quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O que é a Crítica Textual?

Wilson Paroshi

A ciência que procura reestabelecer o texto original de um trabalho escrito cujo autógrafo [1] não mais exista é denominada crítica textual. Conhecida nos meios seculares por ecdóica [2], sua aplicação não se restringe ao NT, sendo extensível a qualquer peça de literatura cujo texto original tenha sido eventualmente alterado no processo de cópia e recópia, sobretudo antes da invenção da imprensa no século XV. Por sinal, os princípios metodológicos são basicamente os mesmos, exceto, obviamente, aqueles relacionados a características e circunstâncias particulares, se bem que tais exceções muitas vezes podem assumir um papel determinante. [3]

Quanto ao material com que trabalham os críticos textuais, este inclui, no caso específico do NT, não somente as cópias manuscritas dos livros apostólicos na língua original, o grego, mas também antigas versões, bem como citações de passagens bíblicas de antigos escritores. A prática da crítica textual, portanto, exige um conhecimento especializado dos diferentes manuscritos [4] e das respesctivas famílias textuais, conhecimento da paleografia grega e do cânon crítico [5], além do vocabulário e da teologia do autor cujo livro se examina. Só assimserão exequíveis a reconstituição da história do texto sagrado da forma mais completa possível e a consequente edição de um texto que busque refletir com exatidão os termos do original.

Visto ser necessário o estabelecimento de um texto confiável antes de passar a outros estudos, a crítica textual costumava a ser chamada de baixa crítica, como que a representar os níveis primários na estrutura do estudo crítico, em contraposição à alta crítica [6], que estuda os problemas de composição, incluindo-se o autor, a data, o lugar e as circunstâncias em que foi escrito o material em questão. Es expressões “baixa crítica” e “alta crítica”, porém, têm dado margem a objeções por parecerem indicar diferentes graus de importância. Em vista disso, em tempos recentes têm sido substituídas respectivamente pelas expressões “crítica textual” e “crítica histórica”, que melhor descrevem a natureza e os objetivos de ambas as ciências. [7].

Talvez convenha destacar ainda que a crítica bíblica, como tal, incluindo-se a textual e mesmo a histórica, não significa propriamente essa ou aquela opinião, nem representa esse ou aquele grupo de opiniões formuladas em relação à Palavra de Deus. Significa, sim, um temperamento, atitude ou disposição intelectual que se move na direção da verdade desconhecida, mas conhecível, com respeito e devoção e livre de preconceitos ou pressuposições estranhas às Escrituras Sagradas. Isso não significa, todavia, que tenha sido sempre assim. Grandes abusos já foram cometidos por muitos dos que se engajam nesse tipo de trabalho, por estarem repletos de ideias preconcebidas contra o cristianismo tradicional e seu conteúdo teológico. A crítica bíblica, porém, quando devidamente aplicada, está a serviço da fé, com o objetivo de descobrir, tanto quanto possível, seus fundamentos racionais e verdadeiros e assim fazê-los passar de “presunções religiosas” a “certezas científicas”. [8]

Definição do problema

Quando lemos hoje o NT, será que de fato estamos lendo aquilo que Lucas, João, Paulo e os outros autores escreveram tantos séculos atrás? Não teria a ordem de Cristo em Apocalipse 22.18 e 19, proibindo qualquer alteração no texto desse livro, sido contrariada com relação tanto ao próprio Apocalipse quanto aos demais livros do NT? Tais perguntas não se destinam meramente a levantar dúvidas quanto aos documentos em que baseamos a fé, mas a chamar-nos a atenção sobretudo para o tipo e o tamanho do problema com que lida a crítica textual. E tal problema torna-se ainda mais evidente quando nos lembramos, em primeiro lugar, de que todos os autógrafos do NT desapareceram por completo e mais nenhuma colação [9] com eles pode ser possível.

