sexta-feira, 21 de abril de 2017

Os dogmas impedem a reflexão?

Excelente texto de Jacques-Marie-Louis Monsabré:

Tudo vai bem até aqui. A afirmação da Igreja, expressa pela fórmula dogmática, vai adiante das nossas necessidades intelectuais e atende às nossas fraquezas; mas respeitará ela as nossas grandezas? Fixado o dogma, não contraria ele a natural tendência de todos os conhecimentos humanos para o progresso? Impondo ao espírito humano uma fórmula seca que é necessário crer, não lhe proíbe o ter consciência do ensino que lhe subministrou? Imobilizando uma ordem de conhecimentos que é impossível rejeitar, não constrói ela uma espécie de dique que detém as evoluções das outras ciências?

Senhores, nada mais fácil de responder a estas questões de que tanto se tem abusado, em nossos dias, para tornar suspeito o governo intelectual da Igreja. Poderíamos escrever volumes; espero contentar-vos com poucas palavras.

Desde o século V que se suscitou a questão do progresso em face da imutabilidade do dogma, e eis como foi resolvida por um homem verdadeiramente sábio: “Que há um progresso, um grande progresso na Igreja de Cristo, escreve São Vicente de Lerins, coisa é que nenhum homem pode negar, por mais inimigo que seja de Deus e de seus semelhantes. Trata-se do verdadeiro progresso e não de mudança na fé. Dá-se progresso quando uma coisa se desenvolve em si mesma, mudança quando se torna noutra que não era... A religião das almas deve imitar a natureza dos corpos, que, com os anos, se desenvolvem sem deixarem de ser o que eram. Há, certamente, uma grande diferença entre a infância e a velhice, e, todavia, o velho é o mesmo homem que o adolescente. Ainda que o estado do homem mudasse aparentemente, permanece sempre o mesmo na sua natureza e na sua pessoa... A doutrina da Igreja obedece, pois, a esta lei de progresso, fixa-se, desenvolve-se, aprofunda-se, à medida que os tempos correm; mas subsiste sempre uma, pura, incorruptível... Estudam-se os dogmas tradicionais, aumentam em evidência, em demonstração e clareza científica, mas nada perdem da sua integridade[1].”

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Epístola de São Clemente e o Papado

I. No mais antigo documento do começo da história cristã, além das páginas das Sagradas Escrituras, a Igreja de Roma destaca-se de uma maneira tal que sugere sua autoridade, e que registra toda sua futura atitude em relação ao restante da Igreja. Quem ocupava a Sé de Roma surge diante de nós falando em nome de sua Igreja no tempo em que o Apóstolo São João ainda estava vivo, e põe fim a um distúrbio em uma região naturalmente mais próxima do Apóstolo que da Igreja de Roma, apresentando-se tanto como tendo a posse de uma verdadeira tradição divina, quanto como intérprete autorizado de uma Igreja distante.
 Ele declara as regras de adoração e governo para toda a Igreja por meio de uma instituição Divina.

As circunstâncias são as seguintes: A Igreja em Corinto foi tomada por algumas dissensões, causando extremo escândalo diante de todos (§ 47)[1]. Certos espíritos beligerantes, com uma boa quantidade de seguidores, provavelmente expulsaram de seu sagrado ofício o seu bispo e alguns de seus presbíteros, isso se não foi, de fato, um ou mais bispos de sua região (ἐπισκοπή, § 44)[2]. A Igreja de Roma veio em socorro. As perseguições sob Nero e Domiciano tinham-na impedido de intervir anteriormente (§ 1). Porém o mais rápido possível São Clemente escreveu uma carta cujo título é “A Igreja em Roma para a Igreja em Corinto”, a qual Dr. Lightfoot considera como “quase que imperiosa”[3] no tom, e que Santo Irineu falou como “poderosíssima” ou “completamente adequada”[4]. Em sua carta, São Clemente fala da tradição que a Igreja de Roma recebera dos próprios apóstolos (§ 44), assim como de uma sucessão de regentes da Igreja, a fim de que frustrasse a contenda “em relação ao nome (i. e. dignidade) do ofício do bispo (ἐπισκοπής)”. Falando a respeito de seu governo da Igreja, ele encontra seu modelo na Antiga Aliança, no Sumo Sacerdote, nos sacerdotes e nos levitas. Ele relata que os Apóstolos, a fim de prevenirem as contendas, ordenaram como sucessores no ministério (λειτουργίας) bispos e diáconos. Ele de modo magisterial reprova os líderes da desordem em Corinto em sua tentativa de expulsar tais sucessores dos Apóstolos[5], dizendo que “estarão pecando” ao depô-los de seu “sagrado ofício” (ἐπισκοπής)”. Além disso, em uma passagem somente descoberta posteriormente, ele reivindica “obediência às coisas escritas por nós pelo Espírito Santo” (§ 63), assim como dissera pouco antes: “Se um de vós desobedecer ao que foi falado por Ele através de nós, saibam que envolver-se-ão em transgressão e não pequeno perigo” (§ 59). A epístola conclui dizendo que brevemente receberam de volta novamente os legados que enviaram, com a notícia de Corinto de que a paz, tal como desejavam, fora restaurada.
Este foi o primeiro ato registrado da Igreja de Roma. Isso foi registrado com entusiasmo por Santo Irineu, do qual acrescentamos que os coríntios se emendaram, e o resultado desejado foi alcançado. Isso também foi aludido com louvor por Santo Inácio em seu caminho em direção ao martírio.

II. Dr. Lightfoot faz grande alvoroço ao fato de que o nome de São Clemente não aparece nesta carta, mas somente o nome da Igreja de Roma[6]. Entretanto, ele admite que a carta foi escrita por São Clemente, e chama este fato de “incidente em sua administração” da Igreja[7]. No entanto, ele pensa ter São Clemente “cuidadosamente suprimido”[8] seu nome, como se não estivesse em uma posição de autoridade tal como está envolvida na ideia de um episcopado monárquico. Em consequência, ele pensa que “sua personalidade fora absorvida”[9] na Igreja de Roma, e que, diante disso, podemos discernir uma diferença vital entre o primeiro século e o quarto, dizendo que “a linguagem desta carta é inconsistente com a posse da autoridade papal na pessoa do escritor” e que ela “não vem do Bispo de Roma, mas da Igreja de Roma”. Este é, diz ele, um registro do segundo século a respeito “de uma comunidade, não de um indivíduo”.

Isso servirá de alerta aos nossos leitores a respeito de uma interpretação errônea e corriqueira a respeito da palavra “monárquico” aplicada por certos escritores ao episcopado (tais como Dr. Lightfoot e Dr. Salmon), e, acima de tudo, ao Bispo de Roma.

Quando dizemos que o Bispo de Roma é o infalível guardião da fé, não queremos dizer que ele está num lugar em que ele possa agir isoladamente do resto do corpo episcopal. A própria doutrina da infaliblidade papal implica que ele nunca pode agir fora do ensino geral da Igreja. Podemos sempre estar seguros de que seus pronunciamentos, quando atendem às condições implicadas no exercício de sua infalibilidade, são a exposição da mente da Igreja como um todo. Se supusermos o caso do Papa, de um lado, e todo o episcopado reunido contra ele do outro, estaríamos obrigados a sustentar que o Papa estaria certo e todo o restante do episcopado errado. Mas este caso nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer. Faz parte da promessa feita por Nosso Senhor de Sua presença na Igreja em seu ensino “todos os dias até a consumação dos séculos”[10], e que o corpo nunca estará separado da cabeça. O Santo Padre fala em nome de seus filhos, e seus filhos nunca irão, como um todo, protestar contra seu ensino.

Porém, não somente isso. O Bispo de Roma, ao longo de todas as eras, tem adotado o princípio sobre o qual São Cipriano, que especialmente expôs a ideia monárquica do episcopado, diz que ele sempre propôs governar sua diocese – isto é, com consulta. Assim, nada é mais característico do governo da Igreja por aqueles grandes Papas, como São Dâmaso e São Leão, no quarto e quinto séculos, que o uso de assessores episcopais. Como Santo Inácio fala do bispo da diocese tendo sua corona – seu círculo – de presbíteros, assim os Bispos de Roma sempre tiveram seu círculo de bispos, e fizeram uso de seu conselho em todos os grandes assuntos a respeito do bem-estar da Igreja. Quando, então, os Papas usavam o plural “nós”, eles não estavam somente usando o plural majestático, no entanto, eles colheram em seus pronunciamentos com uma parte próxima daquele grande conjunto cujo nome eles estavam justificados em falar. Eles fizeram seu sínodo. Eles não agem em majestade isolada, mas aconselhados com outros que eles reuniram em proximidade com eles mesmos.

Assim, a supremacia que pertence estritamente ao Bispo de Roma, como o sucessor de São Pedro, é constantemente atribuída, não ao Bispo de Roma, mas à Igreja de Roma. Na mais recente história da Igreja, constantemente, deparamo-nos com a supremacia do bispo como pertencente à Igreja de Roma. Em nosso tempo constantemente falamos de “Roma” fazendo isto ou dizendo aquilo, enquanto que, de fato, acreditamos que a potência informadora do todo é o próprio bispo, como sucessor de Pedro e Vigário de Cristo. Martinho V, no Concílio de Constança, condenou a proposição de Wycliffe, que “não é necessário acreditar que a Igreja Romana possui supremacia em relação às outras Igrejas”; e no Credo do Papa Pio IV há uma expressão similar usada pelos convertidos ao serem recebidos pela Igreja, a saber: “Confesso a santa Católica e Apostólica Igreja Romana ser a mãe e mestra de todas as Igrejas”, assim como a profissão de fé prescrita por Clemente IV, e Gregório X, e feita pelos Gregos após o segundo Concílio de Lyon, cujas palavras são: “A santa Igreja Romana tem a suprema e completa primazia e soberania sobre toda a Igreja Católica” e, finalmente, o decreto do Vaticano diz (Const. “Pastor Aeternus”, cap. 3): “Ensinamos e declaramos que a Igreja Romana, pela ordem de Cristo (disponente Domino), tem a soberania de poder ordinário sobre todas as outras [Igrejas]”.

Consequentemente, se a História cristã primitiva apresenta-nos o espetáculo da Igreja de Roma chamando a si mesma por este nome, e agindo com autoridade em guardar a fé da Igreja por conta da sucessão apostólica de seus regentes, e restaurando a unidade a uma comunidade cristã dividida e distante, tal coisa não constitui algo como uma diferença vital entre esta expressão de autoridade e a mais recente prática papal. Há, no máximo, diferença terminológica. O fato de um ato de autoridade ter sido feito em nome da Igreja de Roma não significa que não fora feito pela autoridade do Bispo de Roma[11]. A menos que, então, o Dr. Lightfoot tenha sido capaz de mostrar que não há outra nenhuma razão possível para São Clemente ter suprimido seu nome na carta aos coríntios, o fato que ele suprimiu não prova que ele não ocupava a posição no pensamento dos primeiros cristãos que ele ocupa agora na Igreja Católica Romana. Ademais, o argumento do silêncio é o principal ponto urgido pelo Dr. Lightfoot nesta questão. “A linguagem desta carta” à qual ele afirma mostrar uma diferença entre os primeiros e últimos Papas, significa o silêncio em relação ao nome do autor.

