segunda-feira, 17 de maio de 2010

Podem os naturalistas confiar em suas mentes?

Um questionamento interessante feito por William Lane Craig. É uma questão que os naturalistas tem que responder, e normalmente ignoram (isso quando entendem a questão). O argumento fica mais forte ainda se lembrar que nossa razão é limitada, e não temos como provar que nossos sentidos nos mostram como é a realidade em si, muito menos que eles nos mostram algo relevante sobre a realidade.

Isso os "empiristas" vivem ignorando, pois não se pode provar de forma empírica que nossos sentidos nos mostram algo que realmente importa sobre a realidade, além da função para a sobrevivência. Já havia feito um texto sobre a razão e seus limites, mas vamos ao que Craig disse:

O naturalismo, a visão de que não há Deus e que nós somos simplesmente produtos de interações aleatórias de acaso e necessidade. É o naturalismo possível de ser afirmado de forma racional? E Alvin Plantinga, que é provavelmente o maior filósofo cristão hoje em dia, tem argumentado que de fato o naturalismo não pode ser afirmado de forma racional. E a razão é a mesma que o cavalheiro aqui acabou de dar.


A saber, que se o naturalismo é verdadeiro, então nossas faculdades cognitivas são produto de um processo evolutivo, o qual não conduz para a produção de crenças que sejam verdadeiras, mas, em vez disso, conduz para crenças que o ajudem a sobreviver.  Nossas faculdades cognitivas são escolhidas pelo seu valor para sobrevivência, não pela sua capacidade de perceber a verdade.


E Plantinga apresenta cinco ou seis formas onde nossas crenças podem conduzir à sobrevivência, sem nos conduzir à verdade. Então, no naturalismo há algo que derrota suas próprias crenças.


Ou seja, você crê que suas capacidades cognitivas não conduzem à verdade, mas apenas à sobrevivência, portanto, as crenças que você possui são crenças que você tem apenas porque elas têm valor para a sobrevivência, não necessariamente porque elas tem algum valor de verdade.


Mas se isso é verdadeiro, então sua própria conclusão de que o naturalismo é verdadeiro é duvidosa, pois ela não é resultado de mecanismos que formam crenças que conduzem à verdade, mas apenas à habilidade de sobreviver.


Então, o próprio naturalismo não pode ser afirmado! Pois, o naturalista está preso aqui em um tipo de ciclo que derrota a si mesmo:


Ele crê no naturalismo com base nas faculdades que, segundo o próprio naturalismo, não podem ser confiadas a produzirem crenças que sejam necessariamente verdadeiras.


Então, eu penso que é um argumento poderoso, que está sendo muito discutido hoje em dia. Esta é, na verdade, uma dúvida que perturbou o próprio Darwin. Darwin disse:


“Como posso eu confiar no cérebro de um macaco para chegar às conclusões que eu cheguei? Se minha teoria estiver correta, então ela parece botar dúvida a si mesma, porque não posso ter certeza que minhas faculdades cognitivas sejam realmente confiáveis."


[...] Esse é um problema que o naturalista deve encarar.

sábado, 8 de maio de 2010

As mais novas bíblias de estúdo.

Bíblia de estudo materialista Deus, um delírio.
Com ela você saberá responder corretamente os crentes bitolados.
Comentários do maior estudioso bíblico da atualidade, não! Desde que a vída começou a evoluir gradualmente por milhares e milhares e milhares de anos por acaso!




Você já ouviu falar na bíblia "Temas em concordância"? Que concordância que nada! Temos agora a bíblia temas em discordância! Com ela você vai poder parar de ficar copiando e colando de sites céticos as supostas... digo.. todas aquelas contradições da bíblia!



Aproveite!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A esperança cristã primitiva em seu contexto histórico. - Por N. T. Wright


Em 25 de outubro de 1946, às 20h30, em uma sala espaçosa no King’s College em Cambridge, dois dos maiores filósofos do século 20, Ludwig Wittgenstein e Karl Popper, estiveram frente a frente pela primeira e única vez. Aquele, certamente, não foi um encontro feliz. Poteriormente, ao conferirem suas anotações, nenhum dos presentes conseguiu chegar a um consenso sobre o que realmente aconteceu naquele encontro.

Wittgenstein, na ocasião, era presidente do Clube de Ciência Moral de Cambridge (em Cambridge, “ciência moral” significa “filosofia”) e famoso por seu brilhantismo, encantando muitas pessoas com suas idéias revolucionárias. Popper e outros filósofos, no entanto, desconfiavam dele. Popper estava começando a adquirir fama, tendo publicado pouco tempo antes a tradução em inglês de sua obra-prima The Open Society and is Enemies. Ambos eram judeus, criados em Viena, nos anos que antecederam a guerra, por, Wittgenstein pertencia a uma família rica, enquanto Popper vinha de uma família mais modesta. Popper havia muito tempo ansiava por uma oportunidade de demonstrar a insensatez dos argumentos de Wittgenstein, e agora lá estava ele, pronto a entregar-lhe um texto que o atacava diretamente. Era uma noite fria; o fogo crepitava na lareira. Wittgenstein estava sentado bem ao lado dela. Muitos dos presentes eram, ou se tornariam, nomes famosos no campo de filosofia: Bertrant Russel, Peter Geach, Stephen Toulmin, Richard Braithwaite. Outros seguiram outra profissão como a advocacia.

Popper provavelmente não sabia que Wittgenstein tinha a reputação de nunca ouvir uma critica até o fim. Conhecido por sua arrogância e rispidez, ele costumava sair antes do término das reuniões. A reunião nem bem havia começado quando Wittgenstein interrompeu Popper e os dois começaram a discutir. A partir daí, os relatos começaram a divergir. Em determinado momento, Wittgenstein apanhou a pá da lareira e ergueu-a, ameaçadoramente, diante dos presentes. Logo depois, saiu da sala e não voltou mais.

Os boatos se espalharam rapidamente. Popper recebeu uma carta da Nova Zelândia perguntando se era verdade que Wittgenstein o havia amealado com uma pá incandescente. Os que presenciaram o fato, nunca chegaram a um acordo sobre o que realmente aconteceu naquele dia. Alguns dizem que a pá estava em brasa, outros, que estava fria. Alguns dizem que Wittgenstein ergueu-a para impor seu ponto de vista(o que não teria sido incomum); outros, incluindo o próprio Popper, afirmam que ele teria ameaçado seu oponente. Alguns dizem que Wittgenstein saiu da sala depois de uma discussão acalorada com Russel, sendo advertido por Popper a ser educado e a “não ameaçar os palestrantes visitantes com pás”. Para outos, ele teria saído antes. Alguns dizem que ele bateu a porta ao sair, outros, que saiu silenciosamente. Posteriormente, essa história foi publicada em um livro ousado, sugerindo que Wittgenstein provavelmente teria saído da sala antes do comentário de Popper. Popper devia estar enganado, afinal, aquele encontro era tão importante para sua reputação profissional, e ele gostaria tanto que aquele dia ficasse marcado como o dia de sua vitória sobre Wittgensteins, que acabou acreditando em sua própria versão da história.

Apesar das divergências quanto aos detalhes, ninguém duvida que esse encontro realmente ocorreu. Todos concordam que Wittgenstein e Popper eram adversários principais, e Russel, uma espécie de árbitro. Ninguém duvida que Wittgenstein tivesse erguido realmente a pá e saído logo depois.

Resolvi contar essa história por uma razão muito simples. É comum que testemunhas oculares discordem entre s, mas isso não quer dizer que nada aconteceu. O mais notável é que ocorram divergências quando as testemunhas são extremamente eruditas e profissionalmente preocupadas em estabelecer a verdade. No entanto, foi isso o que aconteceu. O ponto central do evangelho cristão, o próprio cerne do evangelho, é algo que só foi registrado 50 anos após o ocorrido, e alguns registros não se encaixam exatamente. Alguns duvidam que tenha realmente acontecido algo no primeiro dia da Páscoa. Assim, temos nos quatro Evangelhos, no livro de Atos e nas cartas de Paulo, um relato semelhante Às várias narrativas sobre a pá de Wittgenstein, o que levanta a questão sobre o que, de fato, teria acontecido naquele dia. O sepulcro estaria realmente vazio naquela manhã de Páscoa?

Essas questões estão no centro de um debate que tem perturbado a igreja ocidental há mais de um século. William Temple, que mais tarde veio a ser arcebispo de Cantuária, não foi ordenado enquanto não declarou que realmente acreditava na ressurreição corpórea de Jesus. Posteriormente, o clero, inclusive muitos bispos, não teve essa mesma atitude, permitindo que David Jekins incitasse uma célebre controvérsia, com insinuações sobre o sepulcro vazio e sugerindo fraudes no que diz respeito aos ossos de Jesus – embora suas palavras, assim como a discussão entre Popper e Wittgenstein, tenham tido, posteriormente, uma interessante carreira na tradição oral e escrita.

Podemos realmente crer na ressurreição de Jesus? Por quê? Esta questão tem gerado muita confusão na mente das pessoas. Não se trata de acreditar ou não na Bíblia, ou de acreditar que os milagres realmente ocorreram, ou de crer no “sobrenatural”. Não se trata também da crença de que Jesus está vivo hoje e que podemos conhecê-lo. Se tratarmos o tema da Páscoa apenas para provar uma dessas discussões, perderemos o foco.

Também não podemos afirmar, embora muitos tenham tentado, que ao contrário das pessoas do primeiro século, nós conhecemos as leis da natureza, por isso sabemos que Jesus não podia ter ressuscitado dentre os mortos. Vimos, anteriormente, que os povos antigos – com exceção dos judeus – eram céticos quanto à possibilidade de os mortos ressuscitarem, embora os judeus não acreditassem que alguém pudesse ressuscitar antes da ressurreição final. Mesmo que essas interpretações equivocadas, as dúvidas permanecem. Em que, precisamente, os cristãos primitivos acreditavam? Por que usavam a linguagem da ressurreição pra expressar a sua crença? É possível se obter uma prova histórica a favor ou contra o túmulo vazio e a ressurreição corpórea, ou tudo é uma questão de crer ou não crer? Até onde essa história pode nos levar? Qual é o papel da fé, e como ela opera? A questão não é simplesmente o que podemos saber, mas como podemos saber – é aqui que todo o nosso conhecimento é questionado.

