiquem claras as motivações do cancelamento, ao contrário do que estão espalhando por aí (engraçado como uma difamação corre mais rápido que uma coisa boa).
Assim, por obediência, aceitamos a decisão.
Mas vamos as principais alegações:
- Sobre o a teologia arcaizante que prega uma espécie de catolicismo clássico que considera os desenvolvimentos posteriores como decadentes, a explicação do assunto pelo próprio autor:
Imagino um catolicismo que possa chamar-se verdadeiramente “clássico”, na significação que a palavra clássico tem na literatura e na arte. Clássica é a obra que possui qualidades que não só os técnicos, mas também as multidões julgam essenciais e necessárias, por sublimes e belas que sejam. Assim – para maior clareza e antecipando-me – a habitação do Espírito Santo na Igreja e na alma do justo é uma propriedade essencial do cristianismo. Os católicos devem pois conhecer, admirar e apreciar esse dom, do contrário o catolicismo não lhes seria o que deve ser, nem seria clássico. A Igreja tem permanecido eminentemente clássica, sobretudo na sua liturgia. No entanto não se pode dizer o mesmo quanto a todos os seus inúmeros filhos. Pois, se bem que possuam em geral a fé segundo a sua definição, o conhecimento que eles têm da Pessoa e da obra redentora de Cristo é muito desigual e comporta graus infinitos. As verdades de fé não agem com a mesma força nas suas inteligências, vontades e sensibilidades; sobre as suas faculdades. Pode mesmo dizer-se que a inteligência ou compreensão da religião católica é completa ou incompleta, profunda ou superficial, grande ou pequena, segundo os indivíduos e segundo os períodos da história. [...] Como foram expressas as mesmas verdades espirituais, em certas épocas, por homens santos e irrepreensíveis sob o ponto de vista da doutrina, nós o sabemos. A leitura das obras católicas forma o ouvido do leitor, de modo que facilmente pode chegar a descobrir as características do estilo antigo e do moderno. Não pretendo demonstrar ter São Leão exposto melhor a verdade que Santo Afonso. O que quero dizer é que ele o fez de maneira muito diferente. É certamente lícito afirmar que nem todas as maneiras de expressar uma doutrina são igualmente boas. Ninguém está obrigado a reconhecer que a linguagem moderna da espiritualidade cristã seja a melhor. Tem-se no entanto o direito de aspirar que os católicos, em grande número, se familiarizem com uma linguagem que seja perfeita. Não significa isto deprimir a religião das pessoas simples, mas anelar que o nosso catolicismo seja expresso nas suas cerimônias exteriores com a maior beleza e perfeição possíveis; que os católicos, homens e mulheres, ornados com a cultura moderna, estejam unidos aos milhões para manifestar a sua fé, assim como estão unidos para a defesa das causas da vida moderna, tais como as ciências ou o patriotismo. Devo pedir desculpas às pessoas piedosas de parecer em certas páginas deste livro deplorar a influência do puro sentimento e da imaginação na vida cristã. Bem longe de mim desprezar o que chamamos “piedade popular” que é tão útil para agrupar os fiéis. Mas como o meu escopo formal é pôr em evidência as verdades fundamentais, às quais as formas de piedade, mesmo as mais imaginativas e as mais sentimentais, devem o que têm de melhor, pode parecer que eu as censuro, quando de fato não o faço. É mesmo minha obrigação mostrar que a inteligência do crente dá provas do seu vigor quando a sua imaginação pode exercer-se sobre as verdades cristãs sem as prejudicar. (Retirado do livro A Nova e Eterna Aliança)
- Sobre a acusação de pancritismo:
“Não seria admissível falar em Encarnação da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pois o Espírito não se fez carne como a Palavra se fez carne. O que eu quero dizer é que o advento do Paráclito é do mesmo tipo que a vinda do Filho de Deus: em ambos os casos há um verdadeiro descensus de coelo, uma verdadeira descida do céu de uma forma que não houve antes. De que forma esse novo advento difere tão profundamente dos sussurros do Espírito no mundo antigo antes de Cristo, os teólogos têm tentado compreender e explicar; mas eles são confrontados com um mistério, assim como o mistério da Encarnação. Assim como é segredo de Deus a forma que o Filho de Deus se fez homem, também é seu segredo como o Espírito de Deus habita no homem; mas, em ambos os casos, é literalmente verdade que seja uma Pessoa Divina e ninguém mais falando com os homens aqui na terra. Eu poderia repetir tudo o que foi escrito pelos teólogos, para explicar o significado dessa nova permanência do Paráclito. Mas o mais sábio deles confessa que todas as suas palavras são balbucios infantis. Eles afirmam, por exemplo, que através da vinda do Espírito Santo a alma cristã tem uma orientação especial e exclusiva pela Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Com São Paulo eles dizem que somos selados com o Espírito Santo, assim como somos selados com o sinal de Cristo no Batismo. Essa é a uma clara insinuação de que o Paráclito é para nós tanto quanto a Palavra Encarnada. Mas eu acho suficiente para todos os fins da teologia cristã afirmar essa paridade entre o advento do Filho de Deus e a descida do Espírito Santo, embora um fez-se carne, enquanto outro, por assim dizer, toda a Igreja para si.”
"Entramos mais uma vez na questão do mistério do primeiro Pentecostes. Qual foi o dom concedido à Igreja naquele dia? Que um presente inteiramente novo veio à Igreja é evidente em todo o gênio do Novo Testamento. Não seria suficiente dizer que o Espírito Santo foi dado no Pentecostes em uma medida mais completa do que ocorria antes. A descida do Espírito que ocorreu dez dias depois da Ascensão do Senhor foi uma coisa única na história do mundo, tão única quanto a Última Ceia, tão única quanto foi a morte de Cristo no Calvário. O Espírito não tinha sido dado antes, mas foi concedido naquele abençoado momento, na nona hora do quinquagésimo dia depois da Páscoa da Redenção.” (Retirado do livro Christianus)Portanto, a respeito do livro “O Mistério da Igreja”, parece que foi realmente um livro com certos problemas e que ele foi infeliz na palestra. Parece também que o próprio mosteiro dele o tirou de circulação, o que seria natural a um católico após o pronunciamento infalível de um Papa. Por outro lado, parece que o problema não foi na teologia dele a respeito, mas na forma em que o assunto foi tratado nesse livro, tendo em conta as explicações acima feitas pelo próprio autor em outras ocasiões.
- Sobre a acusação de ter a obra eivada da ilusão milenarista, temos o próprio Dom Vonier chamando o milenarismo de ilusão:
Outra forma de ilusão sobre o grande assunto da segunda vinda de Cristo tem sido mais universal, mais persistente e é, de certo modo, mais desculpável. Essa forma de sonho religioso é mais antiga que os Evangelhos; é a esperança do homem do milênio. Tem sempre sido a fé de certas pessoas pias, cujas almas têm sido afligidas pelas iniquidades mundanas, a de que haveria sobre a terra algum dia um magnificente reino de Deus. Com o advento do cristianismo, Cristo seria, é claro, o Rei dessa feliz era de santidade humana. Não é fácil se opor a essas pessoas e provar que estão erradas quando professam esperança em um grandioso triunfo de Cristo sobre a terra antes da consumação final de todas as coisas. Esse tipo de ocorrência não é excluído, não é impossível, não há certeza de que não possa haver um período prolongado de cristianismo triunfante antes do fim. O ponto de divisão entre as aspirações legítimas de almas devotas e as aberrações de um milenarismo falso é este: os Quialistas – como os milenaristas são chamados, a partir da palavra grega “mil” – parecem esperar uma vinda de Cristo e uma presença de sua glória e majestade sobre a terra que não seria a consumação de todas as coisas, mas uma porção da história da humanidade. Isso, porém, não está consoante com o dogma católico. A vinda de Cristo no segundo advento – a Parúsia, como é chamada tecnicamente –, na cristandade ortodoxa, é a consumação de todas as coisas, o fim da história humana. Se antes desse final há de ter um período, mais ou menos prolongado, de santidade triunfante, isso resultará não da aparição triunfante da Pessoa de Cristo em sua Majestade, mas da operação dos poderes de santificação que estão trabalhando agora: o Santo Espírito e os Sacramentos da Igreja. Os Quialistas de todas as épocas e opiniões, e muitos podem ser encontrados hoje, parecem desesperar não somente do mundo, mas até mesmo da dispensação da graça inaugurada no Pentecoste; eles esperam, a partir da presença visível de Cristo, uma completa conversão do mundo, como se um resultado feliz não se fizesse de outra forma. Ainda têm de aprender o significado destas palavras de Cristo aos Apóstolos: “Santifica-os pela verdade. A tua palavra é a verdade.” A Igreja Católica tem plena confiança na presente ordem da vida sobrenatural, e se ela anseia o retorno de seu Cristo, não é porque desespera do trabalho que lhe foi dado, mas porque deseja ver esse trabalho manifesto a todos os homens, para que se evidenciem as coisas maravilhosas que Cristo realizou aos homens antes de sua ascensão ao céu.
Portanto, se postaram já com malícia, não sabemos. Não cabe a nós dizer isso. Entretanto, a forma em que as coisas foram feitas e o desfecho foi desnecessário. Estão aí as informações e cada um julgue por si. Encerro por aqui qualquer discussão a respeito.