Porém, há mais de uma solução para este silêncio. Se a tradição que Santo Epifânio[12] nos dá está baseada nos fatos, a efeito do que após a morte dos apóstolos Pedro e Paulo São Clemente recusara ocupar a posição de bispo na comunidade romana por conta de sua modéstia, a mesma profunda humildade poderia muito bem ocorrer neste caso, talvez, o primeiro grande ato de disciplina exercida por ele para com uma Igreja distante. Sobre o ensino papal acerca do governo da Igreja seria o suficiente para São Clemente mencionar a Igreja de Roma; ela possuía a “primazia”, como Santo Irineu diz, que, diz-nos também Santo Agostinho, “era sempre forte”. São Clemente foi o sucessor de São Pedro pois ele era o Bispo de Roma. Ele estava ligado com a Divina Cabeça da Igreja, isto é, Seu Vigário, à sua posição na Igreja de Roma; e seria natural, ao escrever uma carta com alguma severidade à Igreja em Corinto, que ele falasse simplesmente da Igreja de Roma, e não mencionasse seu próprio indigno nome. Isso só vai parecer extravagante e fantasioso àqueles que não refletem que a descrição de Nosso Senhor da vital diferença entre a cabeça de Seu reino e aqueles dos reinos mundanos era que “o primeiro” em Seu reino não deveria “ser servido” pelos outros, como os governantes deste mundo, mas estaria entre os demais, como Ele Mesmo estava – seu Regente, seu Senhor e Mestre Infalível, e ainda assim manso e humilde de coração.[13]

Mas há ainda outra possibilidade, que é realmente provável, como solução para a supressão de seu nome, sobre o qual Dr. Lightfoot assenta seu argumento para mostrar que há uma diferença entre São Clemente e o Papado nos tempos subsequentes. A Igreja acabara de emergir de ardentes perseguições, e poderia a qualquer momento estar exposta a outra. Todas as sociedades organizadas sem a permissão das autoridades civis eram ilegais, e, consequentemente, a última coisa que a cabeça da comunidade cristã faria em tais circunstâncias seria expor sua condição como um corpo organizado frente ao mundo. Uma carta, com tamanha autoridade da parte de São Clemente, com seu próprio nome, poderia facilmente cair nas mãos de estranhos. O próprio São Pedro pensou por bem chamar Roma de “Babilônia”[14] ao escrever da Igreja de Roma, e poderia muito bem ser prudente da parte do bispo suprimir seu nome escrevendo de Roma.
Apesar disso, nenhuma destas suposições são necessárias para explicar o fato do silêncio de São Clemente em relação ao seu nome. Escrevendo como o cabeça da comunidade Cristã, ele poderia escrever, oficialmente, em seu nome. Um de seus sucessores, São Sotero, fez o mesmo, e Eusébio expressamente, diz que Clemente escreveu em nome de sua Igreja[15], e, São Jerônimo, que ele escrevera na pessoa da Igreja.[16]

E há a explicação de uma passagem em Eusébio na qual ele fala desta carta de São Clemente. São Dionísio de Corinto, escrevendo à Igreja de Roma, descreve a carta como “vossa Epístola enviada a nós por Clemente”; apesar de Eusébio dizer que Dionísio fez “algumas observações relatando a Epístola de Clemente aos Coríntios”, sobre a qual Dr. Lightfoot culpa Eusébio de fazer uma suposição não permitida pelas palavras de Dionísio.[17] Mas o historiador grego, como todos os outros após ele, considerava o mesmo, chamando, assim como Dionísio o fez, a carta dos Romanos escrita “por Clemente”, ou a carta de Clemente: da mesma forma que São Clemente de Alexandria fala em ambas as formas, tanto como a Epístola dos Romanos[18], quanto como a Epístola de Clemente[19]. Tudo é explicado pelo princípio de que São Cipriano delineou ao dizer “deveis saber que o bispo está na Igreja, e a Igreja no bispo”.
Não teria sido necessário estender-se tanto na interpretação do Dr. Lightfoot a respeito da omissão do nome de São Clemente em sua carta, se não fosse o peso dado pelo nome de Dr. Lightfoot a tudo o que ele diz, e, embora muitos o repudiem em sua visão a respeito do clero[20] cristão, seguem-no neste ponto particular.

III. Assim, a carta de São Clemente foi escrita no nome da Igreja de Roma e, como o Dr. Lightfoot diz, foi o “único incidente registrado em sua administração da Igreja”. Isso foi, de acordo com o mesmo escritor, “sem dúvida o primeiro passo para a dominação papal”. Seria impossível enganar-se a respeito do tom de autoridade, “quase que imperioso”, diz o mesmo escritor.[21] Dr. Salmon, em seu livro sobre a “Infalibilidade”[22], sustenta que o tom “é somente de repreensão amorosa que qualquer cristão está justificado a dar a um irmão que esteja no erro”. Mas em seu artigo sobre São Clemente no “Dictionary of Christian Biography” (Smith and Wace), ele diz que “é muito notável na primeira parte da carta o tom de autoridade usado pela Igreja Romana ao fazer uma interferência não solicitada em assuntos de outra Igreja”[23]. Já na carta de São Clemente há uma suposição, tão natural quanto quase inconsciente, do direito de avisar e interpor de forma embasada seu argumento pacificador”[24].

É singular que poucos anos depois do dogma da infalibilidade papal, crença de todas as épocas dos cristãos, à vista das negações emergentes, tenha sido feita obrigatória, um manuscrito em um mosteiro grego, contendo fortes asserções da divina autoridade com que a Igreja de Roma compreendia de si mesma ao falar, fosse repentinamente descoberto. Dr. Lightfoot tinha substituído um longo fragmento de outro escritor, como possivelmente a substância de uma antiga porção desta inestimável carta, e muitos estudiosos admiraram sua ingenuidade. Porém, uma comparação com este sugerido complemento da carta, e o atual fragmento agora descoberto, mostrará como a imaginação de um brilhante estudioso difere do pensamento do próprio grande Bispo de Roma.[25]

IV. Há uma passagem que sugere a resposta à questão de se esta carta de Roma foi uma resposta a um apelo ou uma intervenção não solicitada. O escritor diz (§ 44) que “não pensamos que tais como estes” (i. e. homens deixados pelos Apóstolos e de boa reputação) “estão justamente expulsos do sagrado ministério; pois isso será um pecado não pequeno em nós, se nós expulsássemos (ou depuséssemos) do episcopado aqueles que tinham oferecido os dons inocentemente e santamente”. Isso certamente parece como se o caso daqueles bispos (eu uso o equivalente exato, sem querer significar através disso a questão de qual era exatamente seu papel) tinham sido colocados diante da Igreja de Roma. Os coríntios os tinham removido do exercício de seu papel, como está declarado na próxima sentença, mas nesta sentença o escritor da Epístola trata sua disposição como não concluída; há o presente do indicativo, como se o ato esperasse seu término em Roma. Se isso foi ou não assim, a questão deve ter sido levada adiante de alguma forma, pois Roma passa a julgar se tais regentes mereceram tal tratamento, em vez de pedir pormenores. A passagem na qual São Clemente fala do “relatório” tendo chegado a Roma[26], que parece à primeira vista sugerir que os romanos não tinham sido diretamente consultados sobre a questão, refere-se somente ao relato do distúrbio, do qual os fatos principais parecem ter sido levados diante da Igreja de Roma, foi devido a somente “um ou dois líderes”. A expressão no inicio da carta, “a questão em disputa entre vós”, não nos compele a supor que a questão de disputa entre eles não tinha sido também levada a Roma, pois se houvera algum apelo, por que São Clemente desculpar-se-ia por não ter atendido a questão antes? No conjunto, então, parece mais provável, embora não seja certo, que a carta fora escrita em resposta a um apelo dos coríntios.

Este fato está na aurora da história cristã não inspirada. No primeiro século da era Cristã, a unidade fora restaurada em Corinto pela ação de Roma escrevendo uma poderosíssima carta e enviando legados[27] para o local da contenda; e, de acordo com Santo Inácio, Roma foi a mestra das outras, com alusão especial, pensa-se, a esta carta: “Ensinastes a outros” (In. “Ep. Ad Rom.” § 3) são palavras que, como Dr. Lightfoot nota[28], “o recém-descoberto término da carta de São Clemente possibilita-nos apreciar mais completamente” – uma carta na qual o escritor reivindica falar com a autoridade de Deus.

O mínimo que pode ser dito desta revelada posição de Roma na Igreja é que ela encaixa-se com a presente posição na Cristandade Católica Romana.


Notas:

1 – As referências à Carta de São Clemente são da edição do Dr. Lightfoot. A segunda edição, publicada em 1890.
2 – São Clemente chama isso de cisma (§ 46).
3 – St. Clement of Rome, vol. i. p. 69. 1890.
4 - ικανωτατην, Adv. Haer. Iii. 3,3.
5 - “Τους ουν κατασταθεντας υπ εκεινων [i.e. os Apóstolos] η μεταξυ υφ ετερων ελλογιμων ανδρων, συνευδοκησασης της εκκλησιας πασης, και λειτουργησαντας αμεμπτως τω ποιμνιω του Χριστου μετα ταπεινοφροσυνης ησυχως και αβαναυσως, μεμαρτυρημενους τε πολλοις χρονοις υπο παντων. τουτους ου δικαιως νομιζομεν αποβαλλεσθαι της λειτουργιας” (§44). Observe o presente do indicativo na última palavra. A Igreja de Roma trata a ação dos Coríntios como incompleta.
6 – Loc. Cit. P. 69.
7. P. 84.
8. P. 352.
9. P. 69.
10. Mt XXVIII, 20.
11 – Cf. Life of St. Thomas of Cantebury by Ver. J. Morris, S. J., p. 135.
12 – Haer. XXVII, 6.
13 – Lc XXII, 25-27. E assim no tempo de São Dâmaso os Papas chamavam-se de “servos dos servos”.
14 – 1Pe v. 13. Dr. Lightfoot assim entende a palavra “Babilônia” em seu St. Clement of Rome, vol. Ii. P. 191, 2.
15 – H. E. iii. 37.
16 – De Viris Illustr. 15.
17 – Loc. Cit. P. 358.
19 – Strom. v. 12, 81.
19 – Ib. iv. 17, 19.
20 – Mr. Gore tem uma excelente resposta à concepção errônea do Dr. Lightfoot ao episcopado na Igreja Cristã primitiva em seu Church and the Ministry, 1889, nota A, p. 353 seq.
21 – Mr. Gore (ib. p. 325) fala da “autoridade de ensino que exala em sua (de Clemente) Epístola”.
22 – Infallibility of Church, de Salmon, segunda edição, p. 379.
23 – Dr. Salmon, no prefácio de seu livro “Infallibility of the Church” diz que muito disso foi escrito anos atrás. Isso certamente contrasta estranhamente seu tom abrupto e esquenta seu livro admirável “Introduction to the Study of the New Testament”, no qual ele toma a mesma visão da carta de São Clemente que está no Dicionário de Smith e Wace. Possivelmente o novo final não tinha sido descoberto quando ele escreveu aquela porção do seu trabalho sobre a infalibilidade.
24 – Cruttwell (C. T.) Lit. Hist. Of Early Christianity, 1893, vol. ii. p.404.
25 – Lightfoot, Clement of Rome, 1890, vol. i. p. 178.
26 – §, ad finem.
27 – Clem. Ep. Ad Cor. § 45.
28 – Loc. Cit. P. 71.

Link atual com a tradução de Lightfoot da Epístola de São Clemente (inglês):

http://www.earlychristianwritings.com/text/1clement-lightfoot.html

Link atual do texto em grego da Carta de São Clemente:

http://www.textexcavation.com/greekclement33-48.html

Este artigo pode ser reproduzido por qualquer meio gratuito, desde que a fonte seja mencionada: <<< The Primitive Church and the See of Rome, Luke Rivington. Tradução: Jonadabe Rios. 2017. http://porquecreio.blogspot.com/ | www.editoraloreto.com >>>

sábado, 22 de outubro de 2016

Paradoxos do Cristianismo: Jesus Cristo, Deus e Homem - ROBERT HUGH BENSON

O presente texto é o primeiro capítulo do livro "Paradoxos do Cristianismo" de Robert Hugh Benson, onde há uma ótima reflexão sobre o assunto.

***

Um sábio materialista anunciou um dia ao mundo estupefato que os mistérios da Igreja são brinquedos de criança, comparados com os mistérios da natureza. Naturalmente que ele, afirmando isto, errara redondamente e o seu erro não tem justificação alguma. No estudo da natureza criada, de que era profundo conhecedor, encontrara numerosas anomalias e paradoxos sobrepostos uns aos outros, e vira que o seu escasso conhecimento de teologia, limitado pelos primeiros e mais rudimentares princípios, não lhe permitia encarar as coisas por outro prisma.

Nós, na altura de compreendermos como os mistérios da natureza estão inteiramente contidos no círculo da vida criada, enquanto os mistérios da graça se ligam ao supremo mistério da incriada e eterna Vida de Deus, nós, digo, podemos ao certo assegurar que, se a Natureza é paradoxal, a Graça o é num grau incalculavelmente maior. Em cada paradoxo que encontramos no mundo material, acharemos o centro da atmosfera espiritual, dentro da qual respiramos e onde se movem as nossas almas, que, por um processo por si mesmo paradoxal, são obrigadas sob a limitação que lhes impõe a matéria.

Ao defrontarmos estes mistérios, não temos outro campo visual além do minúsculo espelho do sobrenatural ou aquele débil fio de esperança que chamamos "vida espiritual". Como se explica, por exemplo, que, enquanto a religião é num sentido a luz que clareia a nossa escura existência, noutro é o único ponto escuro num mundo de prazeres? E ainda, num sentido, é a única que torna a vida digna de ser vivida, e em outro, o único obstáculo para o nosso prazer? Que significam estes mistérios Gozosos e Dolorosos contradizendo-se uns aos outros e que têm por resultado (como no rosário) outros mistérios que são Gloriosos? Voltemo-nos a considerar a paixão fundamental destes mistérios, paixão que é chamada amor, e vejamos se aí existe algo de inexplicável. Que paixão é esta que transforma a alegria em dor e a dor em alegria? Esse impulso que leva o homem a fazer sacrifício de sua vida para salvá-la, que para si transforma as alegrias em complacências, lhe torna leve o jugo da Cruz, que o leva a encontrar o centro além do próprio eu, a procurar o seu prazer na privação de todo o bem-estar? Que poder é esse que pode muitas vezes encher-nos de alegria antes de nos metermos à obra e que recompensa a nossa fadiga com as trevas da desolação?