Edmonds e Eidinow empregaram dois métodos para investigar o encontro entre Popper e Wittgenstein. Primeiramente, eles interrogaram as testemunhas oculares para se certificarem das evidências, e a partir daí, reconstruíram a sutuação detalhadamente, levando em conta a complicada agenda e os traços de caráter dos dois personagens principais. Depois disso, eles chegaram a algumas conclusões, expressas em uma narrativa histórica conectada, que embora não possa ser considerada absolutamente verdadeira, é a maneira mais provável de conciliar as diferentes opiniões.

Devemos empregar esse mesmo método ao contemplarmos o túmulo vazio e o evento da Páscoa. As testemunhas oculares – se é que podemos chamá-la assim – são bem conhecidas, e podemos encontrá-las facilmente no Novo Testamento. Podemos também reconstruir a situação detalhadamente, considerando as crenças e expectativas judaicas, o ministério público de Jesus e as crenças e esperanças de seus seguidores. Porém, temos ainda um terceiro elemento, sem um paralelo real no debate de Cambridge, de 1946. As questões filosóficas discutidas nesse debate e a tensões provocadas pó elas pertencem a um contexto específico, cada vez mais distante no tempo. Popper, hoje, é considerado “antiquado”, e o legado mais brilhante de Wittgenstein é visto como profundamente ambíguo. Não podemos afirmar, ao observarmos o desenvolvimento das correntes filosóficas posteriores, que alguém “venceu” o debate naquela noite. Mesmo que a obra de um deles tenha sido reconhecida, posteriormente, como superior, isso provavelmente, não tem nada a ver com os dez minutos de retórica acalorada em Cambridge.

Com a Páscoa, no entanto, a situação é diferente. O que aconteceu naquele dia gerou algo completamente novo: algo que cresceu e se desenvolveu de maneira completamente distinta, mas sempre a partir daquele momento. Nossa investigação, portanto, deve se concentrar na observação do movimento cristão que emergiu a partir daí, procurando descobrir o que o teria causado. Apesar de nossas testemunhas oculares discordarem quanto aos detalhes, algo certamente aconteceu.

Como já abordamos esse tema exaustivamente, podemos agora ir direto ao cerne da questão. Procurei me concentrar, nesse capítulo, nas crenças dos cristãos primitivos sobre a vida além da morte, no contexto das visões antigas, tanto pagãs quanto judaicas. Os incríveis resultados dessa busca nos levarão de volta às narrativas da Páscoa, investigando novamente seu caráter e procedência e refletindo sobre as possíveis opções abertas ao historiador.

A RESSURREIÇÃO E A VIDA APÓS A MORTE NO PAGANISMO E NO JUDAISMO ANTIGO.

Vejamos, resumidamente, quais as crenças existentes no mundo antigo sobre a vida além-túmulo. Para o mundo pagão antigo, a estrada que leva ao mundo inferior tem apenas um sentido. A morte possui poderes ilimitadas; ninguém consegue escapar ou resistir a essa realidade. Todos sabem que terão de enfrentá-la mais cedo ou mais tarde. O mundo pagão antigo, portanto, se dividia entre aqueles que esperavam ter um novo corpo, como as “sombras” de Homero, mas sabiam que isso seria impossível, e aqueles que, como os filósofos platônicos, não queriam ter novamente um corpo, pois achavam que a alma sem corpo era muito melhor.

Nesse contexto, a palavra “ressurreição” e seu equivalente em grego, latim ou outra língua, nunca é usada para se referir à “vida após a morte”. “Ressurreição” tem o sentido e uma nova vida corpórea depois da “vida após a morte”. Quando os antigos falavam de ressurreição, quer para negá-la (como todos os pagãos), quer para afirmá-la (como alguns judeus0, estavam se referindo a um acontecimento em dois estágios, com a ressurreição no sentido de uma vida corpórea, sendo precedida de um período de intervalo entre a morte física. A “ressurreição”, portanto, não era uma maneira vivida ou dramática de refletir à situação das pessoas imediatamente após a morte. Ela representava uma situação que poderia existir (embora poucos acreditassem nisso) algum tempo depois da morte. Esse tipo de pensamento esteve presente em todo o mundo antigo, até o surgimento do gnosticismo pós-cristão no segundo século. A maioria dos antigos acreditava na vida após a morte; alguns deles desenvolveram crenças complexas e fascinantes sobre o assunto, sobre as quais pouco sabemos. No entanto, fora do judaísmo e do cristianismo (e talvez do zoroastrismo, apesar das controvérsias quanto à datação), ninguém mais acreditava na ressurreição.

Quanto ao conteúdo, a “ressurreição” se refere especificamente a algo que acontece ao corpo, dão os debates posteriores sobre como Deus fazia isso, se ele começaria com os ossos que haviam sobrado, criaria outros novos ou faria algo parecido. Esse tipo de debate só teria sentido se a ressurreição fosse algo assim, como poderíamos dizer, palpável e física. Todos sabiam bem o que eram fantasmas, espíritos, visões e alucinações. A maioria das pessoas no mundo antigo acreditava em todas essas coisas, e certamente não se referia a nenhuma delas quando falava de “ressurreição”. Quando Herodes pensou que Jesus poderia ser João Batista ressurgido dentre os mortos, não achou que seria um fantasma (Mc 6.14-6 e paralelos). A ressurreição implica a existência de um corpo. Nunca e demais enfatizar isso, já que em boa parte dos textos modernos a palavra “ressurreição” continua sendo usada, quase sempre equivocadamente, como um sinônimo virtual de “vida após a morte”, no sentido popular.

Há uma conclusão importante a ser tirada de tudo isso, antes de analisarmos as tradições judaicas. Quando os cristãos primitivos afirmavam que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos, eles sabiam que estavam falando de algo que havia exclusivamente acontecido com ele, e que ninguém esperava que acontecesse com outros. Eles não estavam dizendo, confusamente, que Jesus havia se tornado divino. Nada do que eles diziam tinha essa conotação. Tanto para os judeus como para os pagãos, não havia uma ligação implícita entre ressurreição e divinização. Quando os antigos romanos declaravam que o imperador morto recentemente tinha ido para o céu e se tornado divino, ninguém pensava que ele havia ressuscitado dentre os mortos. A exceção prova a regra: aqueles que acreditavam que Nero havia retornado à vida (um grupo, talvez, semelhante aos que pensam que Elvis não está morto, apesar de seu túmulo ser bem conhecido e muito visitado) não esperavam que ele agora estivesse no céu.

Quanto Às antigas crenças judaicas, alguns judeus, da mesma forma que os pagãos, negavam qualquer possibilidade de vida futura, especialmente em um novo corpo. Os saduceus assumiram claramente essa posição. Outros concordavam com os pagãos sobre um futuro glorioso para a alma, ainda que sem corpo, a exemplo do filósofo Filo. A maioria dos judeus daquela época, no entanto, acreditava em uma ressurreição final: ou seja, que Deus cuidaria da alma após a morte, e, no último dia, daria a seu povo novos corpos, quando fosse julgar e refazer o mundo inteiro. Foi isso que Marta supôs diante da conversa que teve com Jesus, ao lado do túmulo de Lázaro: “Eu sei que ele há de ressurgir na ressurreição no ultimo dia” (Jô 11.24). Era assim que os judeus entendiam a “ressurreição”.


O ensino de Jesus durante seu breve ministério público apenas reforçou a visão judaica. Jesus redefiniu alguns conceitos bastantes comuns na época – especialmente, é claro, a noção de “reino de Deus”, explicando por meio de parábolas e atitudes simbólicas que o governo soberano e salvador de Deus estava sendo estabelecido a partir daquele momento, embora não fosse aquilo que seus contemporâneos haviam imaginado e desejado. Porém ele mesmo quase nunca tentou redefinir a noção de ressurreição. Quando tentou, ele a fez de modo breve e obscuro, fazendo com que seus seguidores mais próxmos não tivessem a menor idéia do que ele estava falando.

Na primeira discussão direta sobre esse assunto – quando os saduceus lhe fizeram uma pergunta ardilosa, tentando desacreditar a idéia da ressurreição -, a resposta de Jesus foi bem tradicional, certamente melhor do que os fariseus teriam respondido, mas sem acrescentar algo significativo à visão judaica padrão. Jesus falou de “ressurreição” como algo que aconteceria no futuro, quando todos os justos seriam trazidos de volta à vida, indicando que nesse estado as coisas seriam diferentes, portanto a questão de quem casaria com quem não teria sentido – o ponto em que os saduceus tentaram apanhá-lo. A propósito, Jesus não disse, como algumas pessoas sugerem que eles se tornariam anjos, mas que, em certo sentido, seriam como anjos (Mt 22.30; Mc 12.25) ou iguais a anjos (Lc 20.36). Fora essa discussão, praticamente a única referencia à “ressurreição” , em termos gerais, nos Evangelhos, ocorre em Mateus 13.43, quando Jesus declara que no último dia os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. A referência a Daniel 12.3 assegura que isso deve ser interpretado no contexto da ressurreição. Quando Jesus se refere à recompensa que o povo de Deus irá receber nos céus, ele pode simplesmente estar se referindo à “ressurreição dos justos”, tal como os judeus a como os judeus a compreendiam (Lc 14.14). Em um texto isolado do Evangelho de João (5.29), Jesus fala de uma ressurreição futura, tanto dos que fizeram o bem, como dos que praticaram o mal. Até aqui ele está afinado com a crença judaica do primeiro século. Diferentemente de suas redefinições do reino e de sua obra messiânica, ele parece não ter muita coisa a dizer sobre o assunto.