Sobre a foto no início do texto: No dia 18 de outubro de 1931, Dom Anscar completou vinte e cinco anos como abade. Foi uma oportunidade para muitos de seus amigos e admiradores expressarem sua admiração por ele como pessoa e pelo que tinha conseguido. Ele considerava essas celebrações jubilares como uma espécie de ensaio geral para a consagração da igreja da abadia. A construção progrediu tão bem que a data da consagração foi fixada para o dia 25 de agosto de 1932. As notícias da reconstrução chegaram em Roma e foi com muita emoção que a comunidade soube, em março de 1932, que o Papa Pio XI nomeou o Cardeal Bourne de Westminster como seu delegado a latere para a ocasião. Isso foi um sinal de honra para a comunidade, mas havia também um toque especial para o abade: o Papa concedeu-lhe o privilégio pessoal do uso da capa magna. A carta de 8 de agosto menciona as atividades de construção do abade e faz referência também aos seus escritos que promovem a fé católica.
sábado, 19 de setembro de 2015
A Maternidade Divina: pré-lançamento exclusivo!
Os Evangelhos quase não falam de Maria? É verdade que os católicos exageram ao tratar sobre ela? O que as Escrituras realmente falam sobre o assunto?
Essas e outras perguntas são respondidas por Dom Anscar Vonier. Confira o projeto e seja também um colaborador!
http://www.kickante.com.br/campanhas/maternidade-divina
Essas e outras perguntas são respondidas por Dom Anscar Vonier. Confira o projeto e seja também um colaborador!
http://www.kickante.com.br/campanhas/maternidade-divina
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Evento simbólico para a campanha A Maternidade Divina
Convido a todos a participarem do evento simbólico que ocorrerá amanhã. Ele foi criado para facilitar as informações necessárias aos interessados na campanha:
https://www.facebook.com/events/1491251654532588/
https://www.facebook.com/events/1491251654532588/
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Patrick Madrid em poucas palavras detonando a heresia da Sola Scriptura.
Uma coisa é certa: não há nenhum lugar na Bíblia em que diga que ela é a única regra de fé e que tudo deva ser provado por ela, mas tem gente que sente tanta ânsia de ser "reformado" que aceita esse jargão e repete-o como se uma frase de efeito tivesse necessariamente conteúdo.
terça-feira, 28 de julho de 2015
EDUCAÇÃO SEXUAL - Pe. Leonel Franca
Retirado do livro "A Formação da Personalidade", esse texto mostra através do bom senso e dos resultados de especialistas, o quanto a educação sexual nas escolas é prejudicial. Infelizmente preferiram seguir tais novidades e o resultado está aí, como qualquer pessoa pode ver. Não preciso comentar, pois, sobre o atual estado de depravação e da impressão dada a jovens e adultos de que o sexo é o que os fará felizes. Agora imagine os malefícios da educação proposta já naquela época em comparação com o que querem aprovar atualmente.
Parece-nos de capital importância excluir qualquer iniciação sexual feita coletivamente nas escolas. Nos mistérios da vida quem deve iniciar os adolescentes são os pais. Só o lar reúne as condições psicológicas e morais para uma educação sadia e eficiente em matéria tão delicada. Entre outros, a iniciação coletiva encerra os seguintes
inconvenientes:
1) Na mesma idade, o desenvolvimento sexual é extraordinariamente diverso de indivíduo para indivíduo. Uma instrução adaptada a uns poderia provocar em outros surpresas funestas, choques nervosos e desequilíbrios morais de que dificilmente viriam a convalescer mais tarde.
2) A explicação feita em público de assuntos tão delicados autorizaria depois entre alunos conversas e trocas de ideias sobre as matérias vistas em aulas. É mais um incentivo, oficialmente sancionado, às conversações obscenas e por meio delas à corrupção sistemática dos mais sadios pelos mais depravados.
3) A iniciação sexual, para ser verdadeiramente eficaz no dizer unânime de psicólogos pedagogistas, requer un complexo de qualidades - e entre elas um respeito e amor à pureza de cada aluno - que fora ingenuidade esperar se encontrem em cada professor ou professora das nossas escolas públicas. Na maioria dos casos, o efeito seria desastroso e os escândalos da vida social que tanto se deploram, começariam bem cedo a contaminar as nossas escolas com incrível prejuízo da saúde, higiene e moral das novas gerações.
4) A propaganda em favor da iniciação sexual nas escolas é toda baseada num falso postulado pedagógico, isto é, na opinião de que a corrupção nasce da ignorância. Engano. Trata-se aqui muito mais de força moral do que de saber. A verdadeira pedagogia sexual concentra os seus esforços na formação da vontade e na educação do caráter e evita despertar imagens e curiosidades malsãs a que não resistiriam as consciências ainda mal formadas das crianças
5) Por estes e outros motivos, que não nos é dado aqui explanar, a iniciação coletiva, longe de representar um progresso na pedagogia, tem despertado entre os mais autorizados mestres, resistências tenazes e condenações categóricas.
F. W. FORSTER, professor de filosofia e pedagogia nas Universidades de Viena, zurich e Munich, aponta como erro perigoso "a ideia de que a depravação e superexcitação sexuais da juventude moderna seriam o resultado da insuficiência do ensino sobre a questão sexual, enquanto que a verdadeira causa deve ser unicamente procurada na terrível baixa na educação do caráter e no delírio do prazer, comum em nossa época. Num meio assim que significa só o ensino? Se o homem não é elevado por uma concepção mais alta da vida, o ensino tenderá, no máximo, a excitar-lhe a curiosidade do que se lhe não diz." (Sexualethfk und Sexualpadagogik, trad. franc., p. 203)
STANLEY HALL, o príncipe dos pedagogos norte-americanos, depois de assinalar as crises da alma e as perturbações nervosas que são muitas vezes as consequências de semelhantes intervenções prematuras, conclui que "devemos detestar toda espécie de iniciação coletiva. " (Educational Problems., New York, 1 9 1 1 , vol. I. )
O Dr. W. STEKEL, especialista de psicoterapia em Viena, no seu estudo sobre os "Estados de angústia nervosa e seu tratamento", Berlim, p. 3 10, conclui as suas reflexões sobre o assunto com estas palavras: "Sou adversário declarado do sistema de iniciação que se propaga atualmente e que se me afigura uma epidemia mental, uma espécie de exibicionismo psíquico. A iniciação coletiva nas escolas é um pensamento monstruoso cuja realização acarretaria inumeráveis choques sexuais... A questão só pode ser solucionada individualmente, e o melhor meio seria que, a começar de certa idade, os pais introduzam nas conversas coisas sexuais como coisas naturais, sem exposição solene nem cerimônias misteriosas. Não esqueçamos que a raiz de todos os desejos malsãos é a curiosidade sexual e que a iniciação precoce dos meninos seria, para o desenvolvimento da humanidade, um grande prejuízo cultural."
Em nome, portanto, da higiene, da pedagogia e da moral julgamos que se deve excluir dos programas de ensino uma iniciação coletiva, feita nas escolas públicas.
Parece-nos de capital importância excluir qualquer iniciação sexual feita coletivamente nas escolas. Nos mistérios da vida quem deve iniciar os adolescentes são os pais. Só o lar reúne as condições psicológicas e morais para uma educação sadia e eficiente em matéria tão delicada. Entre outros, a iniciação coletiva encerra os seguintes
inconvenientes:
1) Na mesma idade, o desenvolvimento sexual é extraordinariamente diverso de indivíduo para indivíduo. Uma instrução adaptada a uns poderia provocar em outros surpresas funestas, choques nervosos e desequilíbrios morais de que dificilmente viriam a convalescer mais tarde.
2) A explicação feita em público de assuntos tão delicados autorizaria depois entre alunos conversas e trocas de ideias sobre as matérias vistas em aulas. É mais um incentivo, oficialmente sancionado, às conversações obscenas e por meio delas à corrupção sistemática dos mais sadios pelos mais depravados.
3) A iniciação sexual, para ser verdadeiramente eficaz no dizer unânime de psicólogos pedagogistas, requer un complexo de qualidades - e entre elas um respeito e amor à pureza de cada aluno - que fora ingenuidade esperar se encontrem em cada professor ou professora das nossas escolas públicas. Na maioria dos casos, o efeito seria desastroso e os escândalos da vida social que tanto se deploram, começariam bem cedo a contaminar as nossas escolas com incrível prejuízo da saúde, higiene e moral das novas gerações.
4) A propaganda em favor da iniciação sexual nas escolas é toda baseada num falso postulado pedagógico, isto é, na opinião de que a corrupção nasce da ignorância. Engano. Trata-se aqui muito mais de força moral do que de saber. A verdadeira pedagogia sexual concentra os seus esforços na formação da vontade e na educação do caráter e evita despertar imagens e curiosidades malsãs a que não resistiriam as consciências ainda mal formadas das crianças
5) Por estes e outros motivos, que não nos é dado aqui explanar, a iniciação coletiva, longe de representar um progresso na pedagogia, tem despertado entre os mais autorizados mestres, resistências tenazes e condenações categóricas.