I - Se, pois, a nossa vida interior está cheia de paradoxos e de aparentes contradições, - e não há alma que tenha feito qualquer progresso que o não tivesse verificado - naturalmente deveríamos atender a que a Vida Divina de Jesus Cristo sobre a terra, que outra coisa não foi senão a Luz Central e Objetiva do Mundo, refletida em nós mesmos, deve ser cheia das mais estupefacientes anomalias. Examinemos os testemunhos escritos referentes a esta vida e vejamos se as cousas não são precisamente assim. Para melhor nos convencermos, suponhamos que este exame venha de um observador alheio completamente à tradição cristã.

a) Começa ele a ler atentamente e termina convencido de que esta Vida é uma vida como todas as outras; que este Homem não difere de outro homem, e, prosseguindo na leitura, encontra centenas de argumentos que servem para corroborar a sua teoria. De fato, vem ele a achar-se em presença de um indivíduo nascido de uma mulher, sujeito à vida comum, às inclemências da fome e da sede, e que, com o correr do tempo, aumenta em sabedoria; de um indivíduo que trabalha numa oficina de carpinteiro, sofre e se alegra como todos os outros homens, e que, como todos, tem amigos e inimigos; de um indivíduo que se vê abandonado por uns e insultado por outros, que, numa palavra, passa por todas as privações impostas pela humanidade; que morre como todos os outros homens e é, finalmente, depositado numa sepultura.

O observador encontra uma suficiente e adequada explicação dos fatos maravilhosos de que se compõe a Vida deste Homem na sua poderosa e magnífica humanidade. E é induzido a concluir que a fascinação emanada da simples, mas perfeita personalidade do herói, tenha sido condição tão grande para abrir os olhos aos cegos para que possam contemplar a beleza de sua face, e os ouvidos aos surdos para que possam ouvir a sua palavra.

Penetrando na leitura, não tardará, porém, a topar com problemas que o fazem duvidoso. Se este Homem, porquanto perfeito e sublime, é igual aos demais homens, como é que dizem que sua santidade se manifesta pelos muitos atos diversos dos outros Santos? Os homens aspirantes à perfeição, quanto mais se aproximam dela, melhor se dão conta das próprias imperfeições: os outros Santos mais se aproximavam de Deus e mais lamentavam a distância que dele os separava. Os outros mestres de vida espiritual, cônscios de suas deficiências, convidavam os discípulos a desviarem deles os seus olhares para o fixarem na Lei Eterna, objeto de suas mesmas aspirações.

Este Homem, ao contrário, parece vasar todos os sistemas. Tomando posições em face do mundo, Ele ordena aos homens que O imitem, e não como fazem os outros diretores espirituais; evitar os seus pecados cometidos; longe de indicar uma meta posta antes ou depois de si, aponta para si mesmo como Caminho que conduz ao Pai; longe de adorar uma Verdade, para a qual Ele tende com esforço, não hesita em afirmar que esta existe em si mesmo; longe de descrever a Vida a que espera chegar um dia, ordena aos seus ouvintes que olhem para Ele como para a própria Vida; longe de maldizer com os seus amigos as faltas que o agravam, desafia os inimigos a acharem nele a menor mancha de pecado. Há nele uma extraordinária sabedoria vinda de sua própria essência, que nada tem que ver com o conceito comum de individualidade.

Suponhamos agora, ao contrário, que o nosso observador se preste a ler o Evangelho partindo de um outro conceito, isto é, o de se achar em erro, pretendendo encontrar algum quê de humano na vida de Cristo. " Jamais homem algum tem falado como este". " Quem é este Homem a quem até os ventos obedecem?" dirá ele fazendo coro com o Evangelho. E prosseguirá, interrogando: " Como pode Cristo ser um homem se não nasceu de um pai humano?"

Se ressuscitou depois de três dias de morto? Se dele narram maravilhas que não podem ser atribuídas a um homem semelhante aos demais homens?

E começa a argumentar. "Aqui nos achamos", diz para consigo mesmo, "frente a frente com a realidade da antiga fábula, com a vinda de Deus entre os homens, com a solução de todos os problemas. E ei-lo ainda uma vez desorientado. Como pode um Deus sentir-se cansado com a jornada de longos caminhos, trabalhar numa pobre carpintaria e morrer numa Cruz? Como pode o Verbo Eterno ficar silencioso e obediente durante trinta anos? O Ser Infinito nascer numa manjedoura? A Fonte da Vida sujeitar-se à morte e à morte de Cruz?

O averiguador destes fatos debate-se desesperadamente entre uma e outra teoria. Apela para as mesmas palavras de Deus, e a sua perplexidade aumenta a cada expressão. Se Cristo é Deus, como pode proclamar: " Eu e o Pai somos um ?" Se Cristo é Deus, como pode dizer : "O Pai é maior do que Eu"? Se Cristo é homem, como pode assegurar : "Antes que Abraão fosse, eu sou" ? Se Cristo é Deus, como pode chamar-se a si mesmo "o Filho do Homem"?

b) Tornemos a considerar o ensinamento espiritual de Jesus Cristo, e uma vez mais acharemos que os problemas e os paradoxos se sucedem e se sobrepõem uns aos outros. Este homem, que veio ao mundo para aliviar as dores dos homens, para dar descanso aos fatigados, este Homem, que oferece aos seus seguidores um jugo doce e suave, diz ao mesmo tempo que ninguém o pode seguir e ser seu discípulo, se não renunciar a si mesmo, tomar cada dia a sua Cruz e subir a montanha com Ele. O médico das almas e dos corpos, que passou operando o bem, dando o exemplo de uma grande atividade no servir a Deus, não hesita em declarar que Maria, na sua silenciosa passividade, escolhera a melhor parte e que esta não lhe poderá ser outorgada. A uma certa altura vemos Cristo dirigir-se aos seus discípulos com os olhos cintilantes de belicoso ardor e dizer-lhes: quem não possui espada venda os seus vestidos e compre uma; e outra vez: embainhai a vossa espada, porque o meu Reino não é deste mundo. Em uma ocasião vemos o Pacificador baixar a sua benção sobre aqueles que fazem a paz, e, em outra, declarar que não veio trazer a paz, mas a guerra: vemos, ainda, este homem, que chama bem-aventurados os que choram, ordenar aos Seus discípulos que se alegrem e exultem. Onde encontrar um conjunto mais complexo de paradoxos, de problemas e de perplexidades? Tanto na pessoa como na doutrina de Cristo, parece não se encontrar certeza nem solução. - Que vos parece do Cristo? De quem o julgais filho?

II - a) A doutrina católica, e somente esta, oferece a chave destes problemas - chave como todas as outras chaves, entretanto tão complicada como o mecanismo da fechadura que só pode abrir. Um depois do outro, forcejam os heréticos por arrebatá-la e, um depois do outro, esperam ansiosos o seu desmoronamento na confusão. Cristo é Deus - exclama o herege - por isso tirai do Evangelho tudo que fala de sua Humanidade. Deus não pode derramar o próprio sangue, sofrer e morrer; Deus não pode experimentar as dores do homem; Deus não pode afligir-se e fatigar-se. Cristo é homem - exclama a crítica moderna -  por isso arrancai do Evangelho o seu nascimento imaculado e a Sua Ressurreição gloriosa. Ninguém no mundo, fora de um católico, pode aceitar os Evangelhos tais quais foram escritos, porque é somente quem crê que Cristo é ao mesmo tempo Deus e homem, que se inclina diante dos paradoxos chamados Encarnação, que aceita o estupendo mistério de uma só pessoa e duas naturezas, finita e infinita, que crê que o Eterno veio ao mundo, que o Criador Encarnado se dignou unir-se à sua mesma criação - somente este homem pode dizer-se Católico, pode sem reserva aceitar o misterioso fenômeno da vida de Cristo.

b) Consideremos os mistérios da nossa vida e, mediante um confronto inadequado, nos poremos em condição de melhor compreender.

Porque até nós temos uma dúplice natureza. Como Deus e o Homem formam o Cristo, a alma e o corpo formam o homem - e, como as duas naturezas de Cristo, a sua perfeita Divindade unida à sua perfeita Humanidade, são base dos problemas que a Sua Vida representa, assim a nossa afinidade com o lodo, de que foi feito o nosso corpo, e com o Pai da Vida, que infundiu em nós uma alma imortal, explica as contradições da nossa própria experiência.

Se fossemos unicamente animais irracionais, poderíamos ser felizes como o são os animais do campo: se somente fossemos puros espíritos extasiados na contemplação de Deus, nossa seria a alegria dos anjos. Admitindo, porém, uma só destas verdades, necessariamente terminaríamos abismando-nos na confusão. Vivendo como animais do campo, não poderíamos encontrar a alegria de que eles gozam, porque a nossa parte imortal no-lo impediria. Descurando ou resistindo às legítimas aspirações do nosso corpo, o nosso espírito imortal vê-se arrastado pela baixeza do mesmo corpo ultrajado. Somente a admissão das duas naturezas em Cristo permite resolver os problemas contidos no Evangelho. Somente a aceitação das duas naturezas nos põe na possibilidade de viver segundo os juízos de Deus.

O nosso modo de ser, física e espiritualmente, se eleva ou se abaixa, enquanto uma ou outra parte recebe tendências favoráveis às suas inclinações: umas vezes a nossa religião é um peso para a nossa carne e vezes outras dá-se o contrário; é o exercício que delicia a nossa alma; - umas vezes é a causa única que dá valor à nossa vida, vezes outras é a causa única que impede de gozarmos as delícias que a mesma nos oferece. Alteram-se, em nós, estes estados irresistíveis de ânimo quando o equilíbrio entre as nossas duas naturezas é oscilante e instável. Concluindo, a nós não é reservada nem a felicidade dos animais irracionais, nem a dos anjos, mas a própria dos homens, sendo nós superiores a uns e inferiores a outros, e destinados a ser coroados por Aquele que, participando da mesma Humanidade, está à direita de Deus-Pai. E isto basta como introdução. Vemos que o supremo paradoxo da Encarnação, o qual por si só compendia todos os fenômenos do Evangelho, é a chave de todas as demais dificuldades. Prosseguindo, veremos que ele é também a chave dos outros paradoxos da religião e das dificuldades que apresenta a história do Catolicismo, a Igreja Católica, que é a continuação e difusão da Vida de Cristo sobre a terra. A Igreja Católica, este estranho conjunto de mistérios e de lugares comuns, esta união da terra com o céu, da argila com o fogo, só pode  por isso ser compreendida por aquele que a aceita como Divina e Humana, visto não ser ela outra coisa senão a representação mística, em termos humanos, d' Aquele que, sendo Deus infinito e Eterno Criador, se mostrar em semelhança de servo; d' Aquele que, sem deixar o seio do Pai, desceu do céu para a nossa salvação.

sábado, 24 de setembro de 2016

Série Cristológica: A Personalidade de Cristo.

Segue abaixo o esquema das postagens de uma série sobre Cristologia que traduzirei dos textos de Anscar Vonier.

Minha opinião sobre o que ele escreveu? Eu já li vários textos sobre Cristologia de vários autores renomados, mas pouca coisa é do mesmo nível que encontrei nestes textos. Se o que ele fez é só um resumo da Suma, quão profundo não deve ser o que o próprio São Tomás de Aquino escreveu?


"Meu livro é um resumo pouco convencional dos principais pontos da terceira parte da Suma Teológica. Apesar disso, tenho certeza que consegui expressar o espírito deste grande santo e pensador medieval e terei obtido um enorme sucesso se as seguintes páginas criarem o desejo no leitor de ir à própria Suma." (Anscar Vonier)

1 - A Metafísica da Encarnação.
2 - O Cristo dos Evangelhos, da Teologia Cristã e da Experiência Cristã.
3 - Cristo e a ciência da religião comparada.
4 - Cristo, o Maravilhoso.
5 - Uma tentativa de definir "Personalidade".
6 - A continuação da natureza humana em Cristo.
7 - "Antes que Abração existisse, Eu Sou"
8 - Quão Divina é a natureza humana de Cristo.
9 - O Verbo se fez carne.
10 - A hipótese escolastica.
11 - "Instrumentum conjunctum Divinitatis".
12 - O Objetivo da União Hipostática.
13 - As duas vontates e duas operações em Cristo.
14 - O conhecimento de Cristo.
15 - Em Cristo.
16 - Cristo em tudo e todos.
17 - Cristo, o Forte.
18 - Mal entendidos a respeito do Evangelh.
19 - O Caráter de Cristo.
20 - O lugar de Cristo no mundo.
21 - A Ligação entre a vida mortal de Cristo e a Eucaristia.
22 - A Majestade da Presença Eucarística.
23 - O Sangue de Cristo.
24 - O otimismo da Encarnação.
25 - Cristo, o Herói.
26 - Conclusão.

A Personalidade de Cristo - (1) A Metafísica da Encarnação, ou: por que estudar Cristologia é importante?