Exceto quando ele começa a falar aos seus discípulos sobre sua morte e ressurreição ao terceiro dia. Muitos estudiosos argumentam que estas seriam “falsas profecias”, colocadas posteriormente pela igreja nos lábios de Jesus. Tenho definido exaustivamente uma visão oposta a essa. Para mim, parece evidente que alguém que fez o que Jesus fez e pensou como ele deve ter pensado, é capaz de prever sua própria morte, referindo-se a ela com imagens e metáforas apocalípticas e revestindo-a de um sentido salvífico, como se imagina que os mártires macabeus tenham feito em relação às suas próprias mortes. Naquela época, quem pensasse assim seria quase que obrigado a dizer: “E Deus me honrará depois que eu morrer”. O tipo de honra que eles esperavam receber, de acordo com 2 Macabeus, seria, é claro, a ressurreição.

Os discípulos, porém, como afirmam repetidas vezes os Evangelhos, não conseguiam entender o que Jesus dizia. Suas palavras enigmáticas estavam, de alguma forma, ocultas na metáfora apocalíptica sobre o Filho do homem, e eles claramente tinham a intenção de decifrá-las, mas não sabiam como. A última coisa que eles imaginavam era que esse enviado do reino, esse Jesus que eles acreditavam que poderia ser o Messias de Deus, morreria nas mãos das forças dominadoras pagãs. Em nenhum momento vemos alguém dizendo: “Bem, tinha que ser assim; ele precisava morrer para nos salvar, para então ressuscitar logo depois”. A única vez que Jesus tentou redefinir a crença judaica na ressurreição, afirmando que ele seria o primeiro a ressuscitar, os discípulos não entenderam nada. Quando Jesus pediu aos discípulos que não comentassem sobre a transfiguração “até o dia em que o Filho do homem ressuscitasse dentre os mortos”, eles perguntam uns aos outros o que seria esse “ressuscitar dentre os mortos”. Isso não significa que eles nada sabiam sobre a ressurreição. Provavelmente, eles nunca haviam pensado – apesar do comentário de Herodes sobre João Batista – que isso pudesse acontecer a uma pessoa, antes de todas as outras. Essa explicação é bastante aceitável, tanto em relação a Jesus como aos discípulos, e está de acordo com o contexto da época e com a compreensão dos discípulos sobre os fatos e suas motivações.

Evidentemente, essa explicação revela também que a crucificação de Jesus representou o fim de toda esperança. Ninguém disse: “Não se preocupem, ele estará de volta dentro de alguns dias”, ou “Bem, pelo menos agora ele está no céu cm Deus”. Eles não esperavam esse tipo de “reino”. Afinal, Jesus havia lhes ensinado a orar para que o reino de Deus viesse “assim na terra como no céu”. O que eles disseram – o que também está de acordo com o pensamento do primeiro século – foi: “Esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (Lc 24.11), mas como “ele foi crucificado, então não era ele”.

Vimos que a cruz tinha um significado simbólico em todo mundo romano, muito antes de adquirir um novo sentido para os cristãos. A cruz simbolizava o poderio romano sobre um determinado lugar, e aquele que opusesse a esse poder seria castigado de forma terrível. Nesse sentido, a crucificação significa que o reino, ao contrário do que Jesus dizia, ainda não tinha vindo. A crucificação de um provável Messias significa que ele não era, de fato, o Messias. Quando Jesus foi crucificado,, os discípulos sabiam bem o que isso significava. Eles devem ter pensado: “Embarcamos numa canoa furada. A brincadeira acabou”. Até onde eles podiam enxergar, todas as suas expectativas tinham virado poeira. Eles tinham sorte de escapar com vida.

Foi nesse contexto que o cristianismo despontou como algo novo e, ao mesmo tempo, esperado. Vejamos agora o que acontece ao localizarmos esse movimento repentino no mapa do judaísmo antigo, em seu contexto pagão mais amplo.

O ASPECTO SURPREENDENTE DA ESPERANÇA CRISTÃ PRIMITIVA

Vimos que a crença cristã primitiva na esperança para além da morte fazia parte da teologia dos judeus, e não dos pagãos; entretanto, essa esperança judaica passou por sete modificações notáveis, que podem ser observadas com extraordinária consistência nos escritos de Paulo, em meados do primeiro século, e também nos de Tertuliano e Orígenes, no fim do segundo século, além de outros.

Para começar, a esperança futura dos cristãos primitivos concentrava-se firmemente na ressurreição. Os primeiros cristãos não acreditavam simplesmente na “vida após a morte”; eles nunca falavam de “ir para o céu” (o título de um bom livro sobre o assunto diz que o céu não é importante, mas não é o fim do mundo), e quando se referiam ao céu como um destino pós-morte, pareciam considerar essa vida “celestial” como um estágio temporário, enquanto esperavam a ressurreição final do corpo. Quando Jesus disse ao ladrão que eles estariam no paraíso naquele mesmo dia, “paraíso” aqui não indica que este seria seu destino final, como Lucas 24 deixa claro. “Paraíso’ é o delicioso jardim de descanso para o povo de Deus à espera da ressurreição. Quando Jesus declarou que havia muitas moradas na casa de seu Pai, ele usou a palavra monê, que tem sentido de moradia temporária. Quando Paulo disse que desejava “partir e estar com Cristo, o que é muito melhor”, ele estava de fato pensando em uma vida de delicias ao lado do Senhor, em seguida à morte, mas esta seria apenas o prelúdio da ressurreição (Lc 23.43; Jô 14.2; Fp 1.23 com 3.9-11, 20-11). Quanto à discussão no capítulo anterior, os cristãos primitivos acreditavam em dois estágios no futuro: primeiro, a morte e o que viesse logo após; segundo, uma nova existência corpórea em um mundo refeito.

Não há nada comparável a isso no paganismo. Essa é uma crença totalmente judaica. Porém, essa crença judaica recebeu sete modificações do cristianismo primitivo, trazidas por escritores tão diversos como Paulo e João, Lucas e Justino Mártir, Mateus e Irineu. Isso é bastante significativo, porque as pessoas tendem a ser conservadoras em relação às suas crenças sobre a vida após a morte. Diante da desolação, as pessoas recuam para a segurança daquilo que ouviram ou aprenderam no passado. No entanto, os cristãos primitivos organizaram uma crença totalmente nova, de sete maneiras diferentes. Vejamos quais são essas sete modificações.

1. A primeira delas é que, dentro do cristianismo primitivo, não havia praticamente nenhuma crença sólida sobre a vida após a morte. As crenças sobre a vida após a morte, e a maneira de expressá-las social e culturalmente, não são notadamente as características mais conservadoras de uma cultura. No entanto, embora os cristãos primitivos tenham retirado muitos elementos do judaísmo e diferentes contextos do paganismo – que por sua vez deveriam sustentar muitas crenças diferentes sobre a vida após a morte – eles modificaram essa crença de modo a focalizar um único ponto. Nesse sentido, o cristianismo parece ser uma variação do judaísmo farisaico. Não há nenhum traço da visão dos saduceus ou de Filo.

A igreja de Corinto, uma igreja de ex-pagãos confusos, tinha em seu meio algumas pessoas que, aparentemente, negavam a ressurreição, mas essa situação não durou muito tempo (1Co 15.12). Dois mestres mencionados nas cartas pastorais de Paulo afirmavam que a ressurreição já havia acontecido (2Tm 2.18). Provavelmente teria sido um mal-entendido, antecipando talvez a reconsideração gnóstica posterior de toda a questão, mas que não alterou a esmagadora impressão de unanimidade. Porém, não podemos imaginar, como alguns imaginam até hoje, que a ração para essa unanimidade estaria no fato de a ortodoxia ditatorial ter apagado todos os traços de um período anterior mais polimórfico. Há evidência de debates sobre diversos tipos de crenças, mas a unanimidade sobre a ressurreição se sobressai. Somente no fim do segundo século, cerca de 150 anos depois da época de Jesus, algumas pessoas começaram a usar a palavra “ressurreição” com um significado diferente do que ela tinha no judaísmo e no cristianismo primitivo, isto é, como uma “experiência espiritual” no presente, levando a uma esperança desligada do corpo no futuro. Durante os dois primeiros séculos, a ressurreição, no sentido tradicional, manteve-se no centro das discussões.

2. Isso nos leva à segunda mudança. Para o judaísmo do segundo templo, a ressurreição não era muito importante. Uma grande quantidade de obras sequer toca no assunto. Ainda não se sabe exatamente o que os autores dos manuscritos do mar Morto pensavam sobre isso. A não ser por algumas citações ocasionais, como em 2 Macabeus 7, a ressurreição era considerada um tema secundário. No entanto, no cristianismo primitivo a ressurreição passou a ter importância fundamental. É impossível conceber o pensamento de Paulo ou de João sem a ressurreição. Ela é extremamente importante nos textos de Clemente e Inácio, Justino e Irineu. A crença da ressurreição foi um dos principais motivos que levaram os pagãos da cidade de Lyon, na França, em 177 depois de Cristo, a se enfurecerem e matarem muitos cristãos, inclusive o bispo que antecedeu ao grande Irineu. A crença na ressurreição do corpo foi uma das coisas que chamou atenção do médico pagão Galeno em relação aos cristãos (a outra seria seu notável controle sobre o desejo sexual). Se extrairmos os relatos do nascimento de Jesus nos Evangelhos, perderemos apenas dois capítulos de Mateus e dois de Lucas. Porém, se eliminarmos a ressurreição, perderemos todo o Novo Testamento, e boa parte dos escritos dos pais da igreja do segundo século.

3. Essas duas primeiras modificações estão relacionadas à importância que a ressurreição passou a ter no cristianismo primitivo, em oposição ao lugar ocupado por ela no judaísmo. A próxima mudança diz respeito ao que significava, de fato, a ressurreição. O judaísmo não é claro quanto ao tipo de corpo que o ressuscitado teria. Os mártires macabeus supunham que seria um corpo não muito diferente do que temos hoje. A maior parte dos textos judaicos sobre a ressurreição não acrescenta muita coisa ao assunto, exceto por algumas referencias à “glória”, talvez no sentido de luz. Porém, o cristianismo primitivo sempre afirmou que o novo corpo ressurreto, apesar de ser um corpo no sentido físico, ocupando assim um lugar no tempo e no espaço, seria também um corpo transformado, com novas características. Houve muitas discussões sobre o que a “ressurreição” realmente envolvia.

