Não custa nada colocar sempre algo sobre esse assunto já batido, mas que ocupa a imaginação fantasiosa de alguns protestantes sobre as imagens. Alguns chegam a considerar a única coisa da Igreja que se deve criticar (até o momento em que são respondidos e começam a procurar outras desculpas para o protesto), e que, fora isso, seriam iguais a eles. Esse trecho, mencionado no livro Trivium, é uma refutação a algumas alegações de Tyndale. Bom proveito:
(o trecho em vermelho é um acréscimo meu)
"Imagens são livros necessários aos sem instrução e são bons livros também aos instruídos. Pois todas as palavras são apenas imagens que representam coisas que o escritor ou orador concebe em sua mente, tanto quanto a figura de uma coisa emoldurada pela imaginação, e deste modo concebido na mente, é tão somente a imagem representativa da coisa mesma sobre a qual o homem pensou.
Por exemplo, se eu conto um episódio da vida de um amigo meu [ou, se alguém narra um episódio da Bíblia, como a morte de Jesus], a imaginação que tenho dele em minha mente não é ele mesmo, mas uma imagem que o representa. E quando eu o nomeio, seu nome não é nem a figura que dele tenho em minha imaginação, mas apenas a imagem que apresenta a você a imaginação da minha mente.
Se eu estiver muito longe de você para lhe contar tal episódio, então será a escrita, e não o nome mesmo, uma imagem representativa do nome. E, no entanto, todos esses nomes falados e todas essas palavras escritas não são signos ou imagens naturais, mas signos construídos por consentimento e convenção entre os homens para significar as coisas, enquanto as imagens pintadas, esculpidas ou entalhadas podem ser tão bem trabalhadas, tão fiéis à verdade e ao objetivo, que, naturalmente, acabam representando-o muito mais eficazmente do que o nome falado ou escrito. Pois aquele que nunca tenha ouvido o nome do meu amigo, mas que tenha visto um seu retrato, se um dia a vir em pessoa, o reconhecerá através da imagem trazida à memória." (Confutation of Tundale's Answers)
segunda-feira, 16 de abril de 2012
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Cezar Peluso: aborto de feto anencéfalo é ato 'egocêntrico'.
Abaixo um vídeo, que apesar da "derrota" da vida, fica como memorial de que, apesar de qualquer vitória filosófica, a mentira se interessa apenas pelo poder. Voto fantástico:
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Isabel: princesa, católica e antiescravagista.
Achei esse texto interessante, por isso resolvi postar:
"[...] O imperador não era ateu nem propriamente anticlerical. Cumpria normalmente suas obrigações de católico, mesmo quando não era obrigado pelo cerimonial. Quando esteve à morte em Milão, recebeu os sacramentos da Igreja, o mesmo acontecendo por ocasião da morte em Paris. Mas era, sobretudo, um racionalista do século XVII e um regalista. A condessa de Barral, ela própria uma ultramontana, o criticou na época do episódio do roubo das jóias, dizendo que, em matéria de catolicismo, ele acreditava mas não obedecia, no que, aliás, não se distinguia da maioria da elite brasileira. Já no exílio, d. Pedro ainda teve grandes discussões sobre religião com o conde de Aljezur, outro católico intransigente. Anotou no diário que respeitava a religião porque se convencia de que ela não exigia a abdicação da razão dada pelo criador.
Embora rejeitasse a supremacia da Igreja sobre o Estado, julgava que a união dos dois poderes devia ser tolerada enquanto as circunstâncias do país, isto é, a precária situação educacional, o exigissem. A Igreja tinha, então, uma função pedagógica e de manutenção da ordem. O imperador apoiava o casamento civil, os registros civis de nascimento e morte, a secularização dos cemitérios. Registrou em diário ser contra o ensino religioso em escolas públicas. Sintomaticamente, não consta que tivesse, nos anos finais do regime, relações próximas com nenhuma autoridade eclesiástica com quem pudesse discutir o problema das relações entre Igreja e Estado.
Estranhamente, apesar de cuidar de perto da educação das filhas, d. Pedro não conseguiu transmitir suas convicções à herdeira do trono. Isabel era uma ultramontana. Vivia criticando o pai pela tolerância religiosa. Já no exílio, mas ainda na fase de discussões de uma possível restauração, censurou-a por querer visitar Paray-le-Monial, num centro de romaria ligado ao culto do Sagrado Coração. Argumentou que o ato “lhe aumentaria a fama de beata prejudicando-a na opinião”. Isabel não lhe deu atenção e fez sua romaria. No Brasil, ela se aliou a políticos ultramontanos, e, no momento em que o imperador enfrentava os bispos e Pio IX, correspondia-se com o papa pedindo a canonização de Anchieta. Em 1888, Leão XIII lhe concedeu a Rosa de Ouro, condecoração reservada aos chefes de Estado, católicos, naturalmente, que se tivessem salientado por atos de benemerência. No caso, o ato meritório era a abolição da escravidão. Na entrega da Rosa, feita na capela imperial, discursou ninguém menos do que o bispo do Pará, d. Antônio de Macedo Costa, o mesmo que fora mandado para a cadeia em 1874. Não é difícil deduzir que os bispos apostavam num terceiro reinado com Isabel, como oportunidade de ouro para ter no governo uma aliada incondicional de suas idéias."