Desde o início da vida terrena de Nosso Senhor tem-se substituído o elemento pessoal por algo puramente legal. Sua personalidade é misteriosa, e todo sucesso de Sua religião encontra-se em confiar nEle, em segui-lo e em entendê-lo, tendo como principal preceito o princípio pessoal de amor pelos outros. Em outras palavras, em vez de disciplinas legais materiais, Ele estabeleceu as grandes observâncias do coração humano, do entendimento recíproco, da ajuda mútua e do amor ao próximo. “Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo.” (Gálatas VI, 2).

É o grande trunfo de sua graça manter os homens em unidade de fé religiosa sem impor-lhes qualquer obrigação de uniformidade prática em sua ascética externa. É Ele mesmo, em Sua própria Pessoa, que é a Força unificadora do Cristianismo. Seus primeiros discípulos seguiram-no, na simplicidade de seu novo amigo, levados por seu carisma inefável. Sem dúvida orgulhavam-se de ser seguidores de tão grande rabi, embora ainda não tivessem observância externas para criar uma escola. Assim, como poderiam ser seguidores de um mestre sem jejuar, enquanto os discípulos de João e dos fariseus jejuavam frequentemente? Em outras palavras, como alguém poderia ser discípulo de outra pessoa a não ser que ele carregue em si a insígnia da maestria deste mestre no caminho da abstinência, da purificação ou da oração?

Os homens conseguem unir seus semelhantes ligando-se através de certas austeridades exteriores; nenhum homem pode ser mestre de outro de fato sem colocar no pescoço do discípulo o julgo de ferro da observância corpórea; mesmo que fosse o objetivo do novo rabi ter uma escola cuja única observância fosse acreditar, ter confiança Nele e ter amizade e amor pelos outros. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (João XIII, 35). “Jesus respondeu-lhes: "Podem porventura jejuar os convidados das núpcias, enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não lhes é -possível jejuar. Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então jejuarão.” (Marcos II, 19-20). O jejum é importante na formação de um Cristão, mas você não é um discípulo de Cristo simplesmente porque você jejua quatro vezes na semana, enquanto os discípulos de João jejuam três vezes e os Fariseus duas. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.

Na atração que leva a Cristo, bem como fidelidade a Ele, há todo o júbilo de um casamento; o apego e o companheirismo são inevitáveis, pois o banquete é formoso e jubiloso; o trabalho árduo virá após a festa, mas a lembrança deste banquete estará eternamente na memória.

A paz e a prosperidade da causa cristã residem nisso. Toda conversão e toda santidade devem estar associadas à Pessoa de Cristo e às pessoas a quem estamos ligados. A santidade pode realmente variar um pouco. Para alguns, a Pessoa de Cristo é um elemento predominante; para outros, seus pensamentos – vivos pensamentos – estão mais direcionados às pessoas que podem ver visivelmente; mas há certos indivíduos em que seus esforços espirituais são direcionados à realização escrupulosa de um sistema de observância em si mesmo, sem um propósito pessoal, e a religião Cristã está em perigo quando algum tipo de observância começa a desenvolver-se sem este elemento pessoal.

O espírito do cristianismo, apesar de sua pureza ascética, é diametralmente oposto a essa concepção material de vida ética, e os sucessos temporários que se podem obter são os arautos da catástrofe final. É privilégio exclusivo de Nosso Senhor ser Lei, ou melhor, ser uma substituição a toda lei. A princípio, ninguém gostaria disso, pois a alma humana ressente-se por estar obrigada a alguém. Entretanto, como Nosso Senhor é uma Pessoa Divina, não uma pessoa qualquer, pois é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não há justificativa para este ressentimento.

Os Fariseus ressentiam-se mais com a Pessoa de Nosso Senhor do que com Sua doutrina, pois leis abstratas ou observâncias externas nunca despertaram o ódio e a inveja, assim como nunca despertaram amor e simpatia na mesma medida em que uma pessoa pode fazê-lo.

Portanto, as grandes doutrinas teológicas acerca da Pessoa de Nosso Senhor têm uma intima ligação com Sua posição espiritual, pois Ele é uma Personalidade e sua graça não é nada mais que uma graça de amor e entendimento mútuo. Não há lucro tirado dos Evangelhos que não seja aperfeiçoamento do espírito e do coração. Alguém pode até inventar um sistema ascético achar quem submeta-se, mas nenhum homem pode fazer de sua própria personalidade a irrevogável voz da consciência e o alimento que sacia completamente o coração e a alma. Nosso Senhor é o Único que poderia fazê-lo.

Nenhum homem tem o poder de fazer das relações de outros homens que são seus seguidores a insígnia de seus verdadeiros discípulos; Nosso Senhor é o único que pode, e ninguém questiona Sua autoridade e direito para fazê-lo.  Portanto, os ensinos da teologia cristã sobre a Pessoa de Nosso Senhor devem ser de intenso interesse para cada seguidor de Cristo, e o fato dEle ser uma Pessoa Divina deveria encher-nos de imensa alegria.

A vida dos santos mostra em incontáveis almas um amor intenso e pessoal a Cristo.  Isso é fato histórico. Disso pode-se perguntar: tamanha amizade com alguém que não é deste mundo seria possível se Ele não fosse uma Personalidade Divina Viva? Em outras palavras, o amor pessoal a Cristo, tal como a história revela, é uma prova psicológica de sua realidade Divina?

Uma coisa é certa: isso não existe em nenhum outro lugar a não ser na Igreja. As personalidades das religiões não cristãs não fazem parte da consciência humana assim como Cristo o faz.

Seria um grande engano, portanto, considerar as verdades metafísicas da União Hipostática como verdades inférteis e sem aplicação prática; elas são, pelo contrário, indispensáveis para qualquer explicação racional da posição de Nosso Senhor em relação à raça humana. Há em Cristo certo tipo de multiplicidade de presença espiritual que faz dEle o amigo espiritual pessoal de milhões de almas; Ele tem um tipo de universalidade de presença e ação que não interfere de modo algum na intensa individualidade de Sua relação com cada alma. Tal é o Cristo da experiência e da história. Em sua humanidade Ele tem para todos os propósitos práticos a ilimitada característica de sua própria Divindade; Ele é, verdadeiramente, o Amigo Universal, e nenhum outro jamais conseguiu ser o amigo pessoal que todo ser humano pode ter.

Ora, um indivíduo de caráter tão universal só pode ter uma explicação: a União Hipostática, ou a Personalidade Divina, o mistério de uma natureza humana existindo através de uma Pessoa Divina. Em nossos dias mais do que em qualquer outro tempo, os pensadores temem o governo onde um só comande, por mais santo que possa ser. Para eles, não parece ser possível a um indivíduo ser tão grande a ponto de dar satisfação ao espírito de uma raça inteira.

Assim, encontramos com frequência em teólogos modernos a substituição do ideal pelo individual. Tais esforços são tudo, menos censuráveis; o fato é que nenhum indivíduo meramente humano poderia dar um completo ideal para a humanidade, ser um fator vivificante, uma ideia prática para toda a raça humana. Entretanto, estes teólogos modernos erram gravemente ao aplicar isso a Cristo. Não há, pois, a necessidade de substituir um Cristo ideal por um Cristo histórico, justamente porque o Cristo dos Evangelhos, o Cristo da Teologia Católica, possui de fato e uma Personalidade Infinita. Nele não há nenhuma limitação. Sem esta Personalidade infinita, dada as preocupações da raça humana, um Cristo ideal seria de fato preferível a um Cristo histórico pessoal.

Este é o motivo pelo qual digo que os grandes princípios metafísicos subjacentes à União Hipostática são de imensa importância prática. Com isto eu não quero dizer que aquelas almas santas façam destas grandes verdades um estudo utilitarista: elas simplesmente possuem a Cristo, e alegram-se nesta posse. Entretanto, a metafísica da Encarnação é indispensável ao filósofo que começa a lidar com a relação entre Cristo e a humanidade.

[Continua...]

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pio X e os que negam a ressurreição.

Depois de minha conversão à Igreja Católica por certo tempo eu ainda mantive uma espécie de preconceito em relação a alguns autores católicos, como o próprio Santo Tomás de Aquino. Na minha ignorância eu achava que ele tinha escrito algo bom, mas de certa forma ultrapassado e que não respondia às objeções dos céticos modernos, assim como não poderia contrapor ao que era colocado pelos estudiosos de hoje. Eu ainda estava acostumado a autores como C. S. Lewis, William Lane Craig, Peter Kreeft (que é um tomista, mas eu não sabia), além de vários outros pesquisadores de diversos temas relacionados à confiabilidade da Bíblia.

A mesma coisa em relação aos Papas e suas encíclicas. Certa vez, com uma dúvida, pedi ao meu diretor espiritual uma indicação de leitura, e o que foi indicado foi uma encíclica. Eu achei que não seria algo muito profundo e haveria somente afirmações verdadeiras, mas sem tanta força apologética para minhas pretensas e ilustríssimas questões.

Creio que só depois de uns dois ou três anos de convertido (hoje tenho cerca de 7 anos de convertido) que comecei a dar o devido valor aos autores que realmente valem a pena conhecer e dedicar a maior parte de meus estudos.

Eu tinha muito interesse em descobrir respostas mais profundas aos teólogos liberais (que até então eu só conhecia entre os protestantes) que negavam a ressurreição literal de Cristo, a sua Divindade, a inerrância das Escrituras, a possibilidade dos milagres e todo tipo de asneira. Meu interesse surgiu principalmente depois de certos debates no Orkut. Lembro-me até de um ex-seminarista que se gabava de que, ohhh, ter estudado “quatro anos num seminário” (dava até para ler com um tom majestoso e sapiencial aquela afirmação feita por um velho e sábio ex-seminarista no ápice de seus 30 anos de idade). Na minha ignorância sobre a raiz do problema, fui até um tanto ingênuo e achava que como ele havia estudado em um seminário então pôde aprender o que era correto e que, depois, abandonou a fé. Nessa época eu ainda era protestante, mas já respeitava a Igreja Católica.

Só muito tempo depois é que eu fui conhecer o que é o Modernismo (para mim era só um assunto chato de Literatura), e só aí tudo ficou claro: aquele seminarista NÃO negava as verdades fundamentais da fé católica APESAR de ter estudado num seminário, mas provavelmente POR TER JUSTAMENTE estudado num seminário modernista.

Não que eu considere todos os seminários ruins, mas este fato pode ser constatado por qualquer um que conheça seminaristas bons, que têm realmente vocação, e que passam por verdadeiros sufocos para seguirem seu caminho e serem bons padres (isso quando conseguem ser ordenados).

Mas, como eu descobri isso? Lendo a Encíclica chamada Pascendi, escrita por São Pio X. Depois da leitura dela, TUDO ficou claro. E mais: eu entendi a raiz da negação de tudo que é fundamental à fé Cristã, desde a ressurreição até as verdades elementares do cristianismo como a Virgindade Perpétua de Nossa Senhora e a Divindade de Cristo. O Modernismo não é somente o esgoto coletor de todas as heresias, ele é exatamente o oposto do Catolicismo.

Apesar de ter sido escrita há mais de 100 anos, me dei conta de que este documento é mais atual do que podem pensar.

Mas ler a Pascendi não foi suficiente para resolver algumas questões, e a resposta ficou mais completa depois que comecei a ler sobre a vida do Papa São Pio X. O que ele vivenciou, os fatos que ocorreram naquela época, o seu caráter e todos os problemas que ele precisou lidar, explicam não só a Pascendi, mas também o que estava por trás dos grupos que eram e ainda hoje devem ser combatidos.

Eu tenho a impressão de que muita gente acha que ler a vida de um santo é só conhecer curiosidades e ações bonitinhas de algumas pessoas que eram santas de tão fofas, como São Francisco, aquele criador de passarinhos, Santa Terezinha, apaixonada por rosas, e sem esquecer ainda de Santo Antônio, batendo um papo com os peixes.  Nada mais falso.



Também percebo nos gestos de algumas pessoas a mesma indiferença e, perdoem-me, burrice que eu tinha. Já indiquei a muitos a leitura da Pascendi para depois receber, simplesmente, aquela concordância complacente como a de alguém que estava esperando algum tratado de mil páginas escrito por qualquer autor que não fosse Pio X, e quando perguntamos a respeito da leitura é um infindável balançar de cabeça, opiniões vazias e elogios sem nexo. Afinal, ele certamente foi um bom Papa, mas com certeza não atenderia as questões que elas, em sua “sabedoria”, consideram como realmente cruciais. Isso quando o problema não é a vergonha ser visto pelos outros como “rad-trad”. Este é exatamente o mesmo tipo de soberba que eu tinha quando menosprezava a importância de Santo Tomás de Aquino e o que me obrigava a ficar na superficialidade. Afinal, o que o Aquinate teria a dizer sobre as questões atualmente colocadas por céticos como Bertrand Russel, Dawkins, Bart Ehrman, Dan Barker e vários outros pesquisadores iluminados da modernidade que geralmente ignoram o passado e consideram o desenvolvimento do pensamento humano como o desenvolvimento tecnológico, como um celular de hoje que é melhor que o de cinco anos atrás? Do mesmo modo, o que a vida de São Pio X ajudaria na compreensão de certos problemas do mundo moderno?