Paulo coloca isso mais claramente em 1 Coríntios 15, em uma passagem geralmente mal-interpretada, que serve de base para muitos escritos posteriores. Paulo se refere a dois tipos de corpo, presente e futuro, usando dois adjetivos para descrever esses dois corpos. Infelizmente, muitas traduções interpretam mal esse ponto, fazendo supor que, para Paulo, o novo corpo seria um corpo “espiritual”, um corpo não no sentido físico, de modo que, no caso de Jesus, o túmulo não teria ficado vazio. Não é bem isso que Paulo está dizendo, o que pode ser facilmente demonstrado pelo exame filológico e exegético do texto. O contraste que ele está fazendo não é entre o que entenderíamos por um corpo “físico” presente em um corpo “espiritual” futuro, mas entre um corpo presente animado alma humana normal e um corpo futuro, animado pelo Espírito de Deus.

Paulo destaca que esse corpo futuro será incorruptível. A carne e o sangue são corruptíveis e estão destinados à decadência e à morte. É por isso que Paulo diz que “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (v. 50) O novo corpo será incorruptível. O capítulo inteiro, uma das argumentações mais longas mantidas por Paulo e ponto alto de toda a carta, é sobre a nova criação, sobre o Deus criador refazendo a criação, e não abandonando-a, como querem os filósofos platônicos e os gnósticos.

A transformação desse corpo físico (que chamei de “transfisicalidade” em meu livro The Ressurrection on the Son of God) não envolve a transformação em um corpo resplandecente. Aqui novamente alguns se equivocam ao interpretar a palavra “glória” como resplandecer fisicamente, e não como uma posição dentro do mundo de Deus. Isso pode ser observado com mais clareza em Daniel 12, um texto bíblico bastante conhecido sobre a ressurreição, que fala que os sábios ressuscitados “resplandecerão como o fulgor do firmamento”. Surpreendentemente, esse texto nunca é citado no Novo Testamento como referência à ressurreição corpórea, exceto na interpretação de uma parábola (MT 13.43). Ele é citado uma única vez, mas como uma metáfora para o testemunho cristão no mundo atual (Fp 2.15). Podemos concluir, então, que a crença cristã primitiva sobre a ressurreição incluía a visão de um novo corpo transformado, no futuro, mas não do único modo que o texto bíblico central parece sugerir.

4. A quarta e surpreendente mudança, evidenciada pela crença cristã primitiva sobre a ressurreição, é que a “ressurreição” como um evento, pode ser dividida em duas. Aqui, o texto de 1 Corintios 15 é novamente fundamental, mas ele só é reconhecido no transcorrer dos dois primeiros séculos. Nenhum judeu do primeiro século esperava que a “ressurreição” pudesse ser outra coisa senão um evento em larga escala, atingindo todo o povo de Deus, ou talvez toda a raça humana, como parte de um evento repentino no qual o reino de Deus finalmente chegaria, assim na terra como no céu. Ninguém esperava que uma pessoa pudesse ressuscitar antes das outras. As “exceções” às vezes citadas (Enoque e Elias) não contam, por dois motivos: (a) nenhum deles teria morrido, e assim a “ressurreição” (nova vida após morte física) não seria relevante; (b) eles estavam no céu, não em um corpo novo, na terra (Gn 5.25; 3Rs 2.11-12). Não podemos esquecer que ressuscitar não significa “ir para o céu” ou “escapar da morte” ou ainda “desfrutar de uma existência após a morte”, mas “voltar à vida física depois de uma morte corpórea”. É por isso que, logo depois da transfiguração, quando Jesus diz a seus discípulos para não mencionarem a visão até que o Filho do homem tenha ressuscitado dentre os mortos, eles ficam confusos, e se perguntam o que isso poderia significar, se seria um evento que lhes permitiria falas às pessoas sobre detalhes da vida de Jesus, ou um vento em que todo o novo mundo de Deus renasceria.

Houve, é claro, outros movimentos judaicos semelhantes ao cristianismo primitivo que sustentaram uma espécie de escatologia iniciada (isto é, a crença de que o “fim” já teria, de certa forma, começado). Os essênios, de acordo com os Manuscritos do Mar Morto, acreditavam que o pacto tinha sido restaurado secretamente com eles, no inicio do final dos tempos. Porém, fora do cristianismo, não encontramos em outro lugar aquela que se tornaria sua característica principal: a crença de que esse inicio consistia na ressurreição de alguém durante o transcorrer da história, antes de sua ocorrência grandiosa e final, antecipando e garantido a ressurreição definitiva do povo de Deus no fim da história.

5 . Sou grato a Dominic Crossan por me chamar a atenção para o que passei a considerar como a quinta mudança na crença judaica da ressurreição. Em um debate público em Nova Orleans, em março de 2005, Crossan chamou essa mudança de “escatologia colaborativa”. Minha compreensão do que isso significa, em sintonia com o pensamento de Crossan, é que como os cristãos primitivos acreditavam que a “ressurreição” teria começado com Jesus, e seria concluída na grande ressurreição final no ultimo dia, eles acreditavam também que Deus os havia chamado para serem seus colaboradores, no poder do Espírito, na realização da obra de Jesus na vida pessoal e política, na missão e na santificação, antecipando assim a ressurreição final. Deus não estava apenas iniciando o “fim”; se Jesus, o Messias, era o próprio “fim” e o futuro de Deus manifestado no presente, então aqueles que pertenciam a ele, que eram seus discípulos, capacitados pelo seu Espírito, deveriam transformar o presente, à luz do futuro.

6. A sexta mudança extraordinária dentro da crença judaica é o uso metafórico totalmente diferente de “ressurreição”. A ressurreição, no judaísmo, podia ser usada como uma metáfora ou como uma metonímia do retorno do exílio. Em Ezequiel 37 ela é claramente usada como metáfora; na época em que os rabinos admitiam essa idéia, em 2 Macabeus, Esdras 4 e em outras partes do Antigo Testamento, bem como nos Evangelhos, ela é usada como metonímia, isso é, uma parte de toda a escatologia, representando o todo. O referencial concreto dessa metáfora judaica era a restauração nacional, étnica e geográfica de Israel. Assim, quando a “ressurreição” é usada metaforicamente no judaísmo, ela se refere à restauração de Israel. Porém, desde os primórdios do cristianismo – o que é mais impressionante quando consideramos que ele começou como um movimento messiânico judaico – esse significado desapareceu, tendo talvez sua única e rápida aparição na confusa pergunta dos discípulos no primeiro capítulo do livro de Atos: “Senhor, será esse o tempo em que restaures o reino de Israel?” (v. 6; cf. Rm 11.15; At 16).

Surge, então, um novo significado metafórico da ressurreição, com suas raízes firmadas na época de Paulo, em que a ressurreição é entendida como uma metáfora do batismo, com o sentido de morrer e ressurgir com Cristo. A ressurreição surge também como rferência à uma nova vida de obediente submissão, capacitada pelo Espírito Santo. Esses significados metafóricos geralmente aparecem junto à passagens que enfatizam também o sentido literal de uma ressurreição futura e corpórea, como em Romanos, indicando que não estavam sendo usados apenas no sentido espiritual. É importante observar também que esse significado metafórico tem uma referência concreta – batizmo e ética – ao contrário do significado abstrato e “espiritual” prezado pelos gnósticos posteriores.

Portanto, na sexta modificação da crena judaica, a ressurreição ainda mantém seu sentido literal sobre uma existência corpórea futura, mas perde seu poderoso significado metafórico anterior sobre a renovação do Israel étnico para adquirir um novo sentido, com a renovação dos seres humanos em geral. De fato, o cristianismo primitivo estava começando a descobrir que a linguagem usada para se referir ao retorno do exílio é à renovação étnica e territorial de Israel, passaria agora a ser usada metaforicamente para se referir à renovação dos seres humanos no presente e à sua ressurreição corpórea no final dos tempos. Evidentemente, todos esses significados só poderiam ser compreendidos no contexto judaico; nenhum pagão poderia sequer imaginar algo parecido com isso. Porém, antes do surgimento do cristianismo, nenhum judeu havia enveredado por esse caminho. Estamos diante de uma notável mudança posterior, vinda de dentro.

7. A sétima mudança, dentro da crença judaica da ressurreição, se encontra na sua associação com o messianismo. Ninguém no judaísmo esperava que o Messias morresse, portanto, ninguém imaginava que ele poderia ressuscitar dentre os mortos. Isso trouxe uma tremenda mudança não apenas na crença da ressurreição, mas na própria crença messiânica. De acordo com as crenças messiânicas da época (é importante frisar que nem todos os textos judaicos mencionavam um messias, mas essa noção passou a ser fundamental no cristianismo primitivo), o Messias deveria lutar para conquistar a vitória de Deus sobre os pagãos, reconstruir ou purificar o templo e trazer a justiça divina ao mundo. Jesus, aparentemente, não fez nada disso. Ele sofreu com a injustiça do mundo; encenou uma estranha, e aparentemente ineficiente, manifestação publica no templo, e morreu nas mãos dos pagãos, em vez de derrotá-los. Nenhum judeu com alguma noção das idéias messiânicas teria imaginado, após a crucificação, que Jesus de Nazaré seria de fato o ungido do Senhor. No entanto, desde o começo, de acordo com fragmentos de antigos credos pré-paulinos, os cristãos declaravam que Jesus era de fato o Messias, exatamente por ele ter ressuscitado.

Fica claro, portanto, que é impossível explicar a crença cristã primitiva de Jesus como Messias sem a ressurreição.