F. W. FORSTER, professor de filosofia e pedagogia nas Universidades de Viena, zurich e Munich, aponta como erro perigoso "a ideia de que a depravação e superexcitação sexuais da juventude moderna seriam o resultado da insuficiência do ensino sobre a questão sexual, enquanto que a verdadeira causa deve ser unicamente procurada na terrível baixa na educação do caráter e no delírio do prazer, comum em nossa época. Num meio assim que significa só o ensino? Se o homem não é elevado por uma concepção mais alta da vida, o ensino tenderá, no máximo, a excitar-lhe a curiosidade do que se lhe não diz." (Sexualethfk und Sexualpadagogik, trad. franc., p. 203)
STANLEY HALL, o príncipe dos pedagogos norte-americanos, depois de assinalar as crises da alma e as perturbações nervosas que são muitas vezes as consequências de semelhantes intervenções prematuras, conclui que "devemos detestar toda espécie de iniciação coletiva. " (Educational Problems., New York, 1 9 1 1 , vol. I. )
O Dr. W. STEKEL, especialista de psicoterapia em Viena, no seu estudo sobre os "Estados de angústia nervosa e seu tratamento", Berlim, p. 3 10, conclui as suas reflexões sobre o assunto com estas palavras: "Sou adversário declarado do sistema de iniciação que se propaga atualmente e que se me afigura uma epidemia mental, uma espécie de exibicionismo psíquico. A iniciação coletiva nas escolas é um pensamento monstruoso cuja realização acarretaria inumeráveis choques sexuais... A questão só pode ser solucionada individualmente, e o melhor meio seria que, a começar de certa idade, os pais introduzam nas conversas coisas sexuais como coisas naturais, sem exposição solene nem cerimônias misteriosas. Não esqueçamos que a raiz de todos os desejos malsãos é a curiosidade sexual e que a iniciação precoce dos meninos seria, para o desenvolvimento da humanidade, um grande prejuízo cultural."
Em nome, portanto, da higiene, da pedagogia e da moral julgamos que se deve excluir dos programas de ensino uma iniciação coletiva, feita nas escolas públicas.
Já ouviu falar em Dom Anscar Vonier? Ainda não? Então acesse: http://anscarvonier.wordpress.com/
Veja também: https://www.facebook.com/projetoanscarvonier
sexta-feira, 24 de julho de 2015
SEDE CASTOS!
Texto retirado de uma das publicações da "Raio de Sol", uma folha de propaganda católica da década de 30. É interessante notar como as coisas eram naquela época e como pioraram, mas como os remédios são os mesmos. Espero que seja útil tanto para quem quer começar a luta, quanto para quem quer lutar e, além disso, para quem ainda não caiu na real.
Sede castos, porque se o não fordes, sereis desgraçados. É numero o tropel dos vícios, mas a desonestidade é o pior de todos eles. Todos os pecados são impuros, mas a desonestidade é a própria impureza. Todos os vícios estragam alguma parte do espírito ou do corpo; a desonestidade porém estraga todo o homem, todas as suas potências e todos os seus sentidos. Todos os vícios levam à condenação eterna, mas a desonestidade é de todos os vícios o que maior número de almas arrasta para o inferno. Todos os pecados acarretam desgraças; mais e maiores desgraças porém causa aquele que muitas vezes é castigo de todos eles. É tão abominável este pecado, que São Paulo desejava que nem se lhe soubesse o nome, se fosse possível; e é este o motivo por quê na cristandade se fala dele com tamanho resguardo.
À desonestidade deram-se os mais hediondos nomes, e esses nomes com que se designa, bem como os diversos vícios que compreende, não se podem proferir na presença de pessoas que se respeitam. A linguagem impudica só a conhecem os homens infames, de má nota, os patifes, os impudentes, os desavergonhados e libertinos.
Este vício faz pecar em todo tempo. O infeliz que se deixa dominar e escravizar por ele está pecando em todas as ocasiões; o que vai lendo, o que vê, o que ouve, tudo o encaminha a satisfazer as suas próprias paixões. No estudo, no jogo, no passeio, nos divertimentos, à mesa, nas horas em que está acordado durante a noite, no meio dos seus trabalhos durante o dia, na solidão, na sociedade, até na igreja, ao pé dos altares, está o homem desonesto, pelo menos a pensar no seu pecado. Que horror!
Este vício arrasta a todos os vícios. Para pecar com mais facilidade e desembaraço precisa de dinheiro, e este também acaba por se esgotar. Portanto, depois de esbanjar o que é seu, o escravo da desonestidade há de por todos os meios cavar outro, e então recorre à fraude, à rapina, ao roubo, à injustiça, e às vezes até... ao assassínio! A insolência e o orgulho são filhos legítimos da desonestidade: o jovem perde a sua sinceridade, a virgem despoja-se do seu candor e da modéstia: falta de vergonha, imodéstia, despejo e impudência são sinônimos de impureza. Entre todas as heresias, livres pensamentos e ateísmo, haverá um que não tenha nascido no charco da desonestidade. As confissões e comunhões sacrílegas devem-se, na maior parte, à desonestidade.
Este vício torna o homem infiel a todos. Os desonestos atraiçoam os amigos, as amigas, o marido, a mulher, os noivos, as noivas, o pai, o protetor de toda a vida... Amizade, honra, juramentos, religião, família... a tudo espezinha, rompe, desmantela e quebra a desonestidade. A maior parte das tragédias, das traições, dos escândalos e das infamantes vergonhas têm a sua origem neste vício nefando. O curso da impureza vai traçado por rios de sangue e de lama.
Para se entregar a ela, o desonesto usa e abusa de todos os meios, até dos mais iníquos e repugnantes. Que linguagem que gíria de bordel, que expressões equivocas, que indiretas, que gracejos, que orgias e que dissolução de costumes! Que canções e músicas! Que bailes e danças! Que versos e novelas! Que quadros e pinturas! Que vestidos, que gestos e trejeitos! Que reuniões e diversões! Que teatros e espetáculos! Quantas indústrias, tramoias, ardis e abomináveis segredos! Que dias e que noites! Ó vício nefando este, de que nem se pode falar! E que naturalmente degrada o homem, o avilta e arruína; que o corrompe, corrói e devora até a medula dos ossos...
Faz perder ao desonesto a ideia da sua dignidade, a ideia de quão repugnante é o seu pecado e, sobretudo, o conhecimento do seu Deus. Esse desgraçado escarnece descaradamente do que há mais respeitável, a honra, da justiça, da religião, da lei, da autoridade, da amizade, da continência, da virtude, dos Santos e do mesmo Deus! É o homem mais inconsiderado, atrevido e desrespeitador que há no mundo, capaz dos maiores excessos, capaz de postergar e sacrificar tudo à sua paixão desenfreada.
Faz perder o sossego da consciência, porque não há vício nem pecado que provoque mais negros remorsos que a impureza, nem aversão e enjoo mais repugnante e vergonhoso a toda a vida.
Faz perder a liberdade, porque o homem impuro é escravo dos prazeres sensuais e nem sabe como se há de libertar dos seus grilhões. Fortemente peado pelos numerosos laços que o prendem aos seres mais vis e abjetos do mundo, enreda-se e se emaranha em mil compromissos espantosos e baixezas incríveis.
Faz perder a fé, pois a mente desse infeliz se embota e é incapaz de penetrar as verdades espirituais.
Faz perder a esperança, porque é vício que se agarra à sua vítima, que arrasta e não larga o desonesto, nem deixa desvencilhar-se, porque de dia para dia lhe cresce o frenesi. A maioria desses impudicos não apetecem o céu.
Faz perder principalmente a caridade, o amor de Deus e do próximo. Neste mundo sublunar não há egoístas que se possam comparar às pessoas desonestas, que são as mais estupidamente egoístas.
Faz perder a honra, pois este vício, de um modo ou de outro, há de furar até chegar às vistas do público e enxovalhar a honra de quem, em má hora, se deixou subjugar por ele.
Faz perder a fortuna, porque a satisfação prolongada dos prazeres sensuais é um sorvedouro, em que se abismam rios de dinheiro, e de ordinário a desonestidade leva à ruína e à pobreza.
Faz perder a saúde, visto como este vício enerva a natureza, esgota as energias e engendra enfermidades vergonhosas, repugnantes e incuráveis. Se fossemos reunir todos aqueles que morreram devorados pelas doenças da impureza, formaríamos um monte que topetaria na lua.
A desonestidade é o mais seguro caminho da condenação, pois é o mais pegajoso dos vícios e o mais difícil de largar; muitas vezes até arrasta ao suicídio.
Jovens, que sôfrega e incautamente correis atrás dos prazeres desonestos, prestai-me ouvidos e crede-me: se quiserdes teimar em seguir esse caminho escabroso, haveis de chorar muitas lágrimas e padecer horrivelmente. Não vos metais por aí. Suspendei os passos enquanto é tempo. Sede castos! Sede castos! E não me venhas retrucar que é impossível.
É muito possível, pelo contrário, e eu vos prometo a vitória, se vos empenhardes com ânimo e perseverança em pôr em prática os quatro meios infalíveis que vos quero apontar.
