sexta-feira, 21 de julho de 2017

O Ídolo Contemporâneo - Parte II

Por
Rev. Padre Jacques-Marie-Louis Monsabré

Diz-se aí, senhores, que as palavras Deus, Providência e Imortalidade são velhas e intoleráveis; nada mais verdadeiro. O ídolo contemporâneo, submetido à pressão das ideias e dos atos que por um lado nos representam a Deus, e por outro lado a alma humana, cai por terra, quebra-se, esmigalha-se, e protesta contra as temerárias pretensões dos seus fabricadores. Antes de vos dar os pormenores desta consoladora catástrofe, não vos impressionou, como a mim, este fato singular, a saber: que temos a ideia precisa de seres, essencialmente diferentes da matéria, a ideia de forças superiores à matéria? Seja qual for a origem desta ideia, como a poderíamos alcançar, se nada existiu e nada existe além da natureza? É-me absolutamente impossível admitir, que um ser possa nunca formar ideia do que não existe, ideia que, na hipótese de se formar, deveria por fim ser rejeitada quando a inteligência fosse esclarecida pela verdade. E, pois, que nos dizem que somos o ludibrio de uma ilusão, afirmo que a ilusão é improdutível, e que é absolutamente impossível que possamos formar ideia de coisas, cujos elementos não existiram, não existem, não existirão nunca. Estudai as quimeras que o espírito humano concebe, e vereis que se compõem de elementos realmente existentes na natureza: mas na hipótese de que a matéria é o único ser atual e possível, como poderia eu conceber as quimeras, Deus e a alma, se a essência que lhes atribuo está fora de tudo que existe ou pode existir? Não sei, senhores, se vos apresento bem esta dificuldade que o senso comum desde logo opõe ao materialismo; mas eu vejo-a, compreendo-a, e sinto que dissipa completamente do meu espírito todas as dúvidas. Analisemo-la, porém, e deste modo compreendereis melhor a sua força. Deus representa para nós o necessário, o infinito, a suprema perfeição, o motor de todos os mundos, o ordenador inteligente de todos os mundos, o Criador e Senhor da nossa vida. Se Deus não existe, é absolutamente necessário que a matéria corresponda a todas estas ideias, porque é impossível suprimi-las sem dar um desmentido ao espírito humano e sem cair no mais espantoso caos. Não é este o intento dos fabricadores e dos pontífices do grande ídolo; sentem, já vo-lo disse, a fatalidade que atribui à matéria tudo o que se nega a Deus. Logo, a matéria deve ser necessária, infinita, a perfeição suprema, a onipotência inteligente. O peso destas perfeições esmaga e aniquila a matéria. Como seria necessário o ser tantas vezes divisível e diviso, suscetível de aumento e diminuição, incessantemente mutável, o ser que posso imaginar como não existindo, ou existindo de um modo diferente, aumentar, diminuir, mudar, consoante apraz ao meu pensamento? Dominado pela minha potência avassaladora, só por meio dela é que esse ser lograria a ter consciência de si. É um ser necessário! E não possui meio algum de manifestar a sua necessidade, e não a conhece senão sob uma forma contingente e mediante fenômenos contingentes! Estranho ser necessário! Como seria infinito? O infinito não se concebe senão suprimindo simultaneamente o limite e o número. Ora, a matéria está sujeita aos números. Na matéria não só se multiplicam seres distintos, mas cada ser e cada parte do ser se resolve numa inumerável quantidade de seres que escapam à observação experimental. A soma de todas estas quantidades finitas, não produz senão um número finito. Repugna à inteligência um número atualmente infinito, composto de unidades sucessivas. Afirmar a possibilidade de tal número seria o mesmo que destruir os fatos, porque um número infinito na matéria produziria o pleno absoluto, o pleno no seu máximo de densidade; e nesta hipótese o vácuo seria um absurdo, o espaço uma quimera, as formas confundir-se-iam, os movimentos estacionariam, o mundo não seria mais do que uma grande massa informe, uma noite, um repouso imenso. As mesmas dificuldades com referência à perfeição. É impossível admitir a perfeição suprema no ser do qual posso afirmar o mais e o menos, no ser onde não vejo senão mudanças contínuas; e o meu espírito busca um ser no qual, segundo a expressão da Escritura, não há nem sombra nem vicissitude. Dir-me-ão: a matéria está sempre em ação; seja. Mas por mais que atue, nunca logrará elevar-se às regiões sublimes onde o meu espírito contempla a suprema perfeição. À medida que a matéria for aperfeiçoando, o meu espírito subirá mais acima; e, se eu mesmo não sou mais do que matéria, lançar-me-ei, em nome dum ser impossível, a uma luta perpétua. Como admitir perfeição suprema num ser essencialmente contraditório? Se ainda não vedes claramente, senhores, como são profundos os golpes que estas grandes ideias abrem no ídolo, descei das esferas da metafísica às humildes regiões do senso comum, e ponde a matéria em presença do movimento universal, da imensa variedade dos seres e da ordem do mundo. Se Deus não existe, é forçoso que seja a matéria a causa de todas estas maravilhas, e, todavia, a matéria, segundo a confissão dos seus adoradores, é originariamente indiferente e cega. Quando “por um esforço inato, a matéria organiza os seus elementos dispersos, e adquire propriedades e perfeições que não tinha” , escrava de leis fatais que a impelem a progredir, sofre a tirania de todas as circunstâncias fortuitas que determinarão as suas formas. “Singular causa, diz com razão um crítico moderno, que viola todas as leis da lógica, e que está em perpétua contradição consigo mesma: ininteligente, produz uma obra que revela inteligência; cega, realiza a harmonia; imprevidente, a tudo prevê; fortuita, cria a ordem; inconsciente, restabelece a solidariedade; fatal, opera como se fora dotada de vontade própria; inanimada, produz a alma e a vida; privada de razão, de entranhas e de sentimentos, opera prodígios de gênio e de amor”. A matéria é tudo, a matéria pode tudo, a matéria faz tudo; eis aqui, senhores, as proposições mais incompreensíveis que se podem conceber, se não é que as explicações com que pretendem justificá-las não são ainda mais incompreensíveis. Como é que a matéria move o universo? Nada mais simples: o movimento, dizem, é essencial à matéria. Quer dizer, senhores, afirma-se, sem provas, o contrário do que o espírito naturalmente concebe quando une estes dois elementos: matéria e movimento; o contrário precisamente do que a experiência ensina e comprova. Naturalmente concebemos que a matéria é movida; experimentalmente apenas observamos séries de movimentos, cujo princípio escapa à ação dos sentidos. Nestes movimentos observamos uma diminuição contínua em proveito da estabilidade dos corpos, de onde se segue que, se nos é lícito determinar a essência da matéria, apoiados na observação das suas tendências, nunca devemos dizer: o movimento é essencial à matéria, mas sim: o estado estático é essencial à matéria. Sobre este ponto os melhores físicos estão de acordo com a tendência natural do nosso espírito a admitir na matéria um movimento adquirido. Segundo eles, a inércia da matéria é o resultado principal da experiência e o fundamento da mecânica: a física deve sempre fazer entrar nos seus cálculos a matéria como coeficiente da inércia” . E de mais, senhores, já vistes, quando desenvolvíamos as provas da existência de Deus, como era absurda a consequência logicamente deduzida do movimento essencial da matéria: cada átomo deveria possuir, como primeiro motor, o plano harmônico de todas as evoluções do movimento; o infinitamente pequeno tornar-se-ia, por esta vasta concepção do todo, num infinitamente grande . Quereis unir a força e a matéria? Pois bem: o que é a força? É uma série de movimentos produzidos por outros movimentos? É a mesma questão. É uma qualidade inerente à matéria? Mas na matéria há uma qualidade que tende ao repouso e que é a negação daquela. É o calor, a eletricidade, o magnetismo? Estes fenômenos são efeitos do movimento e não causas. É um axioma, uma fórmula, uma abstração? Isto não significa nada . É um ser distinto da matéria? De duas uma: este ser ou é múltiplo como os elementos, ou é único. Se é múltiplo, é forçoso que seria determinado e ordenado ao movimento do todo por uma força superior; se é único, é simples, imenso, inteligente, onipotente; o materialismo não o pode admitir sem se contradizer, sem renegar o seu ídolo. Logo, a inércia é essencial à origem de todo o movimento: primeiro mistério. A indiferença e a uniformidade produziram a imensa variedade dos seres: segundo mistério. Diz-se, senhores, que tudo começou por um período atômico e que a mecânica presidiu à origem das coisas. Abster-me-ei de perguntar ao átomo primitivo e à mecânica original de onde procedem: esta pergunta poderia embaraça-los. Estudemos, pois, aqueles seres tais como nos são propostos. Os átomos constitucionais são idênticos e indiferentes à mecânica indeterminada. Pergunto: a conclusão natural que o senso comum deduz destes princípios não é porventura que devem produzir seres perfeitamente semelhantes, na hipótese de que alguma coisa produziram?E digo, na hipótese de produzirem alguma coisa, porque a afinidade eletiva que se supõe nos átomos, está em manifesta contradição com a semelhança completa e indiferença que se lhes atribui. Não tem ao menos o mérito dos átomos de Epicuro, com os quais se pode conceber uma certa variedade nos seres. De mais, a indeterminação original da mecânica não se pode converter por si em determinação. Ponhamos, porém, de parte esta dificuldade. Admitamos que as causas primordiais, cuja apresentação acabo de fazer-vos, produzem todos os seres orgânicos. Eis a vida; essas causas não vão mais longe. “Não há nada semelhante à vida, senão a mesma vida” . Nasce sempre, e por toda a parte, de m gérmen vivo que se alimenta de um blastema, gerado também por um ser vivo. Para o seu desenvolvimento, a vida necessita ainda de princípios orgânicos que possa assimilar; as substâncias inorgânicas, elementares no estado de indiferença química, não a podem sustentar . Diz alguém “que uma garrafa com carbonato de amoníaco, cloreto de potássio, fosfato de soda, de cal, de magnésio, de ferro, de ácido sulfúrico e sílica é, de um modo ideal, o princípio vital completo” . Desafio a quem quer que seja a que faça passar esse ideal à realidade. Mas as gerações espontâneas? Não as estudei de perto, senhores, mas apelo para as experiências decisivas que enterram para sempre aquela hipótese ; apelo para o testemunho de sábios conscienciosos que me afirmam “que a matéria sem espontaneidade nada pode gerar” , “que a geração espontânea é impossível” , “que todas as experiências rejeitam tal hipótese” , que as forças físico-químicas estão condenadas a uma esterilidade absoluta; “que é necessário admitir, em todo o ser vivo, uma ideia que se desenvolve e manifesta pela organização” . Há mais, senhores; não só todo o gérmen protesta contra o átomo primitivo e contra a mecânica primordial, mas os próprios gérmens protestam contra os gérmens. Com efeito, estes gérmens são todos determinados em espécies distintas que nunca se confundem . Ideou-se, bem o sei, um romance científico, abundante em hipóteses, onde a luta pela existência e a seleção natural exercem um papel extravagante, e onde se infere a possibilidade das variedades nas espécies, a possibilidade das suas transformações sucessivas e, da possibilidade das transformações de uma espécie em outra, a possibilidade das transformações de um reino em outro . Mas a experiência bem longe de justificar estas afirmações audaciosas, pelo contrário, desmente-as. Na verdade, diz-nos a experiência que a seleção artificial só produz variedades; que os esforços livres, inteligentes e calculados do homem para um fim indeterminado desfazem-se constantemente contra a imutabilidade da espécie; que a natureza caprichosa reconduz sempre ao primitivo tipo os produtos da arte humana, desde que a arte humana os abandona. Daqui concluímos, com a experiência, que a seleção natural, resultado de circunstâncias fortuitas, não pode operar nenhuma transformação radical, que os tipos são irreformáveis, que o “plano da organização é invariável na determinação dos limites da espécie, que a espécie não sai da espécie” , numa palavra, que o poder soberano dos átomos idênticos e da mecânica indeterminada são contos que servem para conciliar o sono. Estamos, senhores, na presença de um terceiro mistério de onipotência não menos ininteligível e repugnante que os precedentes: o mistério da harmonia produzida pela ininteligência. Não negamos que a matéria possa tornar-se inteligente; isto seria negar o homem e as suas obras; mas para isto é necessário que a matéria se eleve, por uma longa série de transformações, até ao cérebro humano, produtor do pensamento. Antes de examinar o proceder deste órgão maravilhoso, pergunto ao materialismo se as obras do homem não são precedidas de uma obra inteligente, se não existe uma harmonia preexistente aos nossos atos intelectuais. Não, responde-me o materialismo pela boca dos seus mais conspícuos doutores; a natureza procede cegamente, sem desígnio e sem ordem; ao lado das coisas que parecem manifestar um plano, há as exceções e as monstruosidades; “a harmonia é um ideal do homem que aplica ao universo o seu modo de ver as coisas” . É fácil responder a estas afirmações