Há evidências de outros movimentos judaicos messiânicos ou proféticos, contemporâneos ao ministério público de Jesus. Em geral, eles terminam com a morte do personagem central. Os participantes do movimento (supondo-se que escapariam para salvar a própria pele) teriam de escolher entre desistir da luta, ou encontrar um novo Messias. Se eles optassem por um novo messias, Tiago, irmão de Jesus, um mestre importante e dedicado, a figura central na igreja primitiva de Jerusalém, seria um bom candidato. No entanto, ninguém imaginava que Tiago pudesse ser o Messias. Josefo refere-se a ele, com certo desdém, como “o irmão do chamado Messias”.

Essas evidências indicam que podemos rejeitar as posições revisionistas sobre a ressurreição de Jesus, oferecidas por vários escritores. Alguns têm sugerido que os discípulos estavam tão abalados com a morte de Jesus que cederam à idéia da ressurreição e agarraram-se a ela, convencendo-se que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos, embora, é claro, soubessem que isso não havia acontecido. Outros têm sugerido que os cristãos primitivos acreditavam que Jesus, depois de sua morte, foi elevado ao céu. Outros dizem que eles tinham uma compreensão estranha de sua missão – estabelecer o reino de Deus – crendo que ela deveria ser mantida de um modo diferente, e que essa crença os levou a dizer que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos.

Isso, no entanto, teria algum sentido? Podemos testar essa idéia com um pequeno exercício mental. Nos anos 70 depois de Cristo, os romanos conquistaram Jerusalém e levaram milhares de judeus cativos de volta a Roma, entre eles, o homem que eles consideravam o líder da revolta judaica, o “rei dos judeus”, um homem chamado Simão bar Giora. Ele seguia atrás do cortejo triunfal, e quando o espetáculo chegou ao fim, ele foi açoitado e então morto.

Agora, imagine um encontro desses revolucionários judeus, três dias ou três semanas depois. Um deles diz:

- Sabe, acho que Simão era, de fato, o Messoas. Acho que ainda é!
Os outros ficam confusos e dizem:
- É claro que ele não era; os romanos o mataram, como de costume. Se você queria um Messias, é melhor procurar outro.
- Ah, - diz o primeiro – mas eu acredito que ele ressuscitou dentre os mortos.
- O que você está dizendo? – pergunta os outros – Ele está morto e sepultado. – Não! – responde o primeiro. – Eu creio que ele foi elevado ao céu.
Os outros parecem confusos.
- Os justos estão com Deus, todo mundo sabe disso; suas almas estão nas mãos de Deus; isso não quer dizer que eles já ressuscitaram dos mortos. Seja como for, todos nós ressuscitaremos no final dos tempos, mas ninguém ressuscita no meio da história.
- Não – responde o primeiro. – Vocês não compreendem, eu me senti cercado pelo amor de Deus. Senti Deus me perdoando, perdoando a nós todos. Senti meu coração estranhamente aquecido. Além disso, eu vi Sião, ele estava ali comigo...
Os outros o interrompem, agora irados.
- Todos nós podemos ter visões. Muitas pessoas sonham com amigos mortos recentemente. Às vezes esses sonhos são muito reais. Isso não significa que eles ressuscitaram dentre os mortos. E certamente não quer dizer que um deles é o Messias. Se o seu coração está aquecido, então cante um salmo, mas não faça afirmações absurdas sobre Simão.

É mais ou menos isso que os revisionistas sugerem que poderia ter acontecido. No entanto, essa solução não simplesmente inconcebível; ela é impossível. Se alguém tivesse dito o que os revisionistas sugerem, teria acontecido esse tipo de conversa. Um pouco de imaginação histórica disciplinada é suficiente para remover pilhas enormes do chamado criticismo histórico.

Além disso (concluindo essa ultima mudança na crença judaica), a crença de que Jesus seria de fato o Messias levou ao desenvolvimento da crença de que Jesus seria também o Senhor, portanto, César não poderia ser o Senhor. Voltaremos a esse assunto em outra oportunidade, mas nas cartas de Paulo, a ressurreição de Jesus e, futuramente, de seu povo, é o fundamento da lealdade cristã a um outro rei e a um outro senhor. A morte é a ultima arma do tirano; e o argumento da ressurreição, apesar de mal compreendido, é o de que a morte, mas a sua derrota, junto à derrocada daqueles que dependem de seu poder. A despeito do desdém e das criticas de alguns estudiosos contemporâneos, aqueles que acreditavam na ressurreição corpórea é que foram queimados em estacas e lançados aos leões. A ressurreição nunca foi um modo de se impor ou de ser respeitado; os fariseus que o digam! Foram os gnósticos que transformaram a linguagem da ressurreição em uma espiritualidade particular e em uma cosmologia dualista, mudando totalmente seu significado e escapando assim da perseguição. Que imperador perderia noites de sono preocupado porque seus súditos estavam lendo o Evangelho de Tomé? A crença na ressurreição sempre deixava as pessoas em dificuldade.

Observamos assim sete mudanças principais na crença judaica da ressurreição, cada uma delas de importância fundamental para o cristianismo dos dois primeiros séculos. A crença cristã primitiva na ressurreição continuou inserida no judaísmo do primeiro século, não no paganismo. Porém, em relação ao monoteísmo, à eleição e à escatologia da teologia judaica, foi aberto um novo caminho para entender a história, a esperança e a hermenêutica. Isso exige uma explicação histórica. Por que os cristãos primitivos fizeram sete mudanças com tamanha consistência na linguagem judaica da ressurreição? Se perguntássemos a eles, eles certamente responderiam que fizeram isso porque acreditavam no que havia acontecido a Jesus no terceiro dia após sua morte. Então, como explicar a estranha história que eles contaram ao descrever os eventos daquele primeiro dia de Páscoa?

 --- Textos relacionados:

Origens cristãs e a ressurreição de Jesus - N. T. Wright
Algumas objeções à ressurreição
Debate sobre a ressurreição (Bart Ehrman e William Lane Craig)
Documentário: Em defesa de Cristo
Os apóstolos falaram a verdade?
Passanto no teste
Podemos confiar no NT?
Pano de fundo religioso do NT
Ressurreição de Jesus - Parte 1
Ressurreição de Jesus - Tormento fatal - Parte 2
Ressurreição de Jesus - Sepulcro vazio - Parte 3
Ressurreição de Jesus - Aparições de Cristo - Parte 4
Ressurreição de Jesus - Transformação - Parte 5

sábado, 24 de abril de 2010

Algumas objeções à ressurreição

A história não é uma ciência exata. Ela não nos dá certeza absoluta como a matemática, por exemplo.

Isso é verdade. Entretanto, por que alguém usaria esse fato para desvalorizar os fatos bíblicos, e não o relacionado a César, Lutero ou George  Washington? A história não é exata, mas é suficiente. Ninguém duvida que César tenha cruzado Rubicon, mas por que tantas pessoas duvidam que Jesus tenha ressuscitado dos mortos? As evidencias a favor deste último evento são muito mais forte do que as do primeiro.

Não  podemos confiar em documentos. O papel não prova nada. Tudo pode ser forjado.

Essa resposta é simplesmente absurda. Não confiar em documentos é o mesmo que não confiar em telesc´pios. Uma prova apresentada no papel é suficiente para a maior parte daquilo em que crmeos; por que deveríamos repentinamente suspeitar disso, considerando apenas as exceções à regra?

A ressurreição foi milagrosa. É o conteúdo da idéia, e não das provas documentais, que a tornam difícil de acreditar.

Finalmente temos uma objeção direta não às provas documentais, mais aos milagres. Essa é uma questão filosófica, e não científica, histórica ou textual.

Não são apenas os milagres em geral, mas esse em particular que é questionável. A ressurreição de um cadáver é destituída de refinamento, vulgar, literal e material. A religião deveria ser mais espiritual, intima e ética.

Se chamarmos de religião aquilo que inventamos, podemos transforma-la no que quisermos. Se ela é o que Deus inventou, então temos de aceitá-la como é, assim como temos que aceitar o universo que experimentamos em vez daquele que gostaríamos que existisse. Quanto à morte ser algo destituído de refinamento, vulgar, literal e material, lembramos que a ressurreição encara a morte como ela é e representa uma vitória sobre a mesma, em vez de meramente ficar mencionando abstrações inofensivas sobre espiritualidade. A ressurreição é tão “vulgar” como a lama, os insetos e as unhas dos pés.

Entretanto, uma interpretação literal da ressurreição ignora as profundas dimensões de significado encontradas nos reinos simbólico, espiritual e mítico, que ttêm sido profundamente explorados por outras religiões. Por que os cristãos têm a mente tão estreita de uma atitude tão exclusivista? Por que não podem perceber um simbolismo profundo na idéia da ressurreição?

Eles o fazem. Não é uma questão de escolher entre dois extremos. O cristianismo não invalida os mitos, o simbolismo; ao contrário, valida-os por encarná-los. Cristo foi um “mito que se tornou fato” – usando um substituto de um ensaio bastante pertinente de C.S. Lewis, God in the Dock [Deus no banco dos réus].

Por que deveríamos preferir um bolo de uma camada a de um de duas camadas? Por que recusar os aspectos histórico-literais ou mítico-simbólicos da ressurreição? Os fundamentalistas recusam os aspecto mítico-simbólicos, porque já perceberam o que os modernitas fizeram com eles: usaram-nos para excluir os aspectos histórico-literais.

Por que os mordenistas firezam isso? Que destino terrível os aguarda se eles seguirem as provas e os argumentos diversificados e abalizados que surgem dos dados?

A resposta não é obscura. O que os espera é o cristianismo tradicional, completo, com a adoração de Cristo como Deus, a obediência a Cristo como Senhor, a dependência de Cristo como Salvador, a confissão humilde do pecado e o esforço sincero de viver como Cristo em seu sacrifício, em seu distanciamento do mundo, em sua justiça, santidade e pureza de pensamento, de palavras e atos.

As evidências históricas são maciças o suficiente para convencer qualquer inquiridor disposto a analissá-las. Por analogia com qualquer outro evento histórico, a ressurreição apresenta provas perfeitamente cabíveis. Para desacreditá-la, temos de fazer uma exceção deliberada às regras que ussamos em todas as outras análises históricas. Por que alguém desejaria agir assim?