Carvalho, José Murilo de
D. Pedro II / por José Murilo de Carvalho, corrdenação Elio Gaspari e Lilia M. Scwarez – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
domingo, 8 de abril de 2012
João Batista é Elias reencarnado?
Muitos espiritas ao tentarem mostrar que os Evangelhos apoiam a reencarnação tentam, de forma desesperada, mencionar o caso de Elias. Por isso resolvi escrever alguns motivos porque essa interpretação não é possível:Primeiro, mesmo que pensassem que era o mesmo profeta em pessoa chamado de Elias não significa necessariamente que eles acreditavam que era reencarnação, pode significar que acreditavam que ele simplesmente veio assim como foi levado aos céus sem morrer. Alguém que não conhece o seu nascimento nem suas circunstâncias, principalmente porque ele passou a ficar no deserto, poderia muito bem supor isso (isso porque, essa confusão aconteceu até com Jesus). Ou seja, toda essa sua conclusão passa desse pressuposto, em vez de uma possível volta de Elias no mesmo corpo que teria sido arrebatado. Todo o texto mostra que as pessoas viam certo mistério em João, esse mistério, junto com seu ministério no deserto, pode ter feito as pessoas perguntarem isso. Só isso exclui uma interpretação reencarnacionista como necessária.
Veja que alguns diziam que Jesus era João Batista! Impossível pela idade deles estarem falando em uma reencarnação. No caso de João Batista estavam falando de alguém que, segundo a tradição judaica, não teria morrido.
Então temos que buscar mais pistas sobre o que eles acreditavam, em vez de simplesmente pressupor a qualquer custo que (1) Elias havia morrido depois de ter sido arrebatado e (2) eles estavam se referindo a uma reencarnação.
Segundo, Lucas, que foi contemporâneo dos apóstolos, aprendeu diretamente com eles e escreveu uma biografia de Jesus antes que estes morressem (o que significa que eles tiveram um bom tempo para autorizar a utilização dela) diz algo que pode ajudar na compreensão sobre o que eles acreditavam:
-> Herodes pensou que Jesus era João que tinha ressuscitado, ou Elias que tinha aparecido. 9, 7; Outros, (v. 8) um profeta antigo que tinha ressuscitado.
-> Quando perguntaram sobre quem Jesus era, eles responderam: "João o Batista (impossível, como disse, que pensassem que era reencarnação nesse caso, por causa da idade de ambos); outros, Elias, e outros que um dos antigos profetas ressuscitou." Lc 9, 19. Se com os outros profetas, que estavam mortos, eles acreditavam que teriam ressuscitado, imagine Elias, que foi arrebatado vivo?
-> João Batista já estava morto, mas Jesus ao conversar na transfiguração, conversou com Moisés e Elias. Ora, se eles acreditassem mesmo que João Batista era a reencarnação de Elias, é mais lógico supor que eles citariam o nome de "João" não "Elias".
Ou seja, nesses casos não há nenhuma referência a reencarnação, pelo contrário, há varias citações que argumentam de forma positiva para que ou eles pensavam que ou Elias tinha ressuscitado (caso acreditassem que ele tivesse morrido, o que é improvável) ou que Elias apareceu, tal como havia sumido, ou uma terceira opção, que citarei no final.
Isso é o que as pessoas diziam sobre Elias. Que ou havia aparecido, ou era algum dos profetas ressurretos.
E o que Jesus disse? "E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias" 1, 17.
Nesse caso temos duas opções: espírito reencarnado, ou uma linguagem familiar da tradição judaica para outra coisa.
Quanto isso, além de ser um indicativo contrário o fato de todos os outros falarem de uma "aparição" ou "ressurreição", nas Escrituras do AT, familiar a Jesus e aos judeus que ele se dirigia, ao falar de Elias, também não apoia a reencarnação. É só recordar que Eliseu, ao fazer um pedido a Elias, pediu a porção dobrada de seu espírito. Como Elias não morreu naquele momento, seria uma prova de desespero supor que seria algo como uma incorporação (o máximo que se pode chegar). Quando Eliseu voltou, as pessoas reconheceram que o espírito de Elias, que não tinha morrido, repousava sobre Eliseu.
Assim, uma vez que é impossível pelo texto uma reencarnação ou incorporação de Elias em Eliseu, fica óbvio que se refere ao espírito de profecia em Eliseu.