mais que audaciosas. Se há exceções e monstruosidades na natureza são evidentemente desprovidas de valor em comparação dos fatos precisos e determinados nos quais se manifesta um desígnio meditado; quando muito, aquelas exceções provam o limitado alcance do nosso espírito que não pode explica-las. Aos olhos do verdadeiro sábio, a exceção confirma a lei; a monstruosidade faz sobressair os esplendores da ordem pelo poder do contraste. Quanto ao dizer-se que nos enganamos afirmando a inteligência onde vemos a ordem, é impossível, porque somos obrigados, não pela imaginação, mas pela força analógica do senso comum a reconhecer uma inteligência onde quer que vejamos a harmonia e a ordem. É escusado repetir aqui, senhores, o que já ponderei acerca da harmonia do mundo e dos desígnios superiores que ela nos revela. É necessário fechar os olhos de propósito, para não ver coisas tão evidentes, e para não compreender que, se trabalhamos a fim de que as nossas obras sejam realizadas com número, peso e medida, nada mais fazemos do que imitar essa obra admirável na presença da qual todo o homem reto e sincero tem o sentimento do seu nada. “Analisai a molécula. É um modelo de simetria que apresenta um tipo geométrico; os corpos simples para que formem os compostos não se podem combinar senão em números proporcionais determinados e invariáveis” . Uma potência matemática preside a toda a combinação , o sábio descobre-a no infinitamente pequeno, o povo contempla-a no infinitamente grande. E nos seres vivos “um plano de admirável harmonia dispõe as partes de modo que se adaptam perfeitamente ao fim para o qual o todo existe . Que maravilhosa arte nos tecidos! Só no homem há trinta, e nos seus admiráveis enlaçamentos cada molécula ocupa seguramente o lugar que lhe é devido. Que sábia previdência na lei das uniões e na lei do amor, convergindo não somente à propagação da espécie, mas ainda à conservação, à proteção, a educação de seres frágeis que se preparam para as lutas da vida! Os materialistas invocam a fixidez das leis , a federação dos elementos atômicos, o consensus necessário das suas tendências invencíveis , como se todas estas coisas não supusessem uma inteligência que fez a lei, organizou a federação dos elementos e regula as suas tendências. Agrada-me sobremaneira aquele sábio, quando exclama: “Foi a lei, isto é, a inteligência, a ideia, o espírito, o amor que formou o mundo” , e aquele outro que, no seu arrebatamento, esquece as áridas fórmulas da ciência e canta, como se fora poeta, os gloriosos hinos dos elementos e o espírito divino que os fecunda . Bem vedes, senhores, que há inteligência antes do cérebro humano. Se a matéria não pensa senão por meio deste órgão, é forçoso aceitar este absurdo enorme: a ininteligência é mãe da harmonia. Ó divindade miserável! Ídolo falaz do materialismo, eis-te esmagado pelo universo inteiro. O movimento, a variedade dos seres, a vida, a harmonia, tudo pesa sobre ti e te reduz a pó; quero, porém, descarregar os derradeiros golpes sobre a tua teoria do cérebro humano de que te glorias como se fora a tua obra prima. Não é agora, senhores, ocasião oportuna de fazer uma longa demonstração da espiritualidade da alma: esta questão tratar-se-á a seu tempo. Também não me deterei em refutar esses sofismas vulgares com que os materialistas obstinadamente nos apresentam, como causas das nossas operações intelectuais e morais, as condições orgânicas e as funções concomitantes. Limitar-me-ei a consignar os fatos perante os quais é forçoso admitir, ainda uma vez mais, a impotência absoluta da matéria. Em todos os nossos atos, ainda nos mais nobres e levantados, temos a consciência de que somos limitados, e, por conseguinte, dependentes. E se apenas dependemos da matéria, é à matéria que devemos atribuir a consciência do nosso eu, as nossas ideias, os nossos juízos, os nossos raciocínios, a nossa vontade, o sentimento do dever, isto é, devemos derivar, contra os princípios da razão, o imutável do variável, o uno do divisível, o livre do fatal, o meritório do irresponsável. O ser vivo, incessantemente movido pelo princípio que o anima, perde e adquire, algo desaparece e renova-se a ponto de que, da matéria que possuía no começo de um período matematicamente medido pela ciência, não lhe resta a mínima molécula logo que aquele período termina. Por mais nobre que seja a massa de que é formado o cérebro humano, é certo que a cada momento se transforma. E sendo assim, deveríamos, sob a impressão constante de um trabalho que remova o nosso cérebro, modificar constantemente a afirmação da nossa existência. E não é assim. A afirmação da nossa existência é sempre a mesma. Há vinte, quarenta, sessenta anos, e mais ainda talvez, que nós dizemos: eu. Eu imputável que subsiste através da incessante mutabilidade do nosso organismo. Como explicar isto, senhores? Havemos de dizer que cada átomo antes de se ausentar teve o cuidado de dizer adeus e fazer as suas confidências ao átomo que o vem substituir? Seria uma loucura afirmar tal. O eu subsiste e afirma-se precisamente, porque há em nós uma substância simples e imutável que une as fases mutáveis da nossa existência, e a matéria sempre transformada e sempre substituída, não pode ser aquela substância. Do mesmo modo, senhores, a matéria divisível não pode ser a substância que vê em nós as ideias e realiza a unidade dos nossos juízos e raciocínios. A preciosa massa cerebral, por muito impressionável que seja, não pode receber senão as imagens que lhes são apresentadas e, supondo que as conserva, tais imagens nunca nos representariam senão seres particulares, indivíduos determinados. Se em mim há apenas impressões cerebrais, verei, quiçá, tal árvore, tal animal, tal homem, mas ser-me-á absolutamente impossível, exprimindo por uma só palavra um gênero, uma espécie na sua totalidade, ver a árvore, o animal, o homem em geral, e por maioria de razão se se tratar de coisas material e atualmente irrepresentáveis, com o necessário, o possível, o infinito, o absoluto, o futuro e outras. Não é o divisível, mas o uno que forma as ideias e sobe tudo o que as enlaça em nossos juízos e raciocínios. Quando dizemos: este homem é justo, onde é que se realiza o laço desta proposição? Quando afirmamos que tal conclusão está contida em tais e tais premissas, onde é que se pronuncia esta afirmação? É em cada molécula da substância cerebral? Mas como, se não há mais do que um juízo e raciocínio? Quem opera a intelecção de uma substância tão divisível e divisa, senão a unidade que a governa, a unidade que aquela massa não é, nem pode ser. Dizem: a matéria está sujeita a leis inflexíveis. Que seja. Mas, não obstante, eu sou livre. Se determino marchar para a direita e não para a esquerda, marcho; levantar o braço e não tê-lo imóvel, levanto-o; abrir os olhos, e não tê-los fechados, abro-os; realizar um dado pensamento e não outro, realizo-o. Em todos estes atos eu tenho a consciência de que é a minha vontade que se cumpre. E se eu fosse apenas matéria seria tão escravo da necessidade que não somente não poderia praticar atos livres, mas, o que é mais, nunca poderia saber o que significa a palavra liberdade. Ora, se a fatalidade da matéria repugna à liberdade, a consequência necessária é, que a irresponsabilidade repugna à ideia de mérito ou demérito. Entretanto, senhores, é incontestável que existe em nós a noção e o sentimento daquelas duas coisas, porque temos a noção e o sentimento do dever. Domina a nossa vida, regula, dirige e qualifica os nossos atos, uma lei de que não somos autor e que por isso mesmo não podemos alterar. Se ajustamos as nossas ações com esta lei, praticamos o bem, merecemos; se a transgredimos, praticamos o mal, desmerecemos. Ora, com que direito afirmamos das nossas ações que “esta é meritória e aquela é má” se acima de nós nada há, se depois de nós só há matéria? Não nos dizem porventura que a matéria é o joguete duma inflexível necessidade? Como posso eu adquirir mérito ou demérito se estou sujeito a violências tais de que não posso escapar? O respeito, o amor, a liberalidade, a caridade e a dedicação outros tantos efeitos são da lei fata; o desprezo, o ódio, o assassinato, o egoísmo, não são crimes, não, mas produtos da necessidade. Isto é, decerto, uma inaudita monstruosidade, mas tão criminosa como a existência de um nó no tronco de uma árvore, ou de um tumor no músculo de um animal. Se o materialismo quiser ser consequente, deve admitir que o vício e a virtude são produtos como o vitriolo e o açúcar, que é tão contrário à moral o ser perverso como o ser zarolho ou corcovado . Mas o materialismo revolta-se algumas vezes contra estas consequências, e acusa-nos, quando lhas lançamos em rosto, que lhe movemos uma guerra desleal e que fugimos, por medo, das refutações científicas. Sois testemunhas, senhores, de que eu também fugi destas refutações. Se para esmagar o ídolo contemporâneo não tivera mais argumentos do que o deduzido da ideia do dever, ainda assim não sairia do terreno científico. Os dados do senso íntimo serão porventura tão científicos como os da experiência física? A ciência, a verdadeira ciência, não consistirá acaso em conhecer os princípios e ver neles as conclusões? Se nos princípios do materialismo vejo a destruição de toda a moral, terei ainda a necessidade de procurar novos argumentos? Não tenho o direito de dizer, que quando um princípio destrói o que deve ser, é um princípio falso, visto como os princípios são regras de ser? É por isto, senhores, que os materialistas se veem obrigado a capitular, ainda que contra a vontade. Conhecendo a sua flagrante contradição com a consciência do gênero humano, o materialismo deserta do erro e admite a ideia do dever. Há mais de sessenta séculos que a consciência do gênero humano fala, e nos diz que é necessário cumprir o dever ainda mesmo com detrimento da matéria. Ouvistes? Ainda mesmo com detrimento da matéria! Pois bem, nada mais atroz e insensato do que esse axioma universal da moral, se a matéria é o nosso único criador e senhor. A sabedoria, a justiça, o dever exige que a respeitemos, que lhe prestemos culto, que sigamos docilmente os seus movimentos. E, todavia, nada mais baixo e vil! “Não há inteligência, não há faculdades superiores; tudo é sensibilidade, tudo embrutecimento, tudo terreno”, segundo a enérgica e bela expressão de Bossuet. Bem pelo contrário, foi sempre glorioso, e sê-lo-á sempre, o elevar-se o homem acima da matéria, resistir ao ardor do seu sangue e à violência dos seus instintos em obséquio à justiça, sofrer pela justiça, morrer pela justiça, desprezar a matéria tanto quanto é necessário para manifestar uma grande dedicação. Quando a miséria solta os seus gemidos, quem é mais belo, mais amável, mais digno de louvor, o epicurista que fica indiferente, e que, fiel à máxima egoísta dos pagãos, não sente dor nem piedade em presença do desgraçado, ou o homem generoso que liberaliza o seu dinheiro, emprega o seu tempo, as suas forças e arrisca a sua vida para salvar a vida de um dos seus irmãos? Quando a pátria invadida solta o grito de alarme e chama os seus filhos, qual é o herói, cujos feitos gloriosos mais tarde cantará? É o covarde que, pro amor da sua querida matéria, vai escondê-la e procura ele mesmo subtrair-se às balas e aos golpes do inimigo, ou o homem valente que voa para se alistar nas fileiras dos bravos, e se expõe às fadigas de uma campanha sangrenta e oferece impávido e o seu peito generoso ao fogo do inimigo? Ó matéria, ídolo bestial e frágil, a minha grandeza será tanto maior quanto mais entranhado for o desprezo que te votar. Não só me roubas a honra se te sirvo, mas ainda se em teus braços procuro a felicidade, ela me foge com obstinada ironia . Assim, pois, ó matéria, se tu não podes satisfazer as aspirações da minha alma, como posso eu suportar o jugo da tua divindade? Vai, vai! Eu não tenho necessidade de ti, basta-me o meu grande Deus. Ó Deus! Se tu não existiras, que profundo e espantoso abismo não se abriria para engolir o que há de mais nobre, e grande, e respeitável sobre a terra! Que valor teriam as orações dos santos? De que serviriam as sublimes contemplações das almas absorvidas no ideal? De que serviria o sangue dos mártires do dever? De que serviriam os gemidos e a derradeira esperança da justiça oprimida? De que serviriam as lágrimas dos abandonados? O nada, o nada seria o termo de tudo isto! O nada!... em quanto os perversos estimulados pela irresponsabilidade dos seus crimes devastariam o mundo! Que horror! Não, não, meu grande Deus, nós não queremos ser órfãos. Só tu podes sustentar o universo de que és Pai. Vinde a nós, e repeti-nos a grande palavra do deserto: Eu Sou o que Sou: Ego Sum qui Sum. Sim, força infinita, causa universal, existência necessária, perfeição suprema, inteligência soberana, criador e ordenador do mundo, senhor da nossa vida, tu és o que és, e a matéria é o que não é, porque sem ti seria nada. Vede, Senhor: eis-me aqui, de joelhos, com os olhos e mãos levantadas ao céu: contigo n´so calcamos aos pés os membros rotos do ídolo da falsa ciência, e em lugar da cega multidão que a toda hora exclama: Não há Deus, Non est Deus! Nós, teus filhos, cantamos com o coração transportado e com a alma comovida: Creio em Deus: Credo in Deum.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Ídolo Contemporâneo - Parte I