Pedimos ao leitor que faça a si mesmo essa pergunta e, e ousar, sonde sinceramente seu coração antes de responder.



Fonte: Manual de defesa da fé, p. 305-307. Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli

Um comentário sobre “A Palavra”


A Palavra (gr. ho logos). A doutrina da Palavra apresentada por João foi formada por duas influencias. A Palavra é concebida como distintamente relacionada à Palavra do AT. E a concepção é influenciada aqui também pelo pensamento grego contemporâneo como preservado no final do século I.

O cristianismo teve seu berço no judaísmo. Mas o evangelista reconhece que as missões aos gentios necessitavam de uma apresentação de Cristo em termos que seriam compreendidos tanto por judeus quanto por gregos. Para o judeu, a “palavra” fazia coisas. Ele concebia a linguagem como algo vitalmente ativo.

Quanto mais verdadeiro então isso seria com relação à palavra de Deus! Foi a Palavra de Deus que trouxe a terra e os céus à existência (cf. Sl 33.6-9), de forma que os autores mais antigos do AT puderam falar sem hesitação do falar de Deus no ato de trazer À existência (cf. Gn 1,3,9,11,14,20,24,26). Além disso, a Palavra de Deus nunca retornou a ele como um eco infiel, mas sempre cumpriu o propósito para o qual tinha sido falada (Is 55.11), preeminentemente como poder de gerar vida (Is 55.3) e como uma compulsão sobre os seus mensageiros (Jr 23.29). Essa é uma pressuposição básica do AT. No entanto, sempre que certos trechos do AT sugeriam que algo de Deus pudesse ser visto pelos homens 9Ex 33.22,23; Is 6.1; Ez 1.1; Is 48.13, etc), ou que ele possuísse partes humanas, os targuns aramaicos posteriores removeram essas referencias, inserindo circunlocuções no lugar delas, geralmente menra, “a palavra”, que poderia estar por traz do emprego do logos de João. Deus agora foi visto na palavra que se tornou carne. Deve-se lembrar, também, que o livro de Provérbios, junto com outros livros da literatura sapiencial, personifica a Sabedoria e a representa como associada com Deus na criação do mundo (PV 8.22-31).

Para a mente grega, logos era também um termo significativo. A partir de Heráclito, quando pensadores começaram a formular uma doutrina do controle criativo intrínseco no Universo, o logos passou a ser um termo técnico entre os filósofos, particularmente os estóicos (como também Fílon).

Essa autoridade, escreve João, expressando a exata natureza da divindade e sua sabedoria na criação e salvação, é revelada em Cristo. Ele domina o poder eterno em virtude de sua divindade. Mas os seus atos são racionais e por isso reveladores. Ele é Deus. Ele é Cristo. Ele é Senhor. Por isso, ele pode da mesma forma fazer afirmações incomparáveis e promessas inigualáveis 9Hb 1.1; Cl 1.160. É principalmente essa idéia de Deus, ativo e imanente no mundo criado e revelado nos eventos na história, que está implícita no uso que João faz de “a Palavra”. Mas, sem dúvida, ele reconhece a concepção grega como a que comunica a racionalidade do Universo e que sugere uma mente pensante e intencional. João acrescenta a personalidade distinta às duas idéias, embora possa haver alusões À personalidade nos trechos de Provérbios.

Embora a Palavra não seja especificamente mencionada após o prólogo, não devemos perder de vista que sempre que Jesus fala ou age ele é a Eterna Palavra Encarnada. E como testemunho de Apocalipse (AP 19.13) dessa Palavra, João lembra os seus leitores de que o seu livro não é somente um tratado teológico, mais um testemunho de Cristo como aquele que é o único digno de receber glória e honra. “Adore a Deus! O testemunho de Jesus é o espírito de profecia” (Ap 19.10).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Desafio da Páscoa de Dan Barker - II

Essa é a segunda parte da resposta ao desafio de Dan Barker. Confira a primeira parte.


A que horas as mulheres visitaram o sepulcro?
Há duas possibilidades: (1) a frase “ao despontar do sol” indica que era muito cedo (cf. Sl 104:22), e “ainda escuro” (Jô 20:1); (2) Maria veio sozinha primeiro, quando estava escuro e antes do sol nascer, e depois veio, após o sol nascer com as outras mulheres. “Em apoio a essa posição está o fato de que somente Maria é mencionada em João, mas em Marcos são citadas ela e as outras mulheres. Também Lucas (24:1) diz que era “alta madrugada”, quando as mulheres (não apenas Maria) foram lá. Ainda, Mateus (28:1) fala que foi “ao findar do sábado, ao entrar o primeiro dia da semana” que “Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”. Somente João menciona Maria estando lá sozinha “sendo ainda escuro”.

Quem eram as mulheres?
Já foi respondido.

Qual era seu propósito?
* Mateus: Ver o sepulcro (28:1)
* Marcos: Já tinham visto o sepulcro (15:47), trouxeram especiarias (16:1)
* Lucas: Já tinham visto o sepulcro (23:55), trouxeram especiarias (24:1)
* João: O corpo já tinha sido tratado antes delas chegar. (19:39,40) * Marcos: Já tinham visto o sepulcro (15:47), trouxeram especiarias (16:1)
* Lucas: Já tinham visto o sepulcro (23:55), trouxeram especiarias (24:1)

As discrepâncias nesse sentido já foram conciliadas, mas tenho algo mais a dizer.

Essas duas primeiras, de Mc 15:47 e Lucas 23:55, foram logo depois da morte de Jesus, para levar o corpo e limpá-lo. Já que o sábado ia chegar, pararam o trabalho, e esperaram para voltar depois e levar as especiarias, como relatado em Marcos 16:1 e Lucas 24:1.

Depois elas foram ver o sepulcro novamente, como relatado em Mateus 28:1, Marcos 16:1 e Lucas 24:1 (que por sinal, no caso de Marcos e Lucas, são casos diferentes. Ele faz confusão da visita anterior quando levaram Jesus morto, e a outra visita quando trouxeram as especiarias)

Como disse, parece muita vontade de achar erro onde não tem.Quem quiser, leia por si mesmo o texto dos quatro evangelhos começando pelo sepultamento de Jesus, e verá que não é nada disso que Barker diz.

O sepulcro estava aberto quando chegaram?
Também já foi respondido.

Quem estava no sepulcro quando chegaram?
Levando em consideração que foram várias idas ao sepulcro, podem ter sido todos eles em momentos e para pessoas diferentes. Já que Mateus não disse que havia apenas um anjo, e Mateus provavelmente deu atenção ao anjo que falou com as mulheres, enquanto João falou dos anjos que elas viram. Os homens citados podem ser muito bem explicados dizendo que os anjos apareceram com aparência de homens. Sobre a quantidade deles, a mesma explicação de Mateus e João faz sentido (Marcos relata o que se dirigiu a elas).

João não cita Maria madalena indo com as outras mulheres, só relata que depois de ir sozinha ficou um tempo chorando e Jesus falou com ela. Os anjos falaram com ela também, antes de Jesus. Se ler o texto de João, os anjos falaram com ela mas ela não sabia que eram pois estava de cabeça baixa chorando. Primeiro ela vê o sepulcro aberto, mas nem chega a entrar, corre para falar com os outros, e veja o que acontece depois com ela. Vou copiar essa parte:

Tornaram, pois, os discípulos para casa.
11 ¶ E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro.
12 E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.
13 E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.
14 E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus.
15 Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.
16 Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni (que quer dizer, Mestre).

Chorando, abaixada para o sepulcro, ouve dois anjos perguntando, mas ela não reconhece. Ainda ela acha que roubaram o mestre dela, pois ela não tinha voltado com as mulheres. Jesus fala com ela e só depois percebem isso.

Onde esses mensageiros estavam?
Essa pergunta não faz nem muito sentido. Lucas não fala que havia dois em pé, mas que pararam junto delas. Eles podem muito bem ter parado sentados. Sobre João, é bom lembrar que foi a aparição a Maria, diferente das outras aparições citadas.

O que o(s) mensageiro(s) disse(ram)?
Eles disseram isso tudo, já que são relatos de testemunhas e aparições diferentes. Alguns dizem que a questão fica complicada por causa da reação de Maria Madalena que é diferente nos relatos. Mas isso seria, no maximo, em Mateus, Marcos e Lucas, porque, como já deve ter percebido, a aparição com Maria madalena em João é diferente, pois é anterior a das mulheres.

As mulheres contaram o que aconteceu?
Os relatos dizem que primeiro elas viram o sepulcro vazio, depois Jesus foi visto. E só depois que Jesus foi visto, a caminho (quando elas ainda não tinham contado), que elas falaram aos discípulos:

E, saindo elas apressadamente, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e assombro; e nada diziam a ninguém porque temiam.
E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios.
E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com ele, os quais estavam tristes, e chorando.

Quando Maria retornou do sepulcro, ela sabia que Jesus tinha ressuscitado?
Como foi visto, a primeira aparição foi a de João. Então também não faz sentido essa pergunta.

Quando Maria viu Jesus pela primeira vez?
Como já devem ter percebido, João fala da primeira ida de Maria. Então não há nenhuma contradição aí.

Jesus podia ser tocado depois da ressurreição?
O motivo que Jesus não pode ser tocado em um dos registros foi que ele ainda não havia ascendido aos céus com seu corpo. Por isso Jesus, na primeira aparição a Maria não permite, mas nas outras ele o permite.

Depois das mulheres, para quem Jesus apareceu primeiro?
Isso já foi tratado. Mas é bom lembrar: Uma coisa é o primeiro relato da aparição que foi registrada, outra coisa seria afirmar que a primeira aparição registrada é também a primeira aparição cronologica. Mas isso os evangelhos não fazem.

Onde Jesus apareceu primeiro para os discípulos?
A mesma coisa. Jesus apareceu várias vezes para vários discípulos. Mais uma vez a confusão entre os fatos cronológicos e os relatos escritos.