Primeiro meio: escolhei um bom confessor e abri-lhe frequentemente a vossa consciência e o vosso coração, manifestando-lhe, como a médico e pai que ele é, todas as vossas fraquezas.
Segundo meio: comungai frequentemente, ao menos cada semana e ainda mais amiúde, todos os dias até, caso vos seja isto possível. Consultai a este respeito o vosso confessor.
Terceiro meio: uma terna e filial devoção à Virgem Santíssima protetora da castidade.
Quarto meio: orar e pedir continuamente a castidade a Deus e à Virgem Imaculada. Sem a graça divina, ninguém se engrandeça de guardar a castidade: mas esta graça se há de alcançar pela oração.
Condição necessária, sem a qual baldarão todos estes meios, é viverdes afastados das ocasiões de pecar e dos espetáculos perigosos. As diversões, os teatros, os malditos cinemas, e revistas, as estampas e pinturas, os contos, novelas e romances obscenos, certas palestras, os bailes, as amizades e, para abreviar, todos os incentivos da sensualidade de que está cheio o mundo, são outros tantos perniciosos veículos, que vão difundindo por todas as partes os imundos gérmens da lepra e o cancro da desonestidade.
É tão preciosa a castidade, que bem merece algum sacrifício da vossa parte e, por amor deste tesouro, não será muito que vos resolvais a cortar de vez e resolutamente uns tantos passatempos, certas diversões e leituras que conheceis muito bem e só vos podem causar dano.
Sede castos, porque se o não fordes, sereis desgraçados. É numero o tropel dos vícios, mas a desonestidade é o pior de todos eles. Todos os pecados são impuros, mas a desonestidade é a própria impureza. Todos os vícios estragam alguma parte do espírito ou do corpo; a desonestidade porém estraga todo o homem, todas as suas potências e todos os seus sentidos. Todos os vícios levam à condenação eterna, mas a desonestidade é de todos os vícios o que maior número de almas arrasta para o inferno. Todos os pecados acarretam desgraças; mais e maiores desgraças porém causa aquele que muitas vezes é castigo de todos eles. É tão abominável este pecado, que São Paulo desejava que nem se lhe soubesse o nome, se fosse possível; e é este o motivo por quê na cristandade se fala dele com tamanho resguardo.
À desonestidade deram-se os mais hediondos nomes, e esses nomes com que se designa, bem como os diversos vícios que compreende, não se podem proferir na presença de pessoas que se respeitam. A linguagem impudica só a conhecem os homens infames, de má nota, os patifes, os impudentes, os desavergonhados e libertinos.
Este vício faz pecar em todo tempo. O infeliz que se deixa dominar e escravizar por ele está pecando em todas as ocasiões; o que vai lendo, o que vê, o que ouve, tudo o encaminha a satisfazer as suas próprias paixões. No estudo, no jogo, no passeio, nos divertimentos, à mesa, nas horas em que está acordado durante a noite, no meio dos seus trabalhos durante o dia, na solidão, na sociedade, até na igreja, ao pé dos altares, está o homem desonesto, pelo menos a pensar no seu pecado. Que horror!
Este vício arrasta a todos os vícios. Para pecar com mais facilidade e desembaraço precisa de dinheiro, e este também acaba por se esgotar. Portanto, depois de esbanjar o que é seu, o escravo da desonestidade há de por todos os meios cavar outro, e então recorre à fraude, à rapina, ao roubo, à injustiça, e às vezes até... ao assassínio! A insolência e o orgulho são filhos legítimos da desonestidade: o jovem perde a sua sinceridade, a virgem despoja-se do seu candor e da modéstia: falta de vergonha, imodéstia, despejo e impudência são sinônimos de impureza. Entre todas as heresias, livres pensamentos e ateísmo, haverá um que não tenha nascido no charco da desonestidade. As confissões e comunhões sacrílegas devem-se, na maior parte, à desonestidade.
Este vício torna o homem infiel a todos. Os desonestos atraiçoam os amigos, as amigas, o marido, a mulher, os noivos, as noivas, o pai, o protetor de toda a vida... Amizade, honra, juramentos, religião, família... a tudo espezinha, rompe, desmantela e quebra a desonestidade. A maior parte das tragédias, das traições, dos escândalos e das infamantes vergonhas têm a sua origem neste vício nefando. O curso da impureza vai traçado por rios de sangue e de lama.
Para se entregar a ela, o desonesto usa e abusa de todos os meios, até dos mais iníquos e repugnantes. Que linguagem que gíria de bordel, que expressões equivocas, que indiretas, que gracejos, que orgias e que dissolução de costumes! Que canções e músicas! Que bailes e danças! Que versos e novelas! Que quadros e pinturas! Que vestidos, que gestos e trejeitos! Que reuniões e diversões! Que teatros e espetáculos! Quantas indústrias, tramoias, ardis e abomináveis segredos! Que dias e que noites! Ó vício nefando este, de que nem se pode falar! E que naturalmente degrada o homem, o avilta e arruína; que o corrompe, corrói e devora até a medula dos ossos...
Faz perder ao desonesto a ideia da sua dignidade, a ideia de quão repugnante é o seu pecado e, sobretudo, o conhecimento do seu Deus. Esse desgraçado escarnece descaradamente do que há mais respeitável, a honra, da justiça, da religião, da lei, da autoridade, da amizade, da continência, da virtude, dos Santos e do mesmo Deus! É o homem mais inconsiderado, atrevido e desrespeitador que há no mundo, capaz dos maiores excessos, capaz de postergar e sacrificar tudo à sua paixão desenfreada.
Faz perder o sossego da consciência, porque não há vício nem pecado que provoque mais negros remorsos que a impureza, nem aversão e enjoo mais repugnante e vergonhoso a toda a vida.
Faz perder a liberdade, porque o homem impuro é escravo dos prazeres sensuais e nem sabe como se há de libertar dos seus grilhões. Fortemente peado pelos numerosos laços que o prendem aos seres mais vis e abjetos do mundo, enreda-se e se emaranha em mil compromissos espantosos e baixezas incríveis.
Faz perder a fé, pois a mente desse infeliz se embota e é incapaz de penetrar as verdades espirituais.
Faz perder a esperança, porque é vício que se agarra à sua vítima, que arrasta e não larga o desonesto, nem deixa desvencilhar-se, porque de dia para dia lhe cresce o frenesi. A maioria desses impudicos não apetecem o céu.
Faz perder principalmente a caridade, o amor de Deus e do próximo. Neste mundo sublunar não há egoístas que se possam comparar às pessoas desonestas, que são as mais estupidamente egoístas.
Faz perder a honra, pois este vício, de um modo ou de outro, há de furar até chegar às vistas do público e enxovalhar a honra de quem, em má hora, se deixou subjugar por ele.
Faz perder a fortuna, porque a satisfação prolongada dos prazeres sensuais é um sorvedouro, em que se abismam rios de dinheiro, e de ordinário a desonestidade leva à ruína e à pobreza.
Faz perder a saúde, visto como este vício enerva a natureza, esgota as energias e engendra enfermidades vergonhosas, repugnantes e incuráveis. Se fossemos reunir todos aqueles que morreram devorados pelas doenças da impureza, formaríamos um monte que topetaria na lua.
A desonestidade é o mais seguro caminho da condenação, pois é o mais pegajoso dos vícios e o mais difícil de largar; muitas vezes até arrasta ao suicídio.
Jovens, que sôfrega e incautamente correis atrás dos prazeres desonestos, prestai-me ouvidos e crede-me: se quiserdes teimar em seguir esse caminho escabroso, haveis de chorar muitas lágrimas e padecer horrivelmente. Não vos metais por aí. Suspendei os passos enquanto é tempo. Sede castos! Sede castos! E não me venhas retrucar que é impossível.
É muito possível, pelo contrário, e eu vos prometo a vitória, se vos empenhardes com ânimo e perseverança em pôr em prática os quatro meios infalíveis que vos quero apontar.
Primeiro meio: escolhei um bom confessor e abri-lhe frequentemente a vossa consciência e o vosso coração, manifestando-lhe, como a médico e pai que ele é, todas as vossas fraquezas.
Segundo meio: comungai frequentemente, ao menos cada semana e ainda mais amiúde, todos os dias até, caso vos seja isto possível. Consultai a este respeito o vosso confessor.
Terceiro meio: uma terna e filial devoção à Virgem Santíssima protetora da castidade.
Quarto meio: orar e pedir continuamente a castidade a Deus e à Virgem Imaculada. Sem a graça divina, ninguém se engrandeça de guardar a castidade: mas esta graça se há de alcançar pela oração.
Condição necessária, sem a qual baldarão todos estes meios, é viverdes afastados das ocasiões de pecar e dos espetáculos perigosos. As diversões, os teatros, os malditos cinemas, e revistas, as estampas e pinturas, os contos, novelas e romances obscenos, certas palestras, os bailes, as amizades e, para abreviar, todos os incentivos da sensualidade de que está cheio o mundo, são outros tantos perniciosos veículos, que vão difundindo por todas as partes os imundos gérmens da lepra e o cancro da desonestidade.
É tão preciosa a castidade, que bem merece algum sacrifício da vossa parte e, por amor deste tesouro, não será muito que vos resolvais a cortar de vez e resolutamente uns tantos passatempos, certas diversões e leituras que conheceis muito bem e só vos podem causar dano.