De fato, seria extraordinário poder ir a uma biblioteca ou museu e ver, por exemplo, uma das cartas de Paulo tal como a ditou ou mesmo escreveu. Seria por demais emocionante encontrar o autógrafo de Gálatas e ler na última página: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” (Gl 6.11; cf. Rm 16.22; 1Co 16.21; Cl 4.18), ou ver ainda como era a assinatura com que o apóstolo terminava suas epístolas (veja 2Ts 3.17). Mas que emocionante, porém, o acesso aos originais do NT serviria principalmente para colocar a autenticidade dos escritos sagrados do cristianismo acima de toda e qualquer suspeita. Mas isso não é possível, e as oportunidades de ainda vir a acontecer, acredito serem reduzidas ao mínimo.

A razão para a perda prematura dos autógrafos neotestamentários certamente foi a pouca durabilidade do material em que, conforme o uso da época, escreviam-se livros e cartas: o papiro, o qual não era mais durável que nosso moderno papel. Muito provavelmente, os mss. Originais do NT foram lidos e relidos pelos cristãos apostólicos até se desfazerem por completo e literalmente caírem aos pedaços. Seja como for, perderam-se todos. Providencialmente, porém, antes que se tornassem ilegíveis ou desaparecessem, foram copiados. Isso leva-nos ao segundo fator que evidencia a seriedade do problema em questão: os erros introduzidos no texto mediante o processo de cópias manuais.

As cópias dos autógrafos, por sua vez, converteram-se em originais no que diz respeito a outras cópias, e assim sucessivamente. Durante esse processo de cópias e recópias manuais, que se estendeu por 14 séculos até a invenção da imprensa, inevitavelmente muitos e variados erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade humana. E, à medida que aumentavam as cópias, mais se multiplicavam as divergência entre elas, pois cada escriba acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo escriba anterior. E essas variantes textuais [10] têm suscitado sério problema para os estudiosos do NT – dando margem para que os céticos questionem sua pureza textual: “Qual a forma correta do texto, ou que dizia exatamente o original?”. A essa pergunta é que tratam de responder os críticos textuais. Seu objetivo é examinar criticamente a tradição manuscrita, avaliar as variantes e reconstruir o texto que possua a maior soma de probabilidades de ser o original ou a forma primitiva do autógrafo.

Esse oobjetivo, por si só, já traduz tuda a importância da crítica textual, pois, se os mss. Apresentam divergências e nós não podemos recorrer aos originais para verificar a forma correta, então a credibilidade do texto sagrado que chegou até nós aparentemente estaria por demais ameaçada. Consequentemente, o próprio corpo doutrinário e ético do cristianismo estaria ameaçado, além da própria historicidade de seus documentos originais, o que seria ainda pior. Sir. Edwiyn Hoskyns e Noel Davey colocaram a questão da seguinte forma:

Se o exame do significado de importantes palavras gregas que aparecem muitas vezes nos documentos do NT suscita grave problema histórico, visto que apontam para um acontecimento histórico particular na Palestina; se não pode haver uma compreensão do NT à parte da possibilidade de delinear o significado dessa história particular, pelo menos em seus traços mais gerais; e, além disso, se essa história deve ser reconstruiída a partir dos documentos do NT, uma vez que não dispomos de outras fontes de informação: torna-se evidente que nenhuma reconstrução da história é possível a menos que o historiador crítico possa ter razoavel confiança de que o texto do NT não sofreu alterações sérias durante os 14 séculos em que foi copiado por escribas. Não se pode empreender um sério trabalho de investigação histórica tendo por base textos suspeitos de extrema corrupção. [11]

A crítica textual, portanto, lida com um problema básico e de tremendas implicações. Dela dependem todas as demais ciências bíblicas que corporalizam a religião cristã, pois lana os fundamentos sobre os quais toda e qualquer investigação deva ser construída. Sem um texto grego fidedigno, não mais próximo do original quanto possível, não há como se fazer confiável crítica histórica ou literária, exegese, teologia, nem mesmo sermão, para não falar em tradução. Consiste num “pré-requisito para todos os outros trabalhos bíblicos e teológicos”. [12]

Dificuldades Técnicas

O problema do qual se ocupa a crítica textual do NT aumenta consideravelmente quando se verifica a dimensão dos três principais obstáculos que necessitam ser transpostos para a restauração do texto apostólico, o que, à primeira vista, afigura-se um esforço completamente inútil. Uma análise mais criteriosa, porém, revelará que, se por um lado tais obstáculos dificultam os trabalhos textuais, por outro, proporcionam maior solidez e confiabilidade às conclusões finais.