Por
Rev. Padre Jacques-Marie-Louis Monsabré

Senhores:

Há um progresso descendente oriundo do erro, como há um progresso ascendente oriundo da verdade. Confessar a existência real e pessoal de um ser superior e invisível, o mesmo é que aceitar, em princípio, todas as verdades que se relacionam com esta existência, por mais profundas e incompreensíveis que sejam. Mas quando o espírito humano empreende suprimir os mistérios que não pode explicar, não abandona a sua empresa senão depois que se persuade ter destruído a própria raiz daqueles mistérios. A negação pura e simples de Deus devia suceder às imensas complicações dos sistemas panteístas, nos quais reaparecem, sob formas de difícil compreensão, e, conseguintemente, inaceitáveis, as ideias de causa primária e de finalidade, das quais o panteísmo quereria prescindir. A unidade primordial que se destrói por si mesma divide-se e converte-se numa multiplicidade infinita, sem deixar de ser uma; a substância da qual emanam os seus atributos que produzem por sua vez inumeráveis atributos; o ser puro, indeterminado que se determina; o ser nada que se torna algo; este ser que adquire a consciência de si mesmo e que se torna universo; a ideia que não se desenvolve senão para tornar a si depois do exílio, da dispersão e da fuga de si mesma: eis o que o panteísta deve crer. É duro, confessemo-lo. A inteligência fatiga-se analisando estes profundos desvarios; e os esforços do idealismo para regularizar entre nós a situação do panteísmo não têm logrado salvar este erro do descrédito universal. A Alemanha, depois de ter chamado ao panteísmo a filosofia do futuro, lança-lhe em rosto estas desdenhosas palavras: “Aquilo a que, ordinariamente, chamam profundidade do espírito alemão, mais se pode dizer confusão de ideias do que profundidade de espírito... Nada há que mais repugne do que ver essa filosofia aparentar uma profunda erudição, e ensoberbecer-se das suas teorias ocas e nebulosas”. Do desdém passou-se à grosseria. “Os nossos filósofos modernos gostam muito de nos dar, requentados, velhos legumes, pondo-lhes nomes novos, para no-los servirem como últimas invenções da cozinha filosófica” .

Numa palavra, já não presta o eu igual ao eu, o eu absorvido pelo não-eu, a ideia pura e os seus três momentos; tudo isto passou para dar lugar à santa natureza, à matéria fecunda, existente por si mesma, às condições físicas e aos seus resultados. Mas uma inexorável fatalidade persegue o espírito humano ainda em seus mais profundos desvarios. O materialismo, negando Deus, não pode prescindir das ideias que este nome augusto representa, bom ou mau grado seu refere-as ao ser impotente cuja existência única e suprema proclama. Aqui, realmente, não há mais do que uma substituição, e Leibniz disse com justiça: “Uma natureza universal deve, necessariamente, tornar-se um ídolo”.

Bem o sabeis, senhores, este ídolo é a vergonha do nosso tempo. Ensina-se à mocidade que deve prestar culto ao deus-matéria, prometeu-se ao povo os favores deste ídolo. Na presença de tal escândalo, já não é bastante repetir aquela palavra enérgica proferida do alto desta cadeira por um dos meus predecessores contra o materialismo ; é necessário entrar a todo custo na oficina científica onde se fabrica o ídolo contemporâneo, ver como os obreiros trabalham no seu artefato, estudar os processos do fabrico, notar os defeitos do produto que pretendem impor às adorações do gênero humano, esmigalhar o ídolo, para a glória do nosso grande Deus e honra da consciência pública.

I

Reduzem-se a três classes os obreiros ocupados na fabricação do deus-matéria: os tímidos limitam-se a circunscrever os limites das ciências naturais; proclamam a soberania da experiência para determinar os fatos da ordem física, e a necessidade de prescindir, no estudo dos fenômenos, das suas condições e leis, de toda a preocupação sistemática.  Nisto não os censuramos. As concepções a priori podem extraviar a observação que investiga as leis da natureza. Seja-nos, porém, lícito lamentar que homens que se dizem sábios restrinjam o domínio da ciência, evitando, de propósito, com referência às causas primeiras e às forças imateriais, certas conclusões que naturalmente se apresentam, no fim de toda a experiência bem feita; conclusões que ilustres sábios idos aceitaram sem hesitação, porque satisfazem a imperiosa necessidade que a razão experimenta, depois de analisar os fenômenos, de se elevar a conhecimentos mais altos e de saciar, por meio de legítimas especulações, as suas naturais tendências para a perfeição, preenchendo as lacunas da experiência.  Seja-nos permitido ainda observar que há, na ordem puramente intelectual como na moral, fatos sobre os quais a experiência, sem mais instrumentos do que os olhos e a razão, pode pronunciar-se com tanta segurança como na ordem física, e que é injusto, por conseguinte, enfeudar a experiência em proveito exclusivo das ciências chamadas positivas.

Os tímidos confessam certamente que “a aplicação do discurso experimental aos fatos, a teoria, constitui a ciência; que a teoria não é mais do que a ideia científica comprovada pela experiência; que o raciocínio não serve senão para dar uma forma às nossas ideias, de modo que tudo se reduz primitiva e finalmente à ideia; que a ideia é que constitui o ponto de partida, ou o primum movens, de todo o raciocínio científico; que ela é igualmente o ideal das aspirações para o desconhecido”.  Desejaríamos, porém, que se explicassem melhores e mais claramente sobre a natureza, origem, sede e alcance desta ideia a pripri. É certo que se inclinam respeitosamente diante da filosofia desligada da experiência. “A Filosofia, dizem, representa a aspiração eterna da razão humana para o desconhecido; comunica ao pensamento humano um movimento que o vivifica e enobrece, incitando-o constantemente à solução inesgotável de grandes problemas; entretém aquele fogo sagrado da investigação que no sábio nunca se deve apagar”.  Tudo isto está bem; mas é ainda pouco esta homenagem. Quereríamos uma confissão mais franca das realidades que chamam indeterminadas: Deus, a providência, a espiritualidade da alma, as funções vitais; quereríamos uma confissão explícita da possibilidade de unir estes dois mundo que não podem ser estranhos um ao outro: o mundo físico e o mundo metafísico; uma homenagem prestada à grande e verdadeira ciência, à ciência que reduz a princípios mais elevados e mais universais o conjunto dos conhecimentos humanos. Finalmente, é certo que os tímidos, no estudo dos fenômenos da vida, na biologia, confessam que o como do organismo não se pode explicar senão pela palavra criação, que “a ideia criadora é, para falar com propriedade, a que regula a evolução vital”, mas, por que não saúdam abertamente o criador da vida, como Newton saudara o motor do universo?

É funesta e, direi mesmo, culpável toda a hesitação nesta matéria, numa corrente que arrasta os espíritos a não verem nada acima das grosseiras realidades da matéria. Arquivemos, entretanto, as confissões e as concessões do determinismo, e pois que ele deixa à nossa disposição o mundo filosófico, aproveitemo-nos dele.

Os solapados não são tão condescendentes, chamam-se positivistas. O positivismo é empírico no mais elevado ponto. Nunca o levareis a admitir que o espírito humano possui uma força íntima e original que, pelas suas intuições e raciocínios, governa, dirige e regula a experiência. “Fatos, e nada mais do que fatos, analisados e coordenados, eis o que basta. O resto nada vale”. Do mesmo modo suprime autoritariamente toda a ordem de ideias que não assente sobre a experimentação dos fenômenos. As causas e os fins são contrassensos para o positivismo. Se algum espírito delicado e escrupuloso tenta escapar aos rigores positivistas saudando de longe a metafísica como ciência estranha que não deve ser desprezada, e Deus como inteligência suprema e reguladora no qual se pode crer sem prejuízo da causa diretamente determinativa de cada fenômeno , o positivismo exclama: “Não se julgue que, tratando-se de causas segundas, seja livre a cada um pensar sobre as causas primeiras que lhe aprouver. Não. Sobre este ponto não há liberdade: a minha determinação é precisa e categórica: declaro que as causas primeiras são desconhecidas” . Tudo que não entra na esfera dos fatos é inacessível à razão. Não trateis já a psicologia como se fora uma ciência especial , porque sereis censurados e pronunciarão contra vós esta sentença: “Assim como o físico reconhece que a matéria pesa, assim também o psicologista afirma que a substância nervosa pensa sem que nem um nem outro pretendam explicar por que é que aquela pesa e este pensa” . “É evidente, diz um professor distinto, que a neutralidade diplomática dos positivistas oculta um tratado secreto de aliança contra o inimigo comum, o espiritualismo; e talvez que não lhes falte certa ingenuidade imaginando que, na grande confusão de doutrinas, os seus desejos sejam duvidosos.

Razão tinha eu, senhores; os positivistas são operários solapados. Não podem, por mais que se esforcem, ocultar-nos as suas manobras, descobertas, demais, pelos seus companheiros de oficina. “Note-se bem, diz um deles, se os serviços do positivismo nos obrigam a fechar os olhos às suas debilidades, não podemos ignorá-las apesar das suas reticências. As suas afirmações e as suas negações não nos iludem, nem a respeito do seu valor próprio, nem a respeito da sua extensão. A escola positivista é uma seita, oriunda do materialismo; não vale mais e não tem mais alcance do que o materialismo”

Eis o que é claro, senhores: o positivismo presta serviços. Prepara sorrateiramente a obra dos operários francos e resolvidos que se chamam sem vergonha materialistas. Vede como se agitam em roda da imensa fornalha onde se derrete o bronze do grande ídolo, com que atividade preparam o molde que deve lhe dar as suas formas definitivas e para sempre adoradas. Quereis saber que processos empregam na realização da obra? Ei-los: importarem-se pouco com as contradições, afirmar com audácia, vangloriarem-se impudentemente.