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domingo, 19 de julho de 2015
A Noite de São Bartolomeu - PARTE FINAL - Do número de vítimas de São Bartolomeu
Uma vez estabelecido que a Igreja Católica NÃO teve nenhum papel na questão, vamos a outros dados importantes.
Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV
Partes anteriores: Parte 1 | Parte 2 | Parte 3
Do número de vítimas da São Bartolomeu.
I. Divergências dos historiadores. II. Número verosímil das vítimas em toda a França. III. Questão acessória: é verdade que Carlos IX tenha atirado contra os protestantes? IV. Conclusão.
I. Seria pretencioso querer determinar, mesmo aproximadamente, o número de vítimas da São Bartolomeu, quer em Paris, quer nas províncias. Entre os diversos historiadores, a diferença é por demais sensível e suas divergências se explicam. Uns e outros são levados a aumentar ou a diminuir o número, segundo seu interesse ou partido. É de notar também que os autores acham complacência em aumentar tanto mais o número das vítimas, quanto mais afastados se acham do tempo de que escrevem.
O calvinista La Popelinère o avalia em mais de dois mil por toda a França, e em mil somente em Paris; Tavannes em dois mil só na capital. Papyre-Masson, contemporâneo protestante, mais tarde convertido, conta dez mil vítimas; o Martyrologio protestante, impresso em 1582, dez anos só depois dos acontecimentos, quinze mil; de Thou, o apologista dos protestantes, fala em trinta mil; Davila, pagem de Catharina de Medicis, e mais tarde historiador das guerras de religião na França, elevou o número a quarenta mil; Sully, apegado aos erros dos calvinistas, a sessenta mil; e Pérèfoxe, bispo de Rodez, preceptor de Luiz XIV, cujo fim era inspirar horror por aquela tragédia, chega até cem mil.
II. Apesar das buscas dos eruditos e dos documentos históricos publicados, seria temerário adotar um número exato, eo mais prudente é ainda, como no tempo em que o padre Caveirac publicava sua Dissertação sobre a São Bartolomeu (1758), tomar por base os cálculos do próprio Martyrologio dos calvinistas.
Eis o seu quadro.
Notas
Nesses últimos tempos, apareceram numerosos e sérios
trabalhos sobre esta importante questão histórica. Entre os autores mais
conhecidos, citemos: na Inglaterra, Henrique White; na Alemanha, Leopoldo
Ranke, Raumer e Soldan; na Itália, Eugênio Alberi ou P. Theiner; na França, Henrique
Martin, Alfredo Maury. Boutaric, o visconde de Meaux; todos unânimes, sem ter
entrado em acordo, demonstram que o crime da São Bartolomeu, reprovado
igualmente por todos, tinha pelo menos a desculpa de não ter sido premeditado.
Capefigue no seu livro, la Réforme et la Ligue, prova a mesma verdade; de
Falloux (Correspondant, 1883 e 1885) mostrou que aquele deplorável
acontecimento pertence exclusivamente à política e não a Religião; enfim,
Carné, na Revue des Deux-Mondes (1845), Jorge Gandy, num primeiro estudo sobre
a São Bartolomeu, suas origens e seu verdadeiro caráter (nos de julho e outubro
de 1866 na Revue des questions historiques, t. I), e numa apreciação do livro
do senhor de la Ferrière sobre a mesma questão (Revue des questions historiques,
t. XLI, abril de 1892); e G. Baguenault de Puchesse (mesma Revista, t. XXVII,
janeiro de 1880), livraram igualmente da censura de premeditação e cilada
Catarina de Medicis e Carlos IX. Aos olhos da sã crítica, pode-se dizer que a
luz está feita sobre este triste acontecimento do século XVI. Achar-se-á a
questão longamente tratada no livro do padre Lefortier, la Saint-Barhélemy et
les premières guerres de religion em France (1879), e um excelente resumo na
brochura de Henrique Hello, la Saint-Barthélemy (1899).
Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV
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Do número de vítimas da São Bartolomeu.
I. Divergências dos historiadores. II. Número verosímil das vítimas em toda a França. III. Questão acessória: é verdade que Carlos IX tenha atirado contra os protestantes? IV. Conclusão.
I. Seria pretencioso querer determinar, mesmo aproximadamente, o número de vítimas da São Bartolomeu, quer em Paris, quer nas províncias. Entre os diversos historiadores, a diferença é por demais sensível e suas divergências se explicam. Uns e outros são levados a aumentar ou a diminuir o número, segundo seu interesse ou partido. É de notar também que os autores acham complacência em aumentar tanto mais o número das vítimas, quanto mais afastados se acham do tempo de que escrevem.
O calvinista La Popelinère o avalia em mais de dois mil por toda a França, e em mil somente em Paris; Tavannes em dois mil só na capital. Papyre-Masson, contemporâneo protestante, mais tarde convertido, conta dez mil vítimas; o Martyrologio protestante, impresso em 1582, dez anos só depois dos acontecimentos, quinze mil; de Thou, o apologista dos protestantes, fala em trinta mil; Davila, pagem de Catharina de Medicis, e mais tarde historiador das guerras de religião na França, elevou o número a quarenta mil; Sully, apegado aos erros dos calvinistas, a sessenta mil; e Pérèfoxe, bispo de Rodez, preceptor de Luiz XIV, cujo fim era inspirar horror por aquela tragédia, chega até cem mil.
II. Apesar das buscas dos eruditos e dos documentos históricos publicados, seria temerário adotar um número exato, eo mais prudente é ainda, como no tempo em que o padre Caveirac publicava sua Dissertação sobre a São Bartolomeu (1758), tomar por base os cálculos do próprio Martyrologio dos calvinistas.
Eis o seu quadro.
CIDADES
|
NÚMERO GERAL DAS VÍTIMAS
|
NÚMERO DAQUELAS QUE SÃO
NOMEADAS
|
Paris
|
Em geral 10.000, detalhadamente 468
|
152
|
Orleans
|
1.850
|
156
|
Meaux
|
225
|
30
|
Troyes
|
37
|
37
|
Burges
|
23
|
23
|
La Charité
|
20
|
10
|
Lyão
|
1.800
|
144
|
Samur et Angers
|
26
|
8
|
Romans
|
7
|
7
|
Ruão
|
600
|
212
|
Tolosa
|
306
|
0
|
Bordéus
|
274
|
7
|
Total
|
15.168
|
786
|
O autor desse Martyriologio, contemporâneo dos fatos,
calvinista de religião, encarregado de modo quase oficial desse trabalho, não
julgou poder levar além de 15.168 o número das vítimas; pois deve ser ele
considerado como um total máximo. Ainda, oferece lugar a justas observações.
1º O total, dado pelo Martyrologio, não será sensivelmente
exagerado? Há muitos motivos para o acreditar. Em primeiro lugar, não é de
admirar que, depois de ter indicado em geral 15.168 vítimas, o autor não possa
designar pelo nome mais do que 786. Dir-se-á que citou só as mais ilustres. Mas
não é isso, pois que nessa enumeração há nomes de pessoas desconhecidas e de
nenhuma importância social. Deve-se então concluir que, na realidade, não houve
mais do que 786 vítimas nominalmente designadas? Tal não pretendemos; sabe-se,
com efeito, o que acontece nos tumultos populares. Contudo, há de se convir
que, entre a generalidade e os pormenores, a diferença é por demais sensível.
2º O autor dá em Paris o número total de 10.000 vítimas e
detalhadamente só acha 468, e de todos aqueles infelizes mortos nas ruas de
Paris, nominalmente designa apenas 152. Segundo o Martyrologio, a maior parte
dos cadáveres foram lançados no Sena. Ora, um documento autêntico, uma conta da
casa da câmara municipal, dá o número exato dos cadáveres retirados do Sena e
sepultados nos arredores de Saint-Cloud, Auteuil e Chaillot: 1.100 corpos
recolhidos foram enterrados. As avaliações dos contemporâneos menos suspeitos
ficam pouco abaixo ou acima desse número e demonstram que o total de 2.000,
dado por Papyre-Masson, nem foi alcançado, e que La Popelinère é mais chegado à
verdade quando fixa em mil as vítimas na capital.
Reduzindo na mesma proporção os números indicados pelo
Martyrologio calvinista para as outras cidades, chega-se a esta apreciação
geral, que o total das vítimas, em toda a França, foi apenas de 2000: é
certamente demais; mas vai longe disso as exagerações dos protestantes e dos
ímpios.
III. Agora que se há de pensar desta asserção que o próprio
Carlos IX, na manhã de São Bartolomeu, de uma janela do Luvre, tenha atirado
contra os protestantes. Essa afirmação de Brantôme e, acrescenta ele ainda que
o mosquete do rei não podia alçar o alvo. D’Aubigné, de Thou, o duque de Anjou
na sua narrativa a Miron, em suma, nenhum dos contemporâneos fala desse
pormenor. O testemunho de Brantôme é consideravelmente informado: (1) pelo
fato, por ele próprio confessado, que se achava a mais de cem léguas de Paris;
(2) por este trecho de um panfleto protestante de 1579, Le tocsin contre les
massacreurs: “Nesta circunstância, o rei não popava sua pessoa; não que ele
próprio manchasse as mãos com o sangue, mas porque ordenava que lhe trouxessem
os nomes dos mortos e dos presos”; (3) a janela do Louvre, e, que a comuna de
Paris (1793) decretou que seria colocado um cartaz inflamada, em memória de
Carlos IX atirando contra o povo, não existia no tempo desse rei: aquela parte
do Louvre foi construída só no fim do reinado de Henrique IV.