Juntando os textos que mostram que eles faziam referência a uma aparição e ressurreição, com o fato de que o texto nas Escrituras que falam de Elias se referem uma significação diferente para "espírito", então fica difícil não concluir que Jesus disse que João Batista iria no espírito e na virtude de Elias não no sentido de que era a reencarnação dele (até porque diz que "vai no espírito" não que "é o espírito"), mas que tinha, assim como Eliseu, o mesmo espírito profético.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O Jesus do "Código da Vinci" - Por H. Wayne House
Esse já é um assunto batido, mas sempre tem gente pousando de conhecedor depois que leu livros como o Código da Vinci. Eu lembro da tempestade em copo d'água que foi feito, inclusive de um professor meu que estava jogando na cara dos seus alunos o quanto a Bíblia é falsa, como "prova" o Código da Vinci. Por muitas das afirmações falsas que estão no livro ainda serem divulgadas e cridas (nem todos passaram a acreditar por meio desse livro, mas é o mais comum), resolvi postar esse comentário. Bom proveito:
Em 2003, o escritor Dan Brown publicou seu quarto livro, O Código da Vinci. O livro é um romance, embora Brown afirme: “Todas as descrições de ilustrações, arquitetura, documentos e rituais secretos desse romance são exatos”, declaração que provocou alvoroço na comunidade cristã. As asserções de Brown a respeito de Jesus foram tão radicais quanto falsas. Os erros bem documentados em O código da Vinci levaram Sandra Miesel, da revista Crisis, a gracejar: “o Livro O código da Vinci está tão cheio de erros que o leitor instruído, na verdade,aplaude as raras ocasiões que Brown tropeça (sem querer) na verdade”. [1] Até mesmo Bart Ehrman, que discutiremos mais adiante neste capítulo, tem palavras depreciativas para a falta de exatidão histórica de Brown e sua pesquisa descuidada. [2]
Infelizmente, talvez muitas pessoas não tenham o discernimento de separar a verdade da ficção na obra de Brown. Embora o alvoroço em relação ao romance tenha se aquietado, alguns dos argumentos apresentados no livro continuam a reverberar em toda a sociedade. A popularidade do livro O código da Vinci levou a um aumento da aceitação pública pela busca de alternativas à percepção ortodoxa de Jesus. Todavia, muitas afirmações feitas por Brown são simplesmente recontagens exageradas dos debates dos estudiosos da atualidade. Limitaremos nossa crítica às afirmações de Brown a respeito de Jesus, especialmente em relação à divindade dele, e às interpretações errôneas de Brown das versões gnósticas de Jesus.
O Jesus humano de Dan Brown
Jesus foi feito Deus no Concílio de Niceia. A certa altura do romance, um dos personagens de Brown está instruindo outro a respeito do Jesus “real”. Ele diz: “Nessa reunião [Concilio de Nicéia], muitos aspectos do cristianismo foram debatidos e votados – a data da Páscoa, o papel dos bispos, a administração dos sacramentos e, claro, a divindade de Jesus”. Mais adiante, esse personagem, Teabing, em um diálogo, diz a outro:
- Meu caro, até esse momento da história, Jesus foi visto por seus seguidores como um profeta mortal, [...] um grande e poderoso homem, mas apenas um homem. Um mortal.- Não como o Filho de Deus?- Isso mesmo, o estabelecimento de Jesus como “o Filho de Deus” foi oficialmente proposto e votado no Concílio de Nicéia.
Brown continua e, ainda por intermédio desse personagem, declara que a votação foi secreta, e que era Constantino quem desejava se tornar o Jesus divino. Ele diz que a igreja roubou Jesus de seus seguidores primitivos, “seqüestrando a mensagem humana dele, envolvendo-a em um impenetrável manto de divindade e usando-a para expandir o poder dela mesma”. Ele alega que os “evangelhos” que enfatizavam a humanidade de Jesus foram reunidos e queimados por Constantino, mas alguns escaparam da destruição. Aqueles que usavam esses evangelhos eram chamados de “heréticos”, embora usassem os evangelhos “originais”. Entre esses “evangelhos heréticos”, diz Brown, estavam os pergaminhos do Mar morto e os “pergaminhos cópticos” encontrados em Nag Hammadi. [3] Brown argumenta que esses documentos “falam do ministério de Cristo em termos bem humanos”.
Resposta à alegação de Brown
O suporte bíblico para a divindade de Jesus. Essa bizarra declaração a respeito de Jesus simplesmente é falsa, e isso é fácil de provar. Primeiro, os próprios evangelhos testificam a divindade de Jesus. João 1.1,2 diz “No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”. João 8:58 afirma: “Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Mesmo se aceitarmos a erudição mais liberal de que o Evangelho de João foi escrito mais de dois séculos antes do Concílio de Nicéia. O apóstolo Paulo, na epístola aos Romanos, escrita em 55 e 57 d.C., pouco mais de vinte anos após a crucificação de Jesus, indica claramente que Jesus era divino: “O Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém” (Rm 9:5).
A divindade de Jesus na igreja pós-apostólica. A doutrina da divindade de Jesus foi defendida e ensinada logo no início da igreja. O pai apostólico Inácio acreditava na divindade de Jesus e, por volta de 105 d.C., escreveu: “Deus mesmo sendo manifestado na forma humana para a renovação da vida eterna”. [4]
Justino Mártir escreveu na primeira metade do éculo II: “O Pai do universo tem um Filho, que sendo também o primogênito Verbo de Deus, é mesmo Deus” [5]
Clemente, por volta de 150 d.C., defendeu a divindade de Jesus e a Trindade ao dizer: “Se esse é seu desejo, seja também você iniciado; e você se juntará ao coro com os anjos em torno do não gerado, indestrutível e único verdadeiro Deus, a Palavra de Deus, engrandecendo o hino conosco. Esse Jesus, que é eterno, o único grande Sumo Sacerdote do único Deus e Pai dele, ora pelos homens e os exorta”. [6]
A divindade de Jesus no Concílio de Nicéia. Dan Brown parece não saber do que se tratava o Concílio de Nicéia. Não era a divindade de Jesus que estava em debate, mas o novo ensinamento de um homem chamado Ário. O Concílio de Niceia não foi convocado para solidificar o poder com a elaboração de uma nova doutrina, mas para unificar a igreja e defender o ensinamento original das novas idéias. Ário acreditava que Jesus era divino, mas de forma diferente ou menor que o Pai, pois ele alegava que Jesus fora criado pelo Pai. A grande maioria dos bispos presentes no Concílio de Niceia era contra esse ensinamento. O único debate em relação à linguagem do credo apresentado por eles seria para descrever de forma mais acurada a relação do Pai e do Filho. [7]
Por fim, eles chegaram à linguagem familiar do Credo de Niceia:
Creio em um só Deus, Pai Onipotente, criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis e em Jesus Cristo, Senhor nosso, Filho de Deus unigênito, e nascido do Pai, antes de todos os séculos.
Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro, gerado, não feito, da mesma substância do Pai e pelo qual foram feitas todas as coisas, o qual por nós foi crucificado e por nossa salvação desceu dos céus, encarnou por obra do Espírito Santo, de Maria Virgem e foi feito homem.
Foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras. E subiu ao céu, onde há de vir segunda vez para julgar os vivos e os mortos e o seu Reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo que também é o Senhor e dá vida, e procede do Pai e do Filho com os quais é juntamente adorado e glorificado, e que falou pelos profetas. Creio na Igreja que é uma, santa, católica e apostólica. Creio no Batismo para a remissão dos pecados e espero a Ressurreição dos mortos e a vida do futuro século. Amém.
Quanto à “reunião” realizada por Constantino de todos os “evangelhos heréticos”, os próprios escritos de Nag Hammadi comprovam que são falsos. Eles são datados de alguma época do século IV, provavelmente, depois de 350 d.C., e é possível que, até mesmo, sejam de “uma geração posterior” [8], tornando a composição deles, pelo menos, 25 anos posterior ao Concílio de Niceia.
A humanidade de Jesus no gnosticismo e nos evangelhos canônicos. De acordo com Brown, o Jesus dos evangelhos gnósticos é mais humano que o Jesus dos evangelhos canônicos. [...] A palavra gnóstico é um termo abrangente para um sistema filosófico baseado em “conhecimento secreto” (o termo gnóstico deriva da palavra grega para conhecimento). Os gnósticos acreditavam possuir o conhecimento correto do que era a realidade, o que não era visível para todas as outras pessoas.
Havia algumas crenças básicas entre os gnósticos. A essência divina original produziu outras essências divinas, mas aconteceu algum tipo de queda no reino espiritual. Como resultado disso, a matéria veio à existência. Essa matéria, portanto, foi produzida do mal. Todavia, parte da natureza original, pura e espiritual foi posta em algumas almas. Essas almas atravessaram o mundo material em seu retorno ao mundo divino, mas foram presas em sua “concha” material. Um “redentor”, a saber, Jesus, veio para revelar o meio de escapar do mundo material por meio desse bocado de natureza divina. [9]
Contudo, uma vez que, no gnosticismo, a matéria é inerentemente má, o Jesus gnóstico classifica-se em algum ponto entre ser um veículo humano para o espírito divino do Filho e uma simples aparição que não tem, de modo algum, forma material. Os evangelhos gnósticos, em vez de enfatizar a humanidade de Jesus, quase a excluem.
Retirado do livro “O Jesus que nunca existiu”. Para mais informações sobre as fontes pré-nicenas da divindade de Jesus, conferir aqui e aqui.
1 – MIESEL,Sandra. “Dismantling the Da Vinci Code”, reista Crisis, 8 de julho de 2004.
2 – Ehrman diz: “Como a maioria dos historiadores que dedicou a vida ao estudo das fontes antigas de Jesus e do cristianismo primitivo, comecei imediatamente a ver problemas nas alegações históricas feitas no livro. Havia inúmeros erros, alguns ridículos, que não só eram óbvios para um especialista, mas também desnecessários para a trama. Se o autor tivesse apenas feito um pouco mais de pesqusia, teria sido capaz de apresentar um relato histórico mais preciso, sem compreometer de forma alguma a história que ele tinha para contar” Ehrman, Bart D. Truth and fiction in the da Vinci Code. New York: Oxford University press, 2004, p. xiii.
3 – Brown é simplesmente negligente aqui. Os pergaminhos do mar Morto não contêm evangelhos, mas são textos judaicos que não fazem menção a Jesus. A maioria deles foi escrita entre cinqüenta e cem anos antes de Jesus. Os “pergaminhos cópticos” são escritos gnósticos que incluem alguns ‘evangelhos’ entre muitas outras obras. Geralmente eles são chamados de Biblioteca Nag Hammadi e não são, de maneira alguma, pergaminhos, mas livros encadernados chamados códices.
4 – Ignatius, Epistle to the Ephesians, p. 19 (ANF 2.205)
5 – Mártir, Justino, The frist apology, p. 43 (ANF 1.184)
6– Clemente de Alexandria, Exhortation to the Heathen, p. 12 (ANF 2.205).
7 – Ferguson, Everett. Church history, Volume I: From Christ to Pre-Reformation. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2005, p; 191-95;
8 – Brannan, Rick. “Historic Creeds and Confessions” Ed.eletrônica. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1997, artigo 12.
9 – Ferguson, Everett. Church history, vol. 1: From Christ to Pre-reformation. P. 93
*** Em breve alguns comentários sobre certas alegações de alguns muçulmanos.
terça-feira, 3 de abril de 2012
O fragmento muratoriano
Em 1740, foi publicada uma lista dos livros do Novo Testamento em latim por Lodovico Antonio Muratori, distinto antiquário e teólogo em sua época, a partir de um códice copiado no éculo VII ou VIII no mosteiro de Bobbio, na Lombardia, mas que depois veio a ser guardado na Biblioteca Ambrosiana (da qual Muratori fora, por algum tempo, curador), em Milão. Continua armazenada lá, sob o número de catálogo J 101 sup., fólios 10a-11a.