A primeira contradição dos positivistas, a mais palpável e característica, é a que eu chamarei contradição de método. Consiste em estabelecer como princípio, por uma parte, que o empirismo é norma soberana de toda a afirmação científica, que nada se deve admitir que não seja demonstrado pela experiência, e, por outra parte, estabelecer e seguir um dogmatismo desenfreado, cujas proposições escapam toda a disciplina e toda a verificação experimental.

A nossa vista, auxiliada de instrumentos aperfeiçoadíssimos, não atua senão sobre um espaço limitado. Não podendo abarcar a imensidade da extensão, parece que, pelo menos, deveríamos guardar silêncio sobre um tão elevado mistério, desde o momento em que a metafísica não no-lo pode explicar. Mas não é assim. O materialismo pronuncia-se e declara que a matéria é infinita. A experiência só nos subministra fatos. Analisem-se, coordenem-se, interpretem-se, é o que desejo; mas respeite-se a sua essência, pois que ninguém a pode observar. Mas, não, o materialismo entra violentamente neste arcano, e proclama que o movimento é essencial à matéria. Nunca se demonstrou que a matéria mudasse as espécies ou as produzisse; e, apesar disto, o materialismo ousa afirmar que a matéria tem produzido sempre o que nunca produziu, e que é onipotente. Tudo começa, tudo se sucede, tudo acaba: seres, formas, movimentos, revoluções. Nós não logramos, no curto espaço de tempo que se chama vida, mais que possíveis e contingentes; e não obstante isto, o materialismo afirma que a matéria é necessária e eterna. Da mesma confissão da sua ignorância acerca das causas, deduz bruscamente monstruosas conclusões nas quais manifesta sem pudor o seu desprezo de toda a lógica. Convém-lhe ignorar a causa que produz as operações intelectuais, as ideias, os juízos, os raciocínios, os sentimentos, as volições, as determinações; e conclui imediatamente: todos estes fenômenos são movimentos da matéria”. A que vêm os elogios dos materialistas a um método que a todos os momentos atraiçoam? Não é evidente que os fatos de que o materialismo se aproveita com tanta avidez só o interessam, como alguém observou com razão, “na hipótese de uma total conformidade, esperada ou pressentida, entre aqueles fatos e uma doutrina previamente estabelecida” ? Não é manifesto que esta doutrina intenta um fim ao qual deseja chegar por faz ou por nefas, e não uma conclusão legítima da ciência experimental?

Para evitar o opróbrio das suas contradições, o materialismo procura um subterfúgio. Pretende que “os materiais da experiência, se não podem resolver de um modo positivo certas questões, são suficientes para resolver de um modo negativo” . Isto é demasiado ingênuo, senhores; uma criança por certo que não se deixaria colher no laço. Há, bem o sabeis, negações que equivalem a uma afirmação. Quando alguém me diz: “eu não sou um homem de mau procedimento”, entendo por isto que esse alguém é um homem probo. Do mesmo modo, quando me dizem que a matéria não tem limite, entendo por isto que é infinita; quando me dizem “não se podem conceber outras causas além da matéria”, entendo, por isto, que a matéria é onipotente; quando, enfim, me dizem que a matéria não foi criada, entendo que existe de si, que é eterna. Apesar dos protestos do materialismo, é forçoso que renuncie ou ao seu método, ou ao seu dogmatismo.

A contradição fundamental de método, senhores, leva-nos necessariamente a admitir, acerca da causa, natureza e finalidade das coisas, muitas proposições inconciliáveis e contraditórias num mesmo sistema. Seja exemplo: o materialismo, depois de ter estabelecido que não existe outro princípio além da matéria, não julgou inconveniente opor-lhe a força sob uma forma simples que a exclui . Afirma que o homem não é de natureza diferente do mais vil átomo, e todavia gloria-se de se elevar cada vez mais sobre a matéria, dominada pela ciência e pelo trabalho de cada dia . A vida ora procede do acaso, ora se forma como os cristais sob a ação do sol, e, por isso, sob a influência de leis matemáticas, ora procede de um ser vivente .

Umas vezes a matéria é inconsciente e cega , outras vezes é um artista criador . Umas vezes opera sem intenção, sem plano na sua organização; outras vezes manifesta vestígios evidentes de apropriação a certos fins . Todas estas contradições se agrupam, avolumam, e misturam e confundem, mas nem por isso o materialismo deixa de apresentar-se cada vez mais arrogante.

Vede, senhores, a audácia admirável com que dogmatiza. Para ele a metafísica não é ciência. Em vez de procurar conciliar as intuições e as induções transcendentes do espírito humano com os dados da experiência, afirma que há antinomia entre os princípios da física e os da metafísica. Tem a audácia de afirmar que Deus e a alma são hipóteses absurdas, mas não se dá ao incômodo de nos provar que estas hipóteses envolvem contradição. Acusa-nos de falarmos da criação, como se houvéramos sido testemunhas dela , e atreve-se a falar do infinito, da eternidade, da onipotência da matéria como se tivera visto sair das suas retortas o infinito, o eterno, a onipotência. Incapaz de esmagar os espiritualistas sob o peso de sólidos argumentos, apela para a injúria: chama-lhes sonhadores ignorantes, pensadores invencioneiros e hipócritas. O materialismo apresenta-nos este argumento triunfante: tudo o que é possível realiza-se; mas o universo é possível e isto pasta para que exista. Para não admitir conclusões inevitáveis, eleva-se este cavalheiro do positivismo e da experiência até um misticismo transcendental, cuja fórmula eu vos suplico que noteis atentamente. “É verdade que não sabemos como as coisas se passaram no princípio; seja, porém, qual for a nossa ignorância, devemos dizer com certeza, que a criação orgânica pôde e deveu realizar-se sem a intervenção de uma força externa”. Eis o mais maravilhoso ainda: “Nós temos a certeza subjetiva do nascimento espontâneo dos seres orgânicos” . Senhores, se o ridículo poderá ter os foros do sublime, estaríamos, certamente, em pleno sublime.

Todavia as afirmações da escola materialista parecem-me menos repugnantes do que a audácia das suas pretensões. Esquecida do passado, ousa impudentemente chamar-se a ideia nova. A ideia nova! Mas pondo de parte as falsas interpretações de certos fatos, apoiados em recentes descobrimentos, não há uma só, dentre as proposições materialistas, que não fosse há muito proclamada. Poderíamos formar, com paciência, um quadro sinótico das afirmações contemporâneas e das do século passado, para nos convencermos de que os materialistas do século XVIII pensaram exatamente como os do século XIV. A mesma exageração e o mesmo abuso do método experimental, a mesma tendência para divinizar a natureza, as mesmas propriedades atribuídas à matéria, a mesma repulsão de toda a substância simples, a mesma doutrina acerca da geração espontânea, da circulação da vida, das transformações sucessivas e da identidade dos seres, o mesmo horror às causas finais, a mesma adoração da lei e da fatalidade; há apenas diferença no estilo, os antigos empregavam uma linguagem mais castigada.  Um apologista que os refutou, não admite neles boa-fé ; mas prova o seu parentesco com Lucrécio, Epicuro, Demócrito, que tiveram por ascendentes aqueles materialistas que, segundo o livro da Sabedoria, falam assim: “Nascemos do nada e ao nada voltaremos... o nosso corpo converter-se-á em pó, o nosso espírito dissipar-se-á como ligeiro fumo... tudo acaba com a vida... eia, gozemos os bens presentes; depressa, que a juventude passa rápida; embriaguemo-nos com o vinho e com os perfumes. Aproveitemo-nos na flor do tempo, coroemo-nos de rosas antes que murchem, que não haja campo em que não pasce a nossa voluptuosidade” . Eis aqui, senhores, as velhas ideias perfeitamente concordes com as do nosso tempo.

O materialismo não é a ideia nova, não é a ciência. Glorie-se muito embora e diga solenemente: “A ciência despediu-se de Deus acompanhando-o até às suas fronteiras para lhe agradecer os seus serviços provisórios; presentemente não precisa d’Ele para nada. A ciência afirma isto, a ciência nega aquilo, a ciência pronuncia, a ciência decreta, a ciência ordena”. Isto não vos deve desconcertar, nem ao menos comover, porque ainda que carecêsseis de toda a ciência, podíeis invocar com nobre orgulho os nomes respeitáveis duma falange de homens ilustres que diziam: parece-me, submeto ao vosso juízo estas reflexões, e que, sob esta forma simples e reservada, pronunciaram oráculos que ainda não foram reformados; os nomes dos Kepler, dos Copérnico que agradeciam a Deus com ternura as luzes que se dignou derramar sobre o mundo; os nomes dos Newton e os Lineu que seguiam os vestígios de um poder e de uma sabedoria infinita, através dos espaços e do firmamento e dos reinos da natureza ; e, entre nós, os nomes sábios e distintos, cuja modéstia não quero ferir, mas a quem publicamente agradeço o seu zelo e perseverança em contradizer com a indiscutível autoridade dos seus trabalhos, a obra dos fabricadores do ídolo-matéria. Sábios por sábios, prefiro os modestos aos imprudentes; os que procuram persuadir-me para me elevar, aos que se me impõe para me aviltar.

Já sabeis, senhores, quais são os processos da escola materialista. Pelo simples exame destes processos é fácil determinar o resultado dos seus trabalhos; mas eu prometi-vos uma vistoria a fim de que ficassem patentes os defeitos de fabricação do ídolo com que pretendem substituir o verdadeiro Deus. Vou cumprir a promessa.

Continua...

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Panorama do dogma Católico - Pe. Monsabré

Meus senhores; da ideia primordial e fundamental de ser fluem duas ideias que em todos os tempos preocuparam vivamente o espírito humano, e que foram o objeto das suas mais levantadas e constantes aspirações; a ideia do infinito e a ideia do finito. Não há doutrina filosófica nem religiosa, cujos artigos não possam agrupar-se em roda desta simples proposição: Dados estes dois termos, finito e infinito, explicar as suas relações. Com efeito, a vida humana, a vida do mundo inteiro, depende da solução deste problema. Os mesmos que se gloriam de não lhe ligar importância, veem-se colocados diante dele, impelidos pela força invencível das ideias que são como que o fundo do nosso espírito, e pelas aspirações que nos estimulam a conhecer o que somos e a determinar o nosso lugar, as nossas funções e os nossos destinos na universalidade dos seres.

Às questões: o que é o infinito? O que é o finito? Quais as suas relações? Nós respondemos com sistemas, a Igreja católica responde com o seu símbolo, e, independentemente dos sinais externos que as impõe ao obséquio da nossa fé, as soluções que a fé nos subministra são tão evidentemente divinas, que eclipsam todas as soluções inventadas pela nossa inteligência.

Mas não nos antecipemos, nem deduzamos conclusão alguma antes que o aspecto geral do dogma católico haja produzido o seu efeito em nossas almas. Humilde guarda deste esplêndido edifício, quero que, antes de tudo, admireis o seu conjunto; depois comunicaremos reciprocamente as nossas reflexões.

O infinito é Deus, ser primário, necessário, real, pessoal, subsistente em si mesmo e por si mesmo, tendo na sua mesma essência a razão suficiente do seu ser, bem como a razão suficiente do ser de todas as coisas. Só ele é Deus; não há nem pode haver outro. O seu ser, a sua essência, a sua substância, a sua natureza, a sua existência, a sua vida, os seus atributos, as suas operações são um mesmo ato: ato tão simples, tão puro, que nem o podemos conceber, nem exprimir. Se chamamos a Deus o Ser Vivo, o Forte, o Todo-Poderoso, o Senhor, o Eterno, o Altíssimo, estes nomes são realmente verdadeiros, santos terríveis, admiráveis; mas nem cada um deles de per si, nem todos simultaneamente exprimem a plenitude da verdade, e da santidade, e da majestade, e da beleza que constitui o ser divino. Com uma palavra, cujos abismos profundos em vão tentamos sondar. Deus se definiu a si mesmo: Eu sou o que sou. Ego sum qui sum ; o ser na sua mais transcendente e incompreensível expressão. Se o comparais à multiplicidade dos seres, está presente em todos os lugares sem se dividir. Se o comparais ao tempo, é eterno sem que os instantes o meçam nem se sucedam em seu seio.