Eis, portanto, reduzido às proporções da verdade histórica o
que foi o massacre de São Bartolomeu.
1º Fica pois provado e é do domínio da história que nem o
papado, nem o partido religioso, que compreendia então a maior parte da nação,
não podem ser em nada responsáveis de um acontecimento que não prepararam e ao
qual não foram associados a não ser por atos isolados, individuais, de alguns
católicos ardentes que conservam a responsabilidade pessoal do que fizeram.
2º A questão de premeditação, tantas vezes invocada, não
pode ser admitida por um espírito sério e leal: seria incriminar as intenções,
por meio de suposições e conjecturas perfeitamente gratuitas.
3º É demonstrado que o Maryrologio mesmo é suspeito de erro
em muitos pontos, exagerou o total das vítimas e, aos números extravagantes
citados por historiadores levados pelo preconceito, é permitido opor cálculos
mais equitativos que reduzem as vítimas a dois ou três mil. Certamente este
número, por restrito que pareça, é ainda muito grande e permanece como uma mancha
sangrenta na história francesa, estigmatizando a fronte de Catarina de Medicis
e de Carlos IX com um ferrete tanto mais odioso que o atentado foi decidido em
conselho do governo.
Contudo, é permitido concluir com um escritor protestante da
Inglaterra: “Não se deixem ofuscar os leitores atentos, diz Cobbet, pelas
declamações filantrópicas e filosóficas, nas quais a palavra São Bartolomeu
produz sempre um tão admirável efeito. Lembrem-se que na época de que falamos,
Isabel, chegada ao décimo quarto ano de seu rei nado, fez assassinar um número
de seus súditos, por terem permanecidos fiéis à fé de seus pais, muito maior do
que o total de protestantes que suncubiram no tumulto da São Bartolomeu.” [1]
Notas
[1] Cartas sobre a Reforma, carta X.
-
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sábado, 18 de julho de 2015
A Noite de São Bartolomeu - PARTE 3 - São Bartolomeu foi um ato de proscrição política.
Por Mons. E. Cauly. Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV.
Partes anteriores: Parte 1 | Parte 2
III– São Bartolomeu foi um ato de proscrição política.
I. A culpabilidade pessoal de Coligny. II. O massacre não foi premeditado. III. Massacres nas províncias.
I. As virtudes guerreiras de Coligny, a apologia que Voltaire fez deste personagem, e o culto que lhe dedicaram os protestantes, fizeram por demais esquecer suas ofensas contra o rei, contra a pátria e contra a religião. Pegando em armas contra o Estado, Coligny tornara-se criminoso de lesa-majestade. A prova de sua rebelião não interrupta acha-se no Diário de suas receitas e despesas, por onde se vê que esbulhou os súditos do rei para mover guerra contra o monarca; nos papéis do almirante, onde se podem ler suas conspirações; nas Memórias de Villeroy, de Brantôme, de Tavannes e de Montluc. Percorrendo-as, ficar-se-á persuadido que Coligny se tornará insuportável a Carlos IX e a Catarina de Medicis, ao mesmo tempo que se declarava o inimigo encarniçado dos Guises, o cumplice e o instigador de Poltrot, assassino do duque, cuja morte tanta alegria lhe causara... Por certo, depois de tantos motivos de queixa, não é necessário procurar na religião um pretexto para esta proscrição inteiramente política [1].
Julgamos suficiente porém lembrar as últimas circunstâncias que precipitaram o desfecho de uma crise tão longa.
“Durante os reinados de Francisco II e de Carlos IX (1560-1574), Catarina de Medicis - que de fato governava o reino – introduziu, na direção dos negócios, um maquiavélico e perigoso sistema de balança, que consistia em enfraquecer uns pelos outros, por meio da astúcia ou da força, tanto os defensores como os inimigos do Catolicismo, sistema impossível e aliás perigoso; impossível, porque em parte alguma as ideias de conciliação e tolerância em matéria de religião eram aceitas; perigosíssimo, pois a força de poupar ou favorecer os partidos contrários, acabava-se fatalmente por congrega-los contra si mesmos, por originar reações violentas e não ter outro meio de sair da confusão e do caos senão as catástrofes[2]”.
Esta política de partido intermediário manifestara-se no colloquio de Poissy (1561). Inspirou o edito de janeiro de 1562 que assegurava aos reformados o livre exercício de seu culto, permitindo-lhes as predicas fora das cidades. Fiel a esta mesma política, a rainha não assina, em 1570, a paz de São Germano, que concedia tais vantagens aos protestantes que os católicos, logo em seguida Às suas vitórias de Jarnac e de Moncontour, se julgaram traídos. Quatro cidades fortificadas estavam entregues aos protestantes por dois anos; ficavam admitidos a todos os empregos, de modo que se pôde dizer que “a realeza capitulou como um vencido”.
O almirante Coligny triunfava com todas aquelas concessões; o rei o temia e era influenciado por ele, a tal ponto que Catarina de Medicis ficara apavorada com o ascendente do almirante. É então que a situação veio a complicar-se com um projeto de guerra contra a Espanha, guerra cuja realização muito se empenhava Coligny. A ela, porém, se opunha a rainha mãe. Desesperada por ver que o almirante era mais rei do que o rei, armou o braço de um assassino.
Em 22 de agosto de 1572, ao voltar do conselho, Coligny recebeu um tiro de bacamarte. O almirante foi somente ferido, Carlos IX o visita, consola, jura vinga-lo. Por outro lado, os protestantes ficam furiosos e vomitam ameaças. Catarina de Medicis resolve uma vingança mais completa. No conselho efetuado no dia seguinte, com o duque de Anjou e alguns chefes católicos, foi decidida a morte do almirante e de seus principais aderentes. Depois, tomada esta decisão, a rainha mãe foi ter com Carlos IX e mostrou-lhe o perigo iminente a que ia ficar exposto se não fizesse matar Coligny e os chefes do partido protestante. Assustado, exasperado, o rei declara que quer a morte não só de alguns protestantes, mas de todos. É assim que o massacre geral foi exigido e ordenado pelo rei. É verdade que no dia seguinte, 24 de agosto, quando às duas horas da madrugada, o dobre do sino deu o sinal, o rei, por uma contra-ordem, proibiu o massacre geral e até a morte de Coligny. Mas já era tarde: o sangue e a morte corriam pelas ruas da capital, onde a carnificina durou três dias [3].
II. Muito se discutiu a questão de saber se o massacre fora premeditado ou se foi resolvido subitamente. Os autores protestantes, para pintar a perseguição com cores mais negras, não deixaram de afirmar que a matança era preparada desde muito tempo. “Os panfletos contemporâneos fazem mesmo remontar a decisão até a entrevista de Bayonna, em 1565; alguns escritores, à paz de São Germano, 8 de agosto de 1570[4].
Outros autores, e partilhamos sua opinião, querem que a resolução não tenha sido tomada, se não no dia precedente, de tarde. Estes têm a seu favor: 1º o testemunho da rainha Margarida, esposa do rei de Navarra (mais tarde, Henrique IV); o 2º de Tavannes que, nas suas Memórias, afirma que se lançou mão dessa medida só em consequência dos receios que inspiravam os chefes dos protestantes, depois da ferida de Coligny (22 de agosto de 1572); 3º o do duque de Anjou, irmão de Carlos IX (e seu sucessor, sob o nome de Henrique III), relatado por seu médico Miron. Este descreve o conselho reunido em 23 de agosto, no qual a rainha Catarina de Medicis fez prevalecer o seu desígnio de matar Coligny, e o rei, numa grande cólera, propôs o massacre de todos os protestantes da França; 4º Esta opinião tem a seu favor a autoridade de Brantôme, e La Popelinère e de Mathieu, autores contemporâneos; 5º Enfim a crítica moderna, após estudo dos diversos documentos históricos, apega-se de preferência ao mesmo parecer. “Todas essas atestações, escreveu Banguenault de Puchesse, são concordantes e naturais, enquanto é preciso recorrer a suposições muito improváveis para sustentar a tese da dificílima preparação de um acontecimento no qual o acaso tem um papel muito mais preponderante do que o cálculo”[5].
Resumindo os testemunhos dos embaixadores da época, Cavali, Walsingham, o núncio Salviati, Cuniga, outro sábio crítico, Jorge Gandy, conclui assim: “Chega; a falta de premeditação que esses testemunhos e muitos outros afirmam é provada até a evidência”[6].
Acrescentemos quão pouco verosímil é que essa resolução tenha ficado secreta durante sete anos, como o querem os protestantes que a fazem remontar à entrevista de Bayonna e, pelo contrário, quanto se harmoniza melhor o conjunto dos fatos com a opinião de uma determinação súbita, que deixa tudo por conta do imprevisto e do furor das paixões populares.