A data em que a lista foi preparada originalmente é muito debatida. Ela provém, mais provavelmente, do final do século II. O texto latino sofreu por ter sido copiado por um ou mais escribas que possuíam pouca habilidade de escrita. Há vários erros que clamam por emendas. Muitos estudiosos sustentam a idéia de que por trás do texto latino jaz um texto original grego que se perdeu. Todavia, no todo, parece que o latim era mesmo sua língua original, e que a lista data do tempo em que a igreja romana (que fora de língua grega desde sua fundação no século I) começava a tornar-se bilíngüe.
O documento é melhor entendido como uma lista de livros do Novo Testamento reconhecidos como portadores de autoridade escritural pela igreja romana da época. Além de listar os livros, faz várias observações sobre eles, refletindo a opinião contemporânea de alguns líderes eclesiásticos.
O manuscrito encontra-se mutilado na sua parte inicial. Uma vez que sua primeira frase completa menciona Lucas como “o terceiro livro do evangelho”, provavelmente mencionava os outros dois, e não é excessivamente especulativo supor que esses fossem Mateus e Marcos. Se for esse o caso, as primeiras palavras preservadas do manuscrito seriam as últimas de uma frase sobre Marcos: “... nestas, todavia, ele estava presente e assim as registrou”. A seguir o documento continua:
O terceiro livro do evangelho; segundo Lucas.
Depois da ascensão de Cristo, Lucas, o médico, a quem Paulo levara consigo como especialista legal, escreveu [o relato] em seu próprio nome de acordo com a opinião [de Paulo]. Ele próprio, todavia, não havia visto o Senhor na carne e, portanto, até onde podia seguir [o curso dos acontecimentos], começou a contá-lo a partir do nascimento de João.
O quarto evangelho é de autoria de João, um dos discípulos. Quando seus colegas de discipulado e os bispos o encorajaram, João disse: “Jejum comigo por três dias, e o que vier a ser revelado a cada um, seja isso contado aos demais”. Naquela mesma noite foi revelado a André, um dos apóstolos, que João, em seu próprio nome, deveria escrever tudo e que eles deveriam revisá-lo. Assim, embora haja indícios diferentes para os vários livros do evangelho, isso não faz diferença para a fé dos crentes, uma vez que em todos eles tudo foi declarado por um Espírito primário, com respeito à sua [de Cristo] natividade, paixão e ressurreição, sua associação com os discípulos e seu duplo advento – o primeiro em humildade, quando foi desprezado, e que já ocorreu; o segundo, resplendente em poder real, sua segunda vinda. Não é de espantar, portanto, que João apresente os detalhes com tanta freqüência também em suas cartas, dizendo a respeito de si mesmo: “O que vimos com nossos olhos, e ouvimos com nossos ouvidos, e as nossas mãos apalparam, isso vos escrevemos”. Dessa maneira ele alega não ter sido apenas espectador, mas também ouvinte, e também alguém que escreveu de maneira ordenada os fatos maravilhosos sobre nosso Senhor.
Os Atos de todos os apóstolos foram escritos em um livro. Dirigindo-se ao excelentíssimo Teófilo, Lucas inclui uma por uma as coisas que foram feitas em sua presença, o que ele deixa claro ao omitir a paixão de Pedro e também a partida de Paulo, quando se preparava para partir da cidade [Roma] para a Espanha.
Quanto às cartas de Paulo, elas mesmas demonstram aos que querem entender de que lugar e por que razão foram escritas. Em primeiro lugar, ele escreveu para os coríntios, proibindo cismas e heresias. Depois, aos gálatas, [proibindo] a circuncisão. Depois aos romanos, uma longa carta sobre a ordem das Escrituras e também insistindo que Cristo era seu tema primário. É necessário prestarmos um relato lógico de todas elas uma vez que o bendito apóstolo Paulo, seguindo a ordem de seu predecessor João, sem, contudo, nomeá-lo, escreve a sete igrejas na seguinte ordem: em primeiro lugar, aos coríntios, em segundo, aos efésios, em terceiro, aos filipenses, em quarto, aos colossenses, em quinto, aos gálatas, em sexto, aos tessalonicenses e em sétimo, aos romanos. E ainda que [a mensagem] seja repetida aos coríntios e aos tessalonicenses a título de advertência, apenas uma igreja é reconhecida como a que se espalhou por todo o mundo. Pois também João, ainda que escreva a sete igrejas em Apocalipse, fala a todas as igreja
s. Além disso, [Paulo escreveu] uma carta a Filemom, uma a Tito e duas a Timóteo em amor e afeição. Essas, porém foram santificadas para a honra da Igreja Católica no que tange à regulamentação da disciplina eclesiástica.
Diz-se ainda haver uma carta em nome de Paulo aos laodicenses e outra aos alexandrinos, [ambas] forjadas de acordo com a heresia de Marcion, e muitas que não podem ser recebidas na Igreja Católica, já que não convém que se misture veneno ao mel.