Poucos sabem, por exemplo, mas no tempo de Leão XIII a assembleia de Maçons tomou a seguinte resolução: “É dever estrito de um maçom, caso seja membro do parlamento, votar pela supressão do ‘Orçamento dos Cultos’, para a supressão da embaixada francesa no Vaticano e, em todas as ocasiões, declarar-se a favor da separação entre a Igreja e o Estado, sem abandonar o direito de o Estado policiar a Igreja”; que foi nessa época e na de São Pio X que muita coisa que se vê hoje estava sendo aplicada e que os Papas lutavam com todas as suas forças. “Destruí a Igreja na França e a descristianização virá em seguida”, é o que diziam os inimigos da Igreja. E o que aconteceu? É o que nós vemos hoje.

Mas, o que mais se vê no Facebook são pessoas comentando sobre o estado atual da Igreja, sobre o que está acontecendo com a França e dando as mais diversas “soluções” sem sequer saberem o que levou a França e os demais países da Europa ao estado em que estão.

Por isso, ler a biografia dos Santos Papas é importante, em especial a de São Pio X. Esta biografia lida com prazer pelo próprio Cardeal Merry del Val (carne e unha com São Pio X) fará com que você conheça melhor a raiz de alguns destes males.

Inédito no Brasil e nunca traduzido para o português, o livro é mais barato que a ida de muita gente a uma lanchonete num sábado qualquer. Com apenas R$ 28,00 você vai conhecer um dos Papas que entendeu o mal que nos rondava e deu-nos algumas soluções verdadeiramente católicas.

Tenho a certeza de que lendo Papa Sarto, o Papa Santo você não só saberá como foi a vida de um dos Papas mais santos da história, mas vai compreender alguns dos motivos do caos atual no qual a Europa está mergulhada e, além disso, nos ajudará a continuar com este projeto e o compromisso de publicar bons livros!


Você poderá comprá-lo aqui: http://editoraloreto.com/produto/papa-sarto-o-papa-santo-f-a-forbes/

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Os objetivos de Pio X - F. A. Forbes


***


Com uma mão firme e segura, o novo Papa traçou o programa de seu pontificado: restaurar todas as coisas em Cristo, mas não foi a primeira vez que usara aquelas palavras. Já vimos como, quando foi pároco, bispo e patriarca, elas estavam em seus pensamentos como ideal e objetivo da vida sacerdotal. Finalmente, chegara o momento em que, da cátedra de Pedro, iria mostrá-las ao mundo como remédio para todo o mal, convocando todos os filhos da Igreja para ajudarem-no nesse grande trabalho.

Não somente indicou os males que haveria de curar, mas lhes dava os meios: oração sincera, a formação de um sacerdócio erudito, zeloso e devoto, instrução religiosa tanto para adultos quanto para crianças, sábios esforços para melhorar a condição dos pobres, resolver a questão social, a caridade cristã tanto para amigos quanto para inimigos, a fidelidade aos mandamentos de Deus, o uso frequente dos Sacramentos. Desse modo, a “restauração de todas as coisas em Cristo” foi realizada.

Durante toda sua vida, Pio X foi um trabalhador infatigável, e apesar disto, aos sessenta e oito anos, continuava a ser um homem são e vigoroso. Levantava-se cedo, fazendo uma hora de meditação e recitando seu Ofício antes de rezar a Missa, que era feita, geralmente, às seis horas. O dia de trabalho era cuidadosamente organizado para que nenhum tempo fosse perdido. Organizador nato, o Papa, em breve, familiarizar-se-ia, completamente, com o trabalho de administração e de governo da Igreja, empreendendo algumas reformas severas necessárias no trabalho de diferentes congregações. Prático, pontual e exato em todas as coisas, requeria a mesma atitude dos outros. Não havia nenhuma questão do dia na qual sua rápida inteligência não se interessasse.

“Ele é um admirável ouvinte”, disse um estadista francês que teve uma audiência nos primeiros dias de seu pontificado. “Compreende rápida e completamente a questão em discussão, indo direto ao ponto, que resume em poucas e precisas palavras. Para mim, ele possui as qualidades de um verdadeiro estadista, tanto quanto Leão XIII. Ele observa em um olhar compreensivo o que é possível e o que não o é. Entretanto, o que me surpreendeu ainda mais foi sua calma e coragem inabalável. Não há nenhuma precipitação nele: ele quer ser lento para condenar, mas, quando o faz, é inflexível. Se circunstâncias difíceis surgem, ele mostrar-se-á tanto como um herói quanto como um Santo. ”.

Pio X nunca frequentou uma escola de diplomacia, mas o mesmo fim pode ser atingido por caminhos diferentes. “Um homem nascido do povo”, disse outro escritor, “que viveu entre homens trabalhadores, um estudante da Bíblia e dos Padres da Igreja, de filosofia e de teologia: um homem com rica experiência e com conhecimento a respeito dos homens e das coisas”.

Os amantes da música eclesiástica em todos os países ficaram repletos de alegria com a notícia da eleição do Cardeal Sarto ao papado, uma vez que as mudanças ocorridas em Veneza não ficaram sem ser noticiadas no mundo musical e uma necessidade de reforma era sentida universalmente.

— Podemos esperar que Sua Santidade faça no mundo o que fez em Veneza? — Perguntou um músico francês.

— Será feito e logo. Contudo, será um trabalho difícil e não o único. — Acrescentou o Papa pensativo, meditando a respeito de seu trabalho.

Leão XIII exortara, mais de uma vez, para que os fiéis estudassem a música tradicional da Igreja. Ele mesmo enviara a Veneza Dom Lorenzo Perosi para fazer a mudança da música da Capela Sistina, mas os italianos prendiam-se aos seus efeitos operísticos, tornando pouco notáveis os resultados esperados.

Em 22 de novembro de 1903, o motu próprio sobre a música sagrada ditou, definitivamente, as regras sobre o assunto. “Nada deverá ter lugar na igreja que seja indigno de uma casa de oração e da majestade de Deus”, disse o Papa. “A música sagrada contribui para a adequação e para o esplendor dos ritos eclesiásticos e, uma vez que seu principal trabalho é vestir com melodia adequada o texto litúrgico proposto para o entendimento dos fiéis, seu objetivo próprio é acrescentar a maior eficácia possível às palavras, a fim de que, por meio delas, o povo possa ser mais facilmente movido à devoção e a estar melhor disposto para os frutos da graça pertencentes à celebração dos mais santos mistérios. Ela deve ser santa, deve ser uma verdadeira arte, ser universal e, uma vez que essas qualidades são encontradas no mais alto grau no canto gregoriano, […] o tipo de composição mais ligado à Igreja […] é a forma gregoriana, a forma mais sacra e litúrgica e quanto menos harmonia houver em relação a esse supremo modelo menos merecedor será do templo”.

O motu próprio, entretanto, não excluía o uso da música moderna, desde que fosse digna de estar associada com a liturgia, mas a música teatral não era tolerada. Algumas regras foram ditadas para garantir a dignidade e a solenidade dos ofícios da igreja: cantores pagos, especialmente mulheres, não deveriam fazer parte do coro; bandas e orquestras estavam proibidas. Os bispos deveriam criar comissões de pessoas especializadas em música sacra para fazer as regras serem cumpridas. As escolas de música sacra deveriam ser estabelecidas nos seminários onde ainda não existiam, assim como nas cidades e nas paróquias rurais. A partir de sua experiência pessoal em Tombolo, Salzano, Treviso e em Mantua, Pio X sabia que tudo isso poderia ser posto em prática.

Na carta ao Cardeal Respighi, cardeal vigário de Roma, escrita poucas semanas depois, o Papa lamenta, novamente, que a beleza da tradição musical da escola clássica de Roma tenha quase desaparecido. “Pois as devotas salmodias do clero”, escreve, aludindo ao canto da Véspera, no qual o povo também se juntava, “foram substituídas por composições musicais intermináveis sobre as palavras dos salmos, todas modeladas em trabalhos com expressões excessivas e a maioria de tão pobre qualidade que não deveriam ser toleradas nem mesmo em um concerto. O canto gregoriano, assim como nos foi transmitido pelos Pais e encontra-se nos códices das várias igrejas, é nobre, sereno, fácil de aprender, além de possuir uma beleza tão fresca e cheia de surpresas que, por onde quer que tenha sido introduzido, nunca falhou em excitar um entusiasmo real nos jovens cantores”.

O motu próprio foi recebido com alegria por muitos, mas com consternação por aqueles que acreditavam que a música de ópera era uma atração para a multidão. “Logo teremos boa música na igreja”, disse Pio X a Dom Perosi. “O Papa não demorou para pôr em prática suas palavras”, disse um escritor na Revista Eclesiástica. “Deus queira que este amante do santuário e da beleza da santidade possa viver muito e consiga sua amável face suavizar aqueles corações duros que talvez ainda tragam a si mesmos para cantar por bravata, para não dizer palhaçada, com ousadia diante do Santíssimo Sacramento, com medonhos tremores e garganteios”.

Alguns corações não se abrandaram. Pio falou a verdade quando disse que, “o prazer de um gosto depravado cria hostilidade à música sacra. Por isso, não se pode negar que a música profana, de tão fácil compreensão e repleta de ritmo, é preferida em proporção direta a uma boa e verdadeira educação musical entre os que a escutam”.

Que essa reforma era necessária na Inglaterra é possível observar pela impressão de alguns ouvintes de fora a respeito da música em uso em algumas de nossas igrejas católicas. “Temos a senhorita ‘A’ cantando duetos com a senhorita ‘B’ para as palavras ‘Domine Fili Jesu Christe’ como se elas estivessem cantando ‘O que nós duas estamos fazendo no mês de maio’, ou ‘Ainda há vida no velho cavalo’, e tudo isso com um acompanhamento que envergonharia um músico de terceira. Ou, se for o caso de um coro masculino, os baixos não acertam o tom, isso sem contar os tenores afeminados […] engajados em destroçar as mais solenes palavras do Credo como se fossem cães de caça ou um grupo de ratos”.

Não que o Papa só gostasse da música clássica da Igreja e do canto gregoriano. Ele era um amante de toda boa música, seja ela sacra ou secular, mas considerava que a música de ópera, apesar de toda a beleza, era inadequada para o santuário. É possível admirar as pinturas de Watteau, sem desejar colocá-las no altar.

Em sua primeira encíclica, Pio já tinha tocado na questão da ação social católica. Entretanto, falou com mais precisão sobre o assunto em seu motu próprio de dezembro de 1903. Tendo nascido e crescido no meio do povo, podia entender completamente suas necessidades. Ele também previa os perigos de uma ação precipitada e imprudente que pudesse depender demasiadamente de um esforço popular e influente. Não era o movimento social em si que deveria ser reprimido, mas as extravagâncias de alguns reformadores com entusiasmo excessivo.

“A democracia cristã”, declarou, “deve ter sua base nos princípios da fé e da moral católica e deve estar livre de partidos políticos”. Seu grande predecessor, Leão XIII, tendo traçado, luminosamente, as regras da ação popular em sua famosa encíclica (continuada por Pio X), seu próprio desejo foi o de que aquelas regras prudentes fossem observadas completa e exatamente. Ele decidiu, portanto, colecioná-las em uma forma abreviada que pudesse ser, para todos os católicos, uma regra constante de conduta. Assim, após recordar o direito do homem em usar e possuir sua propriedade, abordou as obrigações da justiça entre patrões e empregados e a utilidade dos grêmios e dos sindicatos. A democracia cristã, sustentou, tem como principal objetivo a solução das dificuldades entre o trabalho e o capital, mas, a fim de que isso seja feito baseado nos princípios da fé e da moral católicas, não deveria ser usada com propósitos partidários, pois deve ser uma atividade beneficente para o povo, fundada na lei natural e nos preceitos do Evangelho. Escritores católicos, ao defender a causa do povo e dos pobres, deveriam abster-se de usar uma linguagem calculada a fim de inspirar má vontade entre as classes. Aqui, como em outros assuntos, a obediência às leis de Deus e da Igreja deveria ser entendida como a solução de muitas dificuldades existentes. “A piedade é útil em tudo”, disse em sua primeira encíclica, “e quando ela é completamente vigorosa, o povo estará completamente em paz”.