III. Massacres se deram também nas províncias, em diversas cidades e em épocas diferentes: em Meaux, em 25 de agosto; em La Charité, em 26; em Orleans, em 27; em Angers e Saumur, em 29; em Lyão, em 30; em Troyes, em 4 de setembro; em Burges, em 15; em Ruão, em 17; em Romans, em 20; em Tolosa, 23; em Bordéus, somente em 3 de outubro e em Poitiers, no dia 27.
A respeito desses massacres, apresenta-se logo esta questão: pelo rei terão sido dadas ordens para estender às províncias as sangrentas execuções que se realizaram na capital? Os historiadores não estão de acordo. Segundo certos, a palavra escapada a Carlo IX, num momento de cólera, deve ser tomada ao pé da letra, e suas ordens secretas foram mandadas aos governadores das províncias, pedindo-lhes uma proscrição geral dos hereges. É a opinião dos protestantes Papyre-Masson, Davila, Maimbourg, acompanhados pelos adversários do Catolicismo. As Memórias do Estado da França afirmam que ordens neste sentido foram igualmente expedidas aos governadores das cidades.
Durante certo tempo foi de uso entre os defensores da Igreja negar essas asserções. Mas hoje seria difícil pretender que Carlos IX não tenha enviado ordem alguma. Sua correspondência já publicada, insere em 27, 30 e 31 de agosto, cartas que se diz que retira mandados verbais que o receio de sinistros acontecimentos pudera decidir a transmitir ao governador de Lyão, assim como a outros governadores e tenentes regionais.
Depois disso, não é muito possível duvidar da existência de certas ordens verbais expedidas nas províncias, quer pelo próprio rei, quer em nome dele pelos cortesões.
Agora, vem a propósito outras perguntas: em que momento foram dadas aquelas ordens? Estendiam-se a todo o reino? Qual era o seu teor? Pode-se atribuir-lhes os massacres dos protestantes efetuados nas províncias. Aqui também diferem as respostas com os autores.
1º Os historiadores que pretendem que São Bartolomeu foi uma coisa preparada desde muito tempo, foram obrigados, para ser consequentes, a sustentar que aquelas comunicações foram mandadas antes dos massacres de Paris. Para os partidários da opinião mais acreditada e verosímil, que não houve premeditação, é claro que não pôde haver ordens dadas muito tempo antes da execução. A resolução do massacre tendo sido tomada só na tarde de 23 de agosto, é nesse mesmo dia e uma hora bastante avançada, que o rei esteve no caso de dar suas instruções de viva voz a alguns fidalgos que estavam presentes.
2º As ordens verbais não foram expedidas a todos os governadores das províncias. O autor pouco suspeito das Memórias do Estado da França o atesta, dizendo ele mesmo que essas ordens “foram despachadas aos governadores das cidades notáveis onde havia numerosas pessoas da região”.
3º Eram as ordens despidas de toda a compaixão, prescrevendo a morte de todos os hereges, como o querem os escritores partidários de uma carnificina universal? À primeira vista, seria para estranhar que Carlos IX, que, em paris, não queria tirar a vida se não dos principais chefes, tenha ordenado nas províncias um massacre geral. Mas, a deposição de Tavannes e a do Martyriológio dos protestantes concordam neste ponto que o rei queria ferir só “os chefes dos facciosos” Se, numa efervescência popular, as execuções foram além, devem-se responsabilizar as paixões excitadas e aquele furor brutal que se manifesta em todas as arruaças.
4º Enfim, a verdade histórica obriga a reconhecer que aquelas ordens orais, de qualquer natureza que tenham sito, foram revogadas quase logo que foram dadas. Desde o dia 24 de agosto, Carlos IX se apressou em escrever a todos os governadores das províncias para lhes transmitir novas instruções. Nelas lê-se textualmente: “Tanto mais que é grandemente para recear que semelhante execução levante meus súditos uns contra os outros e se façam grandes matanças em meu reino, de que eu teria extremo pesar, rogo-vos fazer publicar por todos os lugares de vosso governo que cada um tenha que ficar sossegado e em segurança na sua própria casa, e veja a não pegar em armas e a não ofender a ninguém, sob pena de vida[7];
Portanto, se o sangue correm em diversos pontos do reino, é preciso concluir que foi anterior ou contrariamente às instruções escritas e positivas do rei.
Notas
[1] - Para mais informações, consultar a obra do padre Lefortier, La Saint-Barthélemy. O estudo desta questão, por Jorge Gandy, na Reuve des questions historiques, t. I, 1866.
[2] – Ver a obra de Carlos Buet, l’Amiral de Coligny et les guerres de religion au XVI siècle, um estudo sobre o Caractère de Coligny por D. d’Aussy (Revue des questions historiques, t. XXXVIII, julho de 1885, e o bem documentado trabalho do barão Kervin de Lettenhove, les huguenots et les Guerres, 6 vol. Publicados de 1883 a 1885.
[3] – Reuve des questions historiques, loc. cit., 1866.
[4] – A narrativa que damos é o resumo muito breve do extenso trabalho publicado na Revue des questions historiques, t. I.
[5] – Henrique Bordier, no seu livro la Saint-Barthélemy et la critique moderne (1879), esforça-se por fazer prevalecer esta opinião, aliás pouco fundada; porque a paz de São Germano oferecia demasiadas garantias ao partido protestante para não parecer uma verdadeira conciliação. – Heitor de la Ferrière, no seu livro la Saint-Barthélemy; la veille, le jour, le lendemain (1892), refere diversos testemunhos favoráveis a uma premeditação.
[6] – Baguenault de Puchesse, la Saint-Barthélemy, questions controverses (2º série), publicadas pela Sociedade Bibliográfica.
[7] – Jorge Gandy, la Saint-Barthélemy, segundo a recente obra de Heitor de La Ferrière; Revue des questions historiques, t. XLI (fascículo de abril de 1892).
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Partes anteriores: Parte 1 | Parte 2
III– São Bartolomeu foi um ato de proscrição política.
I. A culpabilidade pessoal de Coligny. II. O massacre não foi premeditado. III. Massacres nas províncias.
I. As virtudes guerreiras de Coligny, a apologia que Voltaire fez deste personagem, e o culto que lhe dedicaram os protestantes, fizeram por demais esquecer suas ofensas contra o rei, contra a pátria e contra a religião. Pegando em armas contra o Estado, Coligny tornara-se criminoso de lesa-majestade. A prova de sua rebelião não interrupta acha-se no Diário de suas receitas e despesas, por onde se vê que esbulhou os súditos do rei para mover guerra contra o monarca; nos papéis do almirante, onde se podem ler suas conspirações; nas Memórias de Villeroy, de Brantôme, de Tavannes e de Montluc. Percorrendo-as, ficar-se-á persuadido que Coligny se tornará insuportável a Carlos IX e a Catarina de Medicis, ao mesmo tempo que se declarava o inimigo encarniçado dos Guises, o cumplice e o instigador de Poltrot, assassino do duque, cuja morte tanta alegria lhe causara... Por certo, depois de tantos motivos de queixa, não é necessário procurar na religião um pretexto para esta proscrição inteiramente política [1].
Julgamos suficiente porém lembrar as últimas circunstâncias que precipitaram o desfecho de uma crise tão longa.
“Durante os reinados de Francisco II e de Carlos IX (1560-1574), Catarina de Medicis - que de fato governava o reino – introduziu, na direção dos negócios, um maquiavélico e perigoso sistema de balança, que consistia em enfraquecer uns pelos outros, por meio da astúcia ou da força, tanto os defensores como os inimigos do Catolicismo, sistema impossível e aliás perigoso; impossível, porque em parte alguma as ideias de conciliação e tolerância em matéria de religião eram aceitas; perigosíssimo, pois a força de poupar ou favorecer os partidos contrários, acabava-se fatalmente por congrega-los contra si mesmos, por originar reações violentas e não ter outro meio de sair da confusão e do caos senão as catástrofes[2]”.
Esta política de partido intermediário manifestara-se no colloquio de Poissy (1561). Inspirou o edito de janeiro de 1562 que assegurava aos reformados o livre exercício de seu culto, permitindo-lhes as predicas fora das cidades. Fiel a esta mesma política, a rainha não assina, em 1570, a paz de São Germano, que concedia tais vantagens aos protestantes que os católicos, logo em seguida Às suas vitórias de Jarnac e de Moncontour, se julgaram traídos. Quatro cidades fortificadas estavam entregues aos protestantes por dois anos; ficavam admitidos a todos os empregos, de modo que se pôde dizer que “a realeza capitulou como um vencido”.
O almirante Coligny triunfava com todas aquelas concessões; o rei o temia e era influenciado por ele, a tal ponto que Catarina de Medicis ficara apavorada com o ascendente do almirante. É então que a situação veio a complicar-se com um projeto de guerra contra a Espanha, guerra cuja realização muito se empenhava Coligny. A ela, porém, se opunha a rainha mãe. Desesperada por ver que o almirante era mais rei do que o rei, armou o braço de um assassino.