A carta de Judas, porém, e as duas que tem no sobrescrito o nome de João, são aceitas na [Igreja] Católica. Também a Sabedoria, escrita pelos amigos de Salomão em sua honra. Além dessas, recebemos o Apocalipse de João e o de Pedro, que alguns dentre nós não permitem que seja lido na igreja. Mas O Pastor foi escrito por Hermas na cidade de Roma, bem recentemente, em nossa época, quando seu irmão Pio ocupava a cátedra episcopal na igreja da cidade de Roma. Pode, portanto, ser lido, mas não distribuído ao povo na igreja, nem incluído entre os pofetas, cujo número está completo, nem entre os apóstolos no fim dos tempos.
Nenhum dos escritos de Arsino, ou Valentino, ou Miltíades, nós acolhemos. Esses compuseram um novo livro de Salmos para Marcion; [a estes] rejeitamos comBasílides [e] o fundador dos Catafrígios que veio da Ásia...
Retirado do livro "O Cânon das Escrituras" de F. F. Bruce.
domingo, 1 de abril de 2012
Ravi Zacharias e a aposta de Pascal.
"O filósofo francês Blaise Pascal não disse que estava apostando a fé. Em essência, ele dizia que há duas provas para a fé: a empírica – que se baseia na investigação – e a prova existencial – que se baseia na experiência individual. Negando a existência de Deus, Harris fica com apenas uma opção na sua busca de felicidade e sentido, a saber, a prova existencial de autorrealização.
Para o crente em Deus e discípulo de Jesus, há mais que a prova existencial, que é sujeita a circunstâncias e condições. Também temos a prova empírica da pessoa, do ensino e da obra de Jesus Cristo. Os ateus talvez reajam dizendo que para o naturalista, aquele que acredita tão somente na matéria, também há uma prova empírica. Em questões de moral e sentido, porém , eles não têm nada que olhar para um sistema moral além deles mesmos, e, se as premissas deles estão certas, a arena existencial é a única via legítima para a busca de sentido.
Pascal estava dizendo que, se a prova existencial para encontrar sentido na vida fosse a única opão que lhe restasse, a fome do seu coração tinha sido saciada em seguir Jesus e assim ele estava satisfeito. Numa pior hipótese, em que os ateus estejam certos e a morte é apenas o esquecimento, Pascal ainda tinha satisfeito a única prova que os ateus têm para crer e descobriu que sua relação com Jesus é satisfatória do ponto de vista existencial.
Como cristão, ele satisfazia tanto seu próprio teste para a verdade na pessoa de Jesus – a prova empírica – e a prova existencial proposta pelos ateus. É por isso que ele dizia que não podia ser perdedor, e jogo não era um jogo de azar em que ele pudesse perder, qual fosse o teste que ele empregasse."
Texto retirado do livro "A morte da Razão - Uma resposta aos neoateus"
quinta-feira, 22 de março de 2012
O que Ehrman disse? O que não disse? No que acreditam as "ehrmanetes" e porque estão erradas.
Achei esse vídeo no blog de um amigo, e achei muito bom. Ehrman é um grande estudioso, embora não o considere o maior (e mesmo se fosse o maior, não significaria que é inerrante ao falar da inerrância).
O livro em questão tem muitas informações boas, mas o título (principalmente da edição em português) é tendencioso, o que faz pessoas com desespero em criticar a Bíblia acharem que ele refutou de alguma forma.
Mais textos sobre o autor (e do autor) para quem se interessar:
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/09/o-polemico-bart-d-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/03/comentarios-sobre-bart-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/04/debate-sobre-ressurreicao.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/11/criterio-para-estabelecer-veracidade-do.html
Mais textos sobre o autor (e do autor) para quem se interessar:
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/09/o-polemico-bart-d-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/03/comentarios-sobre-bart-ehrman.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/04/debate-sobre-ressurreicao.html
http://porquecreio.blogspot.com.br/2010/11/criterio-para-estabelecer-veracidade-do.html
sexta-feira, 2 de março de 2012
Mera coincidência com o que acontece no Brasil? (não só em relação ao aborto)
A confissão do médico que fundou a liga pró-aborto nos EUA: eles mentiram sobre o número de abortos, o número de mortes e as pesquisas. E atacavam de forma deliberada os cristãos. Era uma tática para ganhar a opinião pública
Vocês sabem que eu não sou do tipo que “esquece” determinados temas. Há leitores que reclamam um pouco disso. Lamento por estes. Considero “não esquecer” uma virtude. Já demonstrei aqui a escandalosa mentira sobre o número de mulheres mortas em decorrência de abortos clandestinos: ONGs e lobbies em favor da descriminação do aborto falam em 200 mil vítimas. Eleonora Menicucci, ministra das Mulheres, foi à ONU ser “sabatinada” (sinto vergonha até de escrever isso) e engoliu o número como verdadeiro. Faz sentido. Ela, como militante pró-aborto, ajudou a fabricá-lo. O próprio ministro da Saúde admite que esse número deve ser, no mínimo, dividido POR CEM! Também é estúpida a suposição de que se fazem um milhão de abortos por ano no país.
Abortistas exibem esses números fantasiosos e acusam de “fundamentalismo religioso” todos aqueles que ousam contestar suas mentiras, como se apenas os crentes se opusessem à prática, o que é falso. Ocorre, meus queridos, que trabalhar com números falsos e demonizar as igrejas são atitudes que integram uma atuação de caráter político, militante.