Em 1905, uma carta apostólica aos bispos italianos definia, com mais clareza, as linhas da ação social católica. “Tamanho é o poder da verdade e da moralidade ensinada por Jesus Cristo”, diz, “que mesmo o bem-estar material dos indivíduos, da família e da sociedade humana recebem suporte e proteção”. A civilização do mundo é a civilização cristã, mais sincera, mais verdadeira, duradoura e produtora de bons frutos, quanto mais distintamente cristã. Longe desse ideal, toda a civilização decai, com imenso prejuízo à sociedade. A Igreja tem sido guardiã e protetora da civilização cristã por todas as eras. “Quanta prosperidade e felicidade, paz e concórdia, respeito e submissão à autoridade, e quão excelentes governos seriam fundados e mantidos no mundo se o ideal perfeito da civilização cristã pudesse ser realizado. Entretanto, dada a guerra constante entre a carne e o espírito, entre as trevas e a luz, entre Satanás e Deus, tamanho bem dificilmente poderá ser esperado em sua plena medida. Entretanto, isso não é razão para perder a coragem. Assim, a Igreja vai com coragem, enquanto estende o Reino de Deus em locais em que ainda não foi pregado, e procura recuperar o que se perdeu no que fora conquistado”. Mais uma vez, os meios para alcançar o fim desejado são apontados: “Reinstaurar Jesus Cristo na família, na escola e na sociedade; reestabelecer o princípio de que a autoridade humana representa a de Deus; preocupar-se, de coração, com os interesses do povo, especialmente dos trabalhadores industriais e agrícolas, tornar as leis conformes à justiça e corrigir ou suprimir aquelas que não estão […] defender e sustentar os direitos de Deus em tudo e os não menos sagrados direitos da Igreja.”

— O que eu posso fazer pela Igreja? — Perguntou uma senhorita a Pio X em uma audiência privada.

— Ensinar o catecismo! — Foi a resposta imediata e talvez inesperada.

“É impossível”, disse o Papa, “reestabelecer as instituições que se demonstraram úteis no passado, pois os instrumentos devem ser adequados ao trabalho empregado. Deve haver unidade, cooperação no trabalho e métodos adaptados ao nosso tempo. Em todo trabalho social católico, deve haver submissão à autoridade católica. Que todos, portanto, esforcem-se para melhorar […] a condição econômica do povo, dando-lhes suporte e promovendo instituições que conduzam a esse fim […] e todos aqueles nossos filhos que se dedicam à ação católica escutem novamente as palavras que brotam espontaneamente de nosso coração. Em meio a amargas tristezas que nos rodeiam diariamente, diremos, com o apóstolo São Paulo, que, se há qualquer consolação em Cristo, se há qualquer conforto em nossa caridade […], tornai perfeita nossa alegria, e que possais permanecer unidos […] com um mesmo sentir, com humildade e devida submissão, não procurando vossas próprias conveniências, mas o bem comum, e imprimindo em vossos próprios corações os sentimentos de Jesus Cristo, Nosso Salvador. Que esse seja o começo de vossos projetos. Tudo o que fizerdes no mundo ou no trabalho, todas as coisas sejam feitas no nome do Senhor Jesus Cristo’, fazendo-O ser a finalidade de todo seu trabalho; ‘pois dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas; a Ele a glória para sempre. Amém’”.

A Bíblia foi o estudo favorito de Pio X durante toda sua vida. Em cada encíclica publicada, havia o testemunho de seu íntimo conhecimento e amor tanto ao Antigo quanto ao Novo Testamento. As palavras pelas quais ele, insistentemente, recomendava o cuidado e o amor ao estudo das Sagradas Escrituras aos padres e ao povo eram surpreendentes aos nossos irmãos separados que persistiam na crença de que a Igreja Católica proibia a leitura da Bíblia aos seus filhos. Ao receber representantes da Sociedade de São Jerônimo para a difusão das Sagradas Escrituras, o Papa falou com o maior louvor a respeito do esplêndido trabalho desta digna instituição que, em quinze meses, foi capaz de distribuir mais de 200 mil cópias dos evangelhos. Para aqueles teólogos católicos que estavam engajados nos estudos históricos e na pesquisa bíblica, sempre teve palavras de estímulo e de encorajamento. “A fé católica não tem receio do conhecimento, mas da ignorância”, era a verdade da qual ele estava mais do que convencido.

O Papa, que em sua juventude participava com entusiasmo de todos os jogos e esportes do seminário, foi um forte defensor das atividades físicas feitas pelos jovens. “Eu abençoo, com todo o meu coração, vossos jogos e divertimentos”, disse na ocasião de uma demonstração no jardim do Vaticano feita por clubes de atletismos. “Eu aprovo vossas ginásticas, ciclismos, canoas, alpinismos, corridas e todos esses passatempos que os livram da indolência, que é a mãe de todos os vícios. Uma vez que essas competições serão para vós símbolo da emulação na prática da virtude […], sejam fortes em guardar e em defender vossa fé quando muitos estão perdendo-a; sejam fortes para permanecer como filhos devotos da Igreja quando tantos estão rebelando-se […], sejam firmes em superar os obstáculos que encontrareis na prática da religião católica, para vosso mérito e para o bem de vossos irmãos”.

Aos peregrinos que convergiam de todas as partes do mundo em sua homenagem, Pio X endereçou palavras de simpatia e de encorajamento: “Abençoo a todos vós, grandes e pequenos, ricos e pobres”, disse a um grupo de camponeses da Moravia, “para que vossos bons mantenham-se bons e para que aqueles que se afastaram do caminho reto possam voltar; para que os pais eduquem bem os seus filhos e para que os filhos possam honrar os cabelos brancos de seus pais e o país em que foram nutridos”.

“Dizei aos ricos para serem generosos nos atos de caridade”, disse em outra ocasião, “e dizei aos pobres para que tenham orgulho de serem a viva representação de Cristo na Terra. Não odeiem e nem invejem os outros, mas tenham resignação e paciência”.

Sua ternura era especialmente revelada com seus provincianos. “Se eu pudesse dizer tudo o que está em meu coração”, disse um dia em uma peregrinação a Treviso, “a noite viria e eu ainda estaria falando”. Era difícil para ele acreditar que nunca veria seus queridos venezianos novamente. Andando, um dia, nos jardins do Vaticano com um amigo, ele ouviu distante um agudo assobio. “Escuta!”, disse triste, “talvez seja o trem para Veneza!” Embora amasse muito a sua família, nunca passou em sua cabeça, nem na deles, as vantagens de que poderiam tirar proveito por meio de sua posição. “Graças a Deus, somos capazes de manter-nos”, disse uma de suas irmãs pouco depois de sua eleição, “e não precisamos pedir-lhe nada. Nosso pobre”, acrescentaram com compaixão, “terá de pensar agora em todos os pobres do mundo”. Eles tinham um lugar reservado na capela privada do Papa nos dias de gala em São Pedro, sendo esses os seus únicos privilégios e tudo o que queriam.

Se dizia do novo Papa que sua expressão usual era de avassaladora tristeza e, para aqueles que somente viam-no em público, poderia parecer verdade. Seu espirito humilde odiava a pompa e a exibição e o fardo de sua estrondosa responsabilidade pesava em sua alma. Quando era sustentado nas multidões por meio da sedia gestatória, parecia mais ainda consciente do peso da cruz que seu divino Mestre carregou. “Sua face entre a cena de triunfo expressava quão vã é a glória terrena. Ele sempre tinha o olhar de pesar pelos pecados e pelas dores da humanidade: olhar próprio do vigário d’Aquele que dizemos ser o Homem de Dores”, escreveu Wilfrid Ward. Nas festas de São Pedro, ele proibiu os aplausos costumeiros nos serviços papais. “Não convém que o servo seja aplaudido na casa de seu Senhor”, disse severamente quando deu a ordem. Assim, passava em silêncio no meio de seu povo, mas num silêncio tenso e estremecedor, com uma emoção que poderia, ocasionalmente, ser expressa, apesar de toda tentativa em restringi-la.

Aqueles, entretanto, que o conheciam intimamente tinham outra opinião a respeito dele. Seu antigo modo genial e alegre de ser, embora ofuscado no início de seu pontificado, não estava completamente morto. Ele possuía o dom de fazer-se tudo para todos, pois podia ser alegre e divertido com os jovens e maravilhosamente terno e gentil para com os tristes e sofredores: “ele tinha o maior coração que existia naquela época”, disse alguém que o conhecia bem.

sábado, 2 de julho de 2016

Imperdível! Conheça o livro "Papa Sarto, o Papa Santo".



Finalmente, depois de alguns pequenos ajustes, site ficou completamente pronto.

Como bem desejava São Pio X, temos que trabalhar para restaurar todas as coisas em Cristo. Espero que este modesto livro, feito com muito esforço e com as imperfeições que fazem parte de qualquer trabalho que se inicia, seja útil, fazendo-os amar a Igreja, os santos e, principalmente, a Deus. Se pelo menos uma pessoa resolver melhorar a própria vida seguindo o exemplo deste imitador de Cristo, nosso trabalho terá valido a pena.

Divulguem aos seus amigos, católicos ou não, e comprem para podermos publicar outras obras! http://editoraloreto.com/

Conheça também nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/editoraloreto

terça-feira, 19 de abril de 2016

Imperdível: Escapulários Artesanais!


Os escapulários são feitos de lã natural e os tamanhos (além de outras possíveis características) podem ser acertados através do e-mail que está na foto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

SEDE HOMENS!

Note o que ele já fala daquela época!

***

* Estas linhas foram escritas a pedido dos jovens bacharéis para o elegante álbum que mandaram imprimir, comemorativo de sua formatura.

SEDE HOMENS!


Perdoai-me. Mas começo esta minha singela oração – se oração se pode chamar – pecando contra a modéstia que aconselham os preceitos da retórica, se bem que não me pareça pecar contra a modéstia que nos aconselha a ascese cristã. É que, senhores, começo falando de mim mesmo, falando até de um fato íntimo de família: não mo leveis a mal.

Quando fui levado à pia batismal, meu pai, profundamente cristão, querendo, sem dúvida, manifestar a Deus N. S. a sua gratidão por ver aumentada a descendência, e querendo, também, atrair sobre ela as bênçãos do alto, fez o voto de que, para o novo filho, ele havia de escolher um padrinho, não entre seus amigos e conhecidos, pessoas, talvez, de nome, talvez de posição, mas, sim, entre pessoas humildes do povo, um pobre qualquer que a divina Providência lhe deparasse. Chegou, assim, o dia do batismo e fomos à igreja sem padrinho. E foi ali, do meio da turba dos pobrezinhos que recebiam o pão da esmola – era uma terça-feira dedicada a Santo Antônio – que meu pai escolheu aquele de quem fiquei sendo afilhado. Era um homem pobre, de cor até, mas um homem honesto.

Este belo gesto de meu pai – por que não o louvar? – me veio à mente, em toda a grandeza da sua significação, quando, semanas atrás, recebi, lá em Petrópolis, cheio de admiração, o vosso honroso convite, senhores bacharéis, para vir ser seu vosso paraninfo, o vosso padrinho nesta solenidade, em que, qual outro batismo, recebeis a túnica branca, a toga viril, com a qual entrais, jubilosos, na efebia da vossa existência. Sim, distintos jovens, quisestes externar a Deus n. S. a vossa gratidão pelos muitos benefícios recebidos neste primeiro percurso da vossa vida que hoje terminais; quisestes, de certo, atrair as bênçãos do alto sobre a nova fase da vossa existência que iniciais agora e, por isso, este gesto, aliás incompreensível, de, deixando de escolher o vosso paraninfo de entre todos conterrâneos vossos, filhos ilustres deste glorioso Estado, ricos pelos seus merecimentos, ricos pelas suas virtudes, ricos pelo seu saber de posição, fostes buscar, lá ao longe, um pobre de saber, um pobre de virtudes, um pobre sem nome algum, um mendigo de Cristo, um pobre filho do poverelo de Assim.

Gestos assim, tão cheios de nobreza, tão cheios de elevação e generosidade, só os pode ter ou a crença sincera – como meu pai – ou a juventude não corrompida, a juventude radiosa – como vós.

Meus parabéns, queridos afilhados. E nesse vosso gesto eu vejo, esperançoso, uma garantia para a vossa vida futura.

É que entrais nela, não deslumbrados pela grandeza das exterioridades, mas, selando este dia da vossa vitória e do vosso triunfo, com a nota simpática da renúncia, da modéstia e da humildade. Parabéns!

Eis por que, sem vacilar, aceitei o vosso convite que tanto me desvanece: não quisera privar-vos de tão grande merecimento.

E deixai-me que continue na mesma analogia. Assim como eu me contentava com os presentinhos humildes de meu padrinho, feitos por suas próprias mãos, na oficina do seu trabalho, de certo vos contentareis também com o humilde presente que vos trago, feito por minhas próprias mãos, na minha pobre cela, tenda também do meu labutar cotidiano. Eu me contentava, sim, com a insignificâncias daquelas dádivas, porque as via feitas com sinceridade, com boa vontade, com amor. Oh! Isso, meus afilhados caríssimos, deveis, por força, reconhecer também na pequenez do meu presente: a boa vontade, a sinceridade, o amor, com que vo-lo dou. Recebei, pois, guardai nas vossas almas boas, o presente que da minh’alma sai, o desejo grande, o desejo imenso, o desejo infinito, quase, que sinto de concorrer para a vossa verdadeira felicidade, desejo vazado na singeleza desta oração, que é vossa, porque meditada para vós, para vós escrita, em horas que para vós roubei dos meus outros não poucos trabalhos.