Em 22 de agosto de 1572, ao voltar do conselho, Coligny recebeu um tiro de bacamarte. O almirante foi somente ferido, Carlos IX o visita, consola, jura vinga-lo. Por outro lado, os protestantes ficam furiosos e vomitam ameaças. Catarina de Medicis resolve uma vingança mais completa. No conselho efetuado no dia seguinte, com o duque de Anjou e alguns chefes católicos, foi decidida a morte do almirante e de seus principais aderentes. Depois, tomada esta decisão, a rainha mãe foi ter com Carlos IX e mostrou-lhe o perigo iminente a que ia ficar exposto se não fizesse matar Coligny e os chefes do partido protestante. Assustado, exasperado, o rei declara que quer a morte não só de alguns protestantes, mas de todos. É assim que o massacre geral foi exigido e ordenado pelo rei. É verdade que no dia seguinte, 24 de agosto, quando às duas horas da madrugada, o dobre do sino deu o sinal, o rei, por uma contra-ordem, proibiu o massacre geral e até a morte de Coligny. Mas já era tarde: o sangue e a morte corriam pelas ruas da capital, onde a carnificina durou três dias [3].
II. Muito se discutiu a questão de saber se o massacre fora premeditado ou se foi resolvido subitamente. Os autores protestantes, para pintar a perseguição com cores mais negras, não deixaram de afirmar que a matança era preparada desde muito tempo. “Os panfletos contemporâneos fazem mesmo remontar a decisão até a entrevista de Bayonna, em 1565; alguns escritores, à paz de São Germano, 8 de agosto de 1570[4].
Outros autores, e partilhamos sua opinião, querem que a resolução não tenha sido tomada, se não no dia precedente, de tarde. Estes têm a seu favor: 1º o testemunho da rainha Margarida, esposa do rei de Navarra (mais tarde, Henrique IV); o 2º de Tavannes que, nas suas Memórias, afirma que se lançou mão dessa medida só em consequência dos receios que inspiravam os chefes dos protestantes, depois da ferida de Coligny (22 de agosto de 1572); 3º o do duque de Anjou, irmão de Carlos IX (e seu sucessor, sob o nome de Henrique III), relatado por seu médico Miron. Este descreve o conselho reunido em 23 de agosto, no qual a rainha Catarina de Medicis fez prevalecer o seu desígnio de matar Coligny, e o rei, numa grande cólera, propôs o massacre de todos os protestantes da França; 4º Esta opinião tem a seu favor a autoridade de Brantôme, e La Popelinère e de Mathieu, autores contemporâneos; 5º Enfim a crítica moderna, após estudo dos diversos documentos históricos, apega-se de preferência ao mesmo parecer. “Todas essas atestações, escreveu Banguenault de Puchesse, são concordantes e naturais, enquanto é preciso recorrer a suposições muito improváveis para sustentar a tese da dificílima preparação de um acontecimento no qual o acaso tem um papel muito mais preponderante do que o cálculo”[5].
Resumindo os testemunhos dos embaixadores da época, Cavali, Walsingham, o núncio Salviati, Cuniga, outro sábio crítico, Jorge Gandy, conclui assim: “Chega; a falta de premeditação que esses testemunhos e muitos outros afirmam é provada até a evidência”[6].
Acrescentemos quão pouco verosímil é que essa resolução tenha ficado secreta durante sete anos, como o querem os protestantes que a fazem remontar à entrevista de Bayonna e, pelo contrário, quanto se harmoniza melhor o conjunto dos fatos com a opinião de uma determinação súbita, que deixa tudo por conta do imprevisto e do furor das paixões populares.
III. Massacres se deram também nas províncias, em diversas cidades e em épocas diferentes: em Meaux, em 25 de agosto; em La Charité, em 26; em Orleans, em 27; em Angers e Saumur, em 29; em Lyão, em 30; em Troyes, em 4 de setembro; em Burges, em 15; em Ruão, em 17; em Romans, em 20; em Tolosa, 23; em Bordéus, somente em 3 de outubro e em Poitiers, no dia 27.
A respeito desses massacres, apresenta-se logo esta questão: pelo rei terão sido dadas ordens para estender às províncias as sangrentas execuções que se realizaram na capital? Os historiadores não estão de acordo. Segundo certos, a palavra escapada a Carlo IX, num momento de cólera, deve ser tomada ao pé da letra, e suas ordens secretas foram mandadas aos governadores das províncias, pedindo-lhes uma proscrição geral dos hereges. É a opinião dos protestantes Papyre-Masson, Davila, Maimbourg, acompanhados pelos adversários do Catolicismo. As Memórias do Estado da França afirmam que ordens neste sentido foram igualmente expedidas aos governadores das cidades.
Durante certo tempo foi de uso entre os defensores da Igreja negar essas asserções. Mas hoje seria difícil pretender que Carlos IX não tenha enviado ordem alguma. Sua correspondência já publicada, insere em 27, 30 e 31 de agosto, cartas que se diz que retira mandados verbais que o receio de sinistros acontecimentos pudera decidir a transmitir ao governador de Lyão, assim como a outros governadores e tenentes regionais.
Depois disso, não é muito possível duvidar da existência de certas ordens verbais expedidas nas províncias, quer pelo próprio rei, quer em nome dele pelos cortesões.
Agora, vem a propósito outras perguntas: em que momento foram dadas aquelas ordens? Estendiam-se a todo o reino? Qual era o seu teor? Pode-se atribuir-lhes os massacres dos protestantes efetuados nas províncias. Aqui também diferem as respostas com os autores.
1º Os historiadores que pretendem que São Bartolomeu foi uma coisa preparada desde muito tempo, foram obrigados, para ser consequentes, a sustentar que aquelas comunicações foram mandadas antes dos massacres de Paris. Para os partidários da opinião mais acreditada e verosímil, que não houve premeditação, é claro que não pôde haver ordens dadas muito tempo antes da execução. A resolução do massacre tendo sido tomada só na tarde de 23 de agosto, é nesse mesmo dia e uma hora bastante avançada, que o rei esteve no caso de dar suas instruções de viva voz a alguns fidalgos que estavam presentes.
2º As ordens verbais não foram expedidas a todos os governadores das províncias. O autor pouco suspeito das Memórias do Estado da França o atesta, dizendo ele mesmo que essas ordens “foram despachadas aos governadores das cidades notáveis onde havia numerosas pessoas da região”.
3º Eram as ordens despidas de toda a compaixão, prescrevendo a morte de todos os hereges, como o querem os escritores partidários de uma carnificina universal? À primeira vista, seria para estranhar que Carlos IX, que, em paris, não queria tirar a vida se não dos principais chefes, tenha ordenado nas províncias um massacre geral. Mas, a deposição de Tavannes e a do Martyriológio dos protestantes concordam neste ponto que o rei queria ferir só “os chefes dos facciosos” Se, numa efervescência popular, as execuções foram além, devem-se responsabilizar as paixões excitadas e aquele furor brutal que se manifesta em todas as arruaças.
4º Enfim, a verdade histórica obriga a reconhecer que aquelas ordens orais, de qualquer natureza que tenham sito, foram revogadas quase logo que foram dadas. Desde o dia 24 de agosto, Carlos IX se apressou em escrever a todos os governadores das províncias para lhes transmitir novas instruções. Nelas lê-se textualmente: “Tanto mais que é grandemente para recear que semelhante execução levante meus súditos uns contra os outros e se façam grandes matanças em meu reino, de que eu teria extremo pesar, rogo-vos fazer publicar por todos os lugares de vosso governo que cada um tenha que ficar sossegado e em segurança na sua própria casa, e veja a não pegar em armas e a não ofender a ninguém, sob pena de vida[7];
Portanto, se o sangue correm em diversos pontos do reino, é preciso concluir que foi anterior ou contrariamente às instruções escritas e positivas do rei.
Notas
[1] - Para mais informações, consultar a obra do padre Lefortier, La Saint-Barthélemy. O estudo desta questão, por Jorge Gandy, na Reuve des questions historiques, t. I, 1866.
[2] – Ver a obra de Carlos Buet, l’Amiral de Coligny et les guerres de religion au XVI siècle, um estudo sobre o Caractère de Coligny por D. d’Aussy (Revue des questions historiques, t. XXXVIII, julho de 1885, e o bem documentado trabalho do barão Kervin de Lettenhove, les huguenots et les Guerres, 6 vol. Publicados de 1883 a 1885.
[3] – Reuve des questions historiques, loc. cit., 1866.
[4] – A narrativa que damos é o resumo muito breve do extenso trabalho publicado na Revue des questions historiques, t. I.
[5] – Henrique Bordier, no seu livro la Saint-Barthélemy et la critique moderne (1879), esforça-se por fazer prevalecer esta opinião, aliás pouco fundada; porque a paz de São Germano oferecia demasiadas garantias ao partido protestante para não parecer uma verdadeira conciliação. – Heitor de la Ferrière, no seu livro la Saint-Barthélemy; la veille, le jour, le lendemain (1892), refere diversos testemunhos favoráveis a uma premeditação.
[6] – Baguenault de Puchesse, la Saint-Barthélemy, questions controverses (2º série), publicadas pela Sociedade Bibliográfica.
[7] – Jorge Gandy, la Saint-Barthélemy, segundo a recente obra de Heitor de La Ferrière; Revue des questions historiques, t. XLI (fascículo de abril de 1892).
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