Abaixo, reproduzo trecho de uma conferência do médico americano Bernard N. Nathanson, proferida no Colégio Médico de Madri. Nathanson morreu no dia 21 de fevereiro de 2011, aos 85 anos. Foi um dos fundadores da Associação Nacional para a Revogação das Leis de Aborto, militante ativo da causa. Ginecologista e obstetra, confessou ter realizado mais de 5 mil abortos. Converteu-se, depois, em defensor incondicional da vida. A íntegra de seu texto está aqui. Peço que vocês prestem atenção às táticas às quais Nathanson admite ter recorrido para ganhar a opinião pública e a imprensa. Vejam se isso lhes lembra alguma coisa. Os entretítulos são meus. Volto depois.
É preciso trabalhar com números mentirosos
É uma tática importante. Dizíamos, em 1968, que na América se praticavam um milhão de abortos clandestinos, quando sabíamos que estes não ultrapassavam de cem mil, mas esse número não nos servia e multiplicamos por dez para chamar a atenção. Também repetíamos constantemente que as mortes maternas por aborto clandestino se aproximavam de dez mil, quando sabíamos que eram apenas duzentas, mas esse número era muito pequeno para a propaganda. Esta tática do engano e da grande mentira se se repete constantemente acaba sendo aceita como verdade.
É preciso ganhar os meios de comunicação e a universidade
Nós nos lançamos para a conquista dos meios de comunicações sociais, dos grupos universitários, sobretudo das feministas. Eles escutavam tudo o que dizíamos, inclusive as mentiras, e logo divulgavam pelos meios de comunicações sociais, base da propaganda.
É importantíssimo que vocês se preocupem com os meios de comunicações sociais porque, segundo explicam os fatos, assim se infiltrarão as idéias entre a população. Se na Espanha esses meios não estão dispostos a dizer a verdade, vocês se encontram na mesma situação que criamos nos EE. UU.em 1968/69, quando contávamos através desses meios todas as mentiras que acabo de mencionar.
É preciso apresentar pesquisas falsas
Outra prática eram nossas próprias invenções. Dizíamos, por exemplo, que havíamos feito uma pesquisa e que 25 por cento da população era a favor do aborto e três meses mais tarde dizíamos que eram 50 por cento, e assim sucessivamente. Os americanos acreditavam e como desejavam estar na moda, formar parte da maioria para que não dissessem que eram “atrasados”, se uniam aos “avançados”.
Mais tarde fizemos pesquisas de verdade e pudemos comprovar que pouco a pouco iam aparecendo os resultados que havíamos inventado; por isso sejam muito cautelosos sobre as pesquisas que se fazem sobre o aborto. Porque apesar de serem inventadas têm a virtude de convencer inclusive os magistrados e legisladores, pois eles como qualquer outra pessoa lêem jornais, ouvem rádio e sempre fica alguma coisa em sua mente.
É preciso satanizar os cristãos
Uma das táticas mais eficazes que utilizamos naquela época foi o que chamamos de “etiqueta católica”. Isso é importante para vocês, porque seu país é majoritariamente católico.
Em 1966 a guerra do Vietnam não era muito aceita pela população. A Igreja Católica a aprovava nos Estados Unidos. Então escolhemos como vítima a Igreja Católica e tratamos de relacioná-la com outros movimentos reacionários, inclusive no movimento anti-abortista. Sabíamos que não era bem assim mas com esses enganos pusemos todos os jovens e as Igrejas Protestantes, que sempre olhava com receio a Igreja Católica, contra ela. Conseguimos inculcar a idéia nas pessoas de que a Igreja Católica era a culpada da não aprovação da lei do aborto. Como era importante não criar antagonismos entre os próprios americanos de distintas crenças, isolamos a hierarquia, bispos e cardeais como os “maus”. Essa tática foi tão eficaz que, ainda hoje, se emprega em outros países. Aos católicos que se opunham ao aborto se lhes acusava de estar enfeitiçados pela hierarquia e os que o aceitavam se lhes considerava como modernos, progressistas, liberais e mais esclarecidos. Posso assegurar-lhes que o problema do aborto não é um problema do tipo confessional. Eu não pertenço a nenhuma religião e em compensação estou lhes falando contra o aborto.
Também quero dizer-lhes que hoje nos Estados Unidos a direção e liderança do movimento antiabortista passou da Igreja Católica para as Igrejas Protestantes. Há também outras igrejas que se opõem, como as Ortodoxas, Orientais, a Igreja de Cristo, os Batistas Americanos, Igrejas Luteranas Metodistas da África, todo o Islã, o judaísmo Ortodoxo, os Mórmons, as Assembléias de Deus e os Presbiterianos.
Outra tática que empregamos contra a Igreja Católica foi acusar seus sacerdotes, quando tomavam parte nos debates públicos contra o aborto, de meter-se em política e de que isso era anticonstitucional. O público acreditou facilmente apesar da falácia do argumento ser clara.
Fonte: Reinaldo Azevedo
Vocês sabem que eu não sou do tipo que “esquece” determinados temas. Há leitores que reclamam um pouco disso. Lamento por estes. Considero “não esquecer” uma virtude. Já demonstrei aqui a escandalosa mentira sobre o número de mulheres mortas em decorrência de abortos clandestinos: ONGs e lobbies em favor da descriminação do aborto falam em 200 mil vítimas. Eleonora Menicucci, ministra das Mulheres, foi à ONU ser “sabatinada” (sinto vergonha até de escrever isso) e engoliu o número como verdadeiro. Faz sentido. Ela, como militante pró-aborto, ajudou a fabricá-lo. O próprio ministro da Saúde admite que esse número deve ser, no mínimo, dividido POR CEM! Também é estúpida a suposição de que se fazem um milhão de abortos por ano no país.