Não tem faculdades que o distingam da sua substância, e é por isso que opera com uma perfeição infinita, e nada adquire nas suas operações. Sabe tudo que é, e tudo que não é; tudo que pode ser, e tudo que será. A verdade não aparece n’Ele como em límpido espelho que reflete; mas Ele é a verdade mesma . A sua ciência não é causada pelo que existe, senão tudo que existe é causado pela sua ciência ; ciência eterna, imutável, simultânea, direta, imediata, que não pode nunca se enganar. A sua vontade é soberana, mas duma soberania absoluta. Nada há que possa dobrá-la ou torná-la mutável; ainda mesmo que, cedendo às nossas orações, modifique as suas obras, os seus decretos permanecem imutáveis ; previra tudo. É livre no meio da instante necessidade. Não tem outra medida além do seu poder, e o seu poder é sem medida.

É sábio, e como vê todas as coisas num só princípio, ordena todas as coisas a um único fim: Ele mesmo; todos os meios se combinam harmonicamente sob a sua direção; nem a ignorância nem a má vontade alteram os seus desígnios.

É Santo, não duma santidade adquirida com esforço e trabalhada, que não se pode conservar nem aumentar senão à custa dos mais rudes sacrifícios, mas duma santidade tranquila, inalterável, plena, essencialmente isenta de todo o mal, e constantemente manifestada pelo amor invariável e eficaz de toda a retidão e de todo o bem.

É justo, e, na imensa variedade de direitos que parecem se contradizer, dá a cada um o que lhe pertence. Não há merecimento que não premie, nem falta que não castigue. Os nossos cálculos mesquinhos não podem se enganar pelas dilações da sua paciência; mas em nada se altera a perfeita integridade da sua justiça que será plenamente realizada nas derradeiras conclusões do seu governo.

É Bom, não só porque é o bem supremo, mas porque sendo o bem supremo, deseja comunicar-se, e liberalizar do seu ser e das suas perfeições benefícios constantemente renovados, e compadecer-se de todas as misérias tanto quanto o permite a sua inalterável natureza.

É, alfim, perfeito, e, por mais perfeito que o concebamos, nunca poderemos assinar limites à sua perfeição. É o Infinito!

Este infinito, senhores, vive, não essa vida comum a todos os seres vivos e que parte de dentro para fora; mas uma vida sem igual cujo movimento parte de dentro e termina dentro; uma vida em que as origens dependem dos princípio, sem que possa afirmar-se que aquelas são posteriores a estes; uma vida que multiplica o número sem quebrar a unidade, as pessoas sem multiplicar a natureza, a família sem dividir nem aumentar a substância. Não mais que um infinito; e todavia são três, Padre, Filho e Espírito Santo, três que subsistem numa mesma essência, e existem com uma mesma existência: as três pessoas são Deus e portanto um só Deus. Eis o dogma dos dogmas, o mistério dos mistérios. Explicá-lo é impossível: ouso apenas narrar o que admiro.

O Pai inacessível é o princípio do movimento vital, a origem da família divina. Vê-se a si mesmo, manifesta a si mesmo a sua perfeição, e o ato pelo qual se vê e se conhece é tão perfeito, que subsiste por isso mesmo que é produzido. O Filho é gerado. Chama-se Verbo, imagem do Pai, esplendor da sua glória, figura da sua substância, porque representa com toda a perfeição possível o princípio donde procede. São dois, contemplam-se, admiram-se, amam-se, e estes dois amores comunicando-se um ao outro encontram-se, e pelo fato de se encontrarem, subsistem num só amor; é o Espírito Santo. Chama-se dom, caridade, bondade, benignidade, suavidade, unção divina.

São três: Padre, Filho, Espírito Santo: distintos pelas relações, pela subsistência, pelas propriedades pessoais; idênticos pela essência, pela substância, pela natureza. Distintos, e toda via um existe no outro; dependentes pela origem, porque o Filho é gerado pelo Padre, o Espírito Santo procede do Padre e do Filho; dependentes pela missão, porque o Padre envia o Filho, o Padre e o Filho enviam o Espírito Santo. Mas, não obstante tudo isto, as três divinas pessoas são perfeitamente iguais. Oh! Vida! Oh! Processões admiráveis! Não se pode dizer que começam, porque são necessárias e eternas; não se pode dizer que saem fora de Deus, porque são imanentes; não se pode dizer que mudam a natureza divina, porque são tranquilas e imaculadas; não se pode dizer que diminuem ou dividem as perfeições, porque são indivisíveis. No seu movimento espontâneo há tanta ordem, tanta beleza, tanta glória e tão acabado cúmulo de todos os bens, que tornam Deus, ser supremo, o supremo bem-aventurado. Oh! Infinito! Eu te admiro cheio de assombro, eu te adoro com o mais profundo respeito!

Eis o infinito, senhores; mas donde está o finito? Procuremo-lo desde já na sua origem eterna. O finito está no infinito, e pode dizer-se que a primeira relação que tem com ele, é o ser conhecido, visto, ordenado por ele, antes de subsistir fora dele. Não podemos dar ao finito o seu nome próprio em quanto permanecer em estado de ideia; porque esta ideia é, substancialmente, a mesma essência divina, e formalmente o que Deus quer manifestar da sua essência na sua obra, por participação e imitação. Unido a esta ideia há um decreto eterno, livre, eficaz, donde depende a existência de todas as coisas. O que é que insta pela execução deste decreto? É a beleza dos mundos que Deus concebe? Arrebatado pelas sublimes harmonias das coisas que vê em si mesmo, julga porventura adicionar algo à sua felicidade fazendo-as passar da ideia à realidade? Não, senhores. Deus seria sempre o supremo bem, ainda que tivesse conservado eternamente no seu seio todos os seres. Mas Deus é bom e deseja comunicar-se porque é o soberano bem; o seu amor impele-o a associar outros seres à sua felicidade: Vai criar.

Vai criar! E dando a outros a existência nada perderá da sua própria. Vai criar! E comunicando o seu ser e a sua perfeição, nem aquele nem esta perderão algo. Vai criar! E por mais que prodigalize os frutos da sua bondade e da sua onipotência, não se confundirá com eles, nada adquirirá deles, será sempre tudo sem eles, e eles nada serão sem Ele.

Criou! Povoa-se o céu, o espaço imenso abre o seu seio, o tempo começa. O Verbo, palavra de Deus, produz o mundo. E a cada palavra que pronuncia sucedem-se os seres, como ondas harmoniosas, cujo movimento, e vida, e beleza, e glória se engrandecem até tocar os limites do mundo angélico. O número, o peso, a medida, distribuem, regulam, determinam todas as perfeições sobre a escala progressiva que une em formoso conjunto estes dois polos da criação: a matéria e o espírito. Que distância entre o grosseiro elemento sujeito a leis inflexíveis e as inteligências puras, cujos coros harmoniosos recebem uns dos outros os raios do eterno Sol!

Mas nesta distância não há abismo algum que não esteja povoado.

As substâncias incorpóreas de que Deus rodeou o seu trono, superiores ao mundo visível pela perfeição da sua natureza e das suas operações, decrescem e diminuem em perfeição desde o mais abrasado serafim até ao mundo dos anjos, aproximando-se das criaturas sobre as quais devem exercer a sua alta e salutar missão. Por outra parte, o átomo saído dos confins do nada, sobe sem cessar transformado sucessivamente pelo movimento e pela vida, até unir-se imediatamente com o espírito, e até ligar e completar num só ser a perfeição do finito.

Este ser, depois de cuja aparição Deus exclama: Todas as coisas são boas, perfeitamente boas, cuncta sunt valde bona, é o homem, laço maravilhoso, concorrência sublime de todas as vidas. Os seus pés estão fixos na terra, mas a sua fronte levantada olha para o céu. É matéria como o mundo que tem sob os seus pés; mas é também espírito como os anjos que descem até ele. Gravita, vegeta e sente; mas também pensa e quer; é livre, conhece a verdade e ama o bem. É medido pelo tempo e pelo espaço, mas participa do eterno, do necessário, do universal, do inteligível. Recebe as impressões do mundo inferior, mas transforma-as, e faz pensar e orar nele todos os seres de que é rei e pontífice. Contempla as coisas que passam, e sente-se arrastado por suas correntes; mas também alimenta em seu coração o desejo e a esperança certa da imortalidade.

Sua imortalidade é a vida no infinito, porque, entendei-o bem, senhores, Deus não abandona o homem aos caprichos do azar e à mercê dum cego destino; convida-o para o seu seio, e para o levar a si, respeitando o seu livre alvedrio, cobre-o com a sua providência, senhora de todos os seus movimentos, que excita com soberana autoridade, e dirige com arte infinita, e o faz caminhar para o fim supremo, onde se consuma juntamente a glória do Criador e a felicidade das criaturas. Deus eleva este fim supremo, por um dom gratuito da sua bondade, acima de todas as legítimas exigências da natureza. Quer ser conhecido, amado, possuído, não nas representações sempre incompletas da sua infinita beleza, mas face a face, tal como é, em todo o esplendor da sua glória e em toda a perfeição da sua essência. Oceano sem praias, quer que a alma humana se engolfe em suas ondas luminosas, para a inebriar com as suas castas e eternas delícias.

Mas para que esta união se possa realizar, é necessário que a natureza sofra aqui uma transformação que a prepare para a sua transformação suprema. A inteligência, o amor, a liberdade, a imortalidade, imagem e semelhança de Deus, não bastam para que o homem, atravessando todas as esferas do infinito, seja um dia consumado no infinito e como que participante da sua vida bem-aventurada. Vem, pois, princípio de toda a vida, de toda a felicidade, vem e faze que a criatura se assemelhe a ti tanto mais, quanto és tu o mesmo que a animas com a graça. A graça, semente misteriosa que transforma o homem num novo ser; a graça, inefável geração que permite ao homem dizer a Deus: “Meu Pai”, porque se torna participante da natureza divina; a graça, dom sobrenatural que penetra a alma e torna imediata e formalmente justa, santa, agradável a Deus, capaz de merecer por suas obras a visão e a posse da eterna beleza; a graça, princípio e raiz de hábitos e de operações divinas; a graça, força, luz, rio sagrado que vai diretamente ao oceano da perfeição; a graça, habitação de Deus na alma; a graça, começo da glória e da eterna beatitude.

Oh, senhores, que fecunda doutrina! Não vos parece que resolve desde já com esplendor incomparável, estas questões que nos torturam: Que é o infinito? Que é o finito? Quais as suas relações? O infinito é o Deus perfeito, autor, motor e consumador de todas as coisas, o finito é a criatura de Deus, essencialmente dependente, não só na sua origem e nos seus movimentos, mas também nos seus destinos. A suma das soluções parece completa, e entretanto, senhores, vós os sabeis, o dogma católico contém outras afirmações que, sob as misteriosas dobras das que acabais de ouvir, mais se aproximam da nossa miséria.

A nossa miséria é o pecado. Começou nos céus pela revolta dos espíritos orgulhosos que pretendiam igualar-se ao Altíssimo, entrou, pelas sugestões destes malditos, na humanidade cuja glória e felicidade invejavam. O pai dos homens perdeu livremente a graça da salvação espiritual e corpórea, bem como os privilégios que devia transmitir aos seus descendentes; e desde então nascemos deserdados e feridos de morte. A nossa fronte despojada do seu diadema inclina-se tristemente sobre a natureza ingrata e rebelde ao nosso domínio; o mundo exterior esforça-se por nos atrair a si; a nossa carne revolta-se contra as altas e puras aspirações do nosso espírito; a nossa liberdade esmorecida rende-se e capitula nesta luta; o dever traído acusa-nos; de justos, felizes, impassíveis e imortais que éramos, tornamo-nos pecadores, miseráveis, condenados ao sofrimento e à morte.