Os discípulos acreditaram nos dois homens?
Ambos os relatos falam que eles apenas creram quando Jesus apareceu, e não porque eles falaram.

Marcos 16
13 E, indo estes, anunciaram-no aos outros, mas nem ainda estes creram.
14 ¶ Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados à mesa, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado.

Lucas 24
35 E eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como deles fora conhecido no partir do pão.
36 ¶ E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: Paz seja convosco.

O que aconteceu na aparição?
Novamente: Não foi na aparição, foram nas aparições.

Jesus ficou por um tempo na Terra?
Levando em consideração, novamente, que foram aparições diferentes em momentos diferentes. Sim, ficou por um tempo na terra.

Onde aconteceu a ascensão?
- Mateus, João e Paulo: Sem ascensão.
R: O fato de não relatarem a ascenção não significa que não houve, somente que s[o significa aí que eles não relataram.

Uma explicação interessante que encontrei é que “Betânia ficava na encosta a leste do Monte das Oliveiras, que está a leste de Jerusalém. Lucas, que escreveu essas duas passagens, (cf. At 1:1), não viu nenhuma contradição quando se referiu a esses dois lugares como o local da ascenção de Jesus. Ele pode inclusive ter começado sua ascenção no monte, indo para o leste sobre Betânia, ao ir desaparecendo da vista deles.”


O que se parece é que há uma vontade, que chega a ser desesperada, de arrumar uma desculpa para não crer na bíblia, quando o verdadeiro motivo é outro. 

Desafio da Páscoa de Dan Barker - I


Esta é a primeira parte de uma resposta ao desafio de Dan Barker sobre a páscoa que encontrei no blog Insanidade Coletiva. Segundo ele os eventos narrados no Novo Testamento se contradizem e não dá pra saber o que realmente aconteceu. Eu não concordo. Por quê? É só ler o que escrevi, aí pode ver se concorda ou não comigo.

É bom lembrar como o Novo Testamento foi formado. Com isso vários equívocos vão ser tirados. Por quê? Porque os evangelhos são tradições escritas do que antes era tradição oral das comunidades cristãs. Nem todas as comunidades ficavam juntas e conheciam a tradição das outras, e todos eles contam detalhes diferentes pois algumas poderiam não ter conhecido as testemunhas oculares das outras comunidades. Só isso explica algumas discrepâncias. No entanto as diferenças são apenas em detalhes, não no elemento principal, a substancia da mensagem.

Depois que os discípulos tiveram experiências físicas e visuais com o Jesus ressurreto, eles começaram a sua pregação. Cada dia aumentava o numero de cristãos. Vários deles haviam se convertido porque ouviram de testemunhas oculares, e outros ainda eram essas testemunhas. Eles se reuniam em comunidades diferentes e passavam essas histórias para os outros sobre o que lembravam. Os escritores desses evangelhos faziam parte dessas comunidades diferentes, e com testemunhas diferentes além de fontes diferentes. Além do que chamam de fonte “Q”, hoje levantam a possibilidade da existência da fonte “M” para Mateus e “L” para Lucas. O livro de Raymond Brown sobre a comunidade de João (A comunidade do Discípulo amado, o nome do livro), é um exemplo. Nesse livro o autor cita um especialista sobre o livro de João (e isso tem muita coisa parecida com os outros textos do Novo Testamento):

D. Moody Smith percebeu isso muito bem (que o autor da epistola não foi testemunha ocular): Se a comunidade joanina que produziu o evangelho se viu a si mesma em comunidade tradicional com Jesus, podemos perceber  no ‘nós’ dos prólogos não só do evangelho como também da epístola, não é a testemunha ocular apostólica em si, mas uma comunidade que, apesar disso, entendeu que era herdeira de uma tradição baseada em alguma testemunha histórica de Jesus”. (p. 33)

O próprio Brown, em uma nota diz que “o evangelho não foi com certeza escrito por uma testemunha ocular de ministério” (p.34). O que coloquei entre parêntesis, além das paginas para conferir o contexto, foi um acréscimo meu pra entender melhor o que ele falava.

Lucas, por exemplo, nunca afirmou que foi testemunha ocular do evento. É só ler os primeiros versículos do livro:

Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, Segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, Pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio; Para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado.

Marcos também não era um apostolo, e escreveu o que sua comunidade tinha como tradição oral e o que ouvia de Pedro. Paulo era testemunha do Jesus ressurreto, mas não foi testemunha ocular da mesma forma que os outros discípulos, por isso muito do que ele dizia era parte dessa tradição. Isso se dá também com Mateus.

Alguns detalhes, segundo ele, não podem ser conciliados, mas quero destacar uma coisa que percebi nos relatos: Eles não afirmam que a aparição de Jesus às mulheres ou aos apóstolos escrita por eles foram as primeiras. São as primeiras que eles citam, mas isso não significa que foram as primeiras cronologicamente. Por isso que não há muito o que responder sobre essa questão.

O primeiro exemplo:
Um dos primeiros problemas que achei está em Mateus 28:2, depois que duas mulheres chegam na sepultura: "E eis que houvera um grande terremoto; pois um anjo do Senhor descera do céu e, chegando-se, removera a pedra e estava sentado sobre ela." (Vamos ignorar o fato que nenhum outro escritor mencionou este "grande terremoto.") Esta estória diz que a pedra foi removida depois que as mulheres chegaram, na presença delas.
Já o Evangelho de Marcos diz que isto aconteceu antes da chegada das mulheres: "E diziam umas às outras: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro? Mas, levantando os olhos, notaram que a pedra, que era muito grande, já estava revolvida."
Lucas escreve: "E acharam a pedra revolvida do sepulcro." João concorda. Sem terremoto, sem pedra rolando. É três votos contra um: Mateus perde. (Ou então os outros três estão errados.) O evento não pode ter acontecido antes e depois que elas chegaram.

Ele diz que a resposta não é possível pois “todas a passagem está no tempo aorístico (passado), e ele é, em contesto, como um simples relato cronológico. Mateus 28:2 começa,"E eis que houvera" e não "E houve". Se este verso pode ser embaralhado tão facilmente, então o que nos impede de botar a enchente antes da arca, ou a crucificação antes da natividade?”

É bom destacar que “Houvera” é passado mais que perfeito, ou seja, um fato que passou em relação a outro fato do passado. Isso se encaixa na explicação de que o sepulcro abriu antes delas chegarem. O texto não diz que “as mulheres chegaram ao sepulcro e a pedra foi retirada”, por isso não há problema em dizer que foi enquanto elas estavam a caminho do sepulcro. Não vejo como o mesmo pode ser feito no exemplo do dilúvio ou com a “crucificação antes da natividade”.

Isso se encaixa perfeitamente nos outros relatos: A pedra foi removida enquanto as mulheres estavam a caminho. Quando chegaram lá, encontraram-na aberta, receberam a ordem de contar isso aos outros discípulos, no caminho Jesus apareceu e por isso o adoraram.

Barker diz que “João não concorda”, quando João apenas não cita o que aconteceu, e ele mesmo disse anteriormente que isso não desmente uma história. O segundo exemplo é das aparições de Jesus. No desafio ele diz que:

Marcos concorda com o relato de Mateus sobre a mensagem dos anjos sobre Galiléia, mas conta uma estória diferente sobre a primeira aparição. Lucas e João relatam mensagens diferentes dos anjos e então contradizem radicalmente Mateus. Lucas mostra a primeira aparição na estrada para Emaús e então em uma sala em Jerusalém. João diz que isto aconteceu mais tarde, naquela noite em uma sala, menos Tomé. Estas mensagens angelicais, localizações e viagens durante o dia são impossíveis de reconciliar.

Há alguns problemas nessas afirmações. Primeiro, uma coisa é dizer a aparição citada foi a primeira relatada em cada livro, outra coisa é dizer que o livro fala que aquela foi a primeira aparição cronológica de Jesus.

Quando João não cita a aparição de Jesus aos dois discípulos indo para Emaús, e o primeiro relato citado de sua aparição aos demais (além das mulheres) foi o de Maria e as outras mulheres, não quer dizer que a aparição aos discipulos não aconteceu e que a primeira relatada seja a primeira cronológica.

Isso só significa que ou João não tinha conhecimento da aparição aos dois discípulos, ou não achou importante. Não que ela não aconteceu e que a outra foi a primeira. A mesma coisa nos outros livros.

Jesus dá a ordem aos discípulos para irem a Galiléia, e, pelo texto, essa aparição foi para os onze. Mateus e Marcos concordam com isso. Lucas cita outra aparição de Jesus, a alguns discípulos (que não eram dos onze, mas que viram o relato das mulheres e não creram) que iam para Emaús. Eles não acreditaram na mensagem das mulheres, mas sabiam dela:

"É verdade que também algumas mulheres dentre nós nos maravilharam, as quais de madrugada foram ao sepulcro; E, não achando o seu corpo, voltaram, dizendo que também tinham visto uma visão de anjos, que dizem que ele vive. E alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; porém, a ele não o viram."

É bom lembrar que eles não estavam em Emaús, mas foram a caminho de lá depois que ouviram o relato das mulheres. Assim que estes discípulos viram Jesus, eles voltaram, e relataram para os outros. Enquanto eles falavam, Jesus apareceu. E isso é relatado também em João.

Por isso o que Barker diz sobre as aparições não faz o mínimo de sentido:

Lucas diz que a aparição pós-ressurreição aconteceu em Jerusalém, mas Mateus diz que ela aconteceu na Galiléia, entre sessenta e cem milhas de distância!

Pois nenhum dos livros diz que só houve uma aparição, e nem que a aparição relatada foi a primeira cronologicamente, ou que uma omissão signifique que não aconteceu (como disse, ou que não sabia, ou que não achou importante relatar).

O que Barker fez foi criar um espantalho e criticar esse espantalho como se fosse o relato em si. O que é muito conveniente em vez de avaliar os textos como realmente são, e os relatos como testemunhas de tradições diferentes que falam do mesmo acontecimento. Não é difícil pensar que algumas tradições não sabiam de alguns fatos ocorridos, já que testemunhas oculares diferentes relatam isso.