Abortistas exibem esses números fantasiosos e acusam de “fundamentalismo religioso” todos aqueles que ousam contestar suas mentiras, como se apenas os crentes se opusessem à prática, o que é falso. Ocorre, meus queridos, que trabalhar com números falsos e demonizar as igrejas são atitudes que integram uma atuação de caráter político, militante.
Abaixo, reproduzo trecho de uma conferência do médico americano Bernard N. Nathanson, proferida no Colégio Médico de Madri. Nathanson morreu no dia 21 de fevereiro de 2011, aos 85 anos. Foi um dos fundadores da Associação Nacional para a Revogação das Leis de Aborto, militante ativo da causa. Ginecologista e obstetra, confessou ter realizado mais de 5 mil abortos. Converteu-se, depois, em defensor incondicional da vida. A íntegra de seu texto está aqui. Peço que vocês prestem atenção às táticas às quais Nathanson admite ter recorrido para ganhar a opinião pública e a imprensa. Vejam se isso lhes lembra alguma coisa. Os entretítulos são meus. Volto depois.
É preciso trabalhar com números mentirosos
É uma tática importante. Dizíamos, em 1968, que na América se praticavam um milhão de abortos clandestinos, quando sabíamos que estes não ultrapassavam de cem mil, mas esse número não nos servia e multiplicamos por dez para chamar a atenção. Também repetíamos constantemente que as mortes maternas por aborto clandestino se aproximavam de dez mil, quando sabíamos que eram apenas duzentas, mas esse número era muito pequeno para a propaganda. Esta tática do engano e da grande mentira se se repete constantemente acaba sendo aceita como verdade.
É preciso ganhar os meios de comunicação e a universidade
Nós nos lançamos para a conquista dos meios de comunicações sociais, dos grupos universitários, sobretudo das feministas. Eles escutavam tudo o que dizíamos, inclusive as mentiras, e logo divulgavam pelos meios de comunicações sociais, base da propaganda.
É importantíssimo que vocês se preocupem com os meios de comunicações sociais porque, segundo explicam os fatos, assim se infiltrarão as idéias entre a população. Se na Espanha esses meios não estão dispostos a dizer a verdade, vocês se encontram na mesma situação que criamos nos EE. UU.em 1968/69, quando contávamos através desses meios todas as mentiras que acabo de mencionar.
É preciso apresentar pesquisas falsas
Outra prática eram nossas próprias invenções. Dizíamos, por exemplo, que havíamos feito uma pesquisa e que 25 por cento da população era a favor do aborto e três meses mais tarde dizíamos que eram 50 por cento, e assim sucessivamente. Os americanos acreditavam e como desejavam estar na moda, formar parte da maioria para que não dissessem que eram “atrasados”, se uniam aos “avançados”.
Mais tarde fizemos pesquisas de verdade e pudemos comprovar que pouco a pouco iam aparecendo os resultados que havíamos inventado; por isso sejam muito cautelosos sobre as pesquisas que se fazem sobre o aborto. Porque apesar de serem inventadas têm a virtude de convencer inclusive os magistrados e legisladores, pois eles como qualquer outra pessoa lêem jornais, ouvem rádio e sempre fica alguma coisa em sua mente.
É preciso satanizar os cristãos
Uma das táticas mais eficazes que utilizamos naquela época foi o que chamamos de “etiqueta católica”. Isso é importante para vocês, porque seu país é majoritariamente católico.
Em 1966 a guerra do Vietnam não era muito aceita pela população. A Igreja Católica a aprovava nos Estados Unidos. Então escolhemos como vítima a Igreja Católica e tratamos de relacioná-la com outros movimentos reacionários, inclusive no movimento anti-abortista. Sabíamos que não era bem assim mas com esses enganos pusemos todos os jovens e as Igrejas Protestantes, que sempre olhava com receio a Igreja Católica, contra ela. Conseguimos inculcar a idéia nas pessoas de que a Igreja Católica era a culpada da não aprovação da lei do aborto. Como era importante não criar antagonismos entre os próprios americanos de distintas crenças, isolamos a hierarquia, bispos e cardeais como os “maus”. Essa tática foi tão eficaz que, ainda hoje, se emprega em outros países. Aos católicos que se opunham ao aborto se lhes acusava de estar enfeitiçados pela hierarquia e os que o aceitavam se lhes considerava como modernos, progressistas, liberais e mais esclarecidos. Posso assegurar-lhes que o problema do aborto não é um problema do tipo confessional. Eu não pertenço a nenhuma religião e em compensação estou lhes falando contra o aborto.
Também quero dizer-lhes que hoje nos Estados Unidos a direção e liderança do movimento antiabortista passou da Igreja Católica para as Igrejas Protestantes. Há também outras igrejas que se opõem, como as Ortodoxas, Orientais, a Igreja de Cristo, os Batistas Americanos, Igrejas Luteranas Metodistas da África, todo o Islã, o judaísmo Ortodoxo, os Mórmons, as Assembléias de Deus e os Presbiterianos.
Outra tática que empregamos contra a Igreja Católica foi acusar seus sacerdotes, quando tomavam parte nos debates públicos contra o aborto, de meter-se em política e de que isso era anticonstitucional. O público acreditou facilmente apesar da falácia do argumento ser clara.
Fonte: Reinaldo Azevedo
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