E Deus podia deixar-nos neste estado para satisfazer a sua justiça, podia exercer a sua bondade sobre seres novos e fazê-los entrar gloriosamente no seu plano primitivo contra o qual nos revoltamos. Mas não; a vitória do pecado seria aniquilada pela perfeição divina. Surge um novo plano; não disse bem, senhores, devia dizer: revela-se um desígnio oculto e completa as manifestações da bondade de Deus sobre as criaturas, porque o pecado estava previsto e a economia da redenção decretada nos eternos conselhos. O Verbo Divino, querendo unir-se ao finito para nos fazer compreender a harmonia das perfeições divinas – a sabedoria, a onipotência, a justiça e a misericórdia -, tinha empenhado, desde toda a eternidade, a sua palavra ao Pai celestial.

No mesmo tempo em que o gênero humano se tornava prevaricador, Deus lhe revelava o complemento da sua obra fazendo-lhe aparecer, no futuro das idades, a figura radiante do Verbo encarnado. Os séculos, os espaços, os homens, o mundo, tudo se ordena a Ele. A graça do renascimento e da salvação, que deve substituir a graça original perdida para sempre, depende dos seus merecimentos. À questão: quais as relações entre o infinito e o finito? Foi necessário responder desde então: O finito é purificado, regenerado, santificado, divinizado pelo infinito, vivendo com ele numa só pessoa, Jesus Cristo, Filho único de Deus, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Quarenta séculos de preparações precedem o seu nascimento. As tradições, os oráculos, as maravilhas, os desejos, as virtudes, os crimes, as revoluções, as catástrofes convergem para o seu berço, e quando veio a plenitude dos tempos, o Espírito Santo fecunda, pelas suas castas operações, o seio duma Virgem, e o coro dos anjos canta no céu: Ó terra, eu te anuncio uma grande alegria, hoje nasceu o Salvador do mundo. O Verbo encarnou. “Comércio admirável! Exclama a Igreja, o Criador do gênero humano assume um corpo como o nosso, e nascendo milagrosamente duma Virgem comunica-nos a sua divindade” .

Com efeito, senhores, a Encarnação do Verbo revela-nos o duplo mistério do infinito abatido até à nossa miséria, e o mundo divinizado pela mais íntima união que pode se conceber. Não se trata desse concurso universal que o Senhor da vida presta às criaturas, nem da união moral que se estabelece entre Deus e o justo, cheio de graça; não se trata da confusão de duas substâncias que se penetram para formar uma nova substância, nem da ação circunscrita, transitória, intermitente dum espírito superior sobre um espírito inferior, como na inspiração profética; mas sim da mais perfeita das uniões que Deus pode realizar com uma criatura; trata-se da união profunda, contínua, permanente, sublime, incompreensível da natureza divina com a natureza humana; união que, segundo a expressão do Apóstolo, resume todos os mundos, torna divinas, infinitas, no sentido mais estrito e completo, todas as ações duma natureza finita; união que permite a um filho do homem dizer a um Deus o que lhe diz o Pai que o gerou desde toda a eternidade: Meu filho. União, alfim, em virtude da qual o gênero humano tem direito de dizer ao Filho de Deus: Somos teus irmãos.

Nasceu este amável e pequenino irmão, e, ainda que no seu pobre presepe nos oferece a imagem da maior debilidade e da mais profunda indigência, é rico e possui todas as perfeições. A sua alma, banhada na luz que é a nossa bem-aventurança, vê todos os segredos divinos, a sua ciência não tem aurora, e entretanto parece crescer em sabedoria ao passo que cresce em idade. É a inteligência suprema, e entretanto não quer ensinar ao mundo senão o que o seu Pai lhe ensinou. Vive no meio dos seus, e os seus não o reconhecem, entretanto passa fazendo o bem; a sua onipotência é a humilde serva do seu amor. Está engolfado nas delícias da união divina, entretanto digna-se assumir as nossas misérias, mesmo até a semelhança de pecado. Foi por causa desta semelhança que o Deus que o ama como a si mesmo o fere sem piedade. Sofre, chora, geme, queixa-se, enchem-no de ignomínias, sua sangue por todos os poros do seu corpo sacrossanto, é cravado numa cruz infame; morre amaldiçoado e desonrado: Consummatum est: Tudo está consumado. As perfeições divinas brilham no coração martirizado do Filho de Deus, como um fogo amortecido, desde largo tempo, pelos nossos crimes; a sabedoria e a onipotência, reveladas por obras indizíveis, conciliam a justiça e o amor compassivo; o gênero humano está salvo, e Jesus Cristo, seu Salvador, é para sempre o seu Senhor, o seu rei, a sua vida.

Assim como Deus não abandona o mundo que criou, assim também o Homem-Deus não deixa entregue aos seus caprichos o mundo que regenerou. Governa-o, é o seu reino, reino cujos elementos preparou durante a sua vida mortal, e ao qual pôs o selo do Espírito Santo; vivifica-o, é o seu corpo. Ainda que sentado no céu à direita de seu Pai, Jesus Cristo está presente na sua Igreja. A soberania e a autoridade infalível do Chefe está representada nesta Igreja santa, católica e apostólica; e a torrente purpúrea do seu sangue corre de forma superabundante na mesma Igreja. Jesus Cristo informa os nossos passos no caminho da verdade e da lei, enquanto que invisivelmente nos comunica, como a cabeça aos membros do corpo, as correntes da vida. Anima-nos, comunica-nos a plenitude da graça, apodera-se do princípio das nossas ações, das nossas próprias ações, transforma-as, apropria-se delas e imprime-lhes o selo da divindade. Somos n’Ele um mesmo corpo, cujos membros estão, dum modo sublime, numa perpétua comunhão de orações, de boas obras e de merecimentos; do céu à terra, da terra aos abismos onde os justos esperam a hora do seu resgate.

Por meio de sinais sensíveis, sagrados e eficazes, Jesus Cristo, cabeça da humanidade cristã, chama a si os seus membros, e dá-se-lhes a conhecer. Uma matéria humilde se une às palavras, e eis o sacramento; a vida divina precipita-se na alma desde que o sinal se põe em contato com o corpo. Um sacramento faz-nos nascer para a graça, outro nos comunica os encantos e o vigor da adolescência espiritual. Um sacramento nos alimenta, outro nos purifica das nossas faltas, um outro apaga as culpas até às últimas relíquias, e nos prepara a entrada tranquila na eternidade. Um sacramento dá à sociedade espiritual o seu chefe, o seu rei: o sacerdote; um outro santifica as fontes da vida, e enche a sociedade temporal de famílias segundo o coração de Deus.

São sete como as cores da luz, sete como as notas da música; mas o sacramento central onde real e substancialmente reside o eterno Sol, o Verbo por meio do qual Deus canta as suas perfeições infinitas, ordena a si todos os outros, já como preparação, já como simbolismo. A Eucaristia é como que a nota dominante que modula a escala misteriosa dos signos divinos.

Assim é que chegamos ao termo da nossa peregrinação sobre a terra; ainda ali se nos apresenta o Homem-Deus, Jesus Cristo. É Ele o vencedor da morte; o Sol da vida que projetará a sua luz até ao fundo de todos os sepulcros humanos, reunirá o pó disperso dos nossos corpos e lhe comunicará a virtude da própria ressurreição. É ele que nos ensinará a cantar esta formidável sátira das supremas derrotas da morte: O mors, ubi est victoria tua? O mors, ubi est stimulus tuus? Ó morte, onde está tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ele presidirá ao nosso juízo e pronunciará a nossa sentença, levará aos céus os benditos de seu Pai, e condenará os malditos aos suplícios eternos. Ele reunirá num lugar todas as gentes espalhadas pela superfície da terra, para uma palingenesia gloriosa, revestirá suas almas duma luz indefectível e torná-las-á dignas moradas, e para sempre, dos nossos corpos ressuscitados e imortais. Ele entoará este grito triunfal, eternamente repetido pelos inumeráveis exércitos dos escolhidos. Louvado seja Deus: Alleluia.

Eis aqui, senhores, todo o dogma católico. Recolhei-vos por instantes, eu vo-lo suplico, antes de ouvirdes as conclusões que vou deduzir da consideração deste maravilhoso conjunto. Prometo-vos que será breve.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

São Jerônimo e a Virgindade de Maria

Por Emmanuel-Marie O.P.

Encontramos já no final do quarto século um certo Helvidius atribuindo outras maternidades à Virgem. Segundo ele, Maria deixou de ser virgem após o nascimento de Jesus.

Não se conhece as elucubrações deste Helvidius a não ser pela refutação feita por São Jerônimo no tratado chamado Adversus Helvidium, e através de menções que ele fez em seu comentário ao primeiro Evangelho.
Explicando, por exemplo, o texto de São Mateus 13, 55-56 (“Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?”), São Jerônimo declara: “Em Jesus Cristo, eles (os judeus, e depois os hereges) viam apenas um homem, e pensavam que ele era filho de um carpinteiro. Vos espanta que eles se enganassem sobre os irmãos quando se enganam sobre o pai? Esta questão foi exaustivamente exposta em meu opúsculo contra Helvidius”[1]

E, um pouco antes, no verso “Eis aqui minha mãe e meus irmãos” (Mt 12, 49), ele afirma: “É minha mãe quem me gera a cada dia na alma dos fiéis, são meus irmãos quem faz as obras de meu Pai. Portanto, Jesus não negou sua mãe, como pretendem Marcião e Manes para que se pudesse crer que o que nasceu foi um fantasma, mas ele colocou os seus apóstolos antes da parentela para que nós também, quando tivermos que colocar as afeições na balança, prefiramos o espírito em relação à carne. Tua mãe e teus irmãos te procuram. Alguns, baseando-se em divagações dos apócrifos (sequentes deliramenta apocryphorum), supõem que o Senhor tinha irmãos, filhos de José com uma outra esposa, e imaginam uma certa boa mulher chamada Escha (quandam Escham mulierculam configentes). Mas, e sobre isto trata nosso trabalho contra Helvidius, nós compreendemos que estes irmãos do Senhor não eram filhos de José, mas os primos e primas do Salvador, filhos de Maria, tia materna do Senhor, que é a mãe de Tiago o Menor, José e Judas, assim como vemos em outra passagem do evangelho[2]. Os primos são chamados de irmãos, coisa que toda a Escritura demonstra[3]”.

1 — Adversus Helvidium, PL 23, 188 a, 196 c.
2 — Voir Mc 15, 40 et par. ; Jn 19, 25.
3 — Commentaire sur saint Matthieu, Sources Chrétiennes 242, p. 262-263.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Maria permaneceu sempre virgem

Por Irmão Emmanuel-Marie O.P., Le sel de la terre nº 41

É impossível que Jesus tenha tido irmãos e irmãs no sentido estrito da palavra, uma vez que os Evangelhos afirmam claramente a virgindade perpétua de Maria, sua mãe, e que este é um dogma de fé atestado desde os primórdios da Igreja através do consentimento unânime de toda a Tradição.
Mateus afirma que Maria concebeu pelo Espírito Santo [antes] de viver junto com José (Mt 1, 18), afirmando que ainda não haviam se conhecido (no sentido conjugal) [até que] ela deu à luz um filho (Mt 1, 25). Mas estas observações escritas para enfatizar o milagre da intervenção divina na concepção de Jesus não implicam que Maria e José a partir de então viveram o caminho comum dos casados e que Maria teve outros filhos. O reconhecimento de determinado estado antes deste ou aquele evento não implica, por si só, que deve ser outro o estado após este evento.

Ademais, se compararmos os vários textos do Evangelho relacionados com a concepção e nascimento de Jesus, fica claro que Cristo era seu único filho.

No relato da Anunciação, a Virgem objeta ao anjo que lhe fez o anuncio: "Como se fará isso, pois não conheço homem?" (Lc 1, 34). Esta bem formulada pergunta pressupõe que Maria deseja a todo preço permanecer virgem. E isso é tão verdadeiro que, para descartar esse incômodo argumento, alguns críticos não hesitaram em rejeitar a autenticidade deste verso [COMENTÁRIO MEU: Assim como alguns rejeitam a autenticidade de versos que atestam a Divindade de Cristo. Eles pressupõem que milagres não podem acontecer e já descartam este fato, assim como ALGUNS protestantes pressupõem erroneamente que isso seria exaltar demasiadamente Maria, e já descartam qualquer obra que Deus tenha feito em sua vida].