E para que este desejo se converta em esplêndida realidade, eis um conselho – pois, sem dúvida, esperais um conselho do vosso paraninfo – eis um conselho, um só, para que o graveis, profundamente, nas vossas almas moças, e nelas possais medir, com coragem e ânimo, as suas exigências fortes e suaves, e, para que não haja desfalecimentos, as suas conseqüências e seus frutos ubérrimos também.

Afilhados da minh’alma, ouvi-me:

SEDE HOMENS!

***

Quando o jovem romano deixava solenemente a toga pretesta, orlada de púrpura, e envergava – cheio de si – a veste inteiramente cândida, a toga viril – que hoje recebeis – dizia-se, então: é homem!

Não serei eu, vosso paraninfo, paraninfo sincero, quem fomente a vossa possível vaidade, própria dos vossos anos, dizendo-vos: sois homens!

Não, queridos afilhados, perdoai-me, não sois homens ainda. Hoje é que começais a tornar-vos homens.

É verdade, o trabalho da vossa educação propriamente dita hoje se conclui. A educação que recebestes, quer na tranqüilidade suavíssima do lar, de uma mãe extremosa, de um pai vigilante, quer no convívio mais agitado do ginásio, dos vossos superiores e mestres capacíssimos, recebe, neste momento, a sua coroa.

Permiti-me, por isso, um parêntesis: Pais e mães que me ouvis – e que aos ausentes chegue a minha voz – superiores e mestres, receei os meus parabéns por este vosso trabalho importantíssimo que hoje findais. Recebei também os meus agradecimentos, pois à educação forte e suave que soubestes dar aos vossos folhos e discípulos é que devo esta brilhante turma de afilhados, que é, hoje, o meu orgulho.

E continuemos. Mas começa agora – digo começa, não porque só agora deva ter o seu início, mas, porque, isolada, vem mais à luz a sua importância – começa, agora, repito, outra educação muito mais valiosa, porque só de vós depende, a educação que vós deveis dar a vós mesmos. Sim, é esta auto-educação, da qual, infelizmente, se fala tão pouco à mocidade que entra na vida, que vos levará, afilhados queridos, à plenitude da virilidade.

E eu tremo! Não mo leveis a mal, meus afilhados, é um sinal de que vos quero bem. Eu tremo! Pois em que meio há de se realizar essa auto-educação? Eu tremo. Perdoai-me a minha fraqueza, se fraqueza é. Pois eu tremo, como treme o agricultor, que transplanta do viveiro recatado para o campo aberto o jovem cedro, que ficará ali exposto a chuvas demasiadas, capazes de lhe apodrecer as raízes; exposto aos raios inclementes do sol, que o podem ressecar; exposto à violência dos vendavais, que o podem abater. Entretanto o agricultor sabe a riqueza de seiva que se esconde no cedrozinho; sabe que ali está, em potência, um cedro gigantesco que pode afrontar, vitorioso, uma existência de séculos, e abrigar, sob sua opulenta fronte, gerações e gerações de homens.

Eu também sei, afilhados meus amigos, que riqueza de seiva forte, de seiva vigorosa em vós se oculta. Eu também sei que em vós existe latente o homem completo, capaz de afrontar, vitorioso, os vendavais da vida, capaz de abrigar sob a ramaria de seus préstimos e de suas realizações, boas porções da humanidade.

Eu sei tudo isso, e, entretanto, eu tremo, porque sei também que, jovens cedros, sois transplantados para o campo aberto da vida, nas grandes cidades, com os seus perigos e seduções; nas academias, cujo ambiente, em geral, não será favorável ao vosso desenvolvimento. Pois ali encontrareis – por que não o dizer e o dizer francamente? – ao lado de muito mestre competente, de muito mestre digno, de muito mestre mestre, o mestre mercenário, o mestre indigno, o mestre satã, cujo maior prazer será roubar ou perturbar, ao menos, a vossa fé; destruir ou abalar, ao menos, os vossos princípios sobre a moral, sobre a justiça, sobre a liberdade, sobre a família, e que, em troca, com um riso diabólico de uma vitória fácil e inglória, vos entregará ao vosso próprio e deplorável atrofiamento. E como se não bastasse, encontrareis ainda no campo aberto onde deveis medrar e crescer – salvo honrosas exceções, que, seja dito a bem a verdade, são cada vez mais numerosas – a turba multa de colegas sem escrúpulos que vos hão de empurrar, se não pela estrada larga da perdição completa, ao menos pela estrada batida e, por isso, estéril, em que se anda uma vida fôrra de qualquer obrigação, fôrra de qualquer responsabilidade, como se esta existência fosse uma pândega perene.

Encontrareis ainda o perigo dos livros que a vossa opinião, já então abalada da liberdade, vos dará licença de os ler todos; assim como o louco que julgasse ter liberdade de examinar, por própria experiência, numa drogaria, todas as poções, para ver quais as salutares, quais as venenosas. Encontrareis o cinema e o teatro modernos, na sua missão corruptora. Eis o campo aberto em que deveis medrar e crescer. E eu tremo!

É preciso que um sol benéfico, que um sol amigo ilumine o vosso transplantio e então vós, queridos afilhados, hoje, jovens cedros, sereis amanhã os cedros gigantescos, os homens completos que eu em vós desejo ver.

E este sol amigo, este sol desenvolvedor de energias, realizador de esperanças, é o IDEAL que deve iluminar a vossa vida.

Levantai a vossa fronte, na qual se vê estampada a grandeza da vossa raça, a grandeza dos vossos destinos; levantai-a para um ideal digno de vós, e haveis de vencer, haveis de vos desenvolver, haveis de vos tornar homens completos que eu para vós sonho, afilhados da minh’alma.

“Uma mocidade sem ideal é uma mocidade morta”, já escreveu alguém. Sede idealistas, no sentido sadio da palavra. “O ideal – o pensamento é de um escritor castelhano – é uma terra de promissão, com que se sonha através do deserto da vida. Como o sol, ele ilumina os nossos passos e infunde, com seu fogo, calor à existência. O homem sem ideal é um autômato, que se move e fala no cenário da vida, mas sem alma. O ideal pode às vezes enganar, mas estimula sempre. A apatia não corre risco de fracasso, por ser uma árvore sem frutos. Mas Jesus, ao se lhe deparar uma figueira sem figos, amaldiçoou-a. O homem sem ideal é também uma planta estéril. Quem corre atrás de um ideal há de lutar a cada passo, porém a luta é sinal de vida. A indiferença, inimiga de qualquer cometimento, sempre diz: Basta! O ideal, móvel de todo o progresso, sempre diz: Avante! E, por isso, a ciência é o ideal que engendra os sábios; a beleza, o ideal que faz surgir os artistas; a pátria, o ideal que forja os heróis; a religião, o ideal que inspira os Santos”. E o grande Pasteur dizia: “Feliz o homem que, tendo um ideal, consegue dedicar-se-lhe inteiramente”.

Saí, meus amigos, para o deserto da vida, guiados pela coluna luminosa de um ideal, ela vos há de guiar, com segurança, à Canaã suspirada da vossa felicidade.

E o vosso ideal, já vo-lo disse, é serdes homens. Ideal amplo, não há dúvida, que abrange em si todas as vossas nobres possibilidades, todas as vossas aspirações dignificantes.

Sede homens!

***

E se não levais a mal que eu analise convosco este ideal sublime que é, por assim dizer, o fim mesmo da nossa missão cá na terra, eu vos direi:

SEDE HOMENS DE CORAÇÃO!  - Homens que não conhecem somente a força, a dureza, o despotismo, mas que sabem exercer a brandura, a amabilidade, o amor, contudo sem sentimentalismo. Oh! se os homens experimentassem a força prodigiosa que se esconde na, assim chamada, fraqueza de coração! Quão diversas seriam as relações da sociedade. Educai o vosso coração! Não permitais que a brutalidade lhe abafe as vozes e as exigências. Sabei, sempre, amar com ternura, com carinho, vossos pais, irmãos, e todos os que vos rodeiam. Não vos envergonheis nunca de acariciar a criancinha, o pobre, de estender a mão ao mendigo; e, se preciso for, de abraçar o vosso empregado, o vosso operário. A isto não se chama descer, mas subir. Sede o esteio da fraqueza da mulher, o bastão da velhice. Amais os homens como irmãos, segundo o preceito de Cristo, e passai por este mundo, semeando o bem. Educai o vosso coração, ou, melhor, não sofrais que ele se perverta, pois eu sei que ele é bom. Interessai-vos pelas classes pobres, pelas classes que trabalham. Tratai-as, desde já, com simpatia, com amor, para que elas não procurem, revoltadas, fazer justiça pelas suas próprias mãos. Diversidade de classes, havê-la-á sempre, mas o que não é preciso haver é esta inimizade e ódio que as separam. Afilhados meus, talvez não avaliais bastante a importância deste conselho, entretanto, se houvesse mais homens de influência que fossem homens de coração, estariam resolvidos muitos dos problemas sociais que preocupam os que pensam. Lembrai-vos de um Ozanam, revolucionando pelo seu grande coração, cheio de caridade, os meios universitários de Paris.

Mas o vosso dever sobretudo, afilhados caríssimos, SEDE HOMENS DO DEVER! Por ele sacrificai as vossas comodidades, os vossos interesses, o vosso egoísmo. Para ele educai-vos com generosidade. O cumprimento do dever perpasse como um fio de aço que não conhece ruptura, por toda a vossa existência, quer estejais sós, quer na família, quer na sociedade. O dever que custa, que mortifica, que aborrece, que martiriza e que mata até, deveis abraçá-lo sem hesitação. Nunca, meus amigos, brincar com o dever. Oxalá ressoe sempre, aos vossos ouvidos, no momento da dificuldade, a voz providencial de um outro Barroso: “A família, a pátria, Deus n. S., esperam que cada um cumpra o seu dever!” A obediência a esta voz nos levará, com certeza, a um outro Riachuelo humilde,  desconhecido, como o afluente do Paraná – pois é o dever que mais custa o que por ninguém é observado – onde alcançareis a ivtória gloriosa. Oxalá nunca transijais com este imperativo das vossas consciências bem formadas, para que, na hora suprema, possais exclamar em verdade como o heróis de Trafalgar: “Louvado seja Deus! Cumpri sempre o meu dever!”.

Em última análise, meus amigos, é a voz da consciência que toma partido pelo dever. Mesmo quando por ignorância ou fraqueza ela se cala e somos admoestados pela voz de um superior ou de um amigo, é a consciência ainda que nos diz da legitimidade desta admoestação. Pois bem, a voz da consciência pode soar em vão, por poderosa que seja, quando falta ao homem uma vontade enérgica, decidida. Eis por que vos digo: SEDE HOMENS DE VONTADE! Sede homens de energia! Com ela, sereis um forte, um onipotente quase! Educai a vossa vontade, este presente régio com que Deus vos enriqueceu liberalmente. Fortificai-a cada vez mais: ela será capaz de milagres. Que não conseguiam os grandes homens à força de uma vontade férrea? Um Francisco de Sales de temperamento colérico que, pela energia em se vencer e dominar, chega a parecer o homem mais pacato do mundo. Um Elihu Burrit, aprendiz de ferreiro, que, aos 16 anos, resolveu realizar um milagre de força de vontade, consagrando ao estudo das línguas todo o minuto livre que lhe dava a forja ou a bigorna. E, assim, conseguiu aprender 18 línguas e mais de 30 dialetos. – Não foi a força de vontade que transformou Abraam Lincoln de carpinteiro e moleiro, que fora, até aos 20 anos, no grande presidente que pacificou o país e libertou do jugo da escravidão mais de 4 milhões de homens? Lede a vida do nosso grande Mauá; é uma escola de vontade, de energia. Abri o hagiológio cristão: cada página vos prega energia, cada página vos prega força de vontade.

E vendo-vos, cheios de vontade decidida e enérgica, necessário é que eu ponha em movimento esse moinho maravilhoso e vos diga também: SEDE HOMENS DE AÇÃO.

Ação! Ação! Eis o grito moderno levado até ao exagero pela filosofia de Nietzsche, em contraposição ao nirvana do pessimismo de Shopenhauer. Ação! Ação! Trabalho, atividade, também vos digo eu, meus afilhados, mas no sentido razoável da palavra. “Já é hora de surgir do sono” exclamar-vos-ei com São Paulo, principalmente hoje, quando todas as potências do mal estão em plena atividade, procurando subverter os últimos fundamentos da sociedade bem formada. Trabalhai em todas as modalidades possíveis do bem.

Não digamos com o budista “que todo o mal vem da ação”; digamos, antes, que todo o mal vem da indolência, da inércia, e acrescentemos com Cristo: “Meu Pai celeste sempre opera e eu não cesso de operar!”