O primeiro deles consiste na distância entre as cópias mais completas e os autógrafos. O NT estava completo, ou essenciamente completo, por volta do ano 100, sendo que a maioria dos livros já existia cerca de 20 a 50 anos antes dessa data, e, de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes remontam aproximadamente aos meados do século IV. A distância em relação aos autógrafos, portanto, chega a perto de três séculos, o que, se por um lado pode consistir num problema, por outro faz com que o NT seja a obra mais bem documentada da antiguidade.

Os clássicos tanto gregos quanto latinos, cuja autenticidade quase ninguém põe em dúvida, levam grande desvantagem quanto ao tempo que separa os mais antigos mss. De seus originais em relação aos escritos neotestamentários. A cópia mais antiga que existe de Eurípedes foi escrita 1.600 anos depois da morte do poeta. No caso de Sófocles, o intervalo é de 1.400 anos, o mesmo acontecendo com Ésquilo e Tucídides. Quanto a Platão, o intervalo não é muito menor: encontra-se ao redor dos 1.300 anos. Entre os latinos, embora levem vantagem sobre os gregos, a situação não é muito diferente. Enquanto Catulo o intervalo é de 1.600 anos e em Lucrécio de mil anos, Terêncio e Lívio reduzem-se para 700 e 500 anos respectivamente. Só Virgílio aproxima-se do NT, pois há um ms. Completo de suas obras que pertence ao século IV, sendo que o autor faleceu no ano 8 a.C.

Quão diferente, porém, é a situação do NT nesse aspecto. Além dos famosos mss. Do século IV, escritos em pergaminho, existem ainda consideráveis fragmentos em papiros de praticamente todos os livros do NT, que nos fazem recuar até o século III, ou, como em alguns casos, até meados do século II. Enfim, embora dispondo apenas de cópias posteriores, podemos citar o veredicto pronunciado por Sir Frederic G. Kenyon, destacado estudioso da primeira parte deste século e grande autoridade em mss. Antigos:

O intervalo, então, entre as datas da composição original e a mais antiga evidência subsistente  torna-se tão reduzido de sorte que é praticamente desprezível, e o derradeiro fundamento para qualquer dúvida de que nos hajam as Escrituras chegado às mãos substancialmente como foram escritas já não mais persiste. Tanto a autenticidade quanto a integridade geral dos livros do NT podem considerar-se firmados de modo absoluto e final. [13]

O segundo obstáculo é o grande número de documentos disponíveis. Existem atualmente cerca de 5.500 mss. Gregos completos ou fragmentários do NT, sem falar nos quase 13.000 mss. Das versões e nos milhares de citações dos antigos Pais da Igreja. Os problemas e dificuldades da crítica textual, portanto, surgem mais por uma superabundância de evidências do que propriamente por uma insuficiência delas. Todavia, novamente a limitação se torna em vantagem, pois, apesar de a multiplicidade de mss. Oferecer ensejo para os mais variados erros de transcrição, oferece também muito mais elementos de comparação. Frederic F. Bruce declarou:

Felizmente, se o grande número de mss. Aumenta o índice de erros escribais, aumenta, em medida idêntica, os meios para a correção desses erros, de modo que a margem de dúvida deixada no processo de restauração dos termos exatos do original não é tão grande como se poderia temer; pelo contrário, é, na verdade, marcadamente reduzida. [14]

Há ainda outro fator a ser observado. O elevado número de documentos existentes faz com que o NT tenha muito mais apoio textual que qualquer outro livro dos tempos antigos, seja em se tratando das obras de Homero, dos autores trágicos áticos, de Platão, de Cícero ou de César. A situação normal no que diz respeito às grandes obras da literatura clássica é que nosso conhecimento do textodelas depende de poucos e recentes mss., de maneira que estamos muito mais bem equipados para observar as etapas primitivas da história textual do NT que de qualquer outra obra da literatura antiga.