Por outro lado, o texto da Infância de Cristo, especialmente o episódio do reencontro de Jesus no Templo (Lc 2, 40-52), mostra que havia apenas um Menino com Maria e José, doze anos após o nascimento em Belém. A lenda dos irmãos e irmãs de Jesus não se sustentam com os fatos.
Jesus ainda é chamado por seus compatriotas “o filho de Maria” (Mc 6, 3). Se abstrairmos as razões providenciais para esta expressão, que sublinham a ausência de paternidade terrena e, portanto, a singular e miraculosa geração de Cristo, deve-se notar que esta pergunta é surpreendente no contexto antigo onde as afiliações eram feitas através de menções ao pai (Ex: Mt 16, 17; Mc 1, 19). Entretanto, esta referência justifica-se pela morte do pai e quando a viúva não tinha outro filho (Assim como o jovem falecido de Naim, que é designado como "filho único de sua mãe, que era viúva" Lc 7, 12). Esta expressão pode ser considerada como um indicativo de que, por um tempo considerável, Jesus foi conhecido em sua região como o único filho de uma viúva.
Finalmente, o fato de Jesus agonizante ter confiado sua mãe a João, e que, "dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa" (Jo 19, 26-27) só pode ser explicado se Cristo a tenha deixado sem irmãos carnais.

A expressão “seu filho primogênito”
Quanto ao termo “primogênito” (prwtovtokos) relatado por São Mateus (1, 25) e Lucas (2, 7), isso não implica que houve outros, ao contrário do que os críticos da virgindade perpétua de Nossa Senhora querem dizer. Significa apenas que Jesus era o primeiro filho de Maria e teve, portanto, de acordo com a Lei Mosaica, que ser apresentado ao Senhor e resgatado certo tempo após o nascimento (Num 8, 17; 18, 15-16).

Na Lei de Moisés, o termo “primogênito” significa simplesmente a primeira criança do sexo masculino “que abre a madre”, sem presumir a existência ou a esperança de outros. É uma tradução da palavra hebraica bekhor, que significa “primícia” (Ex 11, 5; Dt 15, 19; Nm 10, 36; LV 2, 14). Todos os primogênitos (esta lei inclui até mesmo os animais) “pertencem a Deus”, porque, diz o Senhor, "todo primogênito entre os israelitas, homem ou animal, é meu, eu os consagrei a mim no dia em que feri os primogênitos no Egito" (Nm 8, 17)

É sob esta mesma lei que os levitas foram “atribuídos” a Javé. Os levitas, de fato, foram “substitutos para aqueles que abrem a madre da mãe, o primogênito de todos”, eles “tomaram o lugar dos primogênitos dos israelitas” que Deus tinha reservado a si (Nm 8, 16-17; Nm 3, 45-51).
Fica claro, então, que é fazendo referência ao resgate legal que os evangelistas chamam Jesus de “primogênito” da Virgem. Entretanto, em relação a Cristo, o termo também evoca uma primogenitura de uma ordem diferente da carnal, bem superior a esta, sobre a qual São Paulo declara que Cristo é o “primogênito de toda a criação, pois nele que todas as coisas foram criadas” (Col 1, 15-16). “Primogênito dos mortos, [...] porque Deus quis habitar nele toda a plenitude da divindade” (Col 1, 18) e porque é, por sua própria ressurreição, “primícia” dos ressuscitados; “primeiro entre muitos irmãos”, isto faz referência a quem Deus predestinou para fazer imagem de seu Filho, os quais chamou, justificou e glorificou após seu Cristo (Rm 8, 29-30).

São Jerônimo, em seu comentário a Mateus 1, 25, dá a mesma explicação: “De acordo com esta passagem, diz ele, alguns suspeitam, o que é o cúmulo da perversão, que Maria também teve outro filho. Eles dizem se emprega o termo primogênito a quem tem irmãos. Mas as Santas Escrituras referem-se geralmente aos primogênitos não como aqueles que tiveram outros irmãos, mas ao primeiro nascido” (Saint Jérôme, Commentaire sur saint Matthieu, Livre I, dans : Sources Chrétiennes nº 242 (traduction Émile Bonnard), Paris, Cerf, 1977, p. 81-83.). Esta interpretação foi confirmada pela descoberta no Egito de uma inscrição judaica do reinado de Augusto: o epitáfio de uma mãe que morreu no nascimento de sua “criança primogênita” (prwtovtokou tevknou). É óbvio que nenhum outro poderia nascer da mãe morta (Ver o artigo do padre FREY em Biblica, 1930, p. 385-390.)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Aproveite!

"Não foi somente a imprensa católica que prestou tributo à santa vida e nobres propósitos do Papa morto. “Todos os homens que possuem verdadeira estima e honrem a santidade pessoal”, disse o The Times, “unir-se-ão à Igreja Católica Romana em seu luto pelo Pontífice perdido. A política de Pio X possui muitos críticos, e nem todos eles estavam fora da Igreja governada por ele, mas ninguém sequer questionou a transparente honestidade de suas convicções ou recusa-se a admirá-lo pelas suas virtudes sacerdotais. Vindo do povo, ele amou-os e compreendeu-os como somente um pároco pode fazer. Esse foi o segredo do..." Aproveite a promoção!


terça-feira, 2 de maio de 2017

Refutando as mentiras contra a Inquisição

Muitos tentam usar a Inquisição como um fator a ser pesado contra a Igreja Católica. Entretanto, a maioria dos que a usam ou são completos desconhecedores do assunto ou são falsários desonestos. Eis um texto interessante de Jacques-Marie-Louis Monsabré que demonstra a falsidade destas acusações:

***

A Inquisição não pode ser uma arma perigosa contra o catolicismo, a não ser que provasse que a Igreja, abusando do seu poder legislativo e coercitivo, ordenara atos bárbaros e monstruosos, tão contrários à lei natural como ao espírito evangélico, e que deste modo errara gravemente na direção geral dos costumes cristãos. Para provar isto, os inimigos da religião obstinam-se em confundir a própria instituição do tribunal eclesiástico com o uso que dele se fez na Espanha, e, mercê a esta confusão, criaram e conservam uma multidão de prejuízos, que aparecem até no espírito daqueles que se dizem sinceramente cristãos.

Um exame sério e imparcial da Inquisição na Espanha destrói este processo desleal. Basta ler os decretos reais, para nos convencermos que a Inquisição Espanhola era um tribunal intimamente ligado com o despotismo político.

“Crê-se que o tribunal da Inquisição era puramente eclesiástico, diz Mr. de Maistre... É um erro. Era um tribunal puramente real; era o rei quem designava o Inquisidor geral, e este quem nomeava os inquisidores particulares com anuência do rei. O regulamento constitutivo deste tribunal foi publicado no ano de 1484, por Torquemada, de harmonia com o rei. Isto foi formalmente confessado pelas cortes ultra-liberais de 1812: ‘Os reis rejeitavam sempre os conselhos que lhes davam contra este tribunal, porque são em todos os casos os senhores absolutos de nomear, suspender ou reconduzir os inquisidores’. Assim, no seu testamento, Carlos V, muito autocrata, recomenda com instância a Inquisição ao seu sucessor, a fim de que possa cumprir os seus deveres de soberano”.

Depois de citar estes testemunho, Mgr. Hefelé acrescenta: “Os estatutos que, em 1484, foram dados à Inquisição, indicam de si a justiça dos assertos que acabamos de citar a respeito do caráter político da mesma Inquisição, e provam indubitavelmente, que era realmente uma instituição do Estado. Com efeito, encontram-se a cada passo as seguintes expressões: Suas Altezas(Fernando e Isabel) querem, ordenam; Suas Altezas perdoam; não é a vontade de Suas Altezas; tal é a ordem dos Príncipes sereníssimos; o Rei e a Rainha acham bem: etc., etc., ao passo que nunca de faz menção do poder eclesiástico, da sua vontade nem das suas ordens.

A Inquisição de Portugal era igualmente considerada pelo governo deste país como uma instituição política, como vemos da lei de 20 de março de 1790, sendo ministro de D. José I o Marquez de Pombal. Nessa lei diz-se: “Eu El-rei faço saber aos que este alvará virem: que eu fui informado, de que ao mesmo tempo em que todos os Tribunais de que se compõem Minha Corte, como depositários da Minha Real Jurisdição, ou seja contenciosa ou seja voluntária, em razão de representarem vivamente no exercício uma e outra Jurisdição a Minha Real Pessoa; expedindo no Meu Nome as causas, e Negócios das suas respectivas inspeções, foram sempre, e são tratados por Majestade; e que sendo o Conselho Geral do Santo Ofício um dos tribunais mais conjuntos e imediatos à Minha Real Pessoa, pelo seu instituto e ministério; se introduziu o abuso de se lhe dar o tratamento, que compete ao seu Presidente como se pratica com o Senado da Câmara de Lisboa, que representa o Congresso do Povo, e isto sendo de mais a mais do Meu Conselho todos os Deputados, que constituem o Corpo do mesmo Conselho Geral; exercitando nele a Minha Real Jurisdição, não só para os procedimentos Criminais, e extremos contra todos, os que delinqüirem contra a Religião, mas também para a expedição das Causas Cíveis dos Privilegiados que gozam do seu foro; constando, aliás, que o sobredito foi um dos meios com que as intrigas dos Denominados Jesuítas pretenderam deprimir a autoridade do dito tribunal do Santo Ofício. E querendo Eu abolir um tão estranho abuso: Hei por bem Ordenar que ao dito Conselho Geral se fale, escreva e requeira por Majestade; como se praticou sempre inalteravelmente com os dois Tribunais da Mesa da Consciência, e Ordens, a Bula da Cruzada pelo exercício e concurso de ambas as duas Jurisdições: e que sem este tratamento não se responda, nem defira a Carta, ou Requerimento algum, tendo entendido o mesmo Conselho Geral que as Causas e Negócios pertencentes à Jurisdição Temporal de que lhes foi cometido o exercício, devem ser expedidos no Meu Real Nome, como o praticam os dois Tribunais assim referidos, e todos os mais da Minha Corte.

Pelo que: mando ao Conselho Geral do Santo Ofício; à Mesa do Desembargo do Paço; Real Mesa Censória; Regedor da Casa da Suplicação; Governador da Relação e Casa do Porto; Desembargadores das ditas Casas; Conselhos da Minha Real Fazenda e do Ultramar; Mesa da Consciência e Ordens; Senado da Câmara e a todos os Corregedores, Provedores, Ouvidores, Juízes, Justiças, Oficiais e mais Pessoas dos Meus Reinos e Senhorios, que cumpram e guardem este Meu Alvará, como nele se contém, e lhe façam dar a mais inteira e plenária observância. E valerá como Carta passada pela Chancelaria, ainda que por ela não há de passar, e posto que o seu efeito haja de durar mais de um e muitos anos, não obstante as Ordenações em contrário, que derrogo para este efeito ficando aliás sempre em seu vigor. E se registrará em todos os lugares, onde se registram semelhantes alvarás, mandando-se o Original para o Meu Real Arquivo da Torre do Tombo. Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda a 20 de maio de 1790. Com Assinatura de El-Rei e a do Ministro”. (Coleção de leis portuguesas, Lisboa, 1829, tom. II, p. 397).