Ele também cita o terremoto. Como um acontecimento como esse não foi registrado? Alguns dizem. Há algumas possibilidades pra o que aconteceu: (1) Só a comunidade de Mateus ficou sabendo disso, pois nem Marcos, que foi o primeiro a escrever, nem Lucas tinham conhecimento dessa fonte e tradição utilizada por Mateus. (2) As outras comunidades sabiam, mas omitiram porque não consideravam importante para a mensagem que eles queriam passar. João, por exemplo, queria passar a mensagem de que Jesus é Deus e é maior que João Batista. Além disso, esse não é o único relato miraculoso que é citado em um evangelho e omitido em outro por algum motivo (como o primeiro). (3) Isso foi um desenvolvimento da comunidade de Mateus pra simbolizar algo.

Quanto a afirmação de que o texto de Mateus impede que Maria tenha sido a primeira testemunha tenho algo a dizer pois relato de Mateus se encaixa totalmente com o de João.

O texto diz que:
Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito. Vinde, vede o lugar onde o Senhor jazia.
Isso não parece ser sobre a profecia de Jesus, se não seria como “havia predito”. Marcos também fala que primeiro havia aparecido a Maria madalena:
E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios. (v 9)
Parece que nem Maria Madalena tinha acreditado realmente nas experiências que teve.

Pra concluir a primeira parte, a lista cronológica das aparições:

1 – Maria (Jô 20:10-18)
2 – Maria e mulheres (MT 28:1-10)
3 – Pedro (1 Co 15:5)
4 – Dois discípulos (Lucas 24:13-35)
5 – Dez apóstolos (Lucas 24:36-49; Jô 20:19-23)
6 – Onze apóstolos (Jo 20:24-31)
7 – Sete apóstolos (Jô 21)
8 – Todos os apóstolos (MT 28:16-20; Mc 16:14-18)
9 – 500 Irmãos (1 Co 15:6)
10 – Tiago (1Co 15:7)
11 – Todos os apóstolos (At 1:4-8)
12 – Paulo (At 9:1-9; 1Co 15:8)

É bom lembrar que as tradições dessas aparições não foram registradas somente nos evangelhos, por isso em outros documentos do primeiro século, que depois fizeram parte do Canon cristão, testemunham parte delas. Em alguns desses relatos, os discípulos viram, ouviram e tocaram (se ofereceu para ser tocado), outros apenas viram e tocaram.

Norman Geisler, na Enciclopédia Apologética, faz o seguinte comentário:

1.    “Maria Madalena” visitou o túmulo de Jesus no domingo de Manhã, “estando ainda escuro” (Jô-20.1). (É possível que outra pessoa estivesse com ela, já que diz “sabemos” [Jô 20.2])
2.    Ao ver que a pedra fora rolada (Jô 20.1), ela correu de volta para Pedro e João em Jerusalém e disse: “não sabemos onde o colocaram” (v. 2).
3.    Pedro e João correram até o túmulo e viram os lençóis vazios (Jô 20.3-9); depois, os discipulos [Pedro e João] voltaram pra casa” (v. 10). Mas Maria Madalena seguiu Pedro e João para o túmulo.
4.    Depois que Pedro e João partiram, Maria Madalena, que permanecera junto ao túmulo, viu dois anjos “onde estivera o corpo de Jesus” (Jô 20.12). Então Jesus apareceu a ela (Mc 16.9) e disse que voltasse aos discipulos (Jô 20.14-17).
5.    Quando Maria Madalena Saía, as outras mulheres chegaram ao túmulo com aromas para embalsamar o corpo de Jesus (Mc 16.1). “Tando começo o primeiro dia da semana” (Mt 28.1). As mulheres do grupo, incluindo a “outra Maria” (Mt 28.1), a mãe de Tiago (Lc 24.10), Salomé (Mc 16.1) e Joana (Lc 24.1,10), também viram a pedra que fora rolada (Mt 28.2; Mc 16.4; Lc 24.2; Jô 20.1). Ao entrar no túmulo, viram “dois homens” (Lc 24.4), um dos quais falou com elas (Mc 16.5) e lhe disse para voltar para a Galiléia, onde veriam Jesus (Mt 28.5; Mc 16.5-7). Esses dois homens eram na verdade anjos (Jo 20.12).
6.    Enquanto Maria Madalena e as mulheres saíram para contar aos discípulos, Jesus apareceu para elas e lhes disse para irem à Galiléia avisar seus “irmãos” (Mt 28.9,10). Enquanto isso, “os onze discípulos foram para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes indicara” (Mt 28.16; Mc 16.7).
7.    Maria Madalena e “as outras” (Lc 24.10) voltaram naquela tarde para os onze e “a todos os outros” (Lc 24.9), agora reunidos na Galiléia a portas trancadas “por medo dos judeus” (Jô 20.19). Maria Madalena disse-lhes que vira o Senhor (v. 18). Mas os discípulos não acreditaram nela (Mc 16.11). E não acreditaram na história das outras mulheres (Lc 24.11).
8.    Ao ouvir essa notícia, Pedro levantou-se e correu novamente para o túmulo. Ao ver os lençóis (Lc 24.12), ficou maravilhado. Há diferenças notáveis entre essa visita e sua primeira visita. Aqui Pedro está sozinho, mas da primeira vez João estava com ele (Jô 20.3-8). Aqui Pedro fica realmente impressionado; da primeira vez, apenas João “viu e creu” (Jô 20.8);

O fato de os relatos não concidirem perfeitamente é esperado de testemunhos independentes autênticos. Na verdade, se os registros fossem perfeitamente harmoniosos na superfície, poderíamos suspeitar de conclúio. Mas o fato de que os vários eventos e a ordem geral são claros é exatamente o que devemos esperar de um registro confiável (verificado por grandes mentes legais que analisaram os registros dos evangelhos e os comprovaram como tal). Simon Greenleaf, o famoso advogado de Harvard que escreveu um livro didático sobre evidência legal, converteu-se ao cristianismo devido à analise minuciosa dos testemunhos dos evangelhos do ponto de vista legal. Ele concluiu que “cópias que fossem universalmente recebidas e que influenciassem tanto quanto os quatro evangelhos, seriam recebidas como evidencia em qualquer tribunal de justiça, sem a menos hesitação”. (The testimony of the ressurrection, p. 9-10).

Há evidencia positiva surpreendente de que os registros evangélicos são autênticos. Há um numero maior de manuscritos para o NT que para qualquer outro livro do mundo antigo. Na realidade, mesmo considerando os critérios de credibilidade do grande cético David Hume, o NT é aprovado. Assim, não há razão para rejeitar a autenticidade dos registros do NT com base na sua suposta desordem. Dado o fato de que há cinco grandes registros das aparições pós ressurreição de Jesus (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jô 20-21; At 9; 1Co 15), cheios de registros de testemunhas oculares, não há duvida sobre a realidade da sua ressurreição.


Uma vez que o relato cronológico faz sentido, vamos ver as supostas discrepâncias. As outras “contradições” podem ser explicadas da mesma forma, mas isso vou colocar em outra postagem.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Debate sobre a ressurreição.

Video legendado sobre um debate entre Wiliam Lane Craig e Bart Ehrman sobre as evidencias históricas da ressurreição de Jesus.


Uma coisa eu achei interessante: Os historiadores nao podem inferir sobre Deus, tanto negativas quanto positivas. Portanto, a situacao que nos encontramos quanto as evidencias historicas da ressurreição de Jesus faz com que as pessoas, tanto historiadores ou não, possam chegar a uma conclusão de qual é a melhor explicação e deixar o metodo histórico de lado, já que não se pode fazer julgamentos quanto a isso metodologicamente. Por isso, mesmo que alguem nao acredite que Jesus ressuscitou, deve reconhecer que a ressurreição é a melhor explicação para as evidencias que possuimos.

Segue o debate:



























sábado, 3 de abril de 2010

Morto-vivo em um sonho...



Esta noite sonhei que estava na casa de minha avó conversando com outra pessoa e um velho. Esse velho era podre, de pele podre e acabada, como se fosse um pedaço de parede cinza já soltando seus cacos de tinta seca. Era como um zumbi. Um morto-vivo.

Esses “cacos” escondiam seus olhos. Eu tentava vê-los, mas era sem luz dentro dele. Por causa de alguma luz de fora eu percebia que os olhos eram tão podres quanto o seu corpo, cheios de feridas, mas ele parecia estar acostumado com isso. Até da boca dele, de tão acabado que estava, saía sujeira, um tipo de pó, quando falava.

Confesso que, de tão imundo que aquele velho era, eu só conversava só por conveniência. O rapaz que estava conosco fazia questão de dizer mostrar que não sentia nojo daquilo, tanto que as vezes beijava-o e constantemente segurava na mão daquele velho.

Nessa conversa citamos a parábola do filho pródigo (sem contar), O velho de corpo miserável nos disse que nunca ouvira falar nessa parábola. Decidimos contar, mas ele sempre mudava de assunto, e a pessoa que estava do meu lado também mudava.

Eu tentava começar dizendo: “a parábola do filho prodigo diz...”, mas era interrompido pelos dois. Tive uma leve impressão de que o velho não queria ouvi-lo, pois já conhecia a parábola.

Depois te tanto mudarem de assunto, acabei entrando nessa e perdi a vontade de contar a parábola. Passou um tempo em meio as conversas e o velho morreu. Colocamos ele em uma caixa de papelão que parecia um caixão, mas ainda discutíamos se ele estava vivo ou morto mesmo.

Com isso eu acordei, fui beber água, e só depois de acordar vi um problema: aquele velho morreu sem ouvir a parábola, e, talvez, ele já tivesse escutado, mas tivemos aquela oportunidade e nos deixamos levar em conversas tolas.

Eu aprendi algo com esse sonho. Postei para que aprendessem também.

Madrugada de 03/04/2010 - Sábado

Sonhado por: Jonadabe Rios