O terceiro e maior obstáculo é a elevada cifra de variantes existentes. A consequência natural da multiplicação dos mss. Do NT pelo espaço de 1.400 anos foi o surgimento de incontáveis variações textuais. À primeira vista, os números são assutadores. Até o momento, já foram calculadas cerca de 250.000 variantes, [15] ou seja, mais variantes entre todos os mss. Que as palavras que o NT contém. Só um estudo de 150 mss. Gregos do evangelho de Lucas revelou mais de 30.000 textos divergentes. [16] É opinião unânime entre os críticos textuais que não possuímos nenhum ms. Que tenha preservado sem nenhuma variação o texto original dos 27 livros do NT, nem sequer de apenas um deles. [17] Merril M. Parvis, porém, vai mais longe, afirmando que “não há uma só frase no NT na qual a tradição manuscrita seja totalmente uniforme”. [18]

Apesar das enormes dificuldades advindas desse fato, devemos notar que quase a totalidade das variantes diz respeito a questões de pouca ou nenhuma importância. São variações na ordem relativa de palavras numa frase, no uso de diferentes preposições, conjunções e partículas, nas preposições que acompanham determinados verbos ou em simples modificações de natureza gramatical, muitas das quais até nem poderiam ser representadas numa tradução portuguesa. Em outras palavras, “o número de variantes que se revestem de importância, especialmente no que diz respeito à doutrina, é assaz reduzido”. [19]

Se os nímeros são assustadores, essa declaração é, no mínimo confortadora, e sua veracidade pode ser atestada mediante o exame de qualquer aparato crítico [20] de uma edição técnica do NT grego. Além disso, há mais de um século duas das maiores autoridades no assunto, B. F. Westcott e F. J. ª Hort, já afirmavam que apenas a milésima parte do texto do NT ainda não estava criticamente assegurada. [21] E, mais recentemente, Bruce destacou que as poquissimas variantes que subsistem passíveis de certa dúvida não afetam “nenhum ponto importante, seja em matéria de fato histórico, seja em questão de fé e prática” [22].

1. Autógrafo: termo técnico que designa o manuscrito original de uma obra.
2. O temro “ecdótica” foi introduzido na ciência literária por D. Henri Quentin, em sua obra Essais de Critique Textuelle: Ecdotique, publicada em Paris em 1926.
3. Veja Kurt & Barbara ALAND, The texto of the New Testament, p. 34.
4. A partir de agora serão usadas as abreviaturas ms. E mss. respectivamente para “manuscrito” e “manuscritos”.
5. Cânon crítico: certos critérios científicos estabelecidos pelos críticos textuais para propiciar uma escolha inteligente entre dois ou mais textos divergentes.
6. A expressão “alta crítica” foi pela primeira vez aplicada à literatura bíblica por J. G. Eichhorn, no prefácio da segunda edição de sua obra Einleitung in das Alte Testament (1787): “Tenho sido obrigado a dedicar a maior parte de meus labores num campo até o momento inteirament eesquecido: a investigação da constituição interior de cada livro do AT mediante a ajuda da crítica mais alta – nome novo para os não-humanistas”.
7. Veja George Eldon LADD, The New Testament and criticism, p. 55.
8. H. E. DANA, El Nuevo Testamento ante la crítica, p. 10.
9. Colação: confronto da cópia de um ms. Com o original ou outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para a escolha do texto exato.
10. Variantes: assim chamadas as diferentes formas conhecidas do mesmo texto, conforme encontradas nos diversos mss.
11. The riddle of the New Testament, p. 35.
12. J. Harold GREENLEE, Introduction to New Testament textual criticism, p. 17.
13. The Bible and archaeology, p. 288.
14. The New Testament documents, p. 19.
15. Heinrich ZIMMERMANN, Los métodos histórico-críticos em el Nuevo Testamento, p. 21.
16. M. M. PARVIS, The interpreter's dictionary of the Bible, p. 595.
17. Alfred WIKenhauser, Introdución al Nuevo Testamento, p, 73.
18. Op. Cit., p. 595.
19. B. P. BITTENCOURT, O Novo Testamento: Canôn, língua, texto, p. 74.
20. Aparato crítico: conjunto de sinais e termos técnicos destacando as variantes do texto bíblico e seus respectivos testemunhos.
21. The New Testament in the original Greek, p. 545.
22. Op. Cit., p. 20.

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