Não é, pois, possível a confusão, tanto que os Papas não cessaram de protestar contra as tendências políticas e excessos da Inquisição Espanhola, quer declarando sub-reptícia a bula obtida pelos reis para a instituição deste tribunal, quer censurando abertamente os seus rigores exagerados, quer instituindo juízes de apelação para examinar e cassar as sentenças reais, quer absolvendo os que tinham sido condenados. Fernando e Isabel, na sua pragmática de 2 de agosto de 1498, queixam-se nestes termos: “Algumas pessoas condenadas como heréticas pelos Inquisidores ausentaram-se dos nossos reinos e foram para outros, onde, por meio de falsos relatórios e formalidades indevidas, obtiveram sub-repticiamente isenções, absolvições, comissões, seguranças e outros privilégios, a fim de se eximirem das condenações e apenas em que incorreram e permanecem nos seus erros, o que todavia não os impede de procurarem voltar a estes reinos; por isso,  querendo extirpar um tão grande mal, avisamos àqueles condenados que não tenham a ousadia de voltar. Que não voltem aos nossos reinos e senhorios, por nenhum caminho, de nenhum modo, por nenhuma causa ou razão qualquer, que seja, sob pena de morte e perda de seus bens, na qual pena queremos e ordenamos que incorram por este mesmo fato; um terço dos bens será para a pessoa que os denunciar, outro terço para a justiça, o terceiro para nossa Câmara”.

É evidente, segundo estes documentos autênticos, que a instituição eclesiástica não é de modo algum responsável do que se pode censurar à Inquisição Espanhola, e que as censuras dirigidas à Igreja, por causa desta Inquisição, são injustas.

Mostramos qual o espírito da Igreja na repressão. Para que sejamos justos, diremos que a Inquisição Espanhola não é tão negra como a pintam os seus detratores, gentes pouco sérias e cujo retrato traçamos repetindo as palavras de Balmes (Vid. Conf. 58ª, 2ª parte). Mgr. Hefelé, no consciencioso capítulo que consagra a este tribunal (Le Cardinal Ximenes, cap. XVIII), atenua consideravelmente as acusações contra ele, servindo-se, principalmente, das confissões do seu principal acusador, Llorente.

E de mais, não é verdade que os reis da Espanha imaginaram a Inquisição unicamente para assegurar o triunfo do absolutismo. Era nas mãos do governo um meio de fazer prevalecer a nacionalidade espanhola na sua luta contra o judaísmo e islamismo. Assim, a Inquisição ainda que detestada pelas primeiras leis do Estado, era extremamente popular, a ponto de que toda a cidade de Saragoça se levantou quando o inquisidor Pedro d’Ambues foi assassinado, chegando o tumulto a tomar tais proporções que só o arcebispo o pôde apaziguar depois de ter prometido à multidão que os assassinos não escapariam aos rigores da justiça.

Felipe II, o mais caluniado soberano da Espanha, não era tão despótico como aí se apresenta. Fiel às recomendações de seu pai Carlos V, estava sumamente empenhado em preservar os seus estados da invasão do protestantismo. Ora “o resultado da invasão do protestantismo na Espanha, diz Balmes, teria sido, como nos outros países, a guerra civil; e esta guerra ter-nos-ia sido muito mais fatal que a outro povo, porque as nossas circunstâncias eram infinitamente críticas. A unidade da monarquia espanhola não poderia resistir às perturbações e estragos de uma dissensão interna; as suas diversas partes eram tão heterogêneas entre si e tão pouco ligadas umas às outras que o menor abalo bastaria para quebrar a ligação. As leis, os costumes dos reinos de Navarra e Aragão diferiam extremamente dos de Castella; um vivo sentimento de independência, entretido pelas freqüentes reuniões das suas cortes particulares, abrir-se-ia no coração destes povos indomáveis; aproveitar-se-iam certamente da primeira ocasião para sacudir um jugo aceite de má vontade. A monarquia ver-se-ia miseravelmente fracionada, no tempo em que era necessário cuidar dos negócios da Europa, da África e da América. Estávamos ainda em presença dos mouros; os judeus ainda não tinham tempo de se esquecer da Espanha; certamente uns e outros, para se levantarem ,se teriam aproveitado das nossas discórdias. Da política de Felipe II dependia não somente a tranqüilidade, mas talvez a existência da monarquia espanhola. Todavia, acusam aquele príncipe de tirano; se ele procedesse de outro modo acusá-lo-iam de incapaz”.

2º Não é verdade que a Inquisição Espanhola tivesse por ofício obrigar os mouros e os judeus a mudar de religião. Perseguia os apóstatas que depois de batizados voltavam ao judaísmo ou ao islamismo e, sobretudo, os judaizantes, isto é, os que hipocritamente faziam profissão da fé cristã em público e, em segredo, praticavam o judaísmo, tornando-se cúmplices de todos os crimes que o povo acusava os seus correligionários.

3º Não é verdade que a Inquisição Espanhola inventasse torturas extraordinárias para castigar os hereges. Pelo contrário, procurava mitigar os cruéis processos da justiça de então. O próprio Llorente confessa que, ao passo que as prisões eram em toda a Europa masmorras negras e úmidas, verdadeiros focos de infecção, onde se respirava uma ar fétido e pestilencial, os presos da Inquisição tinham casas bem ventiladas e com luz onde se podiam mover. Os presos da Inquisição não eram algemados, nem lhes eram postas coleiras de ferro. Perguntava-se aos presos da Inquisição se o carcereiro os tratava bem, e havia todo o cuidado para com os enfermos. Não se permitia, contrariamente ao costume usado nos tribunais civis, que fosse repetida a tortura no curso do mesmo processo.

4º Não é verdade que a Inquisição Espanhola fosse um monstro insaciável, sempre prestes, à primeira suspeita, para se cevar nas suas vítimas. Concedia, como todos os tribunais deste gênero, três admoestações. Ordenava que os filhos dos hereges fossem tratados com bondade, ainda mesmo depois de expirarem os tais prazos de espera; que ninguém fosse preso se num excesso de cólera blasfemasse de Deus. Se alguém era acusado de propósito como herético, consultavam-se os médicos para ver se os seus discursos seriam efeito de uma doença mental. Exigiam que os juízes estivessem de acordo para prender alguém, e ninguém era preso sem que o seu crime fosse evidente.

5º Não é verdade que a Inquisição Espanhola procurasse, nos processos, não tanto a verdade como a ocasião de condenar o acusado, e que empregasse todos os ardis para punir os próprios inocentes. Os seus estatutos (1496, art. 8) impunham castigo público às falsas testemunhas tanto de defesa como de acusação; recomendavam aos inquisidores que desconfiassem do acusador tanto como do acusado, e que tratassem este com benevolência; permitiam ao acusado escolher um procurador entre os advogados do Santo Ofício, e exigiam dele juramento de guardar segredo e defender sincera e lealmente o seu cliente (Art. 23). Se o acusado era pobre, o advogado era pago pelo fisco. O acusador devia também prestar juramento de que não era levado por nenhum sentimento de ódio, e ameaçavam-no com penas gravíssimas se se tornasse culpado de calúnia. Os processos verbais eram lidos duas vezes ao acusado em presença de duas testemunhas eclesiásticas. Enfim, era ordenado aos inquisidores que procurassem diligentemente tudo que podia desculpar o acusado e, terminado o processo, deviam perguntar ao acusado se queria que se procedesse a novas diligências.

6º Não é verdade os inquisidores espanhóis condenando os acusados apresentassem despesas enormes para se apossarem dos seus bens. Havia todos os trimestres contas rigorosas, e os bens confiscados eram para o tesouro. Por mais de uma vez, os inquisidores, de harmonia com as instruções da Santa Sé, tiravam ao fisco uma presa com que contava, a fim de que os bens confiscados fossem empregados na glória de Deus e, em particular, nas despesas da guerra nacional contra os mouros (1º Estatuto de Torquemada, 1494).

7º Finalmente, não é verdade que a Inquisição Espanhola condenasse à morte um número incalculável de hereges. A cifra de 30.000 vítimas de Llorente, no espaço de trezentos anos, é o resultado de um cálculo de probabilidades que não tem fundamento em nenhum documento particular ou oficial. Para Llorente basta um dado qualquer, às vezes incerto, para estabelecer as cifras segundo a maior ou menor importância. De mais, sabe-se que Llorente queimou peças autênticas de processos, sem dúvida para que não fosse contraditado nas suas apreciações. Apesar disso traiu a sua má fé. Se o cálculo de Llorente fosse verdadeiro, seria necessário subtrair dele as condenações por blasfêmia contra Deus, a magia, a usura, o contrabando de guerra, a bigamia, a libertinagem contra a natureza, a sedição contra o Santo Ofício, o que reduz consideravelmente o número dos hereges.

Apesar destas atenuações importantes da acusação de fanatismo, de injustiça, de crueldade, de barbaridade, de infâmia contra a Inquisição Espanhola, não é nossa intenção defender todos os seus atos e dizemos com Balmes: “Sem desprezar as circunstâncias excepcionais em que esta instituição se encontrou, penso que teria feito muito melhor, a exemplo da Inquisição de Roma, evitar, tanto quanto possível, a efusão de sangue. A Inquisição podia perfeitamente velar pela conservação da fé, prevenir os males de que a religião estava ameaçada pelos mouros e judeus, preservar a Espanha do protestantismo, sem desenvolver esse rigor excessivo que lhe mereceu graves censuras, admoestações da parte dos soberanos Pontífices, provocou reclamações dos povos, foi causa de que tantos acusados e condenados apelassem para Roma, e forneceu aos adversários do catolicismo um pretexto para tachar de crueldade, uma religião que tem horror à efusão de sangue. Repito, a religião católica não é responsável por nenhum excesso que em seu nome se possa cometer; e, quando se fala de Inquisição, não se deve considerar principalmente a da Espanha, mas a de Roma. Lá onde reside o Soberano Pontífice, onde se sabe como deve ser entendido o princípio da intolerância, qual o uso que dele se deve fazer, é também onde a Inquisição foi doce e indulgente ao extremo. Roma é o lugar do mundo onde a humanidade menos sofreu por motivos de religião. Ora, falando assim, não excetuo nenhum país, não só aqueles que não tiveram Inquisição como aqueles onde existiu, tanto os países católicos como os protestantes. Este fato incontestável, basta para fazer compreender a todo o homem de boa fé qual é, nesta matéria, o espírito do catolicismo”. (Cf. Hefelé, Le cardinal Ximenes, cap. XVIII; Balmes, Le protestantisme compare au catholicisme, cap. XXXVI e XXXVII, e nota 9).

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Os dogmas impedem a reflexão?

Excelente texto de Jacques-Marie-Louis Monsabré:

Tudo vai bem até aqui. A afirmação da Igreja, expressa pela fórmula dogmática, vai adiante das nossas necessidades intelectuais e atende às nossas fraquezas; mas respeitará ela as nossas grandezas? Fixado o dogma, não contraria ele a natural tendência de todos os conhecimentos humanos para o progresso? Impondo ao espírito humano uma fórmula seca que é necessário crer, não lhe proíbe o ter consciência do ensino que lhe subministrou? Imobilizando uma ordem de conhecimentos que é impossível rejeitar, não constrói ela uma espécie de dique que detém as evoluções das outras ciências?

Senhores, nada mais fácil de responder a estas questões de que tanto se tem abusado, em nossos dias, para tornar suspeito o governo intelectual da Igreja. Poderíamos escrever volumes; espero contentar-vos com poucas palavras.

Desde o século V que se suscitou a questão do progresso em face da imutabilidade do dogma, e eis como foi resolvida por um homem verdadeiramente sábio: “Que há um progresso, um grande progresso na Igreja de Cristo, escreve São Vicente de Lerins, coisa é que nenhum homem pode negar, por mais inimigo que seja de Deus e de seus semelhantes. Trata-se do verdadeiro progresso e não de mudança na fé. Dá-se progresso quando uma coisa se desenvolve em si mesma, mudança quando se torna noutra que não era... A religião das almas deve imitar a natureza dos corpos, que, com os anos, se desenvolvem sem deixarem de ser o que eram. Há, certamente, uma grande diferença entre a infância e a velhice, e, todavia, o velho é o mesmo homem que o adolescente. Ainda que o estado do homem mudasse aparentemente, permanece sempre o mesmo na sua natureza e na sua pessoa... A doutrina da Igreja obedece, pois, a esta lei de progresso, fixa-se, desenvolve-se, aprofunda-se, à medida que os tempos correm; mas subsiste sempre uma, pura, incorruptível... Estudam-se os dogmas tradicionais, aumentam em evidência, em demonstração e clareza científica, mas nada perdem da sua integridade[1].”