O poeta árabe Imuru, querendo ouvir a pinião do ídolo Tebala, sobre certo empreendimento, tirou, diante dele, três vezes, a sorte, mas por três vezes ouviu a resposta: nada faças, descansa! – indignado o poeta, que se lhe aconselhasse a inércia quando ele queria operar, segurou os dados e os arremessou brutalmente na cara do ídolo. Não há perigo, meus afilhados, de que os nossos deuses aconselhem a indolência, quando tudo nos clama pela ação. Aí está a ação católica – para falar de uma só modalidade – alastrando-se por todo o mundo, já com frutos prometedores. Fazei vossas as palavras daquele admirável aviador francês J. D’Armoux, cuja vida é um exemplo para a mocidade moderna: “quero – escrevia ele, paralítico em uma cama – dois ritmos na vida: a suprema intensidade no trabalho e o ardor contínuo, mas sereno, a todas as horas do dia.” Fazei vossa a oração deste jovem herói: “Meu Deus, dai-me horror aos minutos perdidos!”

Mas para que a vossa atividade, a vossa ação sejam proveitosas, devo dizer-vos também:

SEDE HOMENS DE CONCENTRAÇÃO. – Sem a concentração e a reflexão que lhe é afim, o vosso trabalho seria prejuízo, e vós dispersaríeis forças de vossa alma que, unidas, operam maravilhas. Sede homens de concentração, homens de pensamento, nesta época dissipada, superficial e frívola em que vivemos. Esta concentração dos antigos resumiam naquela frase concisa: Age quod agis – Faze bem e inteiramente o que estás fazendo. E com esta consideração é que compreendemos como na idade média, apesar de faltarem todos estes meios sem número que auxiliam os que se dedicam à atividade intelectual nos nossos dias, havia, contudo, homens da envergadura de um Alberto Magno, de um Boaventura, de um Aquino, espíritos gigantes, cujo saber provoca admiração até dos sábios modernos. É que – como escreve Krier – o silêncio, a solidão, a união com Deus e uma vida ilibada davam-lhes ao espírito forças e asas para se levantarem dos seus manuais, poucos e deficientes, às regiões elevadas do saber. – Quem está concentrado, reflete. E Rui Barbosa dizia que o estudo é útil, somente, quando, pela reflexão, se assimila a matéria, quando ela se transforma em propriedade nossa. – Fazei como Balmes, o grande filósofo espanhol, que, durante o estudo, envolvia sua cabeça na ampla capa e, assim velado, ficava largos intervalos, a meditar sobre o que lera. Depois descobria-se e, como de um outro mundo de idéias, voltava para a atividade da vida. Meus afilhados, sede homens de pensamento, homens de concentração – em qualquer carreira que seguirdes – e vereis que de revelações, que de forças novas haveis de perceber nas vossas almas, e como vos sentireis com animo de vos aproveitar delas.

E mostrando-vos um ideal tão elevado do homem completo, nem me sinto com a coragem de vos chamar a atenção para uma faceta desta integridade a que aspirais.

Não, não vos direi – por me parecer desnecessário – que deveis ser HOMENS DE MORAL IRREPREENSÍVEL. Não vos direis que deveis detestar o vício que mata a felicidade, dando em troca um gozo baixo e passageiro. Não vos direi que deveis detestar o vício que destrói a energia, degrada a virilidade e a robustez do homem, e, por conseguinte, das nações. Não vo-lo direi – porque já o sabeis – que é justamente neste ponto que se mostra o verdadeiro homem, o homem de energia, que tem força para vencer as suas paixões e apetites inconfessáveis.

Sabeis muito bem – não é necessário que eu vo-lo lembre – que pertenceis ao sexto forte, e que deveis mostrar a vossa força respeitando o fraco.

O homem que se dix do sexo forte, mas que se deixa escravizar pelas seduções – quando criminosas – do sexo fraco, a que sexo pertencerá?!

Cercai de veneração a mulher, caros afilhados, para que um dia possais encontrar uma mulher digna de vós. Lembrai-vos de que tendes uma irmã, uma mãe, para as quais exigis, com razão, o respeito dos outros. E se não puderdes cercar de respeito a toda e qualquer mulher, cercai-a, ao menos, de compaixão. Não vos esqueçais do protótipo da mulher, a Imaculada, sob cujo manto fostes educados. Com estes princípios firmes, sereis vós colunas inabaláveis da nossa querida família brasileira, que na hora presente ameaça ruir.

E hoje se fala tanto em patriotismo, que pareceria uma falta, se eu não vos dissesse também:

SEDE HOMENS DA PÁTRIA! – Sim, caros afilhados, sede brasileiros e sereis lídimos patriotas, patriotas, daqueles que servem a pátria e não daqueles – infelizmente legiões – que são por elas servidos; patriotas dos que enriquecem a pátria e não dos que, às multidões, são enriquecidos por ela. Sede patriotas dos que sabem defender os interesses da pátria e não dos que, sob o manto do patriotismo, defendem os próprios interesses. Sacrificai-vos pela pátria, mas não sofrais que ela seja por vós sacrificada.

Sede patriotas! Mas o patriotismo, em vossa idade, consiste, como já disse d. Aquino Correia, principalmente em valorizardes a porção do Brasil que sois vós mesmos. Sabei ser brasileiros, sabei ser grandes, para que não desmereçais a grandeza do Brasil.

***

E eu, no meu justo desvanecimento de padrinho que vos ama, já me transporto ao futuro, onde vos vejo – engenheiros, médicos, advogados, militares e que sei mais? – cumprindo galhardamente, como homens completos, a vossa missão.

Mas, não vos comparei ao cedro? E o cedro secular e o cedro gigantesco não conhece, enfim, o seu declínio? Falta-lhe seiva, falta-lhe força e, um dia, o gigante tomba na estrada, ficando apenas o atestado de uma grandeza que passou. Será este o vosso destino? Oh! não – exclamareis com o poeta pagão, na consciência da vossa grandeza – “non omnis moriar!” eu não morrerei inteiramente. Emudecerá a minha vós, meus ouvidos fechar-se-ão, meus olhos deixarão de brilhar, minhas mãos se tornarão intertes, meu coração já não pulsará e eu tombarei sobre a estrada da vida. Contudo, non omnis moriar! Não morrerei inteiramente! Alguma coisa que em mim pensa, que em mim reflete, que em mim quer, que em mim sente, que em mim odeia, que em mim ama, há de se desprender de mim e, alçando o vôo, voltar para a sua origem divina donde saiu.

É por isso que eu vos digo, afilhados meus, em último lugar: SEDE HOMENS DE FÉ! De fé luminosa, de fé esclarecida, de fé racional, de fé operosa. Vivei esta fé integralmente – sem desânimo, sem respeito humano – na vossa vida particular, na vossa vida pública. Eu quisera neste instante (e é a primeira vez que me vem este desejo) despir, por momentos, este meu hábito que tanto me orgulho, para não parecer sermão este meu conselho. Falo-vos como homem que raciocina, que reflete.

Deus é a maior realidade, diante da qual não se pode passar indiferente, dizia há pouco, diante da assembléia ilustre, o nosso ilustre  amigo Tristão de Ataíde, o grande apóstolo leigo da nossa terra. Para com este Deus, quer queiramos, quer não, nós temos as nossas obrigações, das quais devemos prestar contas, um dia. Procurar conhecê-las e realizá-las, eis a tarefa do homem. Que só o pode elevar e enobrecer. Não vos esqueçais – gravai profundamente nas vossas almas grandes – que a religião é, em primeiro lugar, uma exigência da razão e não do coração, como, com desprezo, se diz. Tirai daí as conseqüências.

Afilhados da minh’alma. Afilhados que eu estimo, que eu desejo inteiramente felizes, quando a luz da ciência, a luz da amizade, a luz da glória, a luz da fama, a luz do prazer começarem a perder o brilho diante do vosso olhar baço, oh, então brilhe mais radiosa ainda a luz da vossa fé, conservada e vivida generosamente, durante toda a vossa vida, iluminando naquele momento supremo a senda da felicidade eterna.

Sem esta fé, podereis, talvez, ser grandes homens, mas de uma grandeza perecedora; nunca, porém, homens completos, cuja grandeza não pode perecer.

***

E se quereis, por fim, o vosso modelo, o vosso guia, eu repetirei a frase lapidar e inspirada do governador romano Pôncio Pilatos, frase cujo sentido profundo ele mesmo, no seu apoucamento, não podia compreender:

ECCE HOMO! – Eis o Homem por excelência, o Homem perfeito, o protótipo de todo homem: Jesus Cristo, nosso Senhor! O Homem de coração divino; o Homem do dever e da vontade até ao sacrifício supremo; o Homem que realizou o maior trabalho neste mundo, reformando-o; o Homem de pensamento criador de maravilhas; o Homem, contra cuja vida pura nunca puderam dizer coisa alguma os seus próprios inimigos; o Homem que soube, sem alardes, amar a sua pátria, que soube amar a Deus n. S., seu Pai. – ECCE HOMO! Eis o Homem! – Segui-o, afilhados meus, e atingireis a idade do homem perfeito, do homem completo de que fala o grande apóstolo São Paulo.

***

E termino, como comecei.

Quando eu recebia os presentes pobres de meu padrinho pobre – um carrinho de madeira, um cavalinho de pau, um banco, ou qualquer outra bagatela – ficava esquecido, horas inteiras, a brincar com eles, a examiná-los, tirando dali proveito para minha idade infantil.

Meus afilhados, eu não me iludo: o presente que vos dou – esta minha pobre oração – é bem humilde e modesto. É um presente pobre de um padrinho pobre.

Mas não vos esqueçais do amor e da sinceridade com que vo-lo dou. Por isso mais tarde, nas horas de lazer, em meio de vossa vida agitada de acadêmicos, tomais nas vossas mãos – assim como eu fazia em pequeno – o presente do vosso padrinho, que é um pedaço do seu coração, examinai-o e, talvez, com a experiência que então vos tiver dado a vida e com a vossa boa vontade, achareis nele algum estimulo que ajudar vos possa a conseguir, sem desfalecimentos, o vosso sublime ideal.

E, então – é de novo o meu justo orgulho de paraninfo que fala (pois a minha missão não termina com estas palavras, antes começa: levarei os vossos nomes, um por um, no breviário de minhas orações, onde, cotidianamente, vos recomendarei a Deus n. S., seguindo, com interesse todos os passos, lutas e triunfos da vossa vida) – e, então, repito, quando novos Diógenes, de lanterna em mão, procurarem pelo Brasil a fora, homens, homens completos dos quais a família, a pátria e a religião precisam, 37, com toda a certeza – a minha confiança e esperança em vós mo dizem – ao menos 37 homens completos, da nova geração, se hão de encontrar, que sois vós, distintos bacharéis de 1932, do Ginásio de Santo Antônio, de S. João Del-Rei, vós, minha alegria, vós, meu orgulho, vós, minha coroa.

Afilhados da minh’alma, ouvi-me:

SEDE HOMENS!

Meus afilhados

Exigis do padrinho pobre, que tanta coisa já vos disse no dia do vosso batismo glorioso, algumas linhas ainda, algum pensamento, algum conselho para vosso “Álbum”. Não posso dizer que não a afilhados que tanto estimo e dos quais me orgulho tanto.

Mas que conselho vos darei ainda?

Pois bem, afilhados meus amigos – é quase um corolário de tudo o que vos disse – conservai sempre a vossa liberdade. Longe de vós qualquer escravidão que avilta o homem que o degrada sempre.

Mas, entendei bem – eu vo-lo peço – em que consiste a liberdade verdadeira.

Nunca a confundais com a liberdade – se liberdade se pode chamar – que gozam as feras nas florestas ou os loucos pelas estradas.

Sede livres, mas da liberdade que gozam os verdadeiros filhos de Deus, que não são escravos da carne nem do orgulho, que não são escravos da ira ou da indolência, que não são escravos da adulação, que não são escravos do dinheiro, nem de um partido, nem do respeito humano, mas que só se submetem, e livremente, à razão, à autoridade, a Deus n. S., certos de que é essa tríplice sujeição que lhes dará a verdadeira liberdade que eleva o homem e que o dignifica também.

Sede livres, afilhados de minh’alma, para que possais voar, como a águia, às alturas maravilhosas da felicidade, que eu tão deveras vos desejo.

Mas se algum dia, desgraçadamente – o que não espero, nem posso imaginar – algum de vós, por fraqueza ou por descuido, cair num aduar de modernos muros, ficai sabendo todos que o vosso padrinho, como aqueles frades brancos das Mercês, não poupará canseiras, nem orações, nem sacrifícios, nem a própria vida, para comprar ao cativo a sua carta de alforria.

Crede, queridos afilhados, na amizade sincera de vosso padrinho.

Frei Henrique G. Trindade, O. F. M.
Petrópolis, 28